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Rússia Economia

Desdeo início do ano, moeda russa já se desvalorizou quase 50% frente ao dólar - SIMON DAWSON / BLOOMBERG/7-4-2014

FRANKFURT - O Pacific Investment Management (Pimco), maior investidor em títulos do mundo, acredita que a crise econômica da Rússia terá apenas um impacto limitado no sistema financeiro em longo prazo, afirmou, neste domingo, Dan Ivascyn, chefe de investimentos do fundo,em entrevista ao jornal alemão Frakfurter Allgemeine Sonntagszeitung. "Títulos russos selecionados continuam criando valor em longo prazo", disse. Desde o início do ano, moeda russa já se desvalorizou quase 50% em relação ao dólar.

Ivascyn, que assumiu o fundo depois que seu fundador e ex-chefe de investimentos, Bill Gross, se aposentou em setembro, também declarou que espera que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) eleve as taxas de juros no próximo ano.

“Acreditamos que (a presidente do Federal Reserve) Janet Yellen fará isso cuidadosamente e com tanta cautela que não haverá grandes quedas nos preços dos ativos”, comentou.

Os fundos da Pimco nos EUA foram atingidos por investimentos em momentos inoportunos na Rússia, Ucrânia, Brasil e Venezuela, em conjunto com a saída de investidores de mercados emergentes.

oglobo.globo.com | 21-12-2014

O impacto da crise de caixa da Petrobras, das denúncias da Operação Lava-Jato e do baixo preço do petróleo no mercado internacional já afetam a economia. Demissões, adiamentos e atrasos em projetos de investimentos já acontecem no país, em particular no Rio. No mercado, a atual letargia da estatal desperta medo e apreensão em empresas de toda a cadeia produtiva. Em 2015, quando a estatal fará a revisão de seu plano de negócios, o cenário deve piorar. Segundo especialistas, o corte a ser feito pela Petrobras terá o efeito de uma locomotiva freando sobre os trilhos, afetando todos os vagões da economia do petróleo, podendo deteriorar a já combalida expectativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos no país) de 0,69%, como indica pesquisa semanal realizada pelo Banco Central (BC) com bancos e corretoras de todo o país. Pior: segundo economistas, ela pode levar o Brasil até mesmo à recessão no próximo ano.

Os investimentos diretos da Petrobras e os indiretos (considerando fornecedoras e empresas da cadeia de petróleo) representam 3,2% do PIB, segundo cálculos de Alessandra Ribeiro, economista da Tendências Consultoria. A redução no aporte previsto pela estatal para 2015 pode chegar, de acordo com estimativas de especialistas, a R$ 40 bilhões, ou o equivalente ao orçamento de um ano e meio do Bolsa Família, calcula Rodrigo Zeidan, economista e professor da Fundação Dom Cabral. Dessa forma, o aporte total da companhia cairia para algo em torno de R$ 70 bilhões.

IMPASSE NOS CONTRATOS

Um corte dessa ordem, diz ele, seria consequência de uma série de fatores. O ano que vem, para Zeidan, será muito parecido com o de 2003: com baixo crescimento, queda no investimento e alta inflação. A Petrobras enfrenta problemas legais, casos de corrupção, dificuldade em captar recursos no exterior, perda de valor e falta de credibilidade no mercado. O resultado deve puxar o PIB para baixo:

- Os problemas do setor do petróleo podem afetar o PIB em até um ponto percentual. Como muitos economistas já previam alta de apenas 0,5% em 2015, o Brasil pode ter um resultado negativo - disse ele, levando em conta toda a cadeia de petróleo. - O Brasil pode, sim, entrar em recessão em 2015. Os sinais não são animadores, mas há chance de serem invertidos.

Para o presidente da Organização Nacional da Indústria do Petróleo (Onip), Eloi Fernández y Fernández, o cenário é, de imediato, ruim. A conjuntura internacional, pondera ele, afetará a receita de todas as empresas do setor: renegociações de contratos e de preço serão incontornáveis. Para a Petrobras e para a indústria do Brasil, o impacto será pior, pois a estatal é uma espécie de cliente único do setor.

- O governo, o setor e a companhia têm que saber fazer uma análise crítica para buscar o caminho certo. É como um túnel com várias saídas. Em algumas delas há luz - destacou Fernández.

A presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster, disse que não está definido o valor do corte no investimento, mas que a medida visa a "preservar o caixa" da empresa. Este ano, previa investir US$ 42 bilhões, mas até o momento não conseguiu publicar o balanço do terceiro trimestre. A companhia apura os valores relativos aos subornos registrados em projetos como os da Refinaria Abreu e Lima (PE) e do Comperj, no Rio, para reduzir de seus ativos.

- O investimento de 2015 será ligeiramente menor do que o de 2014, a princípio - destacou Graça, semana passada.

A Petrobras está preocupada em definir como fará com seus contratos atuais e futuros. Várias empreiteiras e estaleiros tiveram seus controladores envolvidos nas investigação da Lava-Jato. Sem solução para o impasse, a Petrobras não poderá fazer licitações e convocar essas empresas.

- A Lava-Jato traz incertezas em relação a alguns importantes players da indústria. Estamos olhando como isso se transforma em possíveis efeitos nos prazos (de entrega) das unidades. Procuramos compensar isso com aumento de produção em poços que possam ser conectados a plataformas existentes - disse José Formigli, diretor de Exploração e Produção da Petrobras.

Para o Rio, o impacto deve ser ainda maior. O setor de petróleo responde por quase 30% da economia fluminense e por 60% do total de investimentos previstos de 2014 a 2016. Já há demissões, sobretudo em empresas da cadeia do petróleo, como na indústria naval. O exemplo mais crítico é o do Estaleiro Brasa, em Niterói, que tem 50% de seu capital nas mãos da holandesa SBM, acusada de ter pago propinas a funcionários da Petrobras para obter contratos. Se encerrar as operações, pode ter que demitir 1.500 pessoas, criando um efeito cascata na economia da região.

- Nossa previsão anterior indicava que o investimento cresceria 2,4% no país em 2015, mas já reduzimos a previsão para 1,1%. Não descartamos até uma previsão de que os investimentos encolham pelo segundo ano. Isso é muito ruim, pois a Petrobras, sozinha, representa 10% dos investimentos - afirma Alessandra, da Tendências, que avalia, porém, que o ano não será de recessão, dada a expansão do consumo das famílias e o efeito positivo para a indústria da valorização do dólar.

Cláudio Frischtak, sócio da Inter.B Consultoria Internacional de Negócios, espera que 2015 tenha crescimento zero e inflação de 7%, mas diz que pode haver recessão com os problemas na Petrobras e nas empresas afetadas pela Lava-Jato:

- Estamos diante de um ano muito ruim, com expectativas de forte restrição orçamentária para um novo ajuste fiscal, um cenário externo em desaceleração e agora uma crise na Rússia.

No Parque Tecnológico da UFRJ, há receio sobre como a crise afetará a área de pesquisa e desenvolvimento (P&D).

- A Petrobras investe mais de R$ 1 bilhão por ano em P&D. Tem forte atuação como elo entre empresas e universidades - alerta o diretor do parque, Maurício Guedes. - Virá corte em recursos, pela queda no preço do petróleo. No longo prazo, a tendência é de normalização.

Marcelo Nacif, gerente geral da Swires Oilfield Services, multinacional de equipamentos de transporte, diz que a dúvida é sobre que perfil a Petrobras terá:

- Se for a Petrobras atual, lenta, enfraquecida e com credibilidade abalada, será difícil. Se tivermos uma empresa reinventada, haverá melhora. Será preciso discutir regras em vigor.

oglobo.globo.com | 21-12-2014
Como prova a situação da Rússia, de Cuba ou do Brasil, a economia é um factor fundamental na distribuição do poder mundial. E é essa, porventura, uma das maiores vitórias de Obama.
www.publico.pt | 21-12-2014

O preço do petróleo despencou e levou com ele a cotação do rublo, que perdeu cerca de 45% do valor frente ao dólar, este ano. Petróleo e gás respondem por perto de 50% das exportações russas, e a crise em que o país mergulhou devido a isso pode se tornar o maior desafio à hegemonia do presidente Vladimir Putin, há 14 anos no poder. As autoridades russas iniciaram uma ação de emergência: o banco central elevou os juros em 6,5 pontos, para 17%, e já gastou mais de US$ 80 bilhões das reservas tentando sustentar a moeda.

As pesquisas ainda indicam um apoio popular acima de 70% a Putin graças a seu estrito controle sobre a mídia e o sistema político, e a suas bravatas contra o Ocidente. Mas isto pode começar a mudar com o que o ministro da Economia, Alexei Ulyukayev, descreveu como “tempestade perfeita”: queda das cotações do petróleo/gás, sanções do Ocidente pela crise na Ucrânia e desaceleração econômica chinesa e europeia. Há previsões de que a economia russa encolherá 4% em 2015. Para complicar, o presidente Obama se declarou disposto a pôr em execução uma nova rodada de sanções contra a Rússia, aprovadas pelo Congresso.

Mesmo assim, Putin manteve o tom desafiador em sua mensagem de fim de ano. Acusou o Ocidente de tentar subjugar seu país e culpou fatores externos pelo colapso do rublo e da bolsa. Admitiu que as sanções ocidentais devido à anexação da Crimeia causam problemas, mas afirmou que são “o pagamento de nossa independência e soberania”. Reconheceu que as dificuldades refletem o fracasso em diversificar a economia e pediu aos russos dois anos para reduzir a dependência das exportações de hidrocarbonetos. Admitiu que, se os problemas persistirem, “teremos de cortar algumas coisas”, sem especificá-las.

A crise e as sanções parecem levar Putin a um beco sem saída. Ele apostou alto na política de enfrentamento com o Ocidente na Ucrânia, que o levou a anexar a Crimeia e a apoiar forças separatistas no Leste do país, favoráveis, como ele, à incorporação da região ao território russo. As sanções, inclusive da Europa, e a queda do petróleo puseram em xeque sua política de expansão física dos domínios russos, de inspiração czarista. O presidente vê-se obrigado a buscar uma conciliação na Ucrânia, para fazer jus a uma redução das sanções econômicas, mas não pode parecer que esteja capitulando frente ao Ocidente. Por outro lado, se a cotação do petróleo não voltar a subir, não se sabe de onde o Kremlin tirará recursos para bancar a diversificação da economia russa, já que os investimentos privados estrangeiros também escasseiam.

Nessas circunstâncias, Putin precisará tirar do bolso outro inimigo externo para poder posar de herói e desviar a atenção dos russos dos atuais tempos de crise.

oglobo.globo.com | 20-12-2014
Stephen Harper. Em comunicado, primeiro-ministro criticou anexação da Crimeia e ações da Rússia no Leste da Ucrânia - Adrian Wyld / AP

OTTAWA — O Canadá anunciou nesta sexta-feira novas sanções contra a Rússia por seu apoio aos rebeldes no Leste da Ucrânia. As medidas afetam os setores de petróleo e gás natural — coração da economia russa — e proíbe a presença de 20 dirigentes políticos russos no território nacional canadense.

A proibição de viagens ao Canadá afeta principalmente membros do Parlamento russo e da Câmara dos Deputados, e a ministros da chamada “República Popular de Donetsk”, no Leste da Ucrânia, anunciou o primeiro-ministro canadense, Stephen Harper.

“O Canadá não aceita a ocupação ilegal da Crimeia e a atividade militar contínua e provocadora no Leste da Ucrânia”, afirmou Harper em um comunicado, no qual não descartou mais sanções caso “seja necessário”.

Ottawa também restringiu a exploração e extração de petróleo em águas profundas do Ártico e também impôs restrições à exploração do petróleo de xisto, “seguindo medidas adotadas pela União Europeia e os Estados Unidos”.

As novas restrições proibir "a exportação, venda, fornecimento e entrega de uma lista de produtos para a Rússia, como" bens financeiros, técnicos e outros bens abrangidos pela proibição".

oglobo.globo.com | 20-12-2014
O presidente americano Barack Obama proibiu novos investimentos na Crimeia, reforçando sanções na península que a Rússia anexou da Ucrânia no início deste ano.
atarde.uol.com.br | 19-12-2014

MOSCOU - O homem mais rico da Rússia, Alisher Usmanov transferiu seus investimentos na operadora de telecomunicação Megafon e na produtora de minério de ferro Metalloinvest para o país, atendendo a pedido do presidente Vladimir Putin, que tenta assim dar uma injeção de ânimo na combalida economia russa.

Anteontem, em entrevista coletiva de fechamento do ano, o líder russo reforçou seu empenho para que os empresários renacionalizem seus ativos, num momento em que o país se encaminha para a recessão, arrastado pelo derretimento dos preços do petróleo e abatido pela sanções impostas por Estados Unidos e Europa, em resposta à invasão da Crimeia, na Ucrânia.

A operação foi concretizada por meio de transferência de ações da Megafon para a AF Telekom Holding LLC, que está incorporada na Rússia. A telecom está no guarda-chuva da Telecominvest Holdings Limited, que tem sede no Chipre e é subsidiária da empresa de investimentos USM Holdings, de Usmanov. A AF Telekom agora detém 53,8% das ações da Megafon, segundo a empresa.

Outra subsidiária da USM Holdings com sede no Chipre, a USM Steel & Mining cedeu suas ações na Metalloinvest para a USM Metalloinvest, registrada na Rússia. “Esta medida tem relação com o anúncio do presidente Vladimir Putin de levar adiante a repatriação da economia russa e introduzir cláusulas no código fiscal relacionadas à taxação dos lucros de... empresas estrangeiras", declarou a USM Holdings em nota.

Usmanov é o maior acionista da USM Holdings, da qual detém 4%, e seus parceiros de longa data Vladimir Skoch e Farhad Moshiri possuem 30% e 10%, respectivamente.

oglobo.globo.com | 19-12-2014

MOSCOU - A Câmara dos Deputados da Rússia aprovou um projeto de lei nesta sexta-feira que permite a concessão ao setor bancário de uma ajuda de capital de 1 trilhão de rublos (US$ 16,5 bilhões), uma parte das medidas destinadas a proteger os bancos das sanções econômicas impostas pelo Ocidente.

O setor financeiro da Rússia está sofrendo com a ida do país rumo a uma recessão e também com as sanções do Ocidente devido à crise na Ucrânia, que restringiram o acesso dos bancos russos a mercados de capitais internacionais, aumentando significativamente os custos de financiamento.

A Câmara disse em seu site que havia aprovado o projeto de lei em todas as três versões exigidas, acelerando um processo que poderia demorar semanas.

O ministro da Economia, Anton Siluanov, disse a repórters nesta sexta-feira que bancos podem começar a receber o novo capital no começo do ano que vem, e que a lei cobriria todos os riscos porventura enfrentados pelos bancos.

O projeto de lei ainda precisa ser aprovado pelo Senado, e então assinado como lei pelo presidente Vladimir Putin.

oglobo.globo.com | 19-12-2014
Presidente russo,Vladimir Putin, durante a coletiva de imprensa de fim de ano nesta quinta-feira - MAXIM ZMEYEV / REUTERS

MOSCOU E RIO - Em uma entrevista coletiva de três horas, nesta quinta-feira, o presidente Vladimir Putin afirmou que a economia russa vai se recuperar da depreciação de 45% sofrida pelo rublo no ano. Ainda assim, a divisa perdeu 2,1% e foi a 61,50 por dólar em Nova York, após acumular desvalorização de 16% na semana.

Putin culpou fatores externos — ou seja, as sanções de Europa e Estados Unidos pela anexação da Crimeia — pela crise da Rússia e manifestou apoio às medidas tomadas pelo governo e pelo Banco Central do país. Mas recomendou que não sejam gastas todas as reservas internacionais tentando defender o rublo. O país tem, hoje, US$ 415 bilhões em reservas, e a expectativa é que gaste US$ 70 bilhões para proteger a moeda, além dos US$ 80 bilhões que já desembolsou neste ano.

— Com o pior cenário externo, a situação pode durar dois anos — disse. — Se ficar muito ruim, vamos mudar planos, cortar algumas coisas. Mas uma virada positiva é inevitável.

O presidente, porém, não detalhou quais medidas pode adotar para evitar uma recessão. As sanções, a forte queda nos preços do petróleo — com grande peso nas exportações do país — e o derretimento do rublo vêm pressionando a economia russa.

oglobo.globo.com | 19-12-2014

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, garantiu nesta quinta-feira que a economia vai se recuperar após a dramática queda do rublo neste ano, mas não ofereceu nenhuma solução para a crise financeira que se aprofunda.

O post Rússia: Putin diz que economia vai se recuperar, mas não oferece saída apareceu primeiro em Jornal Correio do Brasil.

correiodobrasil.com.br | 18-12-2014
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, afirmou nesta quinta-feira (18) que a economia russa vai se recuperar depois do colapso do rublo ante o dólar, mas alertou que pode demorar dois anos para que o país saia da crise. Leia mais (12/18/2014 - 09h04)
redir.folha.com.br | 18-12-2014

WASHINGTON — Em agosto de 2007, quando já havia anunciado que concorreria à Presidência dos EUA no ano seguinte, o então senador por Illinois Barack Obama visitou Little Havana, o bairro em Miami onde estão enraizados exilados e cubano-americanos. Atento aos ventos da mudança, trazidos pelo rejuvenescimento da comunidade e a crescente expectativa de que as condições de saúde de Fidel levariam a uma mudança de comando na Ilha, Obama prometeu relaxar restrições a remessas e viagens de familiares a Cuba, restaurar ligações culturais e educacionais e trazer Havana à mesa de discussões sobre temas de interesse mútuo. Esse é o caminho para promover a abertura democrática, disse Obama na ocasião: “Estamos engajados em uma política fracassada com Cuba há 50 anos, precisamos mudá-la”.

Sete anos depois, Barack Obama foi além e anunciou a retomada das relações com Cuba. Mais do que simplesmente fazer jus à sua convicção pessoal de que o anacronismo do relacionamento com Havana não serve aos interesses de americanos e cubanos, Obama cementou com a decisão um legado de grande envergadura, que excede Cuba e se estende à política com toda a América Latina. E isso no momento mais delicado de seu segundo mandato.

Fragilizado politicamente no campo doméstico — impopular e sem o comando do Senado a partir de janeiro _ e enfrentando uma onda de dissabores no fronte externo — que vão da Rússia a Israel, passando pela deterioração das condições no Iraque e na Síria —, o presidente americano estava prestes a tornar-se “pato manco”, como designa-se nos EUA o mandatário que não tem apoio para emplacar uma agenda na reta final do governo.

Agir na política externa é uma saída comum para presidentes nesta condição. Normalmente, é a única seara na qual têm liberdade de ação em relação ao Congresso. Ainda assim, o passo histórico _ mesmo refletindo a necessidade política de realizar algo grandioso _ não é uma cartada de última hora. Foi cuidadosamente coreografado desde a posse de janeiro de 2009.

