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Hungria Economia

BERLIM — Assustados e surpresos com a ascensão da extrema-direita, partidos progressistas começaram a reagir e a formar alianças para tentar frear seu avanço na Europa, num ano em que franceses, holandeses e alemães vão às urnas escolher seus próximos governantes. A estratégia de contra-ataque é pragmática e inclui até a aproximação com legendas de centro — todos reunidos, entre outros motivos, no intuito de preservar a União Europeia do ataque dos populistas de direita..

Na França, o abalo provocado por Marine Le Pen, da Frente Nacional (FN), uma forte candidata nas eleições de abril à Presidência, já fez com que François Bayrou, três vezes candidato ao Palácio do Eliseu, desistisse da corrida na quarta-feira passada. O veterano presidente do partido centrista Movimento Democrata declarou seu apoio ao independente Emmanuel Macron, justificado com a alegação de que o país corre “um risco extremo” que necessita de “respostas excepcionais”. Segundo o político verde Daniel Cohn-Bendit, que vive entre a França e a Alemanha, o único candidato com condições de evitar a “catástrofe europeia”, como descreve uma vitória de Le Pen, seria Macron, ex-ministro da Economia.

— Macron é o político que tem mais chances de frear os populistas. Em um segundo turno, ele se uniria ao candidato socialista (Benoit Hamon) — prevê Cohn-Bendit.

Toda a Europa acompanha com suspense o que vai acontecer na Holanda no próximo dia 15. Uma frente foi formada contra Geert Wilders, do Partido da Liberdade (PVV), um candidato antimuçulmano, anti-imigrante e anti-União Europeia. Para o cientista político Maurice de Hond, Wilders será o mais votado, mas isso não é garantia de que possa formar o governo. O premier Marc Rutte, do partido conservador liberal VVD, já adiantou que não aceitaria uma aliança com a extrema-direita. Depois da queda dramática do entusiasmo dos holandeses pela UE, Rutte é, porém, apenas um espectador do sucesso do líder populista que compara o Alcorão ao livro de Hitler “Mein Kampf”.

TEMOR DE REAÇÃO EM CADEIA

Com poucas chances, mas decididos a salvar a UE dos radicais, o GroenLinks (Verde Esquerda), de Jesse Klaver, está disposto a se unir aos liberais do D66 para frear Wilders. Se o “Trump holandês”, como é conhecido, ganhar, há o risco de uma reação em cadeia, temem analistas políticos. E se Le Pen for eleita na França, os dois países poderiam declarar sua saída da UE, uma decisão que provocaria graves consequências em todo o bloco e poderia atingir o euro.

Em toda a Europa são traçados cenários para evitar o terremoto, que não se restringe a França e Holanda. A esquerda alemã vai se unir nas eleições do dia 24 de setembro contra dois adversários: a extrema-direita e Angela Merkel. Para tirar a chanceler federal do governo, depois de quase 12 anos, o Partido Social Democrata (SPD) lançou Martin Schulz, ex-presidente do Parlamento Europeu, que tenta formar uma aliança de três partidos progressistas unindo SPD, os ex-comunistas e os verdes. O outro objetivo é barrar o crescimento do Alternativa para a Alemanha (AfD), de extrema-direita. Para isso, Schulz já começou a adotar um estilo bem mais progressista do que tinha Gerhard Schröder, ex-chanceler federal e colega de partido. Ele já antecipou que vai rever o programa de cortes sociais de Schröder, a Agenda 2010.

Na tentativa de frear radicais, os partidos europeus têm como modelo Bélgica e Suécia, onde a experiência de grandes alianças já começou a funcionar, incluindo o centro. Depois que os populistas dos Democratas Suecos (SD) galoparam nas pesquisas, alcançando 20% das previsões de votos, os dois principais blocos — do Partido Social Democrata com o Verde, de governo, e o conservador (formado por quatro partidos) — fecharam um acordo para que a aliança mais votada possa formar o governo, mesmo sem ter maioria. Nesse cenário, o atual governo “vermelho/verde” (social-democrata/verdes) é tolerado pela aliança conservadora. Trata-se da primeira ação do gênero.

