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Bélgica Economia

RIO - O economista que usou uma fábula para falar do enorme abismo social no Brasil em plena ditadura militar — “O rei da Belíndia” mostrava o país como uma ilha de prosperidade cercada por um mar de pobreza —, Edmar Bacha, um dos pais do Plano Real, tomou posse nesta sexta-feira na cadeira 40 da Academia Brasileira de Letras. Com isso, mais um economista alcança a imortalidade. O Real trouxe a estabilidade monetária ao Brasil, depois de décadas de hiperinflação, que parecia ser impossível de vencer. No seu discurso, ele considerou esse momento “o mais alto da sua vida pública”.

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— Desde moço, Edmar usou a imaginação para tornar atraente a compreensão de temas econômicos essenciais para entender o que ocorria no Brasil. Tornou palatáveis as explicações, substituindo a aridez de conceitos abstratos, por palavras simples colocadas em um contexto imaginário para deixar claro o que queria dizer — começou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso a apresentação do novo imortal, com quem trabalhou durante a elaboração e implantação do Plano Real.

Alegria a mais “nesse dia exultante”, com a “óbvia honraria de ser membro da Academia Brasileira de Letras”, afirmou Bacha.

Fernando Henrique prossegue, lembrando a sua fábula sobre a realidade desigual brasileira:

— “O rei de Belíndia” quis mostrar como a política econômica do período do autoritarismo, em um país de desigualdades como o nosso, não ia ao coração das questões, não combatia a desigualdade nem a inflação que a acentuava. Lança mão de inesperadas junções de sílabas para sugerir a mistura entre Bélgica e Índia, na época simbolizando, respectivamente, a prosperidade e o desalento, para ressaltar que as diferenças de renda e os contrastes sociais no Brasil se acentuavam, a despeito do crescimento da economia. O PIB, que aumentara a “taxas chinesas” na década de 70 do século passado, festejado pelo regime autoritário e apelidado de Felicitômetro dos Ricos por Bacha, escondia a distância cada vez maior entre a Bélgica e a Índia existentes no Brasil.

A segunda versão do livro, “Belíndia 2.0”, rendeu a Bacha, em 2012, o prêmio Jabuti como melhor livro do ano de Economia, Administração e Negócios.

Bacha tem 12 livros publicados e organizou mais 18 títulos. Sua atuação extrapolou os muros da academia, alcançando as áreas política e social. Ele presidiu o BNDES e o IBGE — este último logo após o fim da ditadura militar.

Em seu discurso de posse, Bacha exaltou os intelectuais que ocuparam a cadeira antes dele. Seu antecessor foi o jurista Evaristo de Moraes Filho, falecido em julho do ano passado.

— É uma satisfação adicional por estar assumindo a cadeira 40, que tem a peculiaridade de ter sido ocupada, desde o começo, por patronos que foram intelectuais que se distinguiram por unir o pensamento com a ação acadêmica, ação política e ação social — disse o economista.

Por vir de uma família com tradição literária, Bacha se disse satisfeito por seguir esse caminho:

— Quatro dos meu tios foram membros da Academia Mineira de Letras, inclusive a poeta Henriqueta Lisboa. Ela era feminista, não admitia ser chamada de poetisa. Ela dizia que poetisa coisa nenhuma “vocês homens, mesmo quando têm uma designação que termina em A, inventam uma nova, para diminuir as mulheres”.

Ele falou ainda do patrono da cadeira, o Visconde de Rio Branco, “possivelmente o mais importante estadista do Segundo Reinado”:

— Meu antecessor, Evaristo de Moraes Filho, tem uma obra extraordinária e imensa no campo do Direito, da Filosofia, da História das ideias e da Sociologia. Eu me concentro em temas relacionados à transformação social. Ao contrário da lenda, Getulio não outorgou a legislação trabalhista. Ela foi conquistada pelas lutas sindicais e operárias na Primeira República.

‘VAMOS DEIXAR A ‘BELÍNDIA’ PARA TRÁS’

O economista, que atualmente é diretor da Casa das Garças/Instituto de Estudos de Política Econômica, lembrou ainda o episódio da prisão de Evaristo em 1989 e da perda da cátedra na Faculdade de Direito. Quando veio a anistia, ele se recusou a reassumir o cargo.

— Disse que não queria trabalhar ao lado de farsantes que o denunciaram ao SNI, preferindo encerrar prematuramente a sua carreira, sofrendo com isso grande prejuízo financeiro — recordou Bacha.

Fernando Henrique dedicou boa parte de sua apresentação à luta de Bacha para debelar a inflação. O economista participou da elaboração do Plano Cruzado nos anos 1980, o que o ajudou, na década seguinte, a elaborar o Plano Real.

— Edmar Bacha, inspirado por um texto antigo de Pérsio Arida, havia sugerido em nossas reuniões que deveríamos indexar todos os preços, inclusive os salários, à Unidade Fiscal de Referência (Ufir), que fazia a correção monetária diária dos impostos devidos. Propunha a “ufirização” da economia. Estava dada a fórmula para um programa de indexação geral da economia: se tudo se movesse na mesma direção e na mesma velocidade, seria como se a inflação tivesse efeito nulo sobre salários, ativos e outros preços.

Esse foi uma dos pilares do plano que debelou a inflação de 5.000% ao ano. Hoje está em 4,57%.

O mineiro de Limeira foi escolhido imortal em novembro do ano passado, vencendo o ex-ministro do Supremo Eros Grau, por 18 votos a 15. Outros economistas imortais foram Roberto Simonsen, Celso Furtado e Roberto Campos.

— Vamos deixar a “Belíndia” pra trás, vamos tratar de construir um Brasil livre, fraterno e justo — concluiu Bacha em seu discurso de 40 minutos.

Prestigiaram a posse o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn; o ex-ministro da Fazenda Pedro Malan; e os economistas Luiz Roberto Cunha (PUC), Claudio Considera e Regis Bonelli (Fundação Getulio Vargas) e Eduardo Giannetti.

oglobo.globo.com | 08-04-2017

RIO - A aprovação do projeto de lei que regulamenta a terceirização no país é elogiada por associações empresariais, criticada por movimentos sindicais e divide a opinião de especialistas em mercado de trabalho. O ponto mais polêmico é a ampliação das atividades que podem ser terceirizadas. Até então sem legislação específica, uma súmula do Tribunal Superior do Trabalho (TST) proibia que empresas contratassem terceirizados para desempenhar tarefas diretamente ligadas aos seus negócios, as chamadas atividades-fim. O texto permitia apenas a terceirização da chamada atividade-meio, normalmente serviço auxiliar, como limpeza e vigilância.