Tentando ao máximo fugir do radar dos congressistas de origem cubana que apregoam a linha dura com Cuba, o governo Obama iniciou conversas confidenciais com Havana em maio de 2009, um mês após as primeiras restrições a viagens e remessas serem levantadas. Os EUA não vetaram a reinclusão de Cuba à Organização dos Estados Americanos (OEA) logo depois. Grupos de cooperação em imigração, ligação postal e de telecomunicações, contrabando, narcóticos e segurança foram criados. As restrições foram relaxadas ainda mais em 2011,o orçamento de ajuda cresceu.

Houve reveses. Programas secretos de promoção da sociedade civil vieram à toma e irritaram Havana. Acusações de ataques cibernéticos se seguiram. E Alan Gross foi preso acusado de espionagem, esfriando a relação. Mas a disposição de Obama continuou. Por intermédio dos governos do México e da Espanha e do ex-presidente Jimmy Carter, por exemplo, enviou recado a Raúl Castro: me faça um gesto, libere Alan Gross, e poderemos prosseguir. Castro propôs então a criação de um “canal diplomático secreto”, que, após muitas idas e vindas, finalmente virou mesa de negociação em junho de 2013.

De lá para cá, as discussões foram incessantes, sob a batuta do chefe de Hemisfério Ocidental do Conselho de Segurança Nacional, Ricardo Zuñiga, e da subsecretária de Hemisfério Ocidental do Departamento de Estado, Roberta Jacobson. Faltava o momento político. Ele veio em novembro, com a derrota fragorosa de Obama nas eleições legislativas. Não à toa, foi o mês em que as negociações com Havana foram concluídas.

— A vitória republicana liberou Obama das amarras com o Congresso e da cautela excessiva que marca seus passos. Deixou o presidente disposto a assumir riscos históricos para um legado estrondoso — afirma Peter Schechter, diretor do Centro de Estudos de América Latina do American Council.

Com a decisão, Obama também refaz laços com a América Latina, um objetivo declarado com ênfase ontem pelas autoridades americanas que conversaram com jornalistas antes do anúncio oficial. Mandatários de toda a região vêm cobrando mudança na política dos EUA sucessivamente, incluindo de países muito próximos de Washington, como México, Colômbia e Chile. Isto ficou claro na votação quase unânime pela reinclusão de Cuba na OEA, em 2009, e na decisão de convidar o país para a Cúpula das Américas de 2012.

Além disso, a região se sente relegada a segundo plano pelo governo Obama, cujo foco esteve majoritariamente no Oriente Médio e na Ásia. E considera inconcebível a manutenção das hostilidades em pleno século XXI, quando interesses comuns e alianças devem prevalecer. Mas os EUA esperam da América Latina contrapartida, na forma de pressão por democratização na Ilha.

— O embargo é um fardo pesado nas nossas relações nas Américas. Em vez de discutirmos exportações, narcóticos, investimentos, passamos nossas reuniões ouvindo cobranças e respondendo sobre as relações EUA-Cuba, mesmo com nossos aliados mais próximos. Portanto, esta decisão de normalizar relações com Havana pode ser um passo transformador nas nossas relações na América Latina. Mas diremos aos nossos parceiros: eles têm que levantar agora a questão dos direitos humanos com Cuba — afirmou uma autoridade americana.

Líder cubano é visto pela Casa Branca como interlocutor mais palatável do que Fidel

Em dezembro de 2008, quando Barack Obama já havia sido eleito, mas ainda não havia sequer tomado posse, Raúl Castro fez, no Brasil, uma proposta que parecia loucura, mas que culminou ontem no maior movimento de reaproximação entre EUA e Cuba desde que o atual dirigente máximo cubano acompanhou seu irmão Fidel na revolução que depôs Fulgencio Batista:

— A época dos gestos unilaterais se acabou em Cuba. Têm que ser gestos bilaterais. Esses prisioneiros (políticos), querem soltá-los? Que nos digam, que os mandamos para lá (EUA) com família e tudo. Mas que devolvam nossos cinco heróis — afirmou.

Ontem, a soltura de presos políticos cubanos fez parte dos gestos bilaterais que selaram a histórica reaproximação — assim como a libertação dos três remanescentes dos tais “cinco heróis”, como Raúl e os cubanos se referem aos espiões presos em 1998.

A presença de Raúl à frente do governo cubano contribuiu para a distensão com os EUA, já que o irmão mais novo de Fidel vem conduzindo, desde que assumiu oficialmente o poder em 2008, uma lenta abertura da economia cubana. A partir da renúncia de um debilitado Fidel Castro, foram realizadas pelo menos 20 reformas na ilha, que vão do plano econômico ao social.

Na economia, o maior avanço foi realizado em 2011, quando o governo de Raúl legalizou o mercado de automóveis e autorizou a compra e venda de imóveis, anulando a proibição das duas atividades, vigente por décadas. No fim daquele ano, o regime castrista começou a conceder empréstimos bancários aos que quisessem abrir negócios ou restaurar suas casas.

No total, mais de 355 mil pessoas receberam licenças para abrir negócios. Mas, se quase em toda esquina de Havana há cartazes improvisados que anunciam um novo empreendimento, aqueles que se aventuraram e abriram empresas privadas se queixam dos impostos altos e da falta de matéria-prima. Como a maioria não tem capital para abrir negócios inovadores e se limita a instalar cafeterias, salões de beleza e restaurantes, a concorrência também ficou acirrada.

Em janeiro deste ano, os cubanos passaram a ter permissão para sair da ilha sem autorização do governo. A eliminação do processo de solicitação de “cartão branco” foi anunciada em outubro de 2013, como parte de uma abrangente reforma migratória.

As mudanças políticas foram mais lentas. Até agora foram libertados cem prisioneiros de consciência, e 20 dissidentes retornaram ao país. Também foram fixados dois mandatos de cinco anos para os cargos do governo e do partido, além de uma campanha contra a corrupção, e uma certa abertura para discussão e crítica — apesar disso, ativistas continuam sendo perseguidos e presos.

Embora lentas, as reformas são inéditas em 55 anos de domínio castrista na ilha — assim como a retomada de relações com os EUA. Já em relação ao embargo econômico, que continua em vigor após mais de cinco décadas, Raúl terá, por enquanto, de manter a resposta que deu na mesma visita ao Brasil em 2008:

— Esperaremos com paciência.

oglobo.globo.com | 18-12-2014

RIO — Consultor e ex-professor da Universidade de Miami, Andy Gómez, questiona preparativos cubanos para a reaproximação.

Qual será o impacto mais imediato dessa reaproximação na ilha?

A primeira coisa será a injeção de moeda. Os cubano-americanos poderão mandar mais dinheiro para casa, o que terá um grande impacto para aliviar a economia local. Vai ajudar a movimentar o mercado, mas até certo ponto, porque há escassez de manufaturados em Cuba. Esse será um primeiro alívio para a economia. É cedo para falar no fim do bloqueio, o teste verdadeiros das intenções do governo cubano acontecerá em janeiro, quando a delegação americana for negociar em Havana.

As negociações com Washington já podiam ter acontecido antes. Por que o governo de Raúl Castro decidiu dialogar agora?

A conjuntura internacional forçou o regime à aproximação com os vizinhos americanos. Os parceiros comerciais de Cuba, Irã, Rússia e Venezuela, estão com problemas por conta da queda dos preços do petróleo. Cuba acabou um pouco esquecida por seus amigos. Essa crise já se faz sentir na ilha. Na semana passada, por exemplo, o ministro cubano da Economia, Marino Murillo, um dos principais arquitetos das reformas, afirmara que o mercado local está à beira do colapso. A estimativa é que falte na economia cubana uma injeção de pelo menos US$ 8 milhões por mês para manter o país de pé. Se a economia cubana não crescer pelo menos 3%, terá muitos problemas. Por isso, restou ao regime olhar para os EUA. Mas não se pode esquecer que este é um primeiro passo.

Quais serão os pontos nevrálgicos para o avanço das negociações?

Em primeiro, é preciso saber se existe uma disposição verdadeira de Raúl Castro para honrar futuros acordos, sobretudo na área de respeito a direitos humanos e libertação de presos políticos. Isso me preocupa, é discutível, mas pode ser conversado, pode ser que aconteça. Acho que o mais importante é saber o quão preparado está o governo cubano para reatar as relações com os Estados Unidos. Desde a Revolução, Cuba enfrenta problemas de corrupção que a tornam pouco atrativas para investidores. Além disso, faltam até estruturas de governo para aproveitar todas as possibilidades da reaproximação. Por exemplo, se uma empresa americana quiser investir em Cuba, não há nem leis bancárias ou normas de regulamentação. Será que o governo preparou tudo isso? Há ainda o fato de os militares controlarem mais de 60% da economia da ilha. Será que vão estar dispostos a abrir mão deste controle? Vai ser um processo longo e complexo.

oglobo.globo.com | 18-12-2014
Sam Greene, diretor do Instituto de Rússia do King's College - Reprodução/King's College

LONDRES - O diretor do Instituto de Rússia do King's College, Sam Greene, em Londres, diz que a equipe econômica do presidente Vladimir Putin tem de agir depressa porque “as reservas do país não vão durar para sempre”.

Quais são os principais problemas da Rússia neste momento?

A economia russa tem problemas reais. E o mais importante deles agora é a falta de quaisquer fontes de crescimento. Sem os preços altos do petróleo e sem acesso aos mercados de capitais, a economia, por assim dizer, está sem combustível.

Mas há também uma crescente falta de confiança, não?

A tudo isso se soma uma ampla falta de confiança na capacidade de o governo pensar e implementar as políticas que possam colocar a situação nos eixos. O banco central da Rússia mostrou que pode manter o rublo sob controle, até um certo ponto, e, quem sabe, até valorizá-lo, mas a um alto custo e com grande risco. Agora o governo terá de aparecer com soluções reais, e as autoridades não têm muito tempo para isso. As reservas internacionais da Rússia não vão durar para sempre.

Que medidas podem ser tomadas para contornar a crise?

O presidente Putin e seus ministros não têm como trazer os preços do petróleo para os altos patamares em que se encontravam, mas podem fazer outras coisas. Podem buscar uma acomodação na relação entre o Ocidente e a Ucrânia, de modo a conseguir que as sanções aplicadas sejas suspensas. Eles também podem apoiar investimentos reais e começar a se mexer contra os monopólios e cartéis que tanto controlam a economia. E eles precisam garantir que a independência do banco central será mantida.

Qual é a agenda mais imediata de Putin?

As pressões imediatas sobre ele são para cumprir suas obrigações sociais para com aposentados e funcionários públicos, e garantir a prosperidade do seu círculo de apoio. Será quase impossível fazer as duas coisas enquanto buscar reformas e a distensão política com a Europa e os Estados Unidos.

oglobo.globo.com | 18-12-2014

SÃO PAULO – A crise cambial na Rússia, que gerou uma onda de desconfiança dos investidores internacionais sobre o país, também teve reflexo em outras nações consideradas emergentes, entre elas o Brasil. A percepção do risco de investir na China, Brasil, Rússia, Índia e África do Sul, grupo que ficou conhecido como os Brics, subiu em dois dias (segunda-feira e terça-feira), segundo alguns indicadores. Os Credit Default Swaps (CDS), título de cinco anos que é uma espécie de seguro contra calote da dívida soberana, da Rússia subiram de 425 pontos para 575 pontos uma alta de 35%. Já os CDS do Brasil saltaram de 192 pontos para 240 pontos, no mesmo período, uma elevação de 25% e a maior alta entre os demais Brics. Na quarta-feira, com uma melhora dos mercados internacionais, o CDS do Brasil recuou para 201 pontos. Segundo economistas, a percepção de risco do Brasil, medida pelo CDS, já vinha subindo desde 2013.

— Na prática, os investidores estão pagando mais caro pelo seguro contra um possível calote desses países emergentes. O CDS do Brasil subiu num ritmo mais elevado do que o dos demais Brics porque os fundamentos econômicos do país ficaram muito mais frágeis nos últimos anos. Assim, o Brasil ficou mais exposto às turbulências dos mercados externos — diz Rodolfo Oliveira, economista da Consultoria Tendências.

Em dois dias, o CDS da África do Sul saltou de 197 para 230 (alta de 16,7%); o da China subiu de 82 pontos para 95 (elevação de 15,8%) e o da Índia foi de 155 pontos para 165 pontos (salto de 6,45%). A percepção de risco em relação ao Brasil está pior inclusive em relação a outros países da América do Sul, como Chile, Colômbia, Peru e México, que tinham um CDS médio de 111 pontos na quarta-feira.

— Ambas economias estão operando sob um alto grau de incerteza em relação à condução de suas politicas econômicas e no caso da Rússia, soma-se o fator geopolítico — diz o economista Daniel Cunha, da XP Investimentos.

Outro indicador de risco conhecido como Emerging Markets Bond Index (Embi) também se mexeu para cima. O Embi da Rússia subiu de 319 pontos no final de novembro para 500 pontos ontem. O indicador do Brasil subiu de 241 para 291 ontem, no mesmo período. Esse indicador mostra a diferença entre os juros pagos pelos títulos americanos e brasileiros. Quanto mais alto for o Embi, pior para o país, já que mostra que os investidores estão mais desconfiados da capacidade do governo de pagar suas dívidas.

— Nesses momentos de tensão nas praças financeiras internacionais, os investidores se livram de ativos considerados de risco, como o real e o rublo, e migram para a segurança do dólar. Isso explica a alta global da moeda americana — diz Luiz Roberto Monteiro, da corretora Renascença.

O economista da Tendências lembra que na crise mundial de 2008, o Brasil se mostrou mais resistente às turbulências externas, já que tinha fundamentos econômicos mais sólidos.

— Tínhamos superávit em conta corrente, a situação fiscal estava melhorando, a meta de inflação estava sendo cumprida (em 2006, por exemplo, o IPCA ficou em 3% ao ano), e a economia estava crescendo (em 2007, o Produto Interno Bruto se expandiu 6,1%). Na época, as reservas internacionais eram de US$ 180 bilhões frente aos US$ 370 bilhões atuais, mas o país estava mais equilibrado em relação a outros fundamentos econômicos — analisa Rodolfo Oliveira.

Ele observa que a crise na Rússia afetou a percepção de risco dos emergentes, mas os Credit Default Swaps do Brasil já vinham numa trajetória de alta desde o início de 2013.

— Foi quando veio à tona, pela primeira vez, que o governo estava utilizando a chamada 'contabilidade criativa' para fechar as contas de 2012 — diz o economista, que lembra que o CDS do país estava em 104 pontos em novembro de 2012; subiu para 120 pontos já em fevereiro e chegou ao patamar de 213 em dezembro daquele ano.

ELEIÇÕES TAMBÉM INFLUENCIARAM ÍNDICE

Rodolfo Oliveira explica que esse movimento de alta reflete o sentimento dos investidores internacionais, que passaram a desconfiar da nova matriz econômica do governo, estimulando o crescimento do país via consumo. À medida que esse modelo começou a produzir mais inflação do que crescimento, a percepção de risco do Brasil foi aumentando.

As eleições presidenciais deste ano ano foram outro fator de volatilidade para o risco-Brasil medido pelo CDS. Rodolfo Oliveira lembra que as duas principais candidaturas (Dilma Rousseff e Aécio Neves) traziam visões muito diferentes para a economia do país. O mercado claramente tinha simpatia pelo projeto do candidato do PSDB, Aécio Neves, já que quando as pesquisas de intenção de voto indicavam seu crescimento, o dólar recuava e a bolsa subia. Até mesmo a ascensão da candidatura de Marina Silva foi vista com mais simpatia pelo mercado.

— No dia 1º de setembro, quando uma pesquisa indicou que Marina tinha uma diferença de 10 pontos percentuais no segundo turno em relação a Dilma, o CDS recuou para 126 pontos. Em 8 de agosto, ele estava em 168 pontos, quando Dilma tinha a vantagem — lembra o economista da Tendências.

No primeiro turno da eleição, em 5 de outubro, o CDS subiu a 174 pontos e depois recuou a 154 no dia 26 de outubro, data do segundo turno.

oglobo.globo.com | 18-12-2014

Os Estados Unidos e Cuba começaram ontem a derreter o imenso iceberg que se formou nas últimas décadas entre eles, separados por apenas 150 quilômetros. Em pronunciamento em que anunciou o início da normalização das relações com a ilha comunista, o presidente Barack Obama foi claro: “Estes 50 anos mostraram que o isolamento não funcionou. É hora de uma nova abordagem.” Esta “nova abordagem” representa uma virada histórica para os EUA e Cuba, com forte impacto em todo o hemisfério, por seu poder de influenciar posições e políticas envelhecidas de blocos e de cada nação em particular.

Os dois países têm um passado de hostilidade, ódio e frustração. Em 1962, o mundo esteve à beira de uma guerra nuclear pelo estacionamento de mísseis soviéticos em Cuba, de onde poderiam atingir qualquer ponto dos EUA.

Só ontem se soube que negociações secretas entre Washington e Havana ocorriam há 18 meses, sob os auspícios do governo do Canadá. Soube-se também do papel decisivo do Papa Francisco no encorajamento dos contatos entre os dois lados. Obama e o presidente cubano, Raúl Castro, fizeram questão de agradecer ao Canadá e ao Pontífice.

Revelou-se, ainda, com o anúncio do degelo nas relações, que Obama e Castro fecharam a negociação num telefonema de hora e meia na terça-feira. Eles confirmaram, nessa conversa, a libertação por Cuba do empreiteiro americano Alan Gross, condenado na ilha a 15 anos de prisão, supostamente por espionagem, tendo cumprido cinco anos da pena, e com a saúde se deteriorando. Havana libertou também um espião americano preso há 20 anos. Em troca, Washington soltou três espiões cubanos, de um grupo original de cinco. Cuba se comprometeu, também, a libertar 53 presos, considerados políticos pelos EUA, a facilitar o acesso da população à internet e a abrir espaço para mais visitas de avaliação da ONU e da Cruz Vermelha.

Raúl Castro anunciou as mudanças ao povo cubano no mesmo horário em que Obama falava, porém de forma mais resumida. “Esta decisão do presidente Obama merece respeito e reconhecimento do nosso povo”, afirmou o dirigente cubano. Todavia, fez questão de observar que o bloqueio econômico a Cuba persiste — ele só poderá ser levantado pelo Congresso americano. Mas Obama expressou a confiança de “poder comprometer o Congresso com um debate sério e honesto sobre o levantamento do embargo”. Raúl assumiu o governo cubano em 2006, por problemas de saúde de Fidel Castro, que dirigia o país desde a vitória da revolução, em 1959. Fidel não teve participação no presente processo de reaproximação, disse o governo americano.

Obama anunciou que o processo de normalização das relações começará com o restabelecimento de embaixadas nas respectivas capitais. O secretário de Estado, John Kerry, informou que a subsecretária para o Hemisfério Ocidental, Roberta Jacobson, viajará em janeiro a Cuba para iniciar as discussões nesse sentido com os cubanos. “Espero ser o primeiro secretário de Estado a visitar Cuba em mais de 60 anos”, observou Kerry. Washington retirará Cuba da relação de países que incentivam o terrorismo.

