i
Français | English | Español | Português

Rússia Economia

BERLIM - Com preocupação, mas dispostos a demonstrar uma nova autoconfiança, líderes europeus reagiram de forma contundente à primeira entrevista do presidente eleito dos EUA, Donald Trump, à imprensa estrangeira — ao jornal britânico “Times” e ao alemão “Bild Zeitung” — que causou um abalo sísmico. Disparando sua metralhadora giratória verbal, Trump criticou a União Europeia (UE), a Otan, o acordo nuclear com o Irã e a resposta da Alemanha à crise dos refugiados, classificando de “erro catastrófico” a decisão da chanceler Angela Merkel de abrir as portas do país a mais de um milhão de fugitivos de guerras e da pobreza extrema em países de Ásia, África e Oriente Médio. CONTEÚDO TRUMP 1701

Em uma primeira reação, Merkel afirmou que “a Europa é dona do seu próprio destino”. A chefe de governo alemã, que como presidente (rotativa) do G-20 deverá visitar Trump em abril ou maio, apelou aos colegas no continente a não se deixarem confundir pelas declarações dele. Reunidos em Bruxelas, os chanceleres europeus apelaram para a unidade dos 28 membros da UE. O chanceler francês, Jean-Marc Ayrault, foi enfático:

— A melhor resposta à entrevista do presidente é a unidade dos europeus.

Já o ex-premier e pré-candidato à Presidência da França, Manuel Valls, chamou as falas de Trump de provocação:

— Uma declaração de guerra à Europa.

O presidente da França, François Hollande, também se juntou ao coro que desancou Trump.

— A Europa não precisa de conselhos extremos para dizer o que tem de fazer — pontuou o francês.

Depois de um encontro com o secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, o ministro das Relações Exteriores alemão, Frank-Walter Steinmeier, lembrou que as declarações de Trump sobre a Otan vão contra as ideias do futuro secretário de Defesa dos EUA, James Mattis. Segundo Steinmeier — que dentro de poucas semanas deverá ser eleito o novo presidente da Alemanha — Trump causou “surpresa e agitação” na Europa. As críticas também vieram internamente. O secretário de Estado americano, John Kerry, classificou as declarações de Trump sobre Merkel como inapropriadas.

— Ele terá que responder por isso. Acho que devemos ser muito prudentes antes de dizer que um dos líderes mais poderosos na Europa cometeu um erro.

A inquietação indica que os europeus esperavam que, depois de eleito, o republicano deixasse de fazer declarações incendiárias. De fato, Trump não disse nada de novo. Na campanha, criticou Merkel, elogiou o Brexit (a saída do Reino Unido da UE), e antecipou que iria adotar medidas protecionistas para proteger as empresas americanas — ele já anunciou uma taxa de 35% para os carros da montadora alemã BMW produzidos no México. Trump Info

Para o cientista político Thomas Jäger, da Universidade de Colônia, Trump não tem a intenção apenas de chocar:

— Ele tem dois objetivos: acelerar a economia americana e só fazer acordos internacionais se estes favorecerem os EUA.

Para ele, a ideia é pôr a perspectiva americana, durante muito tempo ignorada, no centro das atenções.

Mas, poucos dias antes de tomar posse, o presidente eleito continua dividindo os europeus. A maior parte dos países da Europa Ocidental acompanha com apreensão o receio da influência do republicano na possível desintegração de uma já dividida UE. No Leste, da Rússia à República Tcheca, no entanto, Trump é admirado. Irina Sherbakova, historiadora e ativista da ONG Memorial, lembra que os russos — que detestavam Barack Obama — associam o novo governo à possibilidade de melhoria nas relações entre Moscou e o Ocidente e, com isso, o fim das sanções e superação da crise econômica.

Já na Europa Ocidental, apenas os partidos de extrema-direita apoiam o novo presidente. E não é só o estilo direto de Trump que assusta a maioria dos europeus. A possibilidade de uma forte aliança dos EUA com a Rússia, que teria assim carta branca para novas ações como a ocupação da Crimeia, até então território da Ucrânia, é vista como sombria. Contra uma possível aliança Trump-Putin, 17 políticos europeus, entre eles o ex-presidente da Estônia, Toomas Hendrik, enviaram uma carta ao novo presidente alertando sobre a Rússia, que teria em vista, segundo os signatários, “a desestabilização da Otan, a espionagem e a guerra psicológica”.

Extrema-direita celebra

Pior do que isso. Como escreveu o cientista político Ulrich Speck na sua coluna no jornal “Neue Zürcher Zeitung”, a proximidade entre os dois presidentes desperta lembranças amargas da Conferência de Yalta, que selou a derrota da Alemanha nazista, em 1945, e resultou na divisão da Europa em áreas de influência dos EUA (Europa Ocidental) e da então União Soviética (Europa Oriental). “Os EUA de Trump não são mais (como foi no passado) a garantia de uma ordem mundial liberal, mas são definidos pelos seus interesses nacionais imediatos”, sustenta Speck.

Embora o secretário-geral da Otan não veja grandes riscos para a Europa, analistas advertem para o perigo concreto de um racha dessa aliança — com efeitos negativos para a UE, que precisaria investir muito mais na sua segurança. Em crise, o bloco não tem sido capaz de chegar a um consenso nem na divisão de um sistema de cota de refugiados — uma unanimidade na decisão de medidas de defesa é vista como muito difícil.

Não por coincidência, a posse de Trump será acompanhada com atenção pela extrema-direita europeia. Um dia depois, lideres do bloco extremista em Alemanha, França, Holanda, Bélgica e Itália vão se reunir na cidade alemã de Koblenz, na cúpula dos populistas. A iniciativa partiu de Marine Le Pen, da Frente Nacional, da França, que quer fazer do Movimento para uma Europa das Nações e da Liberdade, que fundou em junho de 2015, uma espécie de “Internacional da extrema-direita”, a exemplo da tradicional Internacional Socialista.

De carona no populismo de Trump, os direitistas europeus contam com mudanças radicais em 2017, que começariam com a possível vitória de Geert Wilders, do Partido da Liberdade, na Holanda, e de Le Pen, na França, em março e em maio. Para o cientista político italiano Giulietto Chiesa, ex-deputado do Parlamento Europeu, a extrema-direita continuará contando com a influência do americano para realizar seus dois mais importantes projetos: acabar com o fluxo de refugiados e reduzir o papel da UE nos países-membros.

oglobo.globo.com | 17-01-2017

WASHINGTON - As incertezas sobre o real impacto do governo de Donald Trump na economia são a tônica dos analistas internacionais. A maior consultoria de risco político do mundo avalia que o governo Trump, que assume a Casa Branca na sexta-feira, pode ampliar o crescimento global ou desestabilizar a economia do planeta, segundo Jon Lieber, diretor para Estados Unidos da Eurasia Group. Ele lembra que as pistas da política econômica de Trump serão conhecidas com seu Orçamento, que precisa ser aprovado até abril, e que um dos grandes desafios virá em março, quando está previsto para voltar a vigorar o teto da dívida pública dos EUA. trump

Como avalia a indicação de Steven Mnuchin a secretário do Tesouro por Trump?

Mnuchin é um financista e conselheiro de Trump, que está sendo recompensado por sua lealdade ao magnata. É um dos que teriam chance de não ser confirmados (pelo Senado) por seus complicados laços financeiros e pelo uso controverso de subsídios do governo para lucrar na crise de 2009. Acreditamos que o Senado (dominado por republicanos) vai confirmá-lo. Ele não tem experiência no governo ou na política e vem de uma carreira de negócios bem-sucedida, trajetória parecida com a do presidente eleito. Mnuchin lutará com Gary Cohn, futuro presidente do Conselho Econômico Nacional, para manter influência na Casa Branca. Cohn tinha papel muito mais sênior e poderoso no Goldman Sachs, onde ambos trabalhavam. O poder de Mnuchin neste governo será amplo, incluindo a reforma tributária e a frente para definir a China como manipuladora de sua moeda (abrindo espaço a sanções comerciais) e supervisionar a revisão de normas para investimentos estrangeiros em empresas dos EUA. Ele pode ter problemas se não se cercar de conselheiros com experiência em Washington.

Quais são os principais desafios e medidas econômicas que devem ser tomadas durante os primeiros cem dias de governo?

Os primeiros cem dias de Trump serão dominados pelo esforço para desfazer o máximo e o mais rápido possível o legado de (Barack) Obama. Sua primeira conquista será pôr fim ao Obamacare (sistema de saúde criado por Obama). E deve revogar uma série de normas de Obama em energia, serviços financeiros e mercado de trabalho. O mais importante economicamente é que Trump terá que apresentar seu primeiro Orçamento e aprová-lo antes de abril. Esta será a oportunidade para desenvolver sua agenda econômica e legislativa e fornecer ao mundo uma pista sobre o que pretende fazer sobre política fiscal e gastos. Especialmente crítico para a saúde da economia será o debate sobre o limite da dívida pública, que está programado para voltar a vigorar em março, embora o Tesouro tenha ferramentas para prorrogar o prazo até o verão (junho, no Hemisfério Norte). No entanto, alguns dos conselheiros de Trump não acreditam que o limite da dívida tenha um prazo real e que os EUA podem priorizar pagamentos para evitar calote. Se isso se tornar o ponto de vista predominante, o limite de dívida pode ser o item economicamente mais significativo de seu primeiro ano, pois os mercados reagirão muito mal a qualquer sugestão de que os EUA poderiam não pagar sua dívida.

Quais são as expectativas para a economia dos EUA e os impactos no mundo?

Há expectativa positiva e negativa. Trump traz a possibilidade de reformas há muito esperadas para o sistema de impostos e imigração dos EUA, que podem ser pró-crescimento. A reforma tributária de Trump poderia permitir que empresas dos EUA repatriassem fundos que estão no exterior por uma taxa de imposto mais baixa. Ele deve lutar contra a imigração ilegal e isso criará pressão sobre o Congresso para reformar o sistema de imigração a fim de permitir que trabalhadores mais qualificados entrem nos EUA. O risco é saber como o resto do mundo reagirá à presidência não convencional de Trump. Sua imprevisibilidade e falta de habilidades diplomáticas podem levar a China a retaliar com ações comerciais agressivas ou a responder a provocações militares com força, fazendo a situação sair do controle. A relação de Trump com a Rússia pode dar a Moscou liberdade para ameaçar vizinhos e tentar expandir sua esfera de influência. Sem os EUA como força estabilizadora, a economia mundial e a ordem geopolítica correm o risco de viver uma convulsão, com consequências negativas para o sustento das pessoas em todo o mundo.

oglobo.globo.com | 15-01-2017

WASHINGTON — As bolsas de apostas de Londres indicam que metade das pessoas acredita que Donald Trump não vai concluir seu mandato de quatro anos, que começa na próxima sexta-feira. Isso mostra o nível das incertezas que o novo presidente americano terá de enfrentar. A resistência ao seu nome, graças às suas propostas e ao seu estilo, será a primeira grande batalha do magnata na Casa Branca. Mas não a única: diversos temas exigem decisões e medidas já nas primeiras horas do governo que substituirá o de Barack Obama.

Infográfico: Um Gabinete cheio de controvérsias

Eleito em uma das disputas mais controversas dos últimos anos, perdendo na votação popular por 2,8 milhões de votos e com predisposição para a polêmica e o enfrentamento, Trump ainda não deu sinais claros de como será seu governo. Ele não detalhou suas propostas nem como fará para unir o país dividido. A força dos movimentos populares de esquerda, que prometem não dar trégua ao novo governante, complica ainda mais o cenário.

— Trump precisa parar de brigar — simplifica Peter Hakim, presidente emérito do Inter-American Dialogue. — Precisa ser mais sereno, parar de atacar a todo o momento, de fazer drama. Ser presidente não é um show, não é teatro.

O fato de ser o presidente mais mal avaliado e com as piores perspectivas antes da posse em décadas é outro indicativo de que precisa buscar a legitimidade.

— Trump precisa ter uma postura presidencial, indicar que governará todo o país, não apenas para seus eleitores. E até agora ele não fez isso — afirma Beatriz Cuartas, doutora em Ciências Políticas pela George Washington University.

Necessidade de definir prioridades

O país chega à posse em seu momento mais dividido desde a Guerra Civil americana, segundo Robert Watson, professor de Estudos Americanos da Lynn University, na Flórida. A postura incendiária que Trump adotou desde a eleição não ajudou. E fazer a máquina pública funcionar é outra questão essencial para o magnata.

Trump

— Trump é responsável pela nomeação de quase cinco mil cargos de órgãos públicos, agências e até conselhos de entidades. E, mais que isso, precisa fazer com que os nomes que indicou ao Gabinete sejam aprovados. Não é fácil para quem tem zero experiência política e legislativa — destaca.

Watson recorda que, pela lógica, Trump conseguiria aprovar facilmente seus secretários no Congresso, onde o Partido Republicano tem ampla maioria nas duas Casas. Mas nomes controversos — muitos deles bilionários sem experiência política, com posições conflitantes com o presidente eleito e com a suspeita de interesses pessoais contrários ao posicionamento do país — dificultam o trabalho. Trump indicou para secretário de Estado Rex Tillerson, acusado de ser próximo a Vladimir Putin e ter interesses econômicos na Rússia. Para o Departamento de Energia, Rick Perry, que defende o fim da pasta, por exemplo.

— Uma coisa é fazer bullying com a imprensa, atacar as pessoas pelo Twitter, outra é negociar com o Congresso. Dizem que no Senado são cem opiniões diferentes, ou até 200, pois cada senador tem duas para cada assunto. E é uma Casa onde os interesses locais contam muito — disse o professor.

O presidente eleito ainda terá que afastar de vez os temores de um conflito de interesses. A solução anunciada — seus ativos iriam para um fundo administrado pelos filhos — não agradou aos especialistas. Muitos defendem que fossem para um blind trust (fundo em que o dono da fortuna sequer sabe o nome do gerenciador) ou que Trump abrisse mão de todos os seus negócios.

— A solução é totalmente inadequada e vai deixar o presidente vulnerável a suspeitas de corrupção — afirmou Walter Shaub, diretor do Conselho de Ética do governo americano.

E, então, Trump terá de governar. E entre os principais temas estão relações externas com a Rússia (tensas pelas acusações de espionagem para influenciar as eleições americanas), Israel (prometeu mudar a embaixada para Jerusalém) e China, com quem Trump promete uma guerra comercial e que provocou, ao ameaçar reconhecer Taiwan. Terá ainda que entrar em questões que prometeu na campanha, como imigração, terrorismo e a reforma da Saúde.

— Ele precisa estabelecer poucas prioridades e começar a detalhar as ações — explica Peter Hakim. — Se fizer isso com sabedoria, pode ser até uma forma de unir os republicanos.

Beatriz Cuartas lembra que ele prometeu muitas mudanças na área comercial, tornando o país mais protecionista, uma reforma tributária e um pacote multibilionário de investimentos de infraestrutura:

— Trump precisará se arriscar e aprender ao mesmo tempo. Terá que definir suas propostas e conquistar credibilidade para implementá-las.

O desafio é claro. Ontem, milhares de pessoas se reuniram em Washington no primeiro grande protesto contra Trump, organizado por diversas instituições de defesa dos direitos dos negros, imigrantes, latinos, gays e muçulmanos. Novas manifestações estão marcadas para toda a semana.

— Não vamos deixar nossos direitos irem para o ralo — disse o ativista negro Dory Morgan.

oglobo.globo.com | 15-01-2017

RIO - Presidente e fundador do Eurasia Group, o americano Ian Bremmer vê riscos no futuro das relações políticas dos Estados Unidos com a chegada de Donald Trump à Presidência, mas afirma que - apesar da retórica explosiva do presidente eleito - a aproximação com Cuba, a relação com a Otan, o acordo nuclear com o Irã e a aliança com Israel não deverão sofrer grandes mudanças com magnata republicano na Casa Branca.

Durante a campanha presidencial, muito se falou sobre a relação entre Donald Trump e o presidente russo, Vladimir Putin. A poucos dias da chegada de Trump à Presidência, o que se pode esperar para o futuro das relações entre Moscou e Washington?

Embora Trump e nomes como Jeff Sessions e Rex Tillerson tenham adotado uma postura mais cautelosa ao falar da Rússia recentemente, eles ainda estão no modo de campanha, dizendo aquilo que é necessário dizer no momento. Tillerson - que tem uma relação com o Kremlin melhor que a de qualquer outro cidadão americano - foi bastante cuidadoso e evitou se referir aos russos como criminosos de guerra, enquanto Trump admitiu a possibilidade dos ciberataques, mas afirmou que eles poderiam ter sido realizados por outros países. Trump vem deixando claro que as relações com a Rússia podem melhorar, e acho que veremos os dois países muito mais alinhados nos próximos anos, o que, é claro, gerará desconforto dentro do Partido Republicano.

De que modo a resistência a Trump dentro de seu próprio partido, evidente durante a campanha eleitoral, poderá influenciar as decisões do novo governo? Os republicanos domarão Trump ou ele conseguirá conquistá-los?

Ele, de certa forma, já os conquistou por ter conseguido a indicação presidencial e vencido a eleição. Havia muita resistência por parte do establishment republicano, é verdade, mas isso aconteceu porque ele disputou a indicação contra outros 16 nomes do partido. As decisões que vem anunciando, desde a indicação de Reince Priebus para a chefia de seu Gabinete, quanto os nomes escolhidos para as secretarias do Tesouro (Steve Munchin) e de Comércio (Wilbur Ross), estão dentro de uma proposta que favorece os negócios, os bancos e as privatizações, logo, perfeitamente alinhada com os interesses do partido. É na política externa que estão suas grandes divisões com os republicanos.

Trump

Barack Obama foi um grande defensor da diplomacia, apostando na abordagem de "liderar por trás", enquanto Trump tem se manifestado bastante sobre temas como armas nucleares, o combate ao Estado Islâmico e a redefinição dos laços americanos com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Qual deve ser a maior mudança na política externa americana?

Por mais diferente que possa parecer a retórica, na prática não acho que Trump vá ser muito diferente. Obama era inexperiente, tinha pessoas inexperientes a seu lado, e foi o primeiro a reclamar sobre os gastos com aliados da Otan, anos atrás. Com Trump temos o mesmo cenário, somado à sua personalidade volátil e seu estilo menos diplomático. Isso pode gerar desconfianças em outros países, especialmente por sua insistência em dizer que colocará os EUA em primeiro lugar.

Até que pontos ciberataques realizados por hackers estrangeiros representarão um risco para o governo de Trump?

Bem, essa é uma atividade que tem se tornado cada vez mais comum nos últimos anos, como vimos em casos como os dos "Papéis do Panamá", o ataque de hackers norte-coreanos que derrubaram o site da Sony Pictures e, agora, no caso dos hackers russos. As habilidades dos hackers permitem que a Rússia, que tem uma economia menor do que a de países como Itália e Canadá, cause bastante estrago com a divulgação de informações confidenciais. Há uma aura de vulnerabilidade da qual os EUA ou qualquer outra nação não se verão livres tão cedo.

No Oriente Médio são esperadas mudanças nas relações dos EUA com Irã e Israel. A chegada de Trump aumenta os riscos de tensões na região?

Não necessariamente. Obama e (o primeiro-ministro israelense Benjamin) Netanyahu não gostavam um do outro, mas a relação com Israel se manteve sólida, com números recordes na ajuda financeira. A decisão de não vetar a resolução contra os assentamentos israelenses na Cisjordânia foi algo que Obama poderia ter feito durante os oito anos em que esteve no cargo, e que deixou para a reta final, após fechar acordos milionários com o governo israelense. Não acho que vá ter qualquer influência sobre as relações ou mesmo sobre a expansão dos assentamentos. Com relação ao Irã, o acordo nuclear é algo que Trump nunca teria feito, mas não acho que ele, apesar das duras críticas, irá simplesmente anulá-lo, até mesmo por se tratar de uma decisão multilateral. O perigo está no fato de Trump atacar o Islã como um todo. Isso transforma bens americanos no Oriente Médio em alvos para as ações de extremistas.

A vitória do bilionário nos EUA foi celebrada por diversos nomes da política europeia. Sua chegada à Presidência pode estimular a ascensão de candidatos populistas na Europa?

Trump quer trabalhar com o Reino Unido, e isso indica que, mesmo após a saída do país da União Europeia, a relação deverá ser mais estável do que com os outros países europeus. Ele sem dúvida adoraria ver nomes da extrema-direita como Marine Le Pen e Geert Wilders chegando ao poder em países como França e Holanda, e isso poderia afastar líderes europeus mais tradicionais, dificultando ações de cooperação.

Como deve ficar a relação dos EUA com a América Latina, especialmente após a histórica reaproximação diplomática com Cuba?

O foco de Trump está no México. Ele sabe que tem que manter boas relações, pela proximidade entre os dois países. Ao mesmo tempo, também sabe que o México não tem outra opção a não ser se aproximar dos EUA, e com isso, temas como a imigração e a construção ou não do muro na fronteira se estenderão por muito tempo. Ainda não há uma estratégia clara para a América do Sul, mas com as transições nos governos, que estão cada vez mais alinhados com a política ocidental tradicional, as relações não devem ser abaladas. Já a reaproximação com Cuba teve reações negativas muito abaixo do esperado nos EUA, e Trump quer trabalhar com Havana. É possível que o governo cubano desacelere um pouco o processo, mas seria uma enorme surpresa se a reaproximação diplomática retrocedesse.

oglobo.globo.com | 15-01-2017

LONDRES - Chineses e alemães estão entre dezenas de investidores que estão considerando a oferta da Ucrânia de transformar o terreno de um dos piores desastres nucleares do mundo em um gigantesco parque solar.

Dos 39 grupos de investidores que pretendem obter autorização da Ucrânia, 13 são internacionais. Eles querem o sinal verde para instalar cerca de 2 gigawatts de painéis solares dentro da zona de exclusão radiativa que rodeia a usina nuclear de Chernobyl, desativada, segundo o ministro de Ecologia e Recursos Naturais, Ostap Semerak.

Esses 2 gigawatts equivalem à capacidade quase completa de dois reatores nucleares modernos, embora a energia atômica, diferentemente da solar, funcione dia e noite.

— Recebemos pedidos de empresas interessadas em alugar terrenos para construir usinas solares — disse Semerak em entrevista por telefone de Kiev. — Não pretendemos lucrar com o uso do terreno, mas com os investimentos.

Três décadas depois de o colapso de Chernobyl ter deslocado mais de 300 mil pessoas, espalhando radiação por grande parte da Ucrânia, da BielorRússia e da Rússia, as autoridades continuam tentando descobrir o que fazer com o terreno que rodeia a usina e tem o dobro da dimensão de Los Angeles.

Como a radiação permanecerá no solo durante séculos, a área não pode ser utilizada para agricultura nem silvicultura. A possibilidade de a energia solar aproveitar a infraestrutura de rede de Chernobyl surgiu em julho.

MAIS DO QUE SÓ RECUPERAR O TERRENO

Em novembro, as empresas chinesas GCL System Integration Technology e China National Complete Engineering afirmaram que planejam construir um projeto de energia solar de 1 gigawatt no local em várias etapas.

Uma promotora alemã de energia renovável solicitou permissão para instalar 500 megawatts, disse Semerak, que não quis identificar a empresa. Os outros projetos propostos são de usinas de mais ou menos 20 megawatts.

Para a Ucrânia, um dos países mais pobres da Europa, o projeto vai além da simples recuperação do terreno. Assolado pela corrupção e por um conflito cada vez mais tenso com grupos pró-russos no leste, o governo quer fortalecer a economia com novos investimentos e atingir a independência energética fora da órbita da Rússia.

Segundo o plano da Ucrânia, as linhas de transmissão montadas originalmente para transmitir a eletricidade gerada pela usina nuclear de Chernobyl, de 4 gigawatts, serão adaptadas para a energia solar. Atualmente, o governo analisa como a rede atual pode lidar com os desafios de intermitência que a energia renovável apresenta. O Ministério da Ecologia também visa a atingir um equilíbrio entre suas ambições para a energia limpa e o impacto nas contas dos consumidores, disse Semerak.

A radiação que persiste em Chernobyl preocupa o Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento (BERD), que avalia se financiará os projetos solares. Empréstimos dependerão da due diligence ambiental, segundo o porta-voz Anton Usov. Os projetos teriam que ser instalados e operados de forma segura e ter viabilidade comercial para receber financiamento, disse ele.

“Para qualquer projeto de mais de 10 megawatts, seria preciso ter alguém no local quase todos os dias”, disse Pietro Radoia, analista de energia solar da Bloomberg New Energy Finance. “Quanto maior for o projeto, mais pequenos problemas cotidianos surgirão para resolver.”

As empresas que pediram autorização para instalar energia solar na zona de exclusão de Chernobylvêm da China, da Alemanha, da Irlanda, da Dinamarca, da Áustria, da Bulgária, de Belarus e da Ucrânia, segundo Semerak.

oglobo.globo.com | 13-01-2017

BRASÍLIA, RIO e SÃO PAULO - Apesar da redução anunciada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) de reduzir a taxa básica de juros (Selic) em 0,75 ponto percentual, a 13%, o Brasil se mantém no primeiro lugar do ranking mundial de juros reais. São 7,93% ao ano, quase o dobro dos 4,76% na Rússia, a segunda maior taxa entre 40 países, cujos dados foram compilados por Vieira, da Infinity. O cálculo desconta da taxa básica vigente a projeção de inflação nos próximos 12 meses.

selic_1101

O último corte nessa proporção realizado pelo BC ocorreu em abril de 2012, quando a Selic passou de 9,75% para 9%. Nas duas últimas reuniões, em outubro e novembro de 2016, o BC optou por reduzir os juros em 0,25 ponto. Para economistas, a decisão do Copom pode incentivar a retomada do crescimento, mas eles ressaltam que as reformas são essenciais à recuperação da confiança na economia.

Em comunicado, o BC afirmou que os diretores chegaram a avaliar um corte de 0,50 ponto e sinalizar uma redução maior para a próxima reunião. “Entretanto, diante do ambiente com expectativas de inflação ancoradas, o Comitê entende que o atual cenário, com um processo de desinflação mais disseminado e atividade econômica aquém do esperado, já torna apropriada a antecipação do ciclo de distensão da política monetária, permitindo o estabelecimento do novo ritmo de flexibilização”, diz o documento.

“A inflação tem se mostrado mais favorável, o que pode sinalizar menor persistência no processo inflacionário; e o processo de aprovação e implementação das reformas e ajustes necessários na economia pode ocorrer de forma mais célere que o antecipado”, diz o texto. O comitê entendeu que, diante do cenário atual, a convergência da inflação para a meta de 4,5% no “horizonte relevante para a condução da política monetária” (2017 e 2018) “é compatível com a intensificação da flexibilização monetária”.

O corte já era aguardado pelo mercado, ainda que a maior parte dos analistas esperasse que a Selic passasse a 13,25%. A economista do Santander Tatiana Pinheiro projetava corte de 0,50, mas acredita que o BC deve replicar a dose de ontem nas próximas reuniões. Se essa avaliação for percebida pelo restante do mercado nos próximos dias, já será possível ver um rápido efeito nos juros futuros, que, por sua vez, influenciarão na queda do custo de financiamento e na retomada da atividade econômica ainda no primeiro semestre.

— Se o mercado, que esperava até hoje taxa de 10,25% ao ano, migrar e fechar o dia com uma expectativa de Selic a 9%, isso já é positivo. Já será marginalmente positivo para a atividade econômica. O importante da decisão de hoje é o impacto que ela tem nas expectativas de taxas de juros mais a médio prazo — afirmou Tatiana, que projeta crescimento de 0,7% este ano.

Eduardo Velho, economista-chefe do INVX Global Partners, também vê efeito da queda de taxa de juros sobre o PIB:

— Claramente tende a aumentar a probabilidade se ter um PIB positivo já no segundo trimestre.

