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Europa Cultura

Responsável pela Cultura nos mandatos de Fernando Gomes, conduziu a cidade durante a Capital Europeia da Cultura - Porto 2001
www.publico.pt | 11-12-2017
Vencedor da Palma de Ouro em Cannes cimenta favoritismo para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro.
www.publico.pt | 10-12-2017
O filme "O Quadrado", do sueco Ruben Östlund, venceu em seis categorias, incluindo Melhor Filme e Melhor Realizador, da 30.ª edição dos prémios da Academia Europeia de Cinema, cujos vencedores foram hoje anunciados numa cerimónia em Berlim.
feeds.jn.pt | 10-12-2017
Decisão anunciada pela Comissão Europeia é uma consequência do "Brexit". Mas os membros do painel de selecção das CEC defendem a continuação do "intercâmbio cultural".
www.publico.pt | 24-11-2017
Encomenda de Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura, com mote no emprego da tecnologia 3D e um desconcertante alinhamento de cineastas convidados — Greenaway, Edgar Pêra e Godard juntos no mesmo filme é coisa que pouca gente terá imaginado possível algum dia acontecer.
www.publico.pt | 23-11-2017
Os filmes On Body and Soul , de Ildikó Enyedi, e O Quadrado , de Ruben Östlund, reúnem quatro nomeações cada. Os prémios são atribuídos em Berlim, a 9 de Dezembro.
www.publico.pt | 05-11-2017
A decisão sobre a Capital Europeia da Cultura em 2027 será tomada cinco anos antes, em 2022
www.publico.pt | 31-10-2017
Fazer mel na Letónia, lutar contra a erosão na Alemanha ou apostar na cultura das romãs na Grécia pouco conta nas contas gigantes do Plano Juncker. Mas, nesses lugares remotos, esses apoios fazem a diferença. A agricultura ainda é a receita que mantém viva a Europa longínqua.
www.publico.pt | 30-10-2017
Na tomada de posse, autarca reafirmou promessa de campanha. Capital Europeia da Cultura em 2027 está no horizonte.
www.publico.pt | 26-10-2017
Além do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, o realizador alemão recebeu também a Ordem de Mérito na Gulbenkian, onde pedira que Espanha e Catalunha se entendam e que Bruxelas faça mais perante o “Brexit”. E que se preserve o cinema em versão digital.
www.publico.pt | 24-10-2017
Sem metro e pré-Capital Europeia da Cultura, o Porto era uma cidade bem diferente, em 1997, quando Fernando Gomes enfrentou e venceu o polémico Carlos Azeredo. Ilda Figueiredo, da CDU, é o denominador comum das duas eleições, repetindo a candidatura à presidência da Câmara do Porto, 20 anos depois.
www.publico.pt | 05-09-2017
Suecos do Ostersunds FK têm um programa cultural que desafia os jogadores a expressarem-se e com isso serem melhores futebolistas. Em cinco anos subiram do quarto escalão à Allsvenskan
www.maisfutebol.iol.pt | 25-08-2017
A intensa procura levou a Junta de Freguesia de Campo de Ourique a anunciar que irá aumentar os lugares
www.publico.pt | 25-07-2017
Presidente da câmara afirma que a candidatura da cidade, que pode abarcar instituições de Salamanca, vai ser mais sólida do que a das restantes concorrentes nacionais por estar "estrategicamente localizada".
www.publico.pt | 10-07-2017
Ministro da Cultura diz que esta candidatura "faz todo o sentido" mas lembrou a existência de outras candidaturas por parte de outras cidades portuguesas.
www.publico.pt | 02-07-2017
A atribuição do Prémio da União Europeia para a Literatura a David Machado, em 2015, pelo romance Índice Médio de Felicidade , projectou a sua obra internacionalmente.
www.publico.pt | 23-06-2017
Será a quarta vez que Portugal recebe o evento. Lisboa (1994), Porto (2001) e Guimarães (2012) foram as cidades escolhidas nas ocasiões precedentes.
www.publico.pt | 13-06-2017

RIO — O cantor e compositor Belchior morreu na noite deste sábado, em casa, em Santa Cruz (RS), aos 70 anos. A polícia acredita que a morte tenha sido natural. O governador do Ceará, Camilo Santana, decretou luto de três dias. O governo do Ceará vai providenciar o traslado do corpo para Sobral (sua cidade natal), onde será velado na manhã desta segunda-feira, no Teatro São João. Depois, o corpo será levado para Fortaleza para um velório no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. À noite, será enterrado na capital cearense.

NAS REDES: 'Não, o Belchior não': admiradores famosos e anônimos lamentam a morte do cantor

morre belchior

Links BelchiorUm canto torto que, feito faca, corte a carne do ouvinte — era isso que buscava o dono da voz de timbre agreste, compositor de um tipo de canção que não dava para cantar sem ferir ninguém. “É para desafinar mesmo! Desafinar sempre, que esse é o desafio. Hoje em dia, já não se pode mais criar sem correr riscos. E eu quero enfrentá-los”, bradava em 1977, à revista “Pop”, Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, o Belchior. Nascido na cidade cearense de Sobral, filho de um bodegueiro, 13° entre 23 irmãos, ele tinha acabado de se tornar — um tanto paradoxalmente, diriam alguns — um artista de grande sucesso da música popular brasileira com “Alucinação” (1976), LP que vendeu 30 mil cópias em menos de três semanas de lançado.

“Não me peça que eu me faça uma canção como se deve / correta, branca, suave, muita limpa, muito leve / sons, palavras são navalhas”, cantava Belchior na canção que abriu o disco, “Apenas um rapaz latino-americano”. Era a saga do garoto “sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior”, com audácia para virar, com ironia, a página do Tropicalismo de Caetano Veloso (citado na letra como “um velho compositor baiano”). Com duas canções popularizadas por Elis Regina (“Velha roupa colorida” e “Como nossos pais”) e outras igualmente fortes, como “Sujeito de sorte” e “Como o diabo gosta”), “Alucinação” foi a obra-prima do cantor, disco em que ele exprimiu a urgência do jovem brasileiro entre a violência do estado e o fim dos sonhos de liberdade representados pela revolução contracultural.

Belchior começou a carreira apresentando-se em festivais de música no Nordeste. Durante certo tempo, fez parte de uma cena de cantores e compositores, o Pessoal do Ceará, junto com nomes como Fagner e Ednardo. Em 1971, inscreveu-se no IV Festival Universitário da Canção, no Rio, e ganhou o primeiro lugar com “Hora do almoço”, interpretada por Jorge Melo e Jorge Teles. Na época, conheceu o cantor e compositor Sérgio Ricardo, que escolheu a música “Mucuripe”, feita em parceria com Fagner, para fazer parte do “Disco de bolso” do jornal “Pasquim”. Logo, Elis Regina e Roberto Carlos gravariam a canção da então desconhecida dupla.

— Estava ali naquela boemia quando Belchior me chamou num canto. Não éramos parceiros ainda. E ele me apresentou essa letra. No outro dia eu botei a música e, de noite, apresentei ali para um grupo de dez pessoas. Quando me toquei que as pessoas ficaram assustadas eu percebi que ela era especial — recorda-se Fagner. — Belchior foi um dos meus primeiros parceiros. Tivemos a oportunidade de fazer a música mais emblemática da minha carreira. Ele era enigmático. Quando saí do Ceará não demos continuidade às parcerias. Foi um amigo de geração. Belchior em 1 minuto

COMPARAÇÕES COM BOB DYLAN

Um compositor refinado, cujas referências poéticas passavam por Fernando Pessoa, Arthur Rimbaud, T.S. Elliott e João Cabral de Melo Neto, Belchior não escapava às comparações com o americano Bob Dylan, por causa do timbre anasalado e os longos versos espremidos nas canções, às vezes de forma falada. Mas ele dizia que o buraco era mais embaixo, e tinha a ver com a infância passada em colégio de padres. “Cantei muito gregoriano, que tem esse desequilíbrio, porque usa a música como apoio para dizer os versículos enormes da Bíblia como uma melodia pequena”, disse em 1976, ao “Jornal do Brasil”.

Depois de um LP lançado em 1974, sem repercussão, e do sucesso com “Paralelas” (gravada por Erasmo Carlos e Vanusa), Belchior foi para a gravadora Philips, pelas mãos de Marco Mazzola, que produziria “Alucinação”. Emocionado, Mazzola dirigiu-se ao próprio Belchior em seu luto:

— Quando conheci você tinha certeza que sua música iria ficar imortal. Quando levei suas canções para uma reunião de produção, todos na sala escutaram e disseram não, eu insisti — lembra. — “Alucinação” foi um marco na nossa música. O que você passou na sua vida ficou traduzido em “Apenas um rapaz latino americano”, que ainda é uma realidade hoje, 40 anos depois.

Ex-presidente da Philips, André Midani também lamentou a morte do artista:

— Belchior, homem misterioso e artista de grande talento, já nos tinha deixado há muitos anos... quase séculos! Qual dor terá ele carregado dentro da alma? Que durma em paz agora, só tenho boas recordações desse homem íntegro.

O compositor da inquietude da juventude aos poucos cederia ao romantismo e à sensualidade, no LP “Todos os sentidos” (1978) e, no ano seguinte, voltaria a fazer grande sucesso com a canção “Medo de avião”. Em 1982, Belchior lançou o LP “Paraíso”, no qual gravou canções de um Arnaldo Antunes pré-Titãs (“Ma” e “Estranheleza”) e de Guilherme Arantes (“A cor do cacau”). No Facebook, Guilherme escreveu: “Belchior, que eu não canso de homenagear de todas as maneiras, foi e sempre será o melhor letrista de canções transformadoras que já existiu. Uma mente privilegiada em cultura e de talento cortante e visceral.”

O último disco de canções inéditas de Belchior foi “Baihuno”, de 1993, no qual a pesquisadora da USP Josely Teixeira Carlos (autora de teses sobre o artista) afirma que ele fez “um sumário das ideias que apresentou ao longo da carreira, de rapaz latino-americano, ‘baiano’ (uma referência a como os nordestinos são chamados em São Paulo) e ‘huno’ (o povo bárbaro da Ásia Central que migrou para a Europa nos séculos IV e V em busca de novos pastos)”.

Depois de um último disco, independente e de regravações, em 2003, Belchior foi se retirando de cena. Em 2006, dividiu o palco com o grupo Los Hermanos (que regravara a sua “A palo seco”) e, três anos depois, fez sua última aparição pública em um show de Tom Zé, em Brasília. Desde então, envolvido com dívidas, ele desapareceu, evitando contato com a imprensa ou com seus fãs.

Belchior morreu ontem, de causa desconhecida, em Santa Cruz, no Rio Grande do Sul, onde vivia desde 2000. O governo do Ceará prometeu providenciou o traslado do corpo para Sobral, onde será velado na manhã de hoje, no Teatro São João. Depois, o corpo será levado para Fortaleza para um velório no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. À noite, ele será enterrado na capital.

Ouça os principais sucessos de Belchior.

Spotify - Belchior

oglobo.globo.com | 30-04-2017

ANCARA — O governo turco anunciou, neste sábado, a expulsão de quase 4 mil pessoas de cargos públicos e das Forças Armadas, na segunda leva de expurgos desde a vitória do presidente Recep Tayyip Erdogan no referendo constitucional. De acordo com um decreto publicado pelo governo, os afetados pela medida foram retirados de seus empregos por “ligações com organizações terroristas e estruturas que representam uma ameaça à segurança nacional”.

Na última quarta-feira, mais de 9 mil membros das forças policiais foram suspensos e outros mil detidos por supostas conexões com uma rede comandada pelo clérigo Fethullah Gülen, radicado nos Estados Unidos, a quem o governo turco atribui a responsabilidade pela tentativa de golpe de Estado em julho do ano passado.

Ao todo, cerca de 120 mil pessoas foram suspensas ou despedidas e mais de 40 mil foram detidas desde a quartelada, que deixou 240 mortos, a maioria deles, civis. Inicialmente, as detenções receberam a aprovação da maioria da população turca, mas desde então as críticas ao governo têm aumentado.

Em meio ao aumento das críticas em relação à postura do governo quanto à liberdade de expressão, o governo anunciou que reality shows amorosos estão banidos da programação local por — nas palavras do vice-primeiro-ministro Numan Kurtulmus — não se adequarem à cultura e à fé da Turquia.

“No rádio e na televisão, programas nos quais pessoas são levadas para encontrar amigos não podem ser produzidos”, afirma o comunicado do governo, que também proibiu propagandas de sites de relacionamentos. Horas antes, a enciclopédia virtual Wikipedia já havia sido suspensa com base numa lei que permite que sites considerados obscenos ou perigosos sejam banidos.

Erdogan é alvo de críticas da Europa há muito tempo, mas mantém uma postura desafiante.

— Nossa preocupação não é com o que George, Hans ou Helga possam dizer, mas com o que Hatice, Ayse, Fatma, Ahmet, Mehmet, Huseyin, Hasan dizem — afirmou, citando nomes próprios comuns na Turquia. — E como o que Deus diz.

oglobo.globo.com | 30-04-2017

RIO - Rebecca Zlotowski é conhecida dos cinéfilos brasileiros pelo drama “Grand central” (2014). Sua câmera cuidadosa, a narrativa poética em torno de um triângulo amoroso proibido, o sub-enredo relacionado às parcas oportunidades de trabalho para os descendentes de imigrantes na França e o magnetismo do protagonista Tahar Rahim, galã de ascendência argelina, arrebataram fãs dos dois lados do Atlântico. Parte da crítica, no entanto, torceu o nariz para o que identificou como um tique misógino da diretora, especialmente na maneira como a francesa apresentou sua principal personagem feminina, vivida pela bondgirl Léa Seydoux, vencedora do Lumière de melhor atriz pelo papel. Pois o mais recente filme de Rebecca, “Além da ilusão”, desde quinta-feira (27) nos cinemas brasileiros, estrelado por Natalie Portman e Lily-Rose Depp, filha de um certo Johnny, apresentado nos festivais de Veneza e Toronto, é a mais feminina de suas produções.

— Meu interesse acaba sendo maior em filmar mulheres, muito por conta de uma identificação maior que tenho com as personagens. E quer ia fazer um filme de época, em estilo abertamente romântico, mas a partir do olhar feminino — diz Rebecca. O Bonequinho viu: críticas dos filmes em cartaz

A inspiração foi a história real das americanas Lia (1831-1890), Maggie (1833-893) e Kate (1837-1892) Fox, que viajaram para a Europa no século XIX, no auge da chamada era do Espiritualismo, e chegaram a se tornar algo como celebridades, antes de ser acusadas de charlatanismo. Curiosamente, no filme de Rebecca, Laura e Kate Borlow parecem ter o poder de ver o mundo dos mortos, mas não percebem o que está à sua volta, às vésperas de uma guerra mundial. A ação foi transportada para os anos 1930, quando as irmãs são cooptadas por um produtor de cinema. Ele está interessado em registrar a voz dos mortos em película e, se possível, também em salvar sua empresa da falência, com a exploração do dom que as irmãs garantem ter.

— Há um paralelo entre a magia do começo do cinema e a capacidade de se comunicar com um outro mundo. O nome original do filme, “Planetarium”, vem da ideia de que estou filmando estrelas e vendo a luz delas, no plano real, no do cinema e no espiritualizado também — diz a diretora.

CÂMERA PARA ACENTUAR BELEZA

“Alem da ilusão” é o primeiro filme a usar exclusivamente a câmera Alexa 65, uma das queridinhas de Hollywood no momento por conta da capacidade de mostrar detalhes sem distorção, segredo da beleza de muitas das cenas do premiado “O regresso” (2015), de Alejandro Iñárritu.

O diretor de fotografia George Lechaptois, que operou a câmera no filme de Rebecca, usou as lentes para acentuar a vocação para a beleza já marcante na obra da diretora francesa.

— A câmera dele ficava bem perto da gente. Mas, durante as filmagens, eu tentava me esquecer disso e das pessoas da equipe técnica que também estavam ao lado, a fim de enfatizar o intimismo proposto pela Rebecca. Você vê, de perto, a mudança de emoções no rosto das duas personagens, e isso torna o filme, creio, uma experiência bem mais pessoal — diz Lily-Rose.

Natalie, que também é diretora, e pela primeira vez faz um longa sob o comando de uma mulher, confessa ter prestado “mais atenção do que a regra” no trabalho de Rebecca e de George:

— Eles têm um poder enorme, de modificar a experiência que o público vai ter no cinema. É como se, de certa forma, eles estivessem atuando conosco. Tive de fazer um esforço para ignorá-los e me concentrar nas nossas cenas e na troca de emoções com Lily-Rose, crucial para o filme.

O atrativo mais óbvio de “Além da ilusão” é justamente o elenco afiado, que também conta com o ás francês Emmanuel Salinger, na pele do produtor André Korben, um judeu em meio à explosão do antissemitismo. Natalie, 35 anos, indicada ao Oscar este ano ao encarnar a ex-primeira-dama americana Jacqueline Kennedy em “Jackie”, vive a irmã mais velha, Laura, expansiva e fotogênica. Lily-Rose, 17, criada na França, país-natal de sua mãe, a cantora e atriz Vanessa Paradis, surpreende como a mais infantil Kate, que parece, de fato, conseguir se conectar com espíritos em um cenário já repleto de assombrações reais, o entre-guerras europeu.

— Dirigi Natalie em inglês e Rose em francês, uma experiência única para mim — conta a diretora.

Embora este seja o terceiro longa de Rose, é o primeiro em que ela é protagonista de fato, como explica Rebecca.

— Rose ao mesmo tempo entra no papel com uma naturalidade de atriz americana e consegue ser aérea, ou, em bom francês, coquette, de um jeito natural. Ela tem tudo para se tornar uma das maiores atrizes do cinema, com seu corpo leve e sua mente complexa.

*Eduardo Graça se hospedou a convite do Festival Internacional de Toronto

oglobo.globo.com | 28-04-2017

Kaiser é um apelido que, para alguns — incluindo Carlos Henrique Raposo, o dono da honraria —, traça paralelo com o porte do alemão Franz Beckenbauer, campeão mundial pela Alemanha. Há quem aponte uma comparação menos pomposa, aproximando a forma física do apelidado com uma garrafa de cerveja.

Fato é que a trajetória do Kaiser brasileiro, que jogou pelos quatro clubes grandes do Rio e também rodou pela Europa sem nunca ser de fato jogador de futebol, sublima a ambiguidade do malandro. E se os brasileiros até hoje tentam decidir entre fascínio e constrangimento, uma ajuda externa chegará em breve, através das telas de cinema: o documentário "The Kaiser", do diretor britânico Louis Myles.

O documentário mergulha na história de Carlos "Kaiser", personagem que fez carreira no futebol forjando uma imagem de jogador que tinha pouca (ou nenhuma) base em qualidade técnica. Kaiser, que começou no Botafogo, conseguia contratos a partir da amizade com outros jogadores, ou simplesmente vendendo gato por lebre a dirigentes de clubes — e depois usando artimanhas para evitar ser descoberto.

Quando assinou com o Bangu na década de 80, arrumou briga com torcedores e foi expulso quando aquecia para entrar em campo. Alegou que tinha ouvido xingamentos ao bicheiro Castor de Andrade, então presidente do clube. Em vez de punido, acabou ganhando extensão do contrato pela aparente prova de fidelidade.

O interesse pela trajetória insólita uniu Myles e um grupo de produtores do Reino Unido. Nenhum deles tinha vindo ao Brasil antes dos preparativos para a Copa do Mundo de 2014. Eram tempos em que o boom econômico e a atenção internacional pareciam conduzir a uma renovação dos costumes que, especialmente nos anos 80 e 90, haviam criado uma imagem romântica do país, embora nem sempre positiva.

— Quando conversei com Tim Vickery (correspondente da BBC no Brasil), ele me disse que estaera a melhor história que já tinha ouvido do Brasil, não só no esporte. Há outros casos de jogadores que enganaram clubes por algum tempo, mas com o Kaiser foram 26 anos — observa Myles. — Para um gringo, é mais difícil entender esse tipo de coisa. As pessoas no Brasil são muito receptivas e amigáveis, exceto quando alguém de fora começa a fazer muitas perguntas sobre a malandragem. O próprio Kaiser pediu que não fosse chamado de '171'.