Cuba é um anacrônico bastião stalinista caribenho, e o regime comunista fez da ilha um país fechado. Menos apenas que a Coreia do Norte. A radical mudança de posição cubana, ao concordar com a reaproximação com os EUA, reflete o reconhecimento de seus dirigentes de que a abertura econômica, adotada com parcimônia nos últimos anos, se revelou insuficiente para dar ao país o dinamismo que a sociedade requer. A isso se somou a debacle econômica da Venezuela, mantenedora do regime de Havana ao fornecer petróleo em troca da atuação de médicos cubanos nos programas sociais venezuelanos. Outros parceiros cubanos, como Rússia e Irã, também estão em dificuldades. A crise cubana ameaça a hegemonia do Partido Comunista, que já havia aumentado a repressão a dissidentes.

Os EUA entenderam, finalmente, que o arsenal de medidas contra Cuba há tempos passou a servir apenas de argumento aos líderes comunistas para manter as bases do regime. Os governantes cubanos aprenderam a se valer da inimizade de Washington para justificar a repressão aos dissidentes e os altos investimentos militares. Aos cubanos, as migalhas.

A manutenção do embargo econômico tornou-se uma questão capaz de mexer profundamente com a política americana. A Flórida concentra uma enorme população de cubanos-americanos, constituída a partir dos que deixaram a ilha nas últimas décadas para escapar de perseguições políticas e/ou das péssimas condições de vida. Os representantes dessa população americana aprenderam a usar politicamente a aversão ao regime comunista e ameaçavam sempre levá-la a votar contra candidatos favoráveis à suspensão do embargo. E a Flórida tem peso importante nas eleições presidenciais nos EUA. Mas essa situação está mudando, na troca de gerações, embora o senador Marco Rubio, descendente de cubanos e possível presidenciável republicano, tenha criticado o reatamento de relações. A seu ver, isto dará novo fôlego ao Partido Comunista para permanecer no poder. Parece estratégia eleitoral.

Numa outra reviravolta, os EUA anunciaram que não farão objeção à participação de Cuba na próxima Cúpula das Américas, a realizar-se em abril, no Panamá, com a presença de Obama. Há décadas, Washington resistia ao comparecimento cubano às cúpulas hemisféricas, apesar da pressão dos países latino-americanos.

O anúncio do reatamento cubano-americano se deu quando os líderes do Mercosul se reuniam na cidade de Paraná, na Argentina, e coube ao presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, reconhecer “o gesto do presidente Barack Obama, um gesto de valentia e necessário na História” (...)

A iniciativa dos EUA e de Cuba apanha a Venezuela em momento delicado, com sua economia destroçada pela queda do preço do petróleo. A política chavista de desviar a atenção dos problemas internos para um inimigo externo — os EUA — deixa de ter apelo com o acercamento entre Havana e Washington.

Os EUA querem fazer negócios em Cuba, é certo, mas o mercado cubano ainda é pequeno e pobre. O impacto do anúncio de ontem é mais expressivo, a curto prazo, para a América Latina. Ele tira sustentação de aspectos da política externa brasileira e de aliados bolivarianos, por exemplo, voltados para temas superados da Guerra Fria, como confronto Norte-Sul, o antiamericanismo e o terceiro-mundismo.

Mas ainda é cedo para garantir, como imaginam os EUA, que a abertura diplomática reverterá em mais liberdade e vida mais digna para os cubanos. Os caminhos, porém, para isso já podem ser abertos.

oglobo.globo.com | 18-12-2014

LONDRES — O secretário americano de Estado, John Kerry, reconheceu nesta terça-feira que a Rússia tem feito manobras construtivas para reduzir tensões no Leste da Ucrânia, e levantou a possibilidades de que o governo americano cancele as sanções se Moscou continuar a adotar medidas positivas.

— Essas sanções podem ser abandonadas em questão de semanas ou até mesmo dias, dependendo das escolhas que o presidente Vladimir Putin faça — afirmou Kerry a repórteres. — Seu único propósito é restaurar a norma internacional de respeito entre as nações, e garantir o respeito às fronteiras, soberania e direitos.

Em Washington, o porta-voz da Casa Branca, Josh Earnest afirmou que o presidente Barack Obama deve assinar um projeto que prevê novas sanções à Rússia por suas atividades na Ucrânia, e autoriza o envio de armamentos ao governo de Kiev. O presidente, no entanto, afirmou que não tomará nenhuma medida que não esteja em sintonia com a posição dos parceiros europeus dos Estados Unidos.

A porta-voz do Departamento de Estado, Jen Psaki, afirmou que não há nenhuma discrepância entre os comentários de Kerry e o anúncio da Casa Branca.

— A Rússia tem uma escolha. Há medidas específicas que podem ser implementadas para seguir as orientações do tratado de Minsk — afirmou Psaki. — Eles podem fazer isso e têm o poder de adotar essas medidas. Se fizerem, isso obviamente terá impacto sobre as ações que os Estados Unidos podem tomar. Mas não quero que isso seja tirado de proporção. Esse é um dos motivos pelo qual o secretário voltou a reiterar as preocupações que ainda temos.

O presidente ucraniano, Petro Poroshenko, celebrou um breve período de calma no qual tiroteios não foram registrados no Leste da Ucrânia como um sinal positivo.

Perguntado sobre a forte queda do rublo nesta terça-feira, Kerry citou não apenas as sanções ocidentais, mas também a queda nos preços do petróleo e o momento da economia russa.

— Há uma série de fatores combinados, mas as sanções foram claramente aplicadas para fazer com que o presidente Putin faça escolhas diferentes.

oglobo.globo.com | 17-12-2014

RIO — O Tesouro Nacional suspendeu por cerca de duas horas na manhã desta terça-feira as negociações no programa Tesouro Direto por conta da alta volatilidade nos juros futuros. As taxas oscilaram intensamente após o aumento de 10,5% para 17% dos juros na Rússia, ontem, o que levou o mercado a prever taxas maiores também no Brasil.

“Devido à forte volatilidade nas taxas de juros dos títulos públicos nesta manhã, informamos que o Tesouro Direto foi suspenso às 09:20. A expectativa é de normalização por volta das 11 horas”, comunicou o Tesouro Nacional pela manhã.

O contrato de DI Futuro é um derivativo baseado em taxa de juros e negociado na BMF&Bovespa. Ele é a referência utilizada pelo Tesouro Nacional para determinar os preços dos títulos públicos, que são oferecidos eletronicamente no programa Tesouro Direto.

— Quando a oscilação é muito forte, como a de hoje, fica difícil para o Tesouro exibir os preços dos títulos na agilidade necessária para o investidor, pois perde-se a referência — afirmou o diretor de gestão de recursos da Ativa Investimentos, Arnaldo Curvello. — A NTN-B (Notas do Tesouro Nacional – Série B) 2050, por exemplo, que havia fechado ontem a 6,40% ao ano chegaria a atingir 6,75% com o DI de hoje, uma alta absurda para esse título. No fim do dia, ela fechou em 6,45%, perto do valor de ontem.

O contrato DI janeiro/17 chegou a subir 80 pontos, atingindo o teto de negociação de 13,49%, a maior alta desde 2008. Já o DI janeiro/21 avançou até 58 pontos, chegando a 13,07%. No fim do dia, os dois fecharam respectivamente a 12,97% e 12,64%. Segundo Curvello, o DI reagiu hoje à expectativa de que a alta dos juros na Rússia e seus efeitos no câmbio acabam gerando a expectativa de que o Banco Central brasileiro seja obrigado a elevar suas taxas.

— Com o déficit em conta corrente que o Brasil tem, o país precisa atrair capital de curto prazo para financiá-lo. Esse capital é disputado com outros países emergente por meio da atratividade das taxas de juros. Se um outro, digamos, competidor do Brasil, como a Rússia, eleva os juros, o país se vê obrigado a elevar as suas também — explicou. — Por esse motivo, a tendência é que as taxas de DI permaneçam voláteis por bastante tempo.

O Tesouro Direto teve suas negociações suspensas nove vezes desde o início de novembro por causa de oscilações intensas nos juros futuros. As suspensões também foram frequentes durante as eleições, quando o mercado flutuou ao sabor dos rumores políticos.

oglobo.globo.com | 16-12-2014
Painel mostra a cotação do rublo em Moscou: moeda voltou a cair, apesar da elevação da taxa de juros para 17% - MAXIM ZMEYEV / REUTERS

NOVA YORK – Os mercados emergentes terminarão o ano quase do mesmo jeito que começaram: em queda livre. Da Rússia à Venezuela, da Tailândia ao Brasil, as ações, os títulos e as moedas do mundo em desenvolvimento estão despencando.

O rublo russo ultrapassou a barreira de 64 por dólar pela primeira vez na história na segunda-feira. Os bonds venezuelanos afundaram para menos de 40 centavos por dólar, e as ações tailandesas sofreram a maior queda em 11 meses. O mercado de dívida corporativa do Brasil ainda está sob os efeitos da investigação de corrupção na Petrobras, que contaminou o mercado. Tudo isso tem certo ar familiar, que data de 1998, quando, exatamente como agora, o petróleo estava despencando a levando a Rússia e a Venezuela, exportadoras da commodity, para uma crise financeira.

Embora muito tenha mudado nos mercados emergentes desde então — talvez a mudança mais importante tenha sido que os países têm mais reservas de moeda estrangeira e taxas de câmbio mais flexíveis —, os sinais de contágio estão se acumulando. Na semana passada, os investidores retiraram mais de US$ 2,5 bilhões de fundos negociados em Bolsa nos EUA que compram ações e bonds de mercados emergentes. Foi o maior fluxo de saída desde janeiro, quando instabilidades políticas e financeiras da Argentina à Turquia e os efeitos adversos da reversão de políticas do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) provocaram a fuga dos gestores de recursos.

— Passamos para o modo liquidação — disse Peter Lannigan, estrategista da CRT Capital Group para mercados emergentes, em entrevista por telefone de Stamford, Connecticut. — Neste momento, as pessoas estão vendendo, os vencedores e os perdedores.

ÍNDICE DE VOLATILIDADE

Um índice que acompanha 20 moedas de mercados emergentes caiu na segunda-feira para o menor patamar em mais de uma década, minado pela queda dos preços do petróleo e pela desaceleração do crescimento na China. A lira turca desabou para a mínima histórica depois que a polícia prendeu jornalistas suspeitos de vínculos com o clérigo Fethullah Gülen nos EUA, e a rúpia indonésia despencou para o menor patamar desde 1998.

Em uma reunião não programada, o Banco Central da Rússia elevou a taxa de juros de referência de 10,5% para 17%, vigente desde esta terça-feira. Os responsáveis pela política econômica incrementaram os custos de tomar empréstimos para limitar a desvalorização da moeda e os riscos de inflação, segundo um comunicado no site da autoridade monetária. A medida foi tomada depois que a moeda despencou para o recorde de 64,4455 por dólar. Mas parece não ter adiantado. Hoje, o rublo chegou a cair 19%, mas fechou em baixa de 3,01%, a 67,4764 por dólar.

Os US$ 4 bilhões em bonds denominados em dólar da Venezuela que vencem em 2027 afundaram 3,4 centavos de dólar para 37,8 centavos por dólar, e a preocupação de que o colapso do petróleo leve o país sul-americano a dar o calote está aumentando. Os preços do petróleo recuaram 25%, até o mínimo em cinco anos, desde que a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) decidiu não reduzir a produção para lidar com o excesso de oferta, em uma reunião no dia 27 de novembro. Os preços caíram 48% desde meados de junho.

No Brasil, os bonds de referência da Petrobras, o maior mutuário internacional no mundo em desenvolvimento nos últimos cinco anos, despencaram para uma mínima recorde depois que a empresa adiou pela segunda vez a publicação dos resultados financeiros do terceiro trimestre. A companhia investiga novas declarações de testemunhas no que se tornou o maior escândalo de lavagem de dinheiro e corrupção da História do Brasil. O desmoronamento de ações e debêntures está se espalhando para quase todas as grandes empresas brasileiras que têm negócios com a estatal.

Os investidores poderiam sofrer ainda mais se os preços do petróleo continuarem recuando e o Fed indicar que as taxas de referência serão elevadas antes do esperado na reunião que fará nesta semana.

— Um enorme número de estratégias de investimento dependia de que as taxas de juros continuassem baixas e de que os preços de commodities permanecessem altos — disse Michael Roche, estrategista da Seaport Group, em Nova York. — A perturbação está causando, neste exato momento, a primeira de muitas relocações das carteiras mundiais de investimentos para afastá-las de setores e economias pobres.

oglobo.globo.com | 16-12-2014
As ações negociadas em Tóquio fecharam em queda nesta terça-feira, pela quinta vez em seis dias, em meio a uma combinação de quatro fatores: enfraquecimento do dólar ante o iene, recuo no índice de gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês) industrial da China, preocupações com a economia da Rússia e novas quedas nos preços do petróleo.
atarde.uol.com.br | 16-12-2014

MOSCOU - Após o rublo sofrer a maior queda em 16 anos, pressionado pela fuga de capitais, o Banco Central da Rússia surpreendeu os mercados, nesta segunda-feira, ao elevar os juros de 10,5% para 17% na sexta alta de 2014.

A decisão foi tomada numa reunião extraordinária da autoridade monetária, que já gastou mais de US$ 80 bilhões das reservas internacionais do país para sustentar o valor da moeda, cuja depreciação chega a 49% neste ano.

Com o aumento dos juros, o BC espera estancar a depreciação da moeda e e combater os riscos de inflação, num momento em que a economia russa é sufocada pelas sanções adotadas pelo Ocidente como retaliação à Rússia pela incursão na Ucrânia.

oglobo.globo.com | 15-12-2014

MOSCOU - A economia da Rússia deve ter o maior recuo no ano que vem desde 2009, caso a média do preço do petróleo se situe em torno de US$ 60 o barril em um cenário de estresse, informou nesta segunda-feira o banco central (BC) russo, destacando o impacto da queda acentuado da cotação da commodity no país, um dos maiores produtores de petróleo e gás natural do mundo.

Com os preços do petróleo permanecendo neste patamar no fim de 2017, o Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos pelo país) provavelmente vai encolher entre 4,5% e 4,7%; e 0,9% a 1,1% em 2016, informou o Banco da Rússia em um relatório divulgado nesta segunda-feira. O rublo ampliou sua trajetória de desvalorização após a divulgação do documento, recuando mais de 10% frente ao dólar.

Cliente é visto numa casa de câmbio em Moscou: moeda russa continuou desvalorizando - Alexander Zemlianichenko Jr / Bloomberg

A avaliação da autoridade monetária russa sinaliza a crescente preocupação com relação à queda dos preços do petróleo, cujos efeitos negativos se somam aos das sanções impostas ao país devido ao conflito na Ucrânia. Além disso, o país vive sua pior crise cambial desde 1998. A inflação deve se acelerar para 10,1% este mês, na comparação com dezembro do ano passado, e alcançar 11,5% no próximo trimestre, antes que comece a desacelerar, segundo o BC russo.

“Uma meta de inflação de 4% é alcançável no fim de 2017, mesmo que os fatores externos continuem desfavoráveis”, afirmou o primeiro vice-presidente do BC, Ksenia Yudaeva, em um comunicado. “Isto vai requerer uma política monetária apertada em 2015.”

O gasto do consumidor pode contrair entre 6,3% e 6,5% ano que vem, ao passo que os investimentos em capital fixo provavelmente vai cair entre 10,1% e 10,3%, segundo o cenário de estresse.

DEFESA DO RUBLO

O banco central, presidido por Elvira Nabiullina, ainda não conseguiu inverter a queda da moeda russa, mesmo após gastar um quinto de suas reservas internacionais e elevar sua taxa básica de juros cinco vezes desde março.

O rublo, que perdeu quase 49% de seu valor este ano frente ao dólar, é a moeda com a pior performance entre mais de 170 divisas medidas pela Bloomberg. A moeda caiu nesta segunda-feira mais de 10%, para 64,4455 ante o dólar.

A saída de capital líquido pode alcançar US$ 134 bilhões este ano, o maior volume anual desde 2008, quando US$ 133,6 bilhões deixaram o país, segundo dados do BC russo. Segundo o relatório, o volume poderá cair entre US$ 115 bilhões e US$ 120 bilhões no ano que vem.

O BC elevou sua taxa básica de juros de 9,5% para 10,5% em 11 de dezembro. Segundo Nabiullina, a medida não visou a conter a queda da moeda. Segundo ela, um aumento exagerado da taxa de juros “elevaria igualmente o risco de uma recessão”.

— Estamos avaliando os riscos para a economia. Nossa economia não está em sua melhor forma — disse ela após o anúncio dos juros na semana passada.

oglobo.globo.com | 15-12-2014

BELÉM, Cisjordânia — A Praça da Manjedoura, em Belém, ainda está praticamente vazia de peregrinos. A expectativa da chegada de fiéis para o Natal na cidade onde, segundo a tradição crista, Jesus nasceu, é grande. Comerciantes arrumam as prateleiras com suvenires, a árvore de Natal oficial — acesa no dia 7 de dezembro — brilha, trabalhadores apressam as obras de renovação da Igreja da Natividade e os políticos e líderes religiosos preparam os discursos. Mas, apesar do burburinho na famosa praça, estima-se que este será o pior Natal dos últimos cinco anos na cidade sagrada. Segundo dados do Ministério palestino do Turismo, cerca de 100 mil peregrinos estrangeiros vão passar por Belém em dezembro, 17% a menos do que no mesmo mês de 2013 (120 mil).

O motivo da queda é, sem dúvida, o conflito de 50 dias entre Israel e o grupo islâmico Hamas, em julho e agosto deste ano. Nesses dois meses, os 48 hotéis de Belém, com 3.700 leitos, amargaram o cancelamento de 60% nas reservas. A tensão das últimas semanas em Jerusalém, com uma série de ataques contra israelenses, não contribuiu. O turismo em toda a Cisjordânia fechará o ano com a visita de 2,5 milhões de visitantes, 3.7% a menos do que os 2,6 milhões de 2013. O prejuízo estimado no setor turístico local é de US$ 30 milhões.

— Desde 2009, há um crescimento constante na chegada de turistas e pensamos que o número só cresceria. Esperávamos que 2014 fosse o nosso recorde. Mas a guerra atrapalhou nossos planos — diz a ministra do Turismo, Rula Ma'ayan.

Nem a visita do Papa Francisco a Belém, em maio deste ano, ajudou a melhorar os dados. O Pontífice atraiu muita atenção mundial ao não só rezar uma missa histórica na Praça da Manjedoura e, depois, quebrar o protocolo e parar em frente ao polêmico Muro da Cisjordânia, que envolve o Norte da cidade, separando-a da entrada de Jerusalém. A barreira foi erguida no auge da Segunda Intifada (2000-2005), quando ataques terroristas abalaram Israel. Os palestinos reclamam, no entanto, que o muro asfixia a economia local e restringe o ir e vir das pessoas.

— A visita do Papa foi importante e ficamos muito otimistas quando ele veio. Achávamos que a vinda de Francisco seria uma maneira de dizer ao mundo que é seguro vir a Belém. Achamos que milhões fiéis o seguiriam e viriam. Mas, infelizmente, por causa da guerra de Gaza, a visita dele foi ofuscada — afirma a ministra do Turismo.