Para Sylvia Lorena, gerente executiva de Relações do Trabalho da Confederação Nacional da Indústria (CNI), essa diferenciação é difícil, pois não há regras claras que definam o que é atividade-meio e o que é atividade-fim. A organização é a favor da regulamentação.

— A terceirização já é um fato, já ocorre, já existe. Nenhuma empresa consegue fazer tudo sozinha. Hoje, não temos uma regulamentação sobre o tema. Essa ausência faz com que haja insegurança jurídica — destaca Sylvia.

A entidade também argumenta que regulamentar a terceirização melhoraria a competitividade do país. Segundo estudo realizado pela consultoria Deloitte em parceria com a CNI, o Brasil é o único dentro de um grupo de 17 países que diferencia atividade-meio e atividade-fim na legislação sobre o tema. O levantamento inclui países como Colômbia, Peru, China, Alemanha e Bélgica.

João Guilherme Vargas Neto, consultor de entidades trabalhistas, é contra. Ele defende que a mudança fragiliza as relações de trabalho — ou seja, trabalhadores teriam desvantagem:

— Claro que a terceirização é um elemento existente, faz parte da complexidade do capitalismo e, em alguns casos, é tão real que você não tem nem que discutir. A maldade do projeto é que ele desorganiza as relações.

Entre especialistas, há divergências. O economista Hélio Zylberstajn, professor da USP e coordenador do Salariômetro, elogia a mudança.

— Essa dicotomia entre atividade-fim e atividade-meio é uma coisa que não se sustenta. Algumas coisas são muito claras: vigilância é atividade-meio. Limpeza é atividade-meio. Mas e telemarketing? Os próprios juízes se dividem em relação a uma grande parte de atividades a terceirizar. Dependendo de para qual juiz caia aquela ação, a empresa pode ser punida ou não. É uma tentativa superada — afirma.

Zylberstajn acrescenta que ampliar a terceirização é uma necessidade, diante da forma como as empresas se organizam hoje.

— A empresa vencedora no século passado era a empresa vertical. A empresa vencedora nesse século é a horizontalizada, é a cadeia produtiva (com atividades distribuídas entre várias áreas ou empresas). Essa coisa da atividade-fim impede a horizontalização no Brasil — observa.

João Saboia, professor do Instituto de Economia da UFRJ e especialista em mercado de trabalho, destaca que a terceirização tem seu papel, mas também há riscos de que as relações entre empregados e empregadores fiquem mais frouxas. Ele não descarta o risco de precarização:

— Acho saudável uma relação entre empregado e empresa que seja mais duradoura. A empresa está ganhando alguma coisa ao contratar uma mão de obra terceirizada. A empresa que fornece também. Tenho dúvidas se o empregado está ganhando.

oglobo.globo.com | 23-03-2017

RIO - O abismo que separa homens e mulheres no mercado de trabalho não é exclusivo de países pobres. Dados da OCDE, que reúne em sua maioria países de economia avançada, mostram que há nações ricas onde essa desigualdade persiste. O Japão, por exemplo, ocupa o terceiro lugar no ranking de desigualdade salárial, atrás apenas de Coreia do Sul e Estônia.

mulher 8-3No Japão, a diferença entre a média de salários pagos a homens e mulheres corresponde a 25,9% do salário médio dos homens. Na Coreia do Sul, esse percentual chega a 36,7% e na Estônia, a 28,3%. A Bélgica é a que apresenta a menor variação. A diferença de remuneração de gênero corresponde a 3,3% do salário médio pago aos homens. Não há dados para o Brasil.

Segundo a OCDE vários fatores explicam essa distorção nos padrões de remuneração. Entre eles o fato de as mulheres terem uma jornada de trabalho menor, além de serem empregadas em ocupações que pagam menos. Para tornar essa relação menos desigual, cresce o consenso nesses países de que a divisão de tarefas domésticas é crucial.

NA ALEMANHA, MAIS PAIS CUIDAM DOS FILHOS

Segundo a organização, o aumento do emprego feminino nas últimas décadas está diretamente relacionado à maior participação dos homens em tarefas do lar, incluindo tomar conta dos filhos. Mais de 25% dos habitantes de países da OCDE acreditam que a licença para pais deve ser divida entre homens e mulheres. O percentual chega a 40% na França.

Uma das ações que tem avançado nessa questão é a Alemanha, onde o percentual de crianças cujos pais tiraram licença paternidade aumentou de 20,8% em 2008 para 34,2% em 2014. Ainda assim, há desigualdade salarial no casamento. Considerando casais em que a mulher tinha idade entre 25 e 45 anos, estas respondiam por apenas 22,6% do orçamento familiar, segundo dados de 2011.

oglobo.globo.com | 08-03-2017

BERLIM — Com o governo do presidente americano Donald Trump pressionando as nações aliadas a reforçarem seus setores de Defesa, o debate sobre incrementar o poderio militar ganha foco na Alemanha. Caso consiga atingir os objetivos de Washington, o país europeu estará no caminho para ter, mais uma vez, o maior exército da Europa Ocidental. E, mesmo com rejeição — principalmente por parte dos próprios alemães — de um reforço militar alemão, as novas políticas transatlânticas de Trump fazem com que o governo reconsidere essa questão.

Nas últimas semanas, cerca de 500 soldados alemães chegaram à Lituânia para um deslocamento incerto perto da fronteira russa. A ação — liderada pela Alemanha, mas que conta com forças menores da Bélgica, Holanda e Noruega — é considerada pelos especialistas como a operação militar mais ambiciosa na região desde o fim da Guerra Fria.

— Com todo o respeito ao Estados Unidos, mas vocês tenham cuidado com o que desejam — disse o tenente-coronel Torsten Stephan, porta-voz das tropas alemãs na Lituânia. — O senhor Trump diz que a Otan pode estar obsoleta e que devemos ser mais independentes. Bem, talvez nós seremos. Info - Forças armadas Alemanha PIB

Para muitos na Lituânia, a Alemanha é considerada o bastião dos princípios da democracia e um dos maiores defensores dos direitos humanos. Frente às pressões dos EUA sobre a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), os lituanos pedem uma Alemanha mais forte ao seu lado, como afirma o ministro da Defesa, Raimundas Karoblis.

— Acho que a liderança dos EUA (na Otan) deva ser mantida, mas também precisamos de uma chefia na Europa — afirma Karoblis. — Por que não a Alemanha?

O ministro lituano afirmou ainda que, com o processo de separação do Reino Unido, a Alemanha é o país com mais garantias de estabilidade na região.