O economista-chefe do Itaú Unibanco, Mario Mesquita, já esperava um corte de 0,75 ponto. Ele considerou a decisão acertada, tendo em vista os últimos dados de atividade econômica e inflação.

— Isso tende a limitar o risco de baixa para a atividade econômica. Acho que foi esse o objetivo da decisão, mas isso vai ficar mais claro com a divulgação da ata — disse Mesquita. — É uma decisão que favorece o investimento, mas esse impacto não é imediato. O empresário não vai tomar essa decisão de investimento só com isso (o corte da Selic).

Para Rodrigo Alves de Melo, economista-chefe da Icatu Vanguarda, o corte de 0,75 ponto “faz sentido”. Ele prevê reduções nesse mesmo ritmo nas próximas três reuniões, com a Selic fechando o ano a 9,5%. Mas ele está cético quanto ao efeito positivo da redução dos juros ontem na economia. Para ele, a recuperação depende de fatores que vão além da taxa de juros:

— Não dá para confiar piamente que a política monetária vai salvar a lavoura. Pode ajudar em alguma coisa, mas o cenário de crescimento ainda é tenebroso. A atividade está bastante rastejante, e o desemprego vai subir até a metade do ano ou mais. Isso tem impacto negativo no consumo e no investimento. Não me parece que a retomada tem condições de acontecer este ano, e ainda temos o desafio da reforma fiscal no Congresso.

O ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega, por sua vez, ressalta que um crescimento sustentável só virá do ganho de produtividade:

— No governo Temer, vamos ter o que os economistas chamam de recuperação cíclica, baseada na ocupação da capacidade ociosa hoje existente. Não a baseada em ampliação de investimentos e de ganho de produtividade.

Para isso, afirmou, é preciso que a reforma da Previdência seja levada adiante neste governo Temer e que o próximo faça a reforma tributária:

— Portanto, só acredito que o país volte a crescer de forma consistente em 2019.

Para Fabio Silveira, sócio-diretor da MacroSector, ainda é cedo para prever uma retomada, principalmente por causa das incertezas nos EUA:

— Os riscos são de ter uma turbulência no mercado internacional, haver realocação de ativos em escala global, e a gente está no meio desse jogo. O Brasil é uma bolinha de gude num universo financeiro gigantesco. Muita atenção deve ser dada ao ambiente externo, porque Donald Trump pode levar a uma escalada da taxa de câmbio.

Jason Vieira, economista-chefe da Infinity Asset, acredita que o BC foi ousado:

— Mas, dada a situação atual da inflação e de outros indicadores de atividade, por que não? Foi uma surpresa boa.

O corte de 0,75 ponto, no entanto, também foi alvo de críticas.

— Temos de esperar a ata para ter mais detalhes, mas a decisão de hoje indica que o BC está olhando para o crescimento, enquanto que seu mandato diz respeito à inflação. Eu acho que o BC pode ter cedido à pressão e tomado uma decisão mais política do que econômica — criticou Hugo Monteiro, gerente de produtos e soluções de investimentos do BullMark Financial Group.

O presidente Michel Temer comemorou a queda nos juros. Por meio de seu porta-voz, Alexandre Parola, Temer disse que o corte “respalda a convicção de que estão dados os elementos para uma retomada do crescimento”. A decisão do Copom ainda foi elogiada por Fiesp, Firjan e Força Sindical.

Momentos após o Copom anunciar sua decisão, Banco do Brasil (BB) e Bradesco também informaram que irão reduzir suas taxas de juros, tanto para pessoas físicas como jurídicas.

(Colaboraram Ronaldo D’Ercole, Ana Paula Ribeiro, Catarina Alencastro e Eduardo Barretto)

oglobo.globo.com | 12-01-2017

As bolsas de Nova York fecharam em alta na sessão desta quarta-feira, 11, impulsionadas pelo setor de energia e pelo setor de serviços básicos (utilities). A entrevista coletiva do presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, fez com que os mercados acionários americanos operassem com volatilidade e afetou, principalmente, o setor de saúde após críticas do bilionário à indústria farmacêutica.

O Dow Jones fechou em alta de 0,50%, aos 19.954,28 pontos; o S&P 500 avançou 0,28%, aos 2.275,32 pontos; e o Nasdaq subiu 0,21%, aos 5.563,65 pontos, renovando seu recorde de fechamento pela quarta sessão consecutiva.

A queda de empresas ligadas ao setor de saúde ocorreu após Trump dizer, em sua primeira entrevista coletiva desde que venceu as eleições presidenciais americanas, que os preços dos remédios estavam muito altos e reclamar que muitos medicamentos eram produzidos fora dos EUA. Com isso, a Perrigo caiu 6,87% e a Endo International perdeu 8,56%.

Segundo alguns analistas, a fala de Trump frustrou as expectativas. Os investidores esperavam que o presidente eleito americano desse mais detalhes sobre os investimentos que pretende fazer em infraestrutura e sobre os cortes de impostos que pode promover em seu governo. Na entrevista, Trump deu mais destaque a questões geopolíticas, como a relação entre os EUA e a Rússia após a divulgação de um relatório das agências de inteligência americanas apontando Moscou como o responsável por ataques hackers feitos a e-mails de pessoas ligadas à democrata Hillary Clinton durante as eleições presidenciais americanas.

Estrategista de investimentos da Edward Jones, Kate Warne afirmou que esperava que a coletiva de imprensa de Trump fornecesse mais detalhes sobre a agenda política potencial do bilionário. "Eu acho que é razoável a preocupação sobre o avanço das ações antes das mudanças de políticas que as pessoas estão esperando", disse Warne.

Durante o discurso, Trump disse esperar que a General Motors siga o exemplo da Fiat Chrysler e da Ford e passe a investir mais em fábricas nos EUA e deixe de lado suas operações no México. Com isso, os papéis da GM subiram 1,66%.

Já o setor de energia também operou em alta, influenciado, principalmente, pelos preços do petróleo, que abandonaram as perdas das duas últimas sessões e passaram a subir. A Chevron ganhou 0,83%; a ConocoPhillips avançou 3,14% e a ExxonMobil teve alta de 1,00%. (Com informações da Dow Jones Newswires)
A esperada primeira entrevista coletiva desde julho do novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que toma posse no próximo dia 20, durou 58 minutos e foi dominada por questões sobre a Rússia e espionagem por meio de ataques cibernéticos. Um dos temas mais aguardados por Wall Street, as medidas econômicas de Trump, não tiveram detalhes adicionais divulgados. [Leia mais...]
atarde.uol.com.br | 11-01-2017

WASHINGTON - O novo relatório de "Perpectivas Globais Econômicas" do Banco Mundial, divulgado nesta terça-feira, apresentou dados positivos para o futuro da economia brasileira. No documento, a entidade projeta um avanço econômico de 0,5% para o Brasil este ano “na liberação das restrições do mercado”. Já com relação a 2016, estima-se um forte retrocesso de 3,4% para o país. Em 2019, o país crescerá 2,2%, após expansão de 1,8% em 2018, segundo a organização.

BancoMundial_1001

Para a América Latina, o Banco Mundial prevê uma retomada do crescimento de 1,2% em 2017, após recuo estimado de 1,4% no ano passado. O quadro seria o segundo ano consecutivo de recessão e a primeira contração plurianual em mais de 30 anos. A entidade afirma, no entanto, que “a perspectiva de melhora é em grande parte conduzida por um retorno previsto ao crescimento positivo no Brasil, a maior economia da região”.

“Restrições domésticas parecem estar amenizando em Argentina e Brasil, com os novos governos concentrados em implementar reformas para reduzir desequilíbrios fiscais e macroeconômicos”, indica o Banco Mundial, que cita reformas em andamento: “No Brasil, o Congresso Nacional aprovou recentemente uma emenda constitucional que introduz um limite no crescimento real dos gastos federais, e está também discutindo uma reforma da aposentadoria. Ambas as reformas vão melhorar as perspectivas fiscais de médio e longo prazo”.

O Banco Mundial afirma que a desvalorização do dólar frente ao real no primeiro semestre de 2016 ajudou a “reduzir drasticamente do atual déficit nas contas do país”. Apesar da melhora no cenário, o Banco Mundial destaca que as real implementação de reformas fiscais e a retomada do investimento público como desafios para concretizar tais projeções:

“Ajustes fiscais geralmente englobam cortes de investimento em áreas-chave, como infraestrutura. Enquanto esse caminho de política rapidamente reduz as pressões fiscais, não consegue resolver as deficiências estruturais que entravam a habilidade dos governos em reduzir as despesas correntes ou aumentar receitas”, aponta.

O banco alerta para níveis baixos de investimento na região da América Latina e Caribe em comparação a outras regiões de emergentes. De acordo com o relatório, a injeção de capital tem caído desde 2014:

“É crítico que os governos e o setor privado aumentem o investimento de capital para expandir o crescimento em potencial”, afirma o banco.

RETOMADA NA AMÉRICA LATINA

A estimativa de uma nova contração para a América Latina em 2016 (-1,4%), explica o Banco Mundial, se deve a efeitos da queda dos preços das commodities e desafios internos, principalmente fiscais. A organização espera, no entanto, que em 2019 a região cresça 2,6%, após avanço de 2,3% em 2018.

A entidade projeta que os preços das commodities se estabilizem e “se recuperem gradualmente”, trazendo alívio modesto aos exportadores da região a respeito de comércio e aumento de receitas fiscais e de exportação. No entanto, o cenário externo pode trazer incerteza à recuperação econômica da América Latina:

“Contratempos globais, como a incerteza de políticas nos Estados Unidos e crescimento subjugado de outros maiores parceiros comerciais, vão pesar nas economias da região, pelo menos no curto prazo”.

Uma reavaliação do ritmo do arrocho da política monetária por parte do banco central dos Estados Unidos poderia levar a variações nas taxas de juros e a flutuações do fluxo de capital, o que prejudicaria as economias vulneráveis.

Além disso, possíveis restrições comerciais ou migratórias nos EUA ou na zona do euro podem impactar na retomada do crescimento.

Mudanças de políticas nos Estados Unidos e na Zona do Euro, tais como restrição ao comércio ou à migração, poderão ter repercussões contínuas. Uma recuperação dos preços dos produtos básicos mais lenta do que a prevista prejudicaria a

CRESCIMENTO GLOBAL DE 2,7%

O crescimento econômico global deverá acelerar 2,7% em 2017 após o baixo nível pós-crise do ano passado, estimado em 2,3%. Segundo o Banco Mundial, o avanço aparece à medida que os obstáculos à atividade diminuírem entre exportadores de produtos básicos nos mercados emergentes e em economias em desenvolvimento. De acordo com o relatório, a demanda doméstica continua sólida entre os importadores de produtos básicos de mercados emergentes.

"Depois de anos de decepcionante crescimento global, estamos encorajados por ver perspectivas econômicas mais fortes no horizonte", disse o presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, em comunicado. "Agora é a hora de aproveitar esse impulso e aumentar os investimentos na infraestrutura e nas pessoas."

O documento aponta para um crescimento nas economias avançadas de 1,8% em 2017, após alta estimada de 1,6% no ano passado. O estímulo fiscal nas economias principais – especialmente nos Estados Unidos – poderá gerar um crescimento doméstico e global mais rápido do que o projetado, embora o aumento da proteção do comércio possa ter efeitos adversos.

“As economias avançadas continuam com dificuldades devido a um crescimento subjugado e inflação baixa em um contexto de aumento da incerteza sobre a direção das políticas econômicas, investimento morno e crescimento lento da produtividade. A atividade desacelerou nos Estados Unidos e, em menor grau, em outras grandes economias”, afirma o Banco Mundial.

Já os mercados emergentes devem avançar 4,2% este ano, ante alta de 3,4% em 2016 em meio a um modesto aumento do preço dos produtos básicos.

“O crescimento em mercados emergentes exportadores de commodities foi apoiado por certa estabilização da demanda doméstica, seguindo uma contração em 2015. O consumo privado continou a recuar no Brasil e na Rússia, mas em ritmo desacelerado enquanto a confiança aumentou. O investimento também caiu novamente em 2016, especialmente em Brasil, Colômbia e Rússia”, aponta o documento.

oglobo.globo.com | 10-01-2017

O Brasil vai voltar a crescer em 2017, mas deve seguir na lanterna do ranking dos países que mais crescem no mundo, encabeçado pela Índia, avaliou nesta segunda-feira, 8, o Deutsche Bank. A projeção é que o Produto Interno Bruto (PIB) do País cresça 0,5% este ano, nível abaixo da economia mundial (3,4%) e da média dos países emergentes (4,6%).

A Índia deve seguir em 2017 como o país emergente que mais cresce no mundo, considerando os principais mercados. O Deutsche aposta em um avanço de 7% para o país. Em seguida, vem a China, com avanço esperado de 6,5%. Mesmo a Rússia, que também estava em recessão, vai ter PIB mais forte que o Brasil este ano, com expansão prevista de 1,6%.

No caso do Brasil, o Deutsche ressalta que o risco político permanece no radar em 2017, mas que a perspectiva de reformas e recuperação da atividade após dois anos de forte recessão têm feito os ativos brasileiros apresentarem forte valorização. A Bovespa foi uma das bolsas que mais subiram no mundo em 2017, ressalta o relatório.

"Estamos cautelosamente otimistas com os emergentes em 2017, mas esperamos um início de ano difícil", ressalta o Deutsche, mencionando que países como Turquia, México, África do Sul e Brasil terão que lidar com problemas domésticos ao mesmo tempo que o cenário externo muda, com o governo de Donald Trump.

A gestão do novo presidente dos Estados Unidos terá efeitos diversos nos países emergentes. Por um lado, a aceleração esperada do PIB dos EUA deve fazer a maior economia do mundo aumentar a demanda por exportações - e emergentes, como o Brasil, poderiam se beneficiar, ressalta o banco.

Ao mesmo tempo, o governo de Trump será marcado por juros mais altos pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) e dólar valorizado, o que tende a dificultar e encarecer a captação de recursos por governos e empresas dos países emergentes. Outro risco é Trump provocar fuga de capital destes mercados. O Deutsche prevê duas altas de juros neste ano pelo Fed e quatro em 2018.

Os analistas do Deutsche lembram que parte da incerteza gerada por Trump é porque suas medidas econômicas ainda não são conhecidas em detalhes, mas é um nível melhor que a "certeza da continuação" do atual nível "medíocre" de expansão do PIB.

No entanto, a economia dos Estados Unidos, as projeções do banco alemão são positivas. O ritmo de expansão previsto para 2018 é mais do que o dobro esperado para o PIB de 2016, que deve ficar em 1,5%.

A avaliação do Deutsche é que Trump tem capacidade para "mudar as regras do jogo" e acelerar a expansão dos EUA com políticas como corte de impostos para famílias e empresas, aumento dos gastos públicos em infraestrutura e desregulação em vários setores, como o financeiro e o de energia.

"Estamos muito otimistas com os EUA, na medida em que a nova administração vai buscar uma agenda fiscal e regulatória substancialmente pró-crescimento", afirma o banco alemão. Para os analistas do banco, o fato de o Congresso ter ficado na mão dos republicanos vai facilitar a implementação destas medidas.

O México e a Turquia permanecem "particularmente vulneráveis" às mudanças que devem ocorrer no cenário externo. Para a economia mexicana, há o risco de medidas protecionistas do republicano afetarem a atividade. Já a Rússia deve ser beneficiada pela melhora do relacionamento com Trump. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

CARACAS - Nicolás Maduro quer demonstrar ao inimigo que está preparado para um ataque hipotético. O presidente venezuelano ordenou esta semana um novo deslocamento de tropas armadas em 14 de janeiro. Para manter esse poder, o chavismo não deixou de aumentar seu arsenal durante os últimos 16 anos, em meio a uma forte crise econômica, e as últimas compras de armamentos foram feitas junto à China e à Rússia.

— Hoje, a Venezuela tem um poder militar destacado nas ruas para proteger a paz, a independência e a soberania — afirmou Maduro em recente discurso. maduro

O arsenal da Força Armada Nacional Bolivariana (Fanb) da Venezuela cresceu durante a revolução. O país ocupa o quinto lugar na América Latina em gastos militares. Está, além disso, entre as 36 nações do planeta que mais investem no setor. Durante o chavismo, entre 1999 e 2015, foram gastos mais de US$ 5,6 bilhões em armamentos, de acordo com números do Instituto Internacional de Estocolmo para o Estudo da Paz (Sipri, na sigla em inglês).

A compra de artilharia não parou mesmo com o país afundado numa enorme crise. Em dezembro, Maduro aprovou um orçamento para a aquisição de material militar vendido pela Rússia e pela China

— Autorizei recursos suficientes para equipar todos os combatentes da Força de Ação Especial, os grupos especiais e as tropas de ação rápida da Fanb das mais modernas armas e tecnologia mundial — enfatizou o presidente, em discurso televisionado.

Dias antes, Maduro enfrentara uma onda de protestos gerada pela retirada de circulação das notas de mais alto valor no país, as de 100 bolívares. No estado de Bolívar, no Sul do país, foi decretado toque de recolher para apaziguar a intensidade dos protestos. A militarização e a flexibilização da medida monetária acalmaram os ânimos.

As questões armamentistas são conduzidas com discrição pelo governo. Para Lexys Rendón, coordenadora da associação Laboratório de Paz, este ano é possível que a falta de transparência do governo sobre os gastos com a Defesa atinja seu auge.

— O Orçamento do país nem chegou a ser discutido pela Assembleia Nacional, e foi aprovado diretamente pelo Tribunal Supremo de Justiça — explica. — Isso aconteceu devido a um confronto entre os Poderes públicos (o Parlamento, controlado pela oposição, e o Supremo dirigido pelo chavismo). As contas do Executivo são cada vez mais nebulosas.

Muitas organizações civis têm exigido uma diminuição do orçamento destinado à Defesa da Venezuela, o país com maior contração econômica nas Américas. Os investimentos se reduziram com as quedas nos preços do petróleo. O governo cortou em 90% as compras militares entre 2015 e 2016, segundo um relatório da associação civil Controle Cidadão, mas tudo não passou de uma rápida tempestade na carreira armamentista do chavismo. Já no ano passado, houve um aumento de 5% na compra de equipamentos e sistemas bélicos para a Fanb.

Mas as armas não estão apenas nas mãos do Exército. Ainda que artefatos explosivos, fuzis e munições sejam administrados exclusivamente pela Companhia Anônima Venezuelana de Indústrias Militares (Cavim), uma estatal venezuelana que municia as Forças Armadas e a polícia bolivariana, o domínio de algumas dessas armas letais passou, de forma irregular, a mãos de terceiros no país.

Granadas nas ruas

Uma granada matou Gian Franco Cesa, um arquiteto de 25 anos, depois de ser acidentalmente detonada por um de seus sequestradores dentro de um automóvel em Caracas. A explosão aconteceu em 8 de agosto, dias antes de a vítima embarcar para os Estados Unidos na tentativa de escapar da crise. A explosão também matou seus sequestradores.

Ataques com granadas acontecem em prisões, delegacias e ruas da Venezuela. Entre 2013 e 2015, a Venezuela foi o país latino-americano com o mais alto número de civis mortos por granadas, segundo o Escritório das Nações Unidas para o Desarmamento na América Latina e no Caribe (Unlirec, na sigla em inglês). A sangrenta tendência se manteve no ano passado. Uma reportagem do diário digital “Runrunes” contabilizou 49 mortos e 155 feridos em 32 ataques com granadas realizados entre janeiro e agosto de 2016.

oglobo.globo.com | 10-01-2017

O ex-presidente do Irã Akbar Hashemi Rafsanjani, um magnata multimilionário que permaneceu dentro da elite governante apesar de suas opiniões moderadas, morreu neste domingo, informou a TV estatal do país. Ele tinha 82 anos. A imprensa iraniana informou que ele foi levado para um hospital ao norte de Teerã devido a uma condição cardíaca. A televisão estatal interrompeu a programação para anunciar a sua morte e destacou que Rafsanjani "depois de uma vida cheia de esforços incansáveis no caminho do Islã e da revolução, partiu para o céu elevado".

Rafsanjani foi um colaborador próximo do aiatolá Ruhollah Khomeini, o líder da Revolução Islâmica de 1979, e atuou como presidente do Irã entre 1989 e 1997, durante um período de mudanças significativas no país. Na época, o Irã estava lutando para reconstruir a sua economia depois de uma guerra devastadora de 1980 a 1988 com o Iraque, ao mesmo tempo em que permitia cautelosamente algumas liberdades, como as concedidas à indústria de cinema e mídia nacional.

Ele também supervisionou os principais desenvolvimentos do programa nuclear do Irã, negociando acordos com a Rússia para construir um reator de produção de energia em Bushehr, que finalmente entrou em funcionamento em 2011, após longos atrasos. Nos bastidores, ele coordenou a compra secreta de tecnologia e equipamentos do Paquistão e de outros lugares.

Rafsanjani conseguiu permanecer dentro da teocracia governante depois de deixar o cargo, mas qualquer sonho de assumir um papel de estadista de alto escalão desmoronou com a disputada reeleição de Mahmoud Ahmadinejad em 2009 e a intensa repressão subsequente. A dura crítica de Rafsanjani a Ahmadinejad o classificou como um dissidente aos olhos de muitos conservadores. Contudo, alguns analistas acreditam que Rafsanjani continuou atuante dentro da política iraniana por ser visto como potencial mediador com os Estados Unidos e os seus aliados no impasse sobre o programa nuclear do Irã. Com a eleição presidencial de Hassan Rouhani em 2013, o ex-presidente teve papel privilegiado em esforços reformistas que incluíram as negociações nucleares diretas com Washington. Fonte: Associated Press.

WASHINGTON - Sim, ele pôde. Depois de oito anos como homem mais poderoso do mundo, Barack Obama coleciona vitórias e decepções. A esperança que despertou em 2009, quando chegava à Casa Branca, se concretizou na economia, no meio ambiente e na saúde dos americanos, porém passou longe de transformar o mundo num local mais seguro e menos conflituoso. E o pior para ele ainda pode estar à espreita: Donald Trump terá a chance de apagar seu legado. Barack Obama já tem seu lugar garantido na História como primeiro presidente negro dos Estados Unidos. O risco é não sobrar muito mais para contar além disso. Legado Obama - conteúdos

— Ninguém sabe como Obama será lembrado. No começo, (Richard) Nixon era ligado apenas ao escândalo de Watergate, mas agora é visto como o presidente que retomou as relações com a China. A entrada de Obama na História depende muito de como será a reação de Trump ao legado de seu antecessor — disse ao GLOBO Dan Glickman, ex-secretário de Agricultura do governo de Bill Clinton e integrante do The Bipartisan Policy Center (BPC), o Centro de Políticas Bipartidárias, organização criada há dez anos por republicanos e democratas.

Para os americanos, dois pontos principais marcam positivamente o governo de Obama: a recuperação econômica e o Obamacare, a reforma do sistema de saúde americano. A economia vai bem: o democrata entrega um país crescendo forte e com 15 milhões de empregos a mais. Já a reforma de saúde pública, que leva o nome do presidente, é o legado mais ameaçado.

— Em questões como saúde, o Congresso já está avançando para derrubar o Obamacare mesmo antes da posse de Trump — exemplificou Eric Farnsworth, vice-presidente do centro de estudos Sociedade Americana/Conselho das Américas (AS/COA, na sigla em inglês).

Obama valoriza os dois pontos. Na carta que divulgou na última quinta-feira, em um balanço que fez de seu governo, destacou a questão da saúde pública, lembrando que, pela primeira vez, 90% dos americanos têm acesso a planos de saúde (o Obamacare tem 20 milhões de usuários). Ele também reforçou a economia, lembrando que, além dos empregos, regulamentou o setor financeiro e, mesmo assim, o valor das empresas na bolsa triplicou sob sua gestão.

— O grande legado é econômico. Ele impediu que a grande recessão se tornasse uma depressão. Isso é mérito de Obama — afirmou a professora Jennifer Lawless, da American University, de Washington.

Mas todo o demais está frágil: a maior parte das ações do democrata é baseada em normas executivas, que podem ser facilmente desfeitas por Trump. O republicano conta com maioria no Congresso. E, juntos, farão a Suprema Corte voltar a ser dominada por conservadores. Alguns creem que a pior derrota de Obama foi não ter feito sua sucessora, Hillary Clinton, colocando sua história nas mãos de alguém tão imprevisível como o bilionário.

Na segurança, Obama será sempre lembrado como o presidente que matou Osama bin Laden, mas que não conseguiu fechar a prisão de Guantánamo e nem endurecer a compra de armas. O recrudescimento do terrorismo e a criação do Estado Islâmico se deram em seus oito anos.

Obama pelos olhos dos fotógrafos da Casa Branca

A política externa também é ponto de alegrias e tristezas. Se ele pode se vangloriar do acordo nuclear com o Irã e da reaproximação com Cuba — pontos que também podem ser revertidos por Trump —, terá como mancha em sua biografia a falta de engajamento na Síria, que ajudou a criar milhões de refugiados e facilitou a reentrada da Rússia no Oriente Médio.

— Será visto como um homem de visão e otimismo. Mas os historiadores podem muito bem criticar sua tendência à contenção — afirmou Peter Schechter, diretor do centro de estudos Atlantic Council.

Ele reforça críticas de muitos que afirmam que fechou os olhos para uma série de problemas globais. E, para os americanos, ele pode passar a imagem de um presidente fraco.

A recente tentativa de falar grosso com Israel (ao condenar os assentamentos judaicos) e punir a Rússia pela espionagem e vazamento de dados para afetar as eleições americanas são questionadas por serem tardias e podem ser desfeitas:

— (O presidente russo) Vladimir Putin decidiu humilhá-lo ao não revidar a expulsão de diplomatas. Se Obama queria sair de forma grandiosa, Putin está ridicularizando-o — disse Juan Carlos Hidalgo, do Centro Global de Liberdade e Prosperidade (Cato).

As medidas difíceis de serem apagadas

As mudanças sociais , como apoiar o casamento gay — obtido graças às suas nomeações à Suprema Corte, incluindo a primeira latina no topo do Judiciário —, são marcas que Trump não deverá apagar. E Glickman, do BPC, acredita que a questão ambiental pode ser uma das chaves para que Obama entre no rol dos grandes presidentes. Ele incentivou e assinou o acordo climático de Paris e impulsionou energias limpas, por exemplo. Isso pode ser barrado por Trump, mas dificilmente será totalmente desfeito. Outro legado é a questão racial: o primeiro presidente negro fez os EUA debaterem o tema, apesar de ainda se ver muitos casos de preconceito e de violência:

— Não é segredo que o país tem problemas raciais. O problema é cultural, não se resolve em um mandato, depende de uma mudança de geração, e os mais jovens estão mais abertos a isso. O fato é que estamos melhores neste ponto do que há 15, 20 ou 50 anos — disse Glickman.

Farnsworth, da AS/COA, valoriza os méritos:

— Seus esforços podem não ter sido inteiramente bem-sucedidos, mas não foi por falta de visão e esforço para tentar uma mudança duradoura.

Obama, em sua carta de despedida, segue seu tom de otimismo e tenta resgatar a esperança que o elegeu em 2008: “Nos últimos oito anos mostramos que nós podemos”, escreveu, recorrendo ao seu bordão “Yes, we can”, conclamando o povo a brigar por seu legado: “É você quem fará o nosso progresso futuro possível.” Os 20 pontos marcantes do legado de Barack Obama

oglobo.globo.com | 08-01-2017

RIO - Diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), o brasileiro Roberto Azevêdo afirma que, a despeito da crescente onda antiglobalização, estudos mostram que somente 20% dos empregos perdidos foram por causa da integração mundial. Inovação tecnológica e produtividade responderam pelo restante do corte de vagas. Para ele, há um problema estrutural de desemprego nos países ricos, e tentar resolvê-lo com protecionismo — como ameaça o presidente eleito dos EUA, Donald Trump — é “remédio errado”.