JEITINHO CARIOCA

Hoje com 54 anos e longe do futebol, Kaiser deu entrevista para o documentário, cujas filmagens tiveram início em 2015. O próprio diretor admite que não pôde confiar em tudo que ouviu. O ex-jogador, no entanto, virou mais do que mero personagem para Myles e sua equipe, com quem desenvolveu uma relação de cumplicidade. Nada surpreendente: foi o bom relacionamento de Kaiser com então craques do futebol carioca, como Bebeto e Renato Gaúcho, o que lhe abriu algumas portas.

— Quase todos com quem falamos mostraram muito afeto pelo Kaiser. Todas as pessoas gostam desses personagens românticos, cheios de personalidade. São histórias que poderiam acontecer em qualquer lugar, desde que exista certo contexto. Kaiser é de uma época em que os grandes jogadores brasileiros não iam para a Europa, mas jogavam no Rio. Os estádios enchiam mais, havia uma atmosfera apaixonante em torno do futebol — avalia Tom Markham, especialista em finanças do futebol que, atraído pela história de Kaiser, virou produtor do documentário.

Para se aproximar de Kaiser, Myles aprendeu a falar português e também se adaptou ao jeitinho carioca. O diretor frisa que o foco de seu filme é a história do jogador — inclusive, ele garante, com detalhes inéditos —, mas avalia que seria impossível apresentá-la sem entender o contexto brasileiro.

Até começar a filmar, eu não fazia ideia que a malandragem era algo tipicamente carioca. Pessoalmente, gosto da celebração do malandro. É como se as pessoas tivessem que ter algo assim para lidar com o dia a dia difícil

Myles lembra que nos tempos de futebol de Kaiser, com moeda instável e turbulência política, o abismo entre pobres e ricos era visto como mais intransponível do que parecia no início da década atual. Depois de viajar sucessivas vezes ao Brasil desde a Copa de 2014, ele diz ser visível uma regressão de expectativas e "erosão da confiança".

— Não vejo como um problema unicamente do Brasil, mas aqui é sentido de forma diferente pela expectativa que havia surgido — pondera Myles. — Até começarem as filmagens, eu não fazia ideia que a malandragem era algo tipicamente carioca. Pessoalmente, gosto da celebração do malandro. No Reino Unido, por exemplo, há um encanto pela anarquia do movimento punk. É como se as pessoas tivessem que ter algo assim para lidar com o dia a dia difícil. Mas há consequências em agir dessa forma.

Além de entrevistas, "The Kaiser" contará com algumas partes encenadas. Kaiser, por exemplo, será interpretado pelo ator gaúcho Eduardo Lara. O filme está em fase final de gravações, que devem ser concluídas no início de maio. A previsão é de lançamento em setembro, com versões narradas em inglês e português.

— Eu tive que dramatizar algumas coisas porque basicamente não existem filmagens do Kaiser — conta o diretor. — Por outro lado, acho que se eu entregasse um filme todo atuado, ninguém acreditaria na história.

oglobo.globo.com | 26-04-2017

Kaiser é um apelido que, para alguns — incluindo Carlos Henrique Raposo, o dono da honraria —, traça paralelo com o porte do alemão Franz Beckenbauer, campeão mundial pela Alemanha. Há quem aponte uma comparação menos pomposa, aproximando a forma física do apelidado com uma garrafa de cerveja.

Fato é que a trajetória do Kaiser brasileiro, que jogou pelos quatro clubes grandes do Rio e também rodou pela Europa sem nunca ser de fato jogador de futebol, sublima a ambiguidade do malandro. E se os brasileiros até hoje tentam decidir entre fascínio e constrangimento, uma ajuda externa chegará em breve, através das telas de cinema: o documentário "Kaiser: The greatest footballer never to have played football" ("Kaiser: o melhor jogador que nunca jogou futebol", em tradução livre).

O filme é dirigido pelo britânico Louis Myles, que trabalhou como produtor para os canais BBC em eventos como os Jogos Olímpicos de Londres-2012 e a Copa do Mundo de 2014. É o segundo longa-metragem de Myles, que lançou em 2014 o documentário "An Alternative Reality: The Football Manager Documentary", sobre o apelo exercido pelo game "Football Manager" ao redor do mundo.

"Kaiser: The greatest footballer never to have played football" mergulha na história de Carlos "Kaiser", personagem que fez carreira no futebol forjando uma imagem de jogador que tinha pouca (ou nenhuma) base em qualidade técnica. Kaiser, que começou no Botafogo, conseguia contratos a partir da amizade com outros jogadores, ou simplesmente vendendo gato por lebre a dirigentes de clubes — e depois usando artimanhas para evitar ser descoberto.

Quando assinou com o Bangu na década de 80, arrumou briga com torcedores e foi expulso quando aquecia para entrar em campo. Alegou que tinha ouvido xingamentos ao bicheiro Castor de Andrade, presidente de honra do clube. Em vez de punido, acabou ganhando extensão do contrato pela aparente prova de fidelidade.

O interesse pela trajetória insólita uniu Myles e um grupo de produtores do Reino Unido. Nenhum deles tinha vindo ao Brasil antes dos preparativos para a Copa do Mundo de 2014. Eram tempos em que o boom econômico e a atenção internacional pareciam conduzir a uma renovação dos costumes que, especialmente nos anos 80 e 90, haviam criado uma imagem romântica do país, embora nem sempre positiva.

— Quando conversei com Tim Vickery (correspondente da BBC no Brasil), ele me disse que esta era a melhor história que já tinha ouvido do Brasil, não só no esporte. Há outros casos de jogadores que enganaram clubes por algum tempo, mas com o Kaiser foram 26 anos — observa Myles. — Para um gringo, é mais difícil entender esse tipo de coisa. As pessoas no Brasil são muito receptivas e amigáveis, exceto quando alguém de fora começa a fazer muitas perguntas sobre a malandragem. O próprio Kaiser pediu que não fosse chamado de '171'.

JEITINHO CARIOCA

Hoje com 54 anos e longe do futebol, Kaiser deu entrevista para o documentário, cujas filmagens tiveram início em 2015. O próprio diretor admite que não pôde confiar em tudo que ouviu. O ex-jogador, no entanto, virou mais do que mero personagem para Myles e sua equipe, com quem desenvolveu uma relação de cumplicidade. Nada surpreendente: foi o bom relacionamento de Kaiser com então craques do futebol carioca, como Bebeto e Renato Gaúcho, o que lhe abriu algumas portas.

— Quase todos com quem falamos mostraram muito afeto pelo Kaiser. Todas as pessoas gostam desses personagens românticos, cheios de personalidade. São histórias que poderiam acontecer em qualquer lugar, desde que exista certo contexto. Kaiser é de uma época em que os grandes jogadores brasileiros não iam para a Europa, mas jogavam no Rio. Os estádios enchiam mais, havia uma atmosfera apaixonante em torno do futebol — avalia Tom Markham, especialista em finanças do futebol que, atraído pela história de Kaiser, virou produtor do documentário.

Para se aproximar de Kaiser, Myles aprendeu a falar português e também se adaptou ao jeitinho carioca. O diretor frisa que o foco de seu filme é a história do jogador — inclusive, ele garante, com detalhes inéditos —, mas avalia que seria impossível apresentá-la sem entender o contexto brasileiro.

Até começar a filmar, eu não fazia ideia que a malandragem era algo tipicamente carioca. Pessoalmente, gosto da celebração do malandro. É como se as pessoas tivessem que ter algo assim para lidar com o dia a dia difícil

Myles lembra que nos tempos de futebol de Kaiser, com moeda instável e turbulência política, o abismo entre pobres e ricos era visto como mais intransponível do que parecia no início da década atual. Depois de viajar sucessivas vezes ao Brasil desde a Copa de 2014, ele diz ser visível uma regressão de expectativas e "erosão da confiança".

— Não vejo como um problema unicamente do Brasil, mas aqui é sentido de forma diferente pela expectativa que havia surgido — pondera Myles. — Até começarem as filmagens, eu não fazia ideia que a malandragem era algo tipicamente carioca. Pessoalmente, gosto da celebração do malandro. No Reino Unido, por exemplo, há um encanto pela anarquia do movimento punk. É como se as pessoas tivessem que ter algo assim para lidar com o dia a dia difícil. Mas há consequências em agir dessa forma.

Além de entrevistas, "The Kaiser" contará com algumas partes encenadas. Kaiser, por exemplo, será interpretado pelo ator gaúcho Eduardo Lara. O filme está em fase final de gravações, que devem ser concluídas no início de maio. A previsão é de lançamento em setembro, com versões narradas em inglês e português.

— Eu tive que dramatizar algumas coisas porque basicamente não existem filmagens do Kaiser — conta o diretor. — Por outro lado, acho que se eu entregasse um filme todo atuado, ninguém acreditaria na história.

oglobo.globo.com | 26-04-2017

PARIS — O candidato centrista Emmanuel Macron pode ser eleito presidente com dois terços dos votos no segundo turno das eleições francesas, segundo duas pesquisas feitas neste domingo. Macron já recebeu o apoio do socialista Benoît Hamon e do conservador François Fillon, membros dos dois partidos que eram as grandes forças opostas na política francesa. O atual presidente do país, François Hollande, pretende fazer um discurso contra a extrema-direita, de acordo com fontes próximas a ele. FRANÇA seg turno

As pesquisas foram feitas depois dos resultados de boca de urna que indicaram que Macron e a candidata da extrema-direita, Marine Le Pen, irão ao segundo turno, no dia 7 de maio. Uma sondagem da Harris Interactive para a emissora "M6" constatou que 64% dos entrevistados votariam no ex-ministro de Economia, enquanto 36% votariam em Le Pen. Enquanto isso, uma sondagem da Ipsos Sopra Steria para a France Televisions disse que Macron foi visto ganhando 62% dos votos contra 38% de Le Pen.

A contagem oficial dos votos confirma Macron e Le Pen no segundo turno. Com 33,2 dos 47 milhões dos votos apurados, os resultados das maiores cidades francesas ainda não foram computados, onde a aprovação de Le Pen tende a ser menor em comparação com as cidades pequenas.

Segundo a apuração oficial de 77% das urnas, Macron tem 23,17%, seguido de Le Pen, com 22,94%. O conservador François Fillon vem atrás com 19,74% e o candidato da esquerda radical, Jean-Luc Mélenchon, tem 18,88%.

Já as pesquisas de boca de urna previram que Macron alcançaria 23,7% dos votos, contra 21,7% de Marine Le Pen. François Fillon ficaria em terceiro lugar, com 19,5% dos votos, e o esquerdista Jean-Luc Mélenchon, em quarto, com 19,5%.

O primeiro turno desta eleição presidencial foi o mais acirrado da história recente da França. Quatro candidatos chegaram neste domingo com chances reais de irem para o segundo turno, mas o resultado confirmou as últimas pesquisas de intenção de voto.

— Eu quero ser o presidente dos patriotas contra a ameaça dos nacionalistas — disse o ex-banqueiro de 39 anos a uma multidão de simpatizantes. — Encarnarei a voz da esperança para nosso pais e para a Europa.

EX-BANQUEIRO E EX-SOCIALISTA

Há três anos, Emmanuel Macron era praticamente desconhecido. Agora, esse ex-banqueiro pode ser o presidente mais jovem da história da França, aos 39 anos.

Esse homem de grandes ambições se distanciou do socialista e atual presidente, François Hollande, em agosto de 2016, após dois anos como seu ministro da Economia, para se concentrar na construção de seu próprio movimento "Em Marcha!".

Em discursos, Macron diz não ser de direita nem de esquerda, ao defender ideias liberais que irritam seus pares socialistas e ao questionar os fundamentos de uma esquerda francesa ainda influenciada por uma visão marxista da economia, que vê com receio o mundo empresarial.

Inspirado no modelo escandinavo, seu discurso seduz, sobretudo, os jovens dos centros urbanos e do mundo dos negócios em um país no qual a maioria da população já não confia nos partidos tradicionais. Entenda a eleição na França em 1 minuto

HERDEIRA DA EXTREMA-DIREITA

Marine Le Pen, filha do líder histórico da extrema-direita francesa, chorou de alegria quando em 2002 seu pai provocou um terremoto político passando para o segundo turno presidencial. Agora ela repetiu a façanha.

No entanto, se Jean-Marie Le Pen pensava que nunca se tornaria um chefe de Estado, sua carismática filha e herdeira política está convencida de que no próximo 7 de maio a França terá sua primeira presidente mulher.

— A sobrevivência francesa está em jogo. Convido todos os patriotas a se juntarem — disse Le Pen em um comício, comemorando o "resultado histórico". — O resultado me põe em uma grande responsabilidade de defender a nação francesa, sua unidade, sua segurança, sua cultura, prosperidade e independência.

A candidata da Frente Nacional (FN), de 48 anos, soube capitalizar a insatisfação dos franceses com o desemprego e a imigração, e aproveitar a onda nacionalista na Europa para se transformar em uma das favoritas ao segundo turno das eleições presidenciais, no próximo 7 de maio.

Com um programa centrado no "patriotismo" e na "preferência nacional", Le Pen espera agora desmentir as pesquisas que preveem sua derrota no segundo turno. Promete, entre outras coisas, a suspensão dos acordos de livre circulação no interior da UE, a expulsão dos estrangeiros vigiados por radicalização e a supressão do "ius soli", a nacionalidade por direito de solo de nascimento. Conheça os candidatos à Presidência da França

oglobo.globo.com | 23-04-2017

PARIS — O ex-ministro Emmanuel Macron e a eurodeputada Marine Le Pen comemoraram o que consideraram um momento histórico na vida política francesa ao serem apontados vitoriosos no primeiro turno da eleição presidencial. O centrista recebeu um inédito apoio dos candidatos socialistas e conservadores, que costumavam ser as duas grandes forças opostas na vida política da França, além do presidente François Hollande. Os dois se enfrentarão num segundo turno no próximo dia 7. FRANÇA seg turno

Pesquisas de boca de urna do instituto Ipsos-Sopra Steria, encomendada pela France Télévisions, Radio France e “Le Monde”, indica que Emmanuel Macron e Marine Le Pen irão disputar o segundo turno da eleição presidencial, marcada para o dia 7 de maio.

— Hoje claramente estamos virando uma página da vida política francesa. Os franceses expressaram seu desejo de renovação — disse Macron à agência AFP, antes de fazer um comício de vitória. — Em vosso nome, encarnarei a voz da esperança para nosso país e para a Europa — declarou Macron, que disse querer ser "o presidente dos patriotas frente à ameaça dos nacionalistas".

De acordo com a pesquisa, Macron alcançou 23,7% dos votos, contra 21,7% da segunda colocada, a candidata da extrema-direita, Marine Le Pen. François Fillon ficou em terceiro lugar, com 19,5% dos votos, e o esquerdista Jean-Luc Mélenchon, em quarto, com 19,5%. Benoît Hamon, do partido do atual presidente, ficou apenas na quinta colocação, com 6,2% do votos, segundo a pesquisa de boca de urna. Já segundo uma pesquisa da Kantar Sofres-Onepoint para o diário "Le Figaro" coloca Macron e Le Pen empatados em 23%, enquanto Mélenchon e Fillon teriam 19% cada. Hamon alcançaria 5,8%.

— A sobrevivência francesa está em jogo. Convido todos os patriotas a se juntarem — disse Le Pen em um comício, comemorando o "resultado histórico". — O resultado me põe em uma grande responsabilidade de defender a nação francesa, sua unidade, sua segurança, sua cultura, prosperidade e independência.

O primeiro turno desta eleição presidencial foi o mais acirrado da história recente da França. Quatro candidatos chegaram neste domingo com chances reais de irem para o segundo turno, mas o resultado confirmou as últimas pesquisas de intenção de voto.

Derrotados, Fillon e Hamon pediram votos para o centrista.

— A luta continua — declarou Hamon, após a publicação dos primeiros resultados, que lhe atribuíram entre 6% e 7% dos votos, configurando, portanto, sua eliminação .— Esta derrota é um golpe profundo — admitiu Hamon, acrescentando que apesar dos resultados, "a esquerda não está morta".

Admitindo o que chamou de um "desastre", o vencedor das primárias organizadas pelos socialistas e seus aliados assumiu "a plena responsabilidade" pelos resultados, mas foi claro sobre quem escolheria, indicando Macron.

— Faço uma clara distinção entre um adversário político e uma inimiga da República — disparou Hamon, num ataque a Le Pen.

Ao admitir derrota, Fillon também pediu apoio a Macron, assim como fez o também ex-premier Alain Juppé, seu correligionário e derrotado por ele nas primárias de seu partido.

— Não há outra opção a não ser votar contra a extrema direita, vou votar em Emmanuel Macron — disse Fillon a seus apoiadores.

Segundo fontes próximas a Hollande, o presidente parabenizou Macron — seu ex-ministro da Economia — e pedirá aos conterrâneos "um voto contra a extrema-direita".

Já Mélenchon, por sua, vez preferiu "não validar o resultado baseado em pesquisas" e disse que não terá um candidato no segundo turno:

— Faço um apelo à contenção — citando uma espera pelo resultado nas grandes cidades.

EX-BANQUEIRO E EX-SOCIALISTA

Há três anos, Emmanuel Macron era praticamente desconhecido. Agora, esse ex-banqueiro pode ser o presidente mais jovem da história da França, aos 39 anos.

Esse homem de grandes ambições se distanciou do socialista e atual presidente, François Hollande, em agosto de 2016, após dois anos como seu ministro da Economia, para se concentrar na construção de seu próprio movimento "Em Marcha!".

Em discursos, Macron diz não ser de direita nem de esquerda, ao defender ideias liberais que irritam seus pares socialistas e ao questionar os fundamentos de uma esquerda francesa ainda influenciada por uma visão marxista da economia, que vê com receio o mundo empresarial.

Inspirado no modelo escandinavo, seu discurso seduz, sobretudo, os jovens dos centros urbanos e do mundo dos negócios em um país no qual a maioria da população já não confia nos partidos tradicionais. Entenda a eleição na França em 1 minuto

HERDEIRA DA EXTREMA-DIREITA

Marine Le Pen, filha do líder histórico da extrema-direita francesa, chorou de alegria quando em 2002 seu pai provocou um terremoto político passando para o segundo turno presidencial. Agora ela repetiu a façanha.

No entanto, se Jean-Marie Le Pen pensava que nunca se tornaria um chefe de Estado, sua carismática filha e herdeira política está convencida de que no próximo 7 de maio a França terá sua primeira presidente mulher.

A candidata da Frente Nacional (FN), de 48 anos, soube capitalizar a insatisfação dos franceses com o desemprego e a imigração, e aproveitar a onda nacionalista na Europa para se transformar em uma das favoritas ao segundo turno das eleições presidenciais, no próximo 7 de maio.

Com um programa centrado no "patriotismo" e na "preferência nacional", Le Pen espera agora desmentir as pesquisas que preveem sua derrota no segundo turno. Promete, entre outras coisas, a suspensão dos acordos de livre circulação no interior da UE, a expulsão dos estrangeiros vigiados por radicalização e a supressão do "ius soli", a nacionalidade por direito de solo de nascimento. Conheça os candidatos à Presidência da França

oglobo.globo.com | 23-04-2017

PARIS - Dentre os 11 candidatos à Presidência da França, os agora postulantes ao segundo turno demonstram posições radicalmente opostas em temas que vão de imigração a economia. O centrista ex-ministro da Economia Emmanuel Macron e a líder da extrema-direita nacionalista, a eurodeputada Marine Le Pen, divergem principalmente sobre o papel da colaboração econômica com a União Europeia e a recepção a refugiados e imigrantes. Entenda melhor algumas destas diferenças. LINKS BOCA DE URNA

Aos 39 anos, Macron concorre pelo partido que fundou em 2016, o Em Marcha!. Ele se posiciona como um liberal social e defende uma terceira via política diante da tradicional disputa entre o Partido Socialista (de cujo governo fez parte) e Os Republicanos (antigo União por um Movimento Popular, de centro-direita). Na sua campanha, usou muito as redes sociais para se mostrar como figura de forte contraponto aos demais candidatos num cenário dividido. Começou com poucas chances, mas rapidamente ganhou espaço e passou a liderar as intenções de voto até o fim, com pequena vantagem sobre os principais rivais.