Recentemente, a polícia lituana, junto com alguns políticos importantes e jornais, receberam e-mails falando sobre uma adolescente de 15 anos ter sido supostamente violada por soldados da Alemanha. O governo da Lituânia desmentiu rapidamente as alegações — mas não antes do boato ser espalhado por contas falsas em redes sociais. As autoridades investigam se russos estariam por trás do caso. Enquanto isso, sites pró-Rússia utilizam antigos estereótipos, fazendo menções ao líder nazista, Adolf Hitler, e retratando a implantação da Otan na Lituânia como uma “segunda invasão” pela Alemanha.

Desde a chegada de Trump, a discussão só aumenta entre políticos e na imprensa. No mês passado, o Ministério da Defesa anunciou planos de expandir de 166.500 a 200 mil soldados o contingente militar. Após 26 anos de cortes, o investimento em Defesa sobe 8%. A chanceler federal Angela Merkel defendeu com cautela o aumento no Exército, mas sua ministra da Defesa, Ursula von der Leyen, defende os reforços dizendo que o país “não pode se esquivar”.

— Se Trump mantiver seu tom, os EUA deixarão a defesa europeia nas mãos dos europeus de uma maneira que não é vista desde 1945 — avaliou Berthold Kohler, publisher da “Frankfurter Allgemeine Zeitung”.

Para muitos alemães, no entanto, há diversas razões para que o país não assuma essa posição de liderança. Os argumentos vão de despesas excessivas com o Exército até o medo de uma nova corrida armamentista. Segundo uma pesquisa feita pela revista alemã "Stern", 55% a população são contra novos investimentos na defesa do país nos próximos anos — enquanto 42% são a favor.

oglobo.globo.com | 06-03-2017

BERLIM — Assustados e surpresos com a ascensão da extrema-direita, partidos progressistas começaram a reagir e a formar alianças para tentar frear seu avanço na Europa, num ano em que franceses, holandeses e alemães vão às urnas escolher seus próximos governantes. A estratégia de contra-ataque é pragmática e inclui até a aproximação com legendas de centro — todos reunidos, entre outros motivos, no intuito de preservar a União Europeia do ataque dos populistas de direita..

Na França, o abalo provocado por Marine Le Pen, da Frente Nacional (FN), uma forte candidata nas eleições de abril à Presidência, já fez com que François Bayrou, três vezes candidato ao Palácio do Eliseu, desistisse da corrida na quarta-feira passada. O veterano presidente do partido centrista Movimento Democrata declarou seu apoio ao independente Emmanuel Macron, justificado com a alegação de que o país corre “um risco extremo” que necessita de “respostas excepcionais”. Segundo o político verde Daniel Cohn-Bendit, que vive entre a França e a Alemanha, o único candidato com condições de evitar a “catástrofe europeia”, como descreve uma vitória de Le Pen, seria Macron, ex-ministro da Economia.

— Macron é o político que tem mais chances de frear os populistas. Em um segundo turno, ele se uniria ao candidato socialista (Benoit Hamon) — prevê Cohn-Bendit.

Toda a Europa acompanha com suspense o que vai acontecer na Holanda no próximo dia 15. Uma frente foi formada contra Geert Wilders, do Partido da Liberdade (PVV), um candidato antimuçulmano, anti-imigrante e anti-União Europeia. Para o cientista político Maurice de Hond, Wilders será o mais votado, mas isso não é garantia de que possa formar o governo. O premier Marc Rutte, do partido conservador liberal VVD, já adiantou que não aceitaria uma aliança com a extrema-direita. Depois da queda dramática do entusiasmo dos holandeses pela UE, Rutte é, porém, apenas um espectador do sucesso do líder populista que compara o Alcorão ao livro de Hitler “Mein Kampf”.

TEMOR DE REAÇÃO EM CADEIA

Com poucas chances, mas decididos a salvar a UE dos radicais, o GroenLinks (Verde Esquerda), de Jesse Klaver, está disposto a se unir aos liberais do D66 para frear Wilders. Se o “Trump holandês”, como é conhecido, ganhar, há o risco de uma reação em cadeia, temem analistas políticos. E se Le Pen for eleita na França, os dois países poderiam declarar sua saída da UE, uma decisão que provocaria graves consequências em todo o bloco e poderia atingir o euro.

Em toda a Europa são traçados cenários para evitar o terremoto, que não se restringe a França e Holanda. A esquerda alemã vai se unir nas eleições do dia 24 de setembro contra dois adversários: a extrema-direita e Angela Merkel. Para tirar a chanceler federal do governo, depois de quase 12 anos, o Partido Social Democrata (SPD) lançou Martin Schulz, ex-presidente do Parlamento Europeu, que tenta formar uma aliança de três partidos progressistas unindo SPD, os ex-comunistas e os verdes. O outro objetivo é barrar o crescimento do Alternativa para a Alemanha (AfD), de extrema-direita. Para isso, Schulz já começou a adotar um estilo bem mais progressista do que tinha Gerhard Schröder, ex-chanceler federal e colega de partido. Ele já antecipou que vai rever o programa de cortes sociais de Schröder, a Agenda 2010.

Na tentativa de frear radicais, os partidos europeus têm como modelo Bélgica e Suécia, onde a experiência de grandes alianças já começou a funcionar, incluindo o centro. Depois que os populistas dos Democratas Suecos (SD) galoparam nas pesquisas, alcançando 20% das previsões de votos, os dois principais blocos — do Partido Social Democrata com o Verde, de governo, e o conservador (formado por quatro partidos) — fecharam um acordo para que a aliança mais votada possa formar o governo, mesmo sem ter maioria. Nesse cenário, o atual governo “vermelho/verde” (social-democrata/verdes) é tolerado pela aliança conservadora. Trata-se da primeira ação do gênero.

Na Bélgica, que tem um cenário bastante complexo devido à divisão das agremiações entre as regiões de idioma francês e holandês, a ameaça da extrema-direita também vem sendo evitada por meio de alianças. O bloco conservador do primeiro-ministro Charles Michel — democracia cristã, liberais e nacional-democratas (CD&V,N-VA e VLD) — e o progressista Partido do Trabalho (PTB), atualmente de oposição, conseguiram frear o avanço de Vlaams Belang, separatista e de extrema-direita.

Mas a cientista política belga Chantal Mouffle, professora de Teoria Política da Universidade de Westminster, em Londres, defende que só é possível combater o inimigo, o populismo da extrema-direita, usando a mesma arma.

— Precisamos de um populismo da esquerda para salvar a Europa da ameaça da extrema-direita — diz a analista, que considera o populismo um instrumento da democracia.

Na França, Macron parece ser a concretização da teoria de Chantal. Jovem, bonito e carismático, o “Kennedy do Sena”, que registra um aumento de popularidade, tornou-se a principal arma para evitar uma presidente Le Pen, depois do desgaste do candidato do partido Os Republicanos, François Fillon, e da letargia dos socialistas, um legado deixado pela impopularidade de François Hollande.