Azevêdo vê os países mais seletivos e reconhece que há menos tolerância a importações com preços muito baixos. Mesmo assim, avalia que ainda não há política de fechamento de fronteiras em nenhum dos mercados centrais. O brasileiro busca novo mandato de quatro anos, como candidato único.

A OMC estimou para 2016 o pior desempenho do comércio global desde 2009. Qual é o significado disso? Com que cenário trabalha para este ano?

China-OMC-07-01Vários elementos compõem o quadro de desaceleração do comércio, como modelos de crescimento em economias centrais como a China, redução da expansão em países como os da União Europeia e em economias emergentes, como Brasil e Rússia. Isso significa que a competição pelos mercados aumentou muito. Nesta situação, aumenta a tendência de se reagir contra importações a preços competitivos. E pode haver aumento na aplicação das medidas de defesa comercial. Os mercados ficam mais seletivos e competitivos. Isso para não usar a palavra protecionista, porque tem sentido um pouco mais amplo. O protecionismo pode ter uma conotação de política deliberada de conter importações, o que não necessariamente é o caso. Para 2017, agências como FMI e Banco Mundial estimam crescimento econômico global de 2,5%. Nesse caso, estimamos entre 1,8% e 3,1% de expansão do comércio.

Enfrentamos atualmente uma onda protecionista?

Há uma política de menor tolerância para determinadas importações, quando produtos entram com preços muito baixos, mas não há política de fechamento de fronteiras em nenhum dos mercados centrais. Isso eu não vejo. Só que o que antes levava mais tempo para se ter uma reação do país importador, hoje tem uma reação quase automática, quase imediata. Há uma menor tolerância, mas não vejo ainda uma política horizontal.

A China entrou com processo na OMC para ser reconhecida como economia de mercado. Afinal, a China é uma economia de mercado?

O ponto de partida para a discussão é o chamado protocolo de acesso da China, negociado quando o país entrou na OMC, em 2001. O protocolo prevê que membros da OMC poderiam, durante 15 anos, aplicar metodologias mais flexíveis para o cálculo do direito antidumping no caso da China. Depois de 15 anos, algumas partes do acordo caducam. A China interpreta que o novo protocolo leva a determinado comportamento e outros membros discordam da interpretação. A China traz o assunto para o mecanismo de solução de controvérsias, feito exatamente para quando há interpretações diferentes. Fez o que poderia e tem todo o direito de fazer. Não se trata de determinar se a China é ou não é uma economia de mercado. Mas de determinar o que diz o protocolo de acesso.

E o que diz o novo protocolo?

Esta é exatamente a questão que está sobre a mesa, e a única entidade que pode fazer essa interpretação é o painel de perícias da OMC. E, posteriormente, o órgão de apelação. Ninguém mais tem capacidade e jurisprudência para decidir. Estamos na fase de consultas. Considerando o processo completo, incluindo a apelação, o prazo pode chegar a um ano e meio.

Será um período conturbado? É a disputa mais importante?

É uma disputa muito importante, sobretudo pelas sensibilidades políticas que desperta, mas não será a primeira vez. Tivemos muitos contenciosos de alta sensibilidade. O papel do sistema de solução de controvérsias da OMC é justamente o de tentar despolitizar e evitar uma situação de retaliações unilaterais e arbitrárias. O que se procura é dar um tratamento técnico e jurídico, com previsibilidade e imparcialidade, a questões essencialmente políticas. Com grande frequência vemos isso acontecer. Muitas vezes, governos que estariam sob pressão interna para adotar determinado tipo de ação respondem a essas pressões dizendo que a questão foi decidida por um órgão competente, supranacional e imparcial. Situações de potencial escalada de sanções foram desativadas por uma decisão técnica e jurídica. Isso pode ajudar.

Qual é a expectativa com o governo de Donald Trump nos EUA?

Prefiro não especular no que diz respeito aos Estados Unidos. O prudente e correto é esperar a equipe e ver que tipo de política comercial será montada antes de tecer comentários. Agora, evidentemente, não só nos EUA, mas em todo o mundo desenvolvido, estão emergindo sentimentos contrários à globalização, muito pautados por questões migratórias. Nesse contexto, encontra-se a corrente anticomércio, acompanhada por questões de emprego. Mas boa parte dos estudos mostra que apenas 20% dos empregos perdidos se devem ao comércio. Os outros 80% vêm de questões como aumento de produtividade, inovação e novas tecnologias. Minha preocupação é que não se tente resolver o problema do desemprego estrutural nas economias avançadas com protecionismo, porque se estará usando o remédio errado.

O senhor falou do ambiente de menor tolerância às importações. Nesse ambiente, qual é o papel da OMC?

Zelar para que as regras sejam respeitadas e monitorar as medidas. Fazemos um levantamento periódico sobre medidas adotadas por países que podem ter impacto no comércio. Não passamos nenhum juízo de valor, é um exercício de transparência. São os próprios países que vão se questionar. O processo ajuda a conter arroubos protecionistas que possam ser incompatíveis com as regras da OMC.

O órgão ganha importância?

Na crise de 1930, quando a OMC não existia, dois terços do comércio mundial desapareceram por causa de medidas unilaterais. Um país tomava uma medida unilateral, outro retaliava e um terceiro também. Em 2008, na primeira crise com magnitude semelhante à dos anos 30, não se viu nada disso. Pelo contrário: as medidas restritivas tomadas desde 2008 abarcam cerca de 6% do comércio mundial. Para muitos economistas, é exatamente a existência da OMC que impede que os países adotem essas medidas. A observância das regras é fundamental. No momento em que alguém começa a ignorar as regras de maneira arbitrária, aí sim temos risco de retomar a espiral de retaliações que foi tão danosa nos anos 30.

oglobo.globo.com | 08-01-2017

Muitos americanos ficam indignados ao verem Donald Trump ironizar a palavra “inteligência” quando se refere aos órgãos de segurança americanos. Parece uma heresia desafiar a sabedoria e a competência de instituições encarregadas de resguardar a segurança e a liberdade. Como russo, apenas dou de ombros: nunca acreditei numa só palavra vindo dos serviços de inteligência do meu país. Esta distância cultural, no entanto, está diminuindo. As sociedades ocidentais estão ficando cada vez mais desconfiadas.

Há duas décadas, Francis Fukuyama — o homem que, também com irreverência, declarou que a História estava morrendo e que um paraíso liberal e democrático nascia — relacionou confiança à prosperidade. Ele argumentou que as sociedades com maior confiança entre seus membros, tais como EUA, Japão e Alemanha, se saíam melhor do que aquelas com um grau menor de confiança, tais como China, Itália, França ou Coreia. A evidência econômica não tem apoiado tal teoria, mas pelo menos se pode dizer que uma sociedade mais confiável é mais agradável para se viver, sobretudo porque não é necessário se esforçar para provar a pureza das intenções.

O comunismo destruiu a confiança em cada país onde reinou. Um Estado controlador e inconfiável definiu o tom das interações sociais e praticamente convidou as pessoas a lutarem contra ele ou a enganá-lo. E a aniquilação da confiança sobreviveu ao comunismo. Muitos pesquisadores que se debruçaram sobre o fenômeno concluíram que isso tem a ver com o desenvolvimento econômico: se as instituições e as relações interpessoais não conseguem produzir bem-estar, elas não merecem confiança. Ambientes com baixa credibilidade são inadequados para uma democracia robusta: rapidamente se degeneram em guerras internas e paralisia.

Em razão disso, nações com baixa confiança geralmente se submetem prontamente a regras draconianas. Um autoritário como o presidente russo Vladimir Putin não se preocupa em gerar confiança: ele pode governar por outros métodos, tais como canalizar as frustrações contra supostos inimigos externos. Viktor Orban, da Hungria, e Jaroslaw Kaczynski, da Polônia, também seguem por esta trilha. Monopólios de poder e governos com mãos de ferro, porém, tendem a excesso de regulamentação e corrupção, economia em desaceleração e perpétua desconfiança em relação aos governos e entre as pessoas.

Segundo a empresa de marketing Edelman, que mede o fenômeno desde a virada do século, a confiança em instituições nos EUA ainda não é tão baixa quanto na Europa Oriental, mas a diferença não é grande. Entre a população geral, a confiança média em organizações não governamentais, governo, mídia e empresas alcança 49% nos EUA; 39% na Rússia e 35% na Polônia. São os americanos com nível universitário que têm, de longe, maior grau de confiança nas instituições do país frente a seus pares da Europa Oriental. Isso explica a irritação dos americanos de nível universitário com a falta de confiança de Trump nos órgãos de inteligência. Edelman classifica isso de “abismo de confiança” entre o “público informado” e a “massa da população”. Essa distância tem se ampliado em boa parte do mundo, sobretudo em França, Reino Unido e EUA.

Alguns veem o abismo de confiança como consequência da crescente desigualdade econômica, mas creio que as altas correlações entre prosperidade econômica e níveis de confiança levaram os pesquisadores a simplificar demais a questão e a sugerir que a desconfiança pode ser invertida mediante a redução da desigualdade. Mas as pessoas não são cães de Pavlov, e não respondem unicamente a estímulos econômicos. Elas também acreditam em instituições que, ao longo do tempo, construíram reputações de confiabilidade.

Enquanto na Europa Oriental a desconfiança é universal, e os resultados são relativamente previsíveis, no Ocidente, a relativa capacidade de confiança das elites criou o potencial para surpresas surpreendentes. Trump e os partidários do Brexit venceram porque não ignoraram uma massa desconfiada — aprenderam a pensar como esse público e ver as instituições através de seus olhos.

Três diferentes resultados são possíveis. Um seria uma versão de Putin, Orban ou Kaczynski: ignore a desconfiança, use as instituições para impor uma agenda e mantenha as pessoas sob controle. Trump pode sentir-se tentado a seguir por aí, embora os pesos e contrapesos das instituições americanas sejam desenhados para resistir a usurpadores. Outra possibilidade seria um relativo caos, algo parecido com o que os britânicos pró-Brexit parecem ter criado no país. Quanto à terceira possibilidade, que é imperativa para o Ocidente, nenhum país a adotou com sucesso: a reconstrução da confiança universal em suas principais instituições. Como salientou Fukuyama: é mais fácil destruir a confiança do que reconstruí-la.

Leonid Bershidsky é colunista da Bloomberg News

oglobo.globo.com | 08-01-2017

RIO - A julgar pelo risco-país, o Brasil começou 2016 como um Egito e entrou em 2017 como uma Turquia. Pode não parecer muita coisa para quem não se interessa por relações internacionais, mas essa foi uma das maiores quedas na percepção de risco por investidores registradas no último ano. Levantamento feito pelo GLOBO com base em dados de credit default swap — CDS, contrato que funciona como uma espécie de seguro e é comprado por aplicadores contra eventual calote da dívida soberana de um país — mostra que o Brasil conseguiu reduzir seu nível de risco em 46,6% nos últimos 12 meses, apesar da continuidade da recessão. Só o Cazaquistão, país dependente do petróleo, registrou diminuição mais intensa (47,4%) entre 42 países emergentes no período.

CDS_0601

Há um ano, o Brasil registrava 489 pontos-base em seu contrato de CDS com prazo de cinco anos (em dólares). Agora, o indicador está em 261 pontos-base. Quanto maior o número, maior o risco associado ao país. Com a melhora, o Brasil saiu da 5ª para a 10ª posição entre os maiores níveis de risco-país entre economias emergentes. Considerando-se Ucrânia e Argentina — que não tinham dados disponíveis há 12 meses porque estavam fora do mercado internacional devido à guerra, no primeiro, e ao calote, no segundo —, o Brasil cai para a 12ª posição. Mesmo assim, os investidores veem mais risco no Brasil do que em países como Chipre (230 pontos), África do Sul (206), Rússia (172) e Indonésia (154).

Leonardo Fonseca, economista do Credit Suisse, lembra que o último ano foi favorável para países emergentes em geral. Tanto que apenas três dos 42 países pesquisados registraram alta no seu prêmio de risco — Líbano e Tunísia, afetados pela turbulência geopolítica, e a China, que ficou praticamente estável. Segundo o especialista, uma das razões foi a reticência do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) em elevar os juros no ano passado, além da continuidade dos estímulos financeiros no Japão e Europa. Outro fator foi a valorização das commodities: em 2016, o petróleo avançou 23%, e o minério de ferro, 81%.

— O movimento de recuperação no Brasil foi maior por causa do contexto doméstico. Isso tem a ver com a mudança de governo, no qual o mercado financeiro passou a ver preocupação maior com a política econômica e com uma reversão de política fiscal. Tanto que a tendência de queda do prêmio de risco começou quando surgiram as especulações sobre o impeachment — afirma.

Essa recuperação foi sentida também no câmbio e na Bolsa: a moeda brasileira e a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) foram as que mais se valorizaram entre seus pares no ano que passou. O cenário doméstico também blindou parcialmente o Brasil da elevação de risco em emergentes após a vitória de Donald Trump, cujas promessas econômicas expansionistas valorizaram o dólar após as eleições.

PREOCUPAÇÕES EXTERNAS E INTERNAS

Segundo Fonseca, um efeito positivo da queda do risco é a redução dos juros cobrados de grandes empresas quando elas emitem títulos de dívidas no exterior. Mas ele admite que isso não se materializou em melhoras na economia real na mesma velocidade registrada pelo mercado financeiro. Fonseca aponta como um dos motivos a situação financeira das empresas, imprensadas entre a recessão e uma taxa de juros em torno de 14%. Outra razão é a reticência dos bancos em emprestar recursos. No lado político, há ainda incerteza sobre a reforma da Previdência.

— O tempo do mercado é o do segundo, mas o das decisões econômicas demora muito mais, sobretudo quando o setor público está falido, e as famílias e empresas, endividadas. — diz Silvio Campos Neto, da Tendências, acrescentando que a dívida bruta do Brasil chegará a 85% do PIB até 2020. — Para a queda do CDS chegar à economia, é preciso dar tempo ao tempo.

O economista cita dois fatores que podem voltar a elevar o prêmio de risco do país. O primeiro é uma eventual postura comercial radical de Trump. O segundo é interno:

— Desdobramentos mais graves da Lava-Jato, atingindo o presidente Michel Temer ou impedindo a reforma fiscal, são um risco que deve ser observado.

oglobo.globo.com | 07-01-2017

RIO - Incerteza, imprevisibilidade, instabilidade e insegurança. Essas são algumas das palavras mais usadas para descrever o cenário para a economia mundial em 2017. Embora o consenso entre os analistas aponte para um ano de crescimento global mais elevado, o xadrez político preocupa e pode representar uma ameaça a esse avanço. As atenções de todos estão voltadas sobretudo aos EUA, com a posse de Donald Trump. Além das fronteiras americanas o ano também será marcado por eventos importantes: na Europa, França e Alemanha podem ver o avanço da extrema-direita nas eleições; na China, ocorrerá o 19º Congresso do Partido Comunista (PCC), que ocorre a cada cinco anos e decide os próximos líderes do país.

— As relações internacionais serão mais tensas em 2017 e isso tem consequências para a economia. Temos que nos preparar para um mundo mais perigoso e instável — afirma o professor do Instituto de Economia da UFRJ Luiz Carlos Prado.

Economia 2017 As projeções para a economia mundial são de crescimento um pouco maior que em 2016, mas em ritmo ainda lento. As estimativas compiladas pela Bloomberg indicam que o Produto Interno Bruto (PIB) mundial avançará 3,2% em 2017, contra 2,9% em 2016. O Instituto para Finanças Internacionais (IIF, na sigla em inglês) prevê alta de 2,9%, já levando em conta que os estímulos fiscais prometidos por Trump impulsionem o PIB dos EUA, embora tornem menos favoráveis as expectativas para os emergentes. A agência de classificação de risco Moody’s também prevê expansão maior, mas alerta para o “crescente sentimento protecionista”.

TODOS OS OLHOS SOBRE TRUMP

Aos poucos, Trump escolhe sua equipe, mas há dúvidas. O que parece menos turvo é que seu governo reduzirá impostos e aumentará gastos, favorecendo o crescimento. Mas analistas apontam que o estímulo fiscal tende a pressionar os preços e a tensionar a atuação do Federal Reserve (Fed, o banco central americano).

A sinalização veio antes mesmo da posse. No dia 14 de dezembro, o Fed elevou os juros em 0,25 ponto percentual. As projeções são de outras três altas nesta magnitude em 2017, um ciclo mais longo do que o previsto em setembro e que terá efeito sobre os países emergentes, com possível fuga de investidores para os EUA.

Outro foco de preocupação é a política comercial. Durante a campanha, Trump ameaçou elevar tarifas para a importação de produtos mexicanos e chineses e se mostrou contrário a acordos de comércio, que podem ser renegociados.

— O governo Trump tem efeitos que se espalham por toda a economia mundial — diz Charles Collyns, diretor e economista-chefe do IIF.

ECONOMIA GLOBAL

Otto Nogami, professor do Insper, acrescenta o efeito Trump sobre as commodities. Embora sua promessa de investir US$ 1 trilhão em infraestrutura esteja puxando para cima o preço de insumos metálicos, a retórica agressiva do presidente eleito em relação à China pode abalar as cotações — ele já ofendeu Pequim ao telefonar para a presidente de Taiwan, país com o qual os EUA não têm relações diplomáticas.

— O grande comprador de commodities no mundo é a China. À medida que começam a surgir rusgas, isso pode desacelerar o crescimento chinês e, por consequência, arrefecer a alta das commodities. Se isso acontecer, será negativo também para os países da América Latina — afirmou Nogami. — Se houver reaproximação entre Rússia e EUA, a relação bilateral com a China deixa de ser prioridade. Isso pode esvair inclusive o sonho chinês de transformar o Brics (grupo de países emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) em potência.

O emergente mais vulnerável aos EUA de Trump é o México, que poderá sofrer pressão sobre as contas externas e um ajuste mais intenso. Na avaliação de Marcelo Carvalho, economista-chefe do banco BNP Paribas para América Latina, o outro polo latino — Brasil, Chile, Peru, Colômbia e Argentina — é mais ligado à economia chinesa por causa das commodities:

— Nosso cenário é de uma China desacelerando, mas ainda com um crescimento robusto de 6,5%, o que dá suporte ao preço das commodities, embora longe dos tempos áureos.

Para Charles Collyns, do IIF, a China tem feito uma transição lenta para um novo modelo de crescimento — menos investimento e mais consumo — porque quer evitar volatilidade. Com isso, mantém estímulo fiscal, forte crescimento do crédito e evita a rápida depreciação da moeda:

— Eles querem manter a economia crescendo a um ritmo razoável porque há uma grande transição de liderança em outubro (no Congresso do PCC). Ainda achamos que a China vai atingir crescimento de 6,5% em 2017, mas cada ano fica mais difícil.

O fator político também é significativo nas duas principais economias da zona do euro: França e Alemanha vão escolher novos líderes. O continente enfrenta uma escalada do nacionalismo de extrema-direita, que se contrapõe à chegada em massa de refugiados vindos de países em conflito. Associado ao nacionalismo está o chamado euroceticismo, descrença no projeto Europeu e desconfiança com relação à burocracia de Bruxelas que cresce mesmo entre segmentos moderados do espectro político.

Além disso, o continente europeu enfrenta há anos um problema de ordem econômica. O endividamento na zona do euro está estagnado em patamar elevado, chegando a 90,3% em 2016. O desemprego, sobretudo entre jovens, também tem se mostrado resistentemente elevado desde o início da crise da dívida em 2009. Enquanto isso, o Banco Central Europeu (BCE) mantém um programa de estímulo que já atingiu a marca de US$ 1 trilhão, além de impor juros negativos, fatores que levam a distorções no mercado de capitais. Uma das maiores preocupações é com os bancos italianos, que sofrem com alta inadimplência e ameaçam contaminar o sistema bancário da zona do euro.

Na França, a extrema-direita já mostra força antes mesmo do início oficial da campanha presidencial: Marine Le Pen, candidata da Frente Nacional, aparece nas pesquisas com chances reais de disputar o segundo turno. Ela já se manifestou favoravelmente à saída da França da zona do euro e prometeu submeter a referendo nacional a saída da UE. Gabriela Santos, estrategista de mercado global do J.P. Morgan Asset Management, pondera, porém, que abandonar a moeda não é tão simples quanto deseja Le Pen:

— Temos que lembrar o exemplo da Grécia. Quando ela considerou sair do euro, vimos um forte impacto negativo no seu crescimento. Esse foi um exemplo muito negativo sobre o que acontece quando um país tenta sair da zona do euro. É mais fácil sair da UE do que da união monetária.

A chanceler alemã Angela Merkel vai disputar seu quarto mandato após a extrema-direita ter ganhado espaço nas eleições legislativas. Ao mesmo tempo, o Reino Unido continuará o processo para sua saída da União Europeia após a vitória do sim ao Brexit. Mas Gabriela Santos pondera que a incerteza política não se traduz necessariamente em trava econômica:

— Existe uma diferença entre incertezas políticas e desempenho econômico. Um exemplo é a Espanha, que ficou sem governo durante dez meses em 2016, mas continuou crescendo 3%. Na Europa, as análises costumam focar muito nos riscos políticos. Mas a economia vem melhorando, o consumo está reagindo e deve crescer 1,5% este ano.

RETORNO DA INFLAÇÃO

Dentro da lógica de que nem sempre incerteza se traduz em lentidão, o JP Morgan tem viés positivo com relação à economia global.

— Esperamos a continuação dessa tendência que chamamos de “reflação global”, que tem sido percebida desde a segunda metade de 2016 e significa um maior crescimento real da economia e o retorno da inflação global. Esse contexto cria as condições para o crescimento de lucratividade das empresas. Nos últimos anos, a expansão desses lucros veio por meio de corte de custos. Agora passará a vir também do crescimento das receitas — explicou Gabriela, acrescentando que ainda é difícil estimar o impacto de Trump na economia global.

O retorno da inflação global vem em boa hora, indicando maior demanda por parte dos consumidores, segundo a analista. A inflação global foi de apenas 2,8% em 2015, abaixo da dos cinco anos anteriores (em 2011, chegou a 5,1%). Gabriela explica que isso aconteceu por causa de “uma queda dramática do petróleo”.

Para a analista do JP Morgan, o acordo recentemente firmado entre membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opec) será importante para a sustentação da commodity. Ela prevê que o barril de petróleo do tipo WTI pode chegar a US$ 65 (hoje está em US$ 51). Esse limite se deve à tendência de os EUA aumentarem a produção quando o petróleo chega nesse patamar, aumentando a oferta. Gabriela minimiza a influência que Trump possa ter na expansão da produção, apesar da retórica pró combustíveis fósseis.

— As companhias americanas só vão aumentar a produção quando fizer sentido econômico para elas, independentemente do que o governo americano fizer — acrescentou.

oglobo.globo.com | 02-01-2017

WASHINGTON — As feridas de uma das eleições mais acirradas da História recente dos Estados Unidos parecem continuar abertas: os americanos chegam mais divididos do que nunca à posse de Donald Trump, em 19 dias. Apesar do primeiro discurso do magnata ter sido de unificação, o período de transição foi marcado por polêmicas, enfrentamentos e radicalismo que, em alguns casos, pioraram o clima no país. Neste sábado, no último dia do ano, ele alfinetou seus adversários: “Feliz Ano Novo a todos, incluindo a meus muitos inimigos e àqueles que lutaram contra mim e perderam feio, eles não sabem o que fazer. Amor!”, escreveu o futuro presidente. Trump_0101

Pela primeira vez nos anos recentes, a má expectativa de um novo governo supera a positiva. Segundo pesquisa da CBS News, entre os dias 9 e 13 de dezembro, enquanto 34% acreditam que Trump terá um bom desempenho, 36% dos americanos esperam um governo ruim. O número supera em muito a expectativa negativa cerca de um mês antes da posse de Barack Obama no fim de 2008 (7%) ou de George W. Bush em dezembro de 2000 (14%). Apenas 40% dos americanos têm uma visão favorável de Trump, contra 46% que têm uma visão desfavorável, segundo levantamento da NBC. Reverter este sentimento é um dos grandes desafios de Trump. Mas não o único.

Sua posse e os resultados das eleições são contestados desde o início, tendo em vista que em outubro ele venceu com larga vantagem no Colégio Eleitoral, mas teve 2,8 milhões de votos a menos que Hillary Clinton na contagem popular. Se valessem os votos apenas das grandes cidades americanas, a democrata teria sido eleita. As fortes divisões de classes, raças, gêneros e até geográficas que marcaram o período eleitoral, continuam presentes e pioraram as coisas.

— Os EUA são um país muito fraturado agora — afirma o cientista político David Schultz, da Hamline University, de Minnesota. — E Trump é um presidente minoritário, como George W. Bush, e vai assumir com uma posição fraca.

Info eleito em baixa

Ativistas e organizações não-governamentais se mobilizam para que os protestos do dia da posse, na sexta-feira dia 20, e nos dias seguintes, superem em muito o público oficial dos primeiros eventos do governo Trump na capital americana. Grupos em prol dos direitos de mulheres, imigrantes, gays, entre outros, esperam levar mais de um milhão de pessoas para a capital americana e superar os históricos comícios de Martin Luther King, nos anos 1960. Especialistas afirmam que não estão descartados inclusive atos violentos, e acreditam que o magnata tem parte de culpa, por não tentar apaziguar o país.

— Vimos um clima de enfrentamento, que continuou. Trump precisa se apresentar como o presidente de todos os americanos, mas não tem feito isso: as indicações para seu Gabinete, com nomes da direita radical, não mostram a boa-fé de alguém que quer unir o país. Ele parece seguir em campanha, quando venceu na base da divisão do país — frisa Beatriz Cuartas, professora de Ciência Política da George Washington University, na capital americana.

Distante do próprio partido

E as indicações não geram problemas só com democratas e progressistas. A falta de diálogo deixa incomodados até republicanos. O excesso de forasteiros da política gera incômodos dentro da própria legenda que o elegeu e da qual, de fato, nunca foi próximo, afirma Peter Hakim, presidente emérito do Inter-American Dialogue. Ele diz que a divisão do país só se assemelha aos períodos após o assassinato do presidente Abraham Lincoln, em 1865, e a Crise dos Mísseis em Cuba em 1962.

— Minha única previsão é que Trump provavelmente acabará causando danos à política, à economia e à sociedade dos EUA, às relações externas e à comunidade global. A única questão é quanto dano e onde — diz Hakim, que destaca a combinação negativa de país fraturado com um presidente com tão pouca disciplina e impulsivo.

A política externa é um dos pontos onde os desafios de Trump são mais urgentes e complexos, que podem ampliar a divisão do país. Ainda mais depois que o governo de Barack Obama resolveu, no fim do mandato, enfrentar Israel pelos assentamentos judaicos na Cisjordânia, e a Rússia, pelo caso de espionagem e vazamento de informações do Partido Democrata. Hakim vê apenas um ponto que pode unir o país: ampliação do investimento em infraestrutura.

— Mas mesmo neste ponto há diferenças a superar. Os democratas veem o investimento vindo principalmente de Washington. Trump está pedindo que a maioria do dinheiro venha do setor privado. E há conflitos entre os republicanos. O partido não quer mais déficit público, e alguns republicanos veem as despesas militares como a prioridade número um, e não a infraestrutura — observa o professor.

As divisões não ocorrem apenas na questão orçamentária. A revista “The Economist” listou diversos pontos de conflitos dentro do futuro governo Trump. Cita, por exemplo, que James Mattis, futuro encarregado da Segurança Nacional, afirmou que a anexação da Crimeia pela Rússia foi algo grave e que Vladimir Putin tenta implodir a Otan, o que pode gerar problemas com o indicado para secretário de Estado, Rex Tillerson, que sempre foi contra as sanções a Moscou quando era presidente da ExxonMobil. O presidente eleito também afirma que quer acabar com o acordo nuclear com o Irã, que tem a simpatia da maioria dos americanos.

