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União Européia Educação

BUENOS AIRES - Do lado dos argentinos, cautela e expectativa. Por parte dos cerca de 3 mil habitantes das Ilhas Malvinas, tensão e preocupação. A única sensação que ambos compartilham é a de que a vitória do Brexit poderia impactar na disputa entre a Argentina e o Reino Unido pela soberania das Ilhas Malvinas. BREXIT PAPEL 28-06

Nos últimos dias, analistas e dirigentes políticos argentinos asseguraram que o resultado do referendo poderia fortalecer a posição da Casa Rosada, já que fora da União Europeia (UE) o Reino Unido perderia importantes aliados em sua história queda-de-braço com a Argentina. Em meio ao debate, Julian Assange, criador do WikiLeaks, asilado na embaixada do Equador em Londres, afirmou que o triunfo do Brexit tornará mais difícil qualquer tipo de entendimento entre os dois países.

Em teleconferência com alunos da Universidade Nacional de Buenos Aires, Assange opinou o surgimento de um forte sentimento nacionalista no Reino Unido “tornará muito difícil qualquer negociação”.

Nas ilhas, o clima é de incerteza. Pouco após confirmado o resultado do referendo, o governo das Falklands (como são chamadas as Malvinas pelos britânicos) divulgou nota oficial na qual informou estar “trabalhando com setores públicos e privados para investigar o impacto do Brexit sobre as ilhas”. Na mesma nota, as autoridades das ilhas afirmaram que “garantiremos que os interesses do território serão levados em consideração e manteremos os benefícios que temos, particularmente em relação ao acesso comercial”. Outra das preocupações do governo local das Falklands é que não sejam afetadas as importações e exportações entre as ilhas e os países que integram a UE.

Em abril passado, o representante das Malvinas no Reino Unido, Sukey Cameron, manifestou sua preocupação pelas consequencias do referendo britânico. Ainda não está claro com que tipo de respaldo internacional contará Londres a partir de agora em sua política de defender a soberania britânica sobre as Malvinas.

— Se o Reino Unido não for mais membro da UE, poderia perder-se o apoio de um grande número de Estados que sim são membros e isso poderia, por sua vez, levar a Argentina a ser muito mais agressiva — dissera Cameron.

Na mesma época, o representante das Ilhas garantiu que um eventual triunfo do Brexit seria “catastrófico” em termos econômicos, já que, segundo ele, 70% do crescimento das Malvinas depende do acesso ao mercado europeu.

Pouco antes do referendo, o secretário de Defesa britânico, Michael Fallon, visitou as ilhas e prometeu que a proteção militar às Falklands seria mantida, seja qual fosse o resultado.

O governo do presidente Mauricio Macri reagiu com tranquilidade e evitou antecipar futuros cenários, favoráveis ou desfavoráveis para o país. A ministra das Relações Exteriores, Susana Malcorra, negou que a saída do Reino Unido da UE signifique, automaticamente, o início de uma negociação bilateral sobre a soberania das Malvinas.

— Não estamos num processo de negociação com o Reino Unido, não aconteceu nada neste sentido... temos de trabalhar na reconstrução da confiança mútua — declarou a chanceler argentina.

Segundo ela, “ainda é cedo” para saber como impactará o referendo na questão Malvinas.

— Temos de ser prudentes. A questão Malvinas tem uma longa história em ambos os países. Queremos avançar em esquemas de negociação e diálogo — enfatizou a ministra, que é candidata à secretaria geral das Nações Unidas.

Já analistas e dirigentes argentinos foram mais ousados em suas avaliações sobre o Brexit. Para Daniel Filmus, ex-secretário sobre Assuntos Relativos às Malvinas do governo Cristina Kirchner, “está se abrindo uma oportunidade história e esperamos que o governo saiba aproveitá-la”.

— Todos os organismos multilaterais e todos os blocos do mundo apoiam a posição argentina. Os únicos potenciais aliados (de Londres) eram os europeus, porque pertenciam à mesma comunidade — disse Filmus, atual deputado do Parlamento do Mercosul.

Segundo ele, a partir de agora “cada país europeu poderá definir sua posição de acordo a suas tradições em relação ao colonialismo”. Na opinião do ex-vice chanceler Andrés Cisneros, a vitória do Brexit “gera uma eventual perda de apoio (aos britânicos) dentro do bloco”.

oglobo.globo.com | 28-06-2016

PEQUIM - Legisladores e economistas chineses manifestaram preocupação sobre a saída do Reino Unido da União Europeia neste domingo. O ministro das Finanças da China, Lou Jiwei afirmou que o processo elevou a incerteza no mercado financeiro, apesar de uma expectativa de impacto limitado sobre a economia do país.

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A decisão “lança uma sombra sobre a economia global. As repercussões vão emergir durante os próximos cinco a dez anos”, disse Jiwei no primeiro encontro anual do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura em Pequim.

— É difícil prever agora — disse a autoridade. — A reação instintiva do mercado é provavelmente um pouco exagerada e precisa se acalmar e tomar uma visão objetiva.

As Bolsas acionária pelo mundo despencaram após o resultado do referendo britânico, e a libra atingiu seu menor valor desde 1985 frente ao dólar.

As declarações de Jiwei foram apoiadas pelo chefe do principal órgão de planejamento econômico da China e outros economistas no Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês) na cidade de Tianjin.

— Para as empresas chinesas que vão investir ou continuar fusões, os empresários são mais esperto que eu, e provavelmente esperarão para ver — afirmou Shaoshi, presidente da Comissão de Reforma e Desenvolvimento Nacional, no WEF neste domingo. — O incidente do Brexit afetará a economia chinesa através do investimento, comércio e capital, mas acredito que o impacto não será grande, e departamentos de governo relevantes prepararam planos de contingência.

Huang Yiping, professor na Peking University e integrante do comitê de política monetária do Banco Central chinês, afirmou que é difícil julgar o impacto direto do referendo na economia chinesa.

— Se (o Brexit) é um marco importante em termos de reversão da globalização, acho que é muito ruim para o mundo, muito ruim para a China — disse o acadêmico.

Li Daokui, professor da Universidade de Tsingua e ex-consultor do BC da China, se mostrou mais otimista sobre os efeitos da saída do Reino Unido da União Europeia para a segunda maior economia do mundo.

— A China é provavelmente uma das economias menos impactada no mundo pelo acontecimento do Brexit — disse Daokui em conferência no Fórum. — O impacto de curto prazo acho que poder ser na taxa de câmbio do yuan. Mas acho que dentro de algumas sessões de mercado a situação será rapidamente controlada.

Michael Falcon, diretor executivo de gerenciamento de investimento global para a região Ásia-Pacífico do banco americano JP Morgan, afirmou que espera mais volatilidade no mercado, mas duvida que o referendo fará descarrilhar uma recuperação global:

— É um choque, não uma crise, e até agora os mercados pareceram lidar bem — disse o economista em participação no WEF.

oglobo.globo.com | 26-06-2016

É uma trágica ironia que a União Europeia — originalmente construída para acalmar os impulsos nacionalistas do século XX — esteja hoje por trás do ressurgimento de tais sentimentos em grande parte da Europa. O referendo que emitiu um voto para o Brexit é a mais recente e dramática indicação de que esse novo nacionalismo veio para ficar.