A cientista política afirma que esse populismo como arma de contra-ataque pode ser visto também no Syriza, do premier grego, Alexis Tsipras, ou no Podemos, de Pablo Iglesias, na Espanha. Já na Itália, outra nação que pode contribuir para a perspectiva sombria de “desmoronamento da UE”, como receia Sigmar Gabriel, ex-presidente do SPD e ministro das Relações Exteriores, o populismo é quase exclusivo da extrema-direita, da Liga Norte — ou do Movimento Cinco Estrelas de Bepe Grillo.

OPOSIÇÃO ESTÁ ENFRAQUECIDA

Oskar Niedermeyer, da Universidade de Berlim, lembra que a extrema-direita encontra chances de crescer quando os partidos democráticos deixam de ser vistos como uma opção.

— Os conservadores e os social-democratas perderam os seus contornos ideológicos — critica.

Também no Leste Europeu, partidos começaram a adotar uma política mais agressiva contra populistas. Depois de quase dez anos de governo de Viktor Orbán, os socialistas húngaros vão tentar derrubá-lo nas eleições do próximo ano. Mas o cientista político Peter Kreko, de Budapeste, afirma que a oposição continua fraca e que Orbán precisa temer mais a ameaça que vem da sua direita:

— Na Hungria, aliança progressista não avançou.

Orban pode ser ultrapassado pelo partido Jobbik, ainda mais conservador, que nos últimos meses tenta se livrar da imagem de racista.

oglobo.globo.com | 26-02-2017

Em um discurso de posse marcado pelo tom nacionalista e de ataque à classe política, Donald Trump cometeu deslizes similares aos que já havia apresentado durante a campanha presidencial. O novo presidente dos EUA tocou em pontos sensíveis, como o avanço do terrorismo e os investimentos nas Forças Armadas, mas foi impreciso em comentários mais acalorados.

TRUMP MATÉRIAS

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Trump: "Os empregos que foram embora, as fábricas que fecharam... A riqueza, confiança e força do nosso país desapareceu no horizonte".

Fatos: A economia dos EUA apresenta mais saúde do que o retrato pintado por Trump. Houve aumento na oferta de empregos por um recorde de 75 meses consecutivos. A taxa de desemprego dos EUA estava em 4,7% em dezembro, próxima a um recorde de nove anos e de um patamar considerado como "emprego completo" pelos economistas.

De julho a setembro de 2016, a economia cresceu a um ritmo de 3,5% ao ano, o mais rápido em dois anos. Em 2015, a renda média por domicílio cresceu 5,2% e chegou a U$ 56,5 mil, o maior crescimento anual em quase cinco décadas, de acordo com o Census Bureau, que integra o Departamento de Comércio dos EUA.

Trump: "Nós estamos defendendo as fronteiras de outras nações enquanto nos recusamos a defender a nossa própria fronteira".

Fatos: Desde 2001, os EUA mais do que dobraram o número de efetivos na Patrulha de Fronteiras, que contabilizam agora 20 mil agentes. A grande maioria está baseada na fronteira com o México, onde mais de 400 mil pessoas foram apreendidas em 2016 até o encerramento do ano orçamentário, em setembro.

Trump: "(Os EUA deram) Subsídios a exércitos de outros países enquanto permitiu esta muito triste depreciação das nossas Forças Armadas".

Fatos: Embora tenha passado por quedas de receitas, o aparato militar dos EUA permanece como o mais avançado e caro do mundo. O gasto militar do país é três vezes superior ao da China, segunda colocada no ranking, de acordo com o Instituto de Pesquisas pela Paz de Estocolmo.

O Pentágono reconhece a necessidade de investimentos adicionais, incluindo mais embarcações navais, a renovação da frota aérea e maiores orçamentos de treinamento das tropas.

Trump: "Nós reforçaremos velhas alianças e formaremos novas, e uniremos todos os civis ao redor do mundo contra o terrorismo islâmico radical, o qual nós erradicaremos por completo da face da Terra".

Fatos: A coalizão internacional liderada pelos EUA começou a combater terroristas islâmicos antes mesmo do 11 de setembro. No Afeganistão, por exemplo, a coalizão luta há mais de 15 anos como forma de evitar que a Al-Qaeda e outros grupos recuperem terreno.

Conseguir manter o apoio de países aliados da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) pode se mostrar um desafio diplomático para Trump, que chamou a organização de "obsoleta" e disse que os membros europeus não estão arcando com uma faixa justa dos custos.

A ameaça representada pelo extremismo religioso cresceu nos últimos anos. O Estado Islâmico despontou com alcance global, e foi ligado a ataques nos EUA, na França, na Bélgica, na Turquia e em países no norte da África.

oglobo.globo.com | 20-01-2017

BERLIM - Com preocupação, mas dispostos a demonstrar uma nova autoconfiança, líderes europeus reagiram de forma contundente à primeira entrevista do presidente eleito dos EUA, Donald Trump, à imprensa estrangeira — ao jornal britânico “Times” e ao alemão “Bild Zeitung” — que causou um abalo sísmico. Disparando sua metralhadora giratória verbal, Trump criticou a União Europeia (UE), a Otan, o acordo nuclear com o Irã e a resposta da Alemanha à crise dos refugiados, classificando de “erro catastrófico” a decisão da chanceler Angela Merkel de abrir as portas do país a mais de um milhão de fugitivos de guerras e da pobreza extrema em países de Ásia, África e Oriente Médio. CONTEÚDO TRUMP 1701

Em uma primeira reação, Merkel afirmou que “a Europa é dona do seu próprio destino”. A chefe de governo alemã, que como presidente (rotativa) do G-20 deverá visitar Trump em abril ou maio, apelou aos colegas no continente a não se deixarem confundir pelas declarações dele. Reunidos em Bruxelas, os chanceleres europeus apelaram para a unidade dos 28 membros da UE. O chanceler francês, Jean-Marc Ayrault, foi enfático:

— A melhor resposta à entrevista do presidente é a unidade dos europeus.

Já o ex-premier e pré-candidato à Presidência da França, Manuel Valls, chamou as falas de Trump de provocação:

— Uma declaração de guerra à Europa.

O presidente da França, François Hollande, também se juntou ao coro que desancou Trump.

— A Europa não precisa de conselhos extremos para dizer o que tem de fazer — pontuou o francês.

Depois de um encontro com o secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, o ministro das Relações Exteriores alemão, Frank-Walter Steinmeier, lembrou que as declarações de Trump sobre a Otan vão contra as ideias do futuro secretário de Defesa dos EUA, James Mattis. Segundo Steinmeier — que dentro de poucas semanas deverá ser eleito o novo presidente da Alemanha — Trump causou “surpresa e agitação” na Europa. As críticas também vieram internamente. O secretário de Estado americano, John Kerry, classificou as declarações de Trump sobre Merkel como inapropriadas.