Da mesma forma, sua proposta de acabar com o Obamacare, o programa de saúde pública implementado por Obama, deve gerar grande resistência, assim como suas políticas de imigração, em que defende a deportação de milhões de indocumentados e a construção do muro na fronteira com o México. Cidades e estados progressistas — entre eles as chamadas cidades-santuário — já afirmaram que não se mobilizarão a favor da deportação em massa, o que pode gerar uma queda de braço com o novo governo em Washington. Uma nova guerra com a sociedade deverá ocorrer nas políticas ambientais, pois Trump nega o aquecimento global e prometeu sair do Acordo de Paris e cortar toda verba federal para fundos de compensação das mudanças climáticas.

Trump afirma que quer rever o Nafta (Acordo de Livre Comércio da América do Norte, entre EUA, México e Canadá) e sobretaxar produtos chineses em até 45%. Ele já anunciou que vai abandonar o projeto da Parceria Transpacífica (TPP), entre EUA, Japão, Coreia do Sul e outros dez países, que seria o maior acordo comercial do planeta. A proposta de abrandar a legislação financeira e reduzir impostos para os mais ricos também deverá gerar polêmica.

— Há muitas pessoas com interesses em jogo no governo Trump, além do próprio presidente eleito e sua família, o que é uma fonte de conflitos e polêmicas — afirma Cuartas.

Isso, além de ter nomeado para cargos importantes, como a Agência de Proteção Ambiental e a Secretaria de Energia, nomes de pessoas que simplesmente defendiam o fim destas estruturas. Hakim afirma que um dos poucos pontos que podem unir o país, além da infraestrutura, é uma nova articulação contra o terrorismo, mas acredita que a iniciativa causará conflitos sobre questões como privacidade e segurança, perfil religioso e racial, propriedade de armas, atrasos nos aeroportos, vigilância excessiva e coisas do gênero.

— Somente se os EUA estiverem sujeitos a um ou mais atentados terroristas particularmente violentos ou de grande porte, tais fatos poderão gerar unidade — diz o professor.

E tudo ocorrerá com um Gabinete com pouca experiência pública e sem traquejo no Congresso. Mas, a maioria republicana nas duas Casas e a virtual maioria conservadora na Suprema Corte — uma vaga será preenchida por Trump — podem dar alívio ao presidente eleito nos primeiros cem dias. Mas, para tanto, ele terá de vencer suas limitações:

— Sua atração para muitos é ser um outsider, mas esse status significa que ele pode não ter as habilidades ou o conhecimento para fazer as coisas. O último verdadeiro outsider foi Jimmy Carter, e muitos descrevem sua Presidência como um fracasso porque ele e sua equipe não sabiam como lidar com Washington — salienta Schultz.

oglobo.globo.com | 01-01-2017

MOSCOU — Em maio, parecia culminar um período de esperança para os russos em sua intervenção militar na Síria. Oficialmente enviadas em setembro de 2015, suas tropas começaram a ser retiradas em março. O presidente Vladimir Putin assegurou que os objetivos da missão tinham sido cumpridos e que as condições para uma solução entre as forças políticas sírias haviam sido assentadas. Naquele momento, o objetivo das bases militares, uma no porto de Tartus — a única de Moscou no Mediterrâneo — e outra no aeroporto de Latakia, era apenas vigiar o cumprimento do cessar-fogo. Muitos respiraram aliviados, pensando que a Rússia tinha evitado uma nova situação como a no Afeganistão, décadas antes. Mas os acontecimentos demonstraram que a atitude triunfante era precipitada.

Em dezembro, o Estado Islâmico (EI) voltava a controlar Palmira, Patrimônio da Humanidade, e outras localidades a Oeste da cidade, incluindo campos petrolíferos. Cerca de 80% da população teria que ser retirada, segundo o governo da província de Homs. O chefe do batalhão russo em Palmira foi morto. Agora, a Rússia encara novos riscos por conta de seu compromisso militar: começa a voltar atrás na desmobilização de seu contingente no país e estuda reforçá-lo com voluntários.

Inicialmente, os dirigentes russos justificaram sua intervenção sob o argumento de que ela servia para combater jihadistas vindos da Rússia e de países pós-soviéticos, além de evitar que eles lutassem em seu próprio território. No entanto, o conflito civil iniciado em 2011 tem múltiplas vertentes. A oposição moderada perdeu terreno para os radicais. Na vizinha Turquia, o presidente Recep Tayyip Erdogan está hoje mais vulnerável. A Rússia matou combatentes islâmicos que poderiam voltar ao Cáucaso, mas tem novos temores pela frente.

— A Rússia e seus cidadãos subiram alguns degraus na lista de alvos que terroristas querem destruir — afirma o analista político Mikail Rostovski.

O ex-candidato à Presidência russa Grigory Yavlinski acredita que, na tentativa de salvar o regime do presidente sírio, Bashar al-Assad, os russos envolveram o país num conflito de grandes proporções:

— Moscou enfrenta não só os adversários sírios de Assad, mas todo o mundo sunita — analisa. — Na guerra, a Rússia não controla nada e, além disso, garantiu a Assad o controle de Aleppo ao preço de grandes perdas de reputação e na economia, além de criar para si sérias e potenciais ameaças.

O território que os combatentes sírios leais a Assad perderam em Palmira foi ganho em Aleppo com a ajuda da aviação russa. Num balanço da operação na Síria, o ministro da Defesa da Rússia, Sergey Shoigu, afirmou que a aviação russa realizou 71 mil ataques e exterminou 35 mil insurgentes, entre eles 204 líderes guerrilheiros.

— A operação russa permitiu evitar a desintegração do Estado sírio e rompeu a sequência de levantes que se desencadeavam no Oriente Médio e na África — garantiu Shoigu.

Oficialmente, a intervenção russa começou em 2015, mas desde 2013 já atuavam na Síria militares que supostamente pertenciam a empresas de segurança privadas. Alguns deles eram veteranos da espionagem militar e foram condecorados com altas honrarias por Putin, como Dmitri Utkin, expedicionário e hoje chefe da empresa militar PMC Wagner.

Segundo dados oficiais russos, 25 militares morreram. Não se sabe o número de baixas nas companhias privadas, nem os feridos.

Milícias e soldados com contratos curtos

Segundo o jornal “Novaya Gazeta”, dois batalhões especiais de voluntários (com um total de 1.200 pessoas) estão sendo preparados atualmente, recrutados entre os funcionários do Ministério do Interior checheno. O líder da região, Ramzan Kadyrov, desmente que suas autoridades estejam recrutando estas tropas voluntárias, mas destacou que, “se for necessário, qualquer funcionário checheno considerará uma honra cumprir com a ordem do comandante em chefe em qualquer lugar do globo”.

As táticas empregadas pelos russos e pelos grupos armados que eles enfrentam na Síria lembram as usadas pelas tropas de Moscou e seus adversários chechenos na guerra de 1994 e 1996, destaca o jornalista Vladimir Dolin, que cobriu o confronto no Cáucaso. Na Chechênia, os russos conseguiam expulsar os rebeldes das cidades provocando muitas mortes de soldados e de civis, mas os insurgentes “se dissolviam” nas montanhas e bosques. Agora, na Síria, se dissolvem no deserto para contra-atacar no momento oportuno.

— O problema, tanto na Síria, quanto na Chechênia, não é a conquista de uma ou outra cidade, mas a manutenção do controle daquilo que foi alcançado militarmente — ressalta Dolin.

Esta manutenção poderia ser desempenhada pelos grupos especiais chechenos, se forem enviados a Aleppo, e é também um tema que teria sido discutido nas conversas recentes entre os ministros da Defesa de Rússia, Irã e Turquia.

Neste mês, a Duma Federal (Câmara baixa do Parlamento russo) aprovou um projeto de lei que permite ao Ministério da Defesa fazer contratos de curta duração com soldados e oficiais para, entre outros, “combater atividades terroristas internacionais fora da Federação Russa e participar de expedições navais”. Segundo a nova lei, qualquer jovem que cumprir o serviço militar poderá assinar um contrato de até um ano. Isto supõe uma fórmula mais flexível, em função da demanda para substituir regimes de contratação mais rígidos e longos. Cerca de 20% daqueles que desejam servir nas Forças Armadas através de contratos querem períodos mais curtos, segundo a nota que acompanha o projeto de lei.

— As operações russas pararam a difusão das organizações terroristas internacionais na região — justificou o ministro Shoigu.

oglobo.globo.com | 27-12-2016

SÃO PAULO - O grupo brasileiro de produtos farmacêuticos Hypermarcas decidiu vender a divisão de fraldas para a belga Ontex por cerca de R$ 1 bilhão em dinheiro, disse uma fonte com conhecimento da operação.

Ambas as empresas confirmaram na manhã desta quinta-feira que as conversas estão em estágio avançado. A Hypermarcas ressaltou, contudo, que até o momento nenhum “instrumento vinculante foi assinado”, segundo fato relevante. Já a Ontex informou não haver garantias de que a transação vai se materializar porque as duas partes não estão legalmente obrigadas a proceder com a operação.

De acordo com a fonte ouvida pela Reuters, que pediu anonimato porque os termos do negócio permanecem confidenciais, o anúncio de venda pode sair ainda nesta quinta-feira.

No ano passado, a Hypermarcas contratou consultores para avaliar uma cisão das operações ou venda definitiva da unidade. O negócio, que demorou um ano a mais que o esperado, surge no momento em que a divisão de fraldas sofre com falta de escala e reconhecimento da marca, além de custos maiores com matérias-primas em meio à desvalorização acentuada do real.

Em outubro de 2015, a Reuters informou que a Hypermarcas havia oferecido a unidade para Kimberly-Clark, CMPC, Procter & Gamble e Svenska Cellulosa.

A negociação, que a Hypermarcas pretendia fechar por R$ 1,5 bilhão, ficou estagnada alguns meses depois, com divergências sobre preços e questões tributárias, disseram pessoas familiarizadas com a decisão nos últimos meses.

Além de consolidar a saída da Hypermarcas do segmento de produtos descartáveis, a venda dos negócios de fraldas ainda marca a entrada da Ontex na principal economia da América Latina após a aquisição do mexicano Grupo P.I. Mabe SAB em março.

Fundada em 1981, a Ontex está entrando em mercados com potencial de crescimento para combater a fraca atividade na Europa Ocidental, no Oriente Médio e na Rússia.

FOCO

As ações da Hypermarcas acumulam alta de cerca de 15% neste ano, desempenho aquém do avanço de 33% do Ibovespa. Os papéis refletem os efeitos da pior recessão desde a década de 1930 e da turbulência política sobre os setores de bens de consumo e farmacêutico.

Nos últimos anos, o presidente da Hypermarcas, Claudio Bergamo, optou por concentrar as operações da empresa no segmento farmacêutico. Com o aval do acionista majoritário e presidente do conselho, João Alves de Queiroz Filho, Bergamo liderou uma série de aquisições para a empresa na última década.

Atualmente, a Hypermarcas é uma das principais produtoras de medicamentos genéricos e de balcão.

oglobo.globo.com | 22-12-2016

MOSCOU — Pelo menos 58 pessoas morreram na cidade siberiana de Irkutsk, nos últimos dias, após ingerirem uma loção de banho à base de álcool. Segundo o Comitê de Investigação da Rússia, o líquido era consumido como bebida alcoólica, mas continha metanol, altamente intoxicante. Outras 40 pessoas continuam hospitalizadas.

A quantidade de mortos em Irkutsk, sexta maior cidade da Rússia (tem 1,1 milhão de habitantes) vem subindo desde domingo. Um grupo de toxicólogos para atender os afetados foi enviado a Irkutsk, perto do lago Baical.

Um inquérito para investigar as mortes foi aberto, embora o rótulo do produto indicasse que sua ingestão é proibida. Pelo menos oito pessoas foram detidas.

A imprensa local afirma que, devido à recessão da economia russa desde 2014, os russos de menor poder aquisitivo não podem conseguem comprar vodca legal e consomem produtos que incluem álcool, como colônias e loções. O hábito aumenta o número de intoxicações mortais, especialmente nas férias natalinas, quando o consumo de álcool dispara.

oglobo.globo.com | 20-12-2016

ULAN BATOR — A crise econômica fez do combate à pobreza um dos principais desafios da Mongólia. A bonança do mercado internacional e os altos preços das commodities nos anos 2000 permitiram um alívio das desigualdades, enquanto o país registrava a maior taxa de crescimento do planeta: 17,5% em 2011 — percentual de fazer inveja à China. Mas se o índice de pobreza caiu de 38,8% da população em 2010 para 21,6% em 2014, cerca de 20% dos mongóis ainda vivem com menos de US$ 1,25 por dia.

O problema é que os preços das matérias-primas despencaram, a demanda da China, seu maior comprador, caiu, o país continua dependente de energia da Rússia e não consegue destravar as negociações sobre os contratos de exploração da mineração — atividade que, sozinha, carrega 20% da economia nas costas. Este ano, o comparecimento às urnas foi recorde (72%). O voto de protesto levou o Partido do Povo da Mongólia (PMM), o mais antigo do país, de volta ao poder depois de quatro anos na oposição. E pela primeira vez desde 2000 com maioria absoluta, sem a necessidade formar coalizões.

Entre Rússia e China, a Mongólia usa a conhecida política do “terceiro vizinho” para contrabalançar o peso das fronteiras. Aproximou-se dos EUA, com quem tem uma aliança militar. Os americanos têm sido um importante aliado, mas a eleição de Donald Trump pode afetar a estratégia mongol. Professora da Escola de Relações Internacionais da Universidade Nacional da Mongólia, Oyunsuren Damdinsuren afirmou que existe uma grande preocupação sobre como o presidente eleito conduzirá a política externa.

— Temos um bom relacionamento, embora os EUA não tenham investimentos significativos na Mongólia e o comércio exterior seja mínimo.

Para o especialista da King’s College Kerry Brown, não restam alternativas. O país depende da Rússia e da China para ter liberdade de acesso, ambos mais importantes para o país do que vice-versa. Já foi um aliado importante da Rússia e uma espécie de para-choque contra a China.

— Não estão entre as prioridades dos EUA. A China tem hoje mais interesses na Ásia Central e na Ásia do Pacífico, onde há disputas sobre o Mar do Sul da China.

O professor explica que todos os países da Ásia fazem o mesmo jogo do “terceiro vizinho”. O problema é que a Mongólia acaba com os vizinhos de sempre. (V.O.)

oglobo.globo.com | 11-12-2016

SÃO PAULO - Os pequenos luxos do cotidiano ficaram um pouco mais longe do brasileiro. Para provar um macaron da Ladurée ou experimentar uma bermuda de praia da Vilebrequin, o jeito agora é comprar uma passagem para a França ou para qualquer outro país onde estas marcas estão presentes. Os dois anos seguidos de recessão no país afetaram o perfil de compras até do cliente de alta renda. Com isso, grifes internacionais do segmento de luxo que desembarcaram por aqui quando a economia estava em expansão, começaram a fazer as malas em busca de mercados mais rentáveis.

Entre os ícones locais desse segmento no varejo, o naufrágio da Daslu, que acaba de fechar sua loja no shopping JK Iguatemi, em São Paulo, por atraso nos aluguéis, é o movimento mais emblemático da abrangência da crise.

Se até pouco tempo o segmento parecia imune à recessão, o desempenho em 2016 mostra que o setor perdeu um pouco do brilho. Dados da Euromonitor indicam que as vendas do segmento de luxo crescerão 5% este ano, contra a média de 9% da última década, e o auge de 11% em 2013.

Um dos segmentos nos quais esse movimento foi mais intenso é o de automóveis de luxo. Após três anos consecutivos de expansão, Jaguar, Land Rover, BMW, Mercedes e Audi acumulam queda de 27,3% nas vendas até novembro, segundo números da Anfavea, associação que reúne as montadoras.

consumo0412

Guilherme Machado, analista de pesquisa da Euromonitor Internacional, explica que o cenário instável também prejudica a confiança do consumidor mais rico, que passa a ser mais criterioso com seus gastos.

— Até o padrão de compras dos consumidores de alto poder aquisitivo se tornou mais conservador — resume Machado.

DIFICULDADE EM ENTENDER O GOSTO DO BRASILEIRO

Bruno Pamplona, consultor especializado no mercado de luxo, percebe as mudanças no dia a dia. Em sua empresa, ele atende famílias milionárias e as auxilia a comprar bens de alto valor, como barcos, aviões, imóveis e carros. Ele relata que, desde o ano passado, predomina o receio quanto ao futuro. A apreensão não só afeta o tamanho dos gastos, como faz o consumidor concentrar suas compras em marcas mais reconhecidas, como Louis Vuitton e Chanel.

— O mercado de seminovos está muito mais aquecido. Hoje, a família que me procura para comprar um carro, por exemplo, opta por adquirir um zero quilômetro para o patriarca e seminovos para a esposa e o filho — exemplifica.

Outro movimento que perdeu fôlego com a crise, segundo o especialista, é a importação de barcos e aviões, que estava forte há dois anos.

— O câmbio encareceu demais as transações. Além disso, não é possível prever qual será a cotação daqui a uma semana. Sendo assim, esse público tem preferido comprar um usado que já está aqui — detalhou Pamplona.

O Brasil é o 19º maior mercado de consumo de luxo no mundo. Se descontada a inflação, a Euromonitor conclui que as vendas do segmento fecharão o ano com retração de 3%.

— Além da crise, percebemos também que algumas empresas que fecharam ao longo deste ano não encontraram um casamento feliz de seus conceitos de produto com o gosto dos brasileiros. As linhas predominantemente retas e as cores mais sóbrias da Lanvin, por exemplo, não causaram o apelo ambicionado nos consumidores brasileiros de luxo — ponderou Machado, da Euromonitor.

Demanda mais fraca, altos impostos e o câmbio são os fatores que impactaram as atividades das marcas estrangeiras que decidiram deixar o Brasil. A Ladurée, exemplo, vendia cada macaron por R$ 11, antes de fechar. O valor é exatamente o mesmo que a marca pagava para importar cada doce. Outras empresas do segmento alimentício que encerraram as atividades são a espanhola de chocolates CacaoSampaka e a americana Red Lobster, famosa por suas lagostas.

Relatório elaborado pela Millward Brown tem conclusão na mesma linha da Euromonitor: as dez marcas mais poderosas do ramo perderam US$ 5 bilhões em valor ao longo deste ano, uma redução de 5%, para US$ 99,7 bilhões. Em 2015, a consultoria havia registrado a primeira retração no valor dessas marcas, de 6%, equivalente a US$ 7 bilhões, para US$ 104,6 bilhões. Entre as razões para a perda de valor, segundo relatório da Millward, está o menor consumo brasileiro.

“O crescimento mais lento no Brasil, Rússia e China impactou os valores de certas marcas. E a força do dólar dos EUA também impactou negativamente as vendas de marcas americanas ofertadas no exterior ou compradas nos EUA por visitantes estrangeiros”, explica o relatório.

RECUPERAÇÃO SÓ EM 2018

A pesquisa da Euromonitor também identifica um arrefecimento do consumo de luxo em todo o mundo. Machado explica que ao longo de 2016 os mercados de luxo considerados consolidados, como os da França e de Hong Kong, e os emergentes, como Rússia e Brasil, sentiram impactos de problemas econômicos vividos em seus países. Ele pondera porém que a Índia e o México têm mostrado crescimento vigoroso nas compras deste tipo de artigos.

O maior mercado de luxo do mundo é o americano, representando 21% das vendas globais em 2016. China e Japão vem em segundo e terceiro lugar, respectivamente.

E as perspectivas para o segmento no Brasil não são animadoras. A Euromonitor indica ainda que para 2017 a estimativa é de um crescimento módico de vendas de 1% acima da inflação. A recuperação, segundo a consultoria, só deve começar em 2018 e, mesmo assim, ainda longe dos dois dígitos nos próximos cinco anos.

— A recuperação deve começar a acontecer somente em 2018 e mesmo assim o crescimento não deve voltar aos dois dígitos pelos próximos cinco anos. Nesse período o Brasil deve ultrapassar a taxa de crescimento médio mundial e se reaproximar de taxas de crescimento mais elevadas, como aquelas que o México tem apresentado — detalhou Machado.

Outro indicador da perda de encanto do mercado brasileiro, segundo o levantamento, é a diminuição do interesse de grifes de luxo negociarem sua entrada no país. “Assim, prevemos entrada de poucas marcas no Brasil. Essas poucas entrantes e as que se mantiveram no país deverão disputar acirradamente a preferência do consumidor”, analisa a Euromonitor, em relatório que acompanha os dados da pesquisa.

oglobo.globo.com | 11-12-2016

Confesso que em 2011 e 2012 publiquei artigos no GLOBO manifestando desapontamento com a atuação de Barack Obama. A origem desse desencanto era a minha expectativa de que seu governo consistiria de sucessivos atos arrojados, dado o discurso reformista adotado durante a campanha de 2008. Imaginei também que o presidente enfrentaria incisivamente a oposição do Partido Republicano que, no Congresso, se transfigurou em obstrução sistemática.

Agora, ao fim de seu mandato, reconheço que fui demasiado rigoroso, influenciado pela atitude comedida por ele adotada e sua sobriedade na divulgação dos êxitos alcançados. Percebo que Obama entrará para a história não apenas como o primeiro presidente negro dos EUA, mas também como exemplo a ser seguido pelos futuros ocupantes da Casa Branca.

Primeiro, porque exerceu o poder de maneira elegante e confiável. Após os 16 anos da escassa credibilidade de George Bush e do controvertido comportamento pessoal de Bill Clinton, o desempenho de Obama revigorou a dignidade da Presidência.

Em segundo lugar, porque o saldo econômico e social de seu governo é positivo. Ao assumir, os EUA encontravam-se sob a maior recessão desde a década de 1930: o PIB retrocedeu em 2,8% em 2009, o desemprego oscilava em torno de 10%, e o déficit público equivalia a 13,2% do PIB. O setor privado e o cenário internacional padeciam de tal intranquilidade que ninguém ousava prever quando começaria a recuperação da atividade econômica.

Mediante políticas coerentes, o presidente americano encurtou o prazo de reativação da economia, embora ainda em ritmo moderado. A dosagem aplicada de estímulos ao aumento da produção e de prudência fiscal reverteram o quadro recessivo: a economia atingiu o crescimento de 2,6%, em 2015, e de 2,9% no terceiro trimestre de 2016 em comparação com igual período de 2015. O desemprego e o déficit público declinaram, em 2016, para 4,9% e 2,9% do PIB, respectivamente.

No campo social, a reforma do sistema público de seguro saúde proporcionou o acesso de 20 milhões de cidadãos de baixa renda aos seus benefícios. Por outro lado, Obama eliminou o abatimento no Imposto de Renda dos ricos, instituído por George Bush, assim como incentivou governos estaduais a elevarem os salários mínimos locais.

Por fim, em terceiro lugar, a política externa praticada merece ser classificada como correta. Num contexto onde a Rússia se deleita em confrontar os EUA, vários focos de violência radical se disseminam em países de Oriente Médio e África, o espaço mundial para negociações encolheu e as vitórias espetaculares em política internacional tornaram-se raras, os americanos conseguiram reduzir a presença militar no exterior e melhorar o relacionamento com alguns dos países tidos como adversários irreconciliáveis, tais como Cuba e Irã.

Hoje percebe-se que o estilo do presidente Obama de não alardear êxitos induziu grande parte da população a subestimá-lo. Porém, desde o início deste ano, sua popularidade decolou, decorrência da espontânea visibilidade dos frutos de iniciativas por ele empreendidas.

Marcello Averbug é economista

oglobo.globo.com | 06-12-2016

RESENDE E RIO - O programa nuclear brasileiro, que ganhou forma no fim dos anos 1960 com a construção da usina de Angra 1, vive nova polêmica, com a paralisação de sua única mina no sudoeste da Bahia, responsável pela exploração de todo o urânio consumido no país. A produção, que era de 400 toneladas anuais, se esgotou há dois anos. E, afetado pela crise política e econômica, o Brasil, embora dono da sexta maior reserva do mineral no mundo, segundo a estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB), vem importando tudo o que consome de países como EUA, Alemanha, Holanda e Reino Unido. inb0412

O urânio é matéria-prima para a geração da energia nuclear. Outros países com grandes reservas são Austrália, Canadá e Rússia. No Brasil, a exploração desse mineral ocorre na mina de Caetité, na Bahia, a mais de 600 quilômetros de Salvador. O urânio, então, passa por um processo químico, gerando um pó amarelo (chamado de yellow cake), que posteriormente é enriquecido para gerar energia elétrica nas usinas nucleares.

lResponsável pela exploração e enriquecimento do urânio, a INB tenta buscar recursos para voltar a explorar o minério em novas minas na região de Caetité, o que depende de licenciamento ambiental. A mina a céu aberto tem potencial para produzir 240 toneladas de concentrado de urânio por ano.

A outra mina, subterrânea, pode produzir 400 toneladas anuais. Além disso, segundo a INB, haverá ampliação da unidade química, responsável por transformar o urânio em yellow cake, que já está em fase de projeto executivo. Ao todo, serão investimentos totais de R$ 531 milhões.

A energia nuclear no BrasilApesar de a INB não divulgar a quantidade de importação de urânio, dados da consultoria Barral M Jorge indicam que, em 2015, foram importados 168,1 toneladas de urânio natural (e seus compostos), bem maior que as 6,8 toneladas compradas do exterior em 2014. Neste ano, até outubro, foram adquiridas 33,8 toneladas.

— Nossa mina na Bahia, que produzia anualmente cerca de 400 toneladas por ano de concentrado de urânio, está parada há cerca de dois anos, já que houve esgotamento da mina. Tínhamos um estoque. Um dos focos da INB é retomar a capacidade de produção na Bahia — disse Giovani Moreira, diretor de Produção Nuclear.

FALTAM RECURSOS FINANCEIROS

Mas os desafios da INB vão além do licenciamento. Falta dinheiro, dizem fontes do setor. Por isso, o presidente da INB, João Carlos Derzi Tupinambá, eleito para o cargo no início deste ano, está na China em busca de recursos:

— A INB está em busca de parcerias.

Outro foco para aumentar a produção do combustível nuclear no Brasil é incentivar o avanço do enriquecimento de urânio no país, feito na fábrica da INB em Resende, no sul do Estado do Rio. Segundo Ezio Ribeiro, superintendente da estatal, o país enriquece somente 16% do que é consumido. Para reverter esse cenário, a estatal pretende investir US$ 510 milhões, mas depende do Tesouro Nacional.

— A primeira fase do projeto para elevar o enriquecimento já começou, com novas centrífugas. O importante é ter autonomia e ser autossuficiente — disse Ribeiro.

Para superar esse imbróglio, especialistas afirmam que o Brasil precisa de uma política industrial para o setor nuclear. Para o consultor técnico da Associação Brasileira de Energia Nuclear (Aben), Francisco Rondinelli, a importação ocorre devido à falta de investimentos em sua expansão, apesar de o Brasil dominar a tecnologia. Segundo ele, seria necessário investir R$ 5 bilhões para o país se tornar autossuficiente e até exportar.

— O Brasil domina a tecnologia de todas as etapas do ciclo do combustível, inclusive a mais estratégica, que é a do enriquecimento. É preciso definir uma política para o ciclo, que poderia contar com recursos do BNDES, para tornar o Brasil exportador de urânio enriquecido — destacou Rondinelli.

