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Rússia Economia

RIO — Como todo jornalista de sucesso, o americano David Remnick costuma estar no lugar certo, na hora certa. O hoje editor da revista “New Yorker” foi correspondente do “Washington Post” na ex-União Soviética de 1988 a 1992, período em que o Kremlin já começava a permitir uma cobertura mais livre de seus bastidores. Pouco depois, teve a oportunidade de presenciar in loco o desmoronamento do regime comunista e sua confusa transição para o capitalismo, que retratou no livro “O túmulo de Lênin”, clássico do jornalismo lançado originalmente em 1994 — e que acaba de ganhar sua primeira edição no Brasil, pela Companhia das Letras. O calhamaço de quase 800 páginas captura a atmosfera dos últimos dias do regime soviético pelo testemunho de seus personagens, sejam eles políticos (Mikhail Gorbachov, Boris Yeltsin) ou figuras anônimas (moradores de rua, padres, sobreviventes de Tchérnobil e até uma antiga namorada de Gorbachov).

A temporada soviética não apenas catapultou a carreira de Remnick — ela também o preparou, de certa forma, para o desafio enfrentado por todo jornalista americano atual. Depois de fazer a autópsia de um dos mais duros e sangrentos regimes da humanidade e de ver a esperança de uma próspera democratização nos anos 1990 dar lugar à autoritária Rússia de Vladimir Putin, ele pôde usar sua expertise em Estados opressores para cobrir melhor a presidência de Donald Trump — que, além de suas suspeitas relações com Moscou, vem promovendo uma guerra contra a imprensa e o Judiciário, dois dos pilares da democracia americana.

— A minha experiência por lá já está começando a me ajudar — brinca ele, de Nova York, em entrevista por telefone ao GLOBO. — Mas é claro que ainda existe uma diferença entre uma democracia consolidada, como a dos Estados Unidos, e a de um Estado autoritário. A eleição de Trump trouxe muito pessimismo, mas ainda temos uma Constituição, instituições e seres humanos sobre os quais não se passa por cima tão facilmente.

LIVRO SOBRE O COLAPSO SOVIÉTICO CHEGA AO BRASIL

Quando escreveu “O túmulo de Lênin”, Remnick não imaginava que, duas décadas depois, a Rússia voltaria a ser um forte antagonista dos Estados Unidos, com acusações de tentar manipular as eleições do país e estar por trás da vitória do atual presidente americano. Ao voltar para a redação do “Washington Post”, já com o regime soviético definitivamente enterrado, o jornalista brincou: “É o fim da história”. Na época, fazia sentido. Esperava-se que os Estados Unidos se tornassem a única superpotência e que a Rússia caminhasse para uma tranquila democratização. Mas o mundo virou multipolar e a terra de Putin, um Estado autoritário e cada vez mais hostil ao Ocidente. Voltar ao livro de Remnick, vencedor do Pulitzer em 1994, ajuda a compreender o que deu errado nesse processo.

Os meandros econômicos que levaram ao colapso soviético são conhecidos. Porém, ao investigar os efeitos da liberalização promovida por Gorbachov nos anos 1980, o jornalista se concentra muito mais sobre as questões simbólicas dessa política, como a revelação dos horríveis segredos do passado do regime (com perseguições e matanças), do que seu impacto na economia. Segundo o autor, uma vez que o regime mostrou o que era, estava condenado. Como um personagem shakespeariano que calcula mal a sua jogada, Gorbachov tentou salvar a União Soviética ao ensaiar modernizá-la, mas acabou criando as bases para o golpe que a implodiu.

— Gorbachov permitiu ao povo entender uma parte perdida da História — explica Remnick. — De uma hora para a outra, todos os mitos, os acobertamentos, as mortes em massa, tudo isso passou a ser questionado. Muitas pessoas viam pela primeira vez o fim da censura, da vida intelectual... E isso pode ser um processo doloroso. Ninguém estava preparado no início. Se você vive num regime autoritário, se sua vida é uma versão real de um romance do George Orwell (autor de “1984”), sua consciência não muda em cinco segundos.

Nesse sentido, o primeiro dos 27 capítulos do livro já resume o que está por vir. Remnick vai a uma floresta remota do país para descobrir a repercussão do golpe (que havia obrigado Gorbachov a renunciar) pela ótica de um oficial de carreira encarregado de exumar as ossadas escondidas de jovens oficiais poloneses secretamente massacrados por Stalin. Um cidadão soviético modelo, que teria dado a vida pelo regime, ele aparece literalmente desenterrando a História — a cada ossada encontrada, perde um pouco da fé na sociedade em que foi treinado a acreditar.

Ao longo do livro, o autor retrata como a tão aguardada “demokratia” acaba se tornando uma “dermokratia” (“merdocracia”) para o russo médio. O estranhamento ao capitalismo e à abertura cultural é revelado em pequenos eventos: um homem entediado ao assistir a seu primeiro jogo de baseball, uma plateia de cinema atônita diante do filme “Wall Street” (a versão de 1987) e o ressentimento provocado pela súbita chegada do luxo e do consumo ao país, reservados para poucos.

Apesar da transformação caótica e apressada, Remnick acredita que pelo menos um elemento marcante da antiga União Soviética sobreviveu aos dias atuais:

—A KGB foi atacada nos anos 1990, mas nunca desapareceu e se tornou a instituição mais poderosa. Tanto que Putin saiu de lá, assim como muitas das pessoas que estão em seu governo. De certa forma, Putin representa uma restauração, não do comunismo como ideologia, mas como poder soviético. O que sobreviveu foi o autoritarismo. Ninguém liga mais para comunismo. Isso estava morto antes de estar morto.

Após o sucesso de “O túmulo de Lênin”, Remnick voltou a escrever sobre a Rússia em 1997, no livro “Resurrection”, desta vez focando na reestruturação do país, com suas novas elites e grupos mafiosos. Em 1998, foi convidado a editar a “New Yorker” — cargo que ocupa até hoje. Em 2010, lançou “A ponte” (Companhia das Letras), uma biografia de Barack Obama. Um dos jornalistas mais influentes dos Estados Unidos, ele causou comoção com um texto publicado na internet logo após a eleição de Trump, em que alertava: “É assim que o fascismo nasce”. Estaria ele testemunhando um novo colapso, agora o da democracia americana?

— Nesse texto, eu também disse que ainda não estávamos lá (num país fascista) e que poderíamos lutar para evitar o pior — pondera o autor. — Está sendo encorajador ver o comportamento da imprensa, da Justiça e até de algumas pessoas no Congresso. Vivemos um momento caótico, mas o presidente ainda não tem os poderes de um ditador absoluto, e não acredito que ele os terá.

Sobre Obama, com quem ainda tem contato, Remnick arrisca um palpite sobre os seus próximos passos no espectro político:

— Acho que ele ficará quieto por um tempo. Ficará sutil. Se a ocasião pedir uma voz, ele eventualmente falará.

oglobo.globo.com | 21-02-2017

Relatório do Banco Mundial (Bird), divulgado em janeiro, mostra sinais mais consistentes de recuperação da economia mundial, indicando que o mundo se afasta dos efeitos negativos da crise de 2008, que levou o mundo à chamada Grande Recessão. Segundo a instituição, o crescimento global deverá avançar 2,7%, após uma expansão de 2,3% em 2016, a pior performance desde o início da crise. Este avanço será puxado sobretudo pela recuperação dos preços das commodities exportadas por países emergentes, inclusive a cotação do petróleo, além da continuidade da recuperação nas economias avançadas, como a dos EUA.

O relatório do Banco Mundial calcula que os países desenvolvidos devem crescer num ritmo de 1,8% este ano, frente a 1,6% em 2016. A economia americana, prevê o Bird, deve ter uma expansão de 2,2% em 2017, contra uma taxa estimada de 1,6% no ano passado. Esses números não consideram os efeitos das promessas eleitorais de Donald Trump, de corte de impostos, mais gastos em infraestrutura e desregulamentação do mercado financeiro. A zona do euro e o Japão avançarão respectivamente 1,5% e 0,9%, um ritmo mais fraco, porém ainda de expansão.

O previsto aumento de juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano), após anos de taxas historicamente muito baixas, deverá afetar o ritmo de recuperação. O Bird alerta sobre impactos deste aumento, especialmente sobre o endividamento corporativo em economias emergentes. “O que acontece nos EUA não fica nos EUA”, lembrou Kose. Um crescimento mais acelerado nos EUA, por outro lado, provavelmente levará a um aumento das cotações das commodities, estimulando países emergentes, que devem crescer 2,3% em conjunto, após dois anos de estagnação. O Bird prevê inclusive o fim das recessões em Brasil e Rússia.

“Após anos de crescimento global desapontador, nos sentimos encorajados por ver prospectos econômicos mais robustos no horizonte”, afirmou Jim Yong Kim, presidente do Bird. Ayhan Kose, autor do estudo do Bird, intitulado Prospectos Econômicos Globais, disse, por sua vez, que “a boa notícia é que se trata de uma recuperação que surge após o fundo do poço, se se pensar 2016 como o fundo do poço”.

De fato, esta é a boa notícia. O Bird, porém, alerta que há “riscos significativos”, sobretudo de natureza política. Ou seja, a vitória de Trump nas eleições americanas, levando para a Casa Branca um governo nitidamente nacional-populista, e o avanço de líderes extremistas antiglobalização à esquerda e à direita na Europa representam graves ameaças para o comércio mundial, o equilíbrio fiscal, e a continuidade de uma ordem econômica integrada globalmente, responsável pela estabilidade mundial.

oglobo.globo.com | 21-02-2017

RIO - A Rússia está deixando claro que pretende se tornar uma potência cada vez maior do setor petrolífero: depois de ter se tornado a maior produtora de petróleo do mundo, superando a Arábia Saudita em dezembro do ano passado, o país inicia agora a perfuração do primeiro de três poços exploratórios no Brasil. Segundo informou a Rosneft Brasil, subsidiária da russa Rosneft — quinta maior petroleira do mundo — nesta segunda-feira, a empresa deu início à perfuração do primeiro poço na Bacia do Solimões, localizado no estado brasileiro do Amazonas.

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Primeira atividade da empresa russa no Brasil, a medida dá iníco à fase exploratória da empresa como operadora do projeto na Região Amazônica. Para isso, em 2015, a Rosneft comprou as participações nos blocos no Solimões da PetroRio (antiga HRT). De acordo com a petroleira, a expectativa é realizar perfuração, testes e avaliações desse primeiro poço já no segundo semestre deste ano. Os estudos realizados até o momento na região indicam a existência de reservas de gás natural.

Inicialmente, a Rosmeft Brasil planeja perfurar pelo menos quatro poços na chamada "campanha de perfuração exploratória", com o objetivo de obter informações geológicas "valiosas para determinar o potencial de recursos de hidrocarbonetos da Bacia do Solimões". A empresa sinalizou que tem grande interesse em ampliar suas atividades no Brasil, que considera um país "com grandes oportunidades de crescimento na área de upstream (exploração e produção de petróleo), tanto no segmento onshore como no offshore", destacando ainda que "continua avaliando as opções de monetização de petróleo e gás para o Projeto Solimões".

Os 18 blocos do Solimões cobrem uma área total de aproximadamente 37 mil quilômetros quadrados. Nos blocos, já foram identificadas 11 acumulações de gás natural e petróleo, em sua maioria. De acordo com a Rosneft, essas acumulações foram avaliadas pela D&M em uma estimativa de 666 milhões de barris de petróleo equivalente — dos quais 95% são gás natural.

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Em 2014, a empresa assinou um memorando de entendimento com a Petrobras que prevê a análise detalhada das opções de monetização de gás na Bacia do Solimões, a criação de um Grupo de Trabalho conjunto e a elaboração de um roteiro para o avanço do estudo. Esse estudo conjunto foi elaborado porque, como no passado a Petrobras já havia feito descobertas de reservas de gás natural na região, o objetivo é encontrar formas de tornar os empreendimentos na região economicamente viáveis (a exploração dessas reservas, devido às longas distâncias no meio da selva, exigem elevados investimentos para levar o gás aos centros consumidores).

A Rosneft finalizou dizendo ainda que os estudos foram concluídos e que "está trabalhando com as partes interessadas na Região Amazônica para avançar com as opções de monetização prioritárias".

oglobo.globo.com | 21-02-2017

WASHINGTON — Com uma agenda agressiva, a política externa de Donald Trump assusta líderes mundiais - que o diga Enrique Peña Nieto, do México, que já foi desconvidado para uma visita a Washington pelo Twitter. Mas estar longe do radar da maior economia do mundo nunca é bom, ainda mais quando o país precisa de investimentos externos para voltar a crescer.trump

E é o que parece estar ocorrendo com o Brasil. A Casa Branca informou na noite desta segunda-feira que o vice Mike Pence foi quem falou com Michel Temer, na primeira comunicação oficial entre os dois governos desde a posse americana de 20 de janeiro - o mandatário brasileiro falou com Trump apenas após sua vitória nas urnas, em novembro. Não está claro, até o momento, se esta foi uma ligação introdutória para Trump, mas o fato que o ato mostra desprestígio do Brasil.

Até agora, Trump já recebeu três chefes de governo - do Reino Unido, do Japão e do Canadá - e receberá Benjamin Netanyahu, de Israel, na quinta-feira, completando quatro visitas internacionais em quatro semanas. Além disso, Trump ligou para mais de 20 chefes de governo e de Estado, incluindo países que parecem ser menos importantes que o Brasil no tabuleiro global, como Peru, Colômbia, Nova Zelândia e Kuwait. Do famoso Brics, falou com Rússia, Índia e China, deixando de lado a primeira e a última letra da sigla, ou seja, Brasil e África do Sul. Para consolo do Planalto, Mauricio Macri, da Argentina, também só falou com o vice - mas a ligação para Buenos Aires ocorreu na sexta-feira, antes da chamada para Brasília.

Muitos na diplomacia brasileira advogam que ser esquecido pelo conflituoso e intempestivo Trump é até um bom negócio, por evitar conflitos. Pode ser no curto prazo, mas demonstra que a nova administração da maior potência global está sinalizando que o Brasil terá um peso menor que sob o governo de Barack Obama, quando o inquilino da Casa Branca dizia que o país era uma "potência global". Palavras apenas, mas que pesam no complicado jogo das relações e dos investimentos externos.

oglobo.globo.com | 14-02-2017

A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) previu em relatório mensal divulgado nesta segunda-feira, 13, que a maior elevação da oferta da commodity em 2017 entre os países que não fazem parte do cartel será do Brasil. O País deve registrar um incremento de 250 mil barris por dia (bpd), para 3,4 milhões de bpd. Na sequência, as elevações de mais destaque previstas para este ano virão dos Estados Unidos (240 mil bpd), Canadá (180 mil bpd), Casaquistão (140 mil bpd), "outros" países da África (40 mil bpd) e Congo (30 mil bpd).

A produção brasileira vai, portanto, na contramão da estratégia do cartel de diminuir a oferta para tentar estancar a queda dos preços que durou mais de dois anos. Um pacto de redução de 1,2 milhão de barris por dia foi feito entre os países membros no fim do ano passado para entrar em vigor em 2017. Alguns produtores que não fazem parte da Opep também aderiram ao corte. Na sexta-feira, a AIE considerou que 90% do acordo está sendo cumprido. Entre os maiores declínios de produção previstos no documento divulgado hoje para este ano estão China, México, Rússia, Colômbia, Omã, Azerbaijão, Noruega e Indonésia.

Em relação aos países em desenvolvimento, a estimativa da Opep é que a redução da oferta em 2016 tenha sido de 60 mil bpd na comparação anual, para uma média de 12,13 milhões de bpd - a projeção feita anteriormente era de 20 mil bpd. "A principal razão para essa contração foi a menor produção na América Latina em comparação com os últimos anos", considerou a entidade no relatório. Em outro trecho do documento, a Organização diz: "Na América Latina, a oferta total de petróleo foi decepcionante, depois de uma queda notável no resultado anual brasileiro em comparação com o ano anterior, bem como um maior declínio anual na Colômbia".

A expectativa do cartel é a de que a oferta da commodity este ano entre os países que não fazem parte da Organização cresça 240 mil bpd, um aumento de 20 mil bpd em relação ao documento anterior, em função, principalmente dos Estados Unidos por causa da elevação dos preços.

No caso brasileiro, a Opep projeta uma produção crescente ao longo do ano, com uma média de oferta de 3,3 milhões de bpd no primeiro e no segundo trimestres do ano; de 3,4 milhões de bpd no terceiro, chegando a 3,5 milhões de bpd nos últimos três meses de 2017. Se as previsões do cartel se confirmarem, haverá um novo incremento da produção local, que foi estimada hoje em uma média de 3,15 milhões de bpd no ano passado, o que já representou uma elevação de 80 mil barris por dia ante 2015.

A produção líquida total brasileira em dezembro subiu 70 mil bpd ante novembro, para uma média de 3,33 milhões de bpd. "A Petrobras, após a criação de três unidades de produção em 2016 e, mais recentemente, na Cidade de Caraguatatuba, dará início a mais quatro plantas: Tartaruga Verde e Mestiça, Lula Norte (P-67), Lula Sul (P-66) e Libra", citou a entidade. A produção de petróleo deverá aumentar em 250 mil bpd, para uma média de 3,4 milhões de bpd, quando esses projetos se materializarem ainda este ano, segundo o relatório.

Para 2017, a Organização prevê que a oferta do produto entre os países em desenvolvimento cresça 160 mil bpd, para uma média de 12,29 milhões de barris por dia, um aumento ante a projeção anterior de 12 milhões de bpd. "A região chave para o crescimento deverá ser a América Latina, com incremento 170 mil bpd, principalmente do Brasil, para uma média de 5,29 milhões de barris por dia", destacou. Em menor grau, conforme o documento, o resultado será influenciado pela África, que deve ampliar em 70 mil barris por dia sua produção (2,18 milhões de bpd). Já a Ásia deve registrar queda na oferta de 40 mil bpd, para uma média de 3,58 milhões de barris por dia.

Economia

A Opep manteve a projeção de que o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil crescerá 0,4% em 2017 no documento divulgado hoje, o qual cita o País 31 vezes. A entidade enfatizou que o superávit comercial nacional subiu de US$ 900 milhões em janeiro de 2016 para US$ 2,7 bilhões no mês passado, o melhor resultado no início de um ano desde 2006, e que foi fruto de elevação de 18% das importações e de 32,6% das exportações, com destaque para a venda de minério de ferro e soja para a China.

O relatório salientou que o real teve valorização de 4,6% em janeiro e que a inflação foi inferior a 7% no ano passado pela primeira vez desde 2014 (6,6%), o que abriu espaço para a queda da taxa básica de juros, atualmente em 13,00% ao ano. Já sobre o mercado de trabalho, foi registrado o aumento da taxa de desemprego em dezembro para o nível recorde de 12%.

Desde meados do ano passado, a Opep já previa que, após dois anos de recessão, o Brasil seria o principal destaque da produção este ano entre os países que não fazem parte da Opep. No fim da semana passada, a Agência Internacional de Energia (AIE) também deu destaque à produção doméstica e avaliou que, assim como no Canadá, o aumento da oferta local se daria por causa da maturação de investimentos de longo prazo que começaram a entrar em operação agora.

Em dezembro de 2016, a previsão da Organização já era a de que o Brasil incrementaria sua produção este ano em 250 mil bpd, para 3,4 milhões de bpd - seis meses antes era de 260 mil bpd.

ANCARA e BUDAPESTE - Enquanto a chanceler alemã, Angela Merkel, visitava o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, numa tentativa de fortalecer o papel da Otan no combate ao Estado Islâmico e no controle da crise migratória que assola a Europa, o presidente russo, Vladimir Putin, foi à Hungria, num esforço de reparar sua reputação com Estados-membros da União Europeia (UE) e acelerar a suspensão das sanções impostas contra Moscou desde a anexação da Crimeia em março de 2014.

Discursando ao lado de Erdogan na capital turca, Merkel usou o fracasso da tentativa de golpe contra o governo, em julho do ano passado, para cobrar do presidente — acusado de autoritarismo — respeito à democracia.

— É exatamente por isso que é importante que a liberdade de opiniões seja mantida, e por isso discutimos a questão da liberdade de imprensa — afirmou Merkel, que pediu ao presidente turco que garanta a diversidade de opiniões no país. — A oposição é parte da democracia.

A discussão sobre o combate ao terrorismo rendeu uma saia-justa durante a coletiva, quando Merkel afirmou ter conversado com Erdogan sobre a luta contra o “terrorismo islamista”.

— A expressão ‘terrorismo islamista’ entristece profundamente a todos nós muçulmanos — afirmou o presidente. — Essa expressão é incorreta porque o Islã e o terror não podem ser associados. O Islã significa paz.

Em resposta, Merkel assegurou que seu governo “não apenas respeita e valoriza os muçulmanos, mas quer trabalhar com eles contra o terrorismo”.

Com as relações entre Ancara e a União Europeia cada vez mais fragilizadas, Merkel busca garantir que o acordo firmado entre o bloco europeu e a Turquia, em março do ano passado, não se desmanche. O plano de ação ajudou a reduzir drasticamente o número de pessoas que atravessam o Mar Egeu tentando chegar à Grécia, para seguir rumo à Europa Ocidental. Embora o governo turco tenha alegado que a promessa de € 3 bilhões para apoiar projetos humanitários — destinados a ajudar os quase três milhões de sírios refugiados no país — não foi cumprida, Merkel garantiu que o acordo permanece “no caminho certo” e louvou os “extraordinários esforços” da Turquia no apoio a refugiados.

A visita foi criticada por Kemal Kilicdaroglu, líder do Partido do Povo Republicano (CHP), principal legenda de oposição da Turquia. Segundo ele, Erdogan explorará politicamente a passagem de Merkel, sugerindo que ela visitou o país para apoiar as políticas do governo.

Hungria defende Rússia

Já em Budapeste, o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, saudou a visita de Vladimir Putin como “um sinal do processo de realinhamento no mundo”, afirmando que o cenário é favorável para o fortalecimento das relações entre a Rússia e a Hungria. Em uma entrevista coletiva, os dois falaram de questões econômicas, e destacaram a necessidade de cooperação internacional.

Embora a visita tenha sido encarada pela imprensa e pela oposição húngara como uma tentativa de Putin de amenizar as tensões entre Moscou e a UE e derrubar as sanções, o tema não foi citado na coletiva— ainda que Orbán tenha feito uma alusão às conturbadas relações entre o bloco europeu e a Rússia:

— Por razões que estão muito além de nossa compreensão, a porção ocidental de nosso continente demonstrou políticas bastante anti-Rússia que acabaram atingindo a economia húngara.

Em entrevista, o porta-voz de Orbán, Zoltan Kovács, explicou a importância da visita de Putin:

— Não queremos sair da UE. Queremos transformá-la em uma aliança de nações que possam governar sem a influência dos burocratas de Bruxelas — afirmou. — Ao mesmo tempo, sentimos que todos irão redefinir suas relações com Moscou e também queremos fazer isso. Não estamos mais em um mundo bipolar, mas sim num mundo multipolar que está surgindo.

oglobo.globo.com | 03-02-2017

As bolsas de valores dos Estados Unidos não apresentaram direção definida, nesta quinta-feira, 2, em meio a um ambiente de cautela, com os investidores aguardando os números do relatório de emprego do país, a ser divulgado amanhã.

O índice Dow Jones fechou em queda de 0,03%, aos 19.884,91 pontos; o S&P 500 avançou 0,06%, para 2.280,85 pontos; e o Nasdaq perdeu 0,11% e encerrou aos 5.636,20 pontos.

Os índices Dow Jones e S&P 500 oscilaram entre perdas e ganhos durante quase toda a sessão, em um dia em que nem os dados positivos da economia americana bastaram para dar apoio às ações em Wall Street.

Mais cedo, o dado que mede a produtividade da mão de obra dos EUA subiu a uma taxa anualizada de 1,3% no quarto trimestre, acima da expectativa de +0,8%. Já os pedidos de auxílio-desemprego caíram 14 mil, para 246 mil, também melhor que a estimativa de 252 mil.

Entre as empresas que divulgaram resultados hoje, a ConocoPhillips afirmou que teve prejuízo de US$ 35 milhões no quarto trimestre, comparado com prejuízo de US$ 3,5 bilhões um ano antes. Os analistas consultados pela Thomson Reuters estimavam prejuízo maior, de US$ 0,42 por ação, e as ações da companhia avançaram 0,39%.

Ontem, o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) anunciou a manutenção de sua taxa de juros e não deu maiores detalhes sobre o ritmo de aperto monetário neste ano. Frustrados com a falta de informações os investidores aguardam agora pelo payroll de amanhã para fazerem suas apostas.