Na Bélgica, que tem um cenário bastante complexo devido à divisão das agremiações entre as regiões de idioma francês e holandês, a ameaça da extrema-direita também vem sendo evitada por meio de alianças. O bloco conservador do primeiro-ministro Charles Michel — democracia cristã, liberais e nacional-democratas (CD&V,N-VA e VLD) — e o progressista Partido do Trabalho (PTB), atualmente de oposição, conseguiram frear o avanço de Vlaams Belang, separatista e de extrema-direita.

Mas a cientista política belga Chantal Mouffle, professora de Teoria Política da Universidade de Westminster, em Londres, defende que só é possível combater o inimigo, o populismo da extrema-direita, usando a mesma arma.

— Precisamos de um populismo da esquerda para salvar a Europa da ameaça da extrema-direita — diz a analista, que considera o populismo um instrumento da democracia.

Na França, Macron parece ser a concretização da teoria de Chantal. Jovem, bonito e carismático, o “Kennedy do Sena”, que registra um aumento de popularidade, tornou-se a principal arma para evitar uma presidente Le Pen, depois do desgaste do candidato do partido Os Republicanos, François Fillon, e da letargia dos socialistas, um legado deixado pela impopularidade de François Hollande.

A cientista política afirma que esse populismo como arma de contra-ataque pode ser visto também no Syriza, do premier grego, Alexis Tsipras, ou no Podemos, de Pablo Iglesias, na Espanha. Já na Itália, outra nação que pode contribuir para a perspectiva sombria de “desmoronamento da UE”, como receia Sigmar Gabriel, ex-presidente do SPD e ministro das Relações Exteriores, o populismo é quase exclusivo da extrema-direita, da Liga Norte — ou do Movimento Cinco Estrelas de Bepe Grillo.

OPOSIÇÃO ESTÁ ENFRAQUECIDA

Oskar Niedermeyer, da Universidade de Berlim, lembra que a extrema-direita encontra chances de crescer quando os partidos democráticos deixam de ser vistos como uma opção.

— Os conservadores e os social-democratas perderam os seus contornos ideológicos — critica.

Também no Leste Europeu, partidos começaram a adotar uma política mais agressiva contra populistas. Depois de quase dez anos de governo de Viktor Orbán, os socialistas húngaros vão tentar derrubá-lo nas eleições do próximo ano. Mas o cientista político Peter Kreko, de Budapeste, afirma que a oposição continua fraca e que Orbán precisa temer mais a ameaça que vem da sua direita:

— Na Hungria, aliança progressista não avançou.

Orban pode ser ultrapassado pelo partido Jobbik, ainda mais conservador, que nos últimos meses tenta se livrar da imagem de racista.

oglobo.globo.com | 26-02-2017

ANCARA e BUDAPESTE - Enquanto a chanceler alemã, Angela Merkel, visitava o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, numa tentativa de fortalecer o papel da Otan no combate ao Estado Islâmico e no controle da crise migratória que assola a Europa, o presidente russo, Vladimir Putin, foi à Hungria, num esforço de reparar sua reputação com Estados-membros da União Europeia (UE) e acelerar a suspensão das sanções impostas contra Moscou desde a anexação da Crimeia em março de 2014.

Discursando ao lado de Erdogan na capital turca, Merkel usou o fracasso da tentativa de golpe contra o governo, em julho do ano passado, para cobrar do presidente — acusado de autoritarismo — respeito à democracia.

— É exatamente por isso que é importante que a liberdade de opiniões seja mantida, e por isso discutimos a questão da liberdade de imprensa — afirmou Merkel, que pediu ao presidente turco que garanta a diversidade de opiniões no país. — A oposição é parte da democracia.

A discussão sobre o combate ao terrorismo rendeu uma saia-justa durante a coletiva, quando Merkel afirmou ter conversado com Erdogan sobre a luta contra o “terrorismo islamista”.