OBRAS DE ANGRA 3 PARADAS

Mas os planos da INB esbarram ainda na construção da usina nuclear de Angra 3, que teve suas obras paralisadas em 2015 após denúncias de superfaturamento. É com Angra 3 que a INB pretendia ampliar a fábrica de Resende.

A construção de Angra 3 se arrasta desde 1986. Em Resende, parte do equipamento de Angra 3 já está pronto. Em um local chamado de “açougue”, devido à semelhança com a disposição de produtos em um frigorífico, estão estocados 69 equipamentos (chamados de elemento combustível), que têm em seu interior varetas de quase quatro metros de altura com as pastilhas de urânio enriquecido. Só vão sair dali quando Angra 3 estiver pronta, após 2021, segundo previsões.

— Contamos com Angra 3. Esperamos uma solução desse problema a curto prazo. Sabemos que a Eletronuclear está se mexendo bastante na busca de uma solução — disse Tupinambá.

Antônio Muller, presidente da Associação Brasileira para o Desenvolvimento das Atividades Nucleares (Abdan), defende que o país deveria investir para ter capacidade industrial de produção em todas as etapas do combustível nuclear:

— É um desperdício ter os insumos, tecnologia e instalações e estarmos importando o concentrado de urânio. Poderia se fazer parceria com o setor privado para minerar o urânio, por exemplo. E o país poderia até exportar esse produto.

* O repórter viajou a convite da INB

oglobo.globo.com | 04-12-2016

As bolsas de Nova York fecharam em alta nesta segunda-feira, 21, e atingiram novos recordes, impulsionadas por ações de empresas petrolíferas, uma vez que os preços do petróleo avançaram 4% em um otimismo renovado de que a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) chegará a um acordo para cortar a produção durante a reunião da semana que vem, no dia 30 de novembro.

O Dow Jones fechou com ganho de 0,47%, 18.956,69 pontos; o Nasdaq avançou 0,89%, aos 5.368,86 pontos; e o S&P 500 subiu 0,75%, aos 2.198,18 pontos. A última vez que os três principais índices atingiram recorde no mesmo dia foi em 15 de agosto.

O S&P foi puxado principalmente pelo setor de energia, cujas ações subiram 2%. No Dow Jones e no Nasdaq, o destaque foi para as ações da IBM e da Apple, que avançaram 1,50% e 1,54%, respectivamente.

As commodities em geral tiveram bom desempenho, ajudadas principalmente pelo dólar fraco. No caso do petróleo, que fechou com alta de mais de 4%, o combustível principal foi a expectativa com um acordo da Opep.

Os representantes da Opep fizeram progressos no sentido de reduzir as divisões sobre os cortes na produção de petróleo durante as reuniões desta segunda-feira, mas ainda não decidiram quanto cada um dos 14 países do cartel deverá reduzir, disseram os delegados.

"Estamos discutindo, mas não estamos discordando", disse Mohamed Oun, um representante líbio da Opep, o cartel que controla mais de um terço da produção mundial de petróleo. "As negociações em Viena estão indo bem", acrescentou.

Além disso, o ministro de Petróleo do Iraque disse que o país oferecerá novas propostas para cortar a produção na reunião da próxima semana.

Mais cedo, o petróleo já tinha se beneficiado depois que o presidente da Rússia, Vladimir Putin, afirmou que seu país está preparado para congelar a produção. As ações da ExxonMobil e da Chevron subiram 1,42% e 0,90%, nesta ordem. Já a Marathon Petroleum ganhou 8,9%, enquanto a Chesapeake Energy subiu 7,1%.

A segunda-feira foi fraca de indicadores econômicos. O único do dia, o índice de atividade nacional elaborado pelo Federal Reserve de Chicago, subiu de -0,23 em setembro (dado revisado, de -0,14 antes informado) para -0,08 em outubro. De acordo com a instituição, o crescimento econômico cresceu levemente em outubro.

No entanto, um dos destaques foi o vice-presidente do Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA), Stanley Fischer, que fez comentários sobre como a política fiscal pode ajudar a aumentar a produtividade e, por sua vez, reduzir o ônus do Fed em apoiar a economia.

"Certas políticas fiscais, particularmente aquelas que aumentam a produtividade, podem aumentar o potencial da economia e ajudar a enfrentar alguns de nossos desafios econômicos de longo prazo", disse Fischer.

As perspectivas de estímulo fiscal aumentaram acentuadamente desde 8 de novembro, quando o republicano Donald Trump surpreendeu o mundo ao vencer as eleições presidenciais nos EUA. Logo os investidores ajustaram suas posições e se moveram em grandes quantidades para setores que se beneficiariam com os gastos fiscais. Além disso, a perspectiva de menor regulação no mercado bancário impulsionou as empresas financeiras, que responderam por 73% dos ganhos do S&P nas duas últimas semanas. Cinco ações - Wells Fargo, Bank of America, JPMorgan Chase, Berkshire Hathaway e Citigroup - representaram mais de um terço dos ganhos do índice geral durante esse período. (Com informações da Dow Jones Newswires)

Grande parte do mundo ficou chocada e assustada com o sucesso eleitoral de Donald Trump, mas há aqueles que se deleitaram. “Foi uma vitória para as forças que se opõem à globalização, estão lutando contra a migração ilegal e são a favor de Estados étnicos limpos”, declarou um porta-voz do Aurora Dourada, o partido de extrema-direita da Grécia, muitas vezes caracterizado como neonazista.

Trump - Gabinete - 19.11

Viktor Orbán, o primeiro-ministro húngaro que afirmou querer construir um “Estado iliberal” em seu país, chamou o resultado de “uma grande notícia”. O vice-líder da Frente Nacional, legenda de direita da França historicamente considerada ultranacionalista e antissemita, também ficou exultante.

Ninguém pode ser julgado por aqueles que aprovam suas ações, mas vale a pena tentar entender o que os admiradores de Trump estão comemorando. Em alguns casos, seu apelo é que ele está contra o politicamente correto. Beppe Grillo, o ex-comediante que agora lidera o Movimento Cinco Estrelas, na Itália, observou que, como Trump, seu partido tinha sido rotulado de sexista e populista, mas que as pessoas não se importavam com isso.

Para outros, é o sentimento de parentesco entre homens fortes que não se preocupam com direitos humanos. O ditador sírio Bashar al-Assad chamou Trump de “aliado natural”. Rodrigo Duterte, líder autoritário das Filipinas, disse: “Nós dois somos iguais”. Robert Mugabe, no poder no Zimbábue por 36 anos, se mostrou esperançoso e teria descrito Trump como “um amigo”.

O que unifica os admiradores internacionais de Trump é a ideia de que a ordem global existente é podre e deve ser demolida. Todos os partidos europeus que aplaudem sua vitória buscam a destruição da União Europeia e, de forma mais geral, da comunidade ocidental fortemente unida centrada em valores e interesses partilhados. Eles são quase todos pró-russos porque veem na Rússia de Vladimir Putin um país que busca ativamente minar o atual sistema internacional.

Onda nacionalista ganha força na Europa

Muitos destes grupos têm o apoio secreto ou explícito da Rússia e se beneficiam da guerra cibernética do Kremlin. “Todos precisamos usar (a eleição de Trump) para remodelar o relacionamento transatlântico e acabar com os grandes conflitos na Ucrânia e na Síria, juntamente com a Rússia”, disse a alemã Frauke Petry, líder do partido ultranacionalista Alternativa para a Alemanha.

Mas o que é esse globalismo ao qual essas pessoas tanto se opõem? Depois de 1945, após a Grande Depressão e duas guerras mundiais, as nações ocidentais estabeleceram um sistema internacional caracterizado por regras que honraram a soberania nacional, permitiram o florescimento do comércio global e encorajaram o respeito pelos direitos humanos e liberdades.

Esta ordem resultou no mais longo período de paz entre as maiores potências do mundo, marcado por um crescimento econômico que criou grandes classes médias no Ocidente, garantiu o renascimento da Europa, o crescimento nos países pobres e a propagação da liberdade em todo o mundo.

O papel dos EUA em tudo isso foi fundamental. Ele estabeleceu a agenda e proporcionou segurança, que era mais do que apenas dissuadir a União Soviética e outras potências agressivas. Radek Sikorski, ex-ministro das Relações Exteriores da Polônia, disse: “A influência dos EUA e seus compromissos têm sido nosso cobertor de segurança. Permitiram que as rivalidades nacionais da Europa permanecessem dormentes. Se tirarmos essas garantias, a Europa poderia ficar muito instável”. E vale lembrar que a União Europeia é o maior mercado do mundo e o maior parceiro comercial dos EUA.

Os retratos de Trump por cartunistas

Para os EUA, o “globalismo” produziu enormes vantagens. Com 5% da população mundial, o país domina a economia global, em tecnologia, educação, finanças e energia limpa. Um em cada cinco empregos no país é resultado do comércio, e esse número cresce rapidamente. Os EUA ainda mantêm a moeda de reserva do mundo, o que lhes dá uma enorme vantagem econômica.

Os benefícios do crescimento e da globalização não foram compartilhados igualmente, e o ritmo da mudança causa a ansiedade em toda parte. Mas essas são razões para investir em pessoas e integrar melhor as comunidades. Não são motivo para destruir o sistema internacional mais pacífico e produtivo jamais concebido na história da Humanidade.

*Fareed Zakaria é colunista do Washington Post

oglobo.globo.com | 19-11-2016

WASHINGTON — “Tudo o que já fizemos, fizemos como uma família. Todo projeto que construímos, construímos como uma família”. A declaração é de um dos filhos de Donald Trump, Eric, de 32 anos, e foi publicada numa entrevista este ano, durante a campanha presidencial que culminou com a vitória do magnata. Agora, a frase do filho está se materializando numa inusitada participação da nova primeira-família na montagem do próximo governo.

Trump - 18.11

E, no círculo fechado do clã familiar do republicano — que inclui ainda os outros dois filhos mais velhos, Donald Jr e Ivanka — é seu genro, Jared Kushner, que vem exibindo influência nos bastidores. A ponto de a revista “Vanity Fair” chamá-lo de “Rasputin dos tempos modernos”, em referência ao monge que exercia influência nos bastidores do governo do último czar da Rússia, Nicolau II. O novo “empreendimento familiar” dos Trump teria levado, segundo a CNN, a equipe de transição a consultar o governo sobre a possibilidade de dar autorização de segurança a Eric, Donald Jr, Ivanka e Jared, o que lhes daria acesso a informações confidenciais.

Casado com Ivanka desde 2009, Kushner, 35 anos, é promotor imobiliário como o sogro e emergiu como uma figura-chave na semana passada, quando desempenhou um papel fundamental em ajudá-lo a formar sua equipe de transição na Casa Branca, entrando em colizão direta com Chris Christie, governador de Nova Jersey. Durante a primeira reunião entre Trump e Barack Obama na Casa Branca, imagens mostram Kushner nos jardins da residência oficial junto ao chefe de Gabinete de Obama, Denis McDonough. Trump supostamente havia pedido que o genro tivesse direito a assistir às reuniões diárias, fato confirmado pela imprensa, mas negado por ambos.

Ainda não se sabe o lugar que deve ser ocupado por Kushner — se ele acabaria assumindo uma posição administrativa ou se tornaria um conselheiro. Mas ele é, de acordo com a imprensa americana, o responsável por afastar Trump de Christie — até então um dos políticos mais próximos ao republicano — bem como duas outras pessoas de seu círculo. Tudo porque o governador, quando era procurador-geral de Nova Jersey, processou por evasão fiscal e manipulação de testemunhas o pai de Kushner, muito influente no estado, há cerca de dez anos. Sua prisão, quando o jovem havia acabado de concluir a faculdade em Harvard, foi um trauma na juventude de Kushner.

POSSÍVEL VIOLAÇÃO DA LEI

Para Jeanne Zaino, professora de Ciência Política na Iona College, o genro conseguiu ganhar a confiança de Trump com sua lealdade e “trabalhando duro durante a campanha”, embora continue a ser um homem por trás das cortinas. Ao contrário da mulher e dos outros filhos do magnata, ele nunca se expressa publicamente ou nas redes sociais.

— Temos a impressão de que ele se sente mais confortável trabalhando a portas fechadas — explicou Jeanne.

Como Trump, Kushner é um investidor imobiliário e supervisiona a Kushner Empresas, que opera edifícios comerciais e apartamentos em Nova York e Nova Jersey. Ele também comprou, em 2006, o jornal “The New York Observer”, responsável por ajudar a campanha do sogro nas redes sociais. Ele teria contratado Brad Parscale, especialista em marketing online que conseguiu não só mobilizar os fãs de Trump, mas também desencorajar potenciais eleitores de Hillary Clinton.

A grande família de Trump

Sua possível nomeação à Casa Branca, no entanto, traria desafios legais por uma possível violação da lei federal antinepotismo. No cerne da questão está uma legislação de 1967, assinada pelo então presidente Lyndon Johnson, que impede que funcionários públicos, inclusive o presidente e congressistas, contratem parentes, sejam pais, irmãos, tios, genros ou noras.

— Não estamos falando sobre Kushner funcionando como uma força-tarefa lateral. Estamos falando de um trabalho regular na Casa Branca. Acho que é ilegal — disse ao site especializado “Politico” Norm Eisen, que foi advogado-chefe durante os mandatos de Obama.

Segundo fontes do “New York Times”, Kushner estaria planejando abdicar do salário e congelar seus ativos de investimentos para tentar se precaver da lei. Mesmo assim Richard Painter, que tinha o mesmo cargo na era George W. Bush, acredita que a indicação de Kushner a algum cargo seria inapropriada.

— Ele não pode aceitar um emprego na Casa Branca. É altamente inapropriado. Não sei por que eles acham que podem. Basta ler o estatuto — avaliou Painter.

PAPEL DE IVANKA É ENIGMA

O papel da mulher de Kushner, Ivanka, também é um enigma. Há quem diga que ela seria a primeira-dama de fato — na entrevista do pai ao programa “60 Minutes” ficou ao seu lado e de sua atual mulher, Melania. E aproveitou para usar um bracelete de sua marca, cujo preço (US$ 10.800) foi divulgado depois por assessores — causando constrangimentos na imprensa, que a acusou de misturar seus negócios com o governo.

— Eu vou ser uma filha — rebateu ela com firmeza quando perguntada se estaria procurando emprego no governo.

Até a primeira ex-mulher de Trump, Ivana, já manifestou interesse em ser embaixadora na República Tcheca, país onde nasceu.

— Seria uma escolha excelente — apoiou o presidente tcheco, Milos Zeman, que já havia se mostrado satisfeito com a vitória de Trump.

NOMES PARA O GABINETE

Enquanto isso, aumentam os rumores sobre o Gabinete do presidente eleito. O senador ultraconservador Ted Cruz, que disputou as primárias, foi visto na Trump Tower e trouxe à tona rumores sobre uma possível nomeação como secretário de Justiça.

Para comandar a diplomacia, o ex-prefeito de Nova York Rudy Giuliani — um dos poucos apoiadores incondicionais de Trump durante a campanha — também aparece com força. Outros nomes cotados seriam o ex-embaixador da ONU John Bolton; o senador Bob Corker, presidente da comissão de Relações Exteriores; a governadora da Carolina do Sul, Nikki Haley; e o ex-candidato presidencial Mitt Romney, ferrenho crítico do republicano.

“Meu time de transição, que está trabalhando longas horas e fazendo um trabalho fantástico, estará vendo muitos grandes candidatos”, escreveu Trump no Twitter.

oglobo.globo.com | 18-11-2016

MOSCOU —O Comitê de Investigação da Rússia anunciou nesta terça-feira a detenção do ministro da Economia, Alexey Ulyukayev, em uma operação surpresa durante a madrugada. No cargo desde 2013, ele é suspeito de aceitar suborno para aprovar uma operação na qual a petroleira estatal Rosneft adquiriu maioria do controle da companhia energética Bashneft no mês passado. Ele teria recebido US$ 2 milhões. obamagrecia

Em nota, o comitê informou que Ulyukayev foi detido no âmbito da investigação por um esquema de corrupção de largas proporções. A investigação foi realizada pelo Serviço Federal de Segurança russo (FSB, sucessor da extinta KGB).

A porta-voz do Comitê de Investigação do Ministério Público russo, Svetlana Petrenko, disse à agência de notícias russa "RIA Novosti" que há suspeitas de que o ministro tenha cometido extorsão para pedir suborno a executivos da companhia Rosneft, além de ter feito ameaças.

— Uliukáyev foi flagrado com a mão na massa — disse a porta-voz.

Se for considerado culpado, Ulyukayev pode enfrentar uma pena entre oito e 15 anos de prisão. Este é o funcionário de mais alto cargo a ser preso desde o golpe fracassado de 1991. Por muitos observadores, o episódio é considerado parte de uma batalha interna entre diferentes grupos do Kremlin

Ulyukayev ocupa cargos no governo desde 2000, e chefia a pasta da Economia desde 2013. Ele é conhecido por ser parte da ala do governo que vem criticando o aumento do envolvimento do governo na Economia.

Segundo o seu porta-voz, o presidente russo, Vladimir Putin, está ciente da investigação sobre Ulyukayev há algum tempo. O chefe do Kremlin estabeleceu o combate a corrupção como prioridade em seu governo, enquanto críticos afirmam que a corrupção está espalhada pelos níveis mais altos do governo. Por isso, surgem as dúvidas se esta não se trata de uma consequência de confrontos internos no governo.

oglobo.globo.com | 15-11-2016
A França de Juppé será mais parecida com a Alemanha de Merkel em matéria de austeridade, mais distante dos Estados Unidos e mais próxima da Rússia. Para o seu conselheiro Benoist Apparu, combate-se Marine Le Pen com a economia.
www.publico.pt | 14-11-2016

WASHINGTON — Para os Estados Unidos e a Europa, chegou a hora de fazer um acerto de contas: o Ocidente como o conhecemos está próximo de chegar ao fim. Os Estados Unidos acabaram de eleger como presidente um homem que não apenas se gaba de apalpar mulheres e enganar parceiros de negócios, mas que também publicamente não gosta de tradicionais aliados americanos — e os europeus acima de tudo.

Não se baseie nas minhas palavras. Ouça o que ele vem dizendo há muitos anos. Em 2000, no livro “A América que merecemos”, Trump escreveu que os “EUA não têm interesse vital em escolher entre facções armadas cuja hostilidade remonta a séculos. Seus conflitos não valem vidas americanas. Afastar-se da Europa poderia anualmente economizar milhões de dólares deste país. O custo de manter tropas da Otan na Europa é enorme. E estes são certamente investimentos que podem ser mais bem utilizados”.

Ao longo da campanha eleitoral, repetiu constantemente essa visão, mesmo que tenha mudado de opinião em relação a quase todo o restante. Mas em relação à Otan — e sobre a Rússia — Trump não muda nunca. Em março, descreveu a organização como obsoleta. Ao mesmo tempo, tem elogiado ditadores mundiais, Vladimir Putin principalmente. Em 2014, enalteceu a invasão russa à Ucrânia. Trump não fala sobre o declínio da economia russa ou do seu feroz autoritarismo, talvez porque não sabia sobre eles ou porque não se importe. Sua campanha recebeu assistência declarada da Rússia.

Não podemos presumir que avanços militares russos na Ucrânia e nos países bálticos serão empurrados para trás por uma aliança de países com posições semelhantes. Sob o comando do presidente Trump, não podemos presumir que os Estados Unidos continuem na liderança dos países livres — ou na liderança de qualquer coisa. O protecionismo, e não o livre comércio, acabou de ganhar esta eleição, e isso terá consequências. O livre comércio teve todos os tipos de consequências, mas uma de suas vantagens é que mantém países política e economicamente conectados. Muros, sejam físicos ou metafóricos, serão construídos.

Nada disso acontecerá rapidamente. Levará tempo para as consequências da mudança no sistema político internacional por vir se desdobrarem. A queda inicial do mercado de ações se inverteu. Mas a mudança está chegando, como populistas têm dito em tantos países. Nos próximos dias e semanas, os americanos estarão focados nas consequências desta eleição em casa, particularmente agora que o Partido Republicano de Trump domina a Câmara e o Senado e irá dominar a Suprema Corte. É importante abrir os olhos para as consequências ao restante do mundo também.

oglobo.globo.com | 13-11-2016

SÃO PAULO E BRASÍLIA - A eleição do republicano Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, com sua retórica antiglobalização, acendeu a luz amarela entre as empresas brasileiras que têm negócios no mercado americano, especialmente as que exportam para lá. Teme-se a adoção de medidas protecionistas, que dificultem o acesso àquele mercado. Há também uma dúvida sobre se o aumento dos investimentos em infraestrutura, prometido por Trump durante a campanha, ocorrerá a curto prazo. Isso beneficiaria as produtoras de matérias-primas, como o minério de ferro, e as siderúrgicas. Trump 1110

No caso da petroquímica Braskem, que acaba de inaugurar uma grande fábrica no México, exclusivamente para atender à demanda por insumos petroquímicos na América do Norte, sendo os EUA o maior cliente, a busca por novos mercados é uma alternativa a ser avaliada.

— Vamos ver como vai ser a tradução da retórica do discurso de campanha para uma realidade de governo. Nossa expectativa é colocar nosso produto no mercado mexicano e outras regiões, caso não seja mais possível exportar para os Estados Unidos. Conseguimos colocar de forma competitiva e rentável o nosso produto em outros mercados, independentemente de possíveis barreiras comerciais nos Estados Unidos — afirmou ontem Fernando Musa, presidente da petroquímica, em teleconferência.

PETROBRAS: VOLATILIDADE

A tensão também existe no setor calçadista brasileiro, já que os EUA são hoje seu principal mercado externo. No ano, até outubro, as vendas para o mercado americano somaram US$ 173,3 milhões, alta de 16,7%. Segundo Heitor Klein, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), é preciso esperar para ver quais serão as primeiras medidas do governo Trump. E, apesar de ele ser considerado imprevisível, Klein ressalta o fato de que, em geral, governos republicanos são menos protecionistas que os democratas.

— Ainda é um pouco cedo para avaliar quais as possíveis consequências para o comércio entre os dois países. No decorrer do processo eleitoral, nada transpareceu em relação a um maior protecionismo no comércio com a América Latina, exceto o México. Ainda assim, uma coisa é o que se fala em campanha, e outra é um governo eleito — disse Klein.

A Petrobras, por sua vez, vê mais volatilidade no mercado.

— Ainda é muito cedo para falar de tendências, mas é claro que a volatilidade aumentou. E acho que esse será o comportamento daqui para frente, de câmbio, taxa de juros, o próprio Brent — afirmou o diretor financeiro da estatal, Ivan Monteiro.

Mas há empresas brasileiras que torcem pela efetivação de algumas promessas de Trump. É o caso da Gerdau: com quase 40% de suas receitas oriundas das siderúrgicas que tem nos EUA, ela pode ser beneficiada pelo aumento dos investimentos em infraestrutura. O republicano prometeu investir US$ 500 bilhões em obras. trump 1011

COMPRAS DE CHINA E MÉXICO

Outros setores, no entanto, avaliam que eventuais medidas protecionistas de Trump podem até abrir para o Brasil as portas de outros mercados. O presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Francisco Turra, acredita que mercados como México e China podem aumentar as compras do Brasil, como forma de reduzir a dependência das relações com os EUA. O outro lado da moeda é que, no caso de uma maior aproximação entre Vladimir Putin e Trump, a Rússia pode reduzir suas compras de produtos brasileiros.

— Não temos receio, porque não acreditamos que perderemos o espaço de nossas exportações com o protecionismo dos EUA. Ao contrário, podemos até aumentar as vendas — afirmou Turra, lembrando que o Brasil não exporta aves para o mercado americano, o maior produtor mundial do setor.

As dúvidas sobre o governo Trump não se resumem a empresários brasileiros. Após uma reunião no Palácio do Planalto, o presidente mundial da Shell, Ben van Beurden, disse ter “grande interesse” em acompanhar como o republicano formulará a política energética americana nos próximos meses.

Já a siderúrgica japonesa Nippon Steel se declarou preocupada com a promessa de Trump de renegociar o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta, na sigla em inglês) com Canadá e México. A Nippon tem duas usinas no México.

— Não acreditamos que será fácil acabar com o Nafta, mas, se isso acontecer, o impacto será forte — disse à Reuters o vice-presidente da siderúrgica, Toshiharu Sakae.

oglobo.globo.com | 11-11-2016

Nero pôs fogo em Roma; Hitler, na Europa; e pode ser que Trump venha a incendiar o mundo. Não sou fã de Hillary, mas a considero menos pior. Por conhecer bem os dois candidatos é que quase metade do eleitorado dos EUA se absteve.

Como desmiolado, predador sexual, racista e xenóbofo, tudo se pode esperar de um biliardário, dono de cassinos, que jamais ocupou qualquer função política. Até que não cumpra suas ameaças de campanha, como construir um muro na fronteira de seu país com o México, como se isso fosse evitar a entrada de novos imigrantes.

O fato é que os pobres votaram em Trump. Porque Obama não cumpriu quase nenhuma de suas promessas. E por que imigrantes latinos que vivem nos EUA deram preferência a ele? Porque muitos votam de olho no próprio umbigo. Temem que a chegada de novos estrangeiros venha roubar-lhes os postos de trabalho.

Em 2017, Trump vai dispor de um orçamento de US$ 583 bilhões para despesas militares. O suficiente para erradicar a fome no mundo e resolver o drama dos refugiados que aportam na Europa. Mas com certeza o novo presidente estadunidense não está preocupado com os males que afetam os pobres do mundo. Como declarou ao vencer, quer dobrar o PIB dos EUA. E, na campanha, incluiu entre seus arroubos xenófobos a promessa de que faria as tropas de seu país abandonarem os conflitos externos. Essa seria uma boa medida.

Os EUA possuem uma tropa de 1 milhão e 492 mil homens e mulheres, e mais 1 milhão de reservistas prontos para uma eventual convocação. A soma de seus drones, navios de guerra, porta-aviões, tanques, blindados, canhões e mísseis (sete mil ogivas nucleares) supera o conjunto de arsenais das outras quatro maiores potências militares, China, Reino Unido, França e Rússia.

A esperança dos eleitores de Trump é que ele aplique mais recursos no combate ao desemprego, nos serviços de saúde e reaqueça a economia interna. Pode ser que, num gesto de lucidez, ele reduza o orçamento militar para tentar passar à História como o presidente que tirou os EUA da recessão. Hoje, a classe média estadunidense tem uma renda muito inferior à que tinha na década de 1980.

Felizmente Tio Sam não é dono do mundo. Há um equilíbrio que o obriga a levar em conta a China e a Rússia. E dizem que Trump e Putin se entendem... O fato é que o magnata-presidente já elogiou o controle que Putin tem sobre a Rússia. E deu a entender que os EUA não têm nenhuma obrigação de defender incondicionalmente seus aliados na Otan. O que soa como música aos ouvidos de Putin.

Ainda bem que, em meio a tantos interesses em jogo, há quem ainda raciocina, não por interesses, mas a partir de princípios, como o papa Francisco. Ele é, hoje, o único líder mundial capaz de aglutinar homens e mulheres que buscam a paz como fruto da justiça e um mundo menos desigual e injusto.

A vitória de Trump me faz lembrar que Hitler também não chegou ao poder por golpe de Estado, como Temer, para citar um exemplo recente. Foi democraticamente eleito pelo povo alemão. E deu no que deu...

Enquanto o dinheiro presidir a democracia, esta será, na expressão ianque, apenas um pato manco.

oglobo.globo.com | 10-11-2016

Donald Trump sinalizou que pode adotar um tom diferente no governo do que a demagogia raivosa que o levou à Casa Branca. Mas foi com a pregação do ódio — do nacionalismo, nativismo, xenofobia, racismo, misoginia, do desdém aos direitos civis, às normas democráticas e à verdade — que 59.470.229 americanos viram nele seu líder.