— Ele terá que responder por isso. Acho que devemos ser muito prudentes antes de dizer que um dos líderes mais poderosos na Europa cometeu um erro.

A inquietação indica que os europeus esperavam que, depois de eleito, o republicano deixasse de fazer declarações incendiárias. De fato, Trump não disse nada de novo. Na campanha, criticou Merkel, elogiou o Brexit (a saída do Reino Unido da UE), e antecipou que iria adotar medidas protecionistas para proteger as empresas americanas — ele já anunciou uma taxa de 35% para os carros da montadora alemã BMW produzidos no México. Trump Info

Para o cientista político Thomas Jäger, da Universidade de Colônia, Trump não tem a intenção apenas de chocar:

— Ele tem dois objetivos: acelerar a economia americana e só fazer acordos internacionais se estes favorecerem os EUA.

Para ele, a ideia é pôr a perspectiva americana, durante muito tempo ignorada, no centro das atenções.

Mas, poucos dias antes de tomar posse, o presidente eleito continua dividindo os europeus. A maior parte dos países da Europa Ocidental acompanha com apreensão o receio da influência do republicano na possível desintegração de uma já dividida UE. No Leste, da Rússia à República Tcheca, no entanto, Trump é admirado. Irina Sherbakova, historiadora e ativista da ONG Memorial, lembra que os russos — que detestavam Barack Obama — associam o novo governo à possibilidade de melhoria nas relações entre Moscou e o Ocidente e, com isso, o fim das sanções e superação da crise econômica.

Já na Europa Ocidental, apenas os partidos de extrema-direita apoiam o novo presidente. E não é só o estilo direto de Trump que assusta a maioria dos europeus. A possibilidade de uma forte aliança dos EUA com a Rússia, que teria assim carta branca para novas ações como a ocupação da Crimeia, até então território da Ucrânia, é vista como sombria. Contra uma possível aliança Trump-Putin, 17 políticos europeus, entre eles o ex-presidente da Estônia, Toomas Hendrik, enviaram uma carta ao novo presidente alertando sobre a Rússia, que teria em vista, segundo os signatários, “a desestabilização da Otan, a espionagem e a guerra psicológica”.

Extrema-direita celebra

Pior do que isso. Como escreveu o cientista político Ulrich Speck na sua coluna no jornal “Neue Zürcher Zeitung”, a proximidade entre os dois presidentes desperta lembranças amargas da Conferência de Yalta, que selou a derrota da Alemanha nazista, em 1945, e resultou na divisão da Europa em áreas de influência dos EUA (Europa Ocidental) e da então União Soviética (Europa Oriental). “Os EUA de Trump não são mais (como foi no passado) a garantia de uma ordem mundial liberal, mas são definidos pelos seus interesses nacionais imediatos”, sustenta Speck.

Embora o secretário-geral da Otan não veja grandes riscos para a Europa, analistas advertem para o perigo concreto de um racha dessa aliança — com efeitos negativos para a UE, que precisaria investir muito mais na sua segurança. Em crise, o bloco não tem sido capaz de chegar a um consenso nem na divisão de um sistema de cota de refugiados — uma unanimidade na decisão de medidas de defesa é vista como muito difícil.

Não por coincidência, a posse de Trump será acompanhada com atenção pela extrema-direita europeia. Um dia depois, lideres do bloco extremista em Alemanha, França, Holanda, Bélgica e Itália vão se reunir na cidade alemã de Koblenz, na cúpula dos populistas. A iniciativa partiu de Marine Le Pen, da Frente Nacional, da França, que quer fazer do Movimento para uma Europa das Nações e da Liberdade, que fundou em junho de 2015, uma espécie de “Internacional da extrema-direita”, a exemplo da tradicional Internacional Socialista.

De carona no populismo de Trump, os direitistas europeus contam com mudanças radicais em 2017, que começariam com a possível vitória de Geert Wilders, do Partido da Liberdade, na Holanda, e de Le Pen, na França, em março e em maio. Para o cientista político italiano Giulietto Chiesa, ex-deputado do Parlamento Europeu, a extrema-direita continuará contando com a influência do americano para realizar seus dois mais importantes projetos: acabar com o fluxo de refugiados e reduzir o papel da UE nos países-membros.

oglobo.globo.com | 17-01-2017

O Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês) anunciou há pouco que a diretora-gerente da Autoridade Monetária de Cingapura (MAS, na sigla em inglês), Jacqueline Loh, foi nomeada presidente da Comissão de Mercados da instituição. A decisão foi tomada ontem durante reunião bimestral, em Basileia, dos presidentes de bancos centrais de 30 economias avançadas e emergentes do mundo, incluindo o Brasil.

O Comitê de Mercados é um fórum no qual os primeiros escalões de bancos centrais acompanham conjuntamente a evolução dos mercados financeiros e avaliam suas implicações para o funcionamento e as operações dos órgãos reguladores e fiscalizadores. Jacqueline assumirá o cargo por três anos, a partir de janeiro, sucedendo Guy Debelle, vice-presidente do Banco Central da Austrália (RBA, na sigla em inglês), à frente do comitê desde junho de 2013.

Em Cingapura, a nova nomeada supervisiona as funções de política monetária e dos mercados e investimentos do banco central, e também é responsável pela área de desenvolvimento e internacional, bem como dos grupos de fintech (tecnologias financeiras) e inovação. Além do Brasil, compõem o grupo os bancos centrais da Argentina, Austrália, Bélgica, Canadá, China, França, Alemanha, Hong Kong, Índia, Indonésia, Itália, Japão, Coreia do Sul, Malásia, México, Holanda, Polônia, Rússia, Arábia Saudita, Cingapura, África do Sul, Espanha, Suécia, Suíça, Tailândia, Turquia, Reino Unido e Estados Unidos e também o Banco Central Europeu (BCE).

RIO - O economista Edmar Bacha foi eleito, na tarde desta quinta-feira, membro da Academia Brasileira de Letras, em votação no Petit Trianon, no Centro do Rio. O mais novo "imortal" vai ocupar a cadeira 40, que pertencia ao jurista Evaristo de Moraes Filho, morto no dia 22 de julho deste ano. Ao todo, Bacha recebeu 18 votos, contra 15 para Eros Grau. Links ABL

Nascido em Lambari, Minas Gerais, em 1942, é bacharel em economia pela UFMG e Ph.D. em economia pela Universidade de Yale, EUA. Tem diversos livros e artigos publicados sobre economia brasileira e latino-americana e sobre a economia internacional. Foi presidente do BNDES, do IBGE e da Anbid (atual Anbima). É sócio fundador e diretor do Instituto de Estudos em Política Econômica/Casa das Garças.