Tal nacionalismo foi construído em grande parte como reação à forma como a UE tem evoluído ao longo das últimas décadas. O que começou como um mercado comum cresceu para abraçar uma moeda única, o Espaço Schengen e a integração no domínio da Justiça e assuntos internos. Tudo isso diluiu aspectos centrais da soberania nacional: Estados têm menos controle sobre a política macroeconômica, fronteiras e pessoas.

A União Europeia tornou-se mais ampla ao incorporar a Europa Central e Oriental. A inclusão de 12 novos Estados-membros, com histórias, estruturas econômicas e tradições democráticas distintas tornou o processo de tomada de decisões ainda mais complicado. Ao mesmo tempo, essa situação fez a política da UE menos sensível à opinião pública. Essas transformações têm sido inquietantes para os eleitores em certos países — como o Reino Unido.

Mas o que temos testemunhado no Reino Unido é parte de uma mudança muito mais ampla nas atitudes públicas em relação à UE do que os analistas têm chamado de “consenso permissivo” para um “desacordo constrangedor”. No passado, os líderes europeus discretamente perseguiram a integração em áreas como a agricultura, e o público deu pouca atenção a isso. Mais recentemente, porém, os líderes têm procurado tomar decisões coletivas em áreas como comércio de serviços, sistemas bancários e asilo político. Mas eles têm que ter em mente que eleitores em casa são mais propensos a prestar mais atenção e a serem céticos.

Esse ceticismo fortalece a percepção de que a União Europeia é responsável pelo mal-estar sentido por muitos eleitores europeus. Isolamento econômico e reestruturação industrial, austeridade e privatizações, desemprego e insegurança no trabalho, medo da imigração. Tudo alimenta os sentimentos negativos que as pessoas têm sobre a UE.

O euroceticismo é encontrado nos extremos do espectro político. À esquerda, os eleitores e os partidos veem a UE como um enredo neoliberal. Ela existe apenas para servir às grandes empresas que fazem lobby em Bruxelas para uma legislação favorável. Para a direita, a UE é um gigante burocrático que impõe a regulamentação excessiva e ameaça as identidades nacionais antigas, incentivando a migração laboral. Quando esses dois pontos de vista se fundem, como acontece na base política do Partido da Independência do Reino Unido (Ukip), eles são fortemente tóxicos.

O Ukip é apenas um dos muitos partidos desse tipo. Retóricas e padrões de apoio político semelhantes colaboram para o sucesso de outras legendas também. A Frente Nacional na França, os Novos Democratas da Suécia e o Partido dos Finlandeses acompanharam de perto os eventos no Reino Unido.

Alguns têm mesmo clamado por seus próprios referendos, Frexit ou Swexit após Brexit. Outros adequam o seu euroceticismo para atender às idiossincrasias locais. Tome, por exemplo, as plataformas do Partido da Liberdade da Holanda, virulentamente anti-islâmico, ou a ação violenta promovida pelo Aurora Dourada, da Grécia.

Mas, em todos os casos, o que temos assistido com a ascensão do euroceticismo é à explosão de uma forma robusta do nacionalismo populista. Ele vai durar porque mapeia e reforça a culpa de linhas sociais existentes.

Mais importante: ele depende da existência de divisões entre os vencedores e os perdedores da globalização no século XXI. Ele prospera sobre as diferentes experiências dos poliglotas viajados que trabalham em profissões altamente qualificadas e os mirrados indivíduos deixados para trás pelas transformações econômicas globais.

Se trabalham em empregos de baixa remuneração nas cidades portuárias de Essex ou reivindicam benefícios de desemprego em Lille, aqueles deixados para trás compartilham um sentimento comum de desespero e frustração que rende uma rejeição visceral de corpos estranhos.

Em certos países, como a Polônia e os nórdicos, divisões sociais e ideológicas também se transformam em geográficas. Moradores patrióticos da zona rural veem seus vizinhos metropolitanos — e seus valores liberais — com suspeita.

E, na ausência de uma alternativa socialista crível para protegê-los, muitos se voltaram para o instinto mais básico de solidariedade com a etnia nativa e dominante: o inglês, o francês, o alemão. Em todos os países, o que sustenta esse nacionalismo é o agrupamento de indivíduos com interesses econômicos de esquerda e valores conservadores que divergem tremendamente do padrão dominante.

Assim, quando estes sentimentos são agrupados por atores políticos empresariais, tais como o Ukip, ganha-se um sabor político que faz lembrar o nacionalismo do passado. Mantém uma visão da História do país que glorifica o controle democrático nacional e defende um retorno reacionário ao passado, não importem os custos econômicos.

É sinceramente anti-intelectual, oferece soluções fáceis para problemas complexos, prefere o que chama de “fala franca” a uma dicção bem articulada, e é totalmente sem remorso em seu desdém.

A principal diferença é que, em contraste com o passado, a democracia é agora o único jogo. Os sistemas em que esses partidos nacionalistas operam são (relativamente) estáveis e a rotatividade geracional deveria conduzir à predominância de valores liberais, sugerindo que existe um limite para o conjunto de apoio.

Contudo, mesmo que as instituições democráticas em si não estejam em questão, a democracia atualmente oferece o mecanismo pelo qual esses partidos nacionalistas podem contaminar as plataformas de outras legendas tradicionais. Eles podem exercer pressões competitivas durante as eleições locais, nacionais e europeias, obrigando os partidos maiores a mudarem suas promessas políticas, na tentativa de evitar a perda de eleitores.

Então, a menos que significativas reformas econômicas e sociais internas enfrentem as divisões agudas sobre as quais esse nacionalismo populista se apoia, isso persistirá num futuro próximo. E a menos que a UE possa gerir suas instituições com maior legitimidade democrática, isso vai continuar a incitar a ira populista. Os eleitores precisam ser capazes de se identificar com as pessoas que tomam decisões em seu nome.

O Reino Unido pode ser o primeiro país a sair da UE, mas pode não ser o último. O novo nacionalismo europeu está aqui para ficar.

Simon Toubeau é professor da Escola de Política e Relações Internacionais da Universidade de Nottingham. Este artigo foi originalmente publicado em “The Conversation” (http://theconversation.com)

oglobo.globo.com | 26-06-2016

RIO — Quando os espanhóis voltarem às urnas neste domingo, seis meses depois das últimas eleições parlamentares, a sensação será de déjà vu. Após o fracasso dos partidos em formar um governo de coalizão, os eleitores foram convocados para uma nova votação na tentativa de destravar o impasse. Pesquisas de opinião, no entanto, indicam uma repetição do resultado anterior: nenhuma legenda terá maioria suficiente no Parlamento para governar sozinha, deixando o país novamente refém de tensas negociações partidárias.

De acordo com as últimas sondagens, o Partido Popular (PP) — do presidente do Executivo espanhol, Mariano Rajoy — deve vencer, assim como na disputa de dezembro. A aliança anti-establishment Unidos Podemos passa na frente do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), tornando-se a segunda maior força política do país, e a legenda pró-mercado Cidadãos ficaria em quarto lugar.