Sua vitória coloca em xeque princípios fundamentais da sociedade americana. Como a mais rica democracia do mundo, berço do liberalismo que defende globalmente, produziu tantos descontentes e raivosos?

Trump tinha o apoio de um eleitorado branco, mais velho e menos educado, de zonas rurais e subúrbios industriais, uma parcela particularmente afetada pela globalização da produção e ressentida por se julgar à margem do “sonho americano” — assim como os ingleses excluídos dos benefícios da União Europeia que votaram pelo Brexit.

Mas ele rompeu as barreiras desse eleitorado, expondo distorções de um sistema que tem sido incapaz de garantir o bem-estar de todos.

Pelo menos 9% de democratas votaram em Trump, que ganhou colégios eleitorais decisivos, como a Flórida, apesar dos imigrantes e negros; e redutos historicamente democratas como Michigan e Pensilvânia.

“Isso é o que acontece quando se tem democracia”, ironizou o Partido Comunista chinês. O descrédito do sistema político, das instituições e da imprensa que a campanha de Trump promoveu é uma vitória para regimes como China e Rússia, e uma derrota moral para os EUA. Mesmo que tenha sido apenas estratégia eleitoral.

Trump prometeu erguer um muro contra mexicanos, jogar duro com chineses, expulsar muçulmanos. Na prática, a China é o principal parceiro comercial dos EUA, fica no México grande parte de seu parque industrial e não só a economia americana, mas o próprio Trump lucra com negócios no Oriente Médio.

É mais incerto como conduzirá assuntos como o acordo nuclear com o Irã e o terrorismo. Entre as promessas, garantiu acabar com a agenda militar intervencionista de disseminar “valores americanos” — até porque ele próprio desdenha de tais valores.

oglobo.globo.com | 10-11-2016
Economia, Saúde e Segurança Social, desigualdade social e tensões raciais, governabilidade, Supremo Tribunal, terrorismo, Rússia, China, Médio Oriente e Europa, eis alguns dos dossiers com os quais o futuro residente na Casa Branca terá de lidar.
www.publico.pt | 09-11-2016

RIO - Durante a campanha presidencial dos EUA, acompanhou-se, além das polêmicas, a série de propostas de Donald Trump em contraponto às dos democratas — e de Hillary Clinton. De economia e política externa a saúde e sociedade, ele acabou marcado por proposições consideradas populistas, e com perspectivas ainda incertas. TRUMP CONTEÚDO

Saúde. O acesso a planos de saúde a preços regulados, promovido pela lei conhecida como Obamacare, chegou a uma marca histórica de 90%. Mas milhões ainda não têm assistência, e os gastos federais e os preços dos seguros de saúde estão subindo, enquanto há reclamações em diferentes áreas sobre a falta de qualidade e de abrangência dos serviços prestados. Dezenas de milhões de americanos que estão envelhecendo e estão inscritos no programa serão os fiéis da balança.

Trump discorda totalmente do plano, chamando-o de desastre, mas pretende manter o programa federal de apoio a idosos e negociações com as empresas farmacêuticas. Não tem qualquer plano concreto na mesma linha, defendendo o fim do programa.

Papel militar dos EUA no mundo. Milhares de soldados morreram nas guerras no Afeganistão e no Iraque. O país ainda vive o desafio de dar fim definitivo à sua participação nos dois conflitos, enquanto vê o Oriente Médio instável, em meio a confrontos internos e a ameaça do terrorismo. Há ainda impasses com Rússia, Irã e Coreia do Norte, além da instabilidade na Líbia. A figura da Otan, responsável pela defesa militar do Ocidente, se desgastou no processo. A cooperação militar sofre ainda com o antagonismo russo e seu poder de veto no Conselho de Segurança da ONU.

Trump defende a política de “os EUA primeiro”, cobrando dos aliados na Europa e na Ásia pagamento completo da contribuição militar do país à defesa deles. Segundo ele, as nações devem ser “menos dependentes do Exército americano”.

Questão racial. O policiamento nos EUA está sob atenção mundial após a série de mortes de homens e jovens negros por guardas flagrados em vídeo. A percepção de impunidade e a suspeita de racismo deu maior voz a reivindicações de grupos civis, como o Black Lives Matter, protestos violentos e até ataques e emboscadas a agentes. A tensão racial fez o presidente Obama entrar na discussão, com medidas para diminuir a desconfiança mútua e aumentar a transparência na atuação dos policiais.

Trump defende a “lei e a ordem”, afirmando que os policiais estão sob condições muito difíceis. É a favor da universalização do controverso método nova-iorquino “stop and frisk”, no qual qualquer potencial suspeito podia ser parado e revistado por agentes.

Estado Islâmico. A ameaça do grupo terrorista, que cresceu com base no vazio de poder deixado pela Guerra no Iraque, tem os EUA como um dos alvos principais. Com o enfraquecimento territorial dos extremistas em Síria, Iraque e agora a Líbia, atentados suicidas e à bomba se tornaram ainda mais visados pelo grupo.

Trump propõe bombardear áreas sob controle do grupo, sem detalhar a logística. Diz ter um plano secreto. Seu diferencial é defender técnicas pesadas de interrogatório, muitas das quais consideradas torturas.

Controle de armas. O direito a portar armas é parte fundamental da cultura americana, previsto na Segunda Emenda da Constituição. Mas o número cada vez maior de massacres e incidentes com pistolas, rifles e fuzis fizeram o governo Obama aumentar a pressão para instituir limitações específicas ao acesso a armas. O tema divide radicalmente os candidatos e os eleitores.

Trump rejeita veementemente as zonas livres de armamento e propõe que os estados permitam o uso de armas escondidas por civis. Não prevê qualquer limitação ao acesso a armas, considerando-as importantes para evitar ataques a tiros em locais públicos.

Comércio e China. A gestão atual do comércio exterior tem sido bastante criticado pelos eleitores. Com a China assumindo um papel cada vez maior na economia global (também subsidiando exportações e manipulando a própria moeda), os EUA têm perdido espaço também nos mercados e na empregabilidade pela burocracia e os custos. E pactos de livre comércio como o Acordo Transpacífico (TPP) podem levar a perdas nos empregos dentro do país, advertem analistas.

Trump opõe-se ao Acordo Transpacífico (TPP) e ao Acordo de Livre Comércio Norte-Americano (Nafta), considerando que o país foi derrotado por negociadores estrangeiros. Propõe aumentar significativamente tarifas à importação de produtos chineses.

Empregos. O desemprego formal vive nível baixo, de apenas 4,9%. No entanto, as ofertas de emprego qualificado em setores-chave na economia têm sido escassas desde a recessão que teve seu auge em 2008. Com índices pouco favoráveis à nova geração de jovens entrando no mercado de trabalho, cresce o número de pessoas que deixam de procurar vagas no setor formal ou que requerem benefícios por invalidez. Os candidatos montaram planos elaborados sobre o tema.

Trump propõe reduzir regulações e impostos para encorajar os negócios a aumentarem de tamanho e, consequentemente, contratarem mais. Propõe abolir acordos de livre comércio e endurecer o comércio com a China para retomar empregos na indústria de manufatura.

Salário mínimo. Greves de funcionários de setores com salários baixos, crescimento de renda escasso e o aumento de empregos pouco remunerados colocaram o salário mínimo como tema crucial. Atualmente a US$ 7,25 a hora, o aumento dos soldos a pelo menos US$ 12 ajudaria ao menos 35 milhões de pessoas (25% da força laboral), mas acarretaria custos maiores a empregadores e poderia desacelerar contratações, advertem economistas. Ambos os candidatos querem avançar na discussão.

Trump defende o aumento para US$ 10, advertindo para o peso que um aumento significativo teria sobre os empregadores. Propõe que os estados decidam.

Acordo nuclear com o Irã. Um dos temas de política externa mais controversos dos últimos anos, o acordo que reduziu a capacidade do programa nuclear iraniano causa divergências. A maior parte dos democratas acredita que o pacto foi benéfico por limitar o acesso a componentes atômicos, em troca da liberação de fundos congelados por sanções. Os republicanos afirmam, por sua vez, que o acordo não dá garantias concretas de que o Irã cesse hostilidades contra vizinhos e que o país ainda recupera fundos para ameaçar a existência de Israel, maior aliado local dos EUA.

Trump critica duramente o acordo, que chama de “estúpido”. Ao contrário de outros republicanos, no entanto, quer renegociá-lo para dificultar as condições para Teerã e não abrir mão de sanções econômicas antes impostas.

Relação com a Rússia. Principal antagonista dos EUA, o país vive um clima de nova Guerra Fria inédito desde o fim da União Soviética. O país tem intensificado sua presença militar no Mar Báltico, na Ucrânia e na Síria, desafiando abertamente o Ocidente, e tem um arsenal de armas nucleares. Até mesmo ataques hacker têm sido atribuídos ao Kremlin. O problema que os EUA vivem, além da ameaça velada do governo de Vladimir Putin, é a necessidade de cooperação com Moscou em temas globais como a guerra síria.

Trump vai na contramão da política atual, defendendo a reaproximação com a Rússia. Elogia Putin, considerando-o um líder firme, “ao contrário de Obama”. Não apresentou um plano diplomático.

Mudanças climáticas. O aquecimento global é uma realidade em curso e criada pelo homem, garantem cientistas. Nos últimos dois anos, as temperaturas globais bateram recordes, e hoje estão 2 graus acima de um século atrás. As graves implicações ecológicas, ambientais e econômicas preocupam autoridades mundiais, assim como dos EUA — maior poluidor mundial, junto à China.

Trump discorda fundamentalmente do conceito de aquecimento global, que chama de “falácia”. Defende a expansão da indústria do carvão, combalida com o atual aumento da indústria de energia solar.

Aborto. Tema polêmico, o aborto divide radicalmente conservadores e progressistas. Enquanto os democratas são a favor da manutenção de programas que permitam a interrupção da gravidez em casos específicos, os republicanos defendem a derrubada judicial desta possibilidade, além de limitar o acesso a clínicas especializadas em reprodução. A vitória de cada um impactaria na escolha de um novo juiz para a Suprema Corte, que muito provavelmente reforçaria a posição política do(a) presidente.

Trump, apesar de ter sido a favor do aborto, anos atrás, diz que é contra. Reforçou a posição com a escolha de seu vice, Mike Pence. Se eleito, escolheria um juiz conservador para a Suprema Corte para tentar reverter decisões e reforçar proibições estaduais.

Imigração e refugiados. Tema de grande impacto na campanha presidencial. Hoje, após bilhões de dólares gastos com barreiras na fronteira, há mais mexicanos deixando os EUA do que entrando. Apesar de a discussão no Congresso se restringir principalmente a se deveria haver anistia aos imigrantes sem documentos, a campanha eleitoral foi mais agressiva sobre o tema, que ganhou ainda um novo fator: a chegada de refugiados sírios.

Trump acusa os imigrantes ilegais mexicanos de trazerem doenças e cometerem crimes. Propõe um muro na fronteira, pago pelo México. Defendeu deportar todos os ilegais, mas hoje afirma que expulsaria apenas aqueles com histórico criminal. Já propôs banir a entrada de muçulmanos, mas passou a defender uma verificação completa de antecedentes e até um teste ideológico e religioso a quem vem de países afetados pelo terrorismo fundamentalista.

Mulheres no mercado de trabalho. Uma das questões mais criticadas por muitos cidadãos americanos é como as mulheres ganham menos do que os homens: pesquisas independentes estimam que elas ganhem até 88% do que eles recebem. Apesar de ilegal, a prática existe, mesmo tendo diminuído. Atualmente, os custos com creche e tratamento infantil crescem drasticamente, com estatísticas mostrando que as mães (grande parte no mercado de trabalho) têm que arcar com a situação e sem ter direito a licença-maternidade paga.

Trump não vê disparidade no pagamento às mulheres. Defende que pais e mães possam deduzir os gastos com creche e tratamento de saúde para seus filhos.

Regulação de Wall Street. Considerado um dos maiores culpados pela crise de 2008, o sistema financeiro é apontado como o principal responsável por ditar os rumos da economia americana. Sob discretas regulações, os bancos e empresas investidoras de Wall Street movimentam trilhões e se envolvem nos mercados de hipotecas, fator que expulsou 5 milhões de famílias de casa durante a recessão. Na mesma crise, quando muitos bancos ficaram à beira da implosão, um pacote econômico multibilionário reergueu o sistema. Isto exacerbou frustrações populares com o poder dos financistas.

Trump propõe que as regulações sejam diminuídas, porque aumentam custos e diminuem o crescimento. Para ele, o Federal Reserve (Banco Central do país) deve ter menos poder, com o Congresso sendo mais ativo na fiscalização das políticas dos bancos.

oglobo.globo.com | 09-11-2016

O Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês) anunciou há pouco que a diretora-gerente da Autoridade Monetária de Cingapura (MAS, na sigla em inglês), Jacqueline Loh, foi nomeada presidente da Comissão de Mercados da instituição. A decisão foi tomada ontem durante reunião bimestral, em Basileia, dos presidentes de bancos centrais de 30 economias avançadas e emergentes do mundo, incluindo o Brasil.

O Comitê de Mercados é um fórum no qual os primeiros escalões de bancos centrais acompanham conjuntamente a evolução dos mercados financeiros e avaliam suas implicações para o funcionamento e as operações dos órgãos reguladores e fiscalizadores. Jacqueline assumirá o cargo por três anos, a partir de janeiro, sucedendo Guy Debelle, vice-presidente do Banco Central da Austrália (RBA, na sigla em inglês), à frente do comitê desde junho de 2013.

Em Cingapura, a nova nomeada supervisiona as funções de política monetária e dos mercados e investimentos do banco central, e também é responsável pela área de desenvolvimento e internacional, bem como dos grupos de fintech (tecnologias financeiras) e inovação. Além do Brasil, compõem o grupo os bancos centrais da Argentina, Austrália, Bélgica, Canadá, China, França, Alemanha, Hong Kong, Índia, Indonésia, Itália, Japão, Coreia do Sul, Malásia, México, Holanda, Polônia, Rússia, Arábia Saudita, Cingapura, África do Sul, Espanha, Suécia, Suíça, Tailândia, Turquia, Reino Unido e Estados Unidos e também o Banco Central Europeu (BCE).

PARIS - O filósofo francês Luc Ferry, que já morou e lecionou nos Estados Unidos, não economiza adjetivos depreciativos ao abordar as eleições presidenciais no país. Embora defina Hillary Clinton como integrante de uma “dinastia elitista e rica”, incapaz de provocar entusiasmo, acredita que uma ida de Donald Trump à Casa Branca ridicularizaria os EUA no mundo. Em caso contrário, adverte: mesmo derrotado, Trump deixará marcas com a popularidade alcançada na campanha presidencial.

Qual o significado político deste pleito?

A mediocridade dos dois candidatos significa algo muito preocupante que ameaça ocorrer em todo o país: a política não é mais atraente para os jovens talentos, que evitam cada vez mais as carreiras intelectuais e políticas e vão para o mundo dos negócios. Na minha juventude, havia ainda nos EUA, como na Europa, primeiros-ministros e presidentes muito jovens. Com exceção da Itália e do Canadá, a maioria dos homens e mulheres na política, hoje, não é muito jovem, e a renovação não se faz presente. A vontade de se ter uma vida bem-sucedida desertou amplamente da política na direção do mundo dos negócios, para as startups e as novas tecnologias.

Qual o impacto e as transformações nos EUA?

Trump é assustador na brutalidade, vulgaridade. E Hillary pertence a uma dinastia elitista e rica que não pode suscitar entusiasmo

Os dois candidatos têm chances de vencer. Os incríveis erros de Hillary, no caso dos e-mails, colocaram Trump de novo na corrida. Se ele ganhar, os EUA serão ridicularizados no mundo, o que não seria bom para ninguém. A única esperança seria que, uma vez no poder, ele se acalmasse, cessasse as agressões verbais contra mulheres, minorias. A popularidade de Trump vem de longe e, mesmo se for vencido, deixará marcas.

Por que o desencanto com a política nos EUA?

O debate americano é tragicamente desastroso. As personalidades dos dois candidatos são extraordinariamente fracas, repulsivas. Trump é assustador na brutalidade, vulgaridade. E Hillary pertence a uma dinastia elitista e rica que não pode suscitar entusiasmo.

Como vê os EUA após os mandatos de Obama?

Obama, simpático e cordial, terá sido um presidente medíocre. Em todos os temas essenciais, de Guantánamo ao Oriente Médio, passando por Síria e Ucrânia, foi calamitoso. O pior, na minha opinião, é o retorno da Guerra Fria com uma Rússia que Obama e seus aliados europeus empurraram na direção da China, o que será catastrófico para o mundo inteiro. Esperava-se muito dele após o aterrador período George W. Bush, e nos decepcionamos terrivelmente.

O senhor partilha da teoria do “fim do sonho americano”?

Não. Independentemente da vida política, a sociedade civil americana permanece fascinante. Toda inovação mundial vem de Silicon Valley e do Gafa (acrônimo para as iniciais de Google, Apple, Facebook, Amazon), ao qual poderíamos ainda acrescentar Microsoft, Tesla, Space X e tantos outros. São essas empresas que, hoje, mudam o mundo. São mais poderosas que a maioria dos Estados, que são incapazes de regulá-las, o que constitui um dos problemas políticos mais importantes no mundo. O mercado se tornou mundial, mas as políticas dos Estados democráticos permaneceram locais, nacionais.

O senhor disse que aprecia os EUA, onde viveu e lecionou, mas que seria o último país a poder dar lição sobre antirracismo e laicidade. Por quê?

Simplesmente porque, até recentemente, os EUA eram um dos países mais racistas do mundo! No final dos anos 1960, os primeiros jovens negros entraram na universidade, que lhes fora até então proibida. Eu me lembro bem que os jovens brancos imitavam macacos para zombar deles. Sobre a laicidade, os americanos ignoram praticamente tudo. Declara-se devoção a Deus a cada manhã nas escolas, e nas cédulas de dinheiro figura “In God we trust” (“Em Deus confiamos”). Pior ainda: poderosos lobbies criacionistas proíbem o ensino das teorias evolucionistas, que até a Igreja Católica finalmente reconheceu. Os EUA são um país de inovação formidável, mas, francamente, sobre questões de racismo e laicidade, o Velho Continente não tem lições a receber dos americanos.

Em seu ensaio “A revolução trans-humanista”, o senhor analisa as estreitas relações entre as revoluções genética e econômica, as duas ligadas ao controle do destino pelo indivíduo. O “trans-humanismo”, a economia colaborativa, a “uberização” se desenvolvem rapidamente nos EUA, onde emergiram. Como agem estes fenômenos em meio às questões políticas nos EUA?

É sobretudo o movimento trans-humanista que se coloca como um problema. É uma corrente de pensamento ao mesmo tempo filosófica e científica que vem dos EUA. Financiada pelo Google, por bilhões de dólares, alcançou uma importância considerável do outro lado do Atlântico, suscitada por milhares de publicações e seminários. E gerou intensos debates entre pensadores como Francis Fukuyama, Michael Sandel ou Jürgen Habermas. O trans-humanismo visa, antes de tudo, passar de uma medicina terapêutica clássica — cuja finalidade há milênios era de curar, “reparar” os corpos acidentados ou doentes — ao modelo de “aumento” ou melhoramento do potencial genético da espécie humana. Daí a ambição de combater o envelhecimento e prolongar a longevidade humana, não apenas erradicando as mortes precoces, como se fez desde o século XVIII, mas recorrendo à “tecnomedicina”, à engenharia genética e à hibridação homem-máquina, para fazer os humanos viverem realmente mais tempo. Admitindo que pudéssemos, um dia, viver mais tempo, veríamos nascer uma Humanidade que seria ao mesmo tempo jovem e velha, rica de experiências pela idade e fisicamente e intelectualmente eficiente. No momento, nada prova que isso é possível para o homem, mesmo que se tenha conseguido, na Universidade de Rochester, aumentar em 30% a vida de ratos transgênicos. Contudo, quem poderá dizer como serão a “tecnomedicina”, as nanotecnologias, a inteligência artificial e a “biocirurgia” no próximo século? É preciso antecipar, desde já, os problemas éticos, políticos e metafísicos que esta nova abordagem da medicina vai trazer. E acrescento um segundo aspecto do projeto trans-humanista: após as lutas contra as desigualdades sociais ligadas à instauração do Estado de bem-estar social, os trans-humanistas visam lutar contra as desigualdades naturais. A loteria genética é cega, insensível, amoral e injusta, e se a livre vontade dos homens puder corrigi-la, seria benéfico. Mas, na minha opinião, o perigo está na competição entre as nações, os exércitos, as famílias, no risco de uma modificação da espécie humana.

oglobo.globo.com | 07-11-2016

BRASÍLIA - Atual presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior, Rubens Barbosa afirma que, sob governos petistas, o Brasil perdeu “oportunidades de avançar no comércio exterior, aumentar as exportações para os EUA, captar investimentos, tecnologia”. EUA Brasil

Qual o impacto da eleição americana sobre o Brasil?

Pouco. A América Latina, em geral, e a América do Sul, em especial, não estão nas prioridades da política externa americana. Ganhe um ou outro, isso não vai mudar. As prioridades estão em Oriente Médio, Ásia, Rússia e Europa.

Uma vitória de Donald Trump seria uma preocupação?

Se Hillary Clinton ganhar, ela conhece o Brasil, é diferente. Trump não conhece nada. A vitória dele seria uma preocupação para o mundo: ninguém sabe o que faria. Mas teria pouquíssimo impacto sobre o Brasil, porque a América Latina não é do interesse deles, principalmente para Trump. Ele não tem política de aproximação.

A que se deve essa pouca aproximação dos EUA com o Brasil?

É resultado dos últimos 13 anos. Por questão partidária, os países desenvolvidos passaram para o segundo plano. Essa política Sul-Sul, que não é nova, transformou-se num instrumento ideológico de afastamento da relação com os países desenvolvidos — das relações institucionais, dos grupos de trabalho, dos contatos entre Brasil e EUA. No geral, se manteve uma relação morna e normal, sem avanço ou retrocesso.

Como ampliar a relação?

Perdemos oportunidades de avançar no comércio exterior, aumentar as exportações para os EUA, captar investimentos, tecnologia. Agora, temos que melhorar o ambiente interno no Brasil para voltar a atrair o interesse das empresas americanas. Para isso, precisa ter estabilidade econômica, segurança jurídica, visão de médio e longo prazo.

Já há mudança na política externa brasileira com Temer?

Ocorre agora mais uma mudança de ênfase, não uma grande guinada. Mudou com relação à Europa, aos Brics, à América do Sul, ao Mercosul. O PT teve novas ênfases, dando destaque aos países em desenvolvimento.

Há espaços para acordos?

O mundo mudou, e o Brasil foi apanhado no contrapé. Enquanto o mundo se abria e fez muitos acordos, o Brasil se fechou, e o Mercosul fez apenas três, inexpressivos comercialmente. Agora que o Brasil quer abrir, o mundo está fechando. Há uma eleição americana contra um acordo com a Ásia. O Brasil agora tem que insistir nas negociações do acordo com a Europa.

oglobo.globo.com | 05-11-2016

BERLIM - Nunca uma eleição fora do continente moveu tanto os europeus quanto o pleito americano, no próximo dia 8. Abandonando a tradicional diplomacia no que se refere a candidatos estrangeiros, os europeus não poupam críticas (ou elogios) ao republicano Donald Trump. Como na sua pátria, também na Europa o magnata imobiliário não deixa ninguém indiferente. Na Itália ele é o “Berlusconi americano”. Na Alemanha, o candidato foi chamado pelo ministro das Relações Exteriores, Frank Walter Steinmeier, de “pregador do ódio”. Mas na Hungria ele só recebe elogios do primeiro-ministro Viktor Orbán.

— Trump ultrapassou todas as fronteiras, e por isso é acompanhado por uma mistura de ódio e amor no mundo inteiro — diz Sabine Hermeling, especialista em relações transatlânticas da Fundação Heinrich Böll.

Não só pelas críticas que fez à política de refugiados da chanceler federal Angela Merkel ou por suas previsões de fim da União Europeia (UE), a perspectiva de um presidente Trump, descendente de alemães, é vista como catastrófica.

Os políticos europeus não procuram nem disfarçar a aversão que sentem pelo candidato republicano, que é criticado pelo presidente francês François Hollande pelos seus excessos e chamado por Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu, como um “perigo para o mundo inteiro”. Info - Europa

Rejeitado por 60% dos alemães

“Trump personifica os preconceitos existentes na Europa sobre os Estados Unidos, e a sua eleição marcaria uma nova fase de forte antiamericanismo no continente”, escreveu o jornal berlinense “Der Tagesspiegel”, expressando a opinião de mais de 60% dos alemães, segundo um estudo recente. “O futuro deve tratar de educação, e não de intolerância; de confiança, e não de ódio; de construir pontes, e não muros”.

Para o cientista político Crister Garrett, da Universidade de Leipzig, o “fenômeno Trump”, do populismo acompanhado de xenofobia, existe também na Europa, onde é expressado por políticos como Orbán, a francesa Marine Le Pen ou o polonês Jaroslaw Kaczynski, do Partido Lei e Justiça, hoje chefe do governo.

Kaczynski e Orban recusam, como Trump, os muçulmanos.

— O que é bom para a Europa não poderia ser formulado de maneira melhor — disse Orbán, recentemente, ao falar para a minoria húngara na Romênia, alegando que um político como Trump seria o melhor para o continente.

Já o cientista político italiano Enrico Rusconi, da Universidade de Turim, lembra que o fenômeno Trump pode acontecer também na Europa Ocidental. Trata-se do que ele chama “estilo Berlusconi”, que se tornou possível através de uma “mutação” na sociedade.

— Trata-se da democracia do espectador. Vence o político que consegue se vender melhor na mídia, mesmo que tenha uma forma vulgar de expressão — lembra ele.

Sabine Hermeling também observa que os adeptos de Trump são parecidos com os franceses que apoiam Le Pen, os austríacos partidários de Heinz-Christian Strache, do Partido Democrata Liberal (FPÖ) e os poloneses que apoiam Kaczynski. “Não estou tendo pesadelos com a possibilidade de Trump ser o próximo presidente americano. Não vejo necessidade de responder suas críticas.”

Mesmo políticos moderados, como o ministro das Relações Exteriores da Áustria, Sebastian Kurz, observam Trump com interesse. Kurz chegou a apontar a ideia do magnata de construir um muro na fronteira com o México como interessante, pelo menos do ponto de vista de evitar imigrantes. A Áustria também constrói muros e cercas para evitar o êxodo de refugiados e imigrantes do Sul da Europa.

Mas, na sua maioria, os governos da Europa Ocidental preferem na Presidência dos EUA a democrata Hillary Clinton, de quem esperam mais confiabilidade. Segundo um estudo do “Deutsche Bank Research”, o instituto de pesquisa do Deutsche Bank, a economia europeia conta com uma vitória de Hillary porque enxerga que a cooperação econômica com a ex-secretária de Estado será mais intensa.

“Trump, ao contrário do que se espera de Hillary, quer cortar os laços econômicos com os países estrangeiro e concentrar o seu programa no mercado interno”, diz o estudo.

Medo de interferência

Thomas Jäger, do Instituto de Ciências Políticas da Universidade de Colônia, lembra que qualquer que seja o vitorioso haverá mudanças para pior nas relações com a Europa e com a Rússia.

— Trump não vai se intrometer nas questões europeias, mas também não terá uma influência positiva — considera o analista.

A Europa também espera de uma presidente Hillary mudanças para pior, como a de uma nova política de confrontação com a Rússia.