Os investidores também observam com apreensão a postura confrontadora do presidente dos EUA, Donald Trump, em relação à política internacional. O vazamento da conversa entre ele e o presidente do México, Enrique Peña Nieto, na qual Trump afirma que poderia enviar tropas americanas ao México para deter os "bad hombres" caso as Forças Armadas mexicanas não o façam gerou mal-estar, mesmo com a tentativa de ambos os países de amenizar o caso.

Os traders ainda manifestaram preocupação com as críticas do magnata a um acordo imigratório do governo Obama com a Austrália e ao tom ameaçador destinado ao Irã em relação aos recentes testes de mísseis balísticos. Além disso, em reposta à decisão dos EUA de permitir "certas transações" com a Rússia, apesar das sanções, Trump disse não estar afrouxando a relação. (Com informações da Dow Jones Newswires)

WASHINGTON - A primeira semana do governo de Donald Trump foi marcada por medidas que tendem a tornar o país mais fechado, isolado e controverso. Seus atos representam uma ruptura de décadas de política externa americana. Os impactos deste novo posicionamento definido pelo presidente têm o potencial de alterar o atual equilíbrio global, com os EUA perdendo espaço e a China conquistando mais influência, sobretudo na economia e no comércio.

Não faltam exemplos desta nova direção. O mais notório é o forte embate com o México, com Trump ameaçando o vizinho e tratando os imigrantes como criminosos. A nova embaixadora americana na ONU quer reformular a entidade e prometeu “pagar com a mesma moeda” a quem se opuser aos planos de Washington. E ainda há uma aproximação complicada com a Rússia, adversária histórica, acusada de ter interferido nas eleições americanas justamente para favorecer Trump.

Além disso, Trump fez a defesa da tortura como método de interrogatório; retirou os EUA do maior acordo de livre comércio do planeta (a Parceria Transpacífica, TPP na sigla em inglês); fez silêncio em relação aos novos assentamentos israelenses nos territórios palestinos; suspendeu temporariamente o acolhimento de refugiados e restringiu a entrada de cidadãos de alguns países muçulmanos. Isso sem contar que tinha se intrometido em questões internas da Europa antes da posse, sendo repreendido por muitos líderes do Velho Continente.

— Estes anúncios e medidas vão contra o que o país defende desde o fim da Segunda Guerra Mundial. No caso das medidas contrárias ao livre comércio, é uma postura que muda o posicionamento adotado pelo país na década de 1820 — disse Erick Langer, professor de História da Georgetown University, em Washington.

Publicação conservadora critica

A “National Review”, principal publicação conservadora do país, criticou a linha de ataque adotada por Trump em seu discurso de posse. O presidente disse que os EUA estão perdendo com a globalização, que tanto defenderam e da qual se beneficiaram. “A riqueza de nossa classe média foi arrancada de suas casas e depois redistribuída em todo o mundo”, disse o magnata, contrariando os dados econômicos. A publicação destaca que Trump não fez distinção entre amigos e inimigos no discurso, ao tratar de política externa, e, em nenhum momento, fez “referência à liberdade”.

“O soft power (influência baseada na inspiração e no diálogo, que se contrapõe ao poder militar ou à coerção) acumulado pelos EUA ao longo de décadas acabou em 17 minutos”, escreveu a “Economist” sobre o discurso. “O problema para os outros países, talvez mais ainda para os aliados tradicionais que para os adversários, é que Trump não pode ser ignorado. Washington é o ponto de referência para a política externa de todos os outros países”, alertou a revista britânica, citando que a crise com o México é uma advertência aos velhos amigos americanos.

Michael Shifter, presidente do Inter-American Dialogue, crê que alguns países já aproveitam o novo foco interno dos EUA:

— O governo de Israel agora tem mais liberdade, sem a pressão americana — afirmou, citando a autorização à ampliação de assentamentos na semana passada nos territórios palestinos. — Para outras nações pode ocorrer o mesmo.

Shifter, porém, crê que ainda é cedo para saber qual será o impacto a longo prazo. E lembra que ainda há muita improvisação nas políticas de Trump, o que dificulta prognósticos:

— Estamos no começo do drama, de uma novela que terá vários capítulos. Temos que ver como serão as reações da sociedade, da classe política e dos outros países a estas políticas.

As incertezas se ampliam, pois o novo secretário de Estado, Rex Tillerson, ainda não foi aprovado pelo Senado — seu nome passou com apenas um voto de diferença na Comissão de Relações Exteriores da Casa na segunda-feira. Há possibilidade de que ele seja rejeitado, devido a seu histórico de proximidade com a Rússia: Vladimir Putin já lhe deu uma condecoração, a Ordem da Amizade, quando ele era presidente da ExxonMobil, empresa que tinha interesses em negócios de US$ 500 bilhões com Moscou.

China tenta ocupar vácuo

A briga com o México, devido à política para barrar imigrantes ilegais, à construção do muro e à ameaça de sobretaxar as exportações do país em 20%, gerou reações em toda a América Latina. Após décadas sendo tachados de imperialistas, os EUA estavam começando a melhorar sua imagem no governo de Barack Obama, graças à reaproximação com Cuba. Este avanço, porém, está se invertendo.

Mas o maior dano efetivo pode ser na Ásia. Ao sair da TPP (formada por EUA, Japão, Austrália, Brunei, Canadá, Chile, Malásia, México, Nova Zelândia, Peru, Cingapura e Vietnã), Trump pode ter empurrado uma importante fatia do comércio global — e da influência americana — para o colo de Pequim. A China pretende atrair estes países para a Parceria Econômica Regional Ampla (Rcep), acordo que reúne 15 países de Ásia e Oceania, sem os EUA.

— A morte da TPP e o aumento do Rcep ao mesmo tempo impedirão a criação de novos empregos americanos, por exemplo, em agricultura, na área de produtos farmacêuticos e alta tecnologia. Portanto, vai contra os objetivos declarados pelo próprio Trump, devido ao acesso mais difícil ao mercado asiático — disse ao GLOBO Linda Lim, professora da Ross School of Business da Universidade de Michigan.

Alan Deardorff, seu colega na Escola de Política Pública da Universidade de Michigan, vai além:

— A China já indicou sua disposição para preencher a lacuna deixada pelos EUA, e tenho certeza de que a maioria dos países asiáticos estará ansiosa para seguir essa liderança.

Langer, da Georgetown University, pondera que a falta de democracia e liberdade pode limitar a ação chinesa.

oglobo.globo.com | 29-01-2017

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tomou várias medidas desde a sua posse na última sexta-feira, 20, que vão da retirada dos EUA da Parceria Transpacífico à construção de um muro na fronteira com o México. As medidas de Trump também fizeram com que os investidores voltassem a optar pelo risco - o que impulsionou o mercado acionário americano, com o Dow Jones superando a barreira psicologicamente importante dos 20 mil pontos e o Nasdaq e o S&P 500 renovassem suas máximas históricas.


Sexta-feira, 20
Logo após a cerimônia de posse, o novo presidente americano assinou um decreto contra o Ato de Cuidado Acessível, programa de saúde implementado pelo ex-presidente Barack Obama, que ficou conhecido como "Obamacare". No decreto, Trump ordena que agências do governo paralisem regulamentações e adotem medidas que enfraqueçam a lei. O bilionário pediu que os departamentos do governo "renunciem, adiem, concedam isenções ou atrasem a implementação" de disposições que imponham encargos ficais nos estados, nas empresas ou em indivíduos. Trump também deu maior flexibilidade aos estados americanos para a implementação do programa de saúde.

A tentativa de desmantelar o Obamacare era uma das prioridades do novo Congresso americano, dominado pelos republicanos, segundo o presidente da Câmara, Paul Ryan. No entanto, alguns senadores já alertaram que qualquer plano de substituição para a Câmara irá exigir cooperação de alguns democratas.

No mesmo dia, o bilionário proclamou 20 de janeiro de 2017 como o Dia Nacional do Patriotismo. O anúncio foi feito após o discurso de posse, que adotou um tom populista e nacionalista. Em 2009, Obama havia proclamado o dia de sua posse como uma Jornada Nacional da Renovação e da Reconciliação.


Sábado, 21
Um dia após sua posse, Trump visitou o quartel general da CIA, uma das agências de inteligência dos EUA, e fez um discurso de reaproximação. Antes da posse, o republicano adotou um tom rigoroso contra as agências, principalmente após a divulgação de um relatório, feito a pedido de Obama, que mostrava uma interferência do governo da Rússia nas eleições americanas, que teria prejudicado a candidata democrata, Hillary Clinton.


Domingo, 22
Em uma cerimônia na Casa Branca, Trump anunciou que iria começar uma renegociação do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta, na sigla em inglês), em reuniões que faria com o premiê do Canadá, Justin Trudeau, e com o presidente mexicano, Enrique Peña Nieto. No entanto, a reunião de Trump com Peña Nieto, que estava agendada para 31 de janeiro, foi cancelada após a polêmica sobre o pagamento do muro que o americano pretende construir na fronteira entre os dois países.


Segunda-feira, 23
No primeiro dia útil do mandato de Trump, a principal medida do presidente americano foi a assinatura de um decreto que retira os EUA da Parceria Transpacífico (TPP, na sigla em inglês). O acordo, firmado durante o governo Obama, reúne 12 países do Pacífico, que representam cerca de 40% da economia mundial. Além de EUA, concordaram com o TPP Austrália, Brunei, Canadá, Chile, Cingapura, Japão, Malásia, México, Nova Zelândia, Peru e Vietnã. "Temos falado disso há muito tempO", disse Trump, que, durante a campanha, chamou o acordo de "terrível".

O bilionário também assinou um decreto para congelar as contratações de funcionários em nível federal, indo ao encontro de sua promessa de campanha de reduzir a quantidade de funcionários públicos e mudar o status de alguns. A exceção se deu para contratações militares.

Além disso, Trump determinou que uma regra chamada "global gag" volte a vigorar, fazendo com que os EUA não possam mais enviar dinheiro a organizações humanitários do exterior para programas de planejamento familiar que ofereçam aborto ou que defendam os direitos das mulheres de realizarem abortos.


Terça-feira, 24
Trump se reuniu com CEOs de montadoras como Fiat Chrysler, General Motors e Ford e prometeu cortar impostos e regulações "desnecessárias" e disse que irá tornar processos mais rápidos. Entre as medidas concretas, o presidente americano assinou uma ordem executiva para tornar mais rápidos processos de revisão ambiental e avançou com o projeto dos oleodutos de Keystone e Dakota, cujas construções foram bloqueadas por Obama devido a motivos ambientais.


Quarta-feira, 25
Uma das promessas mais polêmicas da campanha de Trump, a construção de um muro na fronteira com o México, em uma medida anti-imigração. Segundo Trump, a medida deve "assegurar a segurança e a integridade territorial dos EUA, assim como assegurar que as leis de imigração do país sejam fielmente executadas". Além disso, Trump vetou a soltura de imigrantes ilegais detidos e manteve a prioridade de deportação para imigrantes com antecedentes criminais.

No campo financeiro, os três principais índices acionários americanos - Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq - renovaram suas máximas históricas, com o Dow Jones ultrapassando a marca psicologicamente importante dos 20 mil pontos. O feito foi comemorado por Trump, em seu perfil pessoal no Twitter.


Sexta-feira, 26
Em uma das últimas medidas da semana, Trump assinou duas ações executivas no Pentágono, durante a cerimônia de nomeação de James Mattis, novo secretário de Defesa dos EUA. Uma das ações prevê um aumento nos investimentos das Forças Armadas americanas. A outra ação estabelece vetos à entrada de alguns imigrantes - o que, de acordo com o presidente americano, irá "prevenir a entrada de terroristas radicais islâmicos" no país.

WASHINGTON/MOSCOU - O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e seu par da Rússia, Vladimir Putin, devem debater as sanções que Washington impôs a Moscou devido ao conflito na Ucrânia quando os dois líderes conversarem por telefone no sábado, disse uma assessora do primeiro escalão da Casa Branca. Antes, Trump disse que, como parte da reaproximação que busca com a Rússia, está preparado para rever as sanções que seu antecessor, Barack Obama, impôs aos russos em 2014 em reação à anexação da península ucraniana da Crimeia.

Essa medida irá encontrar resistência de figuras influentes em Washington e de líderes estrangeiros que acreditam que as sanções só deveriam ser amenizadas se Moscou atender as condições ocidentais em relação à Ucrânia. sanções

Entre as sanções dos EUA que vêm prejudicando mais a Rússia estão aquelas que visam seus serviços financeiros, já que limitam a capacidade da economia russa de elevar sua dívida, e suas empresas de energia.

No mesmo dia em que tratar com Putin, Trump terá uma conversa telefônica com a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e com o presidente da França, François Hollande, informou o porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer, em um tuíte. Tanto Hollande quanto Merkel argumentaram que é prematuro suavizar as sanções.

A principal assessora de Trump, Kellyanne Conway, disse em entrevistas a redes de televisão norte-americanas nesta sexta-feira que Trump e Putin provavelmente irão debater uma variedade de temas, inclusive esforços conjuntos para combater o terrorismo.

Solicitada no programa "Fox & Friends", do canal FOX News, a comentar as insinuações de que as sanções do governo Obama irão estar na pauta, Kellyanne respondeu: "Tudo isso está sendo cogitado".

A conversa será a primeira entre os dois líderes desde que Putin ligou para Trump para cumprimentá-lo por sua vitória eleitoral em novembro.

Trata-se de um primeiro passo rumo ao que Trump classificou como uma normalização das relações depois de três anos de tensões desencadeadas pelo conflito ucraniano.

Trump e Putin nunca se encontraram, e não está claro como suas personalidades muito diferentes irão se combinar. O primeiro é um empresário extravagante do setor imobiliário que muitas vezes age por instinto, enquanto o segundo é um ex-espião soviético que calcula cada passo metodicamente.

Ambos, porém, falaram sobre encerrar a inimizade que colocou o relacionamento entre as duas potências em seu pior momento desde a Guerra Fria. Trump está sofrendo um enorme escrutínio de críticos que afirmam que ele foi eleito com ajuda da inteligência russa – uma alegação que ele nega.

oglobo.globo.com | 27-01-2017
China e Rússia poderiam influenciar economia e defesa, enquanto a Alemanha poderia ser compasso moral do Ocidente; nenhum destes países evitaria, porém, um vácuo de poder se Trump apostar em medidas isolacionistas, diz especialista

WASHINGTON - A tensão parece crescer à medida que o governo de Donald Trump avança. Em seu primeiro dia útil, ele começou a cumprir algumas promessas de campanha, em atos como a retirada dos EUA do maior acordo comercial do planeta e mais restrições ao aborto. Mas seus opositores — que no sábado fizeram as maiores marchas de protesto do país desde a Guerra do Vietnã — entraram com o primeiro processo judicial contra o presidente, alegando questões éticas. E Enrique Peña Nieto, mandatário mexicano, que virá a Washington no dia 31, elevou o tom e disse que não se submeterá ao republicano.

Trump iniciou sua primeira segunda-feira na Casa Branca recebendo empresários e sindicalistas, focando na economia: retirou os EUA da Parceria Transpacífica (TPP, na sigla em inglês), prometeu cortes de impostos para empresas e redução de 75% das regulamentações do país. Com ordens executivas — semelhantes às usadas por Barack Obama, que não tinha maioria no Congresso — congelou novas contratações do governo (exceto entre os militares) e baniu recursos federais a instituições que promovam o aborto no exterior. trump

No fim de semana já havia assinado medidas para acabar com o Obamacare — programa de saúde do governo anterior —, suspender políticas ambientais e ampliar o uso de combustíveis fósseis no país. Assim, deu passos para eliminar o legado de Barack Obama e impor sua agenda conservadora.

Mas a oposição, que mostrou força ao reunir milhões de americanos nas marchas das mulheres que ocorreram em todos os 50 estados do país no sábado, também partiu para ação. A organização não governamental Cidadãos para a Responsabilidade e Ética em Washington (Crew) abriu um processo judicial contra o novo presidente, sob o argumento de que Trump violou a Constituição ao aceitar pagamentos de governos estrangeiros.

“Já está claro que somente a força judicial acabará com o flagrante desrespeito da Constituição”, disse Laurence H. Tribe, professor de Direito Constitucional na Harvard Law School e um dos autores da ação, no site da ONG.

‘Assédio para ganhos políticos’, diz herdeiro

O grupo afirma que Trump se beneficiou quando diplomatas estrangeiros preferiram se hospedar em hotéis de sua rede para mostrar boa vontade ao presidente. Trump disse — sem oferecer provas — que doou todo o lucro que recebeu por parte destes hóspedes. A ONG disse que não queria processar o presidente, mas que não vê como ele está cumprindo a Constituição.

De acordo com o “New York Times”, Eric Trump, um dos filhos do presidente — atualmente vice-presidente executivo da organização — garante que o conglomerado do pai tem feito tudo para garantir o cumprimento da lei.

— Isso é um caso de assédio moral para ganhos políticos — afirmou ao jornal.

Os advogados de Trump defendem que a cláusula legal citada tem como objetivo impedir que funcionários em cargos públicos aceitem presentes de potências estrangeiras.

— Pagar por um quarto de hotel não é um presente — defendeu a advogada pessoal de Trump, Sheri Dillon.

A nove dias da posse, Trump disse que se afastaria dos negócios, e anunciou a solução de que suas empresas bilionárias seriam controladas por um fundo, a ser gerido pelos seus filhos. Mas especialistas criticaram a decisão, defendendo que seus bens fossem para um blind trust — fundo em que Trump sequer conheceria o nome do gestor. O presidente disse que a acusação da ONG é “totalmente sem mérito”.

Em outra polêmica, o presidente do México, Enrique Peña Nieto, disse que seu país irá redefinir a relação com os Estados Unidos sob o governo Trump e advertiu que defenderá os interesses dos imigrantes mexicanos e investimentos. Peña Nieto rejeitou a construção de um muro na fronteira, em referência a uma das propostas mais polêmicas do republicano.

— Trabalharemos por uma fronteira que nos una e não nos divida. O México não acredita em muros — disse o presidente mexicano.

Outro problema para Trump é que o conselheiro de Segurança Nacional, o general reformado Michael Flynn, é investigado por ter telefonado para o embaixador da Rússia em Washington, Serguei Kislyak, em várias ocasiões em 28 de dezembro, um dia antes de o então presidente Obama anunciar novas sanções contra o governo russo, acusado de interferir na eleição vencida por Trump. O porta-voz de Trump, Sean Spicer, confirmou a conversa, mas disse que a ligação visava a um telefonema entre o presidente russo, Vladimir Putin, e o então presidente eleito dos EUA.

Spicer afirmou que ainda não há nada decidido sobre a transferência da embaixada americana em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, o que desagradaria aos palestinos. O porta-voz, numa entrevista marcada por respostas evasivas, disse que as prioridades de Trump no Congresso serão o Obamacare, imigração, reforma tributária e reforma regulatória, dizendo que não é prioridade anular a autorização de trabalho para imigrantes sem documentos que chegaram aos EUA como crianças.

O porta-voz ainda afirmou que uma das prioridades do governo é aprovar os nomes para o governo: até agora só três secretários passaram pelo Senado, enquanto, na mesma época em 2009, Obama tinha sete nomes aprovados e outros cinco passaram na primeira semana.

oglobo.globo.com | 24-01-2017

A produção industrial da Rússia cresceu 1,1% em 2016 na comparação com o ano anterior, segundo dados oficiais divulgados nesta segunda-feira pelo Serviço Federal de Estatísticas. O número sugere que a economia do país melhora e deve voltar a crescer.

A economia russa enfrenta dois anos de recessão, após sofrer sanções ocidentais e também por causa dos baixos preços do petróleo, item crucial para a pauta de exportações do país. Na semana passada, o governo de Moscou previu que o Produto Interno Bruto (PIB) cresça entre 1% e 2% no ano atual.

No ano passado, a produção no setor de mineração cresceu 2,5%, a manufatura avançou 0,1% e a produção nas concessionárias teve avanço de 1,5%. Fonte: Dow Jones Newswires.
A produção industrial da Rússia cresceu 1,1% em 2016 na comparação com o ano anterior, segundo dados oficiais divulgados nesta segunda-feira pelo Serviço Federal de Estatísticas. O número sugere que a economia do país melhora e deve voltar a crescer.A economia russa enfrenta dois anos de recessão, após sofrer sanções ocidentais e também por causa dos baixos preços do petróleo, item crucial para a pauta de exportações do país. [Leia mais...]
atarde.uol.com.br | 24-01-2017

Donald Trump assume hoje o posto de 45º presidente dos EUA, inaugurando junto com o mandato uma era mundial de incertezas. As promessas que, com ares de bufão, o republicano fez durante a campanha eleitoral foram consideradas por muitos como bravatas que não se sustentariam diante da realidade e importância do cargo. Mas os anúncios feitos antes mesmo de ocupar a Casa Branca e a montagem do primeiro escalão do gabinete parecem confirmar uma guinada radical e inédita da maior potência econômica e militar do mundo.

Na economia, por exemplo, chama a atenção o retrógrado nacionalismo populista defendido por Trump. Caminhando na direção inversa a um princípio caro aos republicanos, ele interveio na economia, ameaçando corporações com produção globalizada a reordenarem negócios para criar empregos em segmentos industriais em obsolescência nos EUA. A completar sua lógica antiglobalização, anunciou que tributará produtos de parceiros comerciais, na prática uma declaração de guerra comercial.

É má notícia num momento em que a economia mundial dá sinais ainda débeis de recuperação da crise global de 2008/9, cujo motor tem sido justamente a retomada do comércio internacional. Até mesmo Xi Jinping, presidente da China — principal alvo das medidas de Trump no comércio —, fez uma árdua defesa do livre comércio e da globalização esta semana no Fórum de Davos. Uma situação irônica, não fosse, antes, um sinal preocupante dos novos tempos à frente: um líder comunista com discurso em defesa do mercado, enquanto a maior potência ocidental, capitalista, abraça o protecionismo.

Não é só na economia que Trump inverte papéis históricos dos EUA. A crítica à imprensa livre, a defesa de técnicas de tortura em interrogatórios de suspeitos, e a ausência de um alinhamento firme às liberdades democráticas apontam para um futuro obscuro e sugerem a revisão de alianças estratégicas e históricas. Na prática, essa postura se traduziu até agora numa aproximação com a Rússia de Vladimir Putin e a promessa de revisão dos acordos militares da Otan de proteção de aliados europeus.

Outra das maiores incógnitas diz respeito à defesa do meio ambiente. Também neste campo, Trump — que não crê na teoria do aquecimento global causado pela atuação do homem — não emitiu bons sinais. A nomeação de Scott Pruitt como secretário da Agência de Proteção do Ambiente (EPA, em inglês, equivalente ao Ministério do Meio Ambiente), lobista do setor petrolífero e declarado inimigo das políticas públicas de defesa ambiental, sugere que o compromisso dos EUA assumido no Acordo de Paris também está sob risco.

O governo americano que começa hoje certamente testará os limites dos mecanismos institucionais de pesos e contrapesos da maior democracia do mundo.

oglobo.globo.com | 20-01-2017

RIO - Vice-presidente de Política da Americas Society, em Nova York, Brian Winter acredita que o presidente eleito dos EUA, Donald Trump, não será tão imprevisível como se imagina. Para o especialista, suas características populistas e protecionistas devem marcar os primeiros dias de governo.

Antes da eleição, o senhor se arriscou a dizer que Donald Trump tinha grandes chances de ser eleito...

As pesquisas indicavam que dois terços dos americanos achavam que o país estava no caminho errado, a receita clássica para a vitória da oposição. Claro que um candidato clássico republicano teria ganhado por uma margem muito maior. No caso de Trump, ele quase perdeu pela capacidade de dividir as pessoas, além dos problemas com vários grupos da sociedade americana, como hispânicos, negros, mulheres e outros. Mas, no fim, acabou obtendo o apoio mínimo de que precisava para ganhar.

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Quais as características que o qualificam como um populista?

Trump deixou claro que o governo vai ficar muito concentrado em suas mãos — sua famosa conta no Twitter mostra isso quando dá recados de quais vão ser as políticas de seu governo. Isto é novidade para nós. Os EUA são um país que quase sempre foi focado nas instituições, em regras e políticas para lidar, por exemplo, com o tema das exportações. Trump está tratando as empresas de forma individual, algo parecido com governos de outras partes do mundo, como na América Latina.

Falei durante a campanha que os únicos nos EUA que entendiam a importância dessas eleições eram os hispânicos, que têm experiência com líderes como ele. Por isso, não é apenas na Europa que ele tem adeptos: também na América Latina, e inclusive no Brasil, já vemos simpatizantes que tentam abraçar sua causa — essa parte de uma sociedade que acha que a elite “globalista” se abriu demais aos imigrantes e ao comércio e que houve excessos.

Será um governo protecionista?