A falta de um acordo entre os partidos colocou a Espanha num beco sem saída, ainda sob os efeitos da crise econômica e mergulhada em escândalos de corrupção. Em sua primeira eleição geral, Podemos e Cidadãos obtiveram quase nove milhões de votos, sepultando a tradicional polarização entre PP e PSOE. Para o analista Joan Culla Clarà, da Universidade Autônoma de Barcelona, as lideranças tiveram de aprender a lidar com um novo xadrez político.

— O que aconteceu nas urnas em dezembro foi inédito. Pela primeira vez, havia quatro partidos com 40 ou mais deputados. Nunca tivemos um governo de coalizão na Espanha democrática. Precisávamos de tempo para que líderes e organizações digerissem a situação. Supomos que depois destes seis meses ficou claro que os quatro grandes partidos continuarão assim, e é preciso administrar essa nova realidade — afirmou.

ALIANÇA DE ESQUERDA PODE OBTER MAIORIA

Alguns levantamentos sugerem que uma eventual aliança entre PSOE e Podemos somaria assentos suficientes para viabilizar um governo de maioria parlamentar de esquerda, podendo forçar uma mudança de postura do líder socialista Pedro Sánchez, que descartou pactuar tanto com o Podemos quanto com o PP.

— Se o Unidos Podemos superar o PSOE em votos e assentos, e se houver clara maioria de esquerda, será muito difícil para o PSOE dizer “não” — avaliou o cientista político David Redoli Morchón.

Segundo os especialistas, os cenários prováveis são uma grande coalizão entre PP e PSOE; um governo de direita formado por PP e Cidadãos; um pacto de centro-esquerda entre socialistas e Cidadãos; ou um governo de esquerda liderado por PSOE e Unidos Podemos.

Morchón descartou a possibilidade de uma terceira eleição geral consecutiva:

— A opinião pública não toleraria se não houvesse um acordo depois de mais de meio ano de governo interino. Acho que todos os partidos vão fazer grandes esforços para moderar as suas posições e possibilitar um novo governo. Além disso, a pressão internacional é grande. E o mundo empresarial exige que se alcance um acordo para normalizar a situação no país.

Ante a paralisia do governo e uma onda de apatia da população, o instituto Metroscopia previu a abstenção de entre 30% e 32% dos eleitores — a maior taxa desde que a Espanha voltou à democracia, em meados da década de 1970.

Consultor político e presidente do centro de estudos Conselho Hispânico, Daniel Ureña destacou o sentimento de descontentamento:

— A falta de acordo para formar governo não fez outra coisa que não aumentar a crise de confiança na classe política, iniciada junto com a crise econômica entre 2008 e 2009.

Nos últimos dias de campanha, o governo de Rajoy foi sacudido por mais um escândalo. O ministro do Interior, Jorge Fernández Díaz, foi acusado de usar seus serviços para tentar incriminar partidos independentistas catalães.

A decisão britânica de deixar a União Europeia entrou na campanha, durante os encerramentos anteontem. Rajoy alertou para o perigo de votar “em partidos eurocéticos”:

— Não é o momento para experiências — disse Rajoy, em Madri, depois de um telão mostrar imagens de Iglesias defendendo que o país retomasse o controle da política monetária e saísse da zona do euro.

Já o líder do Podemos viu no resultado britânico um recado à UE:

— Hoje há uma mensagem para todos os europeus e é muito clara: a Europa dos cortes sociais, a Europa que humilha os refugiados e não cumpre os direitos humanos não nos serve e não nos seduz — declarou Iglesias.

oglobo.globo.com | 26-06-2016

WASHINGTON - As autoridades dos Estados Unidos tentaram demonstrar tranquilidade com o Brexit. O presidente Barack Obama, que conversou com os principais líderes europeus, disse que espera que trabalhem juntos “pela manutenção da estabilidade, da segurança e da prosperidade”. Mas a saída do Reino Unido da União Europeia, já influenciando a corrida pela Casa Branca nas eleições de novembro, vai alterar a política externa dos EUA, que vê seu maior aliado no Velho Continente perder força, e pode forçar uma aproximação maior com países como Alemanha e França, segundo especialistas.

Em nota, a Casa Branca informou que Obama “respeitava a decisão” do povo britânico e lembrou que tanto o bloco europeu como o Reino Unido seguem sócios dos americanos na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). A questão da segurança foi lembrada ao longo do dia pelos Estados Unidos, que têm nos ingleses o principal parceiro em suas investidas militares pelo mundo. CONTEÚDO EXCLUSIVAS PAPEL 2506

— O Reino Unido está comprometido com uma transição ordenada. Nós concordamos que os EUA e nossos aliados europeus trabalharão em conjunto nas próximas semanas e meses — disse, em evento na Califórnia. — Uma coisa que não vai mudar é a relação especial.

Obama, que nunca escondeu que preferia o Reino Unido na União Europeia, não culpou os eleitores pela mudança de status do país no bloco.

— A votação trata de mudanças em curso e desafios que são colocados pela globalização.

Hillary Clinton, provável candidata democrata à sucessão, também adotou a cautela:

— O momento de incerteza só ressalta a necessidade de calma e de uma liderança constante e com experiência na Casa Branca para proteger os bolsos e os empregos dos americanos.

Trump: ‘Querem o país de volta’

Já o virtual candidato republicano à Casa Branca, Donald Trump, comemorou a vitória da saída do Reino Unido da União Europeia. Falando de seu campo de golpe na Escócia, Trump disse que o resultado era “fantástico” e viu paralelo entre o que os britânicos fizeram e sua proposta política de fechar o país:

— Eles retomaram o controle. É uma grande coisa. As pessoas querem seu país de volta. Elas querem ter independência, em certo sentido. Você vê isso na Europa, em toda a Europa.

Especialistas, contudo, veem novos desafios à diplomacia americana. Charles Lichfield, analista do Eurasia Group, acredita que Washington terá que reforçar laços com Berlim e Paris:

— Londres era para os Estados Unidos a principal voz liberal dentro da União Europeia.

Carles Catchot Costello, do Atlantic Council, afirmou ao GLOBO que as relações militares entre os países continuarão fortes dentro da Otan, mas vê uma das principais democracias do mundo, a britânica, abalada pelo populismo e pelo autoritarismo em ascensão no mundo.

— Mas a mudança certamente vai exigir a criação de novos mecanismos de coordenação para garantir uma resposta às ameaças que surgem no mundo, como o terrorismo.

Kevin Casas-Zamora, do Inter-American Dialogue, afirma que é nítido que o Reino Unido perderá importância relativa para os Estados Unidos. E que não será fácil para o país mais rico do mundo substituir a Europa na relação dos ingleses:

— Os britânicos não querem também uma associação tão forte aos EUA como alternativa à União Europeia. Muitos ainda sofrem com o apoio incondicional da ilha à Guerra do Iraque.

Para Larive Maxime, diretor do Centro de Estudos Europeus da Universidade Illinois, o Reino Unido tentará manter seus laços para continuar relevante, e a questão militar pode ser uma porta:

— Para Londres, fazer parte da Otan ajuda no relacionamento especial com os Estados Unidos e eles não vão querer perder isso — disse.

oglobo.globo.com | 25-06-2016

SÃO PAULO - As consequências da ruptura do Reino Unido com a União Europeia são diversas e imprevisíveis para a economia mundial e inevitavelmente vão se refletir no Brasil, dizem os especialistas. Entre os efeitos mais prováveis, estão o adiamento da retomada do crescimento nas principais economias da América Latina, o nascimento de uma onda protecionista nas relações comerciais com a região, além de um período de muitas incertezas. Para o Brasil, o primeiro impacto se dá via mercado financeiro, mas o contágio virá também por outras vias.