O jornalista alemão Jakob Augstein, coproprietário da revista “Der Spiegel”, afirmou que o papel que Hillary pode assumir na guerra da Síria, “o conflito mais perigoso do mundo”, terá o efeito de desencadear uma nova Guerra Fria. “Os excessos de Trump dão vontade de vomitar. A democracia está em risco, porque há cada vez mais políticos tentados pelo autoritarismo. Se os americanos escolherem Trump, haverá consequências, porque uma eleição nos EUA é uma eleição global”.

— Os riscos de um novo confronto com a Rússia se Hillary adotar as medidas que anunciou na campanha, como a criação de uma zona de proibição de voo, serão incalculáveis — disse Augstein.

O barril de pólvora da Síria, onde lutam lado a lado Rússia, Irã, Turquia, Israel e Arábia Saudita, mas cada um defendendo os próprios interesses, pode ser transformar em um explosivo para o mundo.

Ordem mundial multipolar

A Europa vê Trump como uma farsa, lembra Augstein, que é de esquerda. Mas mais do que essa farsa, ele receia a volta de uma política intervencionista, que seria possível com Hillary.

O cientista político austríaco Stefan Haderer diz que se Trump ganhar, os europeus vão observar com aversão como um presidente americano, da única superpotência do mundo, “usa uma terminologia que não é digna do seu posto". Mas com uma presidente Hillary Clinton vão sofrer se o novo governo americano se colocar contra uma ordem mundial multipolar. Segundo ele, com Hillary os Estados Unidos “podem retomar o papel de policiais do mundo”.

oglobo.globo.com | 02-11-2016

RIO - As acusações de interferência da Rússia na eleição dos EUA, especialmente da parte democrata, crescem à medida que a campanha chega ao fim. Para Philip Seib, professor de Jornalismo e Diplomacia da Universidade do Sul da Califórnia (USC) especializado na capacidade de atuação russa no campo da informação, os percebidos esforços do presidente Vladimir Putin por influência no pleito visam a desestabilizar o país, desviar o foco de problemas internos cada vez maiores e a maior influência caso Donald Trump seja eleito.

É possível dizer que a Rússia faz uma guerra cibernética com vazamentos, ou isso seria uma provocação?

RússiaEUA

Eu chamaria isso de ciberintromissão. Supondo que os russos estejam por trás, provavelmente estão tentando em primeiro lugar causar uma ruptura geral na política americana e, depois, ajudar Trump, com quem eles presumivelmente consideram mais fácil de lidar.

Que outras armas o país usa?

A Rússia faz uma abrangente campanha de desinformação midiática para distorcer as situações na Ucrânia, na Síria, nos Estados bálticos (Lituânia, Letônia e Estônia), e em outros lugares aonde seu aventureirismo a leva. Eles são pioneiros em achar maneiras de combinar militarismo convencional com esforços cibernéticos.

A Rússia se impõe fora de casa em conflitos, enquanto encara seus próprios problemas econômicos. A cobertura da imprensa pró-Putin, como as agências RT e Sputnik, é muito dura diante dos democratas. O que está em jogo para ele?

Primeiramente, Putin está tentando distrair os russos do estado enfraquecido de sua economia e da elevada corrupção entre o governo e o setor empresarial. Segundo: ele provavelmente sabe que Hillary Clinton seria mais difícil de lidar do que Trump. Assim, mira os ataques nos democratas.

Existe a possibilidade de a Rússia se tornar mais influente se Trump vencer? Como ficariam as situações na Ucrânia e na Síria?

Se Trump vencer, o que parece altamente improvável, as relações exteriores com a Rússia e todo mundo seriam uma desordem imprevisível.

Hillary é ainda mais incisiva contra Moscou do que Barack Obama. Chama Putin de ditador e insinuou que Trump é “sua marionete”. Este duelo pode crescer com ela como presidente?

As relações entre EUA e Rússia estão especialmente muito tensas. Se eleita presidente, Hillary precisaria chegar a algum tipo de acordo junto a Putin para reduzir as tensões. Acho que ela estaria aberta a isso. Putin também. Ele é asqueroso, mas não é maluco.

E como fica o WikiLeaks, outrora elogiado pela imprensa americana, mas hoje associado à Rússia?

O WikiLeaks é o tipo de transparência com a qual o governo e outros agentes terão de se acostumar. Julian Assange (seu fundador) é intrometido, e suas motivações são ainda incertas.

A imensa maioria dos veículos de imprensa deu apoio a Hillary contra Trump. Até jornais conservadores e tradicionalmente republicanos se afastaram dele. É um sinal de medo?

Até mesmo a maior parte das organizações de mídia conservadoras consideram Trump alguém desqualificado e sem princípios. Temem o dano que ele pode provocar como presidente.

O esforço de atacar escândalos de seu passado tem tido efeito sobre o eleitorado republicano?

Sim. Trump tem uma base devota de apoiadores, mas aparentemente não conseguiu expandi-la. Hillary enfatiza seus aspectos negativos para motivar o eleitorado a votar nela, até mesmo os que não têm qualquer entusiasmo em relação a ela.

Que tipo de cobertura da imprensa é possível esperar em caso de vitória de cada um dos candidatos?

Se Trump vencer, o que volto a dizer que é altamente improvável, enfrentará uma cobertura midiática crítica em relação a qualquer coisa que faça. Hillary também enfrentará um rigoroso escrutínio. Muitos na imprensa não gostam particularmente de sua figura, mas desgostam ainda mais da de Trump.

oglobo.globo.com | 01-11-2016

RIO - A criação de um certificado internacional de segurança para a indústria hoteleira é uma das medidas em estudo pelo setor, como reação aos ataques terroristas registrados no Velho Mundo, que vêm afetando o mercado de turismo de diferentes países da região. Para reforçar sua atratividade, os hotéis se submeteriam à certificação, nos mesmos padrões do selo de sustentabilidade.

Para a École Hôtelière de Lausanne (EHL), uma das principais escolas de hotelaria do mundo, não está claro se os efeitos dos atentados e de outras mudanças a nível global vão se cristalizar sobre o setor do turismo ou apenas exigirão que ela se adapte. De qualquer forma, é preciso mudar.

BV Terrorismo

A entidade está para publicar seu “Relatório de Lausanne”, em que traça cenários para o futuro do setor. O trabalho considera não somente as consequências dos ataques terroristas, como também das mudanças climáticas e dos fluxos de migração que, ressalta a EHL em nota enviada ao Boa Viagem, não têm precedentes:

“Nos vários cenários traçados pelo relatório, há os que dizem que a indústria se tornará cada vez mais frágil, e há os que apontam para maior flexibilidade e capacidade de adaptação. Só o tempo dirá. Precisamos é capacitar futuros líderes para enfrentar esses novos desafios”.

O turismo na França é um dos que mais vêm sentindo os efeitos do clima de insegurança. Haja vista o Louvre, que estima que perderá até dois milhões de visitantes este ano. Tudo se intensificou a partir de janeiro de 2015, quando, em ataque ao semanário francês “Charlie Hebdo”, 12 pessoas foram mortas em Paris.

Só a França teve, depois, duas tragédias de grandes proporções: o massacre simultâneo no Bataclan e outras duas áreas da Grande Paris (há um ano) e em Nice (julho último). A partir dali, a queda de pernoites no país chegou a 10%, com redução de 20% na Riviera Francesa, no pós Nice.

Turquia e Bélgica também sofreram sérios ataques entre janeiro e março deste ano. Resultado: o turismo da região se vê diante de atentados relativamente próximos, que dificultam sua recuperação. Pesquisa da ForwardKeys, empresa especializada na análise de Big Data para o setor de viagens, mostra que caíram em média 7,7% as reservas feitas por chineses para a Europa, de meados de novembro de 2015 até meados deste mês. Para Paris, perda de 23,4%.

Enquanto isso, países percebidos como mais seguros, como Portugal, Espanha e Dinamarca, ganham destaque — tanto entre turistas das Américas, quanto asiáticos. Portugal chama atenção. Em cinco anos, a percepção de segurança do país deu um pulo: no Índice Global da Paz (Global Peace Index), calculado pelo Instituto para Economia e Paz, nossos patrícios subiram do 16º lugar de 2012, para a 5ª colocação este ano.

A República Tcheca, agora em sexto no ranking, também teria se beneficiado desse desvio de rotas, acredita Luiz Fernando Destro, diretor do escritório de turismo tcheco no Brasil: o país tem tido expansão anual de 3% a 5%. A Rússia é outra que identifica ganhos: Segundo a pesquisa da Forwardkeys, as reservas feitas por asiáticos para Moscou cresceram 23%.

RESORTS E CRUZEIROS, OPÇÕES QUE SE DESTACAM

Quanto vai custar a criação de um certificado internacional é uma das questões em debate entre os especialistas. E até que ponto os turistas estariam dispostos a pagar por maior segurança, também. Diante do novo cenário mundial, a indústria hoteleira passou a se debruçar sobre estudos para desenvolver planos de segurança e melhorar infraestrutura e logística próprias.

Investir em resorts e cruzeiros — ou em outros tipos de hospedagens menos expostos ao perigo — é uma tendência. Até porque os riscos se diferenciam entre os estabelecimentos. Hotéis próximos a locais públicos, que podem ser alvo de terrorismo, como aeroportos, são considerados mais vulneráveis. Na outra ponta, cresceu a procura por regiões de praia e sol, informa o Turismo da Suíça.

Aliás, a Suíça é outro país que subiu no ranking do Índice Global da Paz, passando do 10º lugar, em 2002, para a 7ª posição em 2016. O indicador, que inclui 163 nações este ano, considera o nível de paz de cada país, segundo os graus de segurança, interna e externa, e militarização.

Entre os países que tiveram piora de desempenho nos últimos cinco anos — além da França, que foi do 40º lugar para o 46º — estão a Bélgica (de 11º a 18º) e a Turquia, que já tinha sérios problemas de segurança e deixou a 130ª colocação para passar a 145ª. No caso do Egito, a perda de posições foi maior, de 111º para 142º.

Para a Ásia, via Dubai

— O que está acontecendo é triste e injusto para com os destinos do norte da África, que dependem do turismo e estão sofrendo muito — lamenta Filipe Silva, conselheiro do Turismo de Portugal, ao analisar o cenário atual principalmente no Egito, acrescentando que as pessoas, num primeiro momento, evitaram pegar avião. — Deram preferência a ficar perto de casa ou pela vizinhança. E, assim, observamos um acréscimo no fluxo de turistas para Portugal.

Silva diz ainda que as companhias aéreas sentiram uma forte retração no início do ano e agora estão se recompondo. Só que parcialmente:

— Se formos comparar com 2015, ainda há déficit.

No caso de nós brasileiros — que sentimos a tensão, mas de longe — a crise econômica foi o principal fator de desaceleração do mercado este ano. Considerando especificamente os atentados, diz Marco Lourenço, diretor da operadora de viagens Queensberry, registrou-se uma pequena estremecida em relação a viagens para a Europa e quem perdeu mesmo foi a Turquia:

— A Turquia zerou!

Um roteiro que vem crescendo na operadora é o direcionado ao Sudeste asiático. Via Dubai. Ou seja, nada de Paris, Londres ou Frankfurt.

ENTREVISTA

Urs Eberhard: ‘A Europa, em geral, não se recuperou’

O turismo na Suíça está sofrendo os efeitos dos ataques terroristas à vizinhança. Afinal, muita gente costuma viajar ao país, combinando roteiros que incluem a França. O vice-presidente de Marketing do Turismo da Suíça, Urs Eberhard, ressalta ainda que, desta vez, ao contrário do usual, os turistas tendem a não esquecer dos acontecimentos com facilidade.

Segundo a OMT, o turismo na Europa cresceu 4% no primeiro trimestre do ano, mas com clara retração no caso dos países afetados pelo terrorismo. A Suíça não é um deles. Há efeitos sobre o país?

Sim, a Suíça está sendo afetada. Muitos turistas estrangeiros costumam combinar roteiros que incluem a Suíça e a França, principalmente Paris; muitos vão de Roma a Paris, via Suíça. Um grande número de visitantes asiáticos (de Japão e China) cancelou sua ida a Paris e, assim, também à Suíça. Mas a Suíça ainda é percebida como um lugar seguro, e as viagens domésticas e de países vizinhos registraram alta no verão. Além disso, tivemos crescimento de turistas americanos.

Os turistas estão realmente assustados? A vida parece voltar rapidamente ao normal em lugares que recebem ataques terroristas, como ocorreu na Londres de 2015.

As pessoas costumam esquecer rapidamente, sim, e os lugares afetados normalmente respondem com ações de marketing e promoções, que logo equilibram o mercado. No entanto, se estamos diante de vários ataques num curto período de tempo e existe uma ameaça de ataques permanentemente, as pessoas tendem a adiar viagens ou a optar por destinos tidos como seguros. A série de incidentes em meses próximos na França, Bélgica, Alemanha e Turquia fez com que esses países, assim como a Europa em geral, ainda não tenham se recuperado.

Há destinos “se beneficiando” dessa situação? Quais?

Espanha, Ilhas Baleares, Itália e Grécia são os ganhadores. Os viajantes estão evitando o sul da França, a Turquia, o norte da África e têm procurado opções de sol e praia.

oglobo.globo.com | 27-10-2016

O presidente Michel Temer disse, por meio de seu porta-voz, que não deu a entender que teve um encontro bilateral com o presidente da Rússia, Vladimir Putin, durante a cúpula dos Brics, realizada no fim de semana em Goa, na Índia.

"Houve apenas uma pergunta que lhe foi dirigida e a qual o presidente respondeu que informalmente pôde conversar por cerca de uma hora e meia com o presidente Vladimir Putin. Esta conversa abrangeu temas como a PEC do Teto, pela qual se interessou o presidente russo, bem como a Reforma da Previdência e a economia brasileira em geral", afirmou.

Segundo o porta-voz Alexandre Parola, "no contexto desta troca de ideias" Temer pediu ao presidente russo a libertação professor Eduardo Rocha, detido na Rússia, no fim de agosto, por trazer em sua bagagem substância ayahuasca. De acordo com Parola, neste momento da conversa, Temer chamou o ministro das Relações Exteriores, José Serra, para informar que havia mencionado o tema. "O presidente Putin reagiu declarando que pedia ao seu ministro de relações exteriores para tratar do assunto", afirmou.

A mensagem oficial reforçou ainda que os dois líderes "tiveram ocasião, portanto, para discutir temas de relevo para a relação bilateral, bem como de trocarem impressões sobre tema da agenda global".

Temer foi o único chefe de Estado e de governo a não ser recebido em encontro bilateral pelo presidente da Rússia durante a cúpula dos Brics. Em diplomacia, a reunião bilateral é uma deferência política ou um gesto de proximidade e, não raro, de simpatia entre dois dirigentes políticos. O russo se reuniu em Goa com o presidente da China, Xi Jinping, com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, e com Jacob Zuma, da África do Sul, mas não teve encontro bilateral com Temer durante os dois dias em que estiveram na Índia para a cúpula.

Segundo o canal de informação Russia Today, a escolha de não se aproximar de Temer se deu em virtude da "mudança brusca", como se referem ao impeachment da presidente cassada Dilma Rousseff. Em Tóquio, ao chegar da Índia, o presidente brasileiro não se referiu à falta de encontro com Putin, mas insinuou, ao contrário, uma certa aproximação com o líder russo.

BRASÍLIA, SÃO PAULO E RIO - O Banco Central (BC) cortou ontem a taxa de juros básica da economia (Selic) em 0,25 ponto percentual, para 14% ao ano, conforme expectativa da maioria dos analistas do mercado financeiro. Foi a primeira redução desde agosto de 2012, quando a Selic recuou de 7,5% para 7,25%. A diminuição da Selic, sem viés, foi aprovada por unanimidade pelos membros do Comitê de Política Monetária (Copom). Em comunicado divulgado após o fechamento do mercado, o BC, apesar de ter deixado uma aberta a janela para intensificar o corte de juros, adotou um discurso de cautela ao colocar como condicionantes a celeridade da implementação do ajuste fiscal e o recuo mais rápido da inflação. O cenário atual, segundo o Copom, “é compatível com uma flexibilização moderada e gradual”. Economistas consideraram o movimento um sinal para o mercado e ressaltaram a importância das medidas de ajuste fiscal para uma efetiva recuperação da atividade econômica.

copom 2010

A recente queda na inflação, além das expectativas do mercado, favorecida pela redução dos preços dos alimentos e o baixo nível da atividade, mesmo que ainda abaixo do esperado, com a economia em “alto nível de ociosidade”, estão entre os principais motivos que levaram o BC a reduzir a Selic. Os primeiros passos no processo de ajuste fiscal — como a aprovação, em primeiro turno na Câmara, da proposta de emenda constitcional (PEC) que cria um teto para o gasto público — também foram levados em consideração pelo Copom. Para o BC, no entanto, esse processo ainda é longo e incerto. Outra preocupação se refere ao período prolongado de inflação alta, com expectativas acima da meta, que pode tornar mais lenta a convergência de preços para a meta, de 4,5%.

“O Comitê entende que a convergência da inflação para a meta para 2017 e 2018 é compatível com uma flexibilização moderada e gradual das condições monetárias”, diz o comunicado do BC. “A magnitude da flexibilização monetária e uma possível intensificação do seu ritmo dependerão de evolução favorável de fatores que permitam maior confiança no alcance das metas para a inflação no horizonte relevante para a condução da política monetária, que inclui os anos-calendário de 2017 e 2018.”

No texto, a autoridade monetária reitera que o cenário externo continua favorável aos países emergentes. Mas ressalta que as incertezas em relação ao crescimento da economia global persistem, especialmente o comportamento dos juros nos EUA.

Economistas consideraram o início cauteloso do processo de alívio monetário uma sinalização importante para as expectativas dos agentes econômicos, mas que não terá qualquer efeito imediato para a retomada da atividade. A resolução da crise fical, com a adoção de um teto para os gastos e a reforma da Previdência, é o que servirá de alavanca para a economia. Assim, avaliam, números melhores para o Produto Interno Bruto (PIB) só virão em 2017.

De acordo com Alberto Ramos, economista para a América Latina do Goldman Sachs, o início do ciclo de queda de juros é parte do processo para consertar os desequilíbrios macroeconômicos do país.

— De tudo o que está posto, o mais importante é a questão fiscal. E, ainda, nada está ganho. O juro não resolve os problemas da economia. Ou se resolve o problema fiscal, ou a economia vai se dar mal, como ocorreu nos últimos anos — afirmou Ramos, resaltando ainda que “a aceleração para o ritmo de 0,5 ponto percentual certamente não está no piloto automático”.

Info Selic 19-10

Professor de economia do Ibmec-RJ, Daniel Sousa concorda:

— O efeito da queda dos juros na atividade é muito pequeno. A redução da taxa é muito mais um indicativo para o mercado, é um sinal, algo que contribui para a melhora das expectativas.

Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor do BC, estima que a Selic seja cortada em pelo menos mais 4 pontos percentuais até o fim de 2017, levando a taxa aos 10% ao ano. Segundo ele, a perspectiva é de um período de juros menores mais duradouro que o observado em 2012.

— Quando o Banco Central começou a baixar os juros numa conjuntura de preços fixos e conjuntura maligna, ele deu um tiro no pé. Agora, é outra conjuntura, é benigna — explicou Freitas.

Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, também vê espaço para mais quedas, mas acredita que o BC será um pouco mais cauteloso, levando a taxa a 11,25% ao ano até o ano que vem. Ele espera mais um corte de 0,25 ponto na próxima reunião e, depois, seguidas reduções de 0,5 ponto:

— O BC está olhando à frente. Acho que ele não foi mais agressivo porque tem essa incerteza, especialmente na questão fiscal, a PEC do teto de gastos tem mais três votações e ainda há a reforma da Previdência. Acho que, especialmente por conta do fiscal, eles decidiram ser mais comedidos agora.

copom2 2010

Para a economista Alessandra Ribeiro, da consultoria Tendências, a queda de juros tende a ajudar a retomada da economia na medida em que estimula os bancos a oferecerem mais crédito. Mas, pondera, não é possível esperar “uma avalanche de empréstimos” como no passado recente.

O corte de ontem é “muito pequeno para estimular o crédito”, segundo Tatiana Pinheiro, economista do banco Santander. Em sua visão, a redução de ontem é o início de um ciclo de queda da Selic, que traz “efeito marginal na atividade econômica, mas um efeito positivo em cima da expectativa”.

Otto Nogami, professor do MBA Insper, observa que a aprovação da PEC do teto dos gastos do governo é fundamental, porque alivia a necessidade de financiamento do déficit do setor público, liberando recursos para investimento no setor produtivo.

— Por enquanto, não vemos investimentos para aumentar a produção. E isso será fundamental quando a inflação recuar e os juros caírem para atender o crescimento da demanda — afirmou Nogami.

Alessandra, da Tendências, diz que as projeções da consultoria são de que a economia cresça 1,5% em 2017. Ainda pesa o mercado de trabalho ruim.

— Com esse nível de desemprego a renda dos trabalhadores fica comprometida. E temos a inflação rodando acima de 8%, o que é muito alto — afirmou ela.

O início do processo de redução dos juros é aguardado há meses, principalmente por causa do efeito benéfico que um alívio monetário pode ter sobre a atividade. A expectativa, no entanto, é que exista uma defasagem entre o corte de juros e a retomada do crescimento.

— Os primeiros impactos devem começar a ser vistos no primeiro trimestre de 2017 — afirmou Thais Zara, economista-chefe da Rosenberg Associados.

BRASIL AINDA TEM MAIOR JURO REAL

Para Bruno Fernandes, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), o varejo — que acumula queda de 6,6% no acumulado do ano até agosto — deve demorar a perceber, porque a queda da Selic demora a impactar o bolso do consumidor.

— O crédito deve se manter ainda alto por um bom tempo, a gente tem um spread alto ainda por causa de inadimplência. As condições não são boas. O final do ano já está praticamente contratado e gente espera Natal com resultado negativo em relação ao ano passado — explicou Fernandes.

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, elogiou a decisão do Copom:

— Se o Banco Central decidiu fazer isso, significa que há condições. É positivo porque é uma decisão técnica e autônoma e que significa que estamos no caminho para ter uma inflação na meta. Essa é a grande notícia na questão da inflação.

Assim como fez com a decisão da Petrobras de reduzir o preço da gasolina, Meirelles alfinetou o governo Dilma Rousseff ao falar em autonomia. Dilma foi criticada várias vezes por ter pressionado o BC.

— Foi uma decisão do Banco Central, que é uma instituição que tem autonomia operacional. A decisão foi divulgada enquanto eu estava em reunião. Ainda não vi o comunicado para saber as razões que o Banco Central teve para decidir isso. Mas não há dúvida que, se o BC decidiu fazer isso, foi depois de uma análise criteriosa que abreviou a possibilidade de se começar um processo flexibilização de política monetária.

O ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, comemorou a decisão do Copom em sua conta do Twitter: “A confiança na retomada da economia anda a passos largos. Avante.”

De forma reservada, outro ministro de Estado preferiu comemorar a decisão do Copom de forma cautelosa. Segundo ele, a conjutura atual é ainda muito complicada, e a retomada da confiança na economia dependerá da capacidade do governo em votar as medidas de ajuste fiscal e do comportamento da inflação. Mas reconheceu que a inflação deu uma trégua.

Entidades empresariais e centrais sindicais comemoraram a decisão, mas criticaram a timidez do corte. Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), afirmou que faltou ao BC coragem para um corte maior. Para a Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), “a continuidade e a intensidade” da redução “dependem da concretização da agenda fiscal”. E o deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho (SD-SP), presidente da Força Sindical, disse que o Copom “acertou no remédio, mas errou na dose”.

Levantamento feito pelo economista Jason Vieira, da Infinity Asset Management, que compara a taxa de 40 países, mostra que o Brasil permanece na liderança com folga, com juro real de 8,49% ao ano. Em segundo lugar está a Rússia, com juro real de 4,27% ao ano.

Info Efeitos na economia real

oglobo.globo.com | 20-10-2016

WASHINGTON - O terceiro e último debate entre Hillary Clinton e Donald Trump, transmitido na quarta-feira de Las Vegas, foi mais polido que as edições anteriores, mas ainda assim marcado por fortes ataques entre os candidatos. Houve muito menos interrupções e momentos tensos e, muitas vezes, coube ao mediador fazer as perguntas polêmicas. De acordo com a pesquisa realizada pela CNN após o debate, 52% dos entrevistados consideram que Hillary venceu o confronto.

O clima menos pesado abriu espaço para a comparação de propostas — principalmente sobre economia —, algo que quase não ocorreu nos dois primeiros embates. Os dois, no entanto, não se cumprimentaram em nenhum momento do encontro. Questionado se aceitaria o resultado das eleições, Trump manteve o suspense e disse que “iria decidir na hora”.

As ofensas aconteceram do meio para o fim do debate e começaram a esquentar quando o mediador, Chris Wallace, da Fox News, questionou Trump sobre as mulheres que o acusaram de molestá-las sexualmente:

— Essas histórias foram amplamente desmascaradas. Talvez elas quisessem fama — rebateu o republicano, aproveitando para atacar Hillary: — Tenho a sensação de que sua campanha que fez isso. Se você seguir o que Hillary está dizendo, você pode pegar o bebê no nono mês e rasgar para fora do útero da mãe

Trump afirmou que “ninguém” respeita mais as mulheres que ele, provocando risos na plateia. No fim do encontro, ele ainda chamou a adversária de “uma mulher desagradável”.

— Toda vez que Donald é pressionado ,ele nega sua responsabilidades, nunca pede desculpas. E isso não é apenas com as mulheres.

Na pergunta sobre a Fundação Clinton — suspeita de tráfico de influência por receber doações de empresas e países enquanto Hillary era secretária de Estado — Trump foi à forra:

— Ela fala que defende os direitos dos gays, das mulheres, mas sua fundação recebeu recursos da Arábia Saudita, Qatar e de países que punem os gays, que matam as mulheres. Por que você não devolveu este dinheiro? Seria um grande gesto.

A democrata lembrou que sua fundação tem projetos como o tratamento de HIV, enquanto a Fundação Trump “pegou o dinheiro das pessoas para comprar um grande retrato de Donald”.

— Tudo o que fiz como secretária de Estado foi em prol do interesse de nosso país e de nossos valores — disse, tentando se esquivar da resposta: — Mas estou feliz de falar sobre a Fundação Clinton, uma instituição de caridade de renome mundial.

Em um dos momentos polêmicos, questionado se aceitará o resultado das eleições, Trump afirmou que “vai ver isso no momento”, e passou a atacar a mídia, que segundo ele persegue sua campanha. Hillary disse que é “horripilante” que qualquer revés seja classificado por ele como uma fraude. E aproveitou para dizer que o republicano era contra Ronald Reagan nos anos 1980, tentando atrair parte do voto conservador, que vê no ex-presidente um ídolo.

Os ataques começaram quando discutiam o aborto. Trump diz que indicará juízes “pró-vida” para a Suprema Corte:

— Se você seguir o que Hillary está dizendo, você pode pegar o bebê, no nono mês, e rasgá-lo para fora do útero da mãe. Não é OK para mim.

Hillary contra-atacou explicando que não é o que acontece nestes casos:

— Utilizar este tipo de retórica do medo é terrivelmente infeliz. Você deve conhecer algumas das mulheres que foram afetadas. Ele nem mesmo sabe o que acontece, ele pensa que os médicos são uns monstros.

Confira: O QUE COBRIMOS DURANTE O DEBATE

Partiu do mediador Chris Wallace questionar Hillary sobre o vazamento de suas palestras, feitas pelo WikiLeaks. E citou um trecho que de uma palestra privada a um banco brasileiro, quando disse que “sonhavam com um continente americano sem fronteiras”. Na campanha, a candidata tem se posicionado contra os tratados comerciais.

— Eu estava falando de energia. Nós comercializamos mais energia com os nossos vizinhos do que o resto do mundo junto — rebateu, criticando a espionagem que permitiu a divulgação de seus textos.