Entre suas principais propostas, Macron defende uma redução no quadro de funcionários do Estado e redução do gasto público; maior acesso ao mercado comum da União Europeia e maior união econômica dentro do bloco; um sistema universal de seguro desemprego a partir de impostos; subsídios à energia limpa e aos alimentos orgânicos; proibição da contratação de parentes no setor público; limitação do número de mandatos de parlamentares; vale-cultura para jovens; novos postos de contratação de agentes de polícia e segurança; serviço militar temporário obrigatório; maior avaliação de antecedentes e solicitações de asilo.

Já Le Pen tem uma candidatura altamente polêmica, que preocupa os vizinhos europeus. Com forte discurso ultranacionalista, a líder do partido Frente Nacional (FN) não economiza em promessas agressivas contra imigrantes — num estilo semelhante ao do presidente dos EUA, Donald Trump, de quem é confessa admiradora. Seu programa defende ainda maior soberania da economia francesa, aplicando medidas protecionistas para fortalecer a indústria nacional.

Entre suas principais propostas, Le Pen quer negociar a saída da zona do euro e o afastamento das regras de fronteiras da UE; diminuir tratados de livre comércio; reduzir a imigração anual para até 10 mil pessoas; restringir condições de asilo e união familiar de migrantes; melhorar condições de aposentadoria e apoio financeiro para franceses; impostos para produtos que venham de empresas que saíram da França; restringir a saída de empresas; desfiscalizar horas extras no trabalho; proibir o cultivo de transgênicos; reforçar a polícia e agentes fronteiriços; abandonar a direção da Otan; investir mais em Defesa; estender o laicismo do Estado.

Entenda a eleição na França em 1 minuto

DIVERGÊNCIAS FEROZES

Macron e Le Pen têm se acusado na campanha por divergências que envolvem a relação econômica da França com a UE. Ela quer taxar as importações de dentro do bloco, enquanto Macron alega que o efeito do protecionismo seria negativo para as exportações francesas.

O movimento político liderado por Macron não se identifica nem de direita nem de esquerda. Ele diz que sua intenção é renovar a elite política francesa. Seu princípio geral de campanha busca unir estímulos ao livre mercado com medidas de amparo social, com moldes semelhantes aos do "New deal" americano de Franklin D. Roosevelt.

A seis dias da votação, Le Pen prometeu suspender toda a imigração legal para o país, a fim de conter “uma situação louca e descontrolada”, e bloquear a liberação de vistos de longo prazo — para que o governo possa verificar se migrantes estão tirando empregos dos cidadãos franceses. Ela também quer fechar as fronteiras e cobrar impostos de qualquer empresa que contrate trabalhadores estrangeiros.

Filha de Jean-Marie Le Pen — um dos históricos defensores da extrema-direita francesa, que foi expulso da FN em 2015 —, a candidata também fala em deixar a zona do euro. Ela diz que a França se prejudicou com a criação da moeda única, reduzindo a produção industrial do país, enquanto a Alemanha saiu em vantagem. Numa proposta ainda mais radical, defende a realização de um referendo sobre a permanência francesa na União Europeia (UE), seguindo o caminho aberto pelo Brexit no Reino Unido.

Quem é Marine Le Pen, a candidata que lidera a corrida presidencial na França?

oglobo.globo.com | 23-04-2017

BERLIM e WASHINGTON DC - Milhares de pessoas participaram da primeira "Marcha pela Ciência", que se espalhou por mais de 600 cidades pelo mundo neste sábado, Dia Internacional da Terra, pela valorização da produção de conhecimento científico, devido a preocupações crescentes em relação às posturas adotadas pelo presidente Donald Trump, como o descrédito em relação às mudanças climáticas e cortes a fundos de pesquisas.

Nos Estados Unidos, a "Marcha pela Ciência", que incluiu manifestações no National Mall, em Washington DC, e desfiles em Midtown Manhattan, em Nova York, além de centensa de outras cidades pelo país, é rotulada como um movimento não partidário, com o objetivo de reafirmar o "papel vital da ciência na democracia americana", de acordo com o site da marcha. Ainda assim, as manfiestações foram, efetivamente, protestos contra cortes profundos que o presidente Donald Trump propôs nos orçamentos para ciências e pesquisas e seu ceticistmo sobre as mudanças climáticas e a necessidade de reduzir o aquecimento global.

Marcha pela Ciência pelo mundo no Dia Internacional da Terra

- É importante mostrar a esta administração que nos preocupamos com fatos - diz Chris Taylor, que participava da marcha no Mall, em DC, que reuniu cerca de duas mil pessoas, em grupos de discussões sobre mudanças climáticas, qualidade da água e alimentação sustentável - Parece que não estão realmente preocupados sobre crescimento econômico ou em criar novas tecnologias, apenas atendendo a grandes corporações - disse Taylor, que está tirando seu título de PhD em robótica na George Mason University, na Virgina.

A "Marcha da Ciência" é a última de uma série de demonstrações nos EUA que vêm sendo realizadas desde a posse de Trump há cerca de cem dias. Manifestações anteriores e protestos tinham foco em um leque de assuntos mais amplos, desde direito de aborto a política imigratória.

Austrália faz primeira 'marcha pela ciência' deste sábado

A Casa Branca não respondeu ao pedido de comentário sobre as marchas deste sábado. No entanto, no passado, Trump há havia afirmado seu desprezo pelo tema, dizendo que as mudanças climática são uma frande que estavam sufocando as políticas para fomentar o crescimento econômico. A administração de Trump está considerando a saída do Acordo de Paris, um acordo global que tem por objetivo a redução global de emissões de dióxido de carbono e outros gases-estufa. Ano passado, os Estados Unidos, sob a gestão do presidente Barack Obama, se juntaram a outros 190 países ao assinar o acordo.

Os cortes propostos por Trump no Orçamento de 2018 atingem os gastos com as agências que atuam em áreas científicas, incluindo redução de 31% para Agência de Proteção Ambiental.

Os organizadores da marcha demonstraram preocupação com o que vêem como ceticismo crescente dos políticos e com outros tópicos como vacinas, organismos geneticamente modificados e evolução.

BERLIM: 'NÃO HÁ ALTERNATIVAS AOS FATOS'

Em Berlim, os manifestantes levavam placas com os dizeres "Amamos os especialistas - aqueles com evidências" e "Ciência, não silêncio" para a marcha, que partir da Universidade Humboldt em direção ao Portão de Brandemburgo, liderada pelo prefeito de Berlim, Michael Mueller, e diretores de universidades da cidade.

"Não há alternativa aos fatos", dizia uma grande faixa, em referência ao termo usado pela assessora da Casa Branca Kellyanne Conway, durante uma controvérsia sobre o tamanho do público que assistiu à posse de Trump.

Os participantes da marcha fizeram uma parada rápida na Embaixada da Hungria para protestar contra uma nova lei húngara que ameaça fechar uma universidade financiada pelo investidor George Soros.

Segundo organizadores, 11 mil pessoas participaram do evento que, dizem, tem como alvo destacar a importântcia do conhecimento baseado na ciência e em evidências nas democracias.

links ciência

- Nós, berlinenes, sabemos por nossa própria História o que a repressão à liberdade significa. Isso mostra que temos uma responsabilidade particular em mobilizar as pessoas quanto à importância da ciência livre e aberta e de uma sociedade tolerante - disse Mueller aos mainifestantes.

A marcha, cuja data coincide com o Dia da Terra, vem após movimentos do presidente americano Donald Trum para cortar fundos da Agência de Proteção Ambiental e os Instutos Nacionais de Saúde.

- A Ciência é necessária. Na minha opinição a ciência empírica é a chava para o progresso da cultura e civilização que desenvolvemos - disse o manifestante Hagen Esterberg à TV Reuters.

Já Maria Pohle disse que se juntou à marcha para dar apoio "para a Ciência que não está ameaçada apenas na América, mas também na Europa e em todos os lugares do mundo".

REIVINDICAÇÕES TAMBÉM NO BRASIL

No Brasil, por sua vez, a comunidade científica brasileira reivindica maior valorização da área, sobretudo em termos financeiros. No mês passado, o presidente Michel Temer contingenciou R$ 2,5 bilhões do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. Os pesquisadores argumentam que a medida será um atraso para o país que, em 2015, teve cerca de 61 mil artigos científicos publicados, ficando em 13º lugar no ranking mundial de produção científica.

- A expectativa é conseguir dialogar com a sociedade, explicar qual a função da ciência, por que ela é importante, o que ela tem feito para o Brasil. Também aproveitamos para chamar atenção do governo. Infelizmente tivemos esse novo contingenciamento de recursos. Enquanto o país encarar educação, ciência e inovação como gasto e não como investimento, vamos andar para trás — sublinha a presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, Helena Nader.

oglobo.globo.com | 22-04-2017
Câmara adquiriu o rés-do-chão do edifício e transformou-o numa biblioteca e sala polivalente.
www.publico.pt | 22-04-2017

RIO - Primeiro o sociólogo italiano Domenico de Masi estabeleceu um diagnóstico: vivemos desorientados num mundo em rápida transformação e sem um modelo capaz de oferecer respostas aos desafios que nos são impostos por essas mesmas transformações. A esta “sociedade desorientada”, o sociólogo apresenta agora um “alfabeto” que serve como um guia de viagem. Em “Alfabeto da sociedade desorientada”, de Masi vai construindo uma lista heterodoxa de conceitos, termos, palavras, softwares e hardwares da existência humana contemporânea, que começa com “aforismo” e termina com a letra grega “zeta”, tomada como alegoria para a ameaça dos diferentes autoritarismos.

O sociólogo vê a nova obra como um desdobramento de seu último livro, “O futuro chegou” (LeYa/Casa da Palavra), em que analisou 15 modelos diferentes de sociedade que pudessem nos inspirar no presente. Ele sentiu a necessidade de explicar de forma simples alguns conceitos recorrentes no seu trabalho e nos temas que aborda, como o trabalho, a criatividade, a comunicação, a ética e a estética — explorados nos textos sobre “hobby”, “mídia”, “web”, entre outros. Por isso mesmo, dispensou as notas de rodapé e as referências bibliográficas. Escrever o livro o ajudou também a orientar as próprias ideias. De Masi defende que a vocação sociológica exige que ele busque sempre compreender as mudanças do mundo.

— Sociedades antigas, desde o tempo dos gregos e romanos até a Idade Média, do Renascimento à sociedade industrial, nasceram tendo como uma base um modelo teórico desenvolvido por filósofos e concretizado por militares ou políticos. Nossa sociedade pós-industrial atual não é baseado em nenhum modelo teórico compartilhado. Portanto, estamos desorientados, sem saber como distinguir a verdade da mentira, o bem do mal, a beleza da feiura. Meu livro é antes de tudo um diálogo comigo mesmo, para reorganizar as minhas ideias em torno de alguns aspectos fundamentais da nossa sociedade — afirma, em entrevista por e-mail ao GLOBO.

Nos ensaios que compõem o livro, o sociólogo segue um estilo que une simplicidade e erudição. No capítulo sobre o “aforismo”, ele aponta que o pequeno texto que condensa uma ideia ou princípio filosófico é um antecessor de muitos séculos do Twitter, rede social cujos textos estão limitados a 140 caracteres. E, com humor, cita a frase do frade dominicano Bartolomeu de San Concordio: “Os homens no tempo de hoje são desejosos de brevidade”. A ironia é que San Concordio disse isso em 1305. Essas relações entre passado e presente são recorrentes na obra, uma forma de construir fundações sólidas para um futuro no movediço terreno contemporâneo.

— Descobrir as relações existentes entre passado e presente dá maior significado ao presente. Veja esta observação de Bertrand Russell: “Eu provei pêssegos e damascos bem antes de saber que eles começaram a ser cultivados na China, no início da Dinastia Han. E que um chinês preso pelo grande Rei Kanishka os apresentou à Índia, de onde eles se espalharam pela Pérsia, chegando ao Império Romano no primeiro século de nossa era. Tudo isso deixou essas frutas mais doces para mim”. Mas conhecer o passado e decifrar o presente serve apenas para desenhar o futuro. Desenhar o futuro representa a mais nobre função do indivíduo e da sociedade como um todo.

De Masi afirma que a montagem do alfabeto foi bastante pessoal e seguiu o seu próprio interesse. Isso levou a escolhas curiosas, como “Quixote” e “Nápoles”. A convivência hoje quase indiferente dos napolitanos com o problema crônico da coleta de lixo elevou a cidade italiana à “metáfora planetária da parábola urbana, como profética precursora de todas megalópoles do mundo”, pois a cidade e o lixo “são os dois maiores símbolos da sociedade consumista”, escreve ele no livro.

— Nápoles representa um modelo de cidade onde o espírito racional e cartesiano da metrópole convive com o emocionalismo caloroso da aldeia. Nápoles é o Rio de Janeiro da Europa, e o Rio é a Nápoles do Brasil — afirma.

Já o capítulo “Quixote” é uma homenagem ao seu romance favorito, “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes. O sociólogo acredita que a obra é o triunfo do “ócio criativo”, título do seu livro mais famoso.

— “Dom Quixote” é o primeiro romance da história, um livro que funde e confunde a sensualidade árabe, a inteligência judaica, a astúcia cristã. É o triunfo do ócio criativo e da existência border line. Para desfrutá-lo inteiramente é preciso estar despreocupado, mentalmente disponível e ter tempo suficiente para aprender e se divertir, rompendo a estressante sequência das tarefas diárias com a pausa alegre e misteriosa da leitura. O ócio criativo é uma arte que requer treinamento, e “Dom Quixote” é o início perfeito.

De Masi conhece bem a cultura brasileira e dedica parte do ensaio sobre aforismos ao escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues. Ele destaca frases como “o morto esquecido é o único que descansa em paz” e “com sorte você atravessa o mundo. Sem sorte você não atravessa a rua”. O sociólogo garante que as máximas de Nelson se aplicam bem à Itália.

— Quase todos os aforismos italianos também podem ser aplicados ao Brasil porque a semelhança entre brasileiros e italianos é muito grande. Os dois povos são propensos à alegria, à sensualidade, à hospitalidade. Mesmo no crime temos uma certa semelhança: basta comparar a operação Mãos Limpas com a operação Lava-Jato — diz.

Apesar da crise no Brasil, de Masi mantém o seu otimismo incorrigível sobre o país, onde vem com frequência há mais de 30 anos. O sociólogo observa uma mudança de humor, uma oscilação entre depressão e euforia. Mas vê um caminho para a construção de outro futuro.

— Itália e Brasil têm uma notável propensão à musicalidade, à solidariedade, à hospitalidade, à alegria. O futuro dos dois países depende de suas capacidades de selecionar uma classe dirigente honesta, criativa, profissionalmente preparada. Nelson Rodrigues dizia “O Brasil não é popular no Brasil”. O mesmo vale para a Itália — finaliza.

oglobo.globo.com | 22-04-2017

RIO — Como diz o jornalista inglês Paul Trynka, autor de sua biografia definitiva (“A vida e a música de Iggy Pop — Open up and bleed”, Editora Aleph), o inoxidável pioneiro do punk “não vai entrar docilmente na boa noite”. Manco há mais de uma década, por conta de lesões maltratadas no tornozelo e no quadril, o cantor é o primeiro a brincar com as perdas de audição sofridas (“estou surdo feito uma pedra”, disse, em recente entrevista). Ainda assim, com um vasto passado de hábitos autodestrutivos dentro e fora dos palcos, Iggy Pop chega aos 70 anos — completos hoje — com uma performance ao vivo energética e atlética. A partir de maio, sai em turnê que inclui noites como atração principal em festivais nos Estados Unidos e na Europa.

No ano passado, lançou um dos melhores discos de toda sua carreira (na opinião de Trynka e de boa parte da crítica mundial), “Post pop depression”, feito com a ajuda de Josh Homme (Queens of the Stone Age), um dos mais respeitados nomes do rock atual.

Iggy segue subvertendo até mesmo a imagem que construiu nas seis primeiras décadas de vida. Seu mais recente projeto é o documentário “Permanecer vivo — Um método”, em que aparece ao lado de seu amigo e fã, o polêmico escritor francês Michel Houellebecq (autor do roteiro, coassinado pelo diretor, o holandês Erik Lieshout). Atração do festival É Tudo Verdade, o filme tem exibição hoje, às 19h, no Espaço Itaú de Cinema, e na próxima terça-feira, dia 25, às 13h, no Espaço Cultural BNDES.

Baseado em um texto de Houellebecq, “Permanecer vivo” pode ser definido como uma espécie de autoajuda culta e levemente deprê, com direito a truques como o uso de “Adagio for strings”, de Samuel Barber, na trilha. Mas mostra um lado denso e inusitado do sempre inquieto Mr. Osterberg.

Ao GLOBO, Trynka, que também biografou David Bowie e Brian Jones, situa Iggy como um dos mais importantes sobreviventes do rock e comenta sua chegada à marca dos 70.

Como você vê Iggy Pop chegar aos 70 anos, subvertendo o estereótipo do punk selvagem com projetos como “Permanecer vivo”, depois de ter feito dois discos de chanson francesa e jazz, “Préliminaires” (2009) e Après (2012)?

Eu adorei “Préliminaires”. Sempre achei que ele tinha uma voz magnífica, que poderia funcionar em diferentes ambientações. Mas fiquei surpreso mesmo foi com o quanto é bom seu último álbum, “Post pop depression”. É um dos pontos altos da carreira dele! Então creio que Iggy não vai “entrar docilmente na boa noite” (citação do famoso poema de Dylan Thomas “Do not go gentle into that good night”, sobre o fim da vida).

A biografia “Open up and bleed”, de sua autoria, conta a história de Iggy Pop até 2006. Nos últimos 11 anos, ele conseguiu se tornar muito mais bem-sucedido em termos financeiros. Você esperava que isso acontecesse?

Ele foi um pioneiro, e pioneiros sempre levam todas as flechadas. Mas sempre achei que, se Iggy continuasse em atividade por muitos anos, daria tempo para o mundo alcançar o que ele fazia. Foi o que ocorreu.

De todas as mudanças e escolhas criativas de Iggy Pop nos últimos dez anos, qual o surpreendeu mais?

Acho que nenhuma foi exatamente um choque. O que ainda é chocante é ver aquele senhor algo frágil de fora dos palcos se transformar ao entrar em ação: a idade cai, e o peso dos anos some imediatamente.

Você é um estudioso do jeans (lançou em 2002 “Denim: dos caubóis para as passarelas”, não editado no Brasil). Sabia que em uma das passagens pelo Rio (a segunda, em 2004), Iggy comprou, virou fã e passou a usar calças da Gang, marca de modelagem superjusta?

Hahaha! Bem, ele sempre foi um pioneiro nessa área. Quando deixou Ann Arbor (sua cidade natal, nos arredores de Detroit) para gravar “Funhouse” com os Stooges em 1970, levou apenas um par de jeans, e esse foi basicamente todo o seu guarda-roupa por muito tempo. À medida que essa calça foi se desgastando e se acabando, ele ajudou a criar a moda dos jeans rasgados.

Você mantém contato com Iggy Pop? Como ficou a relação com o biografado após o lançamento do livro?

Eu fui bem próximo dele durante o tempo em que trabalhei no livro — embora não fosse uma biografia autorizada, ele foi bastante aberto e colaborativo. Desde então, tivemos apenas interações esporádicas. Não deve ser fácil lidar com alguém que investigou a fundo meandros e recantos escuros da sua vida. Mas ele foi legal comigo, mostrou-se grato por ter feito um trabalho digno: um grande livro para celebrar uma grande vida.

O que você aprendeu ao investigar a vida de Iggy Pop e pôde aplicar na sua vida pessoal?

Foi uma viagem estranha. Demorei muito tempo e viajei pra bem longe. Tantas pessoas que eu entrevistei morreram nos últimos anos... Acho que isso me estimulou a amar a vida e usar melhor o tempo que nós temos, sem desperdícios.

Você também escreveu biografias de David Bowie (“Starman”, de 2011) e Brian Jones (“Sympathy for the devil”, de 2015) — ambas inéditas no Brasil. Na obra sobre o stone morto em 1969, Mick Jagger e Keith Richards têm sua importância dentro da banda redimensionada. Diria que Iggy Pop é o mais importante roqueiro vivo?

Eu não acredito em rankings para a arte! O que posso dizer é que Iggy mudou a forma como a música é feita. O efeito disso está em volta de todos nós, podemos senti-lo ligando o rádio ou dando uma volta pela rua. Em termos de impacto no mundo, acho bastante difícil superar isso.