Como presidente do IBGE, na década de 1980, participou do Plano Cruzado. Nesse período, escreveu o livro "O fim da inflação no Reino de Lisarb", numa alusão ao Brasil escrito de trás para a frente. Entre 1993 e 1994, foi membro da equipe econômica que planejou e instituiu, o Plano Real, durante o governo Itamar Franco. Ele costuma afirmar que o apoio da população foi um dos principais fatores para o sucesso no combate à inflação nos anos 90. Já a experiência de planos anteriores ajudou no convencimento de políticos e empresários.

Em 1974, Bacha ganhou notoriedade ao criar a fábula Belíndia para criticar o governo militar. No texto, ele mostrava como o milagre econômico estava levando a uma enorme concentração de renda, fazendo do Brasil um misto de Bélgica com Índia. A repercussão foi tanta que o termo "Belíndia" entrou para o vocabulário econômico, e até hoje é uma das principais referências para se falar sobre as desigualdades no país.

O economista retomou o tema em 2012 no livro “Belíndia 2.0 - Fábulas e ensaios sobre o país dos contrastes” (Civilização Brasileira), alfinetando as elites que dificultam o mercado aberto às importações. A obra recebeu o Prêmio Jabuti 2013 na categoria Economia, Administração e Negócios. No ano seguinte, em 2014, levou novamente o Prêmio Jabuti, no segundo lugar, com o título "O Futuro da Indústria no Brasil: A desindustrialização em debate", ao lado de Monica de Bolle.

Bacha é um crítico sistemático do fraco comércio exterior brasileiro e do caráter fechado da economia brasileira. Segundo ele, o país não tem atividade vigorosa de exportação. Recentemente, no Fórum Nacional, no Rio, afirmou que o Brasil é "um anão em exportações", mas afirmou que se vive hoje a possibilidade de uma maior integração da economia brasileira ao comércio internacional, com a sinalização do novo governo, de que está disposto a avançar com acordos comerciais.

oglobo.globo.com | 03-11-2016

BRUXELAS - A União Europeia e o Canadá assinaram um tratado de livre comércio neste domingo com o objetivo de gerar empregos e crescimento econômico, embora o acordo ainda precise passar por cerca de 40 parlamentos nacionais e regionais na Europa nos próximos anos para entrar inteiramente em vigor.

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O primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, assinou o tratado com os chefes de instituições da UE, em um passo que deve permitir a implementação provisória do acordo no início de 2017, com a remoção da maior parte de tarifas de importação.

O caminho para a aprovação do Acordo Econômico e Comercial Global (Ceta) não tem sido tranquilo. Residentes do Sul da Bélgica que falam francês, minoria no país e que representam menos de 1% dos 508 milhões de consumidores da UE a serem afetados pelo Ceta, levantaram objeções que impediram o acordo até um avanço na quinta-feira, confirmado por votos de parlamentares regionais na sexta-feira.

— Tudo fica bem quando termina bem — disse o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker. —Temos 20 negociações em curso e hoje estamos determinando os padrões gerais que a UE e a Comissão Europeia querem que os outros aceitem.

O acordo com o Canadá é visto como um trampolim para um tratado maior da UE com os Estados Unidos, conhecido como Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP), que tem sido alvo de críticas de sindicatos trabalhistas, ambientalistas e outros grupos de manifestantes.

A comissária de Comércio da UE Cecilia Malmstrom disse que as negociações para a TTIP não estão encerradas, ao contrário do que alguns políticos na Alemanha e na França disseram, mas precisarão aguardar o próximo presidente dos EUA, que assume o cargo em janeiro, para voltarem à mesa.

Os que apoiam a medida afirmam que o Ceta aumentará o comércio entre Canadá e UE em 20% e impulsionará a economia da UE em 12 bilhões de euros ao ano e a do Canadá em 12 bilhões de dólares canadenses.

Para o Canadá, o tratado é importante para reduzir a dependência do vizinho EUA enquanto mercado de exportação.

oglobo.globo.com | 30-10-2016

RIO - A criação de um certificado internacional de segurança para a indústria hoteleira é uma das medidas em estudo pelo setor, como reação aos ataques terroristas registrados no Velho Mundo, que vêm afetando o mercado de turismo de diferentes países da região. Para reforçar sua atratividade, os hotéis se submeteriam à certificação, nos mesmos padrões do selo de sustentabilidade.

Para a École Hôtelière de Lausanne (EHL), uma das principais escolas de hotelaria do mundo, não está claro se os efeitos dos atentados e de outras mudanças a nível global vão se cristalizar sobre o setor do turismo ou apenas exigirão que ela se adapte. De qualquer forma, é preciso mudar.

BV Terrorismo

A entidade está para publicar seu “Relatório de Lausanne”, em que traça cenários para o futuro do setor. O trabalho considera não somente as consequências dos ataques terroristas, como também das mudanças climáticas e dos fluxos de migração que, ressalta a EHL em nota enviada ao Boa Viagem, não têm precedentes:

“Nos vários cenários traçados pelo relatório, há os que dizem que a indústria se tornará cada vez mais frágil, e há os que apontam para maior flexibilidade e capacidade de adaptação. Só o tempo dirá. Precisamos é capacitar futuros líderes para enfrentar esses novos desafios”.

O turismo na França é um dos que mais vêm sentindo os efeitos do clima de insegurança. Haja vista o Louvre, que estima que perderá até dois milhões de visitantes este ano. Tudo se intensificou a partir de janeiro de 2015, quando, em ataque ao semanário francês “Charlie Hebdo”, 12 pessoas foram mortas em Paris.

Só a França teve, depois, duas tragédias de grandes proporções: o massacre simultâneo no Bataclan e outras duas áreas da Grande Paris (há um ano) e em Nice (julho último). A partir dali, a queda de pernoites no país chegou a 10%, com redução de 20% na Riviera Francesa, no pós Nice.

Turquia e Bélgica também sofreram sérios ataques entre janeiro e março deste ano. Resultado: o turismo da região se vê diante de atentados relativamente próximos, que dificultam sua recuperação. Pesquisa da ForwardKeys, empresa especializada na análise de Big Data para o setor de viagens, mostra que caíram em média 7,7% as reservas feitas por chineses para a Europa, de meados de novembro de 2015 até meados deste mês. Para Paris, perda de 23,4%.