Os números só não são piores por causa do primeiro semestre, esse sim que superou todos as expectativas. De janeiro a junho, só a cidade de Belém (a mais visitada, seguida de Jerusalém Oriental e Jericó) recebeu nada menos do que 1,4 milhão de turistas estrangeiros, principalmente da Rússia, da Polônia e da Itália, um contraste, por exemplo, em relação aos 500 mil de 2009. O aumento em relação a 2013 foi de 19%. Os hotéis afirmaram contar com overbooking de até 200%. Justamente por isso é que os palestinos esperavam chegar a 3 milhões de turistas em 2014. O medo da complicada violência regional, no entanto, afastou muitos peregrinos.

BOOM PÓS-INTIFADA

Mas, o casal indonésio Sa'ood e Rabia Obaid manteve os planos de conhecer a cidade onde Jesus nasceu, mesmo sendo ambos muçulmanos. Eles admitem, no entanto, que só mantiveram a viagem porque fazem parte de uma excursão.

— Viemos num grupo, então nos sentimos mais seguros. Não vimos nada de atemorizante até agora. Está tudo calmo, são todos muito hospitaleiros — disse Sa’ood.

Apesar da queda, a cidade de Belém, que tem uma população de 35 mil pessoas (78% muçulmanos e 22% cristãos) festejou a última década com um boom turístico. O setor é fundamental para a economia local, que sofre com taxa de desemprego de 26% e conta com 21% de moradores abaixo do nível de pobreza. Há apenas uma década, durante a Segunda Intifada palestina, a quantidade de turistas estrangeiros na Cisjordânia era mínima. Em 2001, só 100 mil visitaram, ao todo, a Cisjordânia, a Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental. Em 2002, o número foi tão pequeno que nem entra nas estatísticas. Com o fim dos grandes atentados terroristas, a partir de 2005, os turistas começaram a voltar — principalmente a Belém — num nível maior do que na década de 90.

Debruçado no balcão de sua loja de souvenires, o comerciante palestino Joseph Gattas mantém a esperança de um Feliz Natal para as lojas e serviços locais. Segundo ele, a cidade pode estar um pouco vazia agora, mas daqui a alguns dias, tudo vai mudar. A expectativa é que na noite da Missa do Galo, cerca de 15 mil fiéis estejam na cidade.

— Os turistas só chegam em massa mesmo no dia 24 de dezembro. Trabalharemos dia e noite para aproveitar essa enxurrada. Vai dar tudo certo. Estou otimista — afirma Gattas.

oglobo.globo.com | 14-12-2014

MOSCOU - Diante da contínua depreciação do rublo, o Banco Central da Rússia elevou, nesta quinta-feira, a taxa de juros do país de 9,5% para 10,5% ao ano. Foi o quinto incremento em 2014, mas não bastou para conter a erosa da moeda, a pior desde 1998. A governadora do BC, Elvira Nabiullina, disse que a instituição está pronta para tomar novas medidas, se a situação piorar, mas não deu detalhes.

Apesar do avanço nos juros, o rublo perdeu 1,5%, a 55,60 por dólar. Para Vadim Bit-Avragim, gestor da Kapital Asset Management LLC, em Moscou, que tem US$ 4 bilhões sob administração, a autoridade monetária teria de fazer aumento maior dos juros para estancar a fuga de capitais e a depreciação do rublo.

— Se o objetivo do Banco Central era defender o rublo, deveria ter aumentado a taxa em dois ou três pontos percentuais.

A autoridade monetária russa enfrenta o desafio de manejar uma economia enfraquecida pela sanções e um câmbio que já perdeu 41% neste ano. O aumento dos juros mostra que sobram poucas alternativas para as autoridades, que já gastaram US$ 80 bilhões para defender a divisa e liberaram a taxa de câmbio no mês passado.

RUBLO É O PIOR DE UMA CESTA DE MOEDAS

O rublo é a moeda com pior performance numa cesta de 170 moedas, depois apenas da hryvnia ucraniana, conforme a Bloomberg. Mas o BC do país prefere manter a cautela e quer evitar movimentos brutos nas cotações, de acordo com a governadora da instituição.

— O nosso principal alvo é a inflação — disse Elvira Nabiullina a jornalistas em Moscou. — Estamos lidando com riscos para a economia. A nossoa economia não está em seu melhor momento.

Ela lembrou que um aumento mais forte dos juros poderia reforçar os riscos de recessão. Contudo, enfatizou que a autoridade monetária pode tomar novas medidas a qualquer momento, que já gastou ontem US$ 300 milhões para defender o rublo, de acordo com o Standard Bank. O Banco Central de Rússia ainda pode usar US$ 85 bilhões para operações cambiais no ano que vem, num cenário de crise, com o barril de petróleo a US$ 60, avisou Nabiullina. Na semana passada, as reservas caíram em US$ 4,3 bilhões, para US$ 416,2 bilhões.

oglobo.globo.com | 11-12-2014

O preço do barril de petróleo caiu cerca de 40% desde junho, de US$ 107 para US$ 66, devido à estagnação na Europa, à redução do crescimento da China e, sobretudo, ao aumento da produção nos EUA (óleo e gás de xisto) e Canadá (óleo de areias betuminosas). A viabilidade da exploração dessa nova fonte fez dos EUA o maior produtor mundial de petróleo e, em breve, poderá torná-lo exportador. Uma verdadeira revolução energética.

Óleo mais barato impulsiona o crescimento mundial; ganham os grandes importadores, que liberam recursos para outros fins, e perdem países muito dependentes das exportações de hidrocarbonetos. Por outro lado, há menos incentivo para investir em fontes alternativas de energia, não poluentes e sustentáveis. Ruim para o clima.

Os EUA ganham: com a economia já em aceleração, os americanos terão mais dinheiro na mão para consumir e investir com os dólares poupados na bomba de gasolina. Ainda, a queda prejudica os países menos amistosos com Washington — Rússia, Irã, Venezuela e até o Estado Islâmico (EI), a organização fundamentalista que se financia com a venda de óleo de refinarias tomadas à Síria e ao Iraque.

Metade do orçamento da Rússia é financiada com a exportação de óleo e gás. A economia entrou em recessão devido às sanções do Ocidente em decorrência das ações de Moscou na Ucrânia e à queda nos preços de hidrocarbonetos. O caso do Irã é parecido: sofre pesadas sanções devido ao programa nuclear e depende do óleo para municiar 50% do orçamento.

A situação mais precária é a da Venezuela, que precisaria do barril a US$ 160 para equilibrar as finanças, devastadas por mais de duas décadas de desmandos do chavismo. A queda lança ainda uma nuvem de dúvidas sobre a histórica abertura do setor energético do México, porque as grandes empresas já estão revendo seus planos de investimento.

Para Europa e Japão, grandes importadores, há ganhos e riscos. Os primeiros são óbvios. Mas o sistema financeiro europeu tem uma grande exposição às estatais russas de energia, cujas perdas podem submeter os bancos a novos ciclos de estresse. No Japão, a gasolina mais barata aumenta o risco de deflação.

A estratégia do país que dá as cartas na Opep, a Arábia Saudita, foi manter o mesmo nível de produção mesmo com os preços em baixa. A medida foi interpretada como uma tentativa de alijar novos produtores do mercado mundial. Um dos alvos seria a produção de óleo e gás de xisto dos EUA. Para a Petrobras, a queda de preços permite frear a drenagem de recursos representada pela venda no mercado interno de gasolina importada a preço menor que o valor de compra. Mas, por outro lado, cria expectativa sobre a viabilidade comercial de áreas do pré-sal. Movimentam-se grandes placas tectônicas na geopolítica, e os EUA recuperam importante espaço de poder, ao rumar para a independência energética.

oglobo.globo.com | 10-12-2014

RIO — Katrin Gelfert, de 41 anos, é notória pesquisadora de Matemática. Na Alemanha, seu país natal, ela especializou-se em Análise de Sistemas Dinâmicos, mesma área em que o brasileiro Arthur Ávila fez os trabalhos que lhe renderam a Medalha Fieds de 2014, considerado o Nobel da disciplina. Há cinco anos, a alemã quis vir trabalhar como professora no Brasil e fez prova para a UFRJ. Mas, se os números não eram problema para Katrin, o idioma foi um obstáculo. Na hora da entrevista, entre um gaguejo e outro, a acadêmica esqueceu de uma palavra. O “branco” comoveu a diretora do Instituto de Matemática (IM) da UFRJ, Walcy dos Santos, que participava da banca:

— Eu simplesmente lhe disse na hora: ‘pare, respire fundo e siga em frente’. Não tive como não ajudar. Não poderíamos dispensar uma excelente pesquisadora por esse detalhe.

A alemã conseguiu contornar a palavra e acabou aprovada. Hoje professora titular do IM, Katrin entende a importância do português para o ensino, mas pede que as universidades brasileiras sejam mais abertas à tão falada internacionalização:

— Eu tinha uma noção ainda superficial do português. Poderia haver, por exemplo, uma prova de língua inglesa para ingressar e, depois de um certo tempo, um teste de proficiência no idioma local. Ainda mais em matemática, que tem uma linguagem própria. Muitas universidades já fazem isso.

Os clamores de Katrin ainda não encontram voz dentro da própria universidade onde trabalha. Há menos de duas semanas, o Conselho Universitário (Consuni) da UFRJ decidiu pela não realização de provas para seleção de professores titulares-livres em línguas estrangeiras, contrariando uma proposta feita pelo Conselho de Ensino para Graduados (CEPG). Apesar das críticas de que a instituição esteja se fechando para o mundo, a medida se justificaria por conta das aulas de graduação.

— Ninguém é contra a internacionalização. Pressupomos que o professor entre na universidade e vá dar aulas na graduação. Se ele não domina a língua nativa, não pode cumprir esse papel — argumenta Neuza Luzia, membro do Consuni.

O idioma é um dos maiores entraves para a abertura de nossas instituições ao mundo, algo que se reflete claramente nos rankings internacionais de avaliação das universidades. A pouca internacionalização sempre tira preciosos pontos.

Mas o primado do idioma local não serve de desculpa para a falta de abertura. No último estudo do gênero, publicado na última quarta-feira pela consultoria britânica Times Higher Education (THE), o Brasil só teve quatro representantes entre as 100 melhores universidades do grupo dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e de todo o mundo emergente. Embora ostente a segunda maior economia dos Brics, o país é o último em número de instituições entre as melhores.

Os chineses têm nada menos que 27 representantes na tabela, seguidos pelos indianos, com 11, pela Rússia (com sete) e pela África do Sul (cinco). O grande destaque do ano ficou com a Turquia, com oito universidades entre as 100 melhores, incluindo a Universidade Técnica do Oriente Médio, em 3º lugar. Isso ocorre porque essas universidades oferecem, além dos cursos em suas línguas, aulas em inglês.

Em entrevista ao GLOBO, o editor da THE, Phil Baty, afirmou que o principal entrave para as universidades brasileiras ainda é a “burocracia” e o excesso de “centralização” na gestão universitária. Para ele, as reitorias deveriam ter mais autonomia para contratar professores e pesquisadores mundo afora. Mas, segundo pondera, o Brasil ainda impõe a forte barreira do idioma, o que acaba se refletindo na produção acadêmica e na reputação da universidade.

— A pesquisa precisa ser disseminada para que a comunidade internacional conheça o que é produzido nas universidades brasileiras. E isso vai ser feito com muito mais facilidade se o trabalho for em inglês — afirma o editor da THE.

Abrir-se ao mundo. O recado dado por especialistas já é seguido há tempos pelas instituições mais bem avaliadas nos rankings internacionais. Harvard, por exemplo, tem cerca de cinco mil estudantes estrangeiros de um total de 21 mil, cerca de 22,8%. Já entre seu corpo docente, nada menos que 38% são “de fora”.

A comparação pode soar como não razoável, mas já é possível ver outros emergentes fazendo o mesmo. Quarta melhor do ranking “Brics e países emergentes”, a Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, exibe números semelhantes aos da colega famosa dos EUA: 18,4% estudantes estrangeiros e 25,8% de docentes vindos do exterior. No quesito “internacionalização”, os sul-africanos receberam nota de 76,7 pontos, em uma escala de 0 a 100.

A Universidade de Pequim, primeira no ranking dos emergentes, tem nota nesta categoria de 53,7 pontos, pouco abaixo da Universidade Estatal de Moscou, sétima na tabela, com média 60,4 na internacionalização. Mesmo que nem todos tenham o idioma de Shakespeare como língua natal, é comum ver a opção em seus endereços virtuais.

O mesmo não acontece no Brasil, onde as universidades guardam números muito mais modestos. Na USP, a maior do país, dos mais de 92 mil estudantes, menos de dois mil são estrangeiros (2,1%). Já docentes de outras nacionalidades são apenas 8,92% do total. Com esses percentuais, a gigante paulista tem nota de apenas 25,3 pontos.

UNICAMP TEM 4,7% de PROFESSORES ESTRANGEIROS

Na segunda brasileira mais bem colocada, os números não são muito diferentes. A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) tem cerca de 2,6% de alunos estrangeiros e 4,7% de professores. Nota final em internacionalização: 20,7.

Mas o governo federal parece ter acordado para a situação. Em um simpósio promovido em setembro pela Academia Brasileira de Ciências, o ministro da Educação, José Henrique Paim, anunciou que a pasta estuda criar organizações sociais (OS) com o propósito específico de contratar professores estrangeiros de maneira mais ágil.

Desde 1977 no Brasil, onde chegou como professor visitante na Universidade Federal da Bahia (UFBA), o americano Robert Verhine é um dos educadores mais críticos ao ensino superior brasileiro nessa questão. Segundo ele, ainda há no país uma cultura de que as universidades públicas sejam direcionadas exclusivamente para o povo local, excluindo assim quem vem de fora:

— Nossa maior universidade, a que mais tem capacidade de atração, tem apenas 2% de alunos estrangeiros. Não atraímos porque temos uma mentalidade de que a universidade brasileira é para brasileiros, em vista do deficit histórico de vagas. E isso ainda é agravado pelo fato de quase todo financiamento ter origem na União, centralizado.

Ex-presidente do Conselho Nacional de Avaliação da Educação Superior e membro da comissão Fulbright, Verhine também listou outros obstáculos além do idioma que estrangeiros enfrentam ao chegar ao país:

— É a questão do visto, falta de acomodação, burocracia com revalidação de diplomas e tradução de outros documentos. Parece que não há preocupação em recebê-los — desabafa.

Na UFRJ, que vetou provas em idiomas estrangeiros, apenas 1.040 estudantes em um universo de mais de 57 mil não são brasileiros, ou 1,8%. Já professores representam um percentual um pouco maior: 3,9% de quatro mil.

Há quase dois anos na maior universidade do Rio, o professor de matemática escocês Graham Andrew Craig Smith também faz coro por uma maior abertura da instituição para o mundo. Graham conta que veio ao Brasil pela primeira vez em 2010 sem saber uma palavra sequer em português para fazer pós-doutorado no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa). Foi quando conheceu sua esposa, brasileira, que lhe ensinou praticamente tudo o que sabe da língua de Camões.

Aprovado em fevereiro do ano passado para a UFRJ, o escocês faz apelo para que a instituição abra provas em inglês para aspirantes a professor vindos de fora. Ele afirma que conhece muitos colegas pesquisadores na Europa que poderiam estar no Brasil contribuindo para o conhecimento nacional, mas são desestimulados pelo idioma e por outros fatores, como o visto.

— Europa e Estados Unidos estão ainda saindo de uma crise econômica, e muitos enfrentam alto índice de desemprego. Conheço ótimos profissionais que poderiam estar aqui, mas o Brasil parece ter o complexo de subestimar seu potencial acadêmico. Vocês têm ótimas oportunidades e não divulgam nem aproveitam, isso é frustrante.

oglobo.globo.com | 07-12-2014

HELSINQUE - A Finlândia é um bom lugar para se estar se você trabalha no setor público. Contudo, leis que protegem os funcionários municipais da dura realidade de uma economia cambaleante estão contribuindo para o endividamento de um país cuja nota de crédito foi rebaixada há somente dois meses.

Alexander Stubb, primeiro-ministro da Finlândia - Henrik Kettunen / Bloomberg

Em alguns municípios, nenhum funcionário público pode ser demitido até 2022. Entretanto, a dívida dos governos finlandeses locais se triplicou para € 16,3 bilhões (US$ 20 bilhões) desde 2000. O somatório aumentará em mais € 10 bilhões até 2018, estima o Ministério das Finanças.

— O governo e os municípios têm o mesmo problema: a base de renda se desmoronou, ao passo que as despesas continuaram crescendo — disse Anssi Rantala, economista-chefe do Aktia Bank Oyj.

Como há mais pessoas se aposentando do que entrando na força de trabalho, a recessão da Finlândia não dá sinais de dar trégua. O primeiro-ministro Alexander Stubb descreveu os apuros do país como uma “década perdida”. A produção industrial não conseguirá incentivar o crescimento pelo terceiro ano consecutivo.

Para piorar os infortúnios do país, problemas econômicos estão se espalhando desde seu vizinho a leste, já que as exportações à Rússia estão se desmoronando. Em outubro, a Standard Poor’s rebaixou a nota da Finlândia de AAA para AA+ porque a dívida do Estado supera o limite de 60% do PIB permitido dentro da União Europeia. O PIB desacelerou para 0,2% no trimestre passado — metade do seu ritmo de crescimento nos três meses terminados em junho — devido à queda das exportações e os investimentos, disse a secretaria de estatísticas hoje.

LEI MUNICIPAL

O governo está lutando para aumentar a competitividade da sua força de trabalho, mas as leis existentes estorvam seus esforços. Muitos funcionários municipais desfrutam de cinco anos de imunidade caso seu município seja fusionado com outro. Existem 320 municípios na Finlândia, e os menores podem se fusionar várias vezes — o que dá a esses funcionários mais cinco anos de proteção do emprego a cada vez.

Em Kuopio, uma cidade à beira de um lago no norte do país, até 5.578 funcionários municipais — mais os futuros recém-chegados de locais menores — podem conservar seus empregos até 2022, se todas as fusões planejadas forem realizadas. Os funcionários têm seu emprego protegido desde 2006, quando o município absorveu Vehmersalmi, uma aldeia com 2.000 moradores.

Kuopio conseguiu reduzir pelo menos parte da carga encorajando seus funcionários a tirarem férias adicionais não remuneradas, e porque seu setor comercial relativamente diversificado resistiu os tempos duros melhor do que municípios de foco mais estreito. Mesmo assim, o município estima que seu déficit orçamentário aumente para € 22 milhões no ano que vem.

O governo implementará uma supervisão financeira mais rigorosa dos municípios e deseja controlar o crescimento dos gastos centralizando a responsabilidade por serviços como a assistência médica em cinco unidades regionais, comparado com cerca de 200 organizações municipais atualmente.

GATOS DOENTES

Um de cada cinco trabalhadores finlandeses é empregado por um governo local. Três quartos deles trabalham nos setores de saúde, previdência social ou educação e quatro de cada cinco são mulheres. Metade do total de gastos dos governos locais é em salários e outras despesas ligadas aos funcionários. O custo aumenta ainda mais porque com frequência os salários são equiparados durante as fusões, o que implica que os funcionários de locais menos remunerados podem esperar um aumento.