Como você vê a mitologia do rock daqui a dez, quinze anos, quando todos os maiores nomes provavelmente não estarão mais em ação?

Tem sido esquisita pra mim esta última década. Meu primeiro grande livro foi uma história oral do blues, que me levou a entrevistar pessoas incríveis como John Lee Hooker (1917-2001), B. B. King (1925-2015) e Johnny Guitar Watson (1935-1996), entre tantos outros. Eram caras sensacionais, que de muitas maneiras ainda pareciam jovens para mim, porque a música deles estava forte. Agora quase todos eles se foram, é difícil lidar com isso. Como é que todos aqueles caras cheios de vida foram se transformar em simples verbetes, em História? Mas basta que poucas pessoas ouçam os discos, e os artistas se tornam jovens de novo. O poder da música deles ainda fala para todos nós.

oglobo.globo.com | 21-04-2017

Numa feliz ironia, candidatando a deputada Renata Abreu ao prêmio “Trabalho Escravo de 2017”, que quer isenção de direitos para músicas tocadas em rádios, igrejas, motéis, hotéis, academias, o cineasta Cacá Diegues, em sua coluna no GLOBO, comunga com todos os artistas ao condenar mais uma tentativa de burlar os sagrados direitos autorais do criador.

Por extensão, também roteirista e diretor, faço minha sua revolta clamando pela igual alforria para realizadores do audiovisual (cinema, televisão, animação), hoje reféns de uma Lei de Direito Autoral, nascida na proto-história do digital em 1988, a exigir urgente atualização.

Excetuando músicos e intérpretes, nossos inestimáveis parceiros que já garantem seu numerário pela comunicação e reutilização públicas de suas criações, para diretores e roteiristas a LDA é manquitola, quando não ambígua, portanto, ineficaz.

Nesses tempos do impune tsunami da internet e seus infindáveis repiques, somos todos órfãos de pagamento pela gratuita veiculação do nosso estro em plataformas e suportes, digital e não digital.

Diante desse infortúnio institucional e pecuniário estamos em descompasso com o processo civilizatório que vige na América Latina/Caribe, Canadá, Europa/Leste, África, Oriente Médio e Ásia/Pacífico que, ao dignificar a profissão de roteiristas e diretores, consagra o mantra da mais absoluta contemporaneidade: direito autoral é o salário do criador.

Não é de admirar que direito de autor conste da Declaração Universal dos Direitos Humanos, da ONU (1948) e assim deveria ser encarado por todos os signatários da Convenção de Berna (Suíça, 1886), como o Brasil, na qual há mais de cem anos, mundo afora, é defendida e garantida essa prevalência.

Na mesma batida é hoje o ordenamento jurídico da Comunidade Europeia, que subscreve a necessidade da intransferível e irrenunciável remuneração a diretores e roteiristas tal qual músicos, dramaturgos e intérpretes que, por todos os méritos, de há muito navegam nessa inelutável conquista, capilarizando a economia criativa do país, pois direito autoral é mercado!

A escandalosa supressão de pagamento a roteiristas e diretores pela fruição pública de suas obras vem chamando a atenção de gestores públicos e privados, advogados de direitos autorais e propriedade intelectual, inclusive sensibilizando Legislativo e Executivo de inúmeros países, como Chile, onde a presidente Michelle Bachelet acaba de assinar a Ley Ricardo Larraín (premiado diretor daquele país).

“Criadores sem direitos autorais é o mesmo que cidadãos sem direitos políticos” — completa o advogado chileno, Santiago Schuster, diretor para América Latina e Caribe da poderosa Confédération Internacionale des Sociétés d’Auteurs et Compositeurs (Cisac). A Colômbia está prestes a aprovar sua lei própria.

A modernidade está cobrando seu preço com o Brasil assumindo a responsabilidade de se alinhar imediatamente a esse processo de total pertinência moral, financeira e humanitária.

Sylvio Back é cineasta

oglobo.globo.com | 21-04-2017

PARIS — Um clima de Guerra Fria surgiu na França desde que Jean-Luc Mélenchon, candidato nas eleições presidenciais pelo movimento de esquerda radical França Insubmissa, cresceu nas pesquisas de opinião a ponto de poder reivindicar uma passagem ao segundo turno no próximo domingo e uma eventual vitória na disputa pela sucessão do presidente François Hollande. A perspectiva de que Mélenchon possa se tornar o próximo inquilino do Palácio do Eliseu provocou temores — “verdadeiros ou simulados”, como apontam analistas — no mercado financeiro e em investidores, ressuscitando antigos discursos contra a “ameaça comunista”. Seus principais adversários na corrida presidencial passaram a considerá-lo como um sério concorrente e alvo privilegiado de ataques. françca

Sem deixar de responder aos críticos, o autoproclamado candidato “antissistema” prossegue sua campanha reunindo centenas de milhares de pessoas em seus comícios, apresentando-se como a única e real opção de ruptura com o atual modelo político e econômico.

— Hoje se fala no “risco Mélenchon” para os bancos e o sistema financeiro. Que risco? Eu sou perigoso? — ironizou ontem o próprio candidato, num de seus encontros com eleitores.

O candidato direitista François Fillon acusou-o de “sonhar em ser o capitão do encouraçado Potemkin (navio russo palco de um motim em 1905, tema do célebre filme do cineasta Serguei Eisenstein), mas que acabará negociando a sucata do Titanic”. O presidenciável centrista Emmanuel Macron chamou-o de “revolucionário comunista”, e a líder da extrema-direita, Marine de Le Pen, do partido Frente Nacional (FN), de “imigracionista absoluto”. Já o jornal conservador “Le Figaro” não hesitou em rebatizá-lo de “Chávez francês”, em alusão ao falecido presidente venezuelano Hugo Chávez, e “Maximilien Ilitch Mélenchon”, numa combinação dos nomes do revolucionário Maximilien Robespierre (do período do Grande Terror da Revolução Francesa de 1789) e de Vladimir Ilitch Lenin (um dos líderes da Revolução Russa de 1917).

Para Bruno Cautrès, do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences-Po), é preciso distinguir o medo exagerado e fantasioso das reais consequências na hipótese de uma vitória Mélenchon.

— Se ele ganhar a eleição presidencial, a França não vai retroceder no tempo e passar à dominação soviética. Mélenchon se reivindica como alguém de tradição gaullista, numa posição nacional típica, mas com uma tonalidade da cultura da esquerda, na ideia de independência e da não submissão aos EUA. Já em relação à Europa, no entanto, o caso é outro. Conheça os candidatos à Presidência da França

AMEAÇA DE SAÍDA DA UNIÃO EUROPEIA

O programa de Jean-Luc Mélenchon prevê uma renegociação dos atuais tratados europeus, com o abandono da austeridade e um incremento de investimentos em políticas públicas. Em caso de fracasso no estabelecimento de novas regras, numa anunciada queda de braço com a chanceler federal alemã, Angela Merkel, ele ameaça com o Frexit, a saída da França da União Europeia (UE), a exemplo do que ocorreu no Reino Unido.

— Uma parte da esquerda francesa acusa a Europa pelas políticas de restrição orçamentária e de austeridade na França. Mélenchon não é o antieuropeu visceral da FN, que acentua a soberania e a identidade nacional. Nele, temos a combinação entre a tradição intelectual da esquerda internacionalista e um discurso crítico em relação à Europa liberal e suas instituições. Mas é verdade que, oferecer todos os benefícios sociais que promete, só será possível via renegociação dos tratados europeus ou pela saída da Europa — diz Cautrès.

Em nível nacional, Mélenchon prega a diminuição do idade de aposentadoria de 62 para 60 anos; aumento da remuneração do funcionalismo público e do salário mínimo — dos atuais € 1.150 para € 1.326 — ou um maior rigor na aplicação da lei de 35 horas de trabalho semanais, com possível redução a 32h. O Observatório Francês das Conjunturas Econômicas (OFCE) avaliou o programa econômico do candidato como incoerente, acusando-o de não levar em conta as obrigações externas e as finanças públicas do país.

— É verdade que seu programa econômico não se adéqua muito aos limites da França, que já possui uma dívida pública muito importante, de mais de € 2 trilhões. Mas além de econômica, trata-se também de uma questão ideológica. Mélenchon fez uma boa campanha, e uma boa parte do eleitorado decidiu mostrar que a esquerda não está morta. O tema desta eleição é o “sistema”, principalmente após as denúncias de corrupção (contra François Fillon). Há uma tendência de “varrer o sistema”, o que explica em parte a dinâmica Mélenchon — conclui Cautrès.

Em duas pesquisas divulgadas ontem, Mélenchon aparecia com 18% de intenções de voto. Macron mantinha-se em primeiro, com 24% e 22%, em empate técnico com Le Pen, que obtinha 23% e 22%. Já Fillon vinha com 21% e 19,5%. Quem é Marine Le Pen, a candidata que lidera a corrida presidencial na França?

oglobo.globo.com | 18-04-2017

SÃO PAULO — Antes de ingerir uma dose fatal de tranquilizantes, em 22 de fevereiro de 1942, o escritor austríaco Stefan Zweig deixou uma declaração na qual agradecia ao Brasil por acolhê-lo tão bem. “Dia após dia, aprendi a amá-lo mais. Eu não gostaria de construir uma vida nova em nenhum outro lugar agora que o mundo que fala minha língua desapareceu para mim e que minha terra espiritual, a Europa, está se destruindo”, escreveu o autor. Dirigido pela atriz alemã Maria Schrader, “Stefan Zweig — Adeus, Europa”, em cartaz nos cinemas, narra os últimos anos de vida de Zweig (Josef Hader), passados entre Brasil, Argentina e Estados Unidos, ao lado de sua segunda mulher, Lotte (Aenne Schwarz). Uma das fontes de pesquisa da cineasta, que assina o roteiro em parceria com Jan Schomburg, foi “Morte no Paraíso — a Tragédia de Stefan Zweig”, do jornalista brasileiro Alberto Dines.

Leia a crítica e veja os horários do filme

— Eu queria muito fazer alguma coisa sobre exílio. Depois que li mais sobre Zweig, entendi que havia muitas questões envolvendo a saída dele de uma Europa dividida e extremamente radicalizada. Ele fugiu da guerra, mas vivia assombrado por ela. Com (o escritor) Thomas Mann, era considerado um dos mais importantes autores de língua alemã de sua época. E não podia publicar mais em seu idioma materno. Tudo isso era muito duro para ele — diz Maria, em entrevista ao GLOBO, por Skype, de sua casa em Berlim.

Dividido em seis partes, com um prólogo, um epílogo e quatro capítulos intermediários, “Stefan Zweig — Adeus, Europa” retrata episódios da vida do escritor entre 1936 e 1942, com especial atenção para o seu exílio sul-americano, entre Rio, Buenos Aires, Salvador e, seu destino final, Petrópolis. O filme mostra um momento que define o estado de espírito de Zweig nos primeiros anos longe de sua pátria, quando foi homenageado em um congresso de escritores na Argentina, mas se recusou a condenar publicamente a Alemanha e seu líder em ascensão, Adolf Hitler. “Não falaria publicamente contra um país, e não farei exceção”, diz ele a um jornalista.

Ele era um pacifista radical e um defensor ferrenho de uma Europa unida, não acreditava em fronteiras— Ele era um pacifista radical e um defensor ferrenho de uma Europa unida, que não acreditava na ideia de fronteiras. Defendia, talvez por gostar muito de viajar, que todas as pessoas deveriam ser cidadãs do mundo. Era um entusiasta do poder do intercâmbio cultural e da diversidade, numa época em que as discussões abertas já não eram mais possíveis e que tudo era preto ou branco. Há muitas coisas e temas combinados nesses últimos anos de vida que são importantíssimos — diz a diretora do filme.

As cenas brasileiras de “Stefan Zweig” foram filmadas em São Tomé e Príncipe, na África. No país, uma ex-colônia portuguesa, Maria encontrou cenário historicamente preservado e uma população muito parecida com a que precisava.

— É muito caro filmar no Brasil, não tínhamos orçamento para isso. Petrópolis está muito transformada, seria impossível reconstituir a época. Além do mais, em São Tomé estávamos no mesmo fuso horário da Alemanha, o que facilitou muito — explica ela.

O filme mostra o périplo de Zweig e Lotte antes de decidirem se instalar definitivamente no Brasil. Eles viajaram pelo Nordeste do país e tentaram viver nos Estados Unidos, mas acabaram voltando. Ele era fascinado não só pela beleza e pelo exotismo, mas pela ideia de um país marcado pela diversidade e pelo desenvolvimento social.

— Ainda que saibamos que isso não era verdade, aquilo parecia o paraíso para ele. Tudo parecia muito mais bonito. Ele ainda não tinha olhado a história da escravidão. Não tinha visto o contexto da época, com (Getúlio) Vargas no poder — diz Maria.

Em 1941, Zweig publicou “O mundo que eu vi”, uma espécie de testamento. O livro é rejeitado pelos críticos, em especial por Costa Rego, redator-chefe do “Correio da Manhã”, que escreveu vários textos desancando a obra.

— Com esse livro ele ficou marcado, tanto pelos imigrantes e as pessoas próximas deles, quanto pelos partidários da esquerda. Temos de lembrar que o Estado Novo estava no seu quarto ano, Vargas colaborava com o governo alemão. Mesmo assim, ele não desistiu do Brasil— diz a cineasta.

Maria, que é mais conhecida no circuito dos festivais e de cinema de autor como atriz, principalmente pelo filme “Aimée & Jaquar” (1999), diz que, se Zweig estivesse vivo hoje, talvez se surpreendesse com a realização de seu sonho de uma Europa unida. E com a perspectiva de que a região se tornou um ponto de chegada para refugiados, e não de partida. Como em sua época.

— Nossa geração teve a chance de viver o sonho de Zweig. Eu acho que ele diria para não desistirmos do sonho de manter a Europa unida — completa.

oglobo.globo.com | 14-04-2017

MADRI — “Velozes e furiosos 8” começa em Havana, mas o espectador deve pensar mesmo é no Brasil ao conferir o novo filme da franquia bilionária de 16 anos. Quem diz isso é o próprio diretor F. Gary Gray, que tem família no Rio e topou contar uma nova história em torno de Dom (Vin Diesel), Letty (Michelle Rodriguez) & cia., animado em “mergulhar ainda mais na vida dos super-heróis da classe trabalhadora de Hollywood”. O filme, que estreou nesta quinta-feira no Brasil, tem entre os trunfos cenas de ação com veículos motorizados de todos os tipos nos quatro cantos do globo, da tropical Cuba às gélidas Islândia e Rússia, e as presenças de Charlize Theron, no papel da vilã hacker Cipher, e de Helen Mirren, em uma ponta reveladora.

Leia a crítica e veja os horários

— Filmamos em Cuba antes mesmo da visita de Barack Obama e do show dos Rolling Stones. Foi ao mesmo tempo complicado e fundamental para o filme que eu queria fazer, jamais vou me esquecer das cenas de helicóptero e das pessoas deslumbradas lá embaixo, foi a maior produção de cinema por lá. Dom e Letty são de origem latina, e queria começar com uma espécie de lua de mel em um lugar ideal — diz Gray. — Como a série já havia passado pelo seu país (em “Velozes e furiosos 5 — Operação Rio”), minha opção agora foi Havana. Mas a Cuba do filme é filtrada pela minha própria visão de paraíso, o Brasil.

O oitavo tomo da franquia recebeu o título original de “The fate of the furious” (“O destino do furioso”, em tradução livre). Furioso, no caso, é o protagonista vivido por Vin Diesel. Por graça e obra de Cipher, ele acaba tendo de enfrentar a própria “família”, que se uniu ainda mais depois da morte, no filme anterior, de Brian, o personagem do galã Paul Walker (1973-2013). Walker morreu em um acidente de carro, e a produção de 2015 incluiu imagens de arquivo digitalizadas do ator, arrecadando mais de US$ 1,5 bilhão de bilheteria, um recorde para a franquia.

— É claro que a primeira pergunta que fiz quando Vin me convidou para dirigir o filme foi: mas por que mais um “Velozes”? Respondi que sim depois de perceber que o argumento do (roteirista) Chris Morgan girava justamente em torno do inesperado, de uma virada completa de mesa em relação à comunhão do filme anterior — diz Gray. Velozes e Furiosos 8 - Trailer Oficial

BRIGA ENTRE ATORES

Comunhão não foi exatamente a palavra mais em voga durante as filmagens da produção milionária estimada em US$ 250 milhões, a mais cara da franquia. Relatos de brigas entre Diesel e Dwayne “The Rock” Johnson, que vive o agente Hobbs, vazaram para a imprensa, e durante a turnê de promoção do filme os dois ficaram separados pelo Atlântico. Dwayne conversou com a imprensa nos EUA; Diesel, na Europa.

— Tudo está bem agora. Filmagens longas com produções deste tamanho sempre são mais complexas. Não vou entrar em detalhes, esta história é para os dois tratarem, mas nada disso atrapalhou meu trabalho — diz Gray, cujo filme anterior foi o bem recebido “Straight outta Compton: a história do N.W.A.”, uma das maiores surpresas de bilheteria de 2015, em torno da explosão do gangsta rap na Califórnia dos anos 1980.

A guerra de egos em “Velozes e furiosos 8” destoa de uma trama centrada justamente na importância da união da equipe formada ainda por Roman (Tyrese Gibson), Tej (Ludacris), a fera do mundo digital Ramsey (Nathalie Emmanuel) e os agentes sem-nome vividos por Kurt Russell e, em sua estreia no universo fictício criado por Rob Coen, por Scott Eastwood. Se cabe ao filho de Clint Eastwood, de 31 anos, assumir a posição de galã da vez, os dois vilões são o Deckard de Jason Statham e a surpresa Charlize Theron. Tudo de olho nas expectativas dos fãs de carteirinha, garantindo reviravoltas na parte final do filme.

— Além das entradas de Scott e Charlize, tentamos embaralhar as peças com vilões e mocinhos trocando de papel, algo novo neste universo. Claro que estudei com atenção os filmes anteriores, sou fã de Justin Lin e James Wan (os diretores dos dois tomos anteriores da franquia) e sabia que alguns elementos, como explosões, cenas de rachas de carro e lutas corporais teriam de entrar na história, mas queria fazer do meu jeito, esticando ainda mais os limites do que é, de fato, “veloz e furioso” — diz o diretor, um nome possível para comandar o nono filme, com previsão de estreia para 2019.

Eduardo Graça viajou a convite da Universal

oglobo.globo.com | 14-04-2017

RIO - Não é um exagero dizer que o mundo todo cabe em Nova York. E é na Times Square que se encontra o mais nova atração cosmopolita da cidade. Aberto na última semana, o Gulliver's Gate reproduz cidades e cenários dos quatro cantos do planeta em miniatura, do Coliseu de Roma ao Cristo Redentor carioca. Mas não é a única "Lilliput" visitável. Outras atrações que exibem maquetes realistas chamam atração dos visitantes em diversos países, inclusive no Brasil.

O Gulliver's Gate tem 300 miniaturas, em escala 1:87, que representam cenas e paisagens de 50 países e é dividido em cinco setores: Metropolis (uma mini-Nova York), América Latina, Oriente Médio, Ásia, Europa e Rússia. Tirando o primeiro, uma única cidade, e o último, um só país, as demais áreas aglomeram imagens de diversos países. No setor latino, por exemplo, as favelas do Rio não estão muito distantes da Catedral de Brasília, do Caminito, de Buenos Aires, e da pirâmide de Chichén Itzá, no México. Mas todos com impressionante realismo.

Gulliver's Gate, o pequeno mundo de Nova York

Essa maquete latino-americana foi feita em Buenos Aires. A europeia, construída em Rimini, na Itália, tem, entre outras, representações da Torre de Pisa e do Rio Sena, em Paris. A seção asiática foi construída em Pequim e combina os arranha-céus de Hong Kong com o Taj Mahal e pagodes tailandeses, por exemplo. Uma equipe israelense projetou a maquete que representa o Oriente Médio.

No total, as seis equipes trabalharam por mais de um ano para fazer o mundo caber em um espaço de 4.500 metros quadrados e que custou US$ 40 milhões. A visitação acontece diariamente, das 9h às 22h e tem preços promocionais até 9 de maio: US$ 25 para todo mundo. Após essa data, adultos pagam US$ 36, crianças de até 12 anos e maiores de 65 anos, US$ 27. Mais informações em gulliversgate.com.