Nesse cenário, avalia o estrategista-chefe do banco Mizuho, Luciano Rostagno, se as moedas latino-americanas apresentarem uma forte e persistente desvalorização frente ao dólar, os bancos centrais da região poderão estender os ciclos de aperto monetário, reduzindo as perspectivas de crescimento para as principais economias da região. Para o Brasil, se isso se concretizar, diz ele, o BC deve adiar um pouco mais o início da redução da Selic, o que também irá retardar a retomada do crescimento.

— Se o real tiver um movimento forte de depreciação frente ao dólar, por um período prolongado, o BC deverá adiar o corte de juros — diz Rostagno, que considera que o BC brasileiro só voltaria a subir os juros no caso de uma turbulência mais forte causado pela ruptura, como a quebra de um grande banco, o que não está no horizonte do banco neste momento.

Para a professora Margarida Gutierrez, economista e professora do Instituto COPPEAD de Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) a decisão da Inglaterra de deixar a União Europeia pode ser interpretada como um 'não à globalização'. Na prática, avalia Gutierrez, é um passo contrário ao que vinha se praticando em termos de acordos comerciais e uma volta ao 'isolacionismo'.

— Isso terá consequências para o comércio mundial e para o Brasil. A decisão de romper com tratados comerciais e livre circulação de pessoas, previstos pela União Europeia, mostra que o Reino Unido quer decidir suas práticas comerciais e quem vai circular pelo país. É uma mudança radical no cenário político e econômico desde o fim da Segunda Guerra Mundial, quando se começaram a costurar acordos comerciais e o mundo se tornou globalizado — explica a professora da UFRJ.

Num mundo que cresce pouco, a sinalização de relações comerciais mais protecionistas é um problema, não só para o Reino Unido, que exporta cerca de 50% para a União Europeia, mas para o mundo.

— Vamos passar um período de muita incerteza, de aversão ao risco. Todas as moedas, com exceção do dólar e do iene, tendem a se depreciar, e haverá menos disposição ao investimento. E com moedas depreciadas, aumentam as pressões inflacionárias — observa Gutierrez, lembrando, entretanto, que um real mais fraco acaba beneficiando a indústria nacional em termos de exportações.

A economista da consultoria Tendências, Alessandra Ribeiro, avalia que o crescimento mundial deve ser afetado negativamente com a saída do Reino Unido. E para a economia brasileira as consequências também são negativas.

— Além dos impactos diretos sobre o crescimento econômico, diante do menor fluxo de comércio de bens e serviços, financeiro e de pessoas, as incertezas com relação ao processo, considerando, inclusive, a possibilidade de desmembramento da União Europeia, deve manter elevada a aversão ao risco, afetando negativamente decisões de investimento e consumo. Para a economia mundial, que apresenta taxa moderada de expansão, esses efeitos devem provocar um crescimento ainda menor — afirma a economista.

Para ela, a economia brasileira, não escapa das consequências do Brexit, dados os efeitos via preços de ativos, confiança e crescimento econômico dos parceiros comerciais. Ainda que o comércio direto seja pequeno (1,5% das exportações brasileiras tem como destino o Reino Unido e 1,6% de nossas importações vem de lá), os maiores efeitos virão das consequências para a comunidade europeia, segundo maior destino de nossas exportações, e demais países como Estados Unidos e China.

Em relatório, os economistas do Itaú Unibanco preveem um crescimento menor nos países avançados, que tende a transbordar para os países emergentes. De acordo com o texto, o preço das commodities deve cair e as moedas ligadas a elas se desvalorize, com efeitos incertos sobre a inflação. O efeito positivo, diz o relatório do banco, a política monetária global será mais expansionista, sustentando o fluxo de capital para os mercados emergentes.

"O impacto global sobre a política monetária no Brasil vai depender do tamanho da depreciação do real e seu impacto sobre a inflação. Uma substancial depreciação da moeda poderia atrasar o início de um ciclo de corte de juros no segundo semestre desse ano", diz o texto do Itaú Unibanco.

oglobo.globo.com | 25-06-2016

SÃO PAULO e RIO - A surpreendente decisão do Reino Unido de deixar a União Europeia (UE) derrubou os mercados em todo o mundo, movimento que se refletiu no Brasil, mas com intensidade menor. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) chegou a cair quase 4%, mas encerrou o último pregão da semana com perda de 2,82%, aos 50.105 pontos. No mercado de câmbio, no início dos negócios, o dólar chegou a disparar 3,14% contra o real, mas acabou perdendo força no decorrer do dia e fechou em alta de 1,04%, a R$ 3,37.

‘CONTINUAMOS EXPOSTOS À VOLATILIDADE’

Diferentemente das fortes perdas das Bolsas europeias — algumas caíram mais mais de 12% —, o mercado brasileiro seguiu mais de perto o comportamento observado em Nova York, onde o Dow Jones recuou 3,39%. Também pesou o cenário político, com maior possibilidade de impeachment.

— Mas os efeitos indiretos do Brexit, a médio prazo, também serão sentidos no Brasil, como uma menor liquidez, maior aversão a risco e redução do fluxo de investimentos — estimou o economista Hersz Ferman, da Elite Corretora.

Entre as ações brasileiras, Petrobras e Vale registram as perdas mais significativas, reagindo à desvalorização das commodities no mercado internacional. Os papéis ordinários (ON, com direito a voto) da petrolífera despencaram 5,47%, enquanto os preferencias (PN, sem voto) caíram 4,65%. No caso da mineradora, as quedas foram de 8,19% (ON) e 8,65% (PN).

— O comportamento do mercado brasileiro foi razoavelmente controlado — avaliou Paulo Gomes, economista-chefe da gestora Azimut. — A alta do dólar, inclusive, é favorável para as exportações das empresas brasileiras. No caso da Vale, embora a China consuma metade de sua produção, a mineradora despenca com a desvalorização das commodities que ocorre quando o dólar avança.

No mercado de câmbio brasileiro, a libra, que atingiu menor valor em 30 anos frente ao dólar, despencou mais de 7% em relação ao real, cotada a R$ 4,60. O euro teve desvalorização de 1,38% frente ao real, sendo negociado a R$ 3,75.

— Foi surpreendente o comportamento do dólar por aqui. O comunicado do BC (Banco Central) brasileiro mostrando que estava alerta, o cenário político positivo, que fortalece o impeachment, e o sentimento de que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano), não deve elevar os juros em breve, ajudaram a segurar a cotação do dólar — explicou Cleber Alessie, operador de câmbio da corretora H. Commcor.

Para o economista Ignácio Rey, da Guide Investimentos, o impacto no câmbio puniu mais os países diretamente ligados ao mercado europeu:

— De qualquer forma, continuamos sendo um mercado emergente bastante exposto à volatilidade, e o Brexit foi uma surpresa ruim que complica ainda mais o cenário externo.

Para Rey, a postergação de uma alta de juro nos Estados Unidos também tem um componente negativo do ponto de vista global.