— A expressão ‘terrorismo islamista’ entristece profundamente a todos nós muçulmanos — afirmou o presidente. — Essa expressão é incorreta porque o Islã e o terror não podem ser associados. O Islã significa paz.

Em resposta, Merkel assegurou que seu governo “não apenas respeita e valoriza os muçulmanos, mas quer trabalhar com eles contra o terrorismo”.

Com as relações entre Ancara e a União Europeia cada vez mais fragilizadas, Merkel busca garantir que o acordo firmado entre o bloco europeu e a Turquia, em março do ano passado, não se desmanche. O plano de ação ajudou a reduzir drasticamente o número de pessoas que atravessam o Mar Egeu tentando chegar à Grécia, para seguir rumo à Europa Ocidental. Embora o governo turco tenha alegado que a promessa de € 3 bilhões para apoiar projetos humanitários — destinados a ajudar os quase três milhões de sírios refugiados no país — não foi cumprida, Merkel garantiu que o acordo permanece “no caminho certo” e louvou os “extraordinários esforços” da Turquia no apoio a refugiados.

A visita foi criticada por Kemal Kilicdaroglu, líder do Partido do Povo Republicano (CHP), principal legenda de oposição da Turquia. Segundo ele, Erdogan explorará politicamente a passagem de Merkel, sugerindo que ela visitou o país para apoiar as políticas do governo.

Hungria defende Rússia

Já em Budapeste, o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, saudou a visita de Vladimir Putin como “um sinal do processo de realinhamento no mundo”, afirmando que o cenário é favorável para o fortalecimento das relações entre a Rússia e a Hungria. Em uma entrevista coletiva, os dois falaram de questões econômicas, e destacaram a necessidade de cooperação internacional.

Embora a visita tenha sido encarada pela imprensa e pela oposição húngara como uma tentativa de Putin de amenizar as tensões entre Moscou e a UE e derrubar as sanções, o tema não foi citado na coletiva— ainda que Orbán tenha feito uma alusão às conturbadas relações entre o bloco europeu e a Rússia:

— Por razões que estão muito além de nossa compreensão, a porção ocidental de nosso continente demonstrou políticas bastante anti-Rússia que acabaram atingindo a economia húngara.

Em entrevista, o porta-voz de Orbán, Zoltan Kovács, explicou a importância da visita de Putin:

— Não queremos sair da UE. Queremos transformá-la em uma aliança de nações que possam governar sem a influência dos burocratas de Bruxelas — afirmou. — Ao mesmo tempo, sentimos que todos irão redefinir suas relações com Moscou e também queremos fazer isso. Não estamos mais em um mundo bipolar, mas sim num mundo multipolar que está surgindo.

oglobo.globo.com | 03-02-2017

BERLIM — Daniel Cohn-Bendit, ex-deputado no Parlamento Europeu pelo Partido Verde (2004 a 2014), vê o risco de racha da União Europeia, em consequência dos ataques do novo presidente americano, Donald Trump, e dos populistas que avançam em vários países da Europa em direção ao poder. Em entrevista ao GLOBO, Cohn-Bendit, visto pela imprensa francesa como o provável vice da chapa do candidato Emmanuel Macron, lembrou que as medidas protecionistas anunciadas por Trump serão rebatidas pela Europa e o resultado pode ser uma guerra comercial capaz de afetar o mundo inteiro com uma estagnação econômica. Trump_2101

Donald Trump ainda não tinha assumido a Presidência quando começou a abalar a Europa com os seus ataques. Na sua opinião, ele pode mesmo contribuir para agravar a crise e a divisão da Europa?

Talvez esta seja a sua intenção. Antigamente, eu teria dito que a Europa não corre riscos porque é capaz de oferecer uma resposta à altura. Mas os países do núcleo da UE — França e Alemanha —, que antigamente eram responsáveis por iniciativas para consolidar a integração europeia, não estão em condições. Os dois passarão este ano por importantes eleições. Na França, há até o risco de ser eleito um presidente da extrema direita.

O senhor quer dizer Marine Le Pen, da Frente Nacional?