OUTROS ATRAÇÕES SEMELHANTES PELO MUNDO

Queens Museum: Em Nova York mesmo há outra grande maquete que merece a visitação. A obra "Panorama of the New York City" é a grande (mesmo) atração do Queens Museum, no Corona Park. Com 867,2 metros quadrados, a maqueta mostra todo o município de Nova York. Há riqueza de detalhes, mas eles são datados: a última grande atualização da obra, instalada ali em 1964, é de 1992. Em 2009 houve pequenas modernizações, mas as torres gêmeas do World Trade Center, por exemplo, ainda estão de pé ali. Informações: queensmuseum.org

Mini Estrada Real: O parque, na Estrada Paraty-Cunha (ela mesma parte do Caminho Velho da Estrada Real), é um resumo do que de melhor se pode ver nas cidades que integram a antiga rota das pedras e metais preciosos, que ligava Diamantina e Ouro Preto a Paraty. São 26 maquetes de igrejas, casarões, palacetes e prédios públicos de oito cidades, muitos construídos em base de pedra-sabão, o que confere aspecto ainda mais realista. É o caso da réplica do Museu da Inconfidência de Ouro Preto, uma das mais parecidas com o prédio original. Destaque também para o sistema hidráulico que simula a alta da maré que alaga o centro histórico de Paraty. Informações: miniestradareal.com

Miniature World: Fãs de miniaturas com viagem marcada para Vancouver, no Canadá, devem programar uma visita à vizinha Victoria, em British Columbia. Nem que seja para conhecer o Miniature World, um parque temático dedicado à miniaturização de cenas e paisagens de lugares reais e imaginários. Há um setor dedicado a especular como seria a Camelot de Rei Artur e outro sobre a vida no espaço. Mas as seções que mostram cenas reais, como a Fields of Glory, que retrata grandes guerras dos últimos séculos, e The Great Canadian Railway, reprodução da icônica ferrovia do oeste canadense durante a Corrida do Ouro. De grande ali, só a autoconfiança do slogan: "A maior pequena atração da Terra". Informações: miniatureworld.com

Mini Europe: Localizado em Bruxelas, na Bélgica, esse parque de propõe a mostrar uma versão em miniatura dos principais marcos da arquitetura europeia. Entre eles a Torre Eiffel, em Paris, a Piazza San Marco, em Veneza, o Parlamento de Londres e a Grand Place, na própria Bruxelas, onde todo ano é montado um tradicional tapete de flores (também retratado na maquete). Em outras partes, há representações de cenas relativas à história e à cultura do continente, com algum humor, como uma corrida de bicicletas nos Alpes e soldados do Império Romano construindo uma fortaleza. A área é toda a céu aberto e é ideal para visitar com crianças. Informações: minieurope.com

oglobo.globo.com | 10-04-2017

RIO - Tiago Chamuinho recebeu educação religiosa na Igreja Católica e frequentava a missa de domingo com frequência. Mas em momento algum contaram para o designer de produtos sobre os humilhados que um dia seriam exaltados. Talvez, se tivesse conhecimento dessa passagem bíblica (parte do Evangelho de São Lucas) desde pequeno, soubesse que um dia chegaria a vez dos nerds. Eles hoje estão com tudo, e ganharam até um festival, o Geek & Game Rio Festival, que será realizado no Riocentro entre os dia 21 e 23 deste mês, esperando reunir 70 mil pessoas com cara de CDF de todas as idades. Sem falar no Rock in Rio, que pela primeira vez contará com o espaço Game XP, concebido em parceria com a Comic Con Experience, que oferecerá arena de eSports, auditórios para talk shows com produtores, criadores e outros profissionais do segmento, disputas entre celebridades e estandes de grandes marcas para venda e demonstração de lançamentos.

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— Agora, ser chamado de nerd não é mais vergonhoso; é praticamente um troféu. Tem até gente que força a barra para parecer que é. Na minha época, sofri bullying. O cara que ficava em casa, jogando videogame ou vendo filme de ficção científica em vez de jogar bola com os amigos, era muito zoado — atesta Chamuinho.

Para a psicóloga e psicodramatista Elaine Holanda Rosalem, essa ressignificação do conceito nerd ocorreu graças à evolução da tecnologia. Mas nem tudo são flores:

— Nos dias atuais, com a busca do conhecimento intensificada, as famílias procuram, cada vez mais cedo, potencializar as habilidades intelectuais dos seus filhos. Por um lado, isso é favorável, oorque aumenta a autoestima e a preparação para o ensino superior e o mercado de trabalho. Mas pode ter um aspecto desfavorável, caso isso se torne tão evidenciado que gere um clima de competitividade entre eles e seus familiares. Antigamente, a palavra nerd era vista como sinônimo de intelectual, estudioso. Hoje somou-se esse conhecimento à área tecnológica, ligada ao que é moderno, o que a fez ganhar mais valor e respeito e gerou um novo termo: geek.

Apesar das evidências, o designer levou um tempo para se definir como um nerd de verdade. Até porque ele não aprovou o primeiro filme da franquia “Star wars”, o que é considerado pecado mortal para quem é da turma.

— Quando vi “A ameaça fantasma”, que foi o quarto filme lançado, mas, na verdade, é o episódio número um da série, achei uma porcaria, muito infantilizado. Depois que vi os outros é que percebi que esse tinha uma linguagem completamente diferente do todo e virei fã. Mas o grande salto para me tornar um nerd foi conhecer o podcast Nercast e o canal do YouTube Jovem Nerd. Foi quando encontrei mais referências e tive um entendimento melhor do que é o universo geek. Uma coisa tão natural que só percebi que eu fazia parte disso tudo depois de brincar com algumas pessoas que não entendiam nada do que eu estava falando. Aí, caiu a ficha — lembra.

Chamuinho garante que, apesar das brincadeiras acerca do seu jeito, nunca teve problemas de relacionamento. Além de namorar uma advogada que nas horas vagas adora ver filmes e séries do universo geek, ele trabalha com venda de produtos do gênero. Ou seja, sorte no amor e no jogo.

— É claro que ter um relacionamento com uma pessoa que curte as mesmas coisas que você funciona melhor, mas foi uma coincidência. E, sobre o meu trabalho, tudo também se encaminhou de forma muito natural. Conforme fui participando de eventos, comecei a sentir falta de certos produtos. Quando tem um boom de algum filme ou personagem, por exemplo, até produzem alguns itens referentes a eles, mas não conseguem sair do “mais do mesmo”. E o público nerd gosta de exclusividade. Foi por isso que pensei em criar coisas para ganhar uma graninha, mas o negócio foi ganhando corpo, e o que começou como uma brincadeira virou minha fonte de renda — conta ele, que terá um estande no Geek & Game Rio Festival, com mais de 150 produtos, incluindo bonecos, chaveiros, luminárias e anéis de prata.

Assim como o designer, todos os envolvidos na feira tem um pé no mundo geek, segundo Tatiana Zaccaro, diretora da Fagga, famosa por organizar grandes eventos, como a Bienal do Livro. No caso desta empreitada, a parceira é a empresa de esportes eletrônicos Supernova.

— Os nossos parceiros são nerds convictos. Mas, se você parar e olhar ao seu redor, vai descobrir que todo mundo tem algo geek. Por exemplo: assistir a séries como “Game of thrones”, “Luke cage” e “Westworld” e gostar de super-heróis e gibis é ser geek. E as pessoas estão cada vez mais assumindo esse lado, porque, há um tempo, era vergonhoso, mas agora é cool, e as empresas estão investindo nessa onda. Basta reparar nas ruas a quantidade de gente com alguma peça de roupa ou um acessório que tem um super-herói estampado.

Ou seja, para ser nerd, não precisa gostar de tudo o que caracteriza esse universo. Existem diferentes tipos deles, nas ruas, nos cinemas, nas bancas de jornais... E, entre essa galera, não existe aquela coisa do “meu jardim é mais geek que o seu”. Todos se aceitam muito bem, como mostra o casal de atores Aimée Serafim e Leonardo Bauberger. Ela adora “Harry Potter”; ela prefere o desenho “Hora de aventura”.

— Entrei nessa porque dividia quarto com dois irmãos que eram viciados em quadrinhos e acabava lendo as revistas. Mas não cheguei a ficar viciada naquilo na época — lembra Aimée. — Até que, no meu aniversário de 12 anos, meu pai me deu o primeiro livro do “Harry Potter”, porque tinha lido que era sensação em Londres. Eu simplesmente amei. Não só eu, mas a minha família inteira. Minha mãe tem todos os livros em português e inglês. Depois da sessão do último filme da série, eu e minha avó saímos do cinema aos prantos. Não conseguíamos aceitar que, no ano seguinte, não ia ter outro. Além disso, percebi que minha infância estava acabando e sofri ainda mais

Com Bauberger, tudo começou com o fascínio por toda sorte de filmes e séries. E, de gênero em gênero, ele se encantou pelo universo geek:

— Assisto a tudo o que estreia, mas “Hora de aventura”, realmente, é a minha favorita. Dos 56 personagens do desenho, já tenho 44. Outro dia, rodei várias lojas do BarraShopping atrás deles. Até a família da Aimée está me ajudando a completar essa coleção.

QUANDO DOIS NERDS SE AMAM

Aimée e Leonardo entraram no mesmo semestre na faculdade de Artes Cênicas e sempre estudaram na mesma sala. E, como quase em toda grande história de amor da dramaturgia, no começo, não se bicavam. Só no quarto período resolveram se cumprimentar. Depois, vieram algumas conversas curtas de corredor, umas divagações sobre a vida até que... Bingo! Eles marcaram de ir ao cinema.

— Eu sugeri vermos “Homem de Ferro”, que é um dos meus personagens favoritos dos quadrinhos, e ele achou que eu estava querendo agradar. Mas, quando descobriu que eu realmente gostava, contou que ficou aliviado — lembra Aimée, que, após um ano de namoro, foi morar com Bauberg. — Estamos juntos há quatro, e, há um tempinho, temos um trato de ver séries juntos. Ai dele se vir alguma coisa sem mim! Vai abalar a relação. Não sou de ter ciúme, mas isso é algo que não aceito; é considerado traição grave.

Casal que joga RPG unido também permanece unido. Mas há controvérsias, como prova a história da estudante de Letras Luciana Fortuna:

— Comecei nessa vida com meu primeiro marido, quando ele me apresentou a um jogo. E me apaixonei pela coisa.

A brincadeira, no entanto, não foi mais forte que a crise no casamento. Mas foi graças a ela que a fila andou.

— O meu atual marido me adicionou no Facebook, porque achou que já tinha falado comigo em algum evento de RPG, e eu aceitei a solicitação de amizade, porque pensei que o conhecia, já que tínhamos muitos amigos em comum. Mas tudo não passou de um grato engano. Ele me apresentou a vários outros jogos. Aí, não tem como não ser amor eterno — brinca Luciana, que está casada com o professor de música Marcelo Telles há cinco anos e se considera uma nerd analógica. — Sou daquelas que gostam de jogo que promovem encontros. Outro dia recebemos uns amigos que também são fanáticos para almoçar e ficamos juntos até a manhã do dia seguinte. Preciso dizer por quê?

Não, obrigado. Melhor pular para o casal Anamaria e Luiz Flavio Januzzi. Sem esquecer do filho deles, Lucas, de 9 anos:

— Eu não era tão inserida nesse universo até conhecer o Luiz. Ele jogou RPG quando era pequeno, gostava de “Guerra nas estrelas”, comprava bonecos dos quadrinhos. Até hoje, eu o acompanho nos eventos, mas não sou uma fanática — explica Anamaria, que é designer gráfico e, realmente, não deve ser uma nerd de carteirinha, já que usa “Guerra nas estrelas” em vez de “Star wars”, como todo geek de carteirinha. — Mas eu comecei a desenhar graças aos quadrinhos que lia quando criança. Ah, e também gostava de brincar de videogame com meus amigos.

Mas o que a faz ser uma frequentadora assídua de eventos do segumento é o filho. Ela e o marido levam o menino a todos.

— Teve um que caiu no dia do aniversário da minha mãe, que fez a maior comemoração. Para não desapontar a avó, nós o levamos cedo no evento e, depois, partimos para a festa — lembra.

Desde muito cedo Lucas tenta transitar pelo mundo geek pelas próprias pernas.

— Aos 2 anos, ele dizia que queria trabalhar no YouTube. Há pouco mais de um ano, atendemos ao desejo dele e criamos o Fun Toys Brinquedos — conta Januzzi, que é programador e responsável pela edição do canal do filho, atualmente com 26 mil inscritos. — Fizemos algo bem educativo, mas sem ser chato, e ensinamos o passo a passo de jogos de tabuleiro e de videogames, e também a fazer objetos com Lego e flextangles, que são brinquedos de papel. Só não mostramos o rosto dele, porque é muito novinho. Preferimos preservá-lo.

PAI HERÓI INFLUENCIA FILHOS

Desde criança, o blogueiro Sergio Henrique Falci Ellis, o Nick, tinha fissura por “Star wars”, “Star trek” e animes. Quando conheceu o RPG, ficou fascinado pelo jogo. E seus filhos, Maria, de 12, e Theo, de 9, estão indo pelo mesmo caminho.

— Acho que já nasci nerd. Na década de 1980, quando não era cool, eu fazia tudo o que os meninos se orgulham de fazer hoje em dia, mas sendo zoado de todas as maneiras. Em 2005, depois de anos trabalhando como designer gráfico, criei três blogs: o Digital Drops, sobre gadgets (peças) de produtos eletrônicos; o Meio Bit, em que falo de tecnologia, entretenimento, ciência e um pouco de tudo; e o Blog de Brinquedo, em que mostro brinquedos de todas as idades. Cada um tem seu respectivo canal no YouTube — conta.

O negócio deu tão certo que, há alguns anos, ele vive apenas da renda gerada com anúncios e visualizações em ambas as plataformas. O que fez crescer os olhos de Maria e Theo.

— O meu pai se dá muito bem com isso. Às vezes, ganha um celular que alguma marca está lançando para testar; já recebeu uma TV Oled para usar como cenário dos vídeos que faz; e é convidado para todas as feiras geeks do mundo inteiro. Já viajou para Taiwan, Las Vegas, Nova York, São Francisco e vários lugares da Europa, com tudo pago. Ele disse que vai me levar junto quando eu ficar maior. E, quando crescer, também vou querer trabalhar assim, como ele — diz Theo, que já produz e edita o próprio canal no YouTube, Theo Ellis. — Minha irmã também tem um canal (Oi Mundo), mas não gosta de divulgar, porque tem vergonha da voz dela.

BRINCADEIRA DE R$ 4 MILHÕES

A primeira edição do Geek & Game Rio Festival não é uma aposta sem fundamento. Foi o crescimento recente do segmento nerd que despertou a atenção dos gestores da Fagga.

— Realizamos a Bienal do Livro desde que começou, há quase 40 anos. E temos acompanhado o crescimento do universo geek dentro dela, por meio da cultura da convergência, em que um livro vira game ou filme, e vice-versa. Fora o movimento fantasy (RPG e outros jogos) e os HQs, que também ganharam muito destaque na feira. Como no Rio não existia qualquer evento do gênero, criamos um — conta a diretora da Fagga, Tatiana Zaccaro.

A feira, que contará com 58 expositores e sete ambientes, custou R$ 4 milhões. Neste primeiro ano, a organização espera, pelo menos, receber o retorno do que foi aplicado.

— Como é a nossa estreia e a cidade nunca promoveu um evento parecido, para compararmos, não dá para fazer uma estimativa de resultado financeiro. Mas confiamos bastante no poder do público geek — diz.

O objetivo é atender a todos os gostos, do nerd convicto ao curioso, segundo Tatiana.

— Teremos o Artway, em que caricaturistas e cartunistas vão fazer trabalhos na hora; o Game Stadium, uma arena de competição de videogames; o Hike Station, um auditório que receberá convidados para palestras; o Little Heroes, voltado para as crianças e com curadoria do grupo que promove o evento Mundinho Geek (a empresa Imagem Cultural); o Cosplay Award, um desfile de cosplay que vai premiar as melhores fantasias; o Meet & Greet, local para autógrafos e fotos com os convidados do evento; e o Board Game Alley, uma área repleta de jogos de tabuleiro. Com isso, atendemos todos os tipos de geek e também quem não é desse universo mas quer descobrir sobre ele — afirma Tatiana.

O Geek & Game Rio Festival será realizado de 21 a 23 deste mês, das 10h às 21h, no Riocentro. Os ingressos vão de R$ 55 (um dia, no primeiro lote) a R$ 581 (os três dias e algumas atividades incluídas). Mais informações em ggrf.com.br/ingresso.php.

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oglobo.globo.com | 09-04-2017
o senhor holandês devia conhecer melhor a Europa para perceber que “copos e mulheres” estão profundamente embebidos em todo o lado laico da cultura europeia.
www.publico.pt | 08-04-2017

É só à primeira vista que a distância que separa a Alemanha do Brasil parece grande. Mas, se olharmos com mais atenção, já não restam dúvidas: num mundo interconectado e cada vez mais complexo, onde as velhas estruturas de governação estão desmoronando, e valores que se consideravam adquiridos estão em risco de erodir, queremos cerrar fileiras e defender juntos nossos valores comuns.

Chegou o momento de passar das intenções à ação. Nesses dias, em Porto Alegre, se realiza a inauguração solene de um Centro de Estudos Europeus e Alemães que conta com o apoio do Ministério Federal das Relações Externas. O objetivo do centro é aproximar uma nova geração de estudantes e cientistas brasileiros da realidade europeia e alemã e, com isso, fomentar o intercâmbio científico entre a Alemanha e o Brasil. Queremos corações empenhados e mentes brilhantes que, transpondo o Atlântico que nos separa, vão se reunir na busca por respostas conjuntas a questões prementes que se colocam a ambos os lados.

Isso apenas será possível se conseguirmos envolver as gerações jovens. Na Alemanha, sinto nos jovens um grande entusiasmo pelo Brasil, sua cultura e seus habitantes. Também no Brasil, o interesse pela Alemanha está crescendo. Atualmente já são 135.000 brasileiros que aprendem alemão, 80.000 deles no contexto escolar.

Não é, portanto, coincidência que o primeiro Centro de Estudos Europeus e Alemães de toda a América Latina e de todo o hemisfério Sul nasce no Brasil.

O Brasil desempenha um papel de destaque na política externa alemã e é para nós um importante parceiro global. Só juntos seremos capazes de encontrar respostas justas a desafios globais, como as mudanças climáticas, a globalização e a urbanização. Já hoje, nossa cooperação multilateral é muito estreita. Juntos nos empenhamos por uma reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas para adaptá-lo às realidades geopolíticas do século XXI. Juntos apresentamos à Assembleia Geral da ONU uma resolução sobre o direito à privacidade na era digital, para que os direitos humanos também sejam protegidos on-line.

E podemos fazer muito mais! Devemos continuar nos empenhando em conjunto pela conclusão rápida e exitosa das negociações entre a UE e o Mercosul para um Acordo de Associação com medidas abrangentes em matéria de livre comércio que aprofunde as relações políticas entre as nossas regiões, promova investimentos e facilite as trocas comerciais. Hoje, São Paulo é, juntamente com Xangai, o mais importante polo da indústria alemã fora da Alemanha. Estima-se que as empresas alemãs empregam cerca de 240 mil pessoas em todo o Brasil.

Queremos construir verdadeiras pontes entre nossos países. O Centro de Estudos Europeus e Alemães é uma importante contribuição para alcançar esse fim. Se assistirmos sentados, não teremos qualquer influência no jogo — temos de entrar no gramado! Por isso, a parceria entre o Brasil e a Alemanha e entre a América Latina e a Europa se reveste de grande importância para nós.

Sigmar Gabriel é ministro das Relações Exteriores da Alemanha

oglobo.globo.com | 08-04-2017

RIO — Rafael Coutinho costuma dizer que faz parte de um grupo cada vez maior de quadrinistas que querem criar suas próprias histórias, imprimindo nelas um registro realista, e que ambicionam experimentações plásticas e gráficas. Assim foi com “Cachalote” (2010), feito em parceria com o escritor gaúcho Daniel Galera. E assim é com “Mensur”, lançado recentemente pela Companhia das Letras. O álbum de 200 páginas e em preto-e-branco conta a história de um andarilho, Gringo, que vaga de cidade em cidade fazendo bicos para sobreviver. O personagem, é claro, esconde um segredo que só vem à tona quando ele se envolve em um caso amoroso.