O Estado deveria se abster de jogar mais responsabilidades nos governos locais e permitir que os municípios tenham maior flexibilidade na hora de estruturarem suas ofertas de serviços, disse Jarmo Pirhonen, vice-prefeito de Kuopio.

— Certamente, há coisas importantes como essa, mas elas poderiam ser bem administradas pelo setor privado —disse ele. — Se o gato de alguém adoecer, a responsabilidade tem que ser do município?

oglobo.globo.com | 06-12-2014
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RIO - A “Economist”, em sua edição impressa da próxima semana, sentencia: “a economia do petróleo mudou”. Segundo a revista britânica, na nova conjuntura, que ainda está em seus estágios iniciais de configuração, alguns setores estarão fadados ao infortúnio, mas o mercado como um todo se tornará mais saudável.

Os estatutos da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), lembra a “Economist”, determinam que a meta do cartel “é a estabilização dos preços nos mercados internacionais de petróleo”.

Se for este o caso, já há algum tempo a organização não vem fazendo exatamente o que se poderia chamar de um bom trabalho. Em junho, o preço do barril do petróleo do tipo Brent, negociado na Bolsa Internacional de Petróleo, em Londres, chegou perto dos US$ 115. A partir daí começou a cair e, agora, se situa nos arredores dos US$ 70.

Trem carregando petróleo em Dakota do Norte: estado americano se tornou um importante produtor a partir da exploração do gás não convencional - JIM WILSON / NYT/29-5-2014

Isso representa um mergulho vertiginoso de quase 40%, provocado em parte pela debilidade geral da economia mundial, o que se traduz num consumo menor de combustível; e em parte se deve à própria Opep, que vem produzindo mais petróleo do que os mercados previram. Porém, a razão principal tem o sotaque dos produtores americanos de estados como Texas e Dakota do Norte.

Nos últimos quatro anos, quando os preços oscilavam em torno dos US$ 110 o barril, esses produtores americanos começaram a extrair petróleo a partir de formações rochosas subterrâneas, mediante uma técnica de explosão hidráulica bastante controversa entre os ambientalistas. O resultado desse produto foi simplificado no jargão da imprensa americana como “gás de xisto”, embora, tecnicamente, o mais apropriado, segundo especialistas, seria chamá-lo por um termo mais genérico: gás não convencional.

A perfuração obsessiva desses produtores — segundo a “Economist” foram 20 mil novos poços de exploração desde 2010, dez vezes mais do que o computado pela Arábia Saudita — elevou a produção de petróleo dos Estados Unidos em um terço, para quase nove milhões de barris diários (bpd). Esse volume fica devendo apenas um milhão de bpd em comparação à produção saudita.

E a disputa entre os homens do xisto e os xeques árabes inverteu a situação mundial, de escassez para um excesso de petróleo no mercado.

INJEÇÃO DE PETRÓLEO

Essa mudança não é pouca coisa, afirma a revista britânica. Um petróleo mais barato tem o efeito de uma injeção de adrenalina no crescimento global. O corte de US$ 40 nos preços do barril transfere cerca de US$ 1,3 trilhão das mãos dos produtores para os consumidores. Um motorista americano, por exemplo, que tenha gasto US$ 3 mil em 2013 nas bombas de gasolina, poderá se deparar com um desconto em termos anuais de US$ 800 — o equivalente a um aumento de renda de 2%.

Importantes países e regiões importadoras de petróleo, como zona do euro, Índia, Japão e Turquia, estão se beneficiando de uma receita inesperada em seus orçamentos. E como esse dinheiro tende a ser gasto em vez de poupado num fundo soberano, o Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos) global deverá subir.

O derretimento da cotação do barril terá ainda o efeito de reduzir ainda mais a já baixa inflação em regiões economicamente importantes. Se, por um lado, a deflação traz riscos importantes, por outro, esse quadro deve estimular os bancos centrais a flexibilizarem suas políticas monetárias. O Federal Reserve (Fed, o banco central americano), por exemplo, deverá adiar por mais tempo a elevação de suas taxas básicas de juros; e o Banco Central Europeu (BCE) deverá agir mais vigorosamente para afastar o risco de deflação, por meio da compra de bônus soberanos.

Refinaria no Texas: produção de petróleo a partir de gás não convencional levou à queda de preços no mercado internacional - MICHAEL STRAVATO / NYT/22-8-2014

Mas como se trata de uma relação dialética, também haverá, é claro, perdedores nessa conjuntura. Os países produtores de petróleo, cujos orçamentos são altamente dependentes das receitas do setor petrolífero estão numa situação particularmente difícil. O noticiário desta semana destacou especialmente os prospectos negativos de Rússia, Nigéria e Venezuela. No caso do país latino-americano, já há especulações de um calote de sua dívida soberana.

TÁTICA SAUDITA

Essas expectativas negativas geraram turbulência nos mercados financeiros e derrubaram os preços de algumas classes de ações. Mas, no geral, o efeito econômico de um petróleo mais barato é claramente positivo. O quão positivo dependerá de quanto tempo a cotação permanecerá em baixos patamares. E isso é motivo de contínuas rusgas entre Opep e os produtores de gás não convencional.

Vários membros do cartel querem que a Opep corte sua produção, na esperança de que isso empurrará os preços para cima novamente. Mas particularmente a Arábia Saudita parece ter fresco na memória a experiência dos anos 1970. Na ocasião, uma forte alta de preços atraiu grandes investimentos para os campos petrolíferos, levando em seguida a uma década de preços baixos.

Agora, os sauditas parecem ter optado por uma tática distinta: deixar os preços caírem e inviabilizar economicamente os produtores que sofrem com altos custos de produção, como é o caso dos investimentos em gás não convencional. Essa situação, à médio prazo, deverá afetar a oferta, pressionando os preços para cima novamente.

Na verdade, afirma a “Economist”, há sinais de que esse processo já está em andamento. Os preços das ações de empresas que investem em gás não convencional estão em declínio. Muitas dessas firmas estão alcançando o limite de endividamento. Mesmo antes do início da queda das cotações do petróleo, a maioria dessas companhias estavam investindo mais em novos poços do que estavam lucrando com os poços já em produção. Com suas receitas recuando rapidamente, elas poderão se encontrar numa situação difícil e uma onda de falências ganha vulto no horizonte.

Por outro lado, essa situação poderá afetar a reputação do gás não convencional como opção de aplicação entre os investidores. Mesmo os sobreviventes à turbulência no setor poderão encontrar os mercados fechados por um período, forçando-os a controlar seus gastos de acordo com a receita que obtêm da venda de petróleo dos poços em operação. Uma vez que a vida útil dos poços de gás não convencional é curta (a produção pode cair entre 60% e 70% no primeiro ano), qualquer queda de investimento rapidamente se traduzirá em queda da produção.

MAIOR ESTABILIDADE

Esse abalo certamente será doloroso. No entanto, a longo prazo o futuro do setor de gás não convencional parece estar garantido. O processo de fraturação hidráulica — no qual uma mistura de água, areia e químicos são injetados nas formações rochosas para expulsar o petróleo que está preso ali — ainda é uma tecnologia relativamente jovem e está gerando ganhos importantes em eficiência. Segundo a IHS, uma empresa de pesquisa, o custo típico de um projeto caiu de US$ 70 para US$ 57 por barril no ano passado, à medida que os produtores aprenderam como perfurar os poços mais rapidamente e extrair mais petróleo de cada um.

Secretário de Estado dos EUA, John Kerry, com o ministro de Relações Exteriores da Arábia Saudita, príncipe Saud al-Faisal, em Jedá, na Arábia Saudita: disputa acirrada no mercado petrolífero - BRENDAN SMIALOWSKI / NYT

Portanto, a economia do petróleo mudou. O mercado ainda vai estar sujeito a choques políticos: a guerra no Oriente Médio ou, como afirma a “Economist” em seu tom tipicamente irônico, a “implosão tardia da cleptocracia de Vladimir Putin” ainda têm o potencial de gerar turbulências no mercado e levar os preços do petróleo à estratosfera. Mas, na ausência de tais abalos sísmicos, a cotação da commodity deve permanecer relativamente menos vulnerável a choques ou manipulações.

Mesmo que os três milhões de bpd que os Estados Unidos produzem atualmente sejam uma fração mínima dos 90 milhões de bpd que o mundo consome, o gás não convencional americano é um rival genuíno da Arábia Saudita. E esse fato deve reduzir a volatilidade não apenas dos preços do petróleo, mas igualmente da economia mundial. O petróleo e o mercado financeiro são os dois únicos setores capazes de empurrar o mundo para a recessão. E pelo menos, calcula a “Economist”, um deles será um pouco mais estável no futuro.

oglobo.globo.com | 05-12-2014

MOSCOU — O médico Semyon Galperin se dedicou durante uma década à pesquisa médica na Rússia e por outros anos nos Estados Unidos, trabalhando nos melhores hospitais e laboratórios. Apesar de sua experiência, acaba de receber um ultimato do hospital moscovita onde trabalha: ou vai embora ou continua, mas como médico-assistente.

O posto de Galperin será eliminado como parte de uma enorme reforma, por qual ao menos 28 hospitais de Moscou serão fechados e cerca de 10 mil integrantes da equipe médica ficarão sem trabalho. É uma mudança imprescindível, segundo os funcionários, para modernizar o decrépito sistema de saúde da era soviética.

No próximo domingo, milhares de médicos e seus pacientes marcharão contra a reforma, como parte do primeiro protesto social maciço em quase uma década, um desafio para o presidente Vladimir Putin, que em 2011 enfrentou uma onda de protestos políticos e que agora luta contra uma crise econômica.

A rebelião dos médicos começou no início deste ano, quando milhares de profissionais da saúde foram às ruas contra as demissões e o fechamento de hospitais. Na última vez que houve um protesto como esse, em 2005, Putin se assustou tanto que recuou da suspensão de benefícios sociais para milhões de aposentados e incapazes, e por fim, duplicou as aposentadorias.

Consciente do potencial de conflitos que tem este protesto, Putin pediu semana passada que o governo de Moscou reconsidere a reforma, e seu conselho de direitos humanos organizou mesas redondas para debater o tema com lideranças médicas e os sindicatos, que não tinham sido consultados.

No Hospital 11 de Moscou, Galperin promete continuar, mesmo que seja como assistente: “Não posso abandonar meu trabalho, porque decidimos lutar até o fim”, disse.

Os funcionários do governo de Moscou dizem que — simplesmente — cumprem uma lei de 2010 elaborada para ajudar os hospitais a completar a transição da era da economia soviética para serem autossustentáveis, reduzindo os subsídios ao mínimo. A porta-voz do Departamento de Saúde de Moscou, Elina Nikolayeva, defendeu as demissões e disse que elas são inevitáveis: “Alguns médicos despedidos precisam de capacitação, e outros não tem carga de trabalho suficiente”.

EM PROBLEMAS

O mal-estar entre os médicos é particularmente problemático para Putin; quase todos são funcionários públicos, sua base de sustentação eleitoral. Durante a última década, a Rússia gozou de um desemprego baixo (de 5%) devido aos fortes subsídios do Estado às empresas, escolas e hospitais públicos. Depois dos protestos de 2011, Putin obteve um terceiro mandato em 2012, em grande parte devido aos funcionários públicos que acreditaram em sua promessa de elevar sua qualidade de vida.

Mas, agora, essa promessa se transformou em um tiro pela culatra.

O governo de Moscou está implementando a reforma de saúde para tentar cumprir a promessa eleitoral de Putin de melhorar as condições de vida dos funcionários públicos, incluindo a promessa de aumentar o salário dos médicos até duplicar, para 2018, o salário médio dos funcionários públicos. O vice-prefeito de Moscou, Leonid Pechatnikov, diz que se não fosse a promessa de Putin, a reforma do sistema não teria porque ser tão repentina e brutal.

O sistema de saúde de Moscou é uma relíquia do sistema de saúde comunista, no qual qualquer cidadão teria direito a atenção médica gratuita. Para economizar fundos, os funcionários de Moscou trabalharão na promoção de clínicas de bairro, que administrarão cuidados integrais e aliviarão a capacidade de internação dos hospitais.

No Hospital 11, onde trabalha Galperin, 136 dos 320 integrantes da equipe, em sua maioria médicos, receberam a notícia de demissão, e o hospital fechará em abril.

Questionado sobre o fechamento, Pechatnikov disse durante uma sessão do Conselho Presidencial de Direitos Humanos que o hospital “monopolizava” o tratamento da esclerose múltipla em Moscou, e que era impossível fazer o tratamento em qualquer outro lugar da cidade.

Nikolayeva, porta-voz do Departamento de Saúde, disse à imprensa que “os médicos do Hospital 11 estão abusando de sua posição” e que a cidade não precisa de tantos neurologistas.

Galperin e seus colegas dizem que o tratamento para esclerose múltipla que proporcionam não pode ser obtido em nenhum outro lugar da cidade. Dizem também que provavelmente estão na mira por sua atividade sindical: O telegrama chegou um dia depois de exigirem um plano de salários mais justo durante uma assembleia sindical. Mas o certo é que outros médicos de nível mais baixo também foram despedidos.

Entre tudo isso, as objeções de Putin contra a medida moscovita parecem estar surtindo efeito. Na semana passada o Conselho Presidencial de Direitos Humanos pediu através de um comunicado que se detenham as demissões, e disse que a reforma, tal qual é implementada, viola o direito constitucional de acesso à atenção médica.

oglobo.globo.com | 05-12-2014
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, condenou os governos ocidentais por isolarem Moscou, em seu discurso anual para o Parlamento nesta quinta-feira (4)."Cada vez que alguém acredita que a Rússia se tornou muito forte e independente, aplicam imediatamente este tipo de medidas", disse Putin no discurso do estado da nação.

Putin disse que a Rússia não iria escolher o caminho do isolamento e iria continuar a cooperar com os Estados Unidos e a Europa, apesar da crise Ucrânia.O presidente disse ainda que as sanções ofereceram um estímulo para a economia russa e que a Rús

O presidente russo, Vladimir Putin, acusou nesta quinta-feira os inimigos de seu país de tentarem desmembrar a Rússia e destruir sua economia como forma de punição por seu fortalecimento, em um discurso anual do estado da União que pareceu superar as demonstrações recentes de nacionalismo mais exacerbado.

O post Vladimir Putin diz que inimigos querem desmembrar a Rússia apareceu primeiro em Jornal Correio do Brasil.

correiodobrasil.com.br | 04-12-2014

MOSCOU — Os russos começaram a perceber a deterioração da economia. Não faltam alimentos, mas eles estão muito mais caros e menos diversificados que na mesma época do ano passado. Nos supermercados de Moscou as laranjas e melões sem identificação de origem (o que é ilegal) substituíram os cítricos espanhóis e as maçãs polonesas. Algumas pessoas comemoram a volta das uvas do Uzbequistão, antes ofuscadas pelas italianas, mesmo que a preço alto e, às vezes, com gosto de pesticida, mas outros temem que as hortaliças venham da China, o que consideram sinônimo de uso descontrolado de produtos químicos. O trigo sarraceno, cereal muito popular como café da manhã ou como acompanhamento, desapareceu do mercado para depois voltar com preço mais alto. Algumas grifes ocidentais de roupas fecham suas franquias, e a Moscou do luxo e do desperdício se vê obrigada a contar o dinheiro.

O colapso do preço do petróleo — principal fonte de divisas da Rússia —, a desvalorização do rublo e a geopolítica alimentam a crise, mas não são os únicos fatores, porque a economia russa começou a estagnar antes da escalada de sanções após a anexação da Crimeia e o conflito com o resto da Ucrânia. Hoje as grandes empresas russas têm restrições de acesso aos mercados financeiros ocidentais, e os produtos alimentícios da União Europeia e de outros países são vetados pelo governo.

Só que o comércio é uma caixa de surpresas. Em Moscou é difícil encontrar queijo parmesão, mas um amigo traz, como um troféu, um pacote produzido na Lituânia e comprado em Tver, província em crise. Os salmões de litorais proibidos são escoados pela BielorRússia, e seu líder, Alexandr Lukashenko, criticou os altos funcionários por vetar a importação de alimentos sem respeitar a alfândega comum (os dois países são membros da União Aduaneira).

Os russos terão que conviver com as sanções durante anos, segundo Alekséi Kudrin, ex-ministro da Fazenda, hoje dirigente de uma organização chamada Comitê de Iniciativas da Cidadania.

— Para que a economia avance nas atuais circunstâncias, é necessário restabelecer a confiança na política e nas instituições, ou seja, democratizar, eliminar o excesso de regulamentação, acabar com o sistema de lobistas privilegiados que, sem querer mudar, pedem recursos do Fundo Nacional do Bem-estar — disse Kudrin em artigo no jornal “Védomosti”.

O ex-ministro considera “anormal” que as empresas energéticas peçam ajuda ao Estado quando o petróleo é vendido a US$ 80 dólares (R$ 228) por barril e alerta que o fundo (especialmente criado para situações de emergência) é limitado. A demanda interna, que crescia ao ritmo de 6,9% ao ano, caiu para 1,3% em 2013, afirma ele, que acredita que a estagnação atual pode durar de 3 a 4 anos ou mais — e o rublo, que se desvalorizou cerca de 30% frente ao dólar desde agosto, não será moeda de reserva nem sequer de caráter regional por 20 anos, no mínimo.

O prognóstico não é otimista. O Ministério do Desenvolvimento Econômico reduziu sua previsão para 2015 de um crescimento de 1,2% do PIB para uma contração de 0,8%. Maksim Oreshkin, do Ministério da Fazenda, advertiu que se o preço do petróleo cair a US$ 60 dólares por barril, o PIB vai recuar ainda mais: entre 3,5% e 4%, segundo o serviço econômico RBC.

Os russos atribuem a piora da economia à queda dos preços do petróleo (45% dos entrevistados em sondagem do centro Levada) e às sanções (33%) e, em terceiro lugar, aos gastos para anexar a Crimeia e para dar apoio aos separatistas de Donetsk e de Luhansk (30%). Só depois (26%), à corrupção. Cerca de 80% creem que a situação econômica vai piorar, e 61% não tem dinheiro guardado. Entre os que o têm, 80% poupam em rublos (contra 7% em dólares e 3% em euros).

Este ano, as compras de Natal parecem ter começado mais cedo, e alguns analistas veem nisso um desejo de se livrar dos rublos acumulados, antes que os preços subam mais. Mas a Rússia não importa somente roupas e calçados (cerca de 90%), mas também 70% dos medicamentos. Para Leonid, cientista aposentado que recebe 17.000 rublos (cerca de R$ 830) de pensão e gasta 5.000 rublos por mês em remédios, a perspectiva é inquietante. Não estão na mesma situação um aposentado ou um educador da pré-escola (na média da Rússia, 26.452 rublos, ou perto de R$ 1.300) e os funcionários da Administração Presidencial, com salário médio em setembro de mais de 216.000 rublos (R$ 10.500 reais) depois de aumento de 13,8%. E para que fique claro o contraste, o Ministério do Desenvolvimento Econômico estima aumento de 1,3% no salário real da Rússia para este ano e queda de 3,9% em 2015.

oglobo.globo.com | 04-12-2014

WASHINGTON — O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, criticou nesta quarta-feira os presidentes Xi Jinping, da China, e Vladimir Putin, da Rússia. Segundo Obama, a consolidação do poder de Xi aumentou a preocupação por direitos humanos entre os países vizinho à China, e Putin apostou em um política nacionalista “voltada para o passado”.