Vários nomes do Gabinete confirmam o que ele prometeu fazer na campanha. O “America first” (Os EUA primeiro, seu slogan de campanha) é a declaração mais pura do que será sua política externa. Ele vai pensar na criação de empregos antes de qualquer coisa. É bem possível que sua receita seja errada, mas irá tomar medidas protecionistas principalmente porque sabe fazer acordos. Para isso, sabe que não poderá abandonar as pessoas que o apoiaram, e é evidente que grande parte dos eleitores votou por um país mais fechado às importações, aos imigrantes e ao mundo em geral, que eles tendem a ver como uma ameaça.

Ele é mesmo imprevisível?

Acho que ele não é tão imprevisível quanto as pessoas pensam. Claro, pode mudar de opinião em algumas coisas, e já mudou. Em dois casos claros, especificamente: na questão da deportação de 12 milhões de ilegais — ele agora fala que talvez deporte apenas aqueles com passagem pela polícia; e em sua visão sobre a tortura, outra grande mudança abrupta.

Ele se mostra com vontade de ouvir opiniões das pessoas que respeita. Mas não vai mudar as posições mais importantes que o ajudaram a se eleger. Você pode gostar ou não dele, mas é inegável que Trump sabe exatamente por que e por quem foi eleito.

Como fica o Partido Republicano?

A divisão vai continuar, por um fato simples: Trump não é um republicano clássico e, mesmo que o partido seja dele, é só até certo ponto. Já há sinais de resistência à sua agenda, por exemplo, em relação à tributação. Pode haver também nas políticas comerciais, ou nas relações com a Rússia e o México, onde setores do partido há décadas apoiam outra política. Se Trump começar a melhorar a economia e gerar postos de trabalho, a resistência tende a desaparecer. Mas, se em seis meses a economia não mudar tanto, veremos cada vez mais resistência, não só da oposição, mas no próprio partido.

O que o senhor espera dos primeiros dias de governo?

Teremos uma enxurrada de novidades. Ele deve começar com muitas ordens executivas: em relação ao México, ao Obacamare e, provavelmente, em relação à abertura com Cuba, além de regulações sobre meio ambiente. Ele vai começar seu governo mostrando que é mesmo uma coisa nova e deverá acabar com grande parte do legado de Obama. Serão vários meses e, talvez, anos interessantes.

oglobo.globo.com | 19-01-2017

BERLIM - Com preocupação, mas dispostos a demonstrar uma nova autoconfiança, líderes europeus reagiram de forma contundente à primeira entrevista do presidente eleito dos EUA, Donald Trump, à imprensa estrangeira — ao jornal britânico “Times” e ao alemão “Bild Zeitung” — que causou um abalo sísmico. Disparando sua metralhadora giratória verbal, Trump criticou a União Europeia (UE), a Otan, o acordo nuclear com o Irã e a resposta da Alemanha à crise dos refugiados, classificando de “erro catastrófico” a decisão da chanceler Angela Merkel de abrir as portas do país a mais de um milhão de fugitivos de guerras e da pobreza extrema em países de Ásia, África e Oriente Médio. CONTEÚDO TRUMP 1701

Em uma primeira reação, Merkel afirmou que “a Europa é dona do seu próprio destino”. A chefe de governo alemã, que como presidente (rotativa) do G-20 deverá visitar Trump em abril ou maio, apelou aos colegas no continente a não se deixarem confundir pelas declarações dele. Reunidos em Bruxelas, os chanceleres europeus apelaram para a unidade dos 28 membros da UE. O chanceler francês, Jean-Marc Ayrault, foi enfático:

— A melhor resposta à entrevista do presidente é a unidade dos europeus.

Já o ex-premier e pré-candidato à Presidência da França, Manuel Valls, chamou as falas de Trump de provocação:

— Uma declaração de guerra à Europa.

O presidente da França, François Hollande, também se juntou ao coro que desancou Trump.

— A Europa não precisa de conselhos extremos para dizer o que tem de fazer — pontuou o francês.

Depois de um encontro com o secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, o ministro das Relações Exteriores alemão, Frank-Walter Steinmeier, lembrou que as declarações de Trump sobre a Otan vão contra as ideias do futuro secretário de Defesa dos EUA, James Mattis. Segundo Steinmeier — que dentro de poucas semanas deverá ser eleito o novo presidente da Alemanha — Trump causou “surpresa e agitação” na Europa. As críticas também vieram internamente. O secretário de Estado americano, John Kerry, classificou as declarações de Trump sobre Merkel como inapropriadas.

— Ele terá que responder por isso. Acho que devemos ser muito prudentes antes de dizer que um dos líderes mais poderosos na Europa cometeu um erro.

A inquietação indica que os europeus esperavam que, depois de eleito, o republicano deixasse de fazer declarações incendiárias. De fato, Trump não disse nada de novo. Na campanha, criticou Merkel, elogiou o Brexit (a saída do Reino Unido da UE), e antecipou que iria adotar medidas protecionistas para proteger as empresas americanas — ele já anunciou uma taxa de 35% para os carros da montadora alemã BMW produzidos no México. Trump Info

Para o cientista político Thomas Jäger, da Universidade de Colônia, Trump não tem a intenção apenas de chocar:

— Ele tem dois objetivos: acelerar a economia americana e só fazer acordos internacionais se estes favorecerem os EUA.

Para ele, a ideia é pôr a perspectiva americana, durante muito tempo ignorada, no centro das atenções.

Mas, poucos dias antes de tomar posse, o presidente eleito continua dividindo os europeus. A maior parte dos países da Europa Ocidental acompanha com apreensão o receio da influência do republicano na possível desintegração de uma já dividida UE. No Leste, da Rússia à República Tcheca, no entanto, Trump é admirado. Irina Sherbakova, historiadora e ativista da ONG Memorial, lembra que os russos — que detestavam Barack Obama — associam o novo governo à possibilidade de melhoria nas relações entre Moscou e o Ocidente e, com isso, o fim das sanções e superação da crise econômica.

Já na Europa Ocidental, apenas os partidos de extrema-direita apoiam o novo presidente. E não é só o estilo direto de Trump que assusta a maioria dos europeus. A possibilidade de uma forte aliança dos EUA com a Rússia, que teria assim carta branca para novas ações como a ocupação da Crimeia, até então território da Ucrânia, é vista como sombria. Contra uma possível aliança Trump-Putin, 17 políticos europeus, entre eles o ex-presidente da Estônia, Toomas Hendrik, enviaram uma carta ao novo presidente alertando sobre a Rússia, que teria em vista, segundo os signatários, “a desestabilização da Otan, a espionagem e a guerra psicológica”.

Extrema-direita celebra

Pior do que isso. Como escreveu o cientista político Ulrich Speck na sua coluna no jornal “Neue Zürcher Zeitung”, a proximidade entre os dois presidentes desperta lembranças amargas da Conferência de Yalta, que selou a derrota da Alemanha nazista, em 1945, e resultou na divisão da Europa em áreas de influência dos EUA (Europa Ocidental) e da então União Soviética (Europa Oriental). “Os EUA de Trump não são mais (como foi no passado) a garantia de uma ordem mundial liberal, mas são definidos pelos seus interesses nacionais imediatos”, sustenta Speck.

Embora o secretário-geral da Otan não veja grandes riscos para a Europa, analistas advertem para o perigo concreto de um racha dessa aliança — com efeitos negativos para a UE, que precisaria investir muito mais na sua segurança. Em crise, o bloco não tem sido capaz de chegar a um consenso nem na divisão de um sistema de cota de refugiados — uma unanimidade na decisão de medidas de defesa é vista como muito difícil.

Não por coincidência, a posse de Trump será acompanhada com atenção pela extrema-direita europeia. Um dia depois, lideres do bloco extremista em Alemanha, França, Holanda, Bélgica e Itália vão se reunir na cidade alemã de Koblenz, na cúpula dos populistas. A iniciativa partiu de Marine Le Pen, da Frente Nacional, da França, que quer fazer do Movimento para uma Europa das Nações e da Liberdade, que fundou em junho de 2015, uma espécie de “Internacional da extrema-direita”, a exemplo da tradicional Internacional Socialista.

De carona no populismo de Trump, os direitistas europeus contam com mudanças radicais em 2017, que começariam com a possível vitória de Geert Wilders, do Partido da Liberdade, na Holanda, e de Le Pen, na França, em março e em maio. Para o cientista político italiano Giulietto Chiesa, ex-deputado do Parlamento Europeu, a extrema-direita continuará contando com a influência do americano para realizar seus dois mais importantes projetos: acabar com o fluxo de refugiados e reduzir o papel da UE nos países-membros.

oglobo.globo.com | 17-01-2017

WASHINGTON - As incertezas sobre o real impacto do governo de Donald Trump na economia são a tônica dos analistas internacionais. A maior consultoria de risco político do mundo avalia que o governo Trump, que assume a Casa Branca na sexta-feira, pode ampliar o crescimento global ou desestabilizar a economia do planeta, segundo Jon Lieber, diretor para Estados Unidos da Eurasia Group. Ele lembra que as pistas da política econômica de Trump serão conhecidas com seu Orçamento, que precisa ser aprovado até abril, e que um dos grandes desafios virá em março, quando está previsto para voltar a vigorar o teto da dívida pública dos EUA. trump

Como avalia a indicação de Steven Mnuchin a secretário do Tesouro por Trump?

Mnuchin é um financista e conselheiro de Trump, que está sendo recompensado por sua lealdade ao magnata. É um dos que teriam chance de não ser confirmados (pelo Senado) por seus complicados laços financeiros e pelo uso controverso de subsídios do governo para lucrar na crise de 2009. Acreditamos que o Senado (dominado por republicanos) vai confirmá-lo. Ele não tem experiência no governo ou na política e vem de uma carreira de negócios bem-sucedida, trajetória parecida com a do presidente eleito. Mnuchin lutará com Gary Cohn, futuro presidente do Conselho Econômico Nacional, para manter influência na Casa Branca. Cohn tinha papel muito mais sênior e poderoso no Goldman Sachs, onde ambos trabalhavam. O poder de Mnuchin neste governo será amplo, incluindo a reforma tributária e a frente para definir a China como manipuladora de sua moeda (abrindo espaço a sanções comerciais) e supervisionar a revisão de normas para investimentos estrangeiros em empresas dos EUA. Ele pode ter problemas se não se cercar de conselheiros com experiência em Washington.

Quais são os principais desafios e medidas econômicas que devem ser tomadas durante os primeiros cem dias de governo?

Os primeiros cem dias de Trump serão dominados pelo esforço para desfazer o máximo e o mais rápido possível o legado de (Barack) Obama. Sua primeira conquista será pôr fim ao Obamacare (sistema de saúde criado por Obama). E deve revogar uma série de normas de Obama em energia, serviços financeiros e mercado de trabalho. O mais importante economicamente é que Trump terá que apresentar seu primeiro Orçamento e aprová-lo antes de abril. Esta será a oportunidade para desenvolver sua agenda econômica e legislativa e fornecer ao mundo uma pista sobre o que pretende fazer sobre política fiscal e gastos. Especialmente crítico para a saúde da economia será o debate sobre o limite da dívida pública, que está programado para voltar a vigorar em março, embora o Tesouro tenha ferramentas para prorrogar o prazo até o verão (junho, no Hemisfério Norte). No entanto, alguns dos conselheiros de Trump não acreditam que o limite da dívida tenha um prazo real e que os EUA podem priorizar pagamentos para evitar calote. Se isso se tornar o ponto de vista predominante, o limite de dívida pode ser o item economicamente mais significativo de seu primeiro ano, pois os mercados reagirão muito mal a qualquer sugestão de que os EUA poderiam não pagar sua dívida.

Quais são as expectativas para a economia dos EUA e os impactos no mundo?

Há expectativa positiva e negativa. Trump traz a possibilidade de reformas há muito esperadas para o sistema de impostos e imigração dos EUA, que podem ser pró-crescimento. A reforma tributária de Trump poderia permitir que empresas dos EUA repatriassem fundos que estão no exterior por uma taxa de imposto mais baixa. Ele deve lutar contra a imigração ilegal e isso criará pressão sobre o Congresso para reformar o sistema de imigração a fim de permitir que trabalhadores mais qualificados entrem nos EUA. O risco é saber como o resto do mundo reagirá à presidência não convencional de Trump. Sua imprevisibilidade e falta de habilidades diplomáticas podem levar a China a retaliar com ações comerciais agressivas ou a responder a provocações militares com força, fazendo a situação sair do controle. A relação de Trump com a Rússia pode dar a Moscou liberdade para ameaçar vizinhos e tentar expandir sua esfera de influência. Sem os EUA como força estabilizadora, a economia mundial e a ordem geopolítica correm o risco de viver uma convulsão, com consequências negativas para o sustento das pessoas em todo o mundo.

oglobo.globo.com | 15-01-2017

WASHINGTON — As bolsas de apostas de Londres indicam que metade das pessoas acredita que Donald Trump não vai concluir seu mandato de quatro anos, que começa na próxima sexta-feira. Isso mostra o nível das incertezas que o novo presidente americano terá de enfrentar. A resistência ao seu nome, graças às suas propostas e ao seu estilo, será a primeira grande batalha do magnata na Casa Branca. Mas não a única: diversos temas exigem decisões e medidas já nas primeiras horas do governo que substituirá o de Barack Obama.

Infográfico: Um Gabinete cheio de controvérsias

Eleito em uma das disputas mais controversas dos últimos anos, perdendo na votação popular por 2,8 milhões de votos e com predisposição para a polêmica e o enfrentamento, Trump ainda não deu sinais claros de como será seu governo. Ele não detalhou suas propostas nem como fará para unir o país dividido. A força dos movimentos populares de esquerda, que prometem não dar trégua ao novo governante, complica ainda mais o cenário.

— Trump precisa parar de brigar — simplifica Peter Hakim, presidente emérito do Inter-American Dialogue. — Precisa ser mais sereno, parar de atacar a todo o momento, de fazer drama. Ser presidente não é um show, não é teatro.

O fato de ser o presidente mais mal avaliado e com as piores perspectivas antes da posse em décadas é outro indicativo de que precisa buscar a legitimidade.

— Trump precisa ter uma postura presidencial, indicar que governará todo o país, não apenas para seus eleitores. E até agora ele não fez isso — afirma Beatriz Cuartas, doutora em Ciências Políticas pela George Washington University.

Necessidade de definir prioridades

O país chega à posse em seu momento mais dividido desde a Guerra Civil americana, segundo Robert Watson, professor de Estudos Americanos da Lynn University, na Flórida. A postura incendiária que Trump adotou desde a eleição não ajudou. E fazer a máquina pública funcionar é outra questão essencial para o magnata.

Trump

— Trump é responsável pela nomeação de quase cinco mil cargos de órgãos públicos, agências e até conselhos de entidades. E, mais que isso, precisa fazer com que os nomes que indicou ao Gabinete sejam aprovados. Não é fácil para quem tem zero experiência política e legislativa — destaca.

Watson recorda que, pela lógica, Trump conseguiria aprovar facilmente seus secretários no Congresso, onde o Partido Republicano tem ampla maioria nas duas Casas. Mas nomes controversos — muitos deles bilionários sem experiência política, com posições conflitantes com o presidente eleito e com a suspeita de interesses pessoais contrários ao posicionamento do país — dificultam o trabalho. Trump indicou para secretário de Estado Rex Tillerson, acusado de ser próximo a Vladimir Putin e ter interesses econômicos na Rússia. Para o Departamento de Energia, Rick Perry, que defende o fim da pasta, por exemplo.

— Uma coisa é fazer bullying com a imprensa, atacar as pessoas pelo Twitter, outra é negociar com o Congresso. Dizem que no Senado são cem opiniões diferentes, ou até 200, pois cada senador tem duas para cada assunto. E é uma Casa onde os interesses locais contam muito — disse o professor.

O presidente eleito ainda terá que afastar de vez os temores de um conflito de interesses. A solução anunciada — seus ativos iriam para um fundo administrado pelos filhos — não agradou aos especialistas. Muitos defendem que fossem para um blind trust (fundo em que o dono da fortuna sequer sabe o nome do gerenciador) ou que Trump abrisse mão de todos os seus negócios.

— A solução é totalmente inadequada e vai deixar o presidente vulnerável a suspeitas de corrupção — afirmou Walter Shaub, diretor do Conselho de Ética do governo americano.

E, então, Trump terá de governar. E entre os principais temas estão relações externas com a Rússia (tensas pelas acusações de espionagem para influenciar as eleições americanas), Israel (prometeu mudar a embaixada para Jerusalém) e China, com quem Trump promete uma guerra comercial e que provocou, ao ameaçar reconhecer Taiwan. Terá ainda que entrar em questões que prometeu na campanha, como imigração, terrorismo e a reforma da Saúde.

— Ele precisa estabelecer poucas prioridades e começar a detalhar as ações — explica Peter Hakim. — Se fizer isso com sabedoria, pode ser até uma forma de unir os republicanos.

Beatriz Cuartas lembra que ele prometeu muitas mudanças na área comercial, tornando o país mais protecionista, uma reforma tributária e um pacote multibilionário de investimentos de infraestrutura:

— Trump precisará se arriscar e aprender ao mesmo tempo. Terá que definir suas propostas e conquistar credibilidade para implementá-las.

O desafio é claro. Ontem, milhares de pessoas se reuniram em Washington no primeiro grande protesto contra Trump, organizado por diversas instituições de defesa dos direitos dos negros, imigrantes, latinos, gays e muçulmanos. Novas manifestações estão marcadas para toda a semana.

— Não vamos deixar nossos direitos irem para o ralo — disse o ativista negro Dory Morgan.

oglobo.globo.com | 15-01-2017

RIO - Presidente e fundador do Eurasia Group, o americano Ian Bremmer vê riscos no futuro das relações políticas dos Estados Unidos com a chegada de Donald Trump à Presidência, mas afirma que - apesar da retórica explosiva do presidente eleito - a aproximação com Cuba, a relação com a Otan, o acordo nuclear com o Irã e a aliança com Israel não deverão sofrer grandes mudanças com magnata republicano na Casa Branca.

Durante a campanha presidencial, muito se falou sobre a relação entre Donald Trump e o presidente russo, Vladimir Putin. A poucos dias da chegada de Trump à Presidência, o que se pode esperar para o futuro das relações entre Moscou e Washington?

Embora Trump e nomes como Jeff Sessions e Rex Tillerson tenham adotado uma postura mais cautelosa ao falar da Rússia recentemente, eles ainda estão no modo de campanha, dizendo aquilo que é necessário dizer no momento. Tillerson - que tem uma relação com o Kremlin melhor que a de qualquer outro cidadão americano - foi bastante cuidadoso e evitou se referir aos russos como criminosos de guerra, enquanto Trump admitiu a possibilidade dos ciberataques, mas afirmou que eles poderiam ter sido realizados por outros países. Trump vem deixando claro que as relações com a Rússia podem melhorar, e acho que veremos os dois países muito mais alinhados nos próximos anos, o que, é claro, gerará desconforto dentro do Partido Republicano.

De que modo a resistência a Trump dentro de seu próprio partido, evidente durante a campanha eleitoral, poderá influenciar as decisões do novo governo? Os republicanos domarão Trump ou ele conseguirá conquistá-los?

Ele, de certa forma, já os conquistou por ter conseguido a indicação presidencial e vencido a eleição. Havia muita resistência por parte do establishment republicano, é verdade, mas isso aconteceu porque ele disputou a indicação contra outros 16 nomes do partido. As decisões que vem anunciando, desde a indicação de Reince Priebus para a chefia de seu Gabinete, quanto os nomes escolhidos para as secretarias do Tesouro (Steve Munchin) e de Comércio (Wilbur Ross), estão dentro de uma proposta que favorece os negócios, os bancos e as privatizações, logo, perfeitamente alinhada com os interesses do partido. É na política externa que estão suas grandes divisões com os republicanos.

Trump

Barack Obama foi um grande defensor da diplomacia, apostando na abordagem de "liderar por trás", enquanto Trump tem se manifestado bastante sobre temas como armas nucleares, o combate ao Estado Islâmico e a redefinição dos laços americanos com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Qual deve ser a maior mudança na política externa americana?

Por mais diferente que possa parecer a retórica, na prática não acho que Trump vá ser muito diferente. Obama era inexperiente, tinha pessoas inexperientes a seu lado, e foi o primeiro a reclamar sobre os gastos com aliados da Otan, anos atrás. Com Trump temos o mesmo cenário, somado à sua personalidade volátil e seu estilo menos diplomático. Isso pode gerar desconfianças em outros países, especialmente por sua insistência em dizer que colocará os EUA em primeiro lugar.

Até que pontos ciberataques realizados por hackers estrangeiros representarão um risco para o governo de Trump?

Bem, essa é uma atividade que tem se tornado cada vez mais comum nos últimos anos, como vimos em casos como os dos "Papéis do Panamá", o ataque de hackers norte-coreanos que derrubaram o site da Sony Pictures e, agora, no caso dos hackers russos. As habilidades dos hackers permitem que a Rússia, que tem uma economia menor do que a de países como Itália e Canadá, cause bastante estrago com a divulgação de informações confidenciais. Há uma aura de vulnerabilidade da qual os EUA ou qualquer outra nação não se verão livres tão cedo.

No Oriente Médio são esperadas mudanças nas relações dos EUA com Irã e Israel. A chegada de Trump aumenta os riscos de tensões na região?

Não necessariamente. Obama e (o primeiro-ministro israelense Benjamin) Netanyahu não gostavam um do outro, mas a relação com Israel se manteve sólida, com números recordes na ajuda financeira. A decisão de não vetar a resolução contra os assentamentos israelenses na Cisjordânia foi algo que Obama poderia ter feito durante os oito anos em que esteve no cargo, e que deixou para a reta final, após fechar acordos milionários com o governo israelense. Não acho que vá ter qualquer influência sobre as relações ou mesmo sobre a expansão dos assentamentos. Com relação ao Irã, o acordo nuclear é algo que Trump nunca teria feito, mas não acho que ele, apesar das duras críticas, irá simplesmente anulá-lo, até mesmo por se tratar de uma decisão multilateral. O perigo está no fato de Trump atacar o Islã como um todo. Isso transforma bens americanos no Oriente Médio em alvos para as ações de extremistas.

A vitória do bilionário nos EUA foi celebrada por diversos nomes da política europeia. Sua chegada à Presidência pode estimular a ascensão de candidatos populistas na Europa?

Trump quer trabalhar com o Reino Unido, e isso indica que, mesmo após a saída do país da União Europeia, a relação deverá ser mais estável do que com os outros países europeus. Ele sem dúvida adoraria ver nomes da extrema-direita como Marine Le Pen e Geert Wilders chegando ao poder em países como França e Holanda, e isso poderia afastar líderes europeus mais tradicionais, dificultando ações de cooperação.

Como deve ficar a relação dos EUA com a América Latina, especialmente após a histórica reaproximação diplomática com Cuba?

O foco de Trump está no México. Ele sabe que tem que manter boas relações, pela proximidade entre os dois países. Ao mesmo tempo, também sabe que o México não tem outra opção a não ser se aproximar dos EUA, e com isso, temas como a imigração e a construção ou não do muro na fronteira se estenderão por muito tempo. Ainda não há uma estratégia clara para a América do Sul, mas com as transições nos governos, que estão cada vez mais alinhados com a política ocidental tradicional, as relações não devem ser abaladas. Já a reaproximação com Cuba teve reações negativas muito abaixo do esperado nos EUA, e Trump quer trabalhar com Havana. É possível que o governo cubano desacelere um pouco o processo, mas seria uma enorme surpresa se a reaproximação diplomática retrocedesse.

oglobo.globo.com | 15-01-2017

LONDRES - Chineses e alemães estão entre dezenas de investidores que estão considerando a oferta da Ucrânia de transformar o terreno de um dos piores desastres nucleares do mundo em um gigantesco parque solar.

Dos 39 grupos de investidores que pretendem obter autorização da Ucrânia, 13 são internacionais. Eles querem o sinal verde para instalar cerca de 2 gigawatts de painéis solares dentro da zona de exclusão radiativa que rodeia a usina nuclear de Chernobyl, desativada, segundo o ministro de Ecologia e Recursos Naturais, Ostap Semerak.

Esses 2 gigawatts equivalem à capacidade quase completa de dois reatores nucleares modernos, embora a energia atômica, diferentemente da solar, funcione dia e noite.

— Recebemos pedidos de empresas interessadas em alugar terrenos para construir usinas solares — disse Semerak em entrevista por telefone de Kiev. — Não pretendemos lucrar com o uso do terreno, mas com os investimentos.

Três décadas depois de o colapso de Chernobyl ter deslocado mais de 300 mil pessoas, espalhando radiação por grande parte da Ucrânia, da BielorRússia e da Rússia, as autoridades continuam tentando descobrir o que fazer com o terreno que rodeia a usina e tem o dobro da dimensão de Los Angeles.

Como a radiação permanecerá no solo durante séculos, a área não pode ser utilizada para agricultura nem silvicultura. A possibilidade de a energia solar aproveitar a infraestrutura de rede de Chernobyl surgiu em julho.