Isso mesmo. Havia o receio de um segundo turno dos populistas contra os conservadores. Mas, para falar a verdade, agora eu acredito que vai ser possível a vitória de Macron (o ex-ministro da economia Emmanuel Macron, de centro-esquerda). O fenômeno do populismo na Europa precisa ser combatido através da luta contra as circunstâncias que o causaram, a falta de programas sociais que deixou grandes camadas da população empobrecerem... Sem esse fenômeno, Le Pen e outros populistas na Europa não encontrariam a ressonância que têm no momento. Esses partidos crescem porque têm o apoio de uma camada da população que se sente perdedora com a globalização. Mas não devemos esquecer, muitas pessoas que hoje buscam os populistas perderam o emprego ou caíram de status econômico por culpa do capitalismo. O mesmo ocorre com as pessoas que elegeram Trump, em grande parte trabalhadores que perderam o emprego por causa da globalização. É uma grande ironia da História que o capitalista Donald Trump, um bilionário, seja o seu representante.

A imprensa francesa já abordou a possibilidade de uma chapa Macron-Cohn-Bendit. O senhor vai ser o vice de Macron, com quem esteve na semana passada, aqui em Berlim?

Só quero dizer que vou apoiar a candidatura de Macron porque ele é a única chance de frear a direita de Le Pen.

Quer dizer que descarta?

Nada está decidido.

Se Le Pen ganhar, ela vai mesmo cumprir a ameaça de organizar um referendo para a saída do país da UE?

Um referendo não significa necessariamente a saída. Todo esse debate sobre o Brexit (a saída britânica do bloco) e Trump teve na França um efeito contrário, de aumentar o interesse pela UE. As últimas sondagens indicam que dois terços dos franceses são a favor da permanência do país no bloco.

Também os membros da UE do Leste, como Hungria e República Tcheca, apoiam Trump e vivem criticando o bloco e a política de refugiados da chanceler alemã Angela Merkel. A Hungria é o próximo candidato à saída da UE?

A Hungria é um caso interessante porque vê a UE como meio de receber ajuda financeira. Já quando tem que cooperar, como no caso dos refugiados, fecha questão, recusando-se a recebê-los. Acho provável que a Hungria termine deixando a UE. Mas a saída de dois ou três membros não significa o fim do projeto da integração europeia.

Como a Hungria, também alguns outros países do Leste perderam o entusiasmo pela UE e voltaram a se aproximar de Moscou. Uma possível aliança entre o presidente russo, Vladimir Putin, e Donald Trump poderá ajudar Moscou a voltar a formar uma espécie de novo bloco leste?

Vejo um grande perigo e, por isso, volto a afirmar que o mais importante no momento é o desenvolvimento da ideia da União Europeia, não apenas administrar a crise, mas ir adiante na integração. Essa ideia tem encontrado um grande obstáculo porque os países ainda são movidos pelos interesses nacionais. A França quer uma UE à francesa, a Alemanha no estilo alemão. Em resumo, falta a capacidade de consenso.

Tudo isso costumava ser resolvido ou pelo menos discutido pelo chamado eixo Paris-Berlim. Esse eixo deixou de funcionar porque Merkel não se entende com François Hollande?

Também houve problemas na época de Helmut Kohl/François Mitterrand ou de Gerhard Schröder/Jacques Chirac. Nem sempre os dois países tinham posições parecidas. A diferença é que eles se falavam mais do que agora, com Merkel e Hollande.

Trump antecipou medidas de aumento das tarifas alfandegárias, o que teria o efeito de agravar a crise do euro. O que a UE, ou melhor, a zona do euro, pode fazer contra as possíveis medidas americanas?

A UE não vai ficar calada se Trump concretizar a sua ameaça de endurecer com medidas protecionistas. Há empresas americanas gigantescas, como a Google e a Amazon, que podem sofrer com as retaliações da UE. No final, o mundo inteiro poderia sofrer os efeitos de uma guerra comercial. Se houver ataque (protecionista), haverá um contra-ataque.

O retrocesso da ideia da integração europeia, a volta dos Estados nacionais, tudo isso aumentaria o perigo de guerra que, depois da queda da Cortina de Ferro, parecia definitivamente superado?