Rafa, como é conhecido o autor, conta que “Mensur” foi feito sob encomenda. Depois de comprar os direitos de adaptação para cinema e produtos audiovisuais de “Cachalote”, o produtor Rodrigo Teixeira, da RT Filmes, perguntou se o artista tinha algum novo projeto em mente:

— Nessa época, topei com “O cultivo do ódio”, do Peter Gay. Além desse, o autor fez uma série de outros livros sobre o ódio no século XIX, na Europa. Ele mostra como a burguesia e a aristocracia europeias se expressavam socialmente por meio desse discurso ou justificavam ações de violência. Encontrei o que procurava.

Um dos capítulos da obra de Gay fala sobre o “mensur”, ou esgrima acadêmica, uma competição de espadas surgida na Alemanha do século XV, entre estudantes universitários. A modalidade que dá título ao álbum é definida pelo autor como uma espécie de “ritual de passagem”:

— Não é bem uma luta. São duas pessoas, uma na frente da outra, a uma metragem muito bem definida (daí a palavra mensur, do latim, que significa distância). Eles usam uma vestimenta de couro, com proteção no pescoço para não cortar a jugular, e uma espécie de óculos. E eles trocam golpes alternadamente. O grande trunfo é aguentar tudo sem soltar nenhum pio. Eles saem todos feridos e são suturados ali na hora, por estudantes de medicina. O objetivo é honrar a sua fraternidade, porque é uma disputa entre universidades.

Como o mensur é difícil de ser compreendido fora do seu contexto original, Rafa decidiu montar uma ficção a partir da ideia de estudantes brasileiros que organizam um grupo secreto para praticar a disputa. Mas sempre mantendo um registro realista: não existe por aqui e continua sendo estranho à cultura brasileira. Gringo, o personagem principal da história, está entre eles.

— Aos poucos, fui encontrando esses personagens. São estudantes de Ouro Preto que organizaram um grupo. Depois de um tempo, acontece um acidente, e um deles morre. O Gringo, que participa de tudo, fica muito ligado a esse passado traumático. Ele é um sujeito rígido, que tem dificuldade de achar um lugar de relaxamento moral dentro da sociedade brasileira. É um estranho aos modos cotidianos da nossa sociedade, porque tem dificuldade de aceitar o jeitinho brasileiro — diz o autor.

Ao explicar os paralelos de “Mensur” com o mundo contemporâneo, Rafa pondera que vivemos em uma sociedade violenta. E as circunstâncias pelas quais esse ódio passou a fazer parte do nosso cotidiano o deixaram “mexido”. Por isso, diz, sentiu necessidade de se aprofundar no tema:

— Confesso que ainda estou tentando encontrar os paralelos. Mas acho que um pouco tem a ver com esses acordos sociais que envolvem violência e que a gente aceita. São esses jogos que a gente joga, no Brasil atual, que vão da corrupção em diversas escalas até a violência propriamente dita contra homossexuais, travestis e negros da periferia. Essa nossa forma agressiva de nos tratarmos. O jeito agressivo que a gente vive numa sociedade capitalista e competitiva.

“Mensur”

Autor: Rafael Coutinho. Editora: Companhia das Letras.

páginas: 200. preço: R$ 54,90.

oglobo.globo.com | 02-04-2017

VENEZA — Wim Wenders já havia terminado de filmar “Pina” (2011), documentário sobre vida e obra da coreógrafa Pina Bausch, sua primeira experiência com 3D, quando descobriu que James Cameron estava rodando “Avatar” (2009) com uma versão avançada da tecnologia. Eram os primórdios da nova geração do processo estereoscópico de captação de imagens, hoje bastante difundido, e, por isso, o diretor alemão não lamenta ter perdido essa “corrida”.

— De certa forma, sou muito grato a Cameron por ter colocado o 3D no mapa, pois acho que nem sequer teríamos conseguido distribuir “Pina” não fosse o caminho aberto por “Avatar”. Por causa dele, um rico filme de estúdio, muitas salas de cinema se equiparam com projetores 3D, o que foi muito bom para o nosso modesto documentário — lembrou Wenders durante o 73º Festival de Veneza, em setembro passado, onde apresentou “Os belos dias de Aranjuez”, seu mais novo contato com o cinema tridimensional que estreia nesta quinta-feira nos cinemas brasileiros.

Naquela época, Wenders tinha a impressão de que o 3D seria abraçado também por documentaristas, realizadores independentes ou voltados ao cinema experimental, e não uma tecnologia exclusiva de projetos grandiosos em busca de efeitos meramente visuais. Mas a técnica acabou virando apenas um atrativo de produções comerciais.

— Como cineasta, meu desejo é colocar o espectador dentro do que está sendo filmado. Em “Pina”, o 3D me permitiu levar as pessoas ao ambiente dos dançarinos, ao espaço que eles ocupam — explicou o cineasta, autor de títulos como “Asas do desejo”, que definiram o cinema alemão dos anos 1980. — As possibilidades são imensas, mas poucos foram atrás delas. Os grandes estúdios fizeram todos acreditarem que o 3D era exclusivo deles. Banalizaram a linguagem. Daqui a pouco, ninguém mais vai fazer esse tipo de filme.

Em “Os belos dias...”, ele aplica a tecnologia a um drama intimista, em torno de um longo diálogo entre um homem e uma mulher, criados pela imaginação de um escritor (Jens Harzer) e interpretados, respectivamente, por Reda Kateb e Sophie Semin. A conversa se dá nos jardins de uma casa de campo perto de Paris (a locação usada foi o imóvel onde viveu a atriz Sarah Bernhardt), o que inspirou o realizador de 71 anos a usar o 3D e uma câmera dupla, como que reproduzindo a visão dos olhos direito e esquerdo, simulando a sensação de profundidade de campo.

— A estereoscopia é uma linguagem muito delicada, que pode imitar os nossos olhos se usada com naturalidade. Uso o 3D de forma complementar à imagem, uma janela para o mundo.

O filme é uma adaptação da peça homônima do austríaco Peter Handke, um dos colaboradores mais antigos de Wenders. Nela, personagens sem nome discorrem sobre memórias de infância, experiências sexuais e as diferenças das perspectivas masculina e feminina. Cenário e situação remetem ao casal bíblico original — e uma discreta maçã na mesa deixa claro o paralelo com Adão e Eva, agora em tempos de batalha de gênero.

— O jardim evoca o Éden, o paraíso. As pistas estão lá, só que em outro contexto — disse Wenders. — Embora o filme não seja específico sobre o tempo, os diálogos falam dos anos 1960 e 1970, do passado das personagens. A noção de sexo mudou muito nas últimas décadas. Parece que o diálogo entre o homem e a mulher encolheu no meio dessa discussão sobre gêneros. O sexo representa coisas diferentes para homens e mulheres hoje em dia.

“Os belos dias...” é o primeiro texto de Handke escrito diretamente para a língua francesa e o primeiro filme de Wenders, que já rodou nos EUA e em diferentes países da Europa, falado em francês.

— Foi uma escolha deliberada. Há coisas que, ditas em alemão, soam pesadas, rudes. Quando você vê com legendas em alemão, se dá conta da leveza com que os franceses lidam com o dia a dia.

oglobo.globo.com | 30-03-2017

Manuel Casimiro Brandão Carvalhais de Oliveira tinha 35 anos quando ganhou uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian para fazer pesquisas em artes visuais na França. Depois de dois anos de estudos pela Europa e uma temporada em Nova York, fixou residência em Nice, na Côte d’Azur, onde moraria por quase 20 anos, período em que consolidou a carreira de artista plástico, desfrutando da convivência com artistas e intelectuais como Michel Butor, Pierre Restany e Peggy Guggenheim. Deixar o Porto, sua cidade natal, (para a qual retornou há duas décadas), segundo ele foi a melhor passo que pôde ter tomado em direção à sua independência profissional, longe da sombra da popularidade do pai, o cineasta português Manoel de Oliveira (1908-2015).

— Pelo fato de ser filho de quem sou, a minha vida, se a queria independente, em Portugal seria difícil. Aproveitei a bolsa na França para lá me instalar, e levar a cabo a minha profissão. Lá fiquei quase 20 anos e conheci gente fantástica, filósofos, escritores, poetas, críticos, que enriqueceram minha maneira de pensar — reconhece o pintor, escultor e designer português de 75 anos, o mais velho de quatro irmãos. — Infelizmente, meu pai já se foi. Tinha e tenho grande admiração pelo trabalho dele, mas fui sempre muito independente. Nunca usei o nome dele para me abrir qualquer porta. Sempre assinei apenas Manuel Casimiro.

As trajetórias de Manuel e de Manoel chegaram a se cruzar pelo caminho, em palestras no exterior ou mesmo em projetos de filmes. Mas a verdade é que o artista conseguiu construir uma obra com identidade própria, que hoje figura em coleções particulares e de instituições culturais, como o Museu de Arte Moderna e Contemporânea de Nice e o Centro Galego de Arte Contemporânea de Santiago de Compostela. Sua marca registrada são as formas ovais, elípticas, que há décadas surgem em seus principais trabalhos, como a série de quadros da exposição “Identidade(s) 2”, que propõe uma “desconstrução” dos símbolos da bandeira brasileira, que circulou por Portugal e Europa e ele espera poder trazer também para o Brasil. Na entrevista a seguir, o artista português, que não vem mais vezes ao Brasil porque “detesta andar de avião”, fala sobre a gênese da exposição inspirada no pendão brasileiro, repassa seu percurso nas artes plásticas e lembra de momentos de sua relação com o pai famoso.

“Identidade(s) 2” é um desdobramento de uma exposição anterior, inspirada na bandeira portuguesa. O que motivou essa série de estudos sobre o pendão brasileiro?

A exposição “Identidade(s)”foi visitada por um brasileiro que conheci por intermédio de amigos. Ele me desafiou a fazer o mesmo com a bandeira do Brasil. Na altura, inicialmente ter-lhe-ia dito não estar interessado, pois realmente não me sentia motivado, não conhecia bem a história da bandeira brasileira. Mas a curiosidade levou-me a investigar. Pouco a pouco, fui descobrindo coisas que me interessaram e libertaram ideias que no início me levaram a desenhar e a pintar a propósito da bandeira brasileira pequenos papéis de bloco de apontamentos, a que se seguiram outras pinturas maiores, quer em suportes de papel mas também de tela, primeiro de dimensões reduzidas, e depois de maiores formatos.

O título sugere uma investigação sobre os símbolos nacionais da bandeira. O que de mais curioso o senhor descobriu no caso da brasileira?

Como bem sabe, são as bandeiras nacionais que identificam cada um dos países. Em relação à nossa bandeira, ou à do Brasil, executei pinturas a acrílico sobre papel e tela de variados formatos, todas elas reminiscentes das cores e de outros elementos presentes em cada uma destas bandeiras. O princípio destas duas séries de pintura foi o mesmo. Não pretendi fazer a destruição da bandeira, símbolo maior dum país, numa atitude iconoclasta. Procedi à sua redefinição enquanto signo transferido para o universo da poética particular do artista.

De que forma essa simbologia é expressa em suas pinturas?

Pus em prática o conceito de “desconstrução” concebido pelo filósofo Jacques Derrida, que como bem sabe não significa destruição, apenas desmontagem, desconstrução dos elementos. A minha intenção é a de provocar o pensamento de cada um a confrontar postulados definitivos, induzir a investigação para em seguida formular uma nova restruturação simbólica. Nestas obras a propósito das bandeiras, portuguesa e brasileira, como de resto em todo o meu trabalho, procuro desafiar o espectador e provocar a nossa razão, a inteligência e a sensibilidade.

Gerações cresceram aprendendo que as cores da bandeira estavam ligadas às riquezas do país — o amarelo representava o ouro, o verde, as florestas, e assim por diante — quando, oficialmente, representam as casas reais do Brasil Reino. De que forma essa versão popular se torna evidente em suas pinturas?

A cor amarela se refere à casa de Habsburgo de que fazia parte a imperatriz Dona Leopoldina, e o losango na heráldica está associado ao feminino. A cor verde simbolizará a casa de Bragança, era a cor do estandarte pessoal de Dom Pedro I do Brasil enquanto monarca, antes de se tornar o primeiro imperador do Brasil. Verifiquei na história de Portugal que a casa de Bragança, para a representar, não utilizou só esta cor verde, curiosamente o branco seria porventura até a mais usado, embora também tivessem empregado o azul e mesmo o vermelho. É curioso verificar que todas essas cores figuram na bandeira brasileira com exceção do vermelho. Na minha pintura, para além de considerar todas as cores e formas significantes de uma versão mais erudita, não esqueci a versão mais expandida e popular no Brasil, que refere na sua pergunta o verde alusivo às florestas, e o amarelo ao ouro. As cores que utilizei são as mesmas que vemos na bandeira brasileira.

Em um de seus quadros, o senhor reproduz a frase “L'amour pour principe et l'ordre pour base; le progrès pour but ”, de Auguste Comte, que teriam inspirado os ideias republicanos de “ordem e progresso”. Por que esse destaque?

É do conhecimento geral serem as palavras da autoria do positivista francês Auguste Comte. “Amor”, “ordem” e “progresso” são ideais republicanos que não só derrubaram a monarquia, mas apelavam a condições sociais básicas e melhoramentos materiais, intelectuais e morais para o país. Este princípio é muito forte, e por isso o assinalei. Gostaria de acrescentar algo das teorias de Auguste Comte que a mim me interessa muito e apliquei nas pinturas. Segundo ele, há um método geral onde verificamos a subordinação da “imaginação” à “observação”, embora este método não tenha aplicação em todas as ciências. Ainda a propósito da filosofia de Auguste Comte, interessou-me a compreensão da realidade sempre numa relação continua entre “objetivo” e “subjetivo”, entre “abstrato” e “concreto”.

Como o senhor situa essas duas exposições sobre as bandeiras portuguesa e brasileira se inserem dentro do conjunto de preocupações de sua obra como um todo?

Considero duas exposições muito importantes, diria marcantes, no meu já longo percurso. O meu trabalho ganhou consistência nos finais dos anos 1960, quando apareceu em suportes de papel ou tela aquela forma ovalada, mais próximo duma elipse, a que chamaram ovóide. Forma mínima, vazia de conteúdo, “nada” para ser tudo, receber todos os sentidos possíveis numa reflexão plural. Estas formas idênticas organizaram-se em “estruturas” onde seguiam uma certa lógica, para depois estabelecerem rupturas contrariando a lógica anterior. O ovóide foi a semente que deu origem a raízes profundas donde nasceu um frondosa árvore, com um forte tronco, que deu origem a muitos ramos todos diferentes e com diversificados frutos em cada um deles, mas todos identificados numa gênese comum.

O senhor já pensou em trazer a exposição para o Brasil?

Claro que sim, fazia todo o sentido que fosse ao Brasil. Mas isso não depende só de mim, da minha vontade.

Em 1988, Manoel de Oliveira dirigiu o curta “A propósito da bandeira nacional”, no qual o senhor é coautor do roteiro. Aquele filme tem alguma relação com a exposição atual?

Aquele filme mostra os meus primeiros trabalhos a propósito da bandeira portuguesa, expostos no Museu Nacional de Évora, em 1984, mas não tem nada a ver com a exposição relacionada à bandeira do Brasil. O meu trabalho a propósito da bandeira portuguesa foi um processo que durou 27 anos, naturalmente com hiatos de tempo onde fiz muitas outras coisas.

Nunca pensou em se aventurar a fazer cinema também?

À época da exposição no Museu Nacional de Évora, Manoel de Oliveira filmava um dos seus filmes. Sabia que os longos planos não esgotavam as bobinas de película, ficavam sempre umas pontas, difíceis de se utilizarem. Pedi a ele se me cedia os restos de película e se me emprestava a máquina para fazer um curto filme que perdurasse a memória da referida exposição. Por motivo dos seguros, não foi possível emprestar a máquina, mas permitiu que num fim de semana filmassem aqueles curtos minutos que vemos no filme “A propósito da bandeira nacional". Eu estava em França, mas as filmagens seguiram fielmente um pequeno e detalhado roteiro, com muitos desenhos e indicações, que eu escrevera e desenhara a partir e diante da montagem e do espaço da referida exposição. Lá se assinalava o hino nacional aos soluços, a leitura dum texto por um ator, Luís Miguel Cintra, e por uma atriz, Manuela de Freitas. Um dos textos foi recolhido do livro oficial da descrição da nossa bandeira. Por isso, o filme se chama originalmente “Reflexões de Manuel Casimiro, a propósito da Bandeira Nacional”. Também substituí Manoel de Oliveira no filme “Simpósio de Pedra”, financiado pela Câmara Municipal do Porto. O Simpósio da Pedra coincidia nas datas com as férias do realizador, pelo que a seu pedido fui substituí-lo. O nome dele figura no genérico apenas porque foi uma imposição da CMP, para financiar o filme. Nunca se sabe, pode ser que um dia venha a fazer mais algum filme.

Gostaria de ter feito mais parcerias com Manoel de Oliveira?

Curiosamente, o pai e eu, por vezes, chegamos a tratar de forma diferente alguns assuntos, como foi o caso do Dom Sebastião; eu numa exposição, “Os fantasmas de Dom Sebastião”, dez anos antes do filme dele sobre o imperador português, “O Quinto Império – Ontem como hoje”(2004). Chegamos também a ser convidados separadamente para irmos falar em Bari sobre os mitos portugueses. Na palestra, ficamos na mesma mesa e ninguém desconfiava que éramos pai e filho. Pensaram que a intimidade e proximidade que tínhamos era devido à mesma nacionalidade.

oglobo.globo.com | 27-03-2017

RIO – Bob Dylan se abriu sobre sua música e falou sobre sua relação com a obra de Frank Sinatra e Elvis Presley, além de seu apreço por Amy Winehouse, em uma rara entrevista. A matéria foi publicada com exclusividade em seu site oficial, na última quarta-feira. No próximo dia 31, o músico lança "Triplicate", mais um álbum dedicado aos standards da música americana.

Em uma sessão de perguntas e respostas com o autor Bill Flanagan, Dylan disse que o disco TRIPLO, terceiro do tipo que lança nos últimos anos (além de "Triplicate", ele lançou "Shadows in the night" em 2015 e "Fallen angels" em 2016) não significa que ele tenha "saudades do passado". Para o novo disco, o músico regravou clássicos como "Stormy weather" e "As time goes by".

“Estas canções são algumas das coisas mais dolorosas já colocadas em um disco e quis fazer justiça a elas. Agora que as vivi e vivi através delas, entendo-as melhor”, disse Dylan, de 75 anos. “Não é uma viagem às memórias ou anseio ou saudades dos bons velhos dias ou das boas memórias do que já não existe mais”, garantiu.

Perguntado sobre o que os fãs pensam de álbuns de covers, Dylan disse: “Estas canções são para o homem na rua, o homem comum, a pessoa cotidiana. Talvez seja um fã de Bob Dylan, talvez não, eu não sei”.

ELOGIO A AMY WINEHOUSE

Na entrevista que abrangeu vários temas, Dylan também contou que era fã de Amy Winehouse ("ela foi a última artista original, gostei do último disco dela") e que gosta de bandas como Stereophonics. Dylan também revelou ser um fã da série "I love Lucy", que assiste "o tempo todo, sem parar" quando está entre uma parada e outra de suas turnês.

O músico lembrou ainda sua tentativa fracassada (ao lado de George Harrison) de gravar com Elvis Presley, (“Ele (Elvis) apareceu; nós que não aparecemos”); e o poder do início do rock and roll, (“rock and roll era uma arma perigosa, cromada, explodiu como a velocidade da luz, isto refletiu os tempos, e especialmente a presença da bomba atômica, que precedeu isto em diversos anos”).

Dylan também falou sobre a perda de colegas músicos como Leonard Cohen, Leon Russell e Merle Haggard, que morreram no ano passado. “Éramos como irmãos, vivíamos na mesma rua e todos deixaram espaços vazios onde costumavam ficar. É solitário sem eles”, disse.