— Isso significa que o mundo vai crescer menos. A própria alta do dólar em virtude do Brexit continuará prejudicando a indústria americana, por exemplo — ressaltou.

Nos EUA, a preocupação é com a valorização do dólar, considerado um porto seguro pelos investidores. Cresceu também a procura por ouro e títulos do Tesouro americano. O papel de dez anos viu seu rendimento (que é inversamente proporcional à demanda) cair 0,19 ponto percentual, para 1,56%.

— Não se sabe o que vai acontecer no fim de semana — disse ao site CNNMoney o diretor de Estratégia Global da Charles Schwab, Jeff Kleintop.

As consequências da ruptura do Reino Unido com a União Europeia são diversas e imprevisíveis para a economia mundial e inevitavelmente vão se refletir no Brasil, dizem os especialistas. Entre os efeitos mais prováveis, estão o adiamento da retomada do crescimento nas principais economias da América Latina, o nascimento de uma onda protecionista nas relações comerciais com a região, além de um período de muitas incertezas. Para o Brasil, o primeiro impacto se dá via mercado financeiro, mas o contágio virá também por outras vias.

Nesse cenário, avalia o estrategista-chefe do banco Mizuho, Luciano Rostagno, se as moedas latino-americanas apresentarem uma forte e persistente desvalorização frente ao dólar, os bancos centrais da região poderão estender os ciclos de aperto monetário, reduzindo as perspectivas de crescimento para as principais economias da região. Para o Brasil, se isso se concretizar, diz ele, o BC deve adiar um pouco mais o início da redução da Selic, o que também irá retardar a retomada do crescimento.

— Se o real tiver um movimento forte de depreciação frente ao dólar, por um período prolongado, o BC deverá adiar o corte de juros — diz Rostagno, que considera que o BC brasileiro só voltaria a subir os juros no caso de uma turbulência mais forte causado pela ruptura, como a quebra de um grande banco, o que não está no horizonte do banco neste momento.

Para a professora Margarida Gutierrez, economista e professora do Instituto COPPEAD de Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) a decisão da Inglaterra de deixar a União Europeia pode ser interpretada como um 'não à globalização'. Na prática, avalia Gutierrez, é um passo contrário ao que vinha se praticando em termos de acordos comerciais e uma volta ao 'isolacionismo'.

— Isso terá consequências para o comércio mundial e para o Brasil. A decisão de romper com tratados comerciais e livre circulação de pessoas, previstos pela União Europeia, mostra que o Reino Unido quer decidir suas práticas comerciais e quem vai circular pelo país. É uma mudança radical no cenário político e econômico desde o fim da Segunda Guerra Mundial, quando se começaram a costurar acordos comerciais e o mundo se tornou globalizado — explica a professora da UFRJ.

Num mundo que cresce pouco, a sinalização de relações comerciais mais protecionistas é um problema, não só para o Reino Unido, que exporta cerca de 50% para a União Europeia, mas para o mundo.

— Vamos passar um período de muita incerteza, de aversão ao risco. Todas as moedas, com exceção do dólar e do iene, tendem a se depreciar, e haverá menos disposição ao investimento. E com moedas depreciadas, aumentam as pressões inflacionárias — observa Gutierrez, lembrando, entretanto, que um real mais fraco acaba beneficiando a indústria nacional em termos de exportações.

A economista da consultoria Tendências, Alessandra Ribeiro, avalia que o crescimento mundial deve ser afetado negativamente com a saída do Reino Unido. E para a economia brasileira as consequências também são negativas.

— Além dos impactos diretos sobre o crescimento econômico, diante do menor fluxo de comércio de bens e serviços, financeiro e de pessoas, as incertezas com relação ao processo, considerando, inclusive, a possibilidade de desmembramento da União Europeia, deve manter elevada a aversão ao risco, afetando negativamente decisões de investimento e consumo. Para a economia mundial, que apresenta taxa moderada de expansão, esses efeitos devem provocar um crescimento ainda menor — afirma a economista.

Para ela, a economia brasileira, não escapa das consequências do Brexit, dados os efeitos via preços de ativos, confiança e crescimento econômico dos parceiros comerciais. Ainda que o comércio direto seja pequeno (1,5% das exportações brasileiras tem como destino o Reino Unido e 1,6% de nossas importações vem de lá), os maiores efeitos virão das consequências para a comunidade europeia, segundo maior destino de nossas exportações, e demais países como Estados Unidos e China.

Em relatório, os economistas do Itaú Unibanco preveem um crescimento menor nos países avançados, que tende a transbordar para os países emergentes. De acordo com o texto, o preço das commodities deve cair e as moedas ligadas a elas se desvalorize, com efeitos incertos sobre a inflação. O efeito positivo, diz o relatório do banco, a política monetária global será mais expansionista, sustentando o fluxo de capital para os mercados emergentes.

"O impacto global sobre a política monetária no Brasil vai depender do tamanho da depreciação do real e seu impacto sobre a inflação. Uma substancial depreciação da moeda poderia atrasar o início de um ciclo de corte de juros no segundo semestre desse ano", diz o texto do Itaú Unibanco.

oglobo.globo.com | 25-06-2016

BRASÍLIA — Habitualmente contido, o presidente interino, Michel Temer, mostrou-se bem-humorado em entrevista concedida aos principais jornais do país, entre eles O GLOBO, na sexta-feira. Ele fez piada e até riu do uso constante que faz de mesóclises, inusuais na linguagem coloquial. Ao responder a uma questão sobre possibilidade de aumento de impostos, saiu-se com um “fá-las-á”, que até o surpreendeu. Parou e emendou:

— Vocês sabem que isso até ensinou para muita gente o que é próclise, ênclise e mesóclise.

Temer entrevista 24.06

Temer disse que gosta de caminhar e sugeriu, em tom de brincadeira, um grupo de caminhada para os que precisavam acompanhar as pedaladas matinais da presidente afastada Dilma Rousseff. Ele contou que quando era jovem ia a pé para a escola e chegava a caminhar 20 km por dia.

Um dos alvos dos comentário bem humorados de Temer foi o ministro das Relações Exteriores, José Serra, conhecido por seus hábitos notívagos e por não tolerar eventos matinais.

— Vocês sabem que Serra chegou pontualmente a duas reuniões esta semana que marquei às 9 horas? Numa outra, chegou até adiantado, mas era três da tarde — brincou.

Mais tarde, Serra disse que seu problema não é acordar , mas manter o bom humor logo cedo.

— Estou chegando mais cedo mesmo, para deixar os outros sem graça — disse Serra, rindo. — Meu problema não é acordar cedo, é ficar de mau humor. Para não ficar de mau humor, estou tomando guaraná em pó.

Temer ainda não tinha falado com Serra sobre a saída do Reino Unido da União Europeia, mas fez um breve comentário:

— Não chamo de retrocesso, mas digo que quebra a ideia de unidade entre os estados.

oglobo.globo.com | 25-06-2016

Um antigo colega de universidade fez um resumo preciso com apenas uma mensagem na manhã de sexta-feira: “Duas recessões antes dos 30 anos, estamos bem!”