Enquanto isso, países percebidos como mais seguros, como Portugal, Espanha e Dinamarca, ganham destaque — tanto entre turistas das Américas, quanto asiáticos. Portugal chama atenção. Em cinco anos, a percepção de segurança do país deu um pulo: no Índice Global da Paz (Global Peace Index), calculado pelo Instituto para Economia e Paz, nossos patrícios subiram do 16º lugar de 2012, para a 5ª colocação este ano.

A República Tcheca, agora em sexto no ranking, também teria se beneficiado desse desvio de rotas, acredita Luiz Fernando Destro, diretor do escritório de turismo tcheco no Brasil: o país tem tido expansão anual de 3% a 5%. A Rússia é outra que identifica ganhos: Segundo a pesquisa da Forwardkeys, as reservas feitas por asiáticos para Moscou cresceram 23%.

RESORTS E CRUZEIROS, OPÇÕES QUE SE DESTACAM

Quanto vai custar a criação de um certificado internacional é uma das questões em debate entre os especialistas. E até que ponto os turistas estariam dispostos a pagar por maior segurança, também. Diante do novo cenário mundial, a indústria hoteleira passou a se debruçar sobre estudos para desenvolver planos de segurança e melhorar infraestrutura e logística próprias.

Investir em resorts e cruzeiros — ou em outros tipos de hospedagens menos expostos ao perigo — é uma tendência. Até porque os riscos se diferenciam entre os estabelecimentos. Hotéis próximos a locais públicos, que podem ser alvo de terrorismo, como aeroportos, são considerados mais vulneráveis. Na outra ponta, cresceu a procura por regiões de praia e sol, informa o Turismo da Suíça.

Aliás, a Suíça é outro país que subiu no ranking do Índice Global da Paz, passando do 10º lugar, em 2002, para a 7ª posição em 2016. O indicador, que inclui 163 nações este ano, considera o nível de paz de cada país, segundo os graus de segurança, interna e externa, e militarização.

Entre os países que tiveram piora de desempenho nos últimos cinco anos — além da França, que foi do 40º lugar para o 46º — estão a Bélgica (de 11º a 18º) e a Turquia, que já tinha sérios problemas de segurança e deixou a 130ª colocação para passar a 145ª. No caso do Egito, a perda de posições foi maior, de 111º para 142º.

Para a Ásia, via Dubai

— O que está acontecendo é triste e injusto para com os destinos do norte da África, que dependem do turismo e estão sofrendo muito — lamenta Filipe Silva, conselheiro do Turismo de Portugal, ao analisar o cenário atual principalmente no Egito, acrescentando que as pessoas, num primeiro momento, evitaram pegar avião. — Deram preferência a ficar perto de casa ou pela vizinhança. E, assim, observamos um acréscimo no fluxo de turistas para Portugal.

Silva diz ainda que as companhias aéreas sentiram uma forte retração no início do ano e agora estão se recompondo. Só que parcialmente:

— Se formos comparar com 2015, ainda há déficit.

No caso de nós brasileiros — que sentimos a tensão, mas de longe — a crise econômica foi o principal fator de desaceleração do mercado este ano. Considerando especificamente os atentados, diz Marco Lourenço, diretor da operadora de viagens Queensberry, registrou-se uma pequena estremecida em relação a viagens para a Europa e quem perdeu mesmo foi a Turquia:

— A Turquia zerou!

Um roteiro que vem crescendo na operadora é o direcionado ao Sudeste asiático. Via Dubai. Ou seja, nada de Paris, Londres ou Frankfurt.

ENTREVISTA

Urs Eberhard: ‘A Europa, em geral, não se recuperou’

O turismo na Suíça está sofrendo os efeitos dos ataques terroristas à vizinhança. Afinal, muita gente costuma viajar ao país, combinando roteiros que incluem a França. O vice-presidente de Marketing do Turismo da Suíça, Urs Eberhard, ressalta ainda que, desta vez, ao contrário do usual, os turistas tendem a não esquecer dos acontecimentos com facilidade.

Segundo a OMT, o turismo na Europa cresceu 4% no primeiro trimestre do ano, mas com clara retração no caso dos países afetados pelo terrorismo. A Suíça não é um deles. Há efeitos sobre o país?

Sim, a Suíça está sendo afetada. Muitos turistas estrangeiros costumam combinar roteiros que incluem a Suíça e a França, principalmente Paris; muitos vão de Roma a Paris, via Suíça. Um grande número de visitantes asiáticos (de Japão e China) cancelou sua ida a Paris e, assim, também à Suíça. Mas a Suíça ainda é percebida como um lugar seguro, e as viagens domésticas e de países vizinhos registraram alta no verão. Além disso, tivemos crescimento de turistas americanos.

Os turistas estão realmente assustados? A vida parece voltar rapidamente ao normal em lugares que recebem ataques terroristas, como ocorreu na Londres de 2015.

As pessoas costumam esquecer rapidamente, sim, e os lugares afetados normalmente respondem com ações de marketing e promoções, que logo equilibram o mercado. No entanto, se estamos diante de vários ataques num curto período de tempo e existe uma ameaça de ataques permanentemente, as pessoas tendem a adiar viagens ou a optar por destinos tidos como seguros. A série de incidentes em meses próximos na França, Bélgica, Alemanha e Turquia fez com que esses países, assim como a Europa em geral, ainda não tenham se recuperado.

Há destinos “se beneficiando” dessa situação? Quais?

Espanha, Ilhas Baleares, Itália e Grécia são os ganhadores. Os viajantes estão evitando o sul da França, a Turquia, o norte da África e têm procurado opções de sol e praia.

oglobo.globo.com | 27-10-2016

BRUXELAS — A União Europeia (UE) e o Canadá decidirão, na segunda-feira, se mantêm ou não a reunião prevista para a próxima quinta-feira, em Bruxelas, para a assinatura do tratado de livre comércio (CETA), afirmou à AFP uma fonte europeia.

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"Amanhã à tarde ou noite, o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, terá uma reunião por telefone com o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, para decidir se mantêm a reunião", disse a fonte. "Se a Bélgica não puder garantir que assinará, está claro para Tusk que não faz sentido celebrar uma reunião e não acontecerá reunião, nem será fixada uma data para uma nova", completou a fonte.

De acordo com a fonte, a decisão será tomada de comum acordo entre Tusk e Trudeau, e dependerá muito do que o primeiro-ministro belga, Charles Michel, vai falar a Tusk.

A Bélgica é o único dos 28 países da UE que não pode assinar o acordo CETA, negociado durante sete anos, pela oposição da Valônia, região franco-belga do sul do país.

O governo valão reclama mais garantias, especialmente àquelas referentes à proteção dos agricultores frente às multinacionais.O Acordo Econômico e Comercial Global (AECG), mais conhecido por sua sigla inglesa CETA (Comprehensive Economic and Trade Agreement), prevê a supressão das tarifas para quase todos os produtos. Entre as poucas exceções estão as exportações de carne bovina e suína do Canadá para os países da UE.