Não foi feita menção ao prêmio Nobel de literatura de Dylan e à sua não participação na cerimônia anual de premiação na Suécia. Dylan deve se apresentar na Suécia na próxima semana como parte de uma turnê europeia.

oglobo.globo.com | 23-03-2017

RIO – Bob Dylan se abriu sobre sua música e falou sobre sua relação com a obra de Frank Sinatra e Elvis Presley, além de seu apreço por Amy Winehouse, em uma rara entrevista. A matéria foi publicada com exclusividade em seu site oficial, na última quarta-feira. No próximo dia 31, o músico lança "Triplicate", mais um álbum dedicado aos standards da música americana.

Em uma sessão de perguntas e respostas com o autor Bill Flanagan, Dylan disse que o disco triplo, terceiro do tipo que lança nos últimos anos (além de "Triplicate", ele lançou "Shadows in the night" em 2015 e "Fallen angels" em 2016) não significa que ele tenha "saudades do passado". Para o novo disco, o músico regravou clássicos como "Stormy weather" e "As time goes by".

“Estas canções são algumas das coisas mais dolorosas já colocadas em um disco e quis fazer justiça a elas. Agora que as vivi e vivi através delas, entendo-as melhor”, disse Dylan, de 75 anos. “Não é uma viagem às memórias ou anseio ou saudades dos bons velhos dias ou das boas memórias do que já não existe mais”, garantiu.

Perguntado sobre o que os fãs pensam de álbuns de covers, Dylan disse: “Estas canções são para o homem na rua, o homem comum, a pessoa cotidiana. Talvez seja um fã de Bob Dylan, talvez não, eu não sei”.

ELOGIO A AMY WINEHOUSE

Na entrevista que abrangeu vários temas, Dylan também contou que era fã de Amy Winehouse ("ela foi a última artista original, gostei do último disco dela") e que gosta de bandas como Stereophonics. Dylan também revelou ser um fã da série "I love Lucy", que assiste "o tempo todo, sem parar" quando está entre uma parada e outra de suas turnês.

O músico lembrou ainda sua tentativa fracassada (ao lado de George Harrison) de gravar com Elvis Presley, (“Ele (Elvis) apareceu; nós que não aparecemos”); e o poder do início do rock and roll, (“rock and roll era uma arma perigosa, cromada, explodiu como a velocidade da luz, isto refletiu os tempos, e especialmente a presença da bomba atômica, que precedeu isto em diversos anos”).

Dylan também falou sobre a perda de colegas músicos como Leonard Cohen, Leon Russell e Merle Haggard, que morreram no ano passado. “Éramos como irmãos, vivíamos na mesma rua e todos deixaram espaços vazios onde costumavam ficar. É solitário sem eles”, disse.

Não foi feita menção ao prêmio Nobel de literatura de Dylan e à sua não participação na cerimônia anual de premiação na Suécia. Dylan deve se apresentar na Suécia na próxima semana como parte de uma turnê europeia.

oglobo.globo.com | 23-03-2017

BERLIM — Cientistas na Alemanha estão ligando o interruptor daquilo que está sendo descrito como o "maior Sol artificial do mundo", na esperança de que a engenhoca ajude a jogar luz sobre novas formas de produzir combustíveis amigáveis ao clima. Links clima

Com início previsto para esta quinta-feira, cientistas do Centro Aeroespacial Alemão irão começar a usar a engenhoca na tentativa de descobrir formas de aproveitar a enorme quantidade de energia que chega à Terra na forma de luz do Sol.

O experimento "Synlight", em Jülich, cidade a 30 km de Colônia, consiste de 149 holofotes gigantes normalmente usados para a projeção de filmes. No entanto, em uma sala de cinema, apenas um destes holofotes costuma ser usado.

O conjunto tem 14 metros de altura e 16 metros de largura, e uma potência de produzir uma radiação 10 mil vezes maior àquela que chega à Terra. É um artifício útil especialmente para a Europa, onde o Sol aparece de forma pouco frequente e irregular. Post Sol Artificial

Entre uma das grandes promessas do "Sol artificial" está a contribuição para pesquisas sobre a produção de energia a partir do hidrogênio — um primeiro passo, por exemplo, para tornar mais limpos os combustíveis de aviões. O Instituto de Pesquisas Solares, onde fica localizado o experimento, já vem fazendo pesquisas na área há alguns anos, mas o "Synlight" possibilitará um grande salto para estes estudos.

Em quatro horas, o montante de energia gasto pelo "Sol artificial" é equivalente ao usado por um lar com quatro moradores em um ano.

oglobo.globo.com | 23-03-2017

Quando o assunto é série de televisão, o conteúdo feito no Brasil começa a romper barreiras e a cair no gosto do público internacional. A trajetória, no entanto, não é fácil. Embora serviços como o Netflix digam estar conseguindo convencer espectadores a assistir a produções de diversas parte do mundo, dubladas ou legendadas, produtores locais afirmam que alguns conteúdos em português têm dificuldades de aceitação no exterior.

Os dois segmentos que estão conseguindo transpor essa barreira com mais facilidade são os documentários e as animações. Hoje, segundo a Bravi - associação que reúne as produtoras independentes no Brasil -, 38% do conteúdo local consumido lá fora é de documentários, seguido pelas animações, com 24% (veja quadro ao lado). Já as propostas de ficção, apesar do "boom" das séries de televisão, ainda enfrentam desafios.

Pelo mundo. Entre as séries nacionais mais vendidas figuram Peixonauta e O Show da Luna, ambas da TV Pinguim, que hoje estão presentes em 89 e 96 países, respectivamente. Luna está entrando na quarta temporada, e Peixonauta vai virar longa-metragem ainda este ano. Para garantir que as produções tenham boa aceitação lá fora, os desenhos são feitos para se adequarem às falas em inglês. Posteriormente, os conteúdos são dublados em outros idiomas, incluindo o português.

"Essa foi a forma de vencermos a barreira do americano para conteúdos dublados", diz Kigo Mistrorigo, da TV Pinguim. Hoje, além e Luna e Peixonauta, que incluem uma longa lista de produtos licenciados, a TV Pinguim produz, em parceria com o Canadá, Ping & Pong, concebida para ter 52 episódios de 7 minutos. A série já tem contrato de exibição no Brasil (na Discovery Kids) e no Canadá (TVO).

À medida que o Brasil ganha reputação, as coproduções tornam-se mais comuns. É o caso de Meu Amigãozão, exibido em 117 territórios. Embora o conceito seja pensado para uma audiência global e produzido em inglês, aspectos da cultura brasileira evidenciam a origem da série. "O tipo de construção que aparece ao fundo, e o fato de as pessoas jogarem futebol, e não beisebol, são alguns dos aspectos (de brasilidade)", diz André Breitman, da 2dLab. A produtora prepara a série infantil, a Maxi Mais, também em parceria com o Canadá, para o ano que vem.

Outros gêneros

No caso dos documentários - categoria em que também se encaixam alguns programas de "aventura" -, as séries ligadas à fauna e à flora brasileira têm boa procura. No entanto, segundo Fernando Dias, sócio da Grifa Filmes, aos poucos a capacidade de produção brasileira está sendo reconhecida. "No mercado internacional, importa sua capacidade de entrega, e não de onde você é", diz o executivo, que já produziu séries exclusivas para canais estrangeiros como franco-alemão Arte.

Em alguns casos, o sucesso internacional de certos conteúdos chega a surpreender. Foi o caso da série culinária Receitas de Viagem com Bel Coelho, que falava de gastronomia brasileira. Originalmente pensada para o Brasil, a série foi exibida pela Europa. "Acabamos fazendo duas versões: na internacional, usamos imagens mais óbvias do Brasil, como do Pelourinho, em Salvador." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Dentro de campo, um defensor de um jogo construído desde a defesa através de trocas de passes, de um modelo ofensivo. Fora dele, chama atenção o vasto currículo acadêmico, com direito a um diploma que raros treinadores no Brasil possuem: a licença Uefa Pro, a mais importante da Europa, que permitiria a Mílton Mendes, 51 anos, novo técnico do Vasco, dirigir qualquer clube do Velho Continente. Vasco x botafogo

A formação como treinador aconteceu em Portugal, país que, nas últimas duas décadas, caracterizou-se por lançar vasta literatura e muitos treinadores de ponta no mercado, de José Mourinho, hoje no Manchester United, a Leonardo Jardim, no topo graças ao ótimo desempenho do seu Monaco, um dos oito times ainda vivos na Liga dos Campeões.

A carreira do lateral-direito Mílton Mendes, que iniciara no próprio Vasco, entre 1984 e 1987, terminou no modesto Machico, hoje sem atividade profissional. Mendes decidiu permanecer em Portugal para estudar: começou a colecionar licenças da Uefa e trabalhos em clubes de menor porte do país. Passou quatro anos no Qatar e chegou ao Brasil para treinar o Paraná, em 2014. Em seguida, por indicação do Atlético-PR, foi contratado pela Ferroviária-SP. Os dois clubes tinham uma parceria e o trabalho no interior paulista foi visto pelos paranaenses como um laboratório, que levou Mendes ao Atlético.

Desde então, conviveu com problemas comuns aos técnicos do país: os trabalhos curtos, apesar dos elogios pela boa organização dos times e pelo jogo ofensivo.

Conquistas no Santa Cruz

No Atlético-PR, ficou apenas cinco meses; no Santa Cruz, nem as conquistas do Campeonato Pernambucano e da Copa do Nordeste, em 2016, impediram que o trabalho durasse mais do que cinco meses. Na ocasião, o próprio treinador pediu demissão. Dias antes, em meio a uma sucessão de resultados ruins no Campeonato Brasileiro, surgiram em Recife relatos de forte desgaste com os jogadores que, no entanto, foram a público apoiá-lo, interrompendo uma entrevista coletiva de Mendes após uma derrota para a Ponte Preta, em casa, por 3 a 0. O técnico saiu, mas o Santa Cruz, conforme previsto, foi rebaixado.

O início de 2016 marcava a ascensão de Mendes, sua afirmação no cenário nacional como um dos técnicos mais promissores do país. Ao falar dos títulos ganhos em Recife, deixava claro que a dificuldade de entrar no circuito dos grandes clubes do país o incomodava.

— Aqui no Brasil, acham que você precisa nascer grande. Eu estou preparado — disse ao GLOBO, em entrevista no ano passado.

Adepto da soma entre conhecimento acadêmico e experiência prática, o treinador usa o 4-2-3-1 como sistema que serve de base a uma série de variações no decorrer dos jogos, chegando a usar o 4-3-3 e até o 4-2-4 em fases ofensivas. No entanto, defende a adaptação ao rival.

—Nem sempre é possível ir de peito aberto. É preciso saber se você tem uma Ferrari ou um Fusca — diz.

Costuma falar com empolgação sobre modelos de treinamento que conduzam à boa execução do jogo, à aproximação entre jogadores para gerar opções de passe, o que técnicos chamam de jogo apoiado. Diz ter como meta fazer o jogador de futebol ser mais capaz de tomar decisões.

— Mostro e eles nosso jogo e pergunto: “Por que você está aqui?”, “Por que esta opção?” É importante isso. O Brasil precisa estimular o jogador de futebol a pensar mais — afirma.

oglobo.globo.com | 20-03-2017

Acordar antes do sol raiar, pedalar dezenas de quilômetros por dia, cuidar da alimentação — às vezes com nutrólogos — e ser agraciado apenas com medalhas por participação. Assim é a vida do ciclista amador, que investe tempo e muito dinheiro no esporte apenas por amor. E o mercado brasileiro acompanha a paixão desses atletas com inúmeros eventos voltados exclusivamente para eles. Este ano, o país vai receber a primeira edição da franquia do Gran Fondo Nova York, em agosto, em Conservatória, distrito de Valença, no Rio.

Para os ciclistas, o objetivo principal é completar um dos dois percursos de estrada, divididos por categorias: de 80km e de 160km. Porém, o evento não é dedicado apenas ao dia da corrida, nem somente aos atletas amadores. No fim de semana da prova, há uma feira de exposição de produtos ligados ao esporte, food truck, food bike e atrações musicais.

— O Gran Fondo está na mesma linha do L’Étape — evento com chancela da Volta da França, que acontece em São Paulo desde o ano passado. Esses eventos vieram preencher uma lacuna de quem ama pedalar, que investe e adora treinar para isso. Não são profissionais, mas levam o esporte muito a sério — analisa João Magalhães, coordenador de comunicação da Shimano Latin America, ressaltando que é um caminho sem volta. — Não é apenas moda, tem a ver com a nova geração, a procura de mais qualidade de vida, de estilo de vida mais sustentável. As cidades estão sendo redescobertas pelas pessoas e o público mais jovem prefere bike a carro, que não tem mais o glamour de 20 anos atrás. Na última década, vem acontecendo o fortalecimento da cultura da bike.

Ainda não há dados oficiais sobre o número de atletas amadores e a receita total gerada pelo ciclismo. Mas é fato o crescimento da venda de bicicletas e acessórios nas grandes cidades, como Rio e São Paulo.

— Há uma evolução crescente a partir de 2011. Nos últimos dois anos, houve uma ligeira queda na quantidade total. Porém, se caiu o número de bikes compradas/produzidas, aumentou o valor agregado. Antes, a maioria procurava bikes de R$ 400 a R$ 500. Atualmente, a faixa de preços é de R$ 1.500 a R$ 2.000. São bicicletas melhores, que duram mais, para uso constante, não necessariamente para competições — explica João Magalhães.

Criado há sete anos, o Gran Fondo já tem franquias em mais de dez países, como Colômbia, Uruguai, Itália, França, além da edição fundadora em Nova York. A vinda para o Brasil vem sendo negociada há dois anos. A cidade do Rio foi a primeira tentativa. Porém, por causa da falta de data, em 2015, e o período olímpico e de eventos teste, ano passado, não houve acordo. Para este ano, as candidatas foram cidades da Região Serrana, dos Lagos e Conservatória. Por fim, a cidade da seresta, foi escolhida pela localização e paisagem.

O distrito de Valença comemora a escolha. Acostumada a receber mais de 10 mil pessoas no período do carnaval tradicional e do carnaval antigo, em outubro, Conservatória se prepara para abrigar um público bem diferente. A previsão é de 1.500 inscritos. No total, mais de 4 mil pessoas (entre organização, participantes e visitantes) devem se hospedar na cidade nos três dias de evento.

Com apenas dois mil leitos, a Associação Comercial, Rural, Industrial e Turistica de Conservatória (Acritur) está mobilizando os moradores para alugar quartos nas casas e nas fazendas.

— Esperamos ocupação quase total. Não temos o levantamento da receita que vai gerar, mas vai movimentar tanto a parte hoteleira quanto a de serviços de bares e restaurantes, além dos impostos. E é um público que vai permanecer os três dias aqui e vai ter divulgação internacional — disse o presidente da Acritur, Mauro Contrucci.

Quem participa dos eventos sabe que o investimento do esporte é alto. Desde a inscrição nas provas — o Gran Fondo custa R$ 770, no momento — a manutenção do equipamento. Só para começar, o atleta amador precisa desembolsar, em média, R$ 6 mil (bicicleta e equipamentos). Porém, pode chegar a mais de R$ 50 mil.

O valor não importa para quem descobre o ciclismo de alta performance. A rotina e os custos são semelhantes aos de um atleta profissional. Gastos com nutrólogos, preparação física à parte, trabalho mental para as provas, treinos diários... Tudo isso somado a filhos, carreira e cuidados com a casa. Além da vida social.

As mulheres do grupo feminino L’Eroika, que vai participar com 30 integrantes no Gran Fondo, não se importam com a jornada tripla. Às seis da manhã, elas batem ponto na Barra da Tijuca para fazer o percurso até Guaratiba. Ou sobem o Alto da Boa Vista.

A recompensa está nas provas concluídas e nas amizades descobertas. Parte do grupo, por exemplo, vai passar 16 dias pedalando pela Europa.

— Em maio, vamos para Itália, França, Bélgica e Amsterdã. Vamos dar dicas de viagem com bicicleta — conta a criada do grupo, Erika Cury, ex-nadadora e triatleta profissional.

Aos 49 anos, a arquiteta Elisabeth Santucci mudou o estilo de vida há quatro anos. Depois de duas décadas sem fazer exercícios regulares — fora cuidar dos três filhos —, descobriu o ciclismo de recreação. Logo, quis fazer parte dos pelotões pela cidade:

— Me encantei por conhecer mil lugares do Rio. Me encontrei no ciclismo por causa do foco e da motivação. Participo das provas para ter um objetivo para treinar — afirma a ciclista, que completou os 160km do Gran Fondo de Nova Yokr do ano passado.

oglobo.globo.com | 18-03-2017

RIO — Curvas criadas a partir de retas paralelas; prédios de concreto erguidos sob a inspiração de formas da natureza; a arquitetura moderna em constante diálogo com elementos do passado, como o barroco e o gótico. De uma harmoniosa soma de contradições, Antoni Gaudí (1852-1926) criou uma obra singular, que fez de Barcelona um dos centros das transformações arquitetônicas na Europa na virada do século XIX para o XX, graças a construções como o Parque Güell, a Casa Milà, a Casa Vicens e a Basílica da Sagrada Família.

Algumas de suas maiores criações estão representadas na exposição “Gaudí: Barcelona, 1900”, que ocupa o Espaço Monumental do Museu de Arte Moderna do Rio de amanhã a 30 de abril, após passar por Florianópolis e São Paulo. Com 46 maquetes e 25 peças de design criados por Gaudí e outros 45 trabalhos de artistas contemporâneos seus, a mostra desvenda o processo de criação do arquiteto e traça um panorama do modernismo catalão.

— Foi um momento de grande desenvolvimento econômico na Catalunha, que passou a ser a região mais rica da Espanha. Isso criou um ambiente propício ao florescimento de uma nova cultura, amparada por uma burguesia que buscava recuperar a identidade catalã — contextualiza o historiador barcelonês Raimon Ramis, que divide a curadoria da mostra com o conterrâneo Pepe Serra Villalba. — Nesse cenário, Gaudí cria a partir da influência de diferentes tradições arquitetônicas, ao mesmo tempo em que explora todas as formas estruturais. Ele era como uma esponja, que absorvia tudo o que estava a seu redor, reprocessava e utilizava em sua obra. Em nível conceitual, muitas das coisas que Gaudí fez ainda estão sendo assimiladas. Isso faz com que ele permaneça como um dos arquitetos mais importantes e ousados da História, mesmo após quase cem anos de sua morte

ARTIGO: Um sacerdote das formas, por Washington Fajardo

Embora ligado ao movimento modernista catalão, a inspiração em elementos orgânicos, transposta às criações, fez com que a obra de Gaudì ocupasse um espaço único, profundamente relacionada à própria figura do arquiteto.

— Ele trabalhava com maquetes em vez de desenhos, o que deu um caráter muito escultórico à sua obra. Para além das inovações estéticas, Gaudí influenciou a mudança de parâmetros na arquitetura, ao buscar uma eficiência estrutural. Em suas edificações, todos os elementos têm uma razão de ser, representam ou simbolizam alguma coisa — observa Ramis, destacando a sua busca por soluções nas formas da natureza. — Para ele, as formas retas não eram agradáveis ao homem, por isso incorporou elementos orgânicos a seus projetos. Isso é visível ao se entrar na Casa Batlló, que lembra uma gruta, ou ao ficar sob as colunas da Sagrada Família, tendo a impressão de que se está em um bosque. Essas opções arquitetônicas peculiares dificultaram o surgimento de uma escola, digamos, gaudiniana.

ORGANICIDADE E RACIONALISMO

A organicidade nas criações de Gaudí está associada a um profundo princípio racionalista, que o ajudou a executar cálculos arquitetônicos e estruturais complexos. Para desenvolver muitas das inovações ainda presentes em construções contemporâneas, o catalão observava como formas e materiais se comportavam na natureza, através de equipamentos simples, criados com objetos que tinha à mão em seu ateliê. Peças de Gaudí em exposição no MAM

Assim, com um conjunto móvel de feixes metálicos retos, presos a superfícies circulares, ele investigava o paraboloide hiperbólico, obtendo uma curva através da movimentação das linhas paralelas. Ou por meio de pêndulos feitos de correntes ou pesos presos a cordas, observava as formas geradas pela ação da gravidade, aplicadas nos arcos catenários que marcam muitas de suas obras. Alguns desses instrumentos integram a mostra, dando ao público a oportunidade de constatar os avanços que conquistou com os recursos de que dispunha à época.