Não vejo qualquer perigo de volta desse fantasma. A democracia não corre risco na Europa. Não devemos despertar um medo que não tem risco de acontecer.

oglobo.globo.com | 22-01-2017

DAVOS - O desenvolvimento de uma economia não pode ser medido apenas distribuição de renda entre sua população. Ele também precisa considerar outros aspectos como o acesso das pessoas a educação, serviços, emprego, intermediação financeira, proteção social e patrimônio. Com base nessa premissa, o Fórum Econômico Mundial (WEF) de Davos, na Suíça, divulgou, nesta terça-feira, o novo “Relatório sobre Desenvolvimento e Crescimento Inclusivos”. O documento traz um ranking de 109 países com base nesses indicadores e também nos efeitos que problemas como a corrução trazem para a qualidade de vida dos cidadãos.

DAVOSO Brasil aparece em 30º na lista dos 79 países em desenvolvimento observados, atrás de outras economias como Argentina (11º lugar), Venezuela (26º lugar) e México (29º) . Isso porque embora tenha uma renda per capita mais elevada, a desigualdade faz o país perder posições. “Alguns países têm um ranking de Desenvolvimento maior que sua renda per capita, o que sugere que eles fizeram um bom trabalho em tornar seu processo de crescimento inclusivo. Isso inclui, por exemplo, Camboja, República Tcheca, Nova Zelândia, Coreia do Sul e Vietnã. Em contraste, outros têm um índice significativamente mais baixo que sua renda per capita, indicando o contrário. Isso inclui Brasil, Irlanda, Japão, México, Nigéria, África do Sul e Estados Unidos” diz o documento.

No caso brasileiro, se o critério de avaliação fosse apenas o crescimento econômico, ele ocuparia a 9ª posição. No entanto, quando se observa apenas o critério da desigualdade, o país despenca para a 42ª colocação. Entre os emergentes, os três líderes no ranking são Lituânia, Azerbaijão e Hungria. Já os desenvolvidos têm no topo Noruega, Luxemburgo e Suíça.

De acordo com o documento, 51% dos países analisados viram seu índice de Desenvolvimento Inclusivo cair nos últimos cinco anos, o que comprova que os governantes têm dificuldades em fazer com que o crescimento econômico se transforme em progresso social.

— Existe um consenso global de que o crescimento inclusivo foi muito mais teórico do que prático. Para responder de maneira mais eficiente a problemas sociais, a política econômica precisa de reformas estruturais e também que ministros de finanças priorizem a inclusão tanto quanto a política macroeconômica tradicional — afirmou Richard Samans, um dos autores do documento.

oglobo.globo.com | 17-01-2017

Muitos americanos ficam indignados ao verem Donald Trump ironizar a palavra “inteligência” quando se refere aos órgãos de segurança americanos. Parece uma heresia desafiar a sabedoria e a competência de instituições encarregadas de resguardar a segurança e a liberdade. Como russo, apenas dou de ombros: nunca acreditei numa só palavra vindo dos serviços de inteligência do meu país. Esta distância cultural, no entanto, está diminuindo. As sociedades ocidentais estão ficando cada vez mais desconfiadas.

Há duas décadas, Francis Fukuyama — o homem que, também com irreverência, declarou que a História estava morrendo e que um paraíso liberal e democrático nascia — relacionou confiança à prosperidade. Ele argumentou que as sociedades com maior confiança entre seus membros, tais como EUA, Japão e Alemanha, se saíam melhor do que aquelas com um grau menor de confiança, tais como China, Itália, França ou Coreia. A evidência econômica não tem apoiado tal teoria, mas pelo menos se pode dizer que uma sociedade mais confiável é mais agradável para se viver, sobretudo porque não é necessário se esforçar para provar a pureza das intenções.