— Xi conseguiu consolidar seu poder mais rapidamente que qualquer outro líder chinês desde Deng Xiaoping, e todos estão impressionados com a influência que ele conseguiu na China em apenas dois anos — afirmou Obama. — Isto traz perigos em questões como os direitos humanos ou a perseguição a dissidentes. Ele se apoia em um nacionalismo que preocupa as nações vizinhas. Por outro lado, acredito que ele tenha um forte interesse em manter boas relações com os Estados Unidos. Durante minha visita, ele demonstrou sua vontade de conduzir essa relação de forma eficiente.

Obama assegurou que o objetivo americano é demonstrar à China que as relações construtivas são positivas para ambas as partes, mas que há assuntos — como a pirataria cibernética comercial — a serem resolvidos.

— É inegável que a China pratica pirataria e isso é um problema. Vamos pressioná-los intensamente nesta questão.

O presidente americano também afirmou que não espera uma súbita mudança de comportamento por parte do presidente russo, Vladimir Putin, quanto ao conflito na Ucrânia.

— Se me perguntam se eu estou otimista em relação a uma mudança na posição de Putin, acho que isso não acontecerá enquanto o que acontece em nível econômico não tenha um impacto político na Rússia — explicou Obama. — Esta é a principal razão pela qual mantivemos a pressão.

Segundo Obama, Putin "foi surpreendido pela situação na Ucrânia. Improvisou e tomou uma posição nacionalista voltada para o passado e que assusta seus vizinhos e faz mal para a economia", acrescentou o presidente americano, que afirmou ter uma relação muito "direta" com seu homólogo russo.

Os dois líderes se encontraram rapidamente em Pequim no começo de novembro, à margem da cúpula Ásia-Pacífico, mas não chegaram a ter uma reunião bilateral. O encontro anterior — que também foi breve — ocorreu no início de junho, na França, durante a celebração do 70º Aniversário do Desembarque aliado na Normandia.

oglobo.globo.com | 03-12-2014

WASHINGTON — O secretário americano de Estado, John Kerry, afirmou nesta terça-feira que as sanções aplicadas pelos países ocidentais não impediram o apoio russo aos separatistas na Ucrânia, mas atingiram a economia da Rússia, que deve entrar em recessão no ano que vem, e um membro de seu departamento afirmou que os Estados Unidos discutem a possibilidade de uma ampliação das sanções caso a violência dos separatistas não diminua no Leste da Ucrânia.

— Claramente, a economia está sentindo o impacto das sanções — afirmou Kerry. — A Rússia tem a oportunidade de fazer uma escolha diferente. Estamos preparados, assim como outros também estão, para sentar e negociar soluções razoáveis para que todas as partes concordem em passos específicos que podem ser tomados para mover a questão numa direção diferente.

Os Estados Unidos e a União Europeia impuseram sanções aos setores financeiro, energético e defensivo da Rússia após a anexação por parte de Moscou da península ucraniana da Crimeia e depois de sinais de que o Kremlin estaria apoiando separatistas no Leste do país, algo que o governo russo nega.

— A Rússia não cumpriu suas promessas de dar fim ao apoio a separatistas armados, retirar tropas e aramamentos, soltar reféns permitir que inspetores da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) façam seu trabalho, e repeitar a soberania territorial da Ucrânia — afirmou o secretário.

No entanto, diplomatas europeus afirmam que há pouca vontade entre os países da União Europeia de ampliar as sanções a menos que haja um escalada nos conflitos no Leste da Ucrânia. A Rússia é a principal fornecedora de energia do continente e muitos países do bloco temem que represálias do Kremlin às sanções possam prejudicar suas economias.

Militares ucranianos e forças separatistas concordaram nesta terça-feira em renovar o cessar-fogo firmado em setembro, na região de Luhansk.

oglobo.globo.com | 02-12-2014

MOSCOU — O governo ucraniano e os separatistas pró-Rússia voltaram a afirmar seu compromisso com os tremos de cessar-fogo assinados em 5 de setembro, em Minsk. A Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE) anunciou nesta terça-feira um novo cessar-fogo na região de Luhansk, mas deixou claro que alguns pontos ainda precisam ser discutidos.

Apesar de assinado há quase dois meses, o cessar-fogo no Leste da Ucrãnia foi violado quase que diariamente, e estima -se que cerca de um quarto das 4.300 vítimas do conflito na região tenha morrido após a declaração de cessar-fogo.

Nesta semana, líderes rebeldes de Luhansk concordaram em controlar pequenops grupos dissidentes, e, de acordo com um comunicado confirmado pelo líder separatista Igor Plotnitsky, afirmaram “ter o controle de todas as unidades de cossacos, que também irão aderir à nova proposta”.

O governo ucraniano, que mantém diálogos paralelos com outro grupo rebelde, a República Popular de Donetsk, afirmou que as negociações mantiveram auma trégua nos arredores do aeroporto internacional nos últimos dias. No entanto, confrontos ressurgiram na região nesta terça-feira. As duas partes buscam maneiras de recomeçar as negociações e reinstalar o cessar-fogo.

O sudeste ucraniano tem se dividido entre sianis de um retorno do conflito em escala total, e indicativos de que os rebeldes e o Kremlin querem chegar rapidamente a um acordo, já que a economia russa começa a sentir os fortes efeitos da recessão, decorrente das sanções internacionais aplicadas em resposta à participação russa no conflito.

Especialistas afirmam que a política ucraniana agora é tema de uma cisão entre facções linha-dura e conciliatórias no governo russo. Antes do último acordo, a Otan relatou um impressionante acúmulo de armamento militar e soldados russos nas zonas controladas pelos rebeldes separatistas.

oglobo.globo.com | 02-12-2014

MOSCOU - No primeiro trimestre de 2015, a economia da Rússia deve entrar na sua primeira recessão desde 2009, de acordo com o vice-ministro da Economia Alexei Vedev.

Funcionário de casa de câmbio em Moscou atualiza o valor das cotações: Rublo já perdeu 30% este ano - SERGEI KARPUKHIN / REUTERS

O Produto Interno Bruto (PIB, soma dos produtos e serviços produzidos no país) deve encolher 0,8% no ano que vem, frente a uma alta de 1,2% um ano antes, anunciou Vedev nesta terça-feira em Moscou. A saída líquida de capital deve subir a US$ 125 bilhões em 2014, mais do que os US$ 100 bilhões previstos antes. Para o ano que vem, o governo prevê uma desaceleração, para US$ 90 bilhões.

A economia do maior exportador de energia do mundo está sendo afetada pelas sanções impostas devido ao conflito com a Ucrânia, além da queda de mais de 30% no preço do petróleo, o que está reduzindo as receitas com exportação. O rublo também registra forte queda.

A revisão das previsões para a economia da Rússia marca o primeiro reconhecimento do governo de Moscou de que a economia não crescerá em consequência do pior enfrentamento entre Rússia, Estados Unidos e seus aliados desde a Guerra Fria.

“Os elementos de instabilidade” afetando a economia russa variam de estruturais a geopolíticos, afirmou Vedev.

O rublo caiu mais de 26% frente ao dólar nos últimos três meses, a pior performance ente as mais de 170 moedas acompanhadas pela Bloomberg.

Além disso, a Rússia precisa que o petróleo do tipo Brent, de referência no mercado internacional, seja cotado em torno de US$ 100 este ano para equilibrar seu Orçamento, estima o Deutsche Bank. Nesta terça-feira, o Brent para entrega em janeiro já caiu para US$ 0,70, ou 1%, para US$ 71, 84 o barril no mercado futuro de Londres.

oglobo.globo.com | 02-12-2014

NOVA YORK, PARIS E LONDRES - A cotação do petróleo abriu a semana com uma forte queda para o menor patamar em cinco anos, após a decisão da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) na semana passada, de manter o atual nível de produção e exportação da commodity. No fim da sessão, os preços se recuperaram e fecharam em alta, mas a tendência, segundo analistas do setor, é que o preço do barril possa chegar a US$ 40, gerando graves problemas para as economias dependentes do combustível e inviabilizando economicamente explorações alternativas, como a do gás não convencional dos Estados Unidos e até o pré-sal brasileiro.

Segundo analistas, o recuo dos preços é o pior desde desde o colapso do sistema financeiro internacional em 2008 e ameaça gerar o mesmo impacto global de queda de preços de três décadas atrás, que gerou a crise da dívida do México e levou à dissolução da União Soviética. A Opep é responsável por cerca de um terço do petróleo produzido no mundo.

Produção de gás não convencional na China: queda dos preços do petróleo podem inviabilizar exploração - JONAH M. KESSEL / NYT/26-2-2014

A Rússia, cuja metade das receitas proveem da venda de petróleo, não pode mais contar com o mesmo nível de entrada de recursos de antes para resgatar uma economia já abalada pelas sanções da União Europeia (UE) e Estados Unidos. O Irã, que também está sendo afetado por sanções internacionais, se verá obrigado a reduzir os subsídios, que haviam, pelo menos parcialmente, preservado sua crescente população. Nigéria, que enfrenta uma insurgência islâmica, e Venezuela, afetada por medidas políticas e econômicas que se mostraram falhas, também estão entre os países mais afetados pelo derretimento da cotação do petróleo após a decisão da Opep, disseram analistas. Alguns deles veem uma situação de queda livre dos preços, a primeira em décadas.

— É um grande choque em Caracas, é um choque em Teerã, é um choque em Abuja — disse Daniel Yergin, vice-presidente da consultoria IHS, com sede em Englewood, Colorado. — Há uma mudança de psicologia. Haverá um grau maior de incerteza.

MERCADO VOLÁTIL

Nesta segunda-feira, no início das negociações, o preço do petróleo do tipo Brent (referência internacional) para entrega em janeiro caiu para US$ 67,53 o barril, menor valor desde outubro de 2009. Já a cotação do petróleo do tipo leve americano (WTI) para entrega em janeiro recuou para US$ 63,72, menor preço desde julho de 2009. No fim da sessão, porém, houve recuperação, com o Brent avançando 3,20%, para US$ 72,40 o barril; e o WTI subindo 3,94%, para US$ 68,76. Apesar da forte alta, a tendência, confirmada pela volatilidade dos preços, é de queda, segundo os analistas.

Reunidos na última quinta-feira em Viena, os ministros da Opep mantiveram inalterado o seu nível de produção, de 30 milhões de barris diários, negando a proposta de alguns de seus membros, como a Venezuela, de corte na produção para evitar a queda dos preços. Desde junho, os preços do petróleo bruto já caíram mais 35%.

Prevaleceu na reunião do cartel a posição da Arábia Saudita, contrária à redução das cotas de produção dos países-membros da Opep. De acordo com especialistas, há uma guerra no mercado petrolífero. A estabilidade de preços dos últimos anos foi afetada pelo início da produção de gás não convencional nos Estados Unidos, o que provocou uma revolução no setor.

A Arábia Saudita aposta na queda dos preços para inviabilizar economicamente a produção americana, uma vez que a exploração do gás não convencional exige uma tecnologia cara, de fragmentação hidráulica de rochas subterrâneas, para liberar petróleo e gás. A queda dos preços também afeta a produção saudita, mas o país teria condições, segundo analistas, de resistir por alguns anos um mercado com preços deprimidos.

TENSÕES GEOPOLÍTICAS

O preço do petróleo já está pressionado por uma conjuntura geopolítica complexa, marcada pela insurreição na Ucrânia e a disseminação da jihad islâmica no Oriente Médio. Além disso, os efeitos da crise econômica afetaram a demanda dos países consumidores de petróleo.

Ao mesmo tempo, acostumados a anos seguidos com a cotação do barril do petróleo a US$ 100, muitos governos em vez de investir em formas alternativas de receitas, apostaram tudo na indústria petrolífera para subsidiar políticas sociais, muitas vezes de cunho populista. Programas de habitação, preços subsidiados de gasolina, entre outros, mantiveram a felicidade de uma população em geral subempregada, apontam analistas. Segundo eles, essa fartura encontra-se agora ameaçada:

— Se os governos não são capazes de investir para manter as crianças fora das ruas, elas permanecerão nas ruas e poderemos ver o início de desordens políticas e revoltas — disse Paul Stevens, especialista em energia, meio ambiente e recursos naturais da Chatham House, em Londres, um grupo britânico que elabora políticas para o setor. — A maioria dos membros da Opep precisam bem mais de US$ 100 o barril para equilibrar seus orçamentos. Se começarem a cortar gastos, poderá haver problemas.

Desde o início do ano, o preço do petróleo caiu 38% e, teoricamente, a produção pode continuar a fluir até que os preços caiam abaixo dos custos diários nos poços existentes. Stevens afirmou que alguns produtores de gás não convencional nos Estados Unidos poderão romper o ponto de equilíbrio com o barril a US$ 40 ou menos. Segundo estimativas da Agência Internacional de Energia (AIE), o lucro a partir da perfuração na formação Bakken — os produtores de gás não convencionais que a Opep quer ver fracassar — é de cerca de US$ 42 por barril.

O presidente da Canadian Natural Resources, Murray Edwards, disse ao “Financial Post” que a cotação do petróleo pode recuar para até US$ 30 o barril, antes de voltar a subir e se estabilizar em torno dos US$ 70.

— Estamos vendo agora um choque de preços vindo a reunião (da Opep) e será preciso passar algumas semanas para que vejamos aonde as cotações irão parar — disse Yergin. — (As autoridades) têm que descobrir qual é a nova faixa de preços, e é este o drama que vai vigorar nas próximas semanas.

NEM TODOS SOFREM

Mas nem todos os produtores de petróleo estão sofrendo. O Fundo Monetário Internacional (FMI) avaliou em outubro que os diferentes níveis de preços de petróleo que os governos precisam para equilibrar seus orçamentos. Numa ponta estavam Kuwait, Qatar e Emirados Árabes Unidos, que têm o preço de equilíbrio a US$ 70 o barril. No outro extremo, Irã precisa de um barril a US$ 136 e Venezuela e Nigéria, US$ 120. A Rússia pode administrar suas contas com o barril cotado a US$ 101, segundo o FMI.

— A Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Qatar podem viver com preços relativamente baixos por um tempo, mas este não é o caso de Irã, Iraque, Nigéria, Venezuela, Argélia e Angola — disse Marie-Claire Aoun, diretora do centro de energia do Instituto Francês de Relações Internacionais, em Paris. — Forte pressão demográfica está alimentando suas exigências orçamentárias e energéticas. O preço do petróleo é essencial para suas economias porque eles falharam em diversificar (a economia).

oglobo.globo.com | 01-12-2014

MOSCOU - A decisão do Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) de não reduzir a produção de petróleo do grupo obrigou a Rússia a manter os seus níveis de bombeamento, disse, neste sábado, o vice-primeiro-ministro russo Igor Shuvalov, segundo reportou a agência de notícias TASS.

Apesar de ser um dos maiores produtores de petróleo do mundo, a Rússia não pertence à Opep.

A Opep anunciou na quinta-feira que vai manter inalterada sua cota de produção de 30 milhões de barris por dia, número pelo menos 1 milhão de barris diários acima de suas próprias estimativas de demanda pela commodity no próximo ano.

Depois da decisão, os preços do petróleo retomaram a forte queda depois da decisão e alcançaram um novo mínimo de quatro anos. O brent caiu US$ 2,43 dólares a US$ 70,15 na sexta-feira.

As vendas de petróleo e gás natural representam a metade da receita estatal, que fica equilibrada quando o valor do barril alcança os US$ 100. A queda dos preços afetou seriamente a economia russa, que está à beira de uma recessão.

DELEGAÇÃO RUSSA ENCONTROU MEMBROS DA OPEP

O auge do gás de xisto nos Estados Unidos, que está produzindo petróleo em seu nível máximo desde 1986, alterou drasticamente o panorama do mercado petroleiro global e pressionou os preços.

Apenas dois dias antes da reunião da Opep em Viena, a Rússia enviou sua delegação — liderada por Igor Sechin, um antigo aliado do presidente Vladimir Putin e chefe da maior petroleira russa, Rosneft — à capital austríaca para uma reunião com alguns membros da Opep.

Shuvalov disse ainda que o país não pediu que o grupo produtor diminuísse a produção.

Especialistas russos afirmam que é difícil que o país reduza sua produção de maneira repentina, dado que suas severas condições climáticas e a complexa geologia de seu solo não permitem frear intempestivamente as atividades de extração de seus poços.

A Rússia espera manter sua produção estável no próximo ano em mais de dez milhões de barris por dia.

oglobo.globo.com | 29-11-2014
Consumidor abastece em posto de Illinois. Até o Natal, o preço pode voltar aos US$ 2 registrados pela última vez em 2009 - Daniel Acker / Bloomberg

SÃO FRANCISCO - Se na Venezuela a retração no valor do barril tem causado um impacto negativo na economia, levando o presidente Nicolás Maduro a anunciar um plano de diminuição dos gastos públicos, nos Estados Unidos, ela levou à redução do preço da gasolina nos postos.

Pela primeira vez, em cinco anos, consumidores de alguns locais do país vão conseguir abastecer pagando US$ 2 dólares pelo galão combustível (unidade de medida usada nos postos em vez do litro).

Em postos do sul e do meio-oeste americano, a gasolina está, em média, US$ 0,20 acima dos US$ 2.

A expectativa é de que, com a redução do preço do petróleo, o galão de gasolina possa ficar US$ 0,20 mais barato, disse Michael Green, um porta-voz da Associação Automobilística Americana (AAA).

GASOLINA ABAIXO DOS US$ 2 DURANTE A CRISE

— Nós poderíamos ver o 1% de postos mais baratos com preços próximos a US$ 1,99 dentro das próximas duas semanas — observou Patrick DeHaan, analista sênio de petróleo na GasBuddy — Nós vamos ver pelo menos um posto no país cobrando US$ 2 até o Natal. E isso não é de forma alguma uma previsão. Isso é mais como uma certeza".

A última vez que o preço do galão do combustível ficou abaixo dos US$ 2 foi em 24 de março de 2009, em meio à recessão.

O preço médio da gasolina nas bombas era US$ 2,792 em 27 de novembro, uma queda de US$ 0,904 em relação ao mais alto registrado este ano, que foi de US$ 3,696 em 26 de abril, segundo dados da AAA.

O valor do petróleo caiu ainda mais depois de a Opep anunciar na quinta-feira que não vai reduzir a produção mesmo com os preços em queda.

oglobo.globo.com | 29-11-2014
Vladimir Putin participa de entrevista coletiva em Vladivostok, na Rússia - Mikhail Klimentyev / AP

MOSCOU — Uma queda nos preços do petróleo e sanções impostas pelo Ocidente devido à crise na Ucrânia estão custando à Rússia até US$ 140 bilhões (R$ 355 bilhões) por ano, informou o ministro das Finanças russo, Anton Sluanov, nesta segunda-feira. De acordo com Siluanov, só as restrições econômicas impostas pelos Estados Unidos e União Europeia são responsáveis pela perda de US$ 40 bilhões (R$ 101 bilhões) para Moscou.