— Em nível conceitual, muitas das coisas que Gaudí fez ainda estão sendo assimiladas. Isso faz com que ele permaneça como um dos arquitetos mais importantes e ousados da História, mesmo após quase cem anos de sua morte — reflete Ramis.

A exposição no MAM promove o encontro de duas importantes escolas modernistas do século XX, com o legado de Gaudí ocupando o espaço assinado por Affonso Eduardo Reidy (1909–1964).

— Há um diálogo muito interessante entre essas vertentes. De certa maneira, Gaudí e Reidy estão debatendo o mesmo problema: como utilizar ao máximo as estruturas arquitetônicas e como criar formas que sejam agradáveis ao homem, eficientes e onde não haja nenhum elemento supérfluo — conclui Raimon Ramis.

SERVIÇO

“GAUDÍ: BARCELONA, 1900”

Onde: MAM – Av. Infante Dom Henrique 85, Aterro (3883-5600). Quando: Abre amanhã. Ter. a sex., das 12h às 18h; sáb., dom. e feriados, das 11h às 18h. Até 30/4. Quanto: R$ 14. Classificação: Livre.

oglobo.globo.com | 15-03-2017

RIO - O Centro Nacional do Cinema e da Imagem Animada (CNC) é um órgão ligado ao Ministério da Cultura francês, responsável por regular, promover e administrar as políticas audiovisuais do país europeu. Presidente do CNC desde 2013, Frédérique Bredin esteve no Brasil na semana passada para participar do RioContentMarket e concretizar uma parceria com Manoel Rangel, diretor-presidente da Ancine, para estimular a coprodução entre os dois países.

O GLOBO: Que políticas audiovisuais tiveram melhores resultados na França nos últimos anos?

Frédérique Bredin: Destaco o subsídio a toda a cadeia de produção, que incentiva produtores a reinvestir em novas obras. Graças a isso, temos uma produção independente importante, algo que ajuda o surgimento de novos talentos. Por fim, assim como o Brasil, temos um sistema de difusão de conteúdo nacional na TV. Ou seja, as TVs financiam os programas e têm a obrigação de exibi-los em toda a sua grade.

Na França, qual a cota de exibição de conteúdo nacional na TV?

Os canais têm que ocupar a grade com 60% de programas locais ou europeus, o que inclui filmes lançados nos cinemas ou feitos para a TV, documentários, animações e transmissões de espetáculos, como óperas. Também devem investir parte da receita na produção de obras.

A França é um dos territórios da Europa mais atraentes para se filmar uma produção estrangeira. Como isso se tornou possível?

Por causa de um sistema de reembolso de impostos, aprovado no ano passado. Assim, filmes nacionais e internacionais têm um subsídio de cerca de 30% de todas as despesas feitas aqui.

Quais são as intenções desse reembolso?

Incitar os realizadores a vir à França e conhecer nossas culturas e patrimônios e trabalhar com os realizadores e técnicos franceses, que são de altíssima qualidade. Graças a essa medida, recentemente houve muitas filmagens de longas americanos, chineses e indianos, além de séries. “O importante é investir nas escolas. Os alunos aprendem a entender filmes e se acostumam a ir ao cinema. Os cineclubes ajudam na formação”

O cinema francês é historicamente consagrado, tendo ganhado nove Oscars de filme estrangeiro. Como construir uma cultura cinematográfica bem-sucedida?

Primeiro, gostaria de ressaltar que temos muito orgulho do (filme franco-brasileiro) “Orfeu do carnaval” (1959), de Marcel Camus, que, apesar de ter dado o Oscar à França, é falado em português. Mas você tem razão, tivemos a sorte de ter grandes talentos. Além dos motivos que já citei, entendemos há muito tempo a importância do audiovisual como mecanismo de transformação econômica e cultural. Sempre tivemos uma política forte para incutir a cultura cinematográfica nas crianças, graças a dois grandes ministros (da Cultura) que acreditaram nisso: André Malraux, nos anos 1960, e Jack Lang, nos anos 1980. Ambos projetaram o nosso cinema internacionalmente. Temos ainda a sorte de sediar o Festival de Cannes, uma vitrine maravilhosa para o cinema do mundo inteiro e, por acontecer aqui, para o audiovisual francês. Há investimentos do começo ao fim, da formação em escolas de cinema e animação, como a La Fémis, até a exibição nas salas. O importante mesmo é investir nas escolas. Estas têm acordo com as salas de cinema para que os alunos aprendam a entender os filmes e se acostumarem a ir às salas. No Ensino Médio há cineclubes que ajudam na formação.

Como surgiu o interesse em firmar uma parceria com o Brasil? Quais são os detalhes do acordo?

O protocolo estabelece um programa para analisar, conjuntamente, dados sobre a produção e distribuição independente, o futuro das salas de cinema e a revolução digital. E há um programa pioneiro de intercâmbio de funcionários entre a CNC e a Ancine.

Quais as principais políticas francesas voltadas ao streaming e aos serviços de vídeo sob demanda (VOD)?

A ideia é que temos que nos adaptar sempre às novas telas. Antes tínhamos o DVD, cuja produção financiava o CNC por meio de uma pequena taxa. Agora, integramos o VOD a esse modelo. Assim, as novas plataformas, como a Netflix, pagam um percentual da receita. O mesmo vale para o YouTube, que transfere para a gente parte de sua receita publicitária, e operadoras de telefone. Todo esse dinheiro é investido na criação de obras, incluindo digitais. O CNC financia webséries, webanimações e curtas-metragens para o YouTube. O desafio ainda é o streaming ilegal. Temos ações com as empresas que vendem espaços publicitários e com os serviços de pagamento on-line, como cartões de créditos e o Paypal, para que eles interrompam o trabalho com os sites piratas.

Como é a distribuição de salas de cinema na França?

Existem muitas salas, inclusive as independentes, que chamamos de “arte e ensaio”. Nestas, a programação é composta também por filmes universitários. Ao todo, são 5,7 mil salas para uma população de 64 milhões. Metade dos cinemas é de arte e ensaio, que recebem subsídio do CNC para exibir obras com aquele perfil. A frequência é muito satisfatória. Em 2016, vendemos 210 milhões de ingressos. Em 2015, lançamos 300 filmes franceses, e 40% deles são coproduções. Somos muito abertos para construir pontes com outros países.

oglobo.globo.com | 12-03-2017

RIO - SNIKT! Para fãs de quadrinhos, a onomatopeia é clara: são as garras metálicas de Wolverine emergindo de seus punhos. Quem vê o herói no mais recente filme da franquia X-Men, no entanto, talvez imagine um som diferente, truncado e aflitivo. Em “Logan”, o mutante surge grisalho, enrugado e com dificuldade até para acionar suas famosas lâminas, que emperram feito espetos oxidados.

Hugh Jackman, que interpreta o personagem no cinema pela nona (e, segundo ele, última) vez, é a cara da dor, do cansaço... e do sucesso: mesmo recomendado para maiores de 17 anos nos EUA (no Brasil, de 16) pela violência, a produção já chegou a US$ 250 milhões de bilheteria global no fim de semana de estreia. Quem diria: no mundo dos super-heróis, ser velho é o que há de novo. No cinema, na TV, nas histórias em quadrinhos e até nas artes plásticas, surgem paladinos veteranos remando contra a maré juvenil.

VEJA EXEMPLOS RECENTES DE HERÓIS VETERANOS

A atual tendência teve início nos quadrinhos. Já estava presente em dois clássicos dos anos 1980: "Watchmen", de Alan Moore e Dave Gibbons, que imaginava heróis envelhecidos em um cenário realista, e "O Cavaleiro das Trevas", de Frank Miller, em que um Batman veterano voltava da aposentadoria. Nos anos 1990 o grande exemplo é "O Reino do Amanhã", em que versões idosas de Superman, Mulher Maravilha e o resto da Liga da Justiça tinham de salvar o mundo apesar do reumatismo.

James Mangold, diretor de “Logan” (que vem a ser o “nome civil” de Wolverine) se inspirou em “Old Man Logan”, história de 2008 escrita por Mark Milllar e desenhada por Steve McNiven. Sem entregar muito do filme nem do gibi: em um futuro próximo, os heróis são escassos e os vilões triunfaram. Todo o colorido dos uniformes de collant deu lugar a roupas discretas, as metrópoles são substituídas por cidades-fantasma. Nessa distopia, Wolverine leva uma vida pacata, longe de seus dias de fúria e glória. Pois “Old Man Logan” foi um sucesso, trouxe leitores adultos de volta para os títulos da editora Marvel e apontou que heróis veteranos eram um filão a ser explorado.

WOLVERINE VULNERÁVEL

Para muitos, foi justamente o fator imprevisível o grande atrativo para ir ao cinema — desde o trailer lançado ano passado, que já quebrava a expectativa ao trazer na trilha sonora “Hurt”, sofrência de Johnny Cash. Fernando Caruso, humorista, roteirista e nerd de quatro costados, compara a última aventura de Wolverine com a leva recente de filmes de super-herói:

— As produções são censura livre e os estúdios anunciam as sequências com anos de antecipação, então você sabe que não vai acontecer nada de trágico com nenhum personagem porque há crianças na sala e porque os atores precisam estar no próximo filme. Nesse caso, em que se trata de um filme com uma história fechada, que se passa em um universo separado dos outros, tudo pode acontecer.

Caruso também ressalta que um Wolverine vulnerável veio a calhar.

— Faz com que ele se aproxime da gente, você se importa mais com o personagem. Curioso que isso era um conceito básico dos personagens da Marvel dos anos 1960, que tinham defeitos, problemas, e que agora volta — diz Caruso, participante do podcast Podcrastinadores (podcrastinadores.com.br), que esta semana terá “Logan” como tema.

Quem está lutando para manter seu herói veterano longe da aposentadoria é a concorrente da Marvel, a DC Comics, cujos personagens são levados ao cinema pelo estúdio Warner Brothers. Nos mais recentes filmes do Universo DC, o posto de “supersênior” coube ao Batman, encarnado por um sisudo Ben Affleck.

Quando o nome do ator foi anunciado para “Batman V Superman” (2016), houve revolta. Após uma bem-sucedida trilogia do diretor Christopher Nolan em que Christian Bale encarnou o justiceiro de Gotham City, os fãs — sempre eles — temeram pelo pior. O termo “Bat-Fleck” virou meme, sempre associado a piadas sobre o iminente fracasso que viria. Para surpresa de todos, quando o filme estreou, Ben Affleck era das poucas coisas que se salvava. Blockbuster sem pé nem cabeça, a superprodução de US$ 250 milhões foi trucidada por público e crítica, mas vários elogiaram o retrato de um Batman rodado, cansado de guerra, que já viu de tudo e que , apostando na experiência, dá um surra no Superman.

Agora, a luta dos executivos é para que Affleck continue sendo Batman por mais uma série de filmes — inclusive uma aventura solo que, após várias idas e vindas, está programada para 2018. O ator pulou fora de dirigir o filme, mas segue escalado como protagonista. Até a Mulher-Maravilha dos filmes da Warner tem um quê de veterana: sim, sua intérprete é a sílfide Gal Gadot, 31 anos, mas o personagem tem mais de 100 anos, e seu filme vai se passar na Primeira Guerra Mundial.

PASSAGEM DE BASTÃO

Encarregado de um empreendimento bem menor que a DC ou a Marvel, João Carpalhau aprova o esforço para manter Ben Affleck como Batman — ou qualquer um que represente uma versão mais madura do Cavaleiro das Trevas. Criador da Capa Comics (apacomics.com), selo independente que publica histórias de autores e de heróis da Baixada Fluminense, ele considera o envelhecimento dos super-heróis não só natural, mas necessário.

No caso do cinema, explica Carpalhau, há uma necessidade óbvia. Os estúdios estão trabalhando com pessoas, atores que estão envelhecendo e não podem fingir de jovens para sempre.

Isso já aconteceu com Robert Downey Jr., que viu sua carreira renascer ao encarnar o Homem de Ferro. Ao longo de vários filmes, ele foi passando o papel de playboy para líder dos Vingadores e, agora, mentor de um jovem Homem-Aranha que ainda está cursando o Ensino Médio.

Em “Logan”, Wolverine se vê às voltas com a jovem Laura, uma espécie de pupila de passado misterioso e um presente perigoso. É uma dinâmica muito comum nos westerns clássicos — “Logan” inclusive cita “Os brutos também amam” mais de uma vez para escancarar a referência.

— Os heróis começam a passar o bastão, como se já tivessem percorrido sua jornada, e agora chega a hora de virar mentor do próximo. Isso abre um novo leque para os produtores: ao invés de periodicamente reiniciar tudo atores mais jovens, é possível haver um convívio de gerações, um senso de continuidade — diz Carpalhau, que inclusive criou um anti-herói veterano na Capa Comics, o sádico Seu Joel. — Os velhos heróis estão aí porque se tornaram algo além do mercado, além da indústria. São os novos mitos da Humanidade.

Se há um personagem que pode ser chamado de mito, este sujeito é Bond, James Bond. Pelas regras em vigor desde que Sean Connery assumiu o papel nos anos 1960, o ator que encarna o 007 vai ficando até onde for possível, quando então é substituído por um homem branco, britânico e mais jovem. O Bond atual, Daniel Craig, já esteve em quatro filmes e completou 49 anos há dez dias. Após sinalizar que ia pedir dispensa do serviço secreto, agora indica que pode continuar no cargo. Seja qual for a decisão, no que depender dos fãs (e, em manifestações explícitas, das fãs), Craig ainda tem físico para encarnar um Bond com 50 ou até 60 anos. “Sem falsa modéstia, acho que ainda consigo enganar mais um pouco”, disse Craig em um entrevista recente - e a fala poderia ser de Harrison Ford, que aos 74 ainda fala em vestir o chapéu de Indiana Jones.

Na Suécia, país com a maior longevidade da Europa, o fenômeno dos super-heróis veteranos inspirou um artista plástico. Andreas Englund, pintor hiper-realista que faz paródias de imagens clássicas, criou a série de quadros “The old superhero”, em que retrata um herói idoso não identificado em cenas cotidianas. Cada obra fica entre 10 e 20 mil dólares — ou entre 30 e 60 mil reais.

Feliz com o sucesso (vendeu quase todos os quadros), Andreas sente que faz parte de uma tendência:

— Acho que a cultura pop de hoje quer desafiar os preconceitos e estereótipos. Sinto que toco as pessoas quando mostro um herói decadente. Faz com que você se importe com ele. Tornar-se velho, tornar-se frágil... É tornar-se mais humano.

oglobo.globo.com | 12-03-2017

BERLIM — Na contramão da sua tradição histórica, conhecida por receber judeus que fugiam da perseguição nazista e como um país progressista e liberal, a Holanda acompanha com suspense a expansão da extrema-direita e do racismo, o que pode ganhar contornos ainda mais fortes com a possível eleição de Geert Wilders, candidato do Partido da Liberdade (PVV), na próxima quarta-feira. Ao contrário de outros países onde a extrema-direita cresce, a Holanda não sofreu um atentado terrorista, não tem uma alta taxa de desemprego nem enfrenta uma crise econômica, daí a surpresa com o descontentamento da população com os partidos tradicionais e o impulso que o movimento vem tomando desde o início do século. Holanda

Embora todos os partidos, inclusive o conservador do primeiro-ministro Mark Rutte (DVV), já tenham recusado de antemão qualquer tipo de aliança com Wilders, uma vitória do PVV é vista por analistas políticos como ameaça para a União Europeia. Não só pelo fato de o candidato defender a saída do país do bloco como porque poderia causar reflexos nas eleições francesas, em abril.

— O sucesso da extrema-direita na Holanda é um enigma que desperta, de novo, muitas indagações sobre a identidade nacional do povo holandês — lembra o escritor Geert Mak.

A enorme popularidade do político, que tem como principal meta o fechamento das fronteiras contra a entrada de imigrantes, é vista como uma contradição, ainda mais porque trata-se de um país que deve a sua riqueza à indústria de exportação, com crescimento do PIB e baixa dívida externa. Apesar disso, muitos citam a imigração — e o temor de perder seu emprego para estrangeiros — para justificar o voto em Wilders.

— Os eleitores da extrema-direita não são os pobres no sentido clássico, mas aqueles que têm medo de ficar pobres — afirma Philipp Krämer, cientista político da Universidade Livre de Berlim.

Info - Holanda crise econômica

Os analistas estão divididos sobre se o racismo e a xenofobia aumentaram em consequência de Wilders ou se ocorreu o contrário, ou seja, o candidato é um produto dessa mudança. Para a antropóloga e socióloga Gloria Wekker, da Universidade de Utrecht, autora do livro “White innocence” (“Inocência branca”), o racismo é produto da própria cultura colonial, embora tenha piorado nos últimos anos com novos elementos.

— O racismo faz parte da história do passado colonial holandês e do presente — diz a especialista.

Para Wekker, nascida em Paramaribo, capital do Suriname (ex-Guiana Holandesa), há 67 anos, o que mudou foi o alvo da discriminação. Antes, eram os imigrantes das ex-colônias que precisavam conviver com o racismo, sem que o problema fosse abordado diretamente. Hoje, há também uma reação contra os muçulmanos, que já representam 5% da população.

— O racismo nunca deixou de fazer parte da sociedade holandesa. Os séculos de história colonial deixaram suas marcas. O que mudou foi que o racismo ficou mais ostensivo — diz.

Já o filósofo Luuk van Middelaar observa uma mudança brusca nos últimos 20 anos, o que tornou o fenômeno Geert Wilders possível.

— Tudo começou com o assassinato do político Pim Fortuyn e do cineasta Theo van Gogh — aponta Middelaar.

Fortuyn — assassinado em 2002 por um holandês que o via como ameaça aos direitos das minorias — liderava um partido anti-imigração e criticava o crescimento da população muçulmana no país. Nessa época, começavam a se formar comunidades de estrangeiros nas periferias das grandes cidades, como em Zuidoost, no Sudoeste de Amsterdã. Dois anos depois, o cineasta Theo van Gogh, que também criticava a imigração muçulmana, foi morto por um holandês de origem marroquina. Os principais candidatos na eleição presidencial da Holanda

Em um país de 17 milhões de habitantes, sendo que 19% são allochthon (pessoas de origem estrangeira), o abismo entre as etnias tornou-se cada vez maior. Para conter a extrema-direita, o governo começou a atender exigências. Da antiga política liberal de imigração, surgiu uma das mais rigorosas da Europa.

— Os imigrantes são hoje tratados como gente de segunda classe — critica Selcuk Öztürk, filho de turcos e cofundador do Denk (pense), partido dos imigrantes.

Para alguns, a xenofobia seria resultado também de um déficit de identidade nacional. Como disse certa vez a rainha Máxima, argentina casada com o rei Willem Alexander, o país, como uma fonte de identidade nacional, não existe. Ainda princesa, ela afirmou que o Norte é quase escandinavo; o Leste, meio alemão; Maastricht, francesa; enquanto as cidades de Randstad se identificam com o litoral atlântico.

— Com a globalização e o neoliberalismo, os holandeses voltam a tentar descobrir uma resposta para uma pergunta antiga: quem somos nós — diz o escritor Geert Mak, autor de “Pânico moral”.

Segundo Carola van Rihn, da NBTC Holland Marketing, muitos imigrantes já começaram a deixar o país com medo do efeito Wilders.

Lodewijk Asscher, vice-premier e candidato do Partido do Trabalho (PvdA), que encolheu em proporção igual à do crescimento da extrema-direita, observa que o país mudou nos últimos anos. Seu bisavô era Abraham Asscher, comerciante de diamantes que durante a ocupação nazista foi obrigado a organizar a deportação de outros judeus, como Anne Frank, a adolescente que ficou conhecida através do seu diário.

“Poderíamos dizer que a História se repete. De novo, os social-democratas perdem com uma coalizão de governo mal sucedida”, escreveu o jornal judaico “Jüdische Allgemeine”.

oglobo.globo.com | 12-03-2017

A cultura europeia pode ser melhor descrita como uma série de culturas sobrepostas, e que envolve questões de Ocidente contra Oriente e Cristianismo contra Islão. Existem várias linhas de ruptura culturais através do continente e movimentos culturais inovadores discordam uns dos outros. Assim, uma "cultura comum europeia" ou "valores comuns europeus", é algo cuja definição é mais complexa do que parece.


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