Essa segunda ainda está para acontecer, e os sinais não são bons com a libra e o mercado de ações afundando mais rapidamente do que o capital político de George Osborne (o ministro das Finanças). CONTEÚDO EXCLUSIVAS PAPEL 2506

Muito será falado nos próximos dias sobre a nação dividida. O próximo primeiro-ministro, seja lá quem for, terá uma enorme responsabilidade para atenuar as rachaduras entre os 52% e os 48%.

Mas essa divisão veio para ficar. Já sabíamos dela nas pesquisas, e a reação do dia após o referendo a evidenciou — os jovens queriam permanecer, os mais velhos queriam sair. Ou para colocar em outros termos, quanto maior o tempo que a pessoa terá que viver com as consequências do Brexit, maior a rejeição.

Antes do referendo, os jovens já tinham bons motivos para se sentirem injustiçados. Os baby boomers — ou mais especificamente, a Geração X — que desfrutaram dos benefícios da educação superior gratuita e puderam aproveitar em suas casas próprias enquanto o curso estava favorável, foram os arquitetos da crise financeira que devastou a economia, na qual os millennials estavam apenas começando a se tornar participantes ativos.

Foi difícil para todos, mas foi particularmente difícil para os jovens, visto que os empregos ficaram escassos, os investimentos do governo cessaram, e as casas deixaram de ser construídas por demanda. Nós não somos chamados de Geração do Aluguel à toa: não temos outras opções.

Enquanto a geração dos nossos pais se acomodou em seus investimentos habitacionais esperando ansiosamente pelas generosas pensões estatais, nós vimos, mesmo antes dos 25 anos, o corte nos serviços públicos. Até o salário mínimo nos foi negado. Ah, e obrigado por introduzir, e depois triplicar, as mensalidades das universidades.

Nas últimas semanas, a campanha do Brexit afirmou que os jovens se beneficiariam com o colapso nos preços dos imóveis. Mas, se isso acontecer, com as pessoas sem patrimônio líquido, quem irá querer vender? E com a economia em queda livre, quem irá construir novas moradias? Isso promete, como quase tudo no referendo, provar- se uma fantasia.

De acordo com o YouGov, 75% dos jovens com idades entre 18 e 24 anos, e 56% da faixa etária entre 25 e 49 anos votaram pela permanência. Não são muitas as pessoas com menos de 30 anos que entendem o motivo de os britânicos considerarem a ideia de deixar a União Europeia. Agora eles vão ficar chocados, vão ficar irritados. E não será surpreendente se acontecer um miniêxodo para as capitais do continente europeu, onde a vida é mais barata e as atmosferas sociais e políticas, mais de acordo com a forma de pensar da geração.

Existem outros motivos para o descontentamento dos jovens, que não os econômicos. A geração que cresceu como nativa da UE e foi criada na era da internet tem uma inclinação inerente a pensar além das fronteiras. As gerações mais velhas pensam o país na direção oposta.

É um prejuízo para os jovens que querem se identificar como britânicos e como europeus. Se essas identidades já foram compatíveis entre si, agora estão separadas e seguem direções diametralmente opostas.

oglobo.globo.com | 25-06-2016

LONDRES — A saída britânica da União Europeia (UE) também pode afetar os brasileiros que vivem no Reino Unido, milhares deles com passaporte europeu e que se beneficiam da livre circulação entre os países do bloco. O primeiro-ministro, David Cameron, ao anunciar que deixará o cargo em outubro, garantiu que por enquanto nada muda para os cidadãos europeus que têm direito a visto de residência e trabalho no país. Novas regras de controle da imigração deverão fazer parte de um longo processo de negociações entre Londres e Bruxelas, ainda cercado de incertezas. vitória brexit-24-06

Mas, para brasileiros que moram na capital, o impacto do referendo não se resume a questões imediatas. Numa cidade conhecida por sua diversidade e multiculturalismo, a vitória do Brexit (abreviação de “British Exit”, que é “Saída Britânica” em inglês) foi um susto. Para o pesquisador Guilherme Carréra, que faz doutorado em Londres, o resultado do referendo, depois de uma campanha marcada pela forte rejeição à imigração, representa um retrocesso que favorece a extrema-direita.

— Viver em Londres nos coloca diariamente em contato com o outro, o novo, o diverso. E nos faz acreditar que essa pluralidade é o caminho. Por outro lado, essa decisão nos impõe uma verdade que fingíamos não ver: Londres não é o Reino Unido. E o Reino Unido, pasmem, é mais conservador do que quem vive em Londres poderia supor. A longo prazo, temo que esse sentimento de derrota dê lugar a projetos políticos ainda mais amargos — disse ele.

Katiuscia Funes, que trabalha no setor de limpeza e vive há dez anos em Londres com passaporte italiano, não se sente pressionada a deixar o Reino Unido, mas também teme o futuro.

— Minha preocupação é o impacto econômico e uma provável redução da oferta de empregos. Meus filhos nasceram aqui e são cidadãos britânicos. Eu achava que o futuro das crianças seria no Reino Unido. Agora não sei mais — disse ela.

VEJA A COBERTURA COMPLETA DO BREXIT

Dono de uma empresa de catering no sudoeste de Londres, o paulista Luiz Oliveira, que também tem passaporte da UE, contou que o resultado não chega a ser uma surpresa para ele.

— No interior da Inglaterra, é muito grande a insatisfação com o atual governo. Vejo esse voto como um protesto contra Cameron, mas também como uma revolta alimentada por uma campanha contra a imigração que foi baseada em propagandas mentirosas. Passaram a culpar o imigrante por todos os problemas do país, entre eles a crise no serviço de saúde, que já é antiga — afirmou o pequeno empresário, que espera uma retração econômica nos próximos meses.

A professora Maria Teresa Pollard trocou o Rio pela Inglaterra há 12 anos. Casada com um inglês, ela queria que os filhos, Laura e Benjamin, crescessem numa sociedade aberta para o mundo, com justiça social e igualdade. Encontrou o que buscava em Cambridge, cidade que, assim como Londres, votou majoritariamente pela permanência na UE. Mas, agora, diz se sentir traída pela vitória do Brexit. O que acontece agora com a saída do Reino Unido da União Europeia?

— Foi um voto que contradiz tudo isso. É uma escolha anti-imigração, anticooperação, antimulticulturalismo. O futuro é incerto para minha família, para a escola do meu filho, que é europeia, para os ideais que me fizeram escolher ser britânica. É um dia muito triste — resumiu.

A jornalista Suzana Camargo, também moradora de Londres, concorda:

— O resultado do referendo me pegou de surpresa esta manhã. Ainda acreditava que os britânicos votariam para ficar na UE. Isso significa que deixaram uma visão mais ampla e a ideia de que, junto a uma comunidade, o país fica mais forte. Numa época em que se fala cada vez mais em economia colaborativa, mais de 50% dos eleitores decidiram seguir um caminho isolado — disse.

oglobo.globo.com | 24-06-2016

LONDRES — A convocação de dois referendos potencialmente devastadores em dois anos, o da independência da Escócia e a votação sobre a permanência ou não na União Europeia (UE), dão uma ideia da crise existencial do Reino Unido, preso entre a nostalgia e o temor do futuro.