O comunismo destruiu a confiança em cada país onde reinou. Um Estado controlador e inconfiável definiu o tom das interações sociais e praticamente convidou as pessoas a lutarem contra ele ou a enganá-lo. E a aniquilação da confiança sobreviveu ao comunismo. Muitos pesquisadores que se debruçaram sobre o fenômeno concluíram que isso tem a ver com o desenvolvimento econômico: se as instituições e as relações interpessoais não conseguem produzir bem-estar, elas não merecem confiança. Ambientes com baixa credibilidade são inadequados para uma democracia robusta: rapidamente se degeneram em guerras internas e paralisia.

Em razão disso, nações com baixa confiança geralmente se submetem prontamente a regras draconianas. Um autoritário como o presidente russo Vladimir Putin não se preocupa em gerar confiança: ele pode governar por outros métodos, tais como canalizar as frustrações contra supostos inimigos externos. Viktor Orban, da Hungria, e Jaroslaw Kaczynski, da Polônia, também seguem por esta trilha. Monopólios de poder e governos com mãos de ferro, porém, tendem a excesso de regulamentação e corrupção, economia em desaceleração e perpétua desconfiança em relação aos governos e entre as pessoas.

Segundo a empresa de marketing Edelman, que mede o fenômeno desde a virada do século, a confiança em instituições nos EUA ainda não é tão baixa quanto na Europa Oriental, mas a diferença não é grande. Entre a população geral, a confiança média em organizações não governamentais, governo, mídia e empresas alcança 49% nos EUA; 39% na Rússia e 35% na Polônia. São os americanos com nível universitário que têm, de longe, maior grau de confiança nas instituições do país frente a seus pares da Europa Oriental. Isso explica a irritação dos americanos de nível universitário com a falta de confiança de Trump nos órgãos de inteligência. Edelman classifica isso de “abismo de confiança” entre o “público informado” e a “massa da população”. Essa distância tem se ampliado em boa parte do mundo, sobretudo em França, Reino Unido e EUA.

Alguns veem o abismo de confiança como consequência da crescente desigualdade econômica, mas creio que as altas correlações entre prosperidade econômica e níveis de confiança levaram os pesquisadores a simplificar demais a questão e a sugerir que a desconfiança pode ser invertida mediante a redução da desigualdade. Mas as pessoas não são cães de Pavlov, e não respondem unicamente a estímulos econômicos. Elas também acreditam em instituições que, ao longo do tempo, construíram reputações de confiabilidade.

Enquanto na Europa Oriental a desconfiança é universal, e os resultados são relativamente previsíveis, no Ocidente, a relativa capacidade de confiança das elites criou o potencial para surpresas surpreendentes. Trump e os partidários do Brexit venceram porque não ignoraram uma massa desconfiada — aprenderam a pensar como esse público e ver as instituições através de seus olhos.

Três diferentes resultados são possíveis. Um seria uma versão de Putin, Orban ou Kaczynski: ignore a desconfiança, use as instituições para impor uma agenda e mantenha as pessoas sob controle. Trump pode sentir-se tentado a seguir por aí, embora os pesos e contrapesos das instituições americanas sejam desenhados para resistir a usurpadores. Outra possibilidade seria um relativo caos, algo parecido com o que os britânicos pró-Brexit parecem ter criado no país. Quanto à terceira possibilidade, que é imperativa para o Ocidente, nenhum país a adotou com sucesso: a reconstrução da confiança universal em suas principais instituições. Como salientou Fukuyama: é mais fácil destruir a confiança do que reconstruí-la.

Leonid Bershidsky é colunista da Bloomberg News

oglobo.globo.com | 08-01-2017

A Hungria tem uma economia de porte médio, aberta estrutural, política e institucionalmente, e integrada desde 2004 à União Europeia. Tal como outras economias do Leste Europeu, fez uma transição de uma economia centralizada e planificada para uma economia de mercado nos anos 1990. Hoje o setor privado responde por 80% do produto interno bruto do país. Os investimentos estrangeiros e a posse de empresas húngaras acumulam mais de 60 bilhões de dólares desde 1989. As medidas de austeridade propostas pelo FMI reduziram o déficit orçamentário de mais de 9% em 2006 para 3,3% do PIB em 2008.


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