MAIS DO QUE SÓ RECUPERAR O TERRENO

Em novembro, as empresas chinesas GCL System Integration Technology e China National Complete Engineering afirmaram que planejam construir um projeto de energia solar de 1 gigawatt no local em várias etapas.

Uma promotora alemã de energia renovável solicitou permissão para instalar 500 megawatts, disse Semerak, que não quis identificar a empresa. Os outros projetos propostos são de usinas de mais ou menos 20 megawatts.

Para a Ucrânia, um dos países mais pobres da Europa, o projeto vai além da simples recuperação do terreno. Assolado pela corrupção e por um conflito cada vez mais tenso com grupos pró-russos no leste, o governo quer fortalecer a economia com novos investimentos e atingir a independência energética fora da órbita da Rússia.

Segundo o plano da Ucrânia, as linhas de transmissão montadas originalmente para transmitir a eletricidade gerada pela usina nuclear de Chernobyl, de 4 gigawatts, serão adaptadas para a energia solar. Atualmente, o governo analisa como a rede atual pode lidar com os desafios de intermitência que a energia renovável apresenta. O Ministério da Ecologia também visa a atingir um equilíbrio entre suas ambições para a energia limpa e o impacto nas contas dos consumidores, disse Semerak.

A radiação que persiste em Chernobyl preocupa o Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento (BERD), que avalia se financiará os projetos solares. Empréstimos dependerão da due diligence ambiental, segundo o porta-voz Anton Usov. Os projetos teriam que ser instalados e operados de forma segura e ter viabilidade comercial para receber financiamento, disse ele.

“Para qualquer projeto de mais de 10 megawatts, seria preciso ter alguém no local quase todos os dias”, disse Pietro Radoia, analista de energia solar da Bloomberg New Energy Finance. “Quanto maior for o projeto, mais pequenos problemas cotidianos surgirão para resolver.”

As empresas que pediram autorização para instalar energia solar na zona de exclusão de Chernobylvêm da China, da Alemanha, da Irlanda, da Dinamarca, da Áustria, da Bulgária, de Belarus e da Ucrânia, segundo Semerak.

oglobo.globo.com | 13-01-2017

BRASÍLIA, RIO e SÃO PAULO - Apesar da redução anunciada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) de reduzir a taxa básica de juros (Selic) em 0,75 ponto percentual, a 13%, o Brasil se mantém no primeiro lugar do ranking mundial de juros reais. São 7,93% ao ano, quase o dobro dos 4,76% na Rússia, a segunda maior taxa entre 40 países, cujos dados foram compilados por Vieira, da Infinity. O cálculo desconta da taxa básica vigente a projeção de inflação nos próximos 12 meses.

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O último corte nessa proporção realizado pelo BC ocorreu em abril de 2012, quando a Selic passou de 9,75% para 9%. Nas duas últimas reuniões, em outubro e novembro de 2016, o BC optou por reduzir os juros em 0,25 ponto. Para economistas, a decisão do Copom pode incentivar a retomada do crescimento, mas eles ressaltam que as reformas são essenciais à recuperação da confiança na economia.

Em comunicado, o BC afirmou que os diretores chegaram a avaliar um corte de 0,50 ponto e sinalizar uma redução maior para a próxima reunião. “Entretanto, diante do ambiente com expectativas de inflação ancoradas, o Comitê entende que o atual cenário, com um processo de desinflação mais disseminado e atividade econômica aquém do esperado, já torna apropriada a antecipação do ciclo de distensão da política monetária, permitindo o estabelecimento do novo ritmo de flexibilização”, diz o documento.

“A inflação tem se mostrado mais favorável, o que pode sinalizar menor persistência no processo inflacionário; e o processo de aprovação e implementação das reformas e ajustes necessários na economia pode ocorrer de forma mais célere que o antecipado”, diz o texto. O comitê entendeu que, diante do cenário atual, a convergência da inflação para a meta de 4,5% no “horizonte relevante para a condução da política monetária” (2017 e 2018) “é compatível com a intensificação da flexibilização monetária”.

O corte já era aguardado pelo mercado, ainda que a maior parte dos analistas esperasse que a Selic passasse a 13,25%. A economista do Santander Tatiana Pinheiro projetava corte de 0,50, mas acredita que o BC deve replicar a dose de ontem nas próximas reuniões. Se essa avaliação for percebida pelo restante do mercado nos próximos dias, já será possível ver um rápido efeito nos juros futuros, que, por sua vez, influenciarão na queda do custo de financiamento e na retomada da atividade econômica ainda no primeiro semestre.

— Se o mercado, que esperava até hoje taxa de 10,25% ao ano, migrar e fechar o dia com uma expectativa de Selic a 9%, isso já é positivo. Já será marginalmente positivo para a atividade econômica. O importante da decisão de hoje é o impacto que ela tem nas expectativas de taxas de juros mais a médio prazo — afirmou Tatiana, que projeta crescimento de 0,7% este ano.

Eduardo Velho, economista-chefe do INVX Global Partners, também vê efeito da queda de taxa de juros sobre o PIB:

— Claramente tende a aumentar a probabilidade se ter um PIB positivo já no segundo trimestre.

O economista-chefe do Itaú Unibanco, Mario Mesquita, já esperava um corte de 0,75 ponto. Ele considerou a decisão acertada, tendo em vista os últimos dados de atividade econômica e inflação.

— Isso tende a limitar o risco de baixa para a atividade econômica. Acho que foi esse o objetivo da decisão, mas isso vai ficar mais claro com a divulgação da ata — disse Mesquita. — É uma decisão que favorece o investimento, mas esse impacto não é imediato. O empresário não vai tomar essa decisão de investimento só com isso (o corte da Selic).

Para Rodrigo Alves de Melo, economista-chefe da Icatu Vanguarda, o corte de 0,75 ponto “faz sentido”. Ele prevê reduções nesse mesmo ritmo nas próximas três reuniões, com a Selic fechando o ano a 9,5%. Mas ele está cético quanto ao efeito positivo da redução dos juros ontem na economia. Para ele, a recuperação depende de fatores que vão além da taxa de juros:

— Não dá para confiar piamente que a política monetária vai salvar a lavoura. Pode ajudar em alguma coisa, mas o cenário de crescimento ainda é tenebroso. A atividade está bastante rastejante, e o desemprego vai subir até a metade do ano ou mais. Isso tem impacto negativo no consumo e no investimento. Não me parece que a retomada tem condições de acontecer este ano, e ainda temos o desafio da reforma fiscal no Congresso.

O ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega, por sua vez, ressalta que um crescimento sustentável só virá do ganho de produtividade:

— No governo Temer, vamos ter o que os economistas chamam de recuperação cíclica, baseada na ocupação da capacidade ociosa hoje existente. Não a baseada em ampliação de investimentos e de ganho de produtividade.

Para isso, afirmou, é preciso que a reforma da Previdência seja levada adiante neste governo Temer e que o próximo faça a reforma tributária:

— Portanto, só acredito que o país volte a crescer de forma consistente em 2019.

Para Fabio Silveira, sócio-diretor da MacroSector, ainda é cedo para prever uma retomada, principalmente por causa das incertezas nos EUA:

— Os riscos são de ter uma turbulência no mercado internacional, haver realocação de ativos em escala global, e a gente está no meio desse jogo. O Brasil é uma bolinha de gude num universo financeiro gigantesco. Muita atenção deve ser dada ao ambiente externo, porque Donald Trump pode levar a uma escalada da taxa de câmbio.

Jason Vieira, economista-chefe da Infinity Asset, acredita que o BC foi ousado:

— Mas, dada a situação atual da inflação e de outros indicadores de atividade, por que não? Foi uma surpresa boa.

O corte de 0,75 ponto, no entanto, também foi alvo de críticas.

— Temos de esperar a ata para ter mais detalhes, mas a decisão de hoje indica que o BC está olhando para o crescimento, enquanto que seu mandato diz respeito à inflação. Eu acho que o BC pode ter cedido à pressão e tomado uma decisão mais política do que econômica — criticou Hugo Monteiro, gerente de produtos e soluções de investimentos do BullMark Financial Group.

O presidente Michel Temer comemorou a queda nos juros. Por meio de seu porta-voz, Alexandre Parola, Temer disse que o corte “respalda a convicção de que estão dados os elementos para uma retomada do crescimento”. A decisão do Copom ainda foi elogiada por Fiesp, Firjan e Força Sindical.

Momentos após o Copom anunciar sua decisão, Banco do Brasil (BB) e Bradesco também informaram que irão reduzir suas taxas de juros, tanto para pessoas físicas como jurídicas.

(Colaboraram Ronaldo D’Ercole, Ana Paula Ribeiro, Catarina Alencastro e Eduardo Barretto)

oglobo.globo.com | 12-01-2017

As bolsas de Nova York fecharam em alta na sessão desta quarta-feira, 11, impulsionadas pelo setor de energia e pelo setor de serviços básicos (utilities). A entrevista coletiva do presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, fez com que os mercados acionários americanos operassem com volatilidade e afetou, principalmente, o setor de saúde após críticas do bilionário à indústria farmacêutica.

O Dow Jones fechou em alta de 0,50%, aos 19.954,28 pontos; o S&P 500 avançou 0,28%, aos 2.275,32 pontos; e o Nasdaq subiu 0,21%, aos 5.563,65 pontos, renovando seu recorde de fechamento pela quarta sessão consecutiva.

A queda de empresas ligadas ao setor de saúde ocorreu após Trump dizer, em sua primeira entrevista coletiva desde que venceu as eleições presidenciais americanas, que os preços dos remédios estavam muito altos e reclamar que muitos medicamentos eram produzidos fora dos EUA. Com isso, a Perrigo caiu 6,87% e a Endo International perdeu 8,56%.

Segundo alguns analistas, a fala de Trump frustrou as expectativas. Os investidores esperavam que o presidente eleito americano desse mais detalhes sobre os investimentos que pretende fazer em infraestrutura e sobre os cortes de impostos que pode promover em seu governo. Na entrevista, Trump deu mais destaque a questões geopolíticas, como a relação entre os EUA e a Rússia após a divulgação de um relatório das agências de inteligência americanas apontando Moscou como o responsável por ataques hackers feitos a e-mails de pessoas ligadas à democrata Hillary Clinton durante as eleições presidenciais americanas.

Estrategista de investimentos da Edward Jones, Kate Warne afirmou que esperava que a coletiva de imprensa de Trump fornecesse mais detalhes sobre a agenda política potencial do bilionário. "Eu acho que é razoável a preocupação sobre o avanço das ações antes das mudanças de políticas que as pessoas estão esperando", disse Warne.

Durante o discurso, Trump disse esperar que a General Motors siga o exemplo da Fiat Chrysler e da Ford e passe a investir mais em fábricas nos EUA e deixe de lado suas operações no México. Com isso, os papéis da GM subiram 1,66%.

Já o setor de energia também operou em alta, influenciado, principalmente, pelos preços do petróleo, que abandonaram as perdas das duas últimas sessões e passaram a subir. A Chevron ganhou 0,83%; a ConocoPhillips avançou 3,14% e a ExxonMobil teve alta de 1,00%. (Com informações da Dow Jones Newswires)
A esperada primeira entrevista coletiva desde julho do novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que toma posse no próximo dia 20, durou 58 minutos e foi dominada por questões sobre a Rússia e espionagem por meio de ataques cibernéticos. Um dos temas mais aguardados por Wall Street, as medidas econômicas de Trump, não tiveram detalhes adicionais divulgados. [Leia mais...]
atarde.uol.com.br | 11-01-2017

WASHINGTON - O novo relatório de "Perpectivas Globais Econômicas" do Banco Mundial, divulgado nesta terça-feira, apresentou dados positivos para o futuro da economia brasileira. No documento, a entidade projeta um avanço econômico de 0,5% para o Brasil este ano “na liberação das restrições do mercado”. Já com relação a 2016, estima-se um forte retrocesso de 3,4% para o país. Em 2019, o país crescerá 2,2%, após expansão de 1,8% em 2018, segundo a organização.

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Para a América Latina, o Banco Mundial prevê uma retomada do crescimento de 1,2% em 2017, após recuo estimado de 1,4% no ano passado. O quadro seria o segundo ano consecutivo de recessão e a primeira contração plurianual em mais de 30 anos. A entidade afirma, no entanto, que “a perspectiva de melhora é em grande parte conduzida por um retorno previsto ao crescimento positivo no Brasil, a maior economia da região”.

“Restrições domésticas parecem estar amenizando em Argentina e Brasil, com os novos governos concentrados em implementar reformas para reduzir desequilíbrios fiscais e macroeconômicos”, indica o Banco Mundial, que cita reformas em andamento: “No Brasil, o Congresso Nacional aprovou recentemente uma emenda constitucional que introduz um limite no crescimento real dos gastos federais, e está também discutindo uma reforma da aposentadoria. Ambas as reformas vão melhorar as perspectivas fiscais de médio e longo prazo”.

O Banco Mundial afirma que a desvalorização do dólar frente ao real no primeiro semestre de 2016 ajudou a “reduzir drasticamente do atual déficit nas contas do país”. Apesar da melhora no cenário, o Banco Mundial destaca que as real implementação de reformas fiscais e a retomada do investimento público como desafios para concretizar tais projeções:

“Ajustes fiscais geralmente englobam cortes de investimento em áreas-chave, como infraestrutura. Enquanto esse caminho de política rapidamente reduz as pressões fiscais, não consegue resolver as deficiências estruturais que entravam a habilidade dos governos em reduzir as despesas correntes ou aumentar receitas”, aponta.

O banco alerta para níveis baixos de investimento na região da América Latina e Caribe em comparação a outras regiões de emergentes. De acordo com o relatório, a injeção de capital tem caído desde 2014:

“É crítico que os governos e o setor privado aumentem o investimento de capital para expandir o crescimento em potencial”, afirma o banco.

RETOMADA NA AMÉRICA LATINA

A estimativa de uma nova contração para a América Latina em 2016 (-1,4%), explica o Banco Mundial, se deve a efeitos da queda dos preços das commodities e desafios internos, principalmente fiscais. A organização espera, no entanto, que em 2019 a região cresça 2,6%, após avanço de 2,3% em 2018.

A entidade projeta que os preços das commodities se estabilizem e “se recuperem gradualmente”, trazendo alívio modesto aos exportadores da região a respeito de comércio e aumento de receitas fiscais e de exportação. No entanto, o cenário externo pode trazer incerteza à recuperação econômica da América Latina:

“Contratempos globais, como a incerteza de políticas nos Estados Unidos e crescimento subjugado de outros maiores parceiros comerciais, vão pesar nas economias da região, pelo menos no curto prazo”.

Uma reavaliação do ritmo do arrocho da política monetária por parte do banco central dos Estados Unidos poderia levar a variações nas taxas de juros e a flutuações do fluxo de capital, o que prejudicaria as economias vulneráveis.

Além disso, possíveis restrições comerciais ou migratórias nos EUA ou na zona do euro podem impactar na retomada do crescimento.

Mudanças de políticas nos Estados Unidos e na Zona do Euro, tais como restrição ao comércio ou à migração, poderão ter repercussões contínuas. Uma recuperação dos preços dos produtos básicos mais lenta do que a prevista prejudicaria a

CRESCIMENTO GLOBAL DE 2,7%

O crescimento econômico global deverá acelerar 2,7% em 2017 após o baixo nível pós-crise do ano passado, estimado em 2,3%. Segundo o Banco Mundial, o avanço aparece à medida que os obstáculos à atividade diminuírem entre exportadores de produtos básicos nos mercados emergentes e em economias em desenvolvimento. De acordo com o relatório, a demanda doméstica continua sólida entre os importadores de produtos básicos de mercados emergentes.

"Depois de anos de decepcionante crescimento global, estamos encorajados por ver perspectivas econômicas mais fortes no horizonte", disse o presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, em comunicado. "Agora é a hora de aproveitar esse impulso e aumentar os investimentos na infraestrutura e nas pessoas."

O documento aponta para um crescimento nas economias avançadas de 1,8% em 2017, após alta estimada de 1,6% no ano passado. O estímulo fiscal nas economias principais – especialmente nos Estados Unidos – poderá gerar um crescimento doméstico e global mais rápido do que o projetado, embora o aumento da proteção do comércio possa ter efeitos adversos.

“As economias avançadas continuam com dificuldades devido a um crescimento subjugado e inflação baixa em um contexto de aumento da incerteza sobre a direção das políticas econômicas, investimento morno e crescimento lento da produtividade. A atividade desacelerou nos Estados Unidos e, em menor grau, em outras grandes economias”, afirma o Banco Mundial.

Já os mercados emergentes devem avançar 4,2% este ano, ante alta de 3,4% em 2016 em meio a um modesto aumento do preço dos produtos básicos.

“O crescimento em mercados emergentes exportadores de commodities foi apoiado por certa estabilização da demanda doméstica, seguindo uma contração em 2015. O consumo privado continou a recuar no Brasil e na Rússia, mas em ritmo desacelerado enquanto a confiança aumentou. O investimento também caiu novamente em 2016, especialmente em Brasil, Colômbia e Rússia”, aponta o documento.

oglobo.globo.com | 10-01-2017

O Brasil vai voltar a crescer em 2017, mas deve seguir na lanterna do ranking dos países que mais crescem no mundo, encabeçado pela Índia, avaliou nesta segunda-feira, 8, o Deutsche Bank. A projeção é que o Produto Interno Bruto (PIB) do País cresça 0,5% este ano, nível abaixo da economia mundial (3,4%) e da média dos países emergentes (4,6%).

A Índia deve seguir em 2017 como o país emergente que mais cresce no mundo, considerando os principais mercados. O Deutsche aposta em um avanço de 7% para o país. Em seguida, vem a China, com avanço esperado de 6,5%. Mesmo a Rússia, que também estava em recessão, vai ter PIB mais forte que o Brasil este ano, com expansão prevista de 1,6%.

No caso do Brasil, o Deutsche ressalta que o risco político permanece no radar em 2017, mas que a perspectiva de reformas e recuperação da atividade após dois anos de forte recessão têm feito os ativos brasileiros apresentarem forte valorização. A Bovespa foi uma das bolsas que mais subiram no mundo em 2017, ressalta o relatório.

"Estamos cautelosamente otimistas com os emergentes em 2017, mas esperamos um início de ano difícil", ressalta o Deutsche, mencionando que países como Turquia, México, África do Sul e Brasil terão que lidar com problemas domésticos ao mesmo tempo que o cenário externo muda, com o governo de Donald Trump.

A gestão do novo presidente dos Estados Unidos terá efeitos diversos nos países emergentes. Por um lado, a aceleração esperada do PIB dos EUA deve fazer a maior economia do mundo aumentar a demanda por exportações - e emergentes, como o Brasil, poderiam se beneficiar, ressalta o banco.

Ao mesmo tempo, o governo de Trump será marcado por juros mais altos pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) e dólar valorizado, o que tende a dificultar e encarecer a captação de recursos por governos e empresas dos países emergentes. Outro risco é Trump provocar fuga de capital destes mercados. O Deutsche prevê duas altas de juros neste ano pelo Fed e quatro em 2018.

Os analistas do Deutsche lembram que parte da incerteza gerada por Trump é porque suas medidas econômicas ainda não são conhecidas em detalhes, mas é um nível melhor que a "certeza da continuação" do atual nível "medíocre" de expansão do PIB.

No entanto, a economia dos Estados Unidos, as projeções do banco alemão são positivas. O ritmo de expansão previsto para 2018 é mais do que o dobro esperado para o PIB de 2016, que deve ficar em 1,5%.

A avaliação do Deutsche é que Trump tem capacidade para "mudar as regras do jogo" e acelerar a expansão dos EUA com políticas como corte de impostos para famílias e empresas, aumento dos gastos públicos em infraestrutura e desregulação em vários setores, como o financeiro e o de energia.

"Estamos muito otimistas com os EUA, na medida em que a nova administração vai buscar uma agenda fiscal e regulatória substancialmente pró-crescimento", afirma o banco alemão. Para os analistas do banco, o fato de o Congresso ter ficado na mão dos republicanos vai facilitar a implementação destas medidas.

O México e a Turquia permanecem "particularmente vulneráveis" às mudanças que devem ocorrer no cenário externo. Para a economia mexicana, há o risco de medidas protecionistas do republicano afetarem a atividade. Já a Rússia deve ser beneficiada pela melhora do relacionamento com Trump. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

CARACAS - Nicolás Maduro quer demonstrar ao inimigo que está preparado para um ataque hipotético. O presidente venezuelano ordenou esta semana um novo deslocamento de tropas armadas em 14 de janeiro. Para manter esse poder, o chavismo não deixou de aumentar seu arsenal durante os últimos 16 anos, em meio a uma forte crise econômica, e as últimas compras de armamentos foram feitas junto à China e à Rússia.

— Hoje, a Venezuela tem um poder militar destacado nas ruas para proteger a paz, a independência e a soberania — afirmou Maduro em recente discurso. maduro

O arsenal da Força Armada Nacional Bolivariana (Fanb) da Venezuela cresceu durante a revolução. O país ocupa o quinto lugar na América Latina em gastos militares. Está, além disso, entre as 36 nações do planeta que mais investem no setor. Durante o chavismo, entre 1999 e 2015, foram gastos mais de US$ 5,6 bilhões em armamentos, de acordo com números do Instituto Internacional de Estocolmo para o Estudo da Paz (Sipri, na sigla em inglês).

A compra de artilharia não parou mesmo com o país afundado numa enorme crise. Em dezembro, Maduro aprovou um orçamento para a aquisição de material militar vendido pela Rússia e pela China

— Autorizei recursos suficientes para equipar todos os combatentes da Força de Ação Especial, os grupos especiais e as tropas de ação rápida da Fanb das mais modernas armas e tecnologia mundial — enfatizou o presidente, em discurso televisionado.

Dias antes, Maduro enfrentara uma onda de protestos gerada pela retirada de circulação das notas de mais alto valor no país, as de 100 bolívares. No estado de Bolívar, no Sul do país, foi decretado toque de recolher para apaziguar a intensidade dos protestos. A militarização e a flexibilização da medida monetária acalmaram os ânimos.

As questões armamentistas são conduzidas com discrição pelo governo. Para Lexys Rendón, coordenadora da associação Laboratório de Paz, este ano é possível que a falta de transparência do governo sobre os gastos com a Defesa atinja seu auge.

— O Orçamento do país nem chegou a ser discutido pela Assembleia Nacional, e foi aprovado diretamente pelo Tribunal Supremo de Justiça — explica. — Isso aconteceu devido a um confronto entre os Poderes públicos (o Parlamento, controlado pela oposição, e o Supremo dirigido pelo chavismo). As contas do Executivo são cada vez mais nebulosas.

Muitas organizações civis têm exigido uma diminuição do orçamento destinado à Defesa da Venezuela, o país com maior contração econômica nas Américas. Os investimentos se reduziram com as quedas nos preços do petróleo. O governo cortou em 90% as compras militares entre 2015 e 2016, segundo um relatório da associação civil Controle Cidadão, mas tudo não passou de uma rápida tempestade na carreira armamentista do chavismo. Já no ano passado, houve um aumento de 5% na compra de equipamentos e sistemas bélicos para a Fanb.

Mas as armas não estão apenas nas mãos do Exército. Ainda que artefatos explosivos, fuzis e munições sejam administrados exclusivamente pela Companhia Anônima Venezuelana de Indústrias Militares (Cavim), uma estatal venezuelana que municia as Forças Armadas e a polícia bolivariana, o domínio de algumas dessas armas letais passou, de forma irregular, a mãos de terceiros no país.

Granadas nas ruas

Uma granada matou Gian Franco Cesa, um arquiteto de 25 anos, depois de ser acidentalmente detonada por um de seus sequestradores dentro de um automóvel em Caracas. A explosão aconteceu em 8 de agosto, dias antes de a vítima embarcar para os Estados Unidos na tentativa de escapar da crise. A explosão também matou seus sequestradores.

Ataques com granadas acontecem em prisões, delegacias e ruas da Venezuela. Entre 2013 e 2015, a Venezuela foi o país latino-americano com o mais alto número de civis mortos por granadas, segundo o Escritório das Nações Unidas para o Desarmamento na América Latina e no Caribe (Unlirec, na sigla em inglês). A sangrenta tendência se manteve no ano passado. Uma reportagem do diário digital “Runrunes” contabilizou 49 mortos e 155 feridos em 32 ataques com granadas realizados entre janeiro e agosto de 2016.

oglobo.globo.com | 10-01-2017

O ex-presidente do Irã Akbar Hashemi Rafsanjani, um magnata multimilionário que permaneceu dentro da elite governante apesar de suas opiniões moderadas, morreu neste domingo, informou a TV estatal do país. Ele tinha 82 anos. A imprensa iraniana informou que ele foi levado para um hospital ao norte de Teerã devido a uma condição cardíaca. A televisão estatal interrompeu a programação para anunciar a sua morte e destacou que Rafsanjani "depois de uma vida cheia de esforços incansáveis no caminho do Islã e da revolução, partiu para o céu elevado".