Há apenas 60 anos, a Grã-Bretanha reinava como um império que, em seu auge, reunia 25% da população mundial. Hoje tem um território um pouco maior do que o da Islândia. CONTEÚDO BREXIT PAPEL 2306

No debate, a Inglaterra está na linha de frente. Motor econômico, cultural e demográfico do Reino Unido é a mais ameaçado pela explosão. Mas também é a menos pró-europeia das quatro nações constituintes.

— Não vamos nos transformar na “pequena Inglaterra” — implorou o primeiro-ministro David Cameron, partidário da UE, recorrendo a um termo usado para definir uma mentalidade insular e paroquial.

Para Michael Skey, especialista em questões de identidade na Universidade de Loughborough, o referendo foi um sinal da incapacidade de assumir que o país não é mais um império.

— Aqueles, sobretudo as pessoas mais velhas, que já não se reconhecem em uma sociedade mais diversa são mais receptivos a um discurso que propõe entrar em uma máquina do tempo e começar de novo. Eles dizem, “Ah!, se pudéssemos largar esta maldita Europa e começar de novo” — explico Skey à AFP.

“NOSSA REVOLUÇÃO FRANCESA”

Por este motivo, afirma Skey, as incessantes referências ao passado e, em particular, à Segunda Guerra Mundial, o último grande momento de glória antes da desintegração do império, “a última vez em que a Grã-Bretanha contou de verdade”.

Mais de 70 anos depois de vencer os nazistas, a recordação da guerra permanece muito viva no Reino Unido: os caças Spitfire sobrevoam Londres regularmente e Winston Churchill é citado em todos os debates.

Na Eurocopa-2016, os torcedores ingleses cantam a cada partida sobre como “a RAF (Royal Air Force) da Inglaterra abateu” dez bombardeiros nazistas.

Tudo isto é natural, pois a campanha estava repleta de referências sobre a Segunda Guerra Mundial, especialmente no campo que defende a ruptura com Bruxelas, cujo líder, Boris Johnson, ex-prefeito de Londres e biógrafo de Churchill, chegou a comparar a UE a Adolf Hitler.

— Ao contrário de outras nações europeias, saímos da guerra sem nenhum motivo de vergonha. Este país venceu o fascismo e combateu sozinho durante muito tempo. O ano de 1940 é fundamental no imaginário britânico. É nossa revolução francesa — destacou Robert Colls, professor de História da Universidade De Monfort de Leicester.

Ao sair da guerra, explica Sunder Katwala, diretor do instituto de debates British Future, a “Grã-Bretanha estava convencida de que ainda era parte do Top 3 e via o projeto europeu com certo desapego. Quando percebeu o erro pela crise do Canal de Suez nos anos 1950, o trem da UE já havia partido”.

Quando finalmente embarcou, em 1973, foi “aos encontrões e muito tarde para moldar o bloco a seu gosto”, destaca Katwala.

— Os britânicos estão menos aferrados à ideia da Europa como projeto moral. Têm a tendência de considerar a UE como um mecanismo puramente econômico e comercial, exatamente como previu o general (Charles) De Gaulle. E se não os beneficia, ficam dispostos a sair — afirmou o historiador Robert Tombs.

Além disso, “ser uma ilha é parte central do debate”, sugere Sunder Katwala.

— Há muito euroceticismo na Europa, mas nenhum país se pergunta seriamente se faz parte da Europa. O Reino Unido, sim — conclui.

oglobo.globo.com | 24-06-2016

LONDRES - Imigração, economia, soberania, união nacional... Cada um dos dois lados na disputa usa as mesmas munições em armas de diferentes calibres de argumentação para justificar a saída ou a permanência do Reino Unido na UE, uma decisão crucial tanto para o futuro do país como da ordem construída no continente europeu no pós-guerra.

A FAVOR DA PERMANÊNCIA:

Carolyn Fairbairn | Diretora-geral da Confederação da Indústria Britânica: “Em 2020, o custo total de uma saída da União Europeia poderia chegar a £ 100 bilhões e 950 mil empregos. A renda familiar no mesmo ano pode apresentar uma queda de até £ 3.700. A economia poderia até se recuperar lentamente ao longo dos anos, mas nunca chegando aos níveis que atingiria dentro do bloco. Deixar a UE significa enfrentar uma economia reduzida em 2030.”

Nicky Edwards | Diretor de políticas e negócios públicos do TheCityUK, grupo de lobby da indústria de serviços financeiros de Londres: “A saída da União Europeia teria uma série de impactos potenciais. Uma delas é que veríamos as empresas estrangeiras que estão concentradas no país sendo obrigadas a realocar boa parte ou mesmo todas as suas operações de volta ao mercado único europeu.” CONTEÚDO BREXIT PAPEL 2306

John M. Roberts | Especialista em segurança energética do Atlantic Council: “Se os britânicos optarem pelo Brexit, não será apenas o cargo de David Cameron que estará em risco, mas a própria existência do Reino Unido. É praticamente certo que a maioria dos eleitores escoceses apoiará a permanência. No caso de uma vitória da saída, o governo da Escócia, comandado por fervorosos nacionalistas, estará preparado para um futuro no qual a Escócia não integre a UE? Nessas condições seria muito difícil para um governo britânico negar a realização de um novo referendo sobre a independência escocesa, e, caso ele acontecesse, é muito provável que a rejeição do último pleito fosse revertida em favor do apoio à independência. Além de gerar caos em Londres, Bruxelas e Edimburgo — que teriam que renegociar praticamente todos os seus acordos — que espécie de Reino Unido teríamos no caso de uma vitória da independência escocesa? Seria o País de Gales o próximo na fila por um referendo nacionalista?”

Danny Dorling | Professor da Universidade de Oxford: “A vida não é um mar de rosas para muitos dos cidadãos britânicos, mas isso não é culpa da UE. Se o Reino Unido fosse um Estado mais progressista, na vanguarda do progresso social do continente, poderíamos ter motivo para nos ressentirmos e alegar que Bruxelas está nos impedindo de progredir. Mas somos retardatários sociais. Precisamos das leis da UE para impedir que exploremos nossos trabalhadores. Nosso establishment político não teria problema algum em tolerar níveis de poluição atmosférica muito superiores àqueles que nos rendem multas da Comissão Europeia. E nunca teríamos noção dos inacreditáveis níveis de desigualdade econômica se não fosse pela leis europeias que forçam nossos banqueiros mais ricos a divulgarem detalhes de seus salários e bônus. Ao contrário de muitos dos nossos benefícios, nossos problemas não são criados pelo fato de pertencermos à UE. Somos diferentes do resto da Europa porque nosso passado é diferente. Costumávamos nos apoiar num império, e deixar a UE não vai trazê-lo de volta.”

David Cameron | Primeiro-ministro britânico: “O Brexit levaria, sem dúvida, a uma perda na influência global do Reino Unido, enfraqueceria a Otan e fortaleceria os inimigos do Ocidente, justamente quando precisamos estar lado a lado com a comunidade euro-atlântica contra ameaças comuns, inclusive no nosso continente. Sair significa retroceder a uma era de nacionalismo competitivo na Europa. Podemos estar tão seguros de que a paz e a estabilidade no continente estão garantidas sem sombra de dúvida? Esse é um risco que vale a pena correr? Eu não seria tão inconsequente a ponto de presumir isso. O isolacionismo nunca funcionou muito bem para este país.”