A ministra de comércio do Canadá, Chrystia Freeland, viajou esta semana à Bèlgica para tentar resolver as últimas divergências sobre o tratado com o governo da região franco-belga da Valônia. A Valônia, região de 3,6 milhões de habitantes, vê no CETA, que concentra 500 milhões de europeus, as premissas do Tratado Transatlântico de Comércio e Investimentos (TTIP), muito impopular, que a União Européia negocia com os Estados Unidos.

"Fizemos nosso trabalho, é hora de a União Europeia terminar com o seu para assinar o tratado de livre comércio'', afirmou Chrystia após o encontro com o presidente do Parlamento Europeu, ao retornar para seu país."Espero realmente qus os europeus cheguem a um acordo e que eu possa voltar, dentro de alguns dias, com o primeiro-ministro para assinar o tratado''.

A Valônia, que rejeita o tratado da CETA, se manifestou neste domingo "decepcionada" ante uma nova proposta transmitida pela Comissão Europeia sobre a proteção dos investimentos para conseguir a aprovação da região belga.

"Nos entregam um documento decepcionante e paralelamente nos submetem a um ultimato. É muito surpreendente. Isso nos leva a perguntar qual é o objetivo", indicou à agência de notícias France Presse uma fonte ligada ao primeiro-ministro valão, Paul Magnette.

oglobo.globo.com | 23-10-2016

BRUXELAS — O presidente do Parlamento Europeu, Martin Schultz, e ministra canadense de Comércio, Chrystia Freeland, se reuniram neste sábado em Bruxelas, para tentar salvar o tratado de livre comércio entra a União Europeia e o Canadá (CETA), que vem sendo negociado há sete anos, segundo post publicado no Twitter de Scultz, informou a agência de notícias France Presse.

Shulz acrescentou que, em seguida, materia um encontro com o chefe de governo valão, Paul Magnette, cuja oposição ao CETA bloqueia a assinatura do tratado entre os 28 países membros da UE e o Canadá. Todos os 28 governos da UE apoiam o Acordo Econômico e Comercial Abrangente (Ceta), mas a Bélgica não pode dar seu assentimento sem o apoio de suas cinco administrações sub-federais. A Valônia, onde se fala francês, está se opondo a ele com firmeza.

Estas conversações estão destinadas a reativar as negociações sobre o tratado de livre comércio, que, segundo Schultz, não pode parar na reta final.

"A bola está no campo da Europa. Esperamos que seja possível encontrar uma solução'', comentou a ministra canadense em sua chegada ao Parlamento Europeu, segundo a agência de notíricas Belga.

Sexta-feira à noite, Freeland afirmou que a ''União Europeia é incapaz agora de conseguir um acordo internacional, inclusive com um país que conta com valores tão europeus como o Canadá''.

A ministra viajou esta semana à Bèlgica para tentar resolver as últimas divergências sobre o tratado com o governo da região franco-belga da Valônia.

"Fizemos nosso trabalho, é hora de a União Europeia terminar com o seu para assinar o tratado de livre comércio'', afirmou Chrystia após o encontro com o presidente do Parlamento Europeu, ao retornar para seu país."Espero realmente qus os europeus cheguem a um acordo e que eu possa voltar, dentro de alguns dias, com o primeiro-ministro para assinar o tratado''.

O acordo deveria ser firmado, em princípio, no próximo dia 27, em Bruxelas, na presença do primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau.

"Os problemas estão sobre a mesa dos europeus e devemos tentar solucioná-los11, declarou Schultz."Esta reunião foi muito construtiva e, talvez, seja decisiva. Sou otimista'', acrescentou o presidente do Parlamento Europeu.

"Temos ainda algumas dificuldades entre os europeus", confirmou, por sua vez, Paul Magnette, chefe do governo da Valônia, que bloqueia o acordo, após se reunir com Shultz.

Magnette se congratulou de que as discussões posteriores ao voto contrário do parlamento valão permitiram que se melhorasse o texto do acordo. Na sexta-feira, ele declarou que "a democracia leva seu tempo'', completando que o acordo ainda é viável.

A assinatura do acordo continua pendente da aprovação da região da Valônia, que se nega a dar poder a Bruxelas para assinar o acordo devido "à falta de tempo e de democracia". Shultz, no entanto, diz que a reunião com o primeiro-ministro canadense continua agendada.

A Valônia, região de 3,6 milhões de habitantes, vê no CETA, que concentra 500 milhões de europeus, as premissas do Tratado Transatlântico de Comércio e Investimentos (TTIP), muito impopular, que a União Européia negocia com os Estados Unidos.

O governo valão reclama mais garantias, especialmente àquelas referentes à proteção dos agricultores frente às multinacionais.O Acordo Econômico e Comercial Global (AECG)< mais conhecido por sua sigla inglesa CETA (Comprehensive Economic and Trade Agreement), prevê a supressão das tarifas para quase todos os produtos. Entre as poucas exceções estão as exportações de carne bovina e suína do Canadá para os países da UE.


"Os problemas que subsistem estão no interior da União Europeia. Os canadenses explicaram que as negociações estão concluídas, e que o acordo pode ser assinado", dizze Schultz ao fim do encontro com a ministra canadense. "Não há nenhum problema que não possa ser resolvido'', acrescentou o presidente do Parlamento Europeu.

Neste sábado, em Amsterdã, cerca de seis mil manifestantes expressaram seu apoio à região belga de Valônia, segundo organizadores do protesto. Concentrados na Museumplein, a grande praça de Amsterdã onde está o célebre Rijksmuseum, "agricultores, empresários, sindicalistas, jovens, consumidores, científicos, juristas e militantes ambientalistas, pelo clima e pelos animais de todos los países denunciaram o CETA e o TTIP.

"Os valões vêm realizando um bom debate e, como nós, decidiram que este acordo ainda não é bastante bom. Através de sua resistência, podemos continuar lutando na Holanda por um comércio realmente honesto e duradouro'', declarou Jurjen van den Bergh, coordenador da coalizão TTIPAlarm.


oglobo.globo.com | 22-10-2016

A economia da Bélgica é beneficiada pela localização geográfica privilegiada do país na Europa, por uma rede de transportes bastante desenvolvida, e por uma base industrial e comercial diversificada. A indústria está concentrada principalmente na região de Flandres, ao norte. Com poucos recursos naturais, o país importa grandes quantidades de matérias primas e exporta principalmente manufaturados. O resultado é uma economia bastante dependente dos mercados mundiais. O país é o 18º no ranking de competitividade do Fórum Econômico Mundial.


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