Rafsanjani foi um colaborador próximo do aiatolá Ruhollah Khomeini, o líder da Revolução Islâmica de 1979, e atuou como presidente do Irã entre 1989 e 1997, durante um período de mudanças significativas no país. Na época, o Irã estava lutando para reconstruir a sua economia depois de uma guerra devastadora de 1980 a 1988 com o Iraque, ao mesmo tempo em que permitia cautelosamente algumas liberdades, como as concedidas à indústria de cinema e mídia nacional.

Ele também supervisionou os principais desenvolvimentos do programa nuclear do Irã, negociando acordos com a Rússia para construir um reator de produção de energia em Bushehr, que finalmente entrou em funcionamento em 2011, após longos atrasos. Nos bastidores, ele coordenou a compra secreta de tecnologia e equipamentos do Paquistão e de outros lugares.

Rafsanjani conseguiu permanecer dentro da teocracia governante depois de deixar o cargo, mas qualquer sonho de assumir um papel de estadista de alto escalão desmoronou com a disputada reeleição de Mahmoud Ahmadinejad em 2009 e a intensa repressão subsequente. A dura crítica de Rafsanjani a Ahmadinejad o classificou como um dissidente aos olhos de muitos conservadores. Contudo, alguns analistas acreditam que Rafsanjani continuou atuante dentro da política iraniana por ser visto como potencial mediador com os Estados Unidos e os seus aliados no impasse sobre o programa nuclear do Irã. Com a eleição presidencial de Hassan Rouhani em 2013, o ex-presidente teve papel privilegiado em esforços reformistas que incluíram as negociações nucleares diretas com Washington. Fonte: Associated Press.

WASHINGTON - Sim, ele pôde. Depois de oito anos como homem mais poderoso do mundo, Barack Obama coleciona vitórias e decepções. A esperança que despertou em 2009, quando chegava à Casa Branca, se concretizou na economia, no meio ambiente e na saúde dos americanos, porém passou longe de transformar o mundo num local mais seguro e menos conflituoso. E o pior para ele ainda pode estar à espreita: Donald Trump terá a chance de apagar seu legado. Barack Obama já tem seu lugar garantido na História como primeiro presidente negro dos Estados Unidos. O risco é não sobrar muito mais para contar além disso. Legado Obama - conteúdos

— Ninguém sabe como Obama será lembrado. No começo, (Richard) Nixon era ligado apenas ao escândalo de Watergate, mas agora é visto como o presidente que retomou as relações com a China. A entrada de Obama na História depende muito de como será a reação de Trump ao legado de seu antecessor — disse ao GLOBO Dan Glickman, ex-secretário de Agricultura do governo de Bill Clinton e integrante do The Bipartisan Policy Center (BPC), o Centro de Políticas Bipartidárias, organização criada há dez anos por republicanos e democratas.

Para os americanos, dois pontos principais marcam positivamente o governo de Obama: a recuperação econômica e o Obamacare, a reforma do sistema de saúde americano. A economia vai bem: o democrata entrega um país crescendo forte e com 15 milhões de empregos a mais. Já a reforma de saúde pública, que leva o nome do presidente, é o legado mais ameaçado.

— Em questões como saúde, o Congresso já está avançando para derrubar o Obamacare mesmo antes da posse de Trump — exemplificou Eric Farnsworth, vice-presidente do centro de estudos Sociedade Americana/Conselho das Américas (AS/COA, na sigla em inglês).

Obama valoriza os dois pontos. Na carta que divulgou na última quinta-feira, em um balanço que fez de seu governo, destacou a questão da saúde pública, lembrando que, pela primeira vez, 90% dos americanos têm acesso a planos de saúde (o Obamacare tem 20 milhões de usuários). Ele também reforçou a economia, lembrando que, além dos empregos, regulamentou o setor financeiro e, mesmo assim, o valor das empresas na bolsa triplicou sob sua gestão.

— O grande legado é econômico. Ele impediu que a grande recessão se tornasse uma depressão. Isso é mérito de Obama — afirmou a professora Jennifer Lawless, da American University, de Washington.

Mas todo o demais está frágil: a maior parte das ações do democrata é baseada em normas executivas, que podem ser facilmente desfeitas por Trump. O republicano conta com maioria no Congresso. E, juntos, farão a Suprema Corte voltar a ser dominada por conservadores. Alguns creem que a pior derrota de Obama foi não ter feito sua sucessora, Hillary Clinton, colocando sua história nas mãos de alguém tão imprevisível como o bilionário.

Na segurança, Obama será sempre lembrado como o presidente que matou Osama bin Laden, mas que não conseguiu fechar a prisão de Guantánamo e nem endurecer a compra de armas. O recrudescimento do terrorismo e a criação do Estado Islâmico se deram em seus oito anos.

Obama pelos olhos dos fotógrafos da Casa Branca

A política externa também é ponto de alegrias e tristezas. Se ele pode se vangloriar do acordo nuclear com o Irã e da reaproximação com Cuba — pontos que também podem ser revertidos por Trump —, terá como mancha em sua biografia a falta de engajamento na Síria, que ajudou a criar milhões de refugiados e facilitou a reentrada da Rússia no Oriente Médio.

— Será visto como um homem de visão e otimismo. Mas os historiadores podem muito bem criticar sua tendência à contenção — afirmou Peter Schechter, diretor do centro de estudos Atlantic Council.

Ele reforça críticas de muitos que afirmam que fechou os olhos para uma série de problemas globais. E, para os americanos, ele pode passar a imagem de um presidente fraco.

A recente tentativa de falar grosso com Israel (ao condenar os assentamentos judaicos) e punir a Rússia pela espionagem e vazamento de dados para afetar as eleições americanas são questionadas por serem tardias e podem ser desfeitas:

— (O presidente russo) Vladimir Putin decidiu humilhá-lo ao não revidar a expulsão de diplomatas. Se Obama queria sair de forma grandiosa, Putin está ridicularizando-o — disse Juan Carlos Hidalgo, do Centro Global de Liberdade e Prosperidade (Cato).

As medidas difíceis de serem apagadas

As mudanças sociais , como apoiar o casamento gay — obtido graças às suas nomeações à Suprema Corte, incluindo a primeira latina no topo do Judiciário —, são marcas que Trump não deverá apagar. E Glickman, do BPC, acredita que a questão ambiental pode ser uma das chaves para que Obama entre no rol dos grandes presidentes. Ele incentivou e assinou o acordo climático de Paris e impulsionou energias limpas, por exemplo. Isso pode ser barrado por Trump, mas dificilmente será totalmente desfeito. Outro legado é a questão racial: o primeiro presidente negro fez os EUA debaterem o tema, apesar de ainda se ver muitos casos de preconceito e de violência:

— Não é segredo que o país tem problemas raciais. O problema é cultural, não se resolve em um mandato, depende de uma mudança de geração, e os mais jovens estão mais abertos a isso. O fato é que estamos melhores neste ponto do que há 15, 20 ou 50 anos — disse Glickman.

Farnsworth, da AS/COA, valoriza os méritos:

— Seus esforços podem não ter sido inteiramente bem-sucedidos, mas não foi por falta de visão e esforço para tentar uma mudança duradoura.

Obama, em sua carta de despedida, segue seu tom de otimismo e tenta resgatar a esperança que o elegeu em 2008: “Nos últimos oito anos mostramos que nós podemos”, escreveu, recorrendo ao seu bordão “Yes, we can”, conclamando o povo a brigar por seu legado: “É você quem fará o nosso progresso futuro possível.” Os 20 pontos marcantes do legado de Barack Obama

oglobo.globo.com | 08-01-2017

RIO - Diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), o brasileiro Roberto Azevêdo afirma que, a despeito da crescente onda antiglobalização, estudos mostram que somente 20% dos empregos perdidos foram por causa da integração mundial. Inovação tecnológica e produtividade responderam pelo restante do corte de vagas. Para ele, há um problema estrutural de desemprego nos países ricos, e tentar resolvê-lo com protecionismo — como ameaça o presidente eleito dos EUA, Donald Trump — é “remédio errado”.

Azevêdo vê os países mais seletivos e reconhece que há menos tolerância a importações com preços muito baixos. Mesmo assim, avalia que ainda não há política de fechamento de fronteiras em nenhum dos mercados centrais. O brasileiro busca novo mandato de quatro anos, como candidato único.

A OMC estimou para 2016 o pior desempenho do comércio global desde 2009. Qual é o significado disso? Com que cenário trabalha para este ano?

China-OMC-07-01Vários elementos compõem o quadro de desaceleração do comércio, como modelos de crescimento em economias centrais como a China, redução da expansão em países como os da União Europeia e em economias emergentes, como Brasil e Rússia. Isso significa que a competição pelos mercados aumentou muito. Nesta situação, aumenta a tendência de se reagir contra importações a preços competitivos. E pode haver aumento na aplicação das medidas de defesa comercial. Os mercados ficam mais seletivos e competitivos. Isso para não usar a palavra protecionista, porque tem sentido um pouco mais amplo. O protecionismo pode ter uma conotação de política deliberada de conter importações, o que não necessariamente é o caso. Para 2017, agências como FMI e Banco Mundial estimam crescimento econômico global de 2,5%. Nesse caso, estimamos entre 1,8% e 3,1% de expansão do comércio.

Enfrentamos atualmente uma onda protecionista?

Há uma política de menor tolerância para determinadas importações, quando produtos entram com preços muito baixos, mas não há política de fechamento de fronteiras em nenhum dos mercados centrais. Isso eu não vejo. Só que o que antes levava mais tempo para se ter uma reação do país importador, hoje tem uma reação quase automática, quase imediata. Há uma menor tolerância, mas não vejo ainda uma política horizontal.

A China entrou com processo na OMC para ser reconhecida como economia de mercado. Afinal, a China é uma economia de mercado?

O ponto de partida para a discussão é o chamado protocolo de acesso da China, negociado quando o país entrou na OMC, em 2001. O protocolo prevê que membros da OMC poderiam, durante 15 anos, aplicar metodologias mais flexíveis para o cálculo do direito antidumping no caso da China. Depois de 15 anos, algumas partes do acordo caducam. A China interpreta que o novo protocolo leva a determinado comportamento e outros membros discordam da interpretação. A China traz o assunto para o mecanismo de solução de controvérsias, feito exatamente para quando há interpretações diferentes. Fez o que poderia e tem todo o direito de fazer. Não se trata de determinar se a China é ou não é uma economia de mercado. Mas de determinar o que diz o protocolo de acesso.

E o que diz o novo protocolo?

Esta é exatamente a questão que está sobre a mesa, e a única entidade que pode fazer essa interpretação é o painel de perícias da OMC. E, posteriormente, o órgão de apelação. Ninguém mais tem capacidade e jurisprudência para decidir. Estamos na fase de consultas. Considerando o processo completo, incluindo a apelação, o prazo pode chegar a um ano e meio.

Será um período conturbado? É a disputa mais importante?

É uma disputa muito importante, sobretudo pelas sensibilidades políticas que desperta, mas não será a primeira vez. Tivemos muitos contenciosos de alta sensibilidade. O papel do sistema de solução de controvérsias da OMC é justamente o de tentar despolitizar e evitar uma situação de retaliações unilaterais e arbitrárias. O que se procura é dar um tratamento técnico e jurídico, com previsibilidade e imparcialidade, a questões essencialmente políticas. Com grande frequência vemos isso acontecer. Muitas vezes, governos que estariam sob pressão interna para adotar determinado tipo de ação respondem a essas pressões dizendo que a questão foi decidida por um órgão competente, supranacional e imparcial. Situações de potencial escalada de sanções foram desativadas por uma decisão técnica e jurídica. Isso pode ajudar.

Qual é a expectativa com o governo de Donald Trump nos EUA?

Prefiro não especular no que diz respeito aos Estados Unidos. O prudente e correto é esperar a equipe e ver que tipo de política comercial será montada antes de tecer comentários. Agora, evidentemente, não só nos EUA, mas em todo o mundo desenvolvido, estão emergindo sentimentos contrários à globalização, muito pautados por questões migratórias. Nesse contexto, encontra-se a corrente anticomércio, acompanhada por questões de emprego. Mas boa parte dos estudos mostra que apenas 20% dos empregos perdidos se devem ao comércio. Os outros 80% vêm de questões como aumento de produtividade, inovação e novas tecnologias. Minha preocupação é que não se tente resolver o problema do desemprego estrutural nas economias avançadas com protecionismo, porque se estará usando o remédio errado.

O senhor falou do ambiente de menor tolerância às importações. Nesse ambiente, qual é o papel da OMC?

Zelar para que as regras sejam respeitadas e monitorar as medidas. Fazemos um levantamento periódico sobre medidas adotadas por países que podem ter impacto no comércio. Não passamos nenhum juízo de valor, é um exercício de transparência. São os próprios países que vão se questionar. O processo ajuda a conter arroubos protecionistas que possam ser incompatíveis com as regras da OMC.

O órgão ganha importância?

Na crise de 1930, quando a OMC não existia, dois terços do comércio mundial desapareceram por causa de medidas unilaterais. Um país tomava uma medida unilateral, outro retaliava e um terceiro também. Em 2008, na primeira crise com magnitude semelhante à dos anos 30, não se viu nada disso. Pelo contrário: as medidas restritivas tomadas desde 2008 abarcam cerca de 6% do comércio mundial. Para muitos economistas, é exatamente a existência da OMC que impede que os países adotem essas medidas. A observância das regras é fundamental. No momento em que alguém começa a ignorar as regras de maneira arbitrária, aí sim temos risco de retomar a espiral de retaliações que foi tão danosa nos anos 30.

oglobo.globo.com | 08-01-2017

Muitos americanos ficam indignados ao verem Donald Trump ironizar a palavra “inteligência” quando se refere aos órgãos de segurança americanos. Parece uma heresia desafiar a sabedoria e a competência de instituições encarregadas de resguardar a segurança e a liberdade. Como russo, apenas dou de ombros: nunca acreditei numa só palavra vindo dos serviços de inteligência do meu país. Esta distância cultural, no entanto, está diminuindo. As sociedades ocidentais estão ficando cada vez mais desconfiadas.

Há duas décadas, Francis Fukuyama — o homem que, também com irreverência, declarou que a História estava morrendo e que um paraíso liberal e democrático nascia — relacionou confiança à prosperidade. Ele argumentou que as sociedades com maior confiança entre seus membros, tais como EUA, Japão e Alemanha, se saíam melhor do que aquelas com um grau menor de confiança, tais como China, Itália, França ou Coreia. A evidência econômica não tem apoiado tal teoria, mas pelo menos se pode dizer que uma sociedade mais confiável é mais agradável para se viver, sobretudo porque não é necessário se esforçar para provar a pureza das intenções.

O comunismo destruiu a confiança em cada país onde reinou. Um Estado controlador e inconfiável definiu o tom das interações sociais e praticamente convidou as pessoas a lutarem contra ele ou a enganá-lo. E a aniquilação da confiança sobreviveu ao comunismo. Muitos pesquisadores que se debruçaram sobre o fenômeno concluíram que isso tem a ver com o desenvolvimento econômico: se as instituições e as relações interpessoais não conseguem produzir bem-estar, elas não merecem confiança. Ambientes com baixa credibilidade são inadequados para uma democracia robusta: rapidamente se degeneram em guerras internas e paralisia.

Em razão disso, nações com baixa confiança geralmente se submetem prontamente a regras draconianas. Um autoritário como o presidente russo Vladimir Putin não se preocupa em gerar confiança: ele pode governar por outros métodos, tais como canalizar as frustrações contra supostos inimigos externos. Viktor Orban, da Hungria, e Jaroslaw Kaczynski, da Polônia, também seguem por esta trilha. Monopólios de poder e governos com mãos de ferro, porém, tendem a excesso de regulamentação e corrupção, economia em desaceleração e perpétua desconfiança em relação aos governos e entre as pessoas.

Segundo a empresa de marketing Edelman, que mede o fenômeno desde a virada do século, a confiança em instituições nos EUA ainda não é tão baixa quanto na Europa Oriental, mas a diferença não é grande. Entre a população geral, a confiança média em organizações não governamentais, governo, mídia e empresas alcança 49% nos EUA; 39% na Rússia e 35% na Polônia. São os americanos com nível universitário que têm, de longe, maior grau de confiança nas instituições do país frente a seus pares da Europa Oriental. Isso explica a irritação dos americanos de nível universitário com a falta de confiança de Trump nos órgãos de inteligência. Edelman classifica isso de “abismo de confiança” entre o “público informado” e a “massa da população”. Essa distância tem se ampliado em boa parte do mundo, sobretudo em França, Reino Unido e EUA.

Alguns veem o abismo de confiança como consequência da crescente desigualdade econômica, mas creio que as altas correlações entre prosperidade econômica e níveis de confiança levaram os pesquisadores a simplificar demais a questão e a sugerir que a desconfiança pode ser invertida mediante a redução da desigualdade. Mas as pessoas não são cães de Pavlov, e não respondem unicamente a estímulos econômicos. Elas também acreditam em instituições que, ao longo do tempo, construíram reputações de confiabilidade.

Enquanto na Europa Oriental a desconfiança é universal, e os resultados são relativamente previsíveis, no Ocidente, a relativa capacidade de confiança das elites criou o potencial para surpresas surpreendentes. Trump e os partidários do Brexit venceram porque não ignoraram uma massa desconfiada — aprenderam a pensar como esse público e ver as instituições através de seus olhos.

Três diferentes resultados são possíveis. Um seria uma versão de Putin, Orban ou Kaczynski: ignore a desconfiança, use as instituições para impor uma agenda e mantenha as pessoas sob controle. Trump pode sentir-se tentado a seguir por aí, embora os pesos e contrapesos das instituições americanas sejam desenhados para resistir a usurpadores. Outra possibilidade seria um relativo caos, algo parecido com o que os britânicos pró-Brexit parecem ter criado no país. Quanto à terceira possibilidade, que é imperativa para o Ocidente, nenhum país a adotou com sucesso: a reconstrução da confiança universal em suas principais instituições. Como salientou Fukuyama: é mais fácil destruir a confiança do que reconstruí-la.

Leonid Bershidsky é colunista da Bloomberg News

oglobo.globo.com | 08-01-2017

RIO - A julgar pelo risco-país, o Brasil começou 2016 como um Egito e entrou em 2017 como uma Turquia. Pode não parecer muita coisa para quem não se interessa por relações internacionais, mas essa foi uma das maiores quedas na percepção de risco por investidores registradas no último ano. Levantamento feito pelo GLOBO com base em dados de credit default swap — CDS, contrato que funciona como uma espécie de seguro e é comprado por aplicadores contra eventual calote da dívida soberana de um país — mostra que o Brasil conseguiu reduzir seu nível de risco em 46,6% nos últimos 12 meses, apesar da continuidade da recessão. Só o Cazaquistão, país dependente do petróleo, registrou diminuição mais intensa (47,4%) entre 42 países emergentes no período.

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Há um ano, o Brasil registrava 489 pontos-base em seu contrato de CDS com prazo de cinco anos (em dólares). Agora, o indicador está em 261 pontos-base. Quanto maior o número, maior o risco associado ao país. Com a melhora, o Brasil saiu da 5ª para a 10ª posição entre os maiores níveis de risco-país entre economias emergentes. Considerando-se Ucrânia e Argentina — que não tinham dados disponíveis há 12 meses porque estavam fora do mercado internacional devido à guerra, no primeiro, e ao calote, no segundo —, o Brasil cai para a 12ª posição. Mesmo assim, os investidores veem mais risco no Brasil do que em países como Chipre (230 pontos), África do Sul (206), Rússia (172) e Indonésia (154).

Leonardo Fonseca, economista do Credit Suisse, lembra que o último ano foi favorável para países emergentes em geral. Tanto que apenas três dos 42 países pesquisados registraram alta no seu prêmio de risco — Líbano e Tunísia, afetados pela turbulência geopolítica, e a China, que ficou praticamente estável. Segundo o especialista, uma das razões foi a reticência do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) em elevar os juros no ano passado, além da continuidade dos estímulos financeiros no Japão e Europa. Outro fator foi a valorização das commodities: em 2016, o petróleo avançou 23%, e o minério de ferro, 81%.

— O movimento de recuperação no Brasil foi maior por causa do contexto doméstico. Isso tem a ver com a mudança de governo, no qual o mercado financeiro passou a ver preocupação maior com a política econômica e com uma reversão de política fiscal. Tanto que a tendência de queda do prêmio de risco começou quando surgiram as especulações sobre o impeachment — afirma.

Essa recuperação foi sentida também no câmbio e na Bolsa: a moeda brasileira e a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) foram as que mais se valorizaram entre seus pares no ano que passou. O cenário doméstico também blindou parcialmente o Brasil da elevação de risco em emergentes após a vitória de Donald Trump, cujas promessas econômicas expansionistas valorizaram o dólar após as eleições.

PREOCUPAÇÕES EXTERNAS E INTERNAS

Segundo Fonseca, um efeito positivo da queda do risco é a redução dos juros cobrados de grandes empresas quando elas emitem títulos de dívidas no exterior. Mas ele admite que isso não se materializou em melhoras na economia real na mesma velocidade registrada pelo mercado financeiro. Fonseca aponta como um dos motivos a situação financeira das empresas, imprensadas entre a recessão e uma taxa de juros em torno de 14%. Outra razão é a reticência dos bancos em emprestar recursos. No lado político, há ainda incerteza sobre a reforma da Previdência.

— O tempo do mercado é o do segundo, mas o das decisões econômicas demora muito mais, sobretudo quando o setor público está falido, e as famílias e empresas, endividadas. — diz Silvio Campos Neto, da Tendências, acrescentando que a dívida bruta do Brasil chegará a 85% do PIB até 2020. — Para a queda do CDS chegar à economia, é preciso dar tempo ao tempo.

O economista cita dois fatores que podem voltar a elevar o prêmio de risco do país. O primeiro é uma eventual postura comercial radical de Trump. O segundo é interno:

— Desdobramentos mais graves da Lava-Jato, atingindo o presidente Michel Temer ou impedindo a reforma fiscal, são um risco que deve ser observado.

oglobo.globo.com | 07-01-2017

RIO - Incerteza, imprevisibilidade, instabilidade e insegurança. Essas são algumas das palavras mais usadas para descrever o cenário para a economia mundial em 2017. Embora o consenso entre os analistas aponte para um ano de crescimento global mais elevado, o xadrez político preocupa e pode representar uma ameaça a esse avanço. As atenções de todos estão voltadas sobretudo aos EUA, com a posse de Donald Trump. Além das fronteiras americanas o ano também será marcado por eventos importantes: na Europa, França e Alemanha podem ver o avanço da extrema-direita nas eleições; na China, ocorrerá o 19º Congresso do Partido Comunista (PCC), que ocorre a cada cinco anos e decide os próximos líderes do país.

— As relações internacionais serão mais tensas em 2017 e isso tem consequências para a economia. Temos que nos preparar para um mundo mais perigoso e instável — afirma o professor do Instituto de Economia da UFRJ Luiz Carlos Prado.

Economia 2017 As projeções para a economia mundial são de crescimento um pouco maior que em 2016, mas em ritmo ainda lento. As estimativas compiladas pela Bloomberg indicam que o Produto Interno Bruto (PIB) mundial avançará 3,2% em 2017, contra 2,9% em 2016. O Instituto para Finanças Internacionais (IIF, na sigla em inglês) prevê alta de 2,9%, já levando em conta que os estímulos fiscais prometidos por Trump impulsionem o PIB dos EUA, embora tornem menos favoráveis as expectativas para os emergentes. A agência de classificação de risco Moody’s também prevê expansão maior, mas alerta para o “crescente sentimento protecionista”.

TODOS OS OLHOS SOBRE TRUMP

Aos poucos, Trump escolhe sua equipe, mas há dúvidas. O que parece menos turvo é que seu governo reduzirá impostos e aumentará gastos, favorecendo o crescimento. Mas analistas apontam que o estímulo fiscal tende a pressionar os preços e a tensionar a atuação do Federal Reserve (Fed, o banco central americano).

A sinalização veio antes mesmo da posse. No dia 14 de dezembro, o Fed elevou os juros em 0,25 ponto percentual. As projeções são de outras três altas nesta magnitude em 2017, um ciclo mais longo do que o previsto em setembro e que terá efeito sobre os países emergentes, com possível fuga de investidores para os EUA.

Outro foco de preocupação é a política comercial. Durante a campanha, Trump ameaçou elevar tarifas para a importação de produtos mexicanos e chineses e se mostrou contrário a acordos de comércio, que podem ser renegociados.