— Estamos perdendo cerca de US$ 40 bilhões de dólares ao ano por causa de sanções geopolíticas, e cerca de US$ 90 bilhões a US$ 100 bilhões por causa da queda dos preços do petróleo em 30% — disse Siluanov, em uma entrevista coletiva. — A principal questão que afeta o orçamento e a economia e o sistema financeiro: é o preço do petróleo e a queda nos fluxos monetários provenientes da venda de recursos energéticos.

Moscou tem sofrido há meses com uma série de sanções ocidentais realizadas em represália às ações russas na crise ucraniana e que levaram a economia do país à beira da recessão. As medidas provocaram uma queda na moeda russa (o rublo), que perdeu quase um terço de seu valor em relação ao euro, e causaram uma significativa fuga de capitais do país. Em resposta, a Rússia proibiu as importações de alimentos provenientes de países da União Europeia.

No entanto, as sanções não são os principais perigos que ameaçam a economia russa. Em junho, o preço do petróleo caiu de US$ 115 (R$ 291) para em torno de US$ 80 (R$ 203) o barril. De acordo com os economistas do Banco Alfa russo, uma queda de US$ 10 dólares por barril de petróleo custaria US$ 10 bilhões para o orçamento federal russo e 0,4% do Produto Interno Bruto.

Para limitar o impacto da queda, Moscou anunciou na sexta-feira uma possível queda na produção de petróleo, a poucos dias da reunião em 27 de novembro da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), da qual a Rússia não é um membro. No domingo, o presidente russo, Vladimir Putin, tentou minimizar o impacto da queda dos preços do petróleo e das sanções sobre a economia russa.

— Não é um fato que as sanções, a queda acentuada dos preços do petróleo e a depreciação da moeda nacional vão nos levar a resultados negativos ou a consequências catastróficas. Nada disso, não vai acontecer — afirmou Putin. — Incomoda? Parcialmente, mas não é fatal.

Neste ano, a economia russa deve crescer pouco. Segundo o Banco Central Russo, o crescimento deve se limitar a 0,3% em 2014 e a zero em 2015. Além disso, há a previsão para uma estagnação da economia nos próximos três anos, em um cenário bem distante dos primeiros anos do mandato do presidente Vladimir Putin.

oglobo.globo.com | 24-11-2014

O presidente russo Vladimir Putin disse que Moscou não foi e não poderia ser isolada do cenário internacional e descartou riscos de “consequências” catastróficas para a economia russa por uma combinação de sanções ocidentais e depreciações do petróleo e do rublo. – Entendemos a fatalidade que é para nós a ‘cortina de ferro’. Não iremos [...]

O post Putin alerta que Rússia não aceitará isolamento de nenhuma espécie apareceu primeiro em Jornal Correio do Brasil.

correiodobrasil.com.br | 23-11-2014

“É o começo de uma recessão de três anos para a Rússia”, titula o Nezavissimaya Gazeta, acrescentando que o país vive “tempos mais difíceis do que o Governo pensa”. Segundo o diário de Moscovo, os analistas de um dos maiores bancos estatais da Rússia

acreditam que as previsões oficiais para os próximos três anos estão muito longe da realidade […]: o país está a afundar-se numa profunda recessão que poderá durar pelo menos três anos. Não haverá recuperação económica entre 2015 e 2017. […] O PIB da Rússia cairá 1,3 por cento em 2015, 1 por cento em 2016 e 0,5 por cento em 2017. A recuperação não chegará, pelo menos, até 2018, com 0,3 por cento de crescimento. […] Teremos de nos esquecer do crescimento do investimento nos próximos três anos: a produção industrial cairá 1,8 por cento em 2015 e 1 por cento em 2016. Em 2017, verificar-se-á um crescimento nulo.

A própria previsão de crescimento da Rússia pela sua “economia do petróleo” – uma média de 2,1 por cento de crescimento anual ao longo dos próximos três anos – baseou-se no preço médio de 88 euros por barril no início deste ano, escreve o The Economist. Agora que o preço do barril caiu para baixo de 64 euros, o semanário britânico afirma que “a Rússia está a sofrer”:

quando as economias se encontram numa rota insustentável, as finanças internacionais atuam muitas vezes como acelerador, empurrando os países para o limite mais rápido do que os políticos ou os investidores esperam. […] Mais de dois terços das exportações provêm da energia. O rublo desvalorizou cerca de 23 por cento em três meses. As sanções ocidentais também causaram danos, uma vez que os banqueiros aplicaram restrições não só aos amigos de Putin, mas também a uma ampla lista de empresas russas. De um modo mais geral, os anos de cleptocracia tiveram um efeito corrosivo. Grande parte da riqueza do país foi dividida entre os amigos de Putin. […] Se a economia russa entrar em colapso, serão feitos pedidos inevitáveis ao Ocidente para que as sanções sejam levantadas. Esta semana, Putin realçou que 300 mil empregos alemães dependem de relações comerciais com o seu país. No entanto, Angela Merkel manteve-se firme, e com razão. As ações têm consequências e Putin tem de o aprender. Quando se invade outro país, o mundo insurgir-se-á. E o mesmo acontece com a economia. Se Putin tivesse dedicado mais do seu tempo a fortalecer a economia da Rússia do que a enriquecer os seus amigos, neste momento não se encontraria numa posição tão vulnerável.

www.voxeurop.eu | 21-11-2014

RIO - Governos de vários países já estão advertindo seus cidadãos sobre um site que contém milhares de transmissões ao vivo de monitores de bebê, webcams e sistemas de circuito fechado de TV (CCTV).

De acordo com “BBC”, baseado na Rússia, o site transmite imagens de dispositivos — de mais de 250 países e territórios — que foram comprometidos usando senhas default ou mesmo sem usar qualquer senha.

O banco de dados do site mostra uma lista de 4.591 câmeras nos EUA, 2.059 na França e 1.576 na Holanda.

Um número menor de feeds também são identificados como sendo disponíveis a partir de países com economia em desenvolvimento, incluindo Nicarágua, Paquistão, Quênia, Paraguai e Zimbabwe.

Os sites de notícias estão evitando publicar o endereço do site espião.

Donos de equipamentos com risco de terem sido comprometidos estão sendo aconselhados a trocar a senha de seus dispositivos, verificar seus aparelhos, e desligá-los quando não estiverem em uso.

O fabricante de uma das câmeras sem fio mais exploradas — a Foscam — reiterou este conselho ressaltando que alterou o software que utiliza de modo a forçar os clientes a escolherem uma nova senha no lugar daquela que vem de fábrica. A empresa condenou o que chamou de “uma grave violação da privacidade das pessoas”.

“Uma analogia que melhor descreve esta situação seria a de alguém que simplesmente deixa uma janela de casa aberta, mas não dá permissão a um indivíduo não autorizado a configurar uma câmera mirada para o interior de seu aposento e transmitindo a imagem para o resto do mundo, disse o diretor de operações da Foscam, Chase Rhymes, em um comunicado.

Depois da chinesa Foscam, as marcas mais listadas foram Linksys e Panasonic.

oglobo.globo.com | 21-11-2014

VIENA — Disposição para ceder nas negociações. Esse foi o pedido mútuo do Irã e do grupo de potências mundiais liderado pelos Estados Unidos para o primeiro dia das negociações finais sobre o programa nuclear de Teerã. A cinco dias do prazo final para as negociações, as diferenças entre as partes envolvidas ainda são muito grandes. Para o chefe da diplomacia iraniana, Mohammad Javad Zarif, um acordo é possível, exceto pelas “demandas excessivas” das grandes potências. Já para o secretário americano de Estado, John Kerry, o Irã deve “fazer todos os esforços possíveis durante essa semana crítica”. Já o secretário britânico das Relações Exteriores, Philip Hammond, pediu “flexibilidade” aos representantes do governo iraniano.

As negociações foram abertas com um almoço entre Zarif e a representante da União Europeia, Catherine Ashton. Durante a tarde, representantes do grupo conhecido como 5 + 1 (Estados Unidos, Reino Unido, França, Rússia e China, além da Alemanha) tiveram um encontro com Zarif, e um outra reunião, entre representantes americanos e iranianos também aconteceu.

As grandes potências desconfiam, desde 2002, que o programa nuclear civil do Irã é, na verdade, um projeto para a construção de armas atômicas, acusação que o governo iraniano nega veementemente. A polêmica em torno do programa levou até mesmo a um risco de guerra, alimentado pelo temor de Israel e de países do Golfo que Israel possa dispor de bombas atômicas. Desde então, o Irã tem sofrido com diversas sanções internacionais, e busca acabar com as medidas que minam o desempenho de sua economia.

Por sua parte, as grandes potências exigem que o Irã limite sua capacidade nuclear de forma que a opção militar se torne inviável. Após anos de tentativas, as duas partes iniciaram, há um ano, um ciclo de negociações que busca superar os muitos obstáculos diplomáticos.

“Ainda restam diferenças e ainda não sabemos se conseguiremos superá-las”, afirmou na segunda-feira uma fonte americana.

Os negociadores tentam chegar a um acordo quanto à capacidade de enriquecimento de urânio que o Irã terá após os acordos. O reator de água pesada de Arak, capaz de produzir plutônio — outra via de acesso a armas nucleares — é um dos pontos em discussão, assim como os regimes de inspeção da ONU, aos quais o Irã deverá se submeter caso um acordo seja alcançado e as sanções sejam suspensas. Fontes ocidentais dizem que, com relação ao último ponto, “O Irã não tem aspirações realistas”.

Um eventual acordo abriria um caminho para que as relações entre o Irã e o Ocidente se normalizassem, e a possíveis cooperações com os Estados Unidos nos confrontos no Iraque e na Síria. Além disso, reduziria os riscos de proliferação nuclear no Oriente Médio, e permitiria que o Irã reativasse sua economia.

A importância das negociações fez até mesmo com que Estados Unidos e Rússia deixassem de lado suas divergências quanto ao conflito no Leste da Ucrânia. No último dia 13, John Kerry, e o ministro russo das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, reforçaram a importância de “chegar a um acordo global o quanto antes possível”,

Ainda assim, vários analistas acreditam que um acordo definitivo não sairá até o dia 24 de novembro, e creem que as potências mundiais e o Irã chegarão a um “acordo interino” que permita prolongar as discussões, como já aconteceu em julho, ainda que esta manobra seja vista como uma medida arriscada.

Membros do Congresso americano ameaçam adotar novas sanções contra o Irã caso um acordo não seja alcançado.

oglobo.globo.com | 19-11-2014

DAMASCO — Abu Maruan, sírio na faixa dos 50 anos, já não economiza. Faz mais de três anos que o último turista se foi, um desses que lhe tiraram das mãos os famosos lenços de seda que se vendiam às dezenas, ao preço de 10 euros cada. Numa rodinha com amigos diante de sua loja, Maruan segura numa das mãos o narguilé do qual sorve pausadamente. Com a outra ele joga os dados para tentar a sorte na “taula”, jogo de tabuleiro que, na falta de clientes, ocupa o tempo dos comerciantes e antiquários do bairro de Bab Touma, na zona velha de Damasco, capital da Síria.

— Se vendo apenas um lenço na semana já me considero afortunado — comenta Maruan sem tirar os olhos do jogo.

Ainda assim, esse comerciante volta a cada manhã para abrir sua loja.

— O que vou fazer? Ficar em casa? — indaga.

Para poder chegar ao fim do mês, muitas famílias se reagruparam em apenas uma casa, para assim poder pagar o aluguel. Outros vivem de remessas de familiares do exterior.

— Tento fazer estoque, mas já não chegam tecidos de Aleppo. As fábricas foram fechadas — acrescenta Maruan.

A cada passo, ecoa o som de tecidos carbonizados nas solas de Mohamed Hayani, empresário têxtil de 35 anos que gerencia uma fábrica em Aleppo. Ele caminha sobre quatro anos de trabalho e um milhão de euros de investimentos que viraram cinzas.

— Roubaram todos os aparelhos que permitiam o funcionamento da fábrica e atearam fogo no resto — queixa-se este homem de negócio arruinado.

A zona industrial de Sheij Nayar, dez quilômetros ao norte de Aleppo, a maior cidade síria e considerada a capital econômica do país, abrigava duas mil fábricas como a de Mohamed e dava de comer a 42 mil trabalhadores. Hoje, Sheij Nayar não passa de uma planície, na qual se espalham edifícios em ruínas, montanhas de plástico fundido, máquinas carbonizadas e vidros quebrados, tudo guardado por militares.

— Em tempos pré-guera, chamávamos Aleppo de “Oum al Kheir” (a mãe da bonança, em árabe) — lembra Mohamed Jamour, também empresário de Aleppo que olha desconsolado sua fábrica queimada. — A zona industrial representava 45% do total da produção da cidade, a maioria têxtil. Aleppo (com 4,75 milhões de habitantes antes da guerra) reúne 35% da produção total da Síria.

A maioria dos empresários tenta passar da área têxtil para o setor de construção, mais lucrativo em tempos de guerra.

— Não podemos suportar mais perdas. Os bancos não dão créditos, e ainda que reabríssemos, a maioria dos trabalhadores qualificados fugiu para a Turquia. E se pudéssemos produzir não conseguiríamos fazer frente aos preços exorbitantes do transporte devido à insegurança nas rotas para a capital — explica o empresário.

O corte nos subsídios afeta produtos básicos como o pão, cujo preço passou de 15 para 25 libras sírias (de 7 a 11 centavos de euro), ou o custo da eletricidade e da água, que subiu quase 100%.

— Antes, o quilo do arroz valia 35 libras sírias (17 centavos de euro), hoje vale 150 (70 centavos de euro). É impossível encontrar combustível para aquecer as casas, e as temperaturas estão caindo. No mercado negro custa até 200 libras (95 centavos de euro) o litro, enquanto o preço do governo é 80 (38 centavos de euro) — reclama Taufik, taxista de 35 anos, em Damasco.

A taxa de desemprego chega a 54,3%, segundo dados do The Economista Intelligence Unit, enquanto o restante está empregado ou pelo Estado (40% do total) — com salários de 180 euros mensais — ou pela crescente economia informal. Três milhões de pessoas perderam seu trabalho durante o conflito e outros três milhões se refugiaram em países vizinhos, reduzindo o consumo interno.

Em março de 2011, a exportação de petróleo respondia por 25% das receitas do Estado. O grupo jihadista Estado Islâmico (EI) tomou os postos de petróleo do noroeste do país, enquanto outros rebeldes fizeram o mesmo na fronteira com a Turquia, deixando apenas duas refinarias sob controle do governo. A produção de 400 mil barris diários da Síria antes da guerra caiu para 25 mil.

À crise causada pelo conflito somam-se as sanções econômicas da Europa e dos Estados Unidos. Somente Rússia e Irã rompem seu isolamento internacional. A potência persa é responsável por 50% das importações sírias. Poucos meses atrás, o Irã anunciava a ajuda de 2.200 milhões de euros para a Síria importar derivados de combustíveis e petróleo bruto. À espera de uma milagrosa recuperação econômica, Abu Maruan e seus amigos continuarão jogando dados para matar o tempo.

oglobo.globo.com | 17-11-2014

BRISBANE. A presidente Dilma Rousseff não deu nenhuma indicação hoje de quem será o novo ministro da Fazenda. Mas seja lá quem for, ela já decidiu uma coisa:

— Nós vamos fazer ajustes.

A presidente garantiu que “nem todos os ajustes são pelo lado de cortar a demanda”. E deixou claro que o foco será outro:

— Eu não acho que você consegue recuperar uma economia sem ter uma política com foco na demanda. Você não pode achar que com restrição à demanda você recupera — disse, referindo-se à política de austeridade aplicada em alguns países, sobretudo na Europa.

Tanto ela quanto o ministro Guido Mantega, da Fazenda, que a acompanhou na reunião de cúpula das 20 maiores economias do mundo, o G-20, se negaram a revelar em que áreas serão feitas os cortes. Dilma explicou que no Brasil hoje há vários gastos e despesas que não resultam nem em mais investimento, nem em aumento de consumo. São estes gastos que serão cortados, avisou:

— Essas despesas que não levam à ampliação de investimento e consumo são aquelas que nós consideramos que podem ser cortadas. Tem outras despesas que temos que olhar porque são excessivas.

E insistiu que o governo não trabalhará com a restrição da demanda :

— Nós vamos fazer um ajuste, mas nós não defendemos que a melhor política seja a restrição da demanda como forma de sair da crise. Não é. Isso está provado na própria União Europeia.

Diante da necessidade de ajuste fiscal, há rumores no mercado de que o governo aumentaria a Cida, isto é, uma contribuição cobrada a cada litro da gasolina — como forma de aumentar a arrecadação. Dilma desmentiu o rumo :

— Não conheço essa possibilidade. Eu não discuti a criação da Cide com ninguém — garantiu.

Mantega assegurou que os ajustes ainda não foram totalmente decididos. Mas que serão feitos ainda este ano. E um dos objetivos será crédito para aumentar o consumo.

— Vamos anunciar no seu devido tempo os cortes que serão feitos. Não está pronto ainda. Está em estudos.

Mantega assegurou que não haverá uma mudança radical de rumo na política econômica do governo. E repetiu o seu principal argumento: de que a população, ao reeleger o governo, aprovou a atual política econômica “que gerou emprego e aumentou a renda da população”. Quando um jornalista quis saber, então, se ele não se sentia injustiçado por estar sendo afastado do governo, Mantega reagiu:

— Desculpe, mas eu não fui afastado. Eu pedi para sair do governo já há algum tempo. Existem problemas familiares. Cheguei no limite.

Dilma e Mantega falaram em frustração no G-20 com a recuperação fraca da economia mundial, bem abaixo do esperado.

— Todos nós consideramos dentro da reunião que teria havia uma frustração do crescimento. Esperava-se no início do ano um crescimento mais robusto. E este crescimento não se verificou da forma como a gente esperava —disse Dilma.

Mantega saiu pessimista da reunião do G-20. Ele disse que dizer que não viu no encontro, que acabou hoje, nenhuma solução que vá realmente resolver o problema do crescimento nos países ricos. Medidas do bloco para estimular o crescimento global, como os planos específicos de cada país ou a criação de um núcleo para atrair investidores para projetos de infraestrutura, “são positivas”, disse Mantega, mas não resolvem o problema:

— A verdade é essa: não apareceu aqui nenhuma solução para estimular a demanda da Europa, principalmente. Os Estados Unidos estão retomando, o Reino Unido está retomando. Mas Europa e Japão, não estão.