Trump voltou a defender a construção de um muro na fronteira com o México e disse que recebeu o apoio de mais de 200 generais e almirantes. Foi a deixa para Hillary tratar da relação do republicano com a Rússia.

— Você é um fantoche de Putin — acusou, reafirmando que ele não é preparado para ser presidente.

O magnata, por sua vez, disse que o russo “a enganou” sobre a guerra na Síria e que “claro” que condena qualquer interferência da Rússia.

— Eu nem conheço Putin, nunca me encontrei com ele, mas posso dizer que ele é mais esperto que você e que (o presidente Barack) Obama. Vladimir Putin não tem respeito por esta pessoa.

Mais calmo que nos outros encontros, e sem interromper com tanta frequência sua oponente, ele ainda ressaltou que é orgulhoso de receber o apoio da Associação Nacional de Rifles (NRA, na sigla em inglês) e afirmou que é contra qualquer restrição às armas, citando o caso de Chicago — cidade que tem algumas das leis mais restritivas para armas e, mesmo assim, é uma das mais violentas do país.

Hillary reiterou que apoia a Segunda Emenda — que garante o direito ao porte de armas — mas que não se pode esquecer que há por ano 33 mil mortes por tiros nos EUA, e que precisa haver algum tipo de restrição, como melhorar a pesquisa sobre antecedentes criminais e proibir a venda para pessoas que estejam na lista de suspeitos de ligação com o terrorismo.

Democratas temem ‘já ganhou’

As horas que antecederam o debate foram de boas notícias para os democratas. Novas pesquisas indicavam que a vantagem de Hillary sobre Trump cresceu, tanto em nível nacional quanto nas simulações em estados até então indefinidos, além das projeções do Colégio Eleitoral. Nacionalmente, Hillary apareceu no levantamento da Bloomberg com 47% das intenções de voto, nove pontos a mais que Trump (38%), seguidos pelo libertário Gary Johnson (8%) e pela verde Jill Stein (3%). A Universidade Quinnipiac deu vantagem de sete pontos para a democrata. Na média de pesquisas calculadas pelo Realclearpolitics, ela tem 6,2 pontos sobre o magnata.

Mas as sondagens estaduais foram mais comemoradas. No Arizona, tradicionalmente republicano, Hillary apareceu 5 pontos à frente de Trump. Na Carolina do Norte, duas pesquisas davam a ela dois pontos de vantagem. Em New Hampshire, a democrata tem oito pontos a mais; sete em Wisconsin; e quatro na Pensilvânia. Segundo a CNN, Hillary teria, hoje, 307 delegados, 37 a mais que os 270 mínimos para eleger-se. E Trump, apenas 179 votos do Colégio Eleitoral. Ainda há 52 em disputa, em Ohio, Arizona, Utah e Carolina do Norte. À exceção do primeiro estado, os outros três eram considerados votos certos para os republicanos no início da campanha.

Estes resultados têm ampliado o clima de “já ganhou”, que assusta e preocupa o Partido Democrata. Como o voto não é obrigatório nos EUA e o índice de rejeição a Hillary é de mais de 50%, há o temor de que muitos, ao acreditarem que Trump está fora do jogo, não compareçam às urnas. O que pode ser decisivo em estados onde a margem da candidata não é tão grande. As pesquisas mostram, ainda, que os eleitores de Trump são mais empolgados, com mais chance de irem votar, do que os de Hillary. Em entrevistas, a democrata afirma que a eleição ainda está aberta e pede aos americanos que votem. O mesmo têm feito os integrantes de peso do partido, como o presidente Barack Obama.

Trump passou o dia de ontem tentando fazer pegar, pelo Twitter, seu novo bordão: “Vamos drenar o pântano”, referência à “reforma ética” que promete fazer, controlando o lobby em Washington e criando um limite de mandatos que um congressista pode ter. Nesta reta final, além de se declarar vítima, ele tem se colocado, novamente, como um outsider, estratégia que funcionou no ano passado, no início do processo de primárias republicanas.

oglobo.globo.com | 20-10-2016

BRASÍLIA - O presidente Michel Temer afirmou, em entrevista à imprensa logo após desembarcar no Japão, que o controle da dívida pública brasileira só será alcançado dentro de dois a três anos. Segundo dados divulgados na segunda-feira pelo Tesouro Nacional, o estoque da dívida pública federal em agosto chegou a R$ 2,9 trilhões.

TEMER JAPÃO

— Ela [dívida] é de difícil controle, não é? Mas talvez não impossível — afirmou.

Perguntado sobre uma declaração que teria sido feita por Moreira Franco (secretário do Programa de Parceiras e Investimentos) de que a dívida seria "absolutamente incontrolável", o presidente respondeu:

— Ao longo do tempo, penso que o ministro Moreira quis dizer, é que neste momento vai ser difícil. Não há dúvida que nesses dois, três próximos anos, não é fácil controlá-la, mas que nós estamos trabalhando para o absoluto controle lá para frente, não tem a menor dúvida disso. Medidas estão sendo tomadas, não é?

Temer disse que, por outro lado, a proposta de emenda constitucional (PEC) que limita os gastos públicos está sendo bem vista por outros países. Segundo ele, durante a cúpula do Brics (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), houve grande interesse, principalmente, de russos e indianos pelo tema.

— O que eu pude perceber foi o seguinte: não só o primeiro-ministro indiano (Nahendra Modi) se interessou, como o presidente russo (Vladimir Putin) se interessou vivamente, tanto que eu dei explicações mais variadas sobre o nosso projeto. Até porque, é interessante, há identidade muito grande de questões econômicas entre a Rússia e o Brasil — afirmou.

Ele disse que foi ao Japão para reforçar as relações com o país asiático em conversas com autoridades, investidores e empresários japoneses. Um dos pontos fortes que Temer destacará em relação ao seu governo é que este está promovendo o recomeço do Brasil.

— O que eu pretendo trazer é exatamente este, digamos, vou chamar de recomeço do nosso país, que se baseia fundamentalmente na ideia do diálogo. Se eu tivesse uma palavra-chave para o governo, eu diria que a palavra é diálogo. Diálogo com o Congresso Nacional — e um diálogo muito frutífero, como puderam perceber, porque nós já conseguimos aprovar muita coisa no Congresso Nacional ao longo destes meses. Inclusive, uma questão mais complicada, como a questão do teto dos gastos públicos, que foi aprovado por grande maioria.

Temer citou, ainda, o Programa de Parcerias de Investimentos (PPI). Disse que o programa será apresentando ao primeiro-ministro Shinzo Abe e aos empresários daquele país.

— Vamos trazer também a notícia de que nós teremos absoluta segurança jurídica em todos os contratos que se estabelecerem no nosso país, que temos portanto, ao levar investimento estrangeiro para lá, juntamente com investimento do capital nacional, nós queremos preservar os contratos.

Já em entrevista a jornalistas japoneses, Temer voltou a enfatizar a interação entre o governo e o Congresso. Lembrou que, após a PEC dos gastos, o Executivo se prepara para enviar ao Legislativo sua proposta de reforma da Previdência.

— E quando falamos desses dois projetos — primeiro teto dos gastos, depois a reforma da Previdência — é para, em primeiro lugar, combater o desemprego. Portanto, dar emprego a muitos desempregados. E, em segundo lugar, fazer com que aqueles que hoje contribuem para a Previdência Social possam bater às portas do governo daqui a alguns anos e poder receber as suas pensões.

oglobo.globo.com | 18-10-2016

O ministro das Relações Exteriores, José Serra, disse que a queda dos índices de preços pode levar à redução das taxas de juros "nos próximos". "Vai acontecer, dadas as condições atuais de retração da inflação e alguns casos como o da Petrobras", complementou, referindo-se ao anúncio, pela estatal, da redução do preço da gasolina e do diesel a partir deste sábado, 15. O Comitê de Política Monetária, que decide a taxa básica de juros do País, a Selic, concluirá sua próxima reunião na quarta-feira, 19.

Em participação na Cúpula dos Brics, na Índia, Serra também elogiou o esforço do governo Temer para aprovar a PEC do Teto de Gastos, que restringe o crescimento das despesas da União à inflação do ano anterior. Ele afirmou que, "no atacado", a adoção do teto é positiva, sobretudo do ponto de vista da política fiscal e das expectativas dos agentes econômicos. A proposta foi aprovada em primeiro turno na Câmara e deve passar por mais uma entre os deputados e duas entre os senadores.

"Tendem a melhorar muito as expectativas, que são uma condição para o crescimento. É preciso também ter outras condições de financiamento, abertura de comércio, para que haja crescimento", apontou o ministro.

Na avaliação do chanceler, a economia vai logo entrar numa nova rota de retomada de expansão com a política do governo de buscar o reequilíbrio fiscal e recuperar a área social, que segundo ele foi muito prejudicada com a recessão. "Para adiante temos que atrair o investimento, que é o que vai gerar emprego, mais renda, receita governamental. A prioridade é o investimento", destacou Serra. " Não é por menos, aliás, que insistimos aqui com a Índia para concluir o acordo de facilitação de investimentos e estamos fazendo isso por toda a parte. Isso é fundamental."Mais cedo, Michel Temer havia dito que a superação da crise econômica brasileira está 'desenhada': "será a combinação da responsabilidade fiscal com a responsabilidade social". "Promoveremos, sim, o ajuste das contas públicas. Estamos estabelecendo um teto de gastos, que será inscrito na própria Constituição", disse Temer. O presidente destacou que o governo enviará ao Congresso em breve uma proposta de reforma da Previdência Social, a fim de tornar o sistema de benefícios para quem se aposenta "sustentável e mais justo".

Encerramento oficial

A Declaração de Goa, o comunicado final da VIII Cúpula dos Brics, defendeu o uso de todos os instrumentos de gestão macroeconômica, como os monetários e fiscais, sejam eles adotados de forma individual ou conjunta, para que os países membros do grupo possam atingir o objetivo de crescimento forte, sustentável e inclusivo. "A política monetária continuará a apoiar a atividade econômica e assegurar a estabilidade dos preços, de forma consistente com os mandatos dos bancos centrais", destaca o documento.

"Contudo, a política monetária sozinha não pode gerar o crescimento sustentável e equilibrado", aponta a declaração dos Brics, ao ressaltar o papel essencial de reformas estruturais. "Enfatizamos que as políticas fiscais são igualmente importantes para apoiar nossos objetivos comuns de crescimento." O texto aponta também que efeitos colaterais de políticas adotadas por países avançados podem trazer impactos adversos às perspectivas de expansão do PIB de economias emergentes.

"Reconhecemos a necessidade do uso de medidas na área de política tributária e gastos públicos numa forma mais amigável ao crescimento, considerando o espaço fiscal disponível, a fim de promover inclusão e garantir a sustentabilidade da dívida como proporção do PIB."

O comunicado dos Brics também destacou a importância de investimentos públicos e privados em infraestrutura, incluindo conectividade, para viabilizar o crescimento sustentável no longo prazo. Neste contexto, foi citada a relevância de adoção de mecanismos de financiamento para estes projetos de longa maturação, com o apoio de bancos multilaterais de desenvolvimento.

"Destacamos a aprovação dos primeiros financiamentos do Novo Banco de Desenvolvimento, particularmente em projetos de energia para os países dos Brics", apontou a documento. "Estamos satisfeitos que o Acordo Contingente de Reservas tem fortalecido a rede de proteção financeira global."

A declaração fez uma menção sobre a eventual criação de uma agência de classificação de risco para atuar junto ao grupo formado pelo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. "Avaliamos como bem-vinda a posição de especialistas sobre a possibilidade de definir uma agência de rating independente dos Brics, orientada por princípios de mercado, com o objetivo de fortalecer de forma adicional a governança global."

GOA, Índia - O banco de desenvolvimento do Brics, grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, aumentará o volume de empréstimos dos atuais US$ 911 milhões para US$ 2,5 bilhões no ano que vem. A declaração foi dada na VIII Cúpula do grupo, realizada neste fim de semana, na Índia.

brics_1610

- Vamos ser uma organização ágil para atender os nossos países - prometeu o presidente da instituição financeira, KV Kamath. - Estamos nos preparando para trabalhar com velocidade.

No encontro realizado neste domingo, ele disse que o banco aceita ter um observador do Conselho Empresarial dos Brics. Esse conselho fez várias propostas aos chefes de Estado. Uma delas é fazer uma rede de investidores-anjo para criar um ecossistema de startups para promover a inovação nos cinco países.

O presidente da China, Xi Jinping, disse que o Brics tem de aproveitar ao máximo as próprias vantagens. Para ele, a inovação é o alicerce para o crescimento econômico e também para particularmente dar um grande salto no nosso progresso.

- Temos de ter ideias inovadoras. Temos de apoiar a implementação de estratégias inovadoras e desenvolvimento dos nossos países para reestruturação econômica para promover o crescimento e assegurar os países Brics no caminho de desenvolvimento econômico firmemente - afirmou. - Os países Brics estão entrando numa nova fase. Agora, estamos enfrentando desafios, mas também estamos enfrentando oportunidade para um futuro mais brilhante.

O tamanho do mercado formado do Brics foi um dos aspectos levantados pelo presidente russo, Vladimir Putin. Ele lembrou que os cinco países tem uma população de três bilhões de pessoas. E frisou que o seu país está interessado em estreitar relações.

- A Rússia quer contribuir para estreitar laços com o Brics. Temos de melhorar o acesso a mercados - afirmou.

Já o presidente da África do Sul, Jacob Zuma, foi além. Ressaltou que o comércio não pode ser apenas de produtos básicos.

- Precisamos coordenar investimentos e comércio de produtos de maior valor agregado - frisou ao citar áreas como seguros, resseguros, infraestrutura e geração de energia.

*Enviada Especial

oglobo.globo.com | 16-10-2016

GOA, Índia - O presidente Michel Temer voltou a destacar neste domingo a necessidade de equilibrar as contas públicas para que o Brasil volte a crescer e, com isso, gerar empregos. Em discurso durante encontro privado dos chefes de estado e de governo dos Brics em Goa, na Índia, Temer afirmou que a responsabilidade fiscal é questão urgente no país uma vez que o desarranjo das contas públicas é "a causa-mor da crise que enfrentamos".

brics_1610

— A superação da crise econômica brasileira está desenhada: será a combinação da responsabilidade fiscal com a responsabilidade social — afirmou ele. — No Brasil de hoje, responsabilidade social significa, antes de mais nada, empregos. Só teremos emprego com crescimento, e só teremos crescimento com o equilíbrio das contas públicas.

No discurso, o presidente afirmou que em breve será enviado ao Congresso Nacional a proposta de reforma da Previdência, com o objetivo de eliminar privilégios, e lembrou o novo modelo de parcerias com o setor privado como fator de geração de empregos e melhora da infraestrutura.

— Já começamos a colher os frutos. O Brasil começa a entrar nos trilhos. As previsões para a economia brasileira em 2017 já melhoraram...Já é possível verificar positiva reversão de expectativas, com decidida elevação nos níveis de confiança dos agentes econômicos — completou Temer.

O presidente brasileiro também referiu-se à questão do terrorismo, manifestando solidariedade aos países dos Brics — grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — que tenham sofrido ataques.

Também neste domingo, o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, afirmou que os líderes dos países do grupo foram unânimes em reconhecer a ameaça apresentada pelo terrorismo às economias globais.

oglobo.globo.com | 16-10-2016

GOA, Índia - Na tentativa de atrair investimentos para o Brasil, o presidente Michel Temer disse a uma plateia repleta de empresários que eles encontrarão no Brasil um país com estabilidade política, com respeito aos contratos e com grande mercado consumidor. Sem fazer referência ao governo passado, ele ressaltou que as agências reguladoras brasileiras voltaram a funcionar. As declarações foram dadas no encontro do Conselho Empresarial do Brics, grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, neste domingo.

brics_1610

— Convido, portanto, as empresas dos países do Brics a investirem no Brasil, a participarem desse nosso novo momento. As senhoras e os senhores encontrarão um país com estabilidade política, com segurança jurídica e com grande mercado consumidor — falou o presidente.

Ele ainda disse que faz votos que as empresas que já mantêm investimentos no Brasil ampliem sua presença.

— Minhas palavras, já que falo para empresários, são de otimismo quanto à recuperação da economia brasileira. Nosso governo está empenhado em promover reformas que trarão de volta o crescimento e o emprego.

No discurso, o presidente registrou que o governo está empenhado em melhorar o ambiente de negócios. Prometeu “desburocratizar processos, reduzir custos de operação e zelar pela previsibilidade e pela segurança jurídica”. Informou que foi lançado o programa de parcerias de investimentos e disse que a iniciativa é fundada em regras estáveis. Detalhou os setores em que o país procura parceiros: portos, aeroportos, rodovias, ferrovias, energia, óleo e gás. E deu mais garantias.

— As agências reguladoras voltarão a ter papel efetivo de supervisão.

Michel Temer disse que com as primeiras medidas adotadas, já é possível constatar sinais da volta da confiança. Lembrou que a inflação dá sinais de desaceleração. E encorajou os empresários brasileiros a conhecerem mais as oportunidades de negócios existentes nos demais países do grupo. E disse que o relacionamento entre empresa dos países do Brics devem ser cada vez mais constante e incentivado pelo conselho empresarial do grupo.

— Os senhores podem contar com o renovado compromisso do Brasil com o diálogo entre o Brics e o setor privado. Estudaremos as propostas deste conselho com grande interesse.

AMBIENTE PROPÍCIO PARA NOVOS INVESTIMENTOS

Durante a planária com os chefes de Estado, o presidente afirmou que o governo cria um ambiente propício para novos investimentos.

— O Brasil passa por momento de transformações. Estamos adotando ações para recuperar o crescimento e gerar empregos. Estamos aprimorando os nossos marcos regulatórios, reforçando a segurança jurídica, criando ambiente propício para novos investimentos.

Em relação ao comércio exterior, Michel Temer disse que o Brics podem avançar na remoção de barreiras não-tarifárias, como a simplificação de procedimentos aduaneiros e o reconhecimento mútuo de padrões e certificados. Neste domingo, foi assinado um acordo sobre o assunto.

— Barreiras sanitárias e fitossanitárias são sempre fonte de incerteza no comércio. Devemos impedir que essas medidas sejam utilizadas para fins protecionistas.

Frisou ainda que outro terreno promissor é a internacionalização das pequenas e médias empresas. Ele afirmou que, no Brasil, há medidas destinadas a ampliar o crédito a pequenas empresas, a apoiar operações de exportação e a capacitar pequenos empresários.

Disse ainda que, na área social, há boas perspectivas de avançar. Citou que no campo da saúde, o desenvolvimento de medicamentos e vacinas é assunto da maior relevância.

— Os Brics têm experiências exitosas a compartilhar. Maior engajamento nesse tema aproximará o grupo das demandas de nossas populações.

RESPONSABILIDADE SOCIAL

Temer disse que o caminho para o Brasil sair da recessão está traçado e inclui a responsabilidade social. E que essa é "um dever maior e uma tarefa urgente". Frisou que o Brasil começou a colher frutos das mudanças feitas e já entra nos trilhos.

— A superação da crise econômica brasileira está desenhada: será a combinação da responsabilidade fiscal com a responsabilidade social — frisou o presidente, que completou:

— Responsabilidade fiscal é, para nós, um dever maior e tarefa urgente. É dever maior porque, sem ela, põem-se em risco os avanços sociais do Brasil. É tarefa urgente porque o desarranjo das contas públicas é a causa-mor da crise que enfrentamos.

Disse ter consciência de que a responsabilidade fiscal, por si só, não basta. Falou que dela, é indissociável a responsabilidade social. São, segundo ele, como duas faces da mesma moeda.

— No Brasil de hoje, responsabilidade social significa, antes de mais nada, empregos. Só teremos emprego com crescimento, e só teremos crescimento com o equilíbrio das contas públicas.

De acordo com ele, a responsabilidade social traduz-se em serviços públicos mais eficientes e na revalorização de nossa proteção social. É, de acordo com ele, o que tem sido feito com saúde, educação e com programas de transferência de renda.

— Já começamos a colher os frutos. O Brasil começa a entrar nos trilhos. As previsões para a economia brasileira em 2017 já melhoraram.

Ele informou os demais líderes que o governo enviará ao Congresso Nacional, em breve, a proposta de reforma da previdência social para torná-la sustentável e mais justa. Disse que o país busca uma seguridade social que elimine privilégios e possa servir a todos, no médio e no longo prazo.

Sobre o cenário externo, ele disse aos líderes que instabilidade e incerteza são as marcas da realidade internacional. Disse que o mundo ainda se recupera da crise financeira global e que o Brics afirmaram-se como “esteio da reforma da governança financeira internacional”, mas desafios persistem. Ele citou como exemplo um retorno da tentação protecionista.

— Há que resisti-la. Há muito que podemos fazer para garantir mais comércio, mais crescimento e mais prosperidade.

Defendeu a reforma o Conselho de Segurança das Nações Unidas. E afirmou que o terrorismo é um dos grandes desafios atuais e que nenhuma pessoa ou lugar está imune a esse flagelo.

Ainda comentou a questão do conflito na Síria. Disse que fez abater-se sobre a população civil uma das mais graves crises humanitárias de nosso tempo. Defendeu que é responsabilidade da comunidade internacional encontrar uma solução política.

oglobo.globo.com | 16-10-2016

Com uma economia muito diversificada, a Federação Russa possui importantes recursos naturais e humanos, que constituem forte potencial de desenvolvimento económico. O povo russo em geral, já a partir de meados da década de 1950, vivia bem melhor que os cidadãos de países capitalistas há muito orientados para o mercado, como o México, a Índia, o Brasil ou a Argentina. A taxa de analfabetismo era virtualmente zero, o ensino superior era muito bom e economicamente acessível; o desemprego quase não existia, a igualdade entre os géneros era uma das mais desenvolvidas do mundo, com as mulheres a chegar por vezes mais longe do que os homens nas suas carreiras, especialmente na ciência. Muitas famílias possuiam automóveis, TVs, gravadores de cassetes e podiam viajar de avião pelo menos uma vez por ano até às áreas balneares famosas do mar Negro. Mas a produção e distribuição de produtos de consumo (particularmente de vestuário e alimentos) era relativamente ineficiente e havia uma falta de habitação muito pronunciada em muitas das áreas urbanas, se bem que fossem raras situações de habitação precária ou insalubre. Contudo, desde a desintegração da União Soviética, em 1991, o caminho para a estabilização macroeconómica tem sido longo e difícil, A partir daquele ano, o país sofreu severa contracção económica ao longo dos cinco anos seguintes, enquanto o governo e o parlamento divergiam sobre a implementação das reformas. A base industrial do país foi seriamente atingida. O país tem passado por diversas crises, destacando-se a crise financeira de 1998, resultante fundamentalmente da crise financeira do Sudeste Asiático. Depois da dissolução da URSS, causada mais por razões étnicas do que económicas, a primeira recuperação russa, ainda ligeira mas já a mostrar os sinais da influência do mercado livre, ocorreu em 1997. Porém a crise financeira asiática daquele ano acabou por atingir a economia russa. Diante da significativa desvalorização do rublo, o governo Russo aumentou a taxa de juros, mas as medidas de política econômica fracassaram e a Rússia declarou uma moratória unilateral, gerando perdas a seus credores internos e externos. Assim, 1998 ficou marcado por ser o ano da crise financeira Russa, com intensa fuga de capitais e, na sequência, recessão. A economia começou a se recuperar em 1999, entrando numa fase de rápida expansão, com o PIB a crescer a uma taxa média de 6.8% por ano, entre 1999 e 2004, apoiado em preços mais altos no petróleo, num rublo mais fraco, e no aumento na produção de industrial e de serviços. Esta recuperação, a par de um renovado esforço governamental em 2000 e 2001 para fazer avançar as reformas estruturais, aumentou a confiança das empresas e dos investidores para a segunda década de transição. A Rússia permanece fortemente dependente de exportações de matérias-primas, em particular do petróleo, do gás natural, de metais e de madeira, que correspondem a mais de 80% do total das exportações, o que deixa o país vulnerável às oscilações dos preços do mercado mundial. Em anos recentes, no entanto, a economia também foi impulsionada pela crescente procura interna, que cresceu cerca de 12% ao ano entre 2000 e 2004, o que mostra o vigor do seu mercado interno. O PIB do país atingiu 535 bilhões de dólares em 2004, fazendo da economia russa a 16ª economia mundial, sendo que Moscou, concentra 30% da produção do país. Um dos maiores desafios dos formuladores da política econômica russa é o de encorajar o desenvolvimento de PMEs num ambiente empresarial dominado por oligarcas e dotado de um sistema bancário jovem e disfuncional. Muitos dos bancos russos pertencem a grandes empresários ou oligarcas, que usam frequentemente os depósitos para financiar os seus próprios negócios. O Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento e o Banco Mundial tentaram normalizar as práticas bancárias fazendo investimentos em acções ordinárias e na dívida, mas com um sucesso muito limitado. Outros problemas incluem um desenvolvimento económico desigual entre as regiões do país. Enquanto que a região de Moscovo, com a sua imensa população de 20 milhões de habitantes, é uma metrópole moderna, com setores de tecnologia de ponta e renda per capita próxima à das economias mais fortes da eurozona, o resto do país, em especial as comunidades indígenas e rurais da Ásia, vive como vivia no fim da Idade Média. A integração ao mercado também se faz sentir noutras cidades grandes como São Petersburgo, Kaliningrad e Ekaterinburg. Estimular o investimento estrangeiro é também um grande desafio. Até agora, o país tem se beneficiado do aumento nos preços de petróleo e tem sido capaz de pagar uma boa parte da sua dívida externa, que era gigantesca. O reinvestimento dos lucros obtidos pela exploração de recursos naturais em outros sectores da economia também é um problema. Em 2003, a prisão de Mikhail Khodorkovski, um dos oligarcas russos e, à época, o mais rico empresário do país, sob a acusação de fraude, evasão fiscal e corrupção durante as grandes privatizações conduzidas no governo de Boris Yeltsin, gerou certa desconfiança entre os investidores estrangeiros. Muitas das grandes fortunas actuais, na Rússia, parecem ter resultado da aquisição de propriedades estatais a muito baixo preço ou da aquisição barata de concessões governamentais. Outros países manifestaram a sua preocupação com a aplicação "selectiva" da lei contra empresários individuais. Apesar de tudo, algumas grandes firmas internacionais têm grandes investimentos na Rússia. Um exemplo é a fabricante de bebidas Scottish & Newcastle, que descobriu que o mercado da cerveja na Rússia crescia muito mais rapidamente do que noutras áreas da Europa. Quase duas décadas após o colapso da União Soviética, em 1991, a Rússia continua a tentar estabelecer uma economia de mercado moderna e de fato tem conseguido altas taxas de crescimento económico. Ao longo da década de 2000, a economia russa registrou taxas de crescimento acima de 7% em 2000 (10%), 2001, 2002, 2003, 2004 e 2007 (8,1%). Em 2005 teve alta de 6,4 e, em 2006, de 6,8%. Em 2008, a Rússia cresceu 6% e foi a 9ª economia do mundo. No entanto, diante da crise mundial e a queda dos preços do petróleo, as perspectivas para 2009 são mais sombrias. Em dezembro de 2008, a ministra da Economia, Elvira Nabiullina, previu 2,4% de crescimento do PIB para 2009, o índice mais baixo desde 1998 - o fatídico ano da moratória russa. A Rússia integra a área da APEC (Asia-Pacific Economic Cooperation), um bloco econômico que tem por objetivo transformar o Pacífico numa área de livre comércio e que engloba economias asiáticas, americanas e da Oceania.


De dbpedia, licença creative commons CC-BY-SA
w3architect.com | hosting p2pweb.net
afromix.org | afromix.info | mediaport.net | webremix.info