— O governo Trump tem efeitos que se espalham por toda a economia mundial — diz Charles Collyns, diretor e economista-chefe do IIF.

ECONOMIA GLOBAL

Otto Nogami, professor do Insper, acrescenta o efeito Trump sobre as commodities. Embora sua promessa de investir US$ 1 trilhão em infraestrutura esteja puxando para cima o preço de insumos metálicos, a retórica agressiva do presidente eleito em relação à China pode abalar as cotações — ele já ofendeu Pequim ao telefonar para a presidente de Taiwan, país com o qual os EUA não têm relações diplomáticas.

— O grande comprador de commodities no mundo é a China. À medida que começam a surgir rusgas, isso pode desacelerar o crescimento chinês e, por consequência, arrefecer a alta das commodities. Se isso acontecer, será negativo também para os países da América Latina — afirmou Nogami. — Se houver reaproximação entre Rússia e EUA, a relação bilateral com a China deixa de ser prioridade. Isso pode esvair inclusive o sonho chinês de transformar o Brics (grupo de países emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) em potência.

O emergente mais vulnerável aos EUA de Trump é o México, que poderá sofrer pressão sobre as contas externas e um ajuste mais intenso. Na avaliação de Marcelo Carvalho, economista-chefe do banco BNP Paribas para América Latina, o outro polo latino — Brasil, Chile, Peru, Colômbia e Argentina — é mais ligado à economia chinesa por causa das commodities:

— Nosso cenário é de uma China desacelerando, mas ainda com um crescimento robusto de 6,5%, o que dá suporte ao preço das commodities, embora longe dos tempos áureos.

Para Charles Collyns, do IIF, a China tem feito uma transição lenta para um novo modelo de crescimento — menos investimento e mais consumo — porque quer evitar volatilidade. Com isso, mantém estímulo fiscal, forte crescimento do crédito e evita a rápida depreciação da moeda:

— Eles querem manter a economia crescendo a um ritmo razoável porque há uma grande transição de liderança em outubro (no Congresso do PCC). Ainda achamos que a China vai atingir crescimento de 6,5% em 2017, mas cada ano fica mais difícil.

O fator político também é significativo nas duas principais economias da zona do euro: França e Alemanha vão escolher novos líderes. O continente enfrenta uma escalada do nacionalismo de extrema-direita, que se contrapõe à chegada em massa de refugiados vindos de países em conflito. Associado ao nacionalismo está o chamado euroceticismo, descrença no projeto Europeu e desconfiança com relação à burocracia de Bruxelas que cresce mesmo entre segmentos moderados do espectro político.

Além disso, o continente europeu enfrenta há anos um problema de ordem econômica. O endividamento na zona do euro está estagnado em patamar elevado, chegando a 90,3% em 2016. O desemprego, sobretudo entre jovens, também tem se mostrado resistentemente elevado desde o início da crise da dívida em 2009. Enquanto isso, o Banco Central Europeu (BCE) mantém um programa de estímulo que já atingiu a marca de US$ 1 trilhão, além de impor juros negativos, fatores que levam a distorções no mercado de capitais. Uma das maiores preocupações é com os bancos italianos, que sofrem com alta inadimplência e ameaçam contaminar o sistema bancário da zona do euro.

Na França, a extrema-direita já mostra força antes mesmo do início oficial da campanha presidencial: Marine Le Pen, candidata da Frente Nacional, aparece nas pesquisas com chances reais de disputar o segundo turno. Ela já se manifestou favoravelmente à saída da França da zona do euro e prometeu submeter a referendo nacional a saída da UE. Gabriela Santos, estrategista de mercado global do J.P. Morgan Asset Management, pondera, porém, que abandonar a moeda não é tão simples quanto deseja Le Pen:

— Temos que lembrar o exemplo da Grécia. Quando ela considerou sair do euro, vimos um forte impacto negativo no seu crescimento. Esse foi um exemplo muito negativo sobre o que acontece quando um país tenta sair da zona do euro. É mais fácil sair da UE do que da união monetária.

A chanceler alemã Angela Merkel vai disputar seu quarto mandato após a extrema-direita ter ganhado espaço nas eleições legislativas. Ao mesmo tempo, o Reino Unido continuará o processo para sua saída da União Europeia após a vitória do sim ao Brexit. Mas Gabriela Santos pondera que a incerteza política não se traduz necessariamente em trava econômica:

— Existe uma diferença entre incertezas políticas e desempenho econômico. Um exemplo é a Espanha, que ficou sem governo durante dez meses em 2016, mas continuou crescendo 3%. Na Europa, as análises costumam focar muito nos riscos políticos. Mas a economia vem melhorando, o consumo está reagindo e deve crescer 1,5% este ano.

RETORNO DA INFLAÇÃO

Dentro da lógica de que nem sempre incerteza se traduz em lentidão, o JP Morgan tem viés positivo com relação à economia global.

— Esperamos a continuação dessa tendência que chamamos de “reflação global”, que tem sido percebida desde a segunda metade de 2016 e significa um maior crescimento real da economia e o retorno da inflação global. Esse contexto cria as condições para o crescimento de lucratividade das empresas. Nos últimos anos, a expansão desses lucros veio por meio de corte de custos. Agora passará a vir também do crescimento das receitas — explicou Gabriela, acrescentando que ainda é difícil estimar o impacto de Trump na economia global.

O retorno da inflação global vem em boa hora, indicando maior demanda por parte dos consumidores, segundo a analista. A inflação global foi de apenas 2,8% em 2015, abaixo da dos cinco anos anteriores (em 2011, chegou a 5,1%). Gabriela explica que isso aconteceu por causa de “uma queda dramática do petróleo”.

Para a analista do JP Morgan, o acordo recentemente firmado entre membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opec) será importante para a sustentação da commodity. Ela prevê que o barril de petróleo do tipo WTI pode chegar a US$ 65 (hoje está em US$ 51). Esse limite se deve à tendência de os EUA aumentarem a produção quando o petróleo chega nesse patamar, aumentando a oferta. Gabriela minimiza a influência que Trump possa ter na expansão da produção, apesar da retórica pró combustíveis fósseis.

— As companhias americanas só vão aumentar a produção quando fizer sentido econômico para elas, independentemente do que o governo americano fizer — acrescentou.

oglobo.globo.com | 02-01-2017

WASHINGTON — As feridas de uma das eleições mais acirradas da História recente dos Estados Unidos parecem continuar abertas: os americanos chegam mais divididos do que nunca à posse de Donald Trump, em 19 dias. Apesar do primeiro discurso do magnata ter sido de unificação, o período de transição foi marcado por polêmicas, enfrentamentos e radicalismo que, em alguns casos, pioraram o clima no país. Neste sábado, no último dia do ano, ele alfinetou seus adversários: “Feliz Ano Novo a todos, incluindo a meus muitos inimigos e àqueles que lutaram contra mim e perderam feio, eles não sabem o que fazer. Amor!”, escreveu o futuro presidente. Trump_0101

Pela primeira vez nos anos recentes, a má expectativa de um novo governo supera a positiva. Segundo pesquisa da CBS News, entre os dias 9 e 13 de dezembro, enquanto 34% acreditam que Trump terá um bom desempenho, 36% dos americanos esperam um governo ruim. O número supera em muito a expectativa negativa cerca de um mês antes da posse de Barack Obama no fim de 2008 (7%) ou de George W. Bush em dezembro de 2000 (14%). Apenas 40% dos americanos têm uma visão favorável de Trump, contra 46% que têm uma visão desfavorável, segundo levantamento da NBC. Reverter este sentimento é um dos grandes desafios de Trump. Mas não o único.

Sua posse e os resultados das eleições são contestados desde o início, tendo em vista que em outubro ele venceu com larga vantagem no Colégio Eleitoral, mas teve 2,8 milhões de votos a menos que Hillary Clinton na contagem popular. Se valessem os votos apenas das grandes cidades americanas, a democrata teria sido eleita. As fortes divisões de classes, raças, gêneros e até geográficas que marcaram o período eleitoral, continuam presentes e pioraram as coisas.

— Os EUA são um país muito fraturado agora — afirma o cientista político David Schultz, da Hamline University, de Minnesota. — E Trump é um presidente minoritário, como George W. Bush, e vai assumir com uma posição fraca.

Info eleito em baixa

Ativistas e organizações não-governamentais se mobilizam para que os protestos do dia da posse, na sexta-feira dia 20, e nos dias seguintes, superem em muito o público oficial dos primeiros eventos do governo Trump na capital americana. Grupos em prol dos direitos de mulheres, imigrantes, gays, entre outros, esperam levar mais de um milhão de pessoas para a capital americana e superar os históricos comícios de Martin Luther King, nos anos 1960. Especialistas afirmam que não estão descartados inclusive atos violentos, e acreditam que o magnata tem parte de culpa, por não tentar apaziguar o país.

— Vimos um clima de enfrentamento, que continuou. Trump precisa se apresentar como o presidente de todos os americanos, mas não tem feito isso: as indicações para seu Gabinete, com nomes da direita radical, não mostram a boa-fé de alguém que quer unir o país. Ele parece seguir em campanha, quando venceu na base da divisão do país — frisa Beatriz Cuartas, professora de Ciência Política da George Washington University, na capital americana.

Distante do próprio partido

E as indicações não geram problemas só com democratas e progressistas. A falta de diálogo deixa incomodados até republicanos. O excesso de forasteiros da política gera incômodos dentro da própria legenda que o elegeu e da qual, de fato, nunca foi próximo, afirma Peter Hakim, presidente emérito do Inter-American Dialogue. Ele diz que a divisão do país só se assemelha aos períodos após o assassinato do presidente Abraham Lincoln, em 1865, e a Crise dos Mísseis em Cuba em 1962.

— Minha única previsão é que Trump provavelmente acabará causando danos à política, à economia e à sociedade dos EUA, às relações externas e à comunidade global. A única questão é quanto dano e onde — diz Hakim, que destaca a combinação negativa de país fraturado com um presidente com tão pouca disciplina e impulsivo.

A política externa é um dos pontos onde os desafios de Trump são mais urgentes e complexos, que podem ampliar a divisão do país. Ainda mais depois que o governo de Barack Obama resolveu, no fim do mandato, enfrentar Israel pelos assentamentos judaicos na Cisjordânia, e a Rússia, pelo caso de espionagem e vazamento de informações do Partido Democrata. Hakim vê apenas um ponto que pode unir o país: ampliação do investimento em infraestrutura.

— Mas mesmo neste ponto há diferenças a superar. Os democratas veem o investimento vindo principalmente de Washington. Trump está pedindo que a maioria do dinheiro venha do setor privado. E há conflitos entre os republicanos. O partido não quer mais déficit público, e alguns republicanos veem as despesas militares como a prioridade número um, e não a infraestrutura — observa o professor.

As divisões não ocorrem apenas na questão orçamentária. A revista “The Economist” listou diversos pontos de conflitos dentro do futuro governo Trump. Cita, por exemplo, que James Mattis, futuro encarregado da Segurança Nacional, afirmou que a anexação da Crimeia pela Rússia foi algo grave e que Vladimir Putin tenta implodir a Otan, o que pode gerar problemas com o indicado para secretário de Estado, Rex Tillerson, que sempre foi contra as sanções a Moscou quando era presidente da ExxonMobil. O presidente eleito também afirma que quer acabar com o acordo nuclear com o Irã, que tem a simpatia da maioria dos americanos.

Da mesma forma, sua proposta de acabar com o Obamacare, o programa de saúde pública implementado por Obama, deve gerar grande resistência, assim como suas políticas de imigração, em que defende a deportação de milhões de indocumentados e a construção do muro na fronteira com o México. Cidades e estados progressistas — entre eles as chamadas cidades-santuário — já afirmaram que não se mobilizarão a favor da deportação em massa, o que pode gerar uma queda de braço com o novo governo em Washington. Uma nova guerra com a sociedade deverá ocorrer nas políticas ambientais, pois Trump nega o aquecimento global e prometeu sair do Acordo de Paris e cortar toda verba federal para fundos de compensação das mudanças climáticas.

Trump afirma que quer rever o Nafta (Acordo de Livre Comércio da América do Norte, entre EUA, México e Canadá) e sobretaxar produtos chineses em até 45%. Ele já anunciou que vai abandonar o projeto da Parceria Transpacífica (TPP), entre EUA, Japão, Coreia do Sul e outros dez países, que seria o maior acordo comercial do planeta. A proposta de abrandar a legislação financeira e reduzir impostos para os mais ricos também deverá gerar polêmica.

— Há muitas pessoas com interesses em jogo no governo Trump, além do próprio presidente eleito e sua família, o que é uma fonte de conflitos e polêmicas — afirma Cuartas.

Isso, além de ter nomeado para cargos importantes, como a Agência de Proteção Ambiental e a Secretaria de Energia, nomes de pessoas que simplesmente defendiam o fim destas estruturas. Hakim afirma que um dos poucos pontos que podem unir o país, além da infraestrutura, é uma nova articulação contra o terrorismo, mas acredita que a iniciativa causará conflitos sobre questões como privacidade e segurança, perfil religioso e racial, propriedade de armas, atrasos nos aeroportos, vigilância excessiva e coisas do gênero.

— Somente se os EUA estiverem sujeitos a um ou mais atentados terroristas particularmente violentos ou de grande porte, tais fatos poderão gerar unidade — diz o professor.

E tudo ocorrerá com um Gabinete com pouca experiência pública e sem traquejo no Congresso. Mas, a maioria republicana nas duas Casas e a virtual maioria conservadora na Suprema Corte — uma vaga será preenchida por Trump — podem dar alívio ao presidente eleito nos primeiros cem dias. Mas, para tanto, ele terá de vencer suas limitações:

— Sua atração para muitos é ser um outsider, mas esse status significa que ele pode não ter as habilidades ou o conhecimento para fazer as coisas. O último verdadeiro outsider foi Jimmy Carter, e muitos descrevem sua Presidência como um fracasso porque ele e sua equipe não sabiam como lidar com Washington — salienta Schultz.

oglobo.globo.com | 01-01-2017

MOSCOU — Em maio, parecia culminar um período de esperança para os russos em sua intervenção militar na Síria. Oficialmente enviadas em setembro de 2015, suas tropas começaram a ser retiradas em março. O presidente Vladimir Putin assegurou que os objetivos da missão tinham sido cumpridos e que as condições para uma solução entre as forças políticas sírias haviam sido assentadas. Naquele momento, o objetivo das bases militares, uma no porto de Tartus — a única de Moscou no Mediterrâneo — e outra no aeroporto de Latakia, era apenas vigiar o cumprimento do cessar-fogo. Muitos respiraram aliviados, pensando que a Rússia tinha evitado uma nova situação como a no Afeganistão, décadas antes. Mas os acontecimentos demonstraram que a atitude triunfante era precipitada.

Em dezembro, o Estado Islâmico (EI) voltava a controlar Palmira, Patrimônio da Humanidade, e outras localidades a Oeste da cidade, incluindo campos petrolíferos. Cerca de 80% da população teria que ser retirada, segundo o governo da província de Homs. O chefe do batalhão russo em Palmira foi morto. Agora, a Rússia encara novos riscos por conta de seu compromisso militar: começa a voltar atrás na desmobilização de seu contingente no país e estuda reforçá-lo com voluntários.

Inicialmente, os dirigentes russos justificaram sua intervenção sob o argumento de que ela servia para combater jihadistas vindos da Rússia e de países pós-soviéticos, além de evitar que eles lutassem em seu próprio território. No entanto, o conflito civil iniciado em 2011 tem múltiplas vertentes. A oposição moderada perdeu terreno para os radicais. Na vizinha Turquia, o presidente Recep Tayyip Erdogan está hoje mais vulnerável. A Rússia matou combatentes islâmicos que poderiam voltar ao Cáucaso, mas tem novos temores pela frente.

— A Rússia e seus cidadãos subiram alguns degraus na lista de alvos que terroristas querem destruir — afirma o analista político Mikail Rostovski.

O ex-candidato à Presidência russa Grigory Yavlinski acredita que, na tentativa de salvar o regime do presidente sírio, Bashar al-Assad, os russos envolveram o país num conflito de grandes proporções:

— Moscou enfrenta não só os adversários sírios de Assad, mas todo o mundo sunita — analisa. — Na guerra, a Rússia não controla nada e, além disso, garantiu a Assad o controle de Aleppo ao preço de grandes perdas de reputação e na economia, além de criar para si sérias e potenciais ameaças.

O território que os combatentes sírios leais a Assad perderam em Palmira foi ganho em Aleppo com a ajuda da aviação russa. Num balanço da operação na Síria, o ministro da Defesa da Rússia, Sergey Shoigu, afirmou que a aviação russa realizou 71 mil ataques e exterminou 35 mil insurgentes, entre eles 204 líderes guerrilheiros.

— A operação russa permitiu evitar a desintegração do Estado sírio e rompeu a sequência de levantes que se desencadeavam no Oriente Médio e na África — garantiu Shoigu.

Oficialmente, a intervenção russa começou em 2015, mas desde 2013 já atuavam na Síria militares que supostamente pertenciam a empresas de segurança privadas. Alguns deles eram veteranos da espionagem militar e foram condecorados com altas honrarias por Putin, como Dmitri Utkin, expedicionário e hoje chefe da empresa militar PMC Wagner.

Segundo dados oficiais russos, 25 militares morreram. Não se sabe o número de baixas nas companhias privadas, nem os feridos.

Milícias e soldados com contratos curtos

Segundo o jornal “Novaya Gazeta”, dois batalhões especiais de voluntários (com um total de 1.200 pessoas) estão sendo preparados atualmente, recrutados entre os funcionários do Ministério do Interior checheno. O líder da região, Ramzan Kadyrov, desmente que suas autoridades estejam recrutando estas tropas voluntárias, mas destacou que, “se for necessário, qualquer funcionário checheno considerará uma honra cumprir com a ordem do comandante em chefe em qualquer lugar do globo”.

As táticas empregadas pelos russos e pelos grupos armados que eles enfrentam na Síria lembram as usadas pelas tropas de Moscou e seus adversários chechenos na guerra de 1994 e 1996, destaca o jornalista Vladimir Dolin, que cobriu o confronto no Cáucaso. Na Chechênia, os russos conseguiam expulsar os rebeldes das cidades provocando muitas mortes de soldados e de civis, mas os insurgentes “se dissolviam” nas montanhas e bosques. Agora, na Síria, se dissolvem no deserto para contra-atacar no momento oportuno.

— O problema, tanto na Síria, quanto na Chechênia, não é a conquista de uma ou outra cidade, mas a manutenção do controle daquilo que foi alcançado militarmente — ressalta Dolin.

Esta manutenção poderia ser desempenhada pelos grupos especiais chechenos, se forem enviados a Aleppo, e é também um tema que teria sido discutido nas conversas recentes entre os ministros da Defesa de Rússia, Irã e Turquia.

Neste mês, a Duma Federal (Câmara baixa do Parlamento russo) aprovou um projeto de lei que permite ao Ministério da Defesa fazer contratos de curta duração com soldados e oficiais para, entre outros, “combater atividades terroristas internacionais fora da Federação Russa e participar de expedições navais”. Segundo a nova lei, qualquer jovem que cumprir o serviço militar poderá assinar um contrato de até um ano. Isto supõe uma fórmula mais flexível, em função da demanda para substituir regimes de contratação mais rígidos e longos. Cerca de 20% daqueles que desejam servir nas Forças Armadas através de contratos querem períodos mais curtos, segundo a nota que acompanha o projeto de lei.

— As operações russas pararam a difusão das organizações terroristas internacionais na região — justificou o ministro Shoigu.

oglobo.globo.com | 27-12-2016

SÃO PAULO - O grupo brasileiro de produtos farmacêuticos Hypermarcas decidiu vender a divisão de fraldas para a belga Ontex por cerca de R$ 1 bilhão em dinheiro, disse uma fonte com conhecimento da operação.

Ambas as empresas confirmaram na manhã desta quinta-feira que as conversas estão em estágio avançado. A Hypermarcas ressaltou, contudo, que até o momento nenhum “instrumento vinculante foi assinado”, segundo fato relevante. Já a Ontex informou não haver garantias de que a transação vai se materializar porque as duas partes não estão legalmente obrigadas a proceder com a operação.

De acordo com a fonte ouvida pela Reuters, que pediu anonimato porque os termos do negócio permanecem confidenciais, o anúncio de venda pode sair ainda nesta quinta-feira.

No ano passado, a Hypermarcas contratou consultores para avaliar uma cisão das operações ou venda definitiva da unidade. O negócio, que demorou um ano a mais que o esperado, surge no momento em que a divisão de fraldas sofre com falta de escala e reconhecimento da marca, além de custos maiores com matérias-primas em meio à desvalorização acentuada do real.

Em outubro de 2015, a Reuters informou que a Hypermarcas havia oferecido a unidade para Kimberly-Clark, CMPC, Procter & Gamble e Svenska Cellulosa.

A negociação, que a Hypermarcas pretendia fechar por R$ 1,5 bilhão, ficou estagnada alguns meses depois, com divergências sobre preços e questões tributárias, disseram pessoas familiarizadas com a decisão nos últimos meses.

Além de consolidar a saída da Hypermarcas do segmento de produtos descartáveis, a venda dos negócios de fraldas ainda marca a entrada da Ontex na principal economia da América Latina após a aquisição do mexicano Grupo P.I. Mabe SAB em março.

Fundada em 1981, a Ontex está entrando em mercados com potencial de crescimento para combater a fraca atividade na Europa Ocidental, no Oriente Médio e na Rússia.

FOCO

As ações da Hypermarcas acumulam alta de cerca de 15% neste ano, desempenho aquém do avanço de 33% do Ibovespa. Os papéis refletem os efeitos da pior recessão desde a década de 1930 e da turbulência política sobre os setores de bens de consumo e farmacêutico.

Nos últimos anos, o presidente da Hypermarcas, Claudio Bergamo, optou por concentrar as operações da empresa no segmento farmacêutico. Com o aval do acionista majoritário e presidente do conselho, João Alves de Queiroz Filho, Bergamo liderou uma série de aquisições para a empresa na última década.

Atualmente, a Hypermarcas é uma das principais produtoras de medicamentos genéricos e de balcão.

oglobo.globo.com | 22-12-2016

MOSCOU — Pelo menos 58 pessoas morreram na cidade siberiana de Irkutsk, nos últimos dias, após ingerirem uma loção de banho à base de álcool. Segundo o Comitê de Investigação da Rússia, o líquido era consumido como bebida alcoólica, mas continha metanol, altamente intoxicante. Outras 40 pessoas continuam hospitalizadas.

A quantidade de mortos em Irkutsk, sexta maior cidade da Rússia (tem 1,1 milhão de habitantes) vem subindo desde domingo. Um grupo de toxicólogos para atender os afetados foi enviado a Irkutsk, perto do lago Baical.

Um inquérito para investigar as mortes foi aberto, embora o rótulo do produto indicasse que sua ingestão é proibida. Pelo menos oito pessoas foram detidas.

A imprensa local afirma que, devido à recessão da economia russa desde 2014, os russos de menor poder aquisitivo não podem conseguem comprar vodca legal e consomem produtos que incluem álcool, como colônias e loções. O hábito aumenta o número de intoxicações mortais, especialmente nas férias natalinas, quando o consumo de álcool dispara.

oglobo.globo.com | 20-12-2016

ULAN BATOR — A crise econômica fez do combate à pobreza um dos principais desafios da Mongólia. A bonança do mercado internacional e os altos preços das commodities nos anos 2000 permitiram um alívio das desigualdades, enquanto o país registrava a maior taxa de crescimento do planeta: 17,5% em 2011 — percentual de fazer inveja à China. Mas se o índice de pobreza caiu de 38,8% da população em 2010 para 21,6% em 2014, cerca de 20% dos mongóis ainda vivem com menos de US$ 1,25 por dia.

O problema é que os preços das matérias-primas despencaram, a demanda da China, seu maior comprador, caiu, o país continua dependente de energia da Rússia e não consegue destravar as negociações sobre os contratos de exploração da mineração — atividade que, sozinha, carrega 20% da economia nas costas. Este ano, o comparecimento às urnas foi recorde (72%). O voto de protesto levou o Partido do Povo da Mongólia (PMM), o mais antigo do país, de volta ao poder depois de quatro anos na oposição. E pela primeira vez desde 2000 com maioria absoluta, sem a necessidade formar coalizões.

Entre Rússia e China, a Mongólia usa a conhecida política do “terceiro vizinho” para contrabalançar o peso das fronteiras. Aproximou-se dos EUA, com quem tem uma aliança militar. Os americanos têm sido um importante aliado, mas a eleição de Donald Trump pode afetar a estratégia mongol. Professora da Escola de Relações Internacionais da Universidade Nacional da Mongólia, Oyunsuren Damdinsuren afirmou que existe uma grande preocupação sobre como o presidente eleito conduzirá a política externa.