Mantega voltou a atribuir o baixo crescimento no Brasil e a desaceleração nos países emergentes ao baixo crescimento nas economias ricas:

— O comércio internacional era estimulado pelos países avançados, pela União Europeia, Estados Unidos, Japão. Então, foram eles que desaceleraram o comércio internacional. Portanto diminuíram as encomendas feitas para a China, os países asiáticos…

Ele citou ainda uma série de problemas específicos do Brasil para explicar o baixo crescimento do país, como uma seca forte, menos dias úteis, repercussão dos ajustes do Fed (o Banco Central dos Estados Unidos) e pressão inflacionária. Até, finalmente, reconhecer que o Brasil precisa fazer ajustes :

— O Brasil tem que fazer ajustes. Temos que reduzir a pressão inflacionária, e ela está sendo reduzida. Temos que fazer outros ajustes, como o fiscal, o que há muitos meses eu venho dizendo. Estamos preparando estes ajustes, quando estiverem prontos serão anunciados — afirmou.

Estes ajustes, do lado fiscal, segundo ele, vão abrir espaço para “uma política monetária mais flexível”.

— O objetivo é caminhar para um superávit fiscal maior em 2015 do tamanho que já foi anunciado na proposta orçamentária que está tramitando no Congresso, em torno de 2% de superávit primário.

Dilma cobra reforma do FMI

Dilma cobrou a prometida reforma do Fundo Monetário Internacional (FMI), onde para Brasil e outros emergentes foi prometido mais peso. A reforma foi bloqueada pelos Estados Unidos.

— Se não houver saída, ou se não for aprovada esta reforma no âmbito de todos os membros, no caso, dos Estados Unidos, nós procuraremos, junto aos ministros da Fazenda do G-20, soluções alternativas.

Banco dos Brics vai operar em julho

Mantega disse que os Brics — grupo que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — decidiram se organizar para que o novo banco do bloco, chamado Novo Banco do Desenvolvimento, comece a funcionar a partir de julho do ano que vem. Será indicado um conselho de administração provisória e alguns membros da diretoria antes mesmo de ter a aprovação do Congresso para o funcionamento do banco.

Mantega disse que os emergentes estão preocupados com a demora da economia internacional em superar a crise. E disse que os esforços do G-20 não têm sido suficientes:

— Todos os membros estão preocupados. Os países emergentes dependem do comércio internacional e do dinamismo da economia internacional.

oglobo.globo.com | 16-11-2014

RIO - Com os escândalos de corrupção na Petrobras e a decisão da empresa de adiar a publicação de seu balanço financeiro, analistas temem uma paralisa na empresa que tenha impacto na indústria de petróleo, já que investimentos e decisões importantes estão praticamente suspensos. Embora a companhia continue mantendo e até batendo recorde de produção, é grande o medo, na estatal, de se autorizar qualquer negócio ou operação.

Há cerca de 15 dias, os sistemas internos da companhia ficaram mais fechados. Há cada vez menos funcionários com acesso a contratos. Além disso, a falta de clareza dos impactos das investigações faz com que a autoridade de diversas pessoas na empresa fique em xeque e que todos repensem antes de assinar qualquer documento.

Se os escândalos afetam o cotidiano da estatal, o maior reflexo é nos investimentos. Segundo uma fonte, a maior parte dos investimentos está paralisada. Ninguém aprova projeto novo. Um fornecedor da empresa explicou que apenas a compra de materiais para projetos em andamento segue em ritmo normal.

— Compra de equipamentos e aluguel de embarcações de apoio seguem seu curso normalmente. Mas os grandes projetos estão paralisados. Ninguém quer assinar nada sem todas as autorizações — diz uma fonte.

O advogado André Castro Carvalho afirma que uma reestruturação da imagem da estatal pode levar um ano e que, até lá, as denúncias terão impacto no setor:

— Muitos achavam que o setor de petróleo puxaria a recuperação do país. Agora, pode agir de maneira contrária. Temos que lembrar que a empresa é muito grande e afeta uma cadeia imensa de setores. Vários clientes e empresários ficaram, na sexta-feira, muito apreensivos com os impactos disso na economia.

Edmar de Almeida, do Grupo de Economia da Energia da UFRJ, lembra que os escândalos colocam em xeque os avanços em compliance (permitir que normas e leis sejam respeitadas) e prejudica outras negociações da estatal com seus parceiros.

PESO NA ECONOMIA FLUMINENSE

Júlio Bueno, secretário de Desenvolvimento do Estado do Rio, afirma que o peso do petróleo na economia fluminense é muito grande e foi o responsável pelo aumento do PIB estadual nos últimos anos. Mesmo reconhecendo a gravidade dos escândalos, ele acredita numa retomada:

— O setor do petróleo é acostumado a viver em crises. As grandes empresas internacionais convivem com ditaduras, se sobressaem na Rússia. O setor vai superar.

Ele afirmou, contudo, que esta nova fase de escândalos da empresa vai gerar um debate entre a Petrobras e a sociedade:

— Acredito que isso pode chegar até ao questionamento da Petrobras como operadora única do pré-sal — disse.

oglobo.globo.com | 16-11-2014

A queda do Muro de Berlim e o colapso do chamado socialismo real no fim do século XX marcaram o fim da Guerra Fria e levaram o historiador Francis Fukuyama a proclamar, em livro, o fim da História — isto é, a vitória da democracia liberal capitalista sobre o comunismo. Engano. O comunismo não ressurgiu, mas o capitalismo continua enfrentando suas crises cíclicas — como a Grande Recessão de 2008/9 —, e se fortaleceram inimigos da democracia, como o terrorismo internacional, responsável pelo primeiro ataque estrangeiro ao território dos EUA, o 11 de Setembro de 2001, com o colapso das Torres Gêmeas em Nova York.

A situação no Oriente Médio se complicou muito na esteira das invasões americanas do Afeganistão (2001) e do Iraque (2003), a Primavera Árabe, o impasse persistente Israel/palestinos e a guerra civil síria. Surgiram novas ameaças globais, como o Estado Islâmico. E a disputa entre o Ocidente e a Rússia pela supremacia na Ucrânia tem levado muitos, como Mikhail Gorbatchov, a advertir sobre um possível retorno da Guerra Fria, numa simplificação do atual momento em que as questões mundiais se tornaram muito mais diversificadas. Apareceram, ainda, novas formas de autoritarismo, como o bolivarianismo populista e estatizante na América Latina, na verdade o velho nacional-populismo requentado.

O desafio de enfrentar as mudanças climáticas, por sua vez, adicionaram mais incerteza ao futuro da Humanidade.

Na noite de 9 de novembro de 1989, seções do Muro de Berlim foram derrubadas e a euforia tomou conta da Alemanha. Vinte e cinco anos e €2 trilhões (investimentos do governo alemão na área da antiga RDA) depois, a reunificação alemã avançou muito, mas ainda há muros a derrubar. Thomas Petersen, do Instituto Allensbach, disse ao GLOBO que berlinenses ocidentais e orientais continuam se vendo como se fossem povos diferentes. O desemprego ainda é bem mais alto no Leste alemão (10,3%, em 2013) do que no Oeste (6%), inversamente ao rendimento do trabalhador — média de 2.691 euros mensais (Leste), contra 3.577 euros (Oeste).

Os jovens ainda sofrem com o trauma vivido pelos familiares mais velhos, que do dia para a noite foram confrontados com uma mudança radical de sistema político e econômico. Mas surgem novas percepções. Tanto Gisela Meyer, de 66 anos, quanto o jovem Maximilian Juncker, ambos alemães,concordaram que o chamado muro invisível mudou. “Se ainda há uma divisão, é entre bairros ricos e pobres, que existem dos dois lados da cidade”, comentou Gisela.

Há razão para otimismo. Pesquisa divulgada aos 25 anos da derrubada do muro revela que os alemães entre 14 e 29 anos superarão definitivamente a divisão. Eles são contra os clichês e consideram a reunificação a data mais importante do século XX para o país.

oglobo.globo.com | 16-11-2014

BRISBANE - Três minutos. Foi o tempo que a presidente Dilma Rousseff teve hoje na reunião dos líderes das 20 maiores economias do mundo, o G-20, em Brisbane, na Austrália, para expor suas posições. E, no seu primeiro discurso diante das principais lideranças do mundo desde sua reeleição, o mistério: Dilma não falou sobre o rumo que pretende dar à economia brasileira, segundo um participante.

Por ordem da presidente, tanto o discurso quanto o teor de seus encontros e conversas informais durante o dia inteiro de participação no G-20 foram mantidos em segredo. Dilma usou os três minutos do discurso para repetir a posição que Brasil e seus parceiros dos Brics — grupo que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — haviam fechado numa reunião de manhã: de que países ricos precisam tomar medidas urgentes para fortalecer a demanda e reativar a economia mundial.

Num comunicado divulgado horas antes, os Brics martelaram neste ponto: de que os emergentes estão dando sua contribuição à economia mundial ao manterem “taxas de crescimento elevadas, a despeito de circunstâncias adversas e dos impactos das políticas das principais economias avançadas, sobretudo, monetárias”.

No breve discurso, Dilma destrinchou contribuições do Brasil ao plano que será lançado pelo G-20 neste domingo para reativar a economia mundial. Os líderes do G-20 vão encerrar o encontro de cúpula de Brisbane com uma promessa ambiciosa: gerar 2% de crescimento adicional no mundo nos próximos cinco anos. Para isso, cada país apresentou medidas que pretendem adotar para ativar o crescimento nos seus países. No discurso, Dilma mencionou o Pronatec, para a formação de milhões de alunos.

O G-20 vai lançar também um “hub” — isto é, um núcleo — para organizar, atrair e direcionar investidores para vários projetos de infraestrutura nos países do bloco. Dilma elogiou esta iniciativa no discurso. Ela encerrou sua intervenção repetindo a queixa conjunta dos Brics: de que é preciso encontrar uma solução ao bloqueio dos Estados Unidos à reforma do Fundo Monetário Internacional (FMI) — uma reivindicação-chave dos países emergentes, que reclamam mais poder na instituição.

O Planalto informou no fim da noite em Brisbane que Dilma teve uma “conversa informal” com o presidente americano Barack Obama. Mas não houve confirmação do esperado encontro bilateral dos dois nem do tema da conversa.

Segundo uma fonte, Dilma estaria disposta a retomar preparativos para uma visita oficial aos Estados Unidos, que havia sido cancelada pelo Planalto depois que a presidente descobriu que foi espionada pela Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA, na sigla em inglês). Obama já pediu desculpas em várias ocasiões.

O silêncio de Dilma e de seus assessores sobre as atividades do Brasil no G-20 contrastou com a transparência de outras delegações. O primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, chegou a sair da área reservadas dos líderes do G-20 para ir até o centro de imprensa, onde deu uma entrevista coletiva à imprensa italiana.

oglobo.globo.com | 15-11-2014

BRISBANE - Os líderes dos Brics — grupo que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — cobraram hoje das economias ricas mais esforços para reeguer a economia mundial. Num comunicado oficial após uma reunião pela manhã em Brisbane, na Austrália, onde estão reunidos líderes das 20 maiores economias do mundo, o G-20, os Brics praticamente lavaram as mãos sobre sua responsabilidade pela situação atual da economia mundial, dizendo que emergentes estão contribuindo com crescimento elevado “a despeito de circunstâncias adversas e dos impactos das políticas das principais economias avançadas, sobretudo as monetárias”.

O comunicado diz: “Líderes tomaram nota dos esforços do G-20, mas ressaltaram que é preciso fazer mais para sustentar a demanda global no curto prazo, especialmente por parte das economias avançadas, e para promover um incremento do investimento e do potencial de crescimento de longo prazo”. Os Brics afirmam que “investimentos e reformas econômicas são crucialmente importantes para aumentar a demanda e alavancar o crescimento de longo prazo”. E garantem que “economias emergentes de mercado permanecem, em geral, bem preparadas para enfrentar choques externos”.

A reunião dos Brics foi comandada pela presidente Dilma Rousseff. E não ficou só na cobrança. Os Brics se declararam desapontados e manifestaram “grave preocupação com a falta de implementação nas reformas do Fundo Monetário Internacional (FMI) de 2010”. E alertaram para o impacto que isso poderá ter na legitimidade e credibilidade da instituição. “A demora injustificada em ratificar o acordo de 2010 está em contradição com os compromissos conjuntos assumidos pelos líderes do G-20 desde 2009”, queixam-se os Brics.

O grupo pediu que o G-20 marque uma discussão sobre “opções quanto aos próximos passos”, caso os Estados Unidos não ratifiquem a reforma do FMI até o fim do ano. O comunicado começa dizendo que a criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) — o banco dos Brics — conduziu a cooperação entre os países do grupo “a um patamar fundamentalmente novo, com a criação de ferramentas que contribuem para a estabilidade do sistema financeiro internacional”.

O comunicado diz que os líderes foram informados sobre os avanços na implementação do banco e anunciaram a formação de um conselho de administração interino. O documento da reunião termina com promessas de mais cooperação entre os Brics e com os líderes se dizendo “profundamente preocupados” com a epidemia de Ebola e seu severo impacto econômico e social. Eles se disseram comprometidos em trabalhar com a comunidade internacional no combate à epidemia.

oglobo.globo.com | 15-11-2014

Com uma economia muito diversificada, a Federação Russa possui importantes recursos naturais e humanos, que constituem forte potencial de desenvolvimento económico. O povo russo em geral, já a partir de meados da década de 1950, vivia bem melhor que os cidadãos de países capitalistas há muito orientados para o mercado, como o México, a Índia, o Brasil ou a Argentina. A taxa de analfabetismo era virtualmente zero, o ensino superior era muito bom e economicamente acessível; o desemprego quase não existia, a igualdade entre os géneros era uma das mais desenvolvidas do mundo, com as mulheres a chegar por vezes mais longe do que os homens nas suas carreiras, especialmente na ciência. Muitas famílias possuiam automóveis, TVs, gravadores de cassetes e podiam viajar de avião pelo menos uma vez por ano até às áreas balneares famosas do mar Negro. Mas a produção e distribuição de produtos de consumo (particularmente de vestuário e alimentos) era relativamente ineficiente e havia uma falta de habitação muito pronunciada em muitas das áreas urbanas, se bem que fossem raras situações de habitação precária ou insalubre. Contudo, desde a desintegração da União Soviética, em 1991, o caminho para a estabilização macroeconómica tem sido longo e difícil, A partir daquele ano, o país sofreu severa contracção económica ao longo dos cinco anos seguintes, enquanto o governo e o parlamento divergiam sobre a implementação das reformas. A base industrial do país foi seriamente atingida. O país tem passado por diversas crises, destacando-se a crise financeira de 1998, resultante fundamentalmente da crise financeira do Sudeste Asiático. Depois da dissolução da URSS, causada mais por razões étnicas do que económicas, a primeira recuperação russa, ainda ligeira mas já a mostrar os sinais da influência do mercado livre, ocorreu em 1997. Porém a crise financeira asiática daquele ano acabou por atingir a economia russa. Diante da significativa desvalorização do rublo, o governo Russo aumentou a taxa de juros, mas as medidas de política econômica fracassaram e a Rússia declarou uma moratória unilateral, gerando perdas a seus credores internos e externos. Assim, 1998 ficou marcado por ser o ano da crise financeira Russa, com intensa fuga de capitais e, na sequência, recessão. A economia começou a se recuperar em 1999, entrando numa fase de rápida expansão, com o PIB a crescer a uma taxa média de 6.8% por ano, entre 1999 e 2004, apoiado em preços mais altos no petróleo, num rublo mais fraco, e no aumento na produção de industrial e de serviços. Esta recuperação, a par de um renovado esforço governamental em 2000 e 2001 para fazer avançar as reformas estruturais, aumentou a confiança das empresas e dos investidores para a segunda década de transição. A Rússia permanece fortemente dependente de exportações de matérias-primas, em particular do petróleo, do gás natural, de metais e de madeira, que correspondem a mais de 80% do total das exportações, o que deixa o país vulnerável às oscilações dos preços do mercado mundial. Em anos recentes, no entanto, a economia também foi impulsionada pela crescente procura interna, que cresceu cerca de 12% ao ano entre 2000 e 2004, o que mostra o vigor do seu mercado interno. O PIB do país atingiu 535 bilhões de dólares em 2004, fazendo da economia russa a 16ª economia mundial, sendo que Moscou, concentra 30% da produção do país. Um dos maiores desafios dos formuladores da política econômica russa é o de encorajar o desenvolvimento de PMEs num ambiente empresarial dominado por oligarcas e dotado de um sistema bancário jovem e disfuncional. Muitos dos bancos russos pertencem a grandes empresários ou oligarcas, que usam frequentemente os depósitos para financiar os seus próprios negócios. O Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento e o Banco Mundial tentaram normalizar as práticas bancárias fazendo investimentos em acções ordinárias e na dívida, mas com um sucesso muito limitado. Outros problemas incluem um desenvolvimento económico desigual entre as regiões do país. Enquanto que a região de Moscovo, com a sua imensa população de 20 milhões de habitantes, é uma metrópole moderna, com setores de tecnologia de ponta e renda per capita próxima à das economias mais fortes da eurozona, o resto do país, em especial as comunidades indígenas e rurais da Ásia, vive como vivia no fim da Idade Média. A integração ao mercado também se faz sentir noutras cidades grandes como São Petersburgo, Kaliningrad e Ekaterinburg. Estimular o investimento estrangeiro é também um grande desafio. Até agora, o país tem se beneficiado do aumento nos preços de petróleo e tem sido capaz de pagar uma boa parte da sua dívida externa, que era gigantesca. O reinvestimento dos lucros obtidos pela exploração de recursos naturais em outros sectores da economia também é um problema. Em 2003, a prisão de Mikhail Khodorkovski, um dos oligarcas russos e, à época, o mais rico empresário do país, sob a acusação de fraude, evasão fiscal e corrupção durante as grandes privatizações conduzidas no governo de Boris Yeltsin, gerou certa desconfiança entre os investidores estrangeiros. Muitas das grandes fortunas actuais, na Rússia, parecem ter resultado da aquisição de propriedades estatais a muito baixo preço ou da aquisição barata de concessões governamentais. Outros países manifestaram a sua preocupação com a aplicação "selectiva" da lei contra empresários individuais. Apesar de tudo, algumas grandes firmas internacionais têm grandes investimentos na Rússia. Um exemplo é a fabricante de bebidas Scottish & Newcastle, que descobriu que o mercado da cerveja na Rússia crescia muito mais rapidamente do que noutras áreas da Europa. Quase duas décadas após o colapso da União Soviética, em 1991, a Rússia continua a tentar estabelecer uma economia de mercado moderna e de fato tem conseguido altas taxas de crescimento económico. Ao longo da década de 2000, a economia russa registrou taxas de crescimento acima de 7% em 2000 (10%), 2001, 2002, 2003, 2004 e 2007 (8,1%). Em 2005 teve alta de 6,4 e, em 2006, de 6,8%. Em 2008, a Rússia cresceu 6% e foi a 9ª economia do mundo. No entanto, diante da crise mundial e a queda dos preços do petróleo, as perspectivas para 2009 são mais sombrias. Em dezembro de 2008, a ministra da Economia, Elvira Nabiullina, previu 2,4% de crescimento do PIB para 2009, o índice mais baixo desde 1998 - o fatídico ano da moratória russa. A Rússia integra a área da APEC (Asia-Pacific Economic Cooperation), um bloco econômico que tem por objetivo transformar o Pacífico numa área de livre comércio e que engloba economias asiáticas, americanas e da Oceania.


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