— Temos um bom relacionamento, embora os EUA não tenham investimentos significativos na Mongólia e o comércio exterior seja mínimo.

Para o especialista da King’s College Kerry Brown, não restam alternativas. O país depende da Rússia e da China para ter liberdade de acesso, ambos mais importantes para o país do que vice-versa. Já foi um aliado importante da Rússia e uma espécie de para-choque contra a China.

— Não estão entre as prioridades dos EUA. A China tem hoje mais interesses na Ásia Central e na Ásia do Pacífico, onde há disputas sobre o Mar do Sul da China.

O professor explica que todos os países da Ásia fazem o mesmo jogo do “terceiro vizinho”. O problema é que a Mongólia acaba com os vizinhos de sempre. (V.O.)

oglobo.globo.com | 11-12-2016

SÃO PAULO - Os pequenos luxos do cotidiano ficaram um pouco mais longe do brasileiro. Para provar um macaron da Ladurée ou experimentar uma bermuda de praia da Vilebrequin, o jeito agora é comprar uma passagem para a França ou para qualquer outro país onde estas marcas estão presentes. Os dois anos seguidos de recessão no país afetaram o perfil de compras até do cliente de alta renda. Com isso, grifes internacionais do segmento de luxo que desembarcaram por aqui quando a economia estava em expansão, começaram a fazer as malas em busca de mercados mais rentáveis.

Entre os ícones locais desse segmento no varejo, o naufrágio da Daslu, que acaba de fechar sua loja no shopping JK Iguatemi, em São Paulo, por atraso nos aluguéis, é o movimento mais emblemático da abrangência da crise.

Se até pouco tempo o segmento parecia imune à recessão, o desempenho em 2016 mostra que o setor perdeu um pouco do brilho. Dados da Euromonitor indicam que as vendas do segmento de luxo crescerão 5% este ano, contra a média de 9% da última década, e o auge de 11% em 2013.

Um dos segmentos nos quais esse movimento foi mais intenso é o de automóveis de luxo. Após três anos consecutivos de expansão, Jaguar, Land Rover, BMW, Mercedes e Audi acumulam queda de 27,3% nas vendas até novembro, segundo números da Anfavea, associação que reúne as montadoras.

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Guilherme Machado, analista de pesquisa da Euromonitor Internacional, explica que o cenário instável também prejudica a confiança do consumidor mais rico, que passa a ser mais criterioso com seus gastos.

— Até o padrão de compras dos consumidores de alto poder aquisitivo se tornou mais conservador — resume Machado.

DIFICULDADE EM ENTENDER O GOSTO DO BRASILEIRO

Bruno Pamplona, consultor especializado no mercado de luxo, percebe as mudanças no dia a dia. Em sua empresa, ele atende famílias milionárias e as auxilia a comprar bens de alto valor, como barcos, aviões, imóveis e carros. Ele relata que, desde o ano passado, predomina o receio quanto ao futuro. A apreensão não só afeta o tamanho dos gastos, como faz o consumidor concentrar suas compras em marcas mais reconhecidas, como Louis Vuitton e Chanel.

— O mercado de seminovos está muito mais aquecido. Hoje, a família que me procura para comprar um carro, por exemplo, opta por adquirir um zero quilômetro para o patriarca e seminovos para a esposa e o filho — exemplifica.

Outro movimento que perdeu fôlego com a crise, segundo o especialista, é a importação de barcos e aviões, que estava forte há dois anos.

— O câmbio encareceu demais as transações. Além disso, não é possível prever qual será a cotação daqui a uma semana. Sendo assim, esse público tem preferido comprar um usado que já está aqui — detalhou Pamplona.

O Brasil é o 19º maior mercado de consumo de luxo no mundo. Se descontada a inflação, a Euromonitor conclui que as vendas do segmento fecharão o ano com retração de 3%.

— Além da crise, percebemos também que algumas empresas que fecharam ao longo deste ano não encontraram um casamento feliz de seus conceitos de produto com o gosto dos brasileiros. As linhas predominantemente retas e as cores mais sóbrias da Lanvin, por exemplo, não causaram o apelo ambicionado nos consumidores brasileiros de luxo — ponderou Machado, da Euromonitor.

Demanda mais fraca, altos impostos e o câmbio são os fatores que impactaram as atividades das marcas estrangeiras que decidiram deixar o Brasil. A Ladurée, exemplo, vendia cada macaron por R$ 11, antes de fechar. O valor é exatamente o mesmo que a marca pagava para importar cada doce. Outras empresas do segmento alimentício que encerraram as atividades são a espanhola de chocolates CacaoSampaka e a americana Red Lobster, famosa por suas lagostas.

Relatório elaborado pela Millward Brown tem conclusão na mesma linha da Euromonitor: as dez marcas mais poderosas do ramo perderam US$ 5 bilhões em valor ao longo deste ano, uma redução de 5%, para US$ 99,7 bilhões. Em 2015, a consultoria havia registrado a primeira retração no valor dessas marcas, de 6%, equivalente a US$ 7 bilhões, para US$ 104,6 bilhões. Entre as razões para a perda de valor, segundo relatório da Millward, está o menor consumo brasileiro.

“O crescimento mais lento no Brasil, Rússia e China impactou os valores de certas marcas. E a força do dólar dos EUA também impactou negativamente as vendas de marcas americanas ofertadas no exterior ou compradas nos EUA por visitantes estrangeiros”, explica o relatório.

RECUPERAÇÃO SÓ EM 2018

A pesquisa da Euromonitor também identifica um arrefecimento do consumo de luxo em todo o mundo. Machado explica que ao longo de 2016 os mercados de luxo considerados consolidados, como os da França e de Hong Kong, e os emergentes, como Rússia e Brasil, sentiram impactos de problemas econômicos vividos em seus países. Ele pondera porém que a Índia e o México têm mostrado crescimento vigoroso nas compras deste tipo de artigos.

O maior mercado de luxo do mundo é o americano, representando 21% das vendas globais em 2016. China e Japão vem em segundo e terceiro lugar, respectivamente.

E as perspectivas para o segmento no Brasil não são animadoras. A Euromonitor indica ainda que para 2017 a estimativa é de um crescimento módico de vendas de 1% acima da inflação. A recuperação, segundo a consultoria, só deve começar em 2018 e, mesmo assim, ainda longe dos dois dígitos nos próximos cinco anos.

— A recuperação deve começar a acontecer somente em 2018 e mesmo assim o crescimento não deve voltar aos dois dígitos pelos próximos cinco anos. Nesse período o Brasil deve ultrapassar a taxa de crescimento médio mundial e se reaproximar de taxas de crescimento mais elevadas, como aquelas que o México tem apresentado — detalhou Machado.

Outro indicador da perda de encanto do mercado brasileiro, segundo o levantamento, é a diminuição do interesse de grifes de luxo negociarem sua entrada no país. “Assim, prevemos entrada de poucas marcas no Brasil. Essas poucas entrantes e as que se mantiveram no país deverão disputar acirradamente a preferência do consumidor”, analisa a Euromonitor, em relatório que acompanha os dados da pesquisa.

oglobo.globo.com | 11-12-2016

Confesso que em 2011 e 2012 publiquei artigos no GLOBO manifestando desapontamento com a atuação de Barack Obama. A origem desse desencanto era a minha expectativa de que seu governo consistiria de sucessivos atos arrojados, dado o discurso reformista adotado durante a campanha de 2008. Imaginei também que o presidente enfrentaria incisivamente a oposição do Partido Republicano que, no Congresso, se transfigurou em obstrução sistemática.

Agora, ao fim de seu mandato, reconheço que fui demasiado rigoroso, influenciado pela atitude comedida por ele adotada e sua sobriedade na divulgação dos êxitos alcançados. Percebo que Obama entrará para a história não apenas como o primeiro presidente negro dos EUA, mas também como exemplo a ser seguido pelos futuros ocupantes da Casa Branca.

Primeiro, porque exerceu o poder de maneira elegante e confiável. Após os 16 anos da escassa credibilidade de George Bush e do controvertido comportamento pessoal de Bill Clinton, o desempenho de Obama revigorou a dignidade da Presidência.

Em segundo lugar, porque o saldo econômico e social de seu governo é positivo. Ao assumir, os EUA encontravam-se sob a maior recessão desde a década de 1930: o PIB retrocedeu em 2,8% em 2009, o desemprego oscilava em torno de 10%, e o déficit público equivalia a 13,2% do PIB. O setor privado e o cenário internacional padeciam de tal intranquilidade que ninguém ousava prever quando começaria a recuperação da atividade econômica.

Mediante políticas coerentes, o presidente americano encurtou o prazo de reativação da economia, embora ainda em ritmo moderado. A dosagem aplicada de estímulos ao aumento da produção e de prudência fiscal reverteram o quadro recessivo: a economia atingiu o crescimento de 2,6%, em 2015, e de 2,9% no terceiro trimestre de 2016 em comparação com igual período de 2015. O desemprego e o déficit público declinaram, em 2016, para 4,9% e 2,9% do PIB, respectivamente.

No campo social, a reforma do sistema público de seguro saúde proporcionou o acesso de 20 milhões de cidadãos de baixa renda aos seus benefícios. Por outro lado, Obama eliminou o abatimento no Imposto de Renda dos ricos, instituído por George Bush, assim como incentivou governos estaduais a elevarem os salários mínimos locais.

Por fim, em terceiro lugar, a política externa praticada merece ser classificada como correta. Num contexto onde a Rússia se deleita em confrontar os EUA, vários focos de violência radical se disseminam em países de Oriente Médio e África, o espaço mundial para negociações encolheu e as vitórias espetaculares em política internacional tornaram-se raras, os americanos conseguiram reduzir a presença militar no exterior e melhorar o relacionamento com alguns dos países tidos como adversários irreconciliáveis, tais como Cuba e Irã.

Hoje percebe-se que o estilo do presidente Obama de não alardear êxitos induziu grande parte da população a subestimá-lo. Porém, desde o início deste ano, sua popularidade decolou, decorrência da espontânea visibilidade dos frutos de iniciativas por ele empreendidas.

Marcello Averbug é economista

oglobo.globo.com | 06-12-2016

RESENDE E RIO - O programa nuclear brasileiro, que ganhou forma no fim dos anos 1960 com a construção da usina de Angra 1, vive nova polêmica, com a paralisação de sua única mina no sudoeste da Bahia, responsável pela exploração de todo o urânio consumido no país. A produção, que era de 400 toneladas anuais, se esgotou há dois anos. E, afetado pela crise política e econômica, o Brasil, embora dono da sexta maior reserva do mineral no mundo, segundo a estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB), vem importando tudo o que consome de países como EUA, Alemanha, Holanda e Reino Unido. inb0412

O urânio é matéria-prima para a geração da energia nuclear. Outros países com grandes reservas são Austrália, Canadá e Rússia. No Brasil, a exploração desse mineral ocorre na mina de Caetité, na Bahia, a mais de 600 quilômetros de Salvador. O urânio, então, passa por um processo químico, gerando um pó amarelo (chamado de yellow cake), que posteriormente é enriquecido para gerar energia elétrica nas usinas nucleares.

lResponsável pela exploração e enriquecimento do urânio, a INB tenta buscar recursos para voltar a explorar o minério em novas minas na região de Caetité, o que depende de licenciamento ambiental. A mina a céu aberto tem potencial para produzir 240 toneladas de concentrado de urânio por ano.

A outra mina, subterrânea, pode produzir 400 toneladas anuais. Além disso, segundo a INB, haverá ampliação da unidade química, responsável por transformar o urânio em yellow cake, que já está em fase de projeto executivo. Ao todo, serão investimentos totais de R$ 531 milhões.

A energia nuclear no BrasilApesar de a INB não divulgar a quantidade de importação de urânio, dados da consultoria Barral M Jorge indicam que, em 2015, foram importados 168,1 toneladas de urânio natural (e seus compostos), bem maior que as 6,8 toneladas compradas do exterior em 2014. Neste ano, até outubro, foram adquiridas 33,8 toneladas.

— Nossa mina na Bahia, que produzia anualmente cerca de 400 toneladas por ano de concentrado de urânio, está parada há cerca de dois anos, já que houve esgotamento da mina. Tínhamos um estoque. Um dos focos da INB é retomar a capacidade de produção na Bahia — disse Giovani Moreira, diretor de Produção Nuclear.

FALTAM RECURSOS FINANCEIROS

Mas os desafios da INB vão além do licenciamento. Falta dinheiro, dizem fontes do setor. Por isso, o presidente da INB, João Carlos Derzi Tupinambá, eleito para o cargo no início deste ano, está na China em busca de recursos:

— A INB está em busca de parcerias.

Outro foco para aumentar a produção do combustível nuclear no Brasil é incentivar o avanço do enriquecimento de urânio no país, feito na fábrica da INB em Resende, no sul do Estado do Rio. Segundo Ezio Ribeiro, superintendente da estatal, o país enriquece somente 16% do que é consumido. Para reverter esse cenário, a estatal pretende investir US$ 510 milhões, mas depende do Tesouro Nacional.

— A primeira fase do projeto para elevar o enriquecimento já começou, com novas centrífugas. O importante é ter autonomia e ser autossuficiente — disse Ribeiro.

Para superar esse imbróglio, especialistas afirmam que o Brasil precisa de uma política industrial para o setor nuclear. Para o consultor técnico da Associação Brasileira de Energia Nuclear (Aben), Francisco Rondinelli, a importação ocorre devido à falta de investimentos em sua expansão, apesar de o Brasil dominar a tecnologia. Segundo ele, seria necessário investir R$ 5 bilhões para o país se tornar autossuficiente e até exportar.

— O Brasil domina a tecnologia de todas as etapas do ciclo do combustível, inclusive a mais estratégica, que é a do enriquecimento. É preciso definir uma política para o ciclo, que poderia contar com recursos do BNDES, para tornar o Brasil exportador de urânio enriquecido — destacou Rondinelli.

OBRAS DE ANGRA 3 PARADAS

Mas os planos da INB esbarram ainda na construção da usina nuclear de Angra 3, que teve suas obras paralisadas em 2015 após denúncias de superfaturamento. É com Angra 3 que a INB pretendia ampliar a fábrica de Resende.

A construção de Angra 3 se arrasta desde 1986. Em Resende, parte do equipamento de Angra 3 já está pronto. Em um local chamado de “açougue”, devido à semelhança com a disposição de produtos em um frigorífico, estão estocados 69 equipamentos (chamados de elemento combustível), que têm em seu interior varetas de quase quatro metros de altura com as pastilhas de urânio enriquecido. Só vão sair dali quando Angra 3 estiver pronta, após 2021, segundo previsões.

— Contamos com Angra 3. Esperamos uma solução desse problema a curto prazo. Sabemos que a Eletronuclear está se mexendo bastante na busca de uma solução — disse Tupinambá.

Antônio Muller, presidente da Associação Brasileira para o Desenvolvimento das Atividades Nucleares (Abdan), defende que o país deveria investir para ter capacidade industrial de produção em todas as etapas do combustível nuclear:

— É um desperdício ter os insumos, tecnologia e instalações e estarmos importando o concentrado de urânio. Poderia se fazer parceria com o setor privado para minerar o urânio, por exemplo. E o país poderia até exportar esse produto.

* O repórter viajou a convite da INB

oglobo.globo.com | 04-12-2016

As bolsas de Nova York fecharam em alta nesta segunda-feira, 21, e atingiram novos recordes, impulsionadas por ações de empresas petrolíferas, uma vez que os preços do petróleo avançaram 4% em um otimismo renovado de que a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) chegará a um acordo para cortar a produção durante a reunião da semana que vem, no dia 30 de novembro.

O Dow Jones fechou com ganho de 0,47%, 18.956,69 pontos; o Nasdaq avançou 0,89%, aos 5.368,86 pontos; e o S&P 500 subiu 0,75%, aos 2.198,18 pontos. A última vez que os três principais índices atingiram recorde no mesmo dia foi em 15 de agosto.

O S&P foi puxado principalmente pelo setor de energia, cujas ações subiram 2%. No Dow Jones e no Nasdaq, o destaque foi para as ações da IBM e da Apple, que avançaram 1,50% e 1,54%, respectivamente.

As commodities em geral tiveram bom desempenho, ajudadas principalmente pelo dólar fraco. No caso do petróleo, que fechou com alta de mais de 4%, o combustível principal foi a expectativa com um acordo da Opep.

Os representantes da Opep fizeram progressos no sentido de reduzir as divisões sobre os cortes na produção de petróleo durante as reuniões desta segunda-feira, mas ainda não decidiram quanto cada um dos 14 países do cartel deverá reduzir, disseram os delegados.

"Estamos discutindo, mas não estamos discordando", disse Mohamed Oun, um representante líbio da Opep, o cartel que controla mais de um terço da produção mundial de petróleo. "As negociações em Viena estão indo bem", acrescentou.

Além disso, o ministro de Petróleo do Iraque disse que o país oferecerá novas propostas para cortar a produção na reunião da próxima semana.

Mais cedo, o petróleo já tinha se beneficiado depois que o presidente da Rússia, Vladimir Putin, afirmou que seu país está preparado para congelar a produção. As ações da ExxonMobil e da Chevron subiram 1,42% e 0,90%, nesta ordem. Já a Marathon Petroleum ganhou 8,9%, enquanto a Chesapeake Energy subiu 7,1%.

A segunda-feira foi fraca de indicadores econômicos. O único do dia, o índice de atividade nacional elaborado pelo Federal Reserve de Chicago, subiu de -0,23 em setembro (dado revisado, de -0,14 antes informado) para -0,08 em outubro. De acordo com a instituição, o crescimento econômico cresceu levemente em outubro.

No entanto, um dos destaques foi o vice-presidente do Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA), Stanley Fischer, que fez comentários sobre como a política fiscal pode ajudar a aumentar a produtividade e, por sua vez, reduzir o ônus do Fed em apoiar a economia.

"Certas políticas fiscais, particularmente aquelas que aumentam a produtividade, podem aumentar o potencial da economia e ajudar a enfrentar alguns de nossos desafios econômicos de longo prazo", disse Fischer.

As perspectivas de estímulo fiscal aumentaram acentuadamente desde 8 de novembro, quando o republicano Donald Trump surpreendeu o mundo ao vencer as eleições presidenciais nos EUA. Logo os investidores ajustaram suas posições e se moveram em grandes quantidades para setores que se beneficiariam com os gastos fiscais. Além disso, a perspectiva de menor regulação no mercado bancário impulsionou as empresas financeiras, que responderam por 73% dos ganhos do S&P nas duas últimas semanas. Cinco ações - Wells Fargo, Bank of America, JPMorgan Chase, Berkshire Hathaway e Citigroup - representaram mais de um terço dos ganhos do índice geral durante esse período. (Com informações da Dow Jones Newswires)

Grande parte do mundo ficou chocada e assustada com o sucesso eleitoral de Donald Trump, mas há aqueles que se deleitaram. “Foi uma vitória para as forças que se opõem à globalização, estão lutando contra a migração ilegal e são a favor de Estados étnicos limpos”, declarou um porta-voz do Aurora Dourada, o partido de extrema-direita da Grécia, muitas vezes caracterizado como neonazista.

Trump - Gabinete - 19.11

Viktor Orbán, o primeiro-ministro húngaro que afirmou querer construir um “Estado iliberal” em seu país, chamou o resultado de “uma grande notícia”. O vice-líder da Frente Nacional, legenda de direita da França historicamente considerada ultranacionalista e antissemita, também ficou exultante.

Ninguém pode ser julgado por aqueles que aprovam suas ações, mas vale a pena tentar entender o que os admiradores de Trump estão comemorando. Em alguns casos, seu apelo é que ele está contra o politicamente correto. Beppe Grillo, o ex-comediante que agora lidera o Movimento Cinco Estrelas, na Itália, observou que, como Trump, seu partido tinha sido rotulado de sexista e populista, mas que as pessoas não se importavam com isso.

Para outros, é o sentimento de parentesco entre homens fortes que não se preocupam com direitos humanos. O ditador sírio Bashar al-Assad chamou Trump de “aliado natural”. Rodrigo Duterte, líder autoritário das Filipinas, disse: “Nós dois somos iguais”. Robert Mugabe, no poder no Zimbábue por 36 anos, se mostrou esperançoso e teria descrito Trump como “um amigo”.

O que unifica os admiradores internacionais de Trump é a ideia de que a ordem global existente é podre e deve ser demolida. Todos os partidos europeus que aplaudem sua vitória buscam a destruição da União Europeia e, de forma mais geral, da comunidade ocidental fortemente unida centrada em valores e interesses partilhados. Eles são quase todos pró-russos porque veem na Rússia de Vladimir Putin um país que busca ativamente minar o atual sistema internacional.

Onda nacionalista ganha força na Europa

Muitos destes grupos têm o apoio secreto ou explícito da Rússia e se beneficiam da guerra cibernética do Kremlin. “Todos precisamos usar (a eleição de Trump) para remodelar o relacionamento transatlântico e acabar com os grandes conflitos na Ucrânia e na Síria, juntamente com a Rússia”, disse a alemã Frauke Petry, líder do partido ultranacionalista Alternativa para a Alemanha.

Mas o que é esse globalismo ao qual essas pessoas tanto se opõem? Depois de 1945, após a Grande Depressão e duas guerras mundiais, as nações ocidentais estabeleceram um sistema internacional caracterizado por regras que honraram a soberania nacional, permitiram o florescimento do comércio global e encorajaram o respeito pelos direitos humanos e liberdades.

Esta ordem resultou no mais longo período de paz entre as maiores potências do mundo, marcado por um crescimento econômico que criou grandes classes médias no Ocidente, garantiu o renascimento da Europa, o crescimento nos países pobres e a propagação da liberdade em todo o mundo.

O papel dos EUA em tudo isso foi fundamental. Ele estabeleceu a agenda e proporcionou segurança, que era mais do que apenas dissuadir a União Soviética e outras potências agressivas. Radek Sikorski, ex-ministro das Relações Exteriores da Polônia, disse: “A influência dos EUA e seus compromissos têm sido nosso cobertor de segurança. Permitiram que as rivalidades nacionais da Europa permanecessem dormentes. Se tirarmos essas garantias, a Europa poderia ficar muito instável”. E vale lembrar que a União Europeia é o maior mercado do mundo e o maior parceiro comercial dos EUA.

Os retratos de Trump por cartunistas

Para os EUA, o “globalismo” produziu enormes vantagens. Com 5% da população mundial, o país domina a economia global, em tecnologia, educação, finanças e energia limpa. Um em cada cinco empregos no país é resultado do comércio, e esse número cresce rapidamente. Os EUA ainda mantêm a moeda de reserva do mundo, o que lhes dá uma enorme vantagem econômica.

Os benefícios do crescimento e da globalização não foram compartilhados igualmente, e o ritmo da mudança causa a ansiedade em toda parte. Mas essas são razões para investir em pessoas e integrar melhor as comunidades. Não são motivo para destruir o sistema internacional mais pacífico e produtivo jamais concebido na história da Humanidade.

*Fareed Zakaria é colunista do Washington Post

oglobo.globo.com | 19-11-2016

WASHINGTON — “Tudo o que já fizemos, fizemos como uma família. Todo projeto que construímos, construímos como uma família”. A declaração é de um dos filhos de Donald Trump, Eric, de 32 anos, e foi publicada numa entrevista este ano, durante a campanha presidencial que culminou com a vitória do magnata. Agora, a frase do filho está se materializando numa inusitada participação da nova primeira-família na montagem do próximo governo.

Trump - 18.11

E, no círculo fechado do clã familiar do republicano — que inclui ainda os outros dois filhos mais velhos, Donald Jr e Ivanka — é seu genro, Jared Kushner, que vem exibindo influência nos bastidores. A ponto de a revista “Vanity Fair” chamá-lo de “Rasputin dos tempos modernos”, em referência ao monge que exercia influência nos bastidores do governo do último czar da Rússia, Nicolau II. O novo “empreendimento familiar” dos Trump teria levado, segundo a CNN, a equipe de transição a consultar o governo sobre a possibilidade de dar autorização de segurança a Eric, Donald Jr, Ivanka e Jared, o que lhes daria acesso a informações confidenciais.

Casado com Ivanka desde 2009, Kushner, 35 anos, é promotor imobiliário como o sogro e emergiu como uma figura-chave na semana passada, quando desempenhou um papel fundamental em ajudá-lo a formar sua equipe de transição na Casa Branca, entrando em colizão direta com Chris Christie, governador de Nova Jersey. Durante a primeira reunião entre Trump e Barack Obama na Casa Branca, imagens mostram Kushner nos jardins da residência oficial junto ao chefe de Gabinete de Obama, Denis McDonough. Trump supostamente havia pedido que o genro tivesse direito a assistir às reuniões diárias, fato confirmado pela imprensa, mas negado por ambos.

Ainda não se sabe o lugar que deve ser ocupado por Kushner — se ele acabaria assumindo uma posição administrativa ou se tornaria um conselheiro. Mas ele é, de acordo com a imprensa americana, o responsável por afastar Trump de Christie — até então um dos políticos mais próximos ao republicano — bem como duas outras pessoas de seu círculo. Tudo porque o governador, quando era procurador-geral de Nova Jersey, processou por evasão fiscal e manipulação de testemunhas o pai de Kushner, muito influente no estado, há cerca de dez anos. Sua prisão, quando o jovem havia acabado de concluir a faculdade em Harvard, foi um trauma na juventude de Kushner.

POSSÍVEL VIOLAÇÃO DA LEI

Para Jeanne Zaino, professora de Ciência Política na Iona College, o genro conseguiu ganhar a confiança de Trump com sua lealdade e “trabalhando duro durante a campanha”, embora continue a ser um homem por trás das cortinas. Ao contrário da mulher e dos outros filhos do magnata, ele nunca se expressa publicamente ou nas redes sociais.

— Temos a impressão de que ele se sente mais confortável trabalhando a portas fechadas — explicou Jeanne.

Como Trump, Kushner é um investidor imobiliário e supervisiona a Kushner Empresas, que opera edifícios comerciais e apartamentos em Nova York e Nova Jersey. Ele também comprou, em 2006, o jornal “The New York Observer”, responsável por ajudar a campanha do sogro nas redes sociais. Ele teria contratado Brad Parscale, especialista em marketing online que conseguiu não só mobilizar os fãs de Trump, mas também desencorajar potenciais eleitores de Hillary Clinton.

A grande família de Trump

Sua possível nomeação à Casa Branca, no entanto, traria desafios legais por uma possível violação da lei federal antinepotismo. No cerne da questão está uma legislação de 1967, assinada pelo então presidente Lyndon Johnson, que impede que funcionários públicos, inclusive o presidente e congressistas, contratem parentes, sejam pais, irmãos, tios, genros ou noras.

— Não estamos falando sobre Kushner funcionando como uma força-tarefa lateral. Estamos falando de um trabalho regular na Casa Branca. Acho que é ilegal — disse ao site especializado “Politico” Norm Eisen, que foi advogado-chefe durante os mandatos de Obama.

Segundo fontes do “New York Times”, Kushner estaria planejando abdicar do salário e congelar seus ativos de investimentos para tentar se precaver da lei. Mesmo assim Richard Painter, que tinha o mesmo cargo na era George W. Bush, acredita que a indicação de Kushner a algum cargo seria inapropriada.

— Ele não pode aceitar um emprego na Casa Branca. É altamente inapropriado. Não sei por que eles acham que podem. Basta ler o estatuto — avaliou Painter.

PAPEL DE IVANKA É ENIGMA

O papel da mulher de Kushner, Ivanka, também é um enigma. Há quem diga que ela seria a primeira-dama de fato — na entrevista do pai ao programa “60 Minutes” ficou ao seu lado e de sua atual mulher, Melania. E aproveitou para usar um bracelete de sua marca, cujo preço (US$ 10.800) foi divulgado depois por assessores — causando constrangimentos na imprensa, que a acusou de misturar seus negócios com o governo.

— Eu vou ser uma filha — rebateu ela com firmeza quando perguntada se estaria procurando emprego no governo.

Até a primeira ex-mulher de Trump, Ivana, já manifestou interesse em ser embaixadora na República Tcheca, país onde nasceu.

— Seria uma escolha excelente — apoiou o presidente tcheco, Milos Zeman, que já havia se mostrado satisfeito com a vitória de Trump.

NOMES PARA O GABINETE

Enquanto isso, aumentam os rumores sobre o Gabinete do presidente eleito. O senador ultraconservador Ted Cruz, que disputou as primárias, foi visto na Trump Tower e trouxe à tona rumores sobre uma possível nomeação como secretário de Justiça.

Para comandar a diplomacia, o ex-prefeito de Nova York Rudy Giuliani — um dos poucos apoiadores incondicionais de Trump durante a campanha — também aparece com força. Outros nomes cotados seriam o ex-embaixador da ONU John Bolton; o senador Bob Corker, presidente da comissão de Relações Exteriores; a governadora da Carolina do Sul, Nikki Haley; e o ex-candidato presidencial Mitt Romney, ferrenho crítico do republicano.

“Meu time de transição, que está trabalhando longas horas e fazendo um trabalho fantástico, estará vendo muitos grandes candidatos”, escreveu Trump no Twitter.

oglobo.globo.com | 18-11-2016

MOSCOU —O Comitê de Investigação da Rússia anunciou nesta terça-feira a detenção do ministro da Economia, Alexey Ulyukayev, em uma operação surpresa durante a madrugada. No cargo desde 2013, ele é suspeito de aceitar suborno para aprovar uma operação na qual a petroleira estatal Rosneft adquiriu maioria do controle da companhia energética Bashneft no mês passado. Ele teria recebido US$ 2 milhões. obamagrecia

Em nota, o comitê informou que Ulyukayev foi detido no âmbito da investigação por um esquema de corrupção de largas proporções. A investigação foi realizada pelo Serviço Federal de Segurança russo (FSB, sucessor da extinta KGB).

A porta-voz do Comitê de Investigação do Ministério Público russo, Svetlana Petrenko, disse à agência de notícias russa "RIA Novosti" que há suspeitas de que o ministro tenha cometido extorsão para pedir suborno a executivos da companhia Rosneft, além de ter feito ameaças.

— Uliukáyev foi flagrado com a mão na massa — disse a porta-voz.

Se for considerado culpado, Ulyukayev pode enfrentar uma pena entre oito e 15 anos de prisão. Este é o funcionário de mais alto cargo a ser preso desde o golpe fracassado de 1991. Por muitos observadores, o episódio é considerado parte de uma batalha interna entre diferentes grupos do Kremlin

Ulyukayev ocupa cargos no governo desde 2000, e chefia a pasta da Economia desde 2013. Ele é conhecido por ser parte da ala do governo que vem criticando o aumento do envolvimento do governo na Economia.

Segundo o seu porta-voz, o presidente russo, Vladimir Putin, está ciente da investigação sobre Ulyukayev há algum tempo. O chefe do Kremlin estabeleceu o combate a corrupção como prioridade em seu governo, enquanto críticos afirmam que a corrupção está espalhada pelos níveis mais altos do governo. Por isso, surgem as dúvidas se esta não se trata de uma consequência de confrontos internos no governo.

oglobo.globo.com | 15-11-2016
A França de Juppé será mais parecida com a Alemanha de Merkel em matéria de austeridade, mais distante dos Estados Unidos e mais próxima da Rússia. Para o seu conselheiro Benoist Apparu, combate-se Marine Le Pen com a economia.
www.publico.pt | 14-11-2016

WASHINGTON — Para os Estados Unidos e a Europa, chegou a hora de fazer um acerto de contas: o Ocidente como o conhecemos está próximo de chegar ao fim. Os Estados Unidos acabaram de eleger como presidente um homem que não apenas se gaba de apalpar mulheres e enganar parceiros de negócios, mas que também publicamente não gosta de tradicionais aliados americanos — e os europeus acima de tudo.

Não se baseie nas minhas palavras. Ouça o que ele vem dizendo há muitos anos. Em 2000, no livro “A América que merecemos”, Trump escreveu que os “EUA não têm interesse vital em escolher entre facções armadas cuja hostilidade remonta a séculos. Seus conflitos não valem vidas americanas. Afastar-se da Europa poderia anualmente economizar milhões de dólares deste país. O custo de manter tropas da Otan na Europa é enorme. E estes são certamente investimentos que podem ser mais bem utilizados”.

Ao longo da campanha eleitoral, repetiu constantemente essa visão, mesmo que tenha mudado de opinião em relação a quase todo o restante. Mas em relação à Otan — e sobre a Rússia — Trump não muda nunca. Em março, descreveu a organização como obsoleta. Ao mesmo tempo, tem elogiado ditadores mundiais, Vladimir Putin principalmente. Em 2014, enalteceu a invasão russa à Ucrânia. Trump não fala sobre o declínio da economia russa ou do seu feroz autoritarismo, talvez porque não sabia sobre eles ou porque não se importe. Sua campanha recebeu assistência declarada da Rússia.

Não podemos presumir que avanços militares russos na Ucrânia e nos países bálticos serão empurrados para trás por uma aliança de países com posições semelhantes. Sob o comando do presidente Trump, não podemos presumir que os Estados Unidos continuem na liderança dos países livres — ou na liderança de qualquer coisa. O protecionismo, e não o livre comércio, acabou de ganhar esta eleição, e isso terá consequências. O livre comércio teve todos os tipos de consequências, mas uma de suas vantagens é que mantém países política e economicamente conectados. Muros, sejam físicos ou metafóricos, serão construídos.

Nada disso acontecerá rapidamente. Levará tempo para as consequências da mudança no sistema político internacional por vir se desdobrarem. A queda inicial do mercado de ações se inverteu. Mas a mudança está chegando, como populistas têm dito em tantos países. Nos próximos dias e semanas, os americanos estarão focados nas consequências desta eleição em casa, particularmente agora que o Partido Republicano de Trump domina a Câmara e o Senado e irá dominar a Suprema Corte. É importante abrir os olhos para as consequências ao restante do mundo também.

oglobo.globo.com | 13-11-2016

SÃO PAULO E BRASÍLIA - A eleição do republicano Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, com sua retórica antiglobalização, acendeu a luz amarela entre as empresas brasileiras que têm negócios no mercado americano, especialmente as que exportam para lá. Teme-se a adoção de medidas protecionistas, que dificultem o acesso àquele mercado. Há também uma dúvida sobre se o aumento dos investimentos em infraestrutura, prometido por Trump durante a campanha, ocorrerá a curto prazo. Isso beneficiaria as produtoras de matérias-primas, como o minério de ferro, e as siderúrgicas. Trump 1110

No caso da petroquímica Braskem, que acaba de inaugurar uma grande fábrica no México, exclusivamente para atender à demanda por insumos petroquímicos na América do Norte, sendo os EUA o maior cliente, a busca por novos mercados é uma alternativa a ser avaliada.

— Vamos ver como vai ser a tradução da retórica do discurso de campanha para uma realidade de governo. Nossa expectativa é colocar nosso produto no mercado mexicano e outras regiões, caso não seja mais possível exportar para os Estados Unidos. Conseguimos colocar de forma competitiva e rentável o nosso produto em outros mercados, independentemente de possíveis barreiras comerciais nos Estados Unidos — afirmou ontem Fernando Musa, presidente da petroquímica, em teleconferência.

PETROBRAS: VOLATILIDADE

A tensão também existe no setor calçadista brasileiro, já que os EUA são hoje seu principal mercado externo. No ano, até outubro, as vendas para o mercado americano somaram US$ 173,3 milhões, alta de 16,7%. Segundo Heitor Klein, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), é preciso esperar para ver quais serão as primeiras medidas do governo Trump. E, apesar de ele ser considerado imprevisível, Klein ressalta o fato de que, em geral, governos republicanos são menos protecionistas que os democratas.

— Ainda é um pouco cedo para avaliar quais as possíveis consequências para o comércio entre os dois países. No decorrer do processo eleitoral, nada transpareceu em relação a um maior protecionismo no comércio com a América Latina, exceto o México. Ainda assim, uma coisa é o que se fala em campanha, e outra é um governo eleito — disse Klein.

A Petrobras, por sua vez, vê mais volatilidade no mercado.

— Ainda é muito cedo para falar de tendências, mas é claro que a volatilidade aumentou. E acho que esse será o comportamento daqui para frente, de câmbio, taxa de juros, o próprio Brent — afirmou o diretor financeiro da estatal, Ivan Monteiro.

Mas há empresas brasileiras que torcem pela efetivação de algumas promessas de Trump. É o caso da Gerdau: com quase 40% de suas receitas oriundas das siderúrgicas que tem nos EUA, ela pode ser beneficiada pelo aumento dos investimentos em infraestrutura. O republicano prometeu investir US$ 500 bilhões em obras. trump 1011

COMPRAS DE CHINA E MÉXICO

Outros setores, no entanto, avaliam que eventuais medidas protecionistas de Trump podem até abrir para o Brasil as portas de outros mercados. O presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Francisco Turra, acredita que mercados como México e China podem aumentar as compras do Brasil, como forma de reduzir a dependência das relações com os EUA. O outro lado da moeda é que, no caso de uma maior aproximação entre Vladimir Putin e Trump, a Rússia pode reduzir suas compras de produtos brasileiros.

— Não temos receio, porque não acreditamos que perderemos o espaço de nossas exportações com o protecionismo dos EUA. Ao contrário, podemos até aumentar as vendas — afirmou Turra, lembrando que o Brasil não exporta aves para o mercado americano, o maior produtor mundial do setor.

As dúvidas sobre o governo Trump não se resumem a empresários brasileiros. Após uma reunião no Palácio do Planalto, o presidente mundial da Shell, Ben van Beurden, disse ter “grande interesse” em acompanhar como o republicano formulará a política energética americana nos próximos meses.

Já a siderúrgica japonesa Nippon Steel se declarou preocupada com a promessa de Trump de renegociar o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta, na sigla em inglês) com Canadá e México. A Nippon tem duas usinas no México.

— Não acreditamos que será fácil acabar com o Nafta, mas, se isso acontecer, o impacto será forte — disse à Reuters o vice-presidente da siderúrgica, Toshiharu Sakae.

oglobo.globo.com | 11-11-2016

Nero pôs fogo em Roma; Hitler, na Europa; e pode ser que Trump venha a incendiar o mundo. Não sou fã de Hillary, mas a considero menos pior. Por conhecer bem os dois candidatos é que quase metade do eleitorado dos EUA se absteve.

Como desmiolado, predador sexual, racista e xenóbofo, tudo se pode esperar de um biliardário, dono de cassinos, que jamais ocupou qualquer função política. Até que não cumpra suas ameaças de campanha, como construir um muro na fronteira de seu país com o México, como se isso fosse evitar a entrada de novos imigrantes.

O fato é que os pobres votaram em Trump. Porque Obama não cumpriu quase nenhuma de suas promessas. E por que imigrantes latinos que vivem nos EUA deram preferência a ele? Porque muitos votam de olho no próprio umbigo. Temem que a chegada de novos estrangeiros venha roubar-lhes os postos de trabalho.

Em 2017, Trump vai dispor de um orçamento de US$ 583 bilhões para despesas militares. O suficiente para erradicar a fome no mundo e resolver o drama dos refugiados que aportam na Europa. Mas com certeza o novo presidente estadunidense não está preocupado com os males que afetam os pobres do mundo. Como declarou ao vencer, quer dobrar o PIB dos EUA. E, na campanha, incluiu entre seus arroubos xenófobos a promessa de que faria as tropas de seu país abandonarem os conflitos externos. Essa seria uma boa medida.

Os EUA possuem uma tropa de 1 milhão e 492 mil homens e mulheres, e mais 1 milhão de reservistas prontos para uma eventual convocação. A soma de seus drones, navios de guerra, porta-aviões, tanques, blindados, canhões e mísseis (sete mil ogivas nucleares) supera o conjunto de arsenais das outras quatro maiores potências militares, China, Reino Unido, França e Rússia.

A esperança dos eleitores de Trump é que ele aplique mais recursos no combate ao desemprego, nos serviços de saúde e reaqueça a economia interna. Pode ser que, num gesto de lucidez, ele reduza o orçamento militar para tentar passar à História como o presidente que tirou os EUA da recessão. Hoje, a classe média estadunidense tem uma renda muito inferior à que tinha na década de 1980.

Felizmente Tio Sam não é dono do mundo. Há um equilíbrio que o obriga a levar em conta a China e a Rússia. E dizem que Trump e Putin se entendem... O fato é que o magnata-presidente já elogiou o controle que Putin tem sobre a Rússia. E deu a entender que os EUA não têm nenhuma obrigação de defender incondicionalmente seus aliados na Otan. O que soa como música aos ouvidos de Putin.

Ainda bem que, em meio a tantos interesses em jogo, há quem ainda raciocina, não por interesses, mas a partir de princípios, como o papa Francisco. Ele é, hoje, o único líder mundial capaz de aglutinar homens e mulheres que buscam a paz como fruto da justiça e um mundo menos desigual e injusto.

A vitória de Trump me faz lembrar que Hitler também não chegou ao poder por golpe de Estado, como Temer, para citar um exemplo recente. Foi democraticamente eleito pelo povo alemão. E deu no que deu...

Enquanto o dinheiro presidir a democracia, esta será, na expressão ianque, apenas um pato manco.

oglobo.globo.com | 10-11-2016

Donald Trump sinalizou que pode adotar um tom diferente no governo do que a demagogia raivosa que o levou à Casa Branca. Mas foi com a pregação do ódio — do nacionalismo, nativismo, xenofobia, racismo, misoginia, do desdém aos direitos civis, às normas democráticas e à verdade — que 59.470.229 americanos viram nele seu líder.

Sua vitória coloca em xeque princípios fundamentais da sociedade americana. Como a mais rica democracia do mundo, berço do liberalismo que defende globalmente, produziu tantos descontentes e raivosos?

Trump tinha o apoio de um eleitorado branco, mais velho e menos educado, de zonas rurais e subúrbios industriais, uma parcela particularmente afetada pela globalização da produção e ressentida por se julgar à margem do “sonho americano” — assim como os ingleses excluídos dos benefícios da União Europeia que votaram pelo Brexit.

Mas ele rompeu as barreiras desse eleitorado, expondo distorções de um sistema que tem sido incapaz de garantir o bem-estar de todos.

Pelo menos 9% de democratas votaram em Trump, que ganhou colégios eleitorais decisivos, como a Flórida, apesar dos imigrantes e negros; e redutos historicamente democratas como Michigan e Pensilvânia.

“Isso é o que acontece quando se tem democracia”, ironizou o Partido Comunista chinês. O descrédito do sistema político, das instituições e da imprensa que a campanha de Trump promoveu é uma vitória para regimes como China e Rússia, e uma derrota moral para os EUA. Mesmo que tenha sido apenas estratégia eleitoral.

Trump prometeu erguer um muro contra mexicanos, jogar duro com chineses, expulsar muçulmanos. Na prática, a China é o principal parceiro comercial dos EUA, fica no México grande parte de seu parque industrial e não só a economia americana, mas o próprio Trump lucra com negócios no Oriente Médio.

É mais incerto como conduzirá assuntos como o acordo nuclear com o Irã e o terrorismo. Entre as promessas, garantiu acabar com a agenda militar intervencionista de disseminar “valores americanos” — até porque ele próprio desdenha de tais valores.

oglobo.globo.com | 10-11-2016

Com uma economia muito diversificada, a Federação Russa possui importantes recursos naturais e humanos, que constituem forte potencial de desenvolvimento económico. O povo russo em geral, já a partir de meados da década de 1950, vivia bem melhor que os cidadãos de países capitalistas há muito orientados para o mercado, como o México, a Índia, o Brasil ou a Argentina. A taxa de analfabetismo era virtualmente zero, o ensino superior era muito bom e economicamente acessível; o desemprego quase não existia, a igualdade entre os géneros era uma das mais desenvolvidas do mundo, com as mulheres a chegar por vezes mais longe do que os homens nas suas carreiras, especialmente na ciência. Muitas famílias possuiam automóveis, TVs, gravadores de cassetes e podiam viajar de avião pelo menos uma vez por ano até às áreas balneares famosas do mar Negro. Mas a produção e distribuição de produtos de consumo (particularmente de vestuário e alimentos) era relativamente ineficiente e havia uma falta de habitação muito pronunciada em muitas das áreas urbanas, se bem que fossem raras situações de habitação precária ou insalubre. Contudo, desde a desintegração da União Soviética, em 1991, o caminho para a estabilização macroeconómica tem sido longo e difícil, A partir daquele ano, o país sofreu severa contracção económica ao longo dos cinco anos seguintes, enquanto o governo e o parlamento divergiam sobre a implementação das reformas. A base industrial do país foi seriamente atingida. O país tem passado por diversas crises, destacando-se a crise financeira de 1998, resultante fundamentalmente da crise financeira do Sudeste Asiático. Depois da dissolução da URSS, causada mais por razões étnicas do que económicas, a primeira recuperação russa, ainda ligeira mas já a mostrar os sinais da influência do mercado livre, ocorreu em 1997. Porém a crise financeira asiática daquele ano acabou por atingir a economia russa. Diante da significativa desvalorização do rublo, o governo Russo aumentou a taxa de juros, mas as medidas de política econômica fracassaram e a Rússia declarou uma moratória unilateral, gerando perdas a seus credores internos e externos. Assim, 1998 ficou marcado por ser o ano da crise financeira Russa, com intensa fuga de capitais e, na sequência, recessão. A economia começou a se recuperar em 1999, entrando numa fase de rápida expansão, com o PIB a crescer a uma taxa média de 6.8% por ano, entre 1999 e 2004, apoiado em preços mais altos no petróleo, num rublo mais fraco, e no aumento na produção de industrial e de serviços. Esta recuperação, a par de um renovado esforço governamental em 2000 e 2001 para fazer avançar as reformas estruturais, aumentou a confiança das empresas e dos investidores para a segunda década de transição. A Rússia permanece fortemente dependente de exportações de matérias-primas, em particular do petróleo, do gás natural, de metais e de madeira, que correspondem a mais de 80% do total das exportações, o que deixa o país vulnerável às oscilações dos preços do mercado mundial. Em anos recentes, no entanto, a economia também foi impulsionada pela crescente procura interna, que cresceu cerca de 12% ao ano entre 2000 e 2004, o que mostra o vigor do seu mercado interno. O PIB do país atingiu 535 bilhões de dólares em 2004, fazendo da economia russa a 16ª economia mundial, sendo que Moscou, concentra 30% da produção do país. Um dos maiores desafios dos formuladores da política econômica russa é o de encorajar o desenvolvimento de PMEs num ambiente empresarial dominado por oligarcas e dotado de um sistema bancário jovem e disfuncional. Muitos dos bancos russos pertencem a grandes empresários ou oligarcas, que usam frequentemente os depósitos para financiar os seus próprios negócios. O Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento e o Banco Mundial tentaram normalizar as práticas bancárias fazendo investimentos em acções ordinárias e na dívida, mas com um sucesso muito limitado. Outros problemas incluem um desenvolvimento económico desigual entre as regiões do país. Enquanto que a região de Moscovo, com a sua imensa população de 20 milhões de habitantes, é uma metrópole moderna, com setores de tecnologia de ponta e renda per capita próxima à das economias mais fortes da eurozona, o resto do país, em especial as comunidades indígenas e rurais da Ásia, vive como vivia no fim da Idade Média. A integração ao mercado também se faz sentir noutras cidades grandes como São Petersburgo, Kaliningrad e Ekaterinburg. Estimular o investimento estrangeiro é também um grande desafio. Até agora, o país tem se beneficiado do aumento nos preços de petróleo e tem sido capaz de pagar uma boa parte da sua dívida externa, que era gigantesca. O reinvestimento dos lucros obtidos pela exploração de recursos naturais em outros sectores da economia também é um problema. Em 2003, a prisão de Mikhail Khodorkovski, um dos oligarcas russos e, à época, o mais rico empresário do país, sob a acusação de fraude, evasão fiscal e corrupção durante as grandes privatizações conduzidas no governo de Boris Yeltsin, gerou certa desconfiança entre os investidores estrangeiros. Muitas das grandes fortunas actuais, na Rússia, parecem ter resultado da aquisição de propriedades estatais a muito baixo preço ou da aquisição barata de concessões governamentais. Outros países manifestaram a sua preocupação com a aplicação "selectiva" da lei contra empresários individuais. Apesar de tudo, algumas grandes firmas internacionais têm grandes investimentos na Rússia. Um exemplo é a fabricante de bebidas Scottish & Newcastle, que descobriu que o mercado da cerveja na Rússia crescia muito mais rapidamente do que noutras áreas da Europa. Quase duas décadas após o colapso da União Soviética, em 1991, a Rússia continua a tentar estabelecer uma economia de mercado moderna e de fato tem conseguido altas taxas de crescimento económico. Ao longo da década de 2000, a economia russa registrou taxas de crescimento acima de 7% em 2000 (10%), 2001, 2002, 2003, 2004 e 2007 (8,1%). Em 2005 teve alta de 6,4 e, em 2006, de 6,8%. Em 2008, a Rússia cresceu 6% e foi a 9ª economia do mundo. No entanto, diante da crise mundial e a queda dos preços do petróleo, as perspectivas para 2009 são mais sombrias. Em dezembro de 2008, a ministra da Economia, Elvira Nabiullina, previu 2,4% de crescimento do PIB para 2009, o índice mais baixo desde 1998 - o fatídico ano da moratória russa. A Rússia integra a área da APEC (Asia-Pacific Economic Cooperation), um bloco econômico que tem por objetivo transformar o Pacífico numa área de livre comércio e que engloba economias asiáticas, americanas e da Oceania.


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