Stephen Hawking | Físico britânico, em carta assinada juntamente com outros 150 membros da Royal Society: “O financiamento da UE aumentou enormemente o nível da ciência europeia em geral e do Reino Unido em particular, já que temos uma vantagem competitiva. Atualmente, recrutamos nossos melhores pesquisadores a partir da Europa continental, incluindo jovens que adquiriram benefícios da UE e escolheram o Reino Unido como destino. Trabalhando em conjunto, fortalecemos nossa economia, aumentamos nossa influência no mundo e damos oportunidades futuras aos jovens.”

Sadiq Khan | Prefeito de Londres: “Temos praticamente um consenso por parte dos economistas que concordam que permanecer na UE será melhor para a economia, para o comércio, para os negócios, para a geração de empregos e para as exportações. Sabemos também que, ficando na UE, estamos protegendo direitos trabalhistas, fortalecendo as defesas do país, melhorando a qualidade do ar e garantindo o respeito às mulheres no mercado de trabalho. A campanha pela saída tenta vender a ideia de que fazer parte da Europa nos torna menos britânicos. Mas, na verdade, a opção patriótica é não virar as costas para nosso passado de abertura e disposição de coexistir com o resto do mundo. Será que realmente queremos que nosso legado seja a criação de barreiras para a próxima geração, impedindo a continuidade de programas que ajudaram mais de 200 mil estudantes britânicos nos últimos 30 anos?”

A FAVOR DA SAÍDA:

Michael Gove | Ministro da Justiça e um dos líderes da campanha pela saída britânica da UE: “A resposta da União Europeia à crise migratória é um convite irrestrito para que Macedônia, Montenegro, Sérvia, Albânia e Turquia se juntem ao bloco. Como não podemos controlar nossas fronteiras, os serviços públicos, como o Sistema Nacional de Saúde, se verão diante de uma demanda inqualificável, já que milhões de pessoas se tornarão cidadãs europeias e terão o direito de se mudar para o Reino Unido.”

Gerard Lyons | Economista e ex-conselheiro econômico da prefeitura de Londres: “A UE está mal posicionada para prosperar na economia global do futuro. A geografia deixou de ser uma barreira para o comércio, e as economias que quiserem prosperar precisarão ser flexíveis, adaptáveis e em controle de seu destino. A saída da UE nos permite ter esse controle, enquanto o bloco se tornou mais centralizador, aumentando a regulação e o controle, exatamente o oposto do que precisamos para criar empregos e obter sucesso no futuro. É errado pensar que, se permanecermos na UE, poderemos mudá-la e adequá-la. Sempre ouvimos que a UE será reformada, mas essa reforma nunca acontece. O bloco nunca enfrenta seus principais problemas, como o alto índice de desemprego entre os jovens, a depressão econômica na Grécia ou as migrações em massa. E o cenário ainda pode piorar. Estima-se que a UE será a região de menor crescimento no planeta nas próximas décadas. Permanecer no bloco envolve uma grande dose de incerteza, porque não sabemos o que acontecerá com o euro. Para encobrir suas rachaduras econômicas, a zona do euro terá que aumentar ainda mais sua centralização rumo a uma união política, e embora o Reino Unido não precise adotar o euro, estando dentro da UE ficará incapaz de evitar as consequências negativas do que quer que aconteça com a moeda.”

Philip Johnston | Editor-assistente do diário inglês “Daily Telegraph”: “A questão que será apresentada ao eleitorado britânico é, na verdade, sobre soberania: quem governa? Podemos criar nossas próprias leis, aumentar nossos próprios impostos, negociar com quem bem entendermos, pescar em nossas próprias águas, convidar quem quisermos para dentro de nosso país e remover aqueles que não quisermos? Se fôssemos uma nação independente, poderíamos fazer tudo isso, exceto atividades reguladas por tratados internacionais. Como membro da UE, não podemos fazer nenhuma delas, a menos que façamos de maneira coletiva. O Parlamento ainda detém a soberania. A questão é se ele vai usá-la para devolver ao Reino Unido o controle de suas leis. E isso só será possível caso o país vote pela saída da UE no referendo. Não há meio-termo.”

Boris Johnson | Ex-prefeito de Londres: “Uma relação com a Europa que não seja baseada nos caprichos de burocratas não eleitos, mas na cooperação entre governos eleitos na qual poderemos continuar cooperando com nossos amigos e parceiros em questões de interesse mútuo. Podemos fazer tudo isso num nível intergovernamental, no qual não estamos mais sujeitos ao modelo único e ineficaz das leis supranacionais da UE. Quando pudermos retomar o controle dos £ 350 milhões semanais que damos à UE, teremos também o controle de nossas fronteiras. Então, quando ouço as pessoas dizendo que não podemos fazer comércio livremente com o resto do mundo, ou que a libra vai despencar ou ainda que as taxas de juros irão disparar, me lembro dos profetas do apocalipse que diziam que o bug do milênio faria com que os aviões caíssem dos céus. São as mesmas pessoas que disseram que teríamos um desastre econômico se não adotássemos o euro. O oposto provou ser verdade, e é justamente por termos nos mantido longe do euro que temos hoje a economia mais dinâmica da Europa.”

Michael Caine | Ator, duas vezes premiado com o Oscar: “Temos atualmente na Europa uma espécie de governo por procuração de todos os países que agora saiu do controle. A menos que haja uma mudança extremamente significativa, deveríamos sair da UE.”

Sol Campbell | Ex-zagueiro da seleção inglesa de futebol: “Se tivermos um controle rigoroso sobre quem pode entrar e sair do Reino Unido, poderemos trazer os melhores entre os melhores, não importa de onde quer que eles venham, enquanto impedimos aqueles que não produzirão de entrar no país.”

Richard Werner | Economista e professor da Universidade de Southampton: “O super-Estado europeu que já se formou não é democrático. O chamado Parlamento Europeu não tem o poder de propor leis. A legislação é formulada e proposta pela Comissão Europeia, que não é eleita! Como um observador russo comentou, o Parlamento Europeu é uma farsa com a função única de carimbar documentos, tal qual o Parlamento soviético durante os dias da União Soviética, enquanto o governo não eleito é a Comissão Europeia — uma espécie de Politburo repleto de seus comissários.”

oglobo.globo.com | 23-06-2016

LONDRES — Nas ruas de Londres, a batalha entre os que defendem a permanência na União Europeia (UE) e os que votam pela saída do bloco é discreta, com partidários dos dois lados da disputa distribuindo panfletos sem muito barulho. Já nas mídias sociais, os defensores do Leave (sair) e do Remain (permanecer) travam uma guerra, com mais de cem organizações fazendo das plataformas digitais seu principal palanquemais de cem organizações fazendo das plataformas digitais seu principal palanque. Analistas que estudaram a movimentação nas redes concordam que o voto pelo Brexit está levando vantagem. brexit2106

Um dos vídeos mais assistidos da campanha, “Brexit, o filme”, já teve 1,4 milhão de acessos no YouTube. O documentário de 70 minutos foca principalmente nas razões econômicas apresentadas pelo campo do Leave, para quem as regras da UE são um entrave ao desenvolvimento do Reino Unido. Produzido pelo diretor Martin Durkin através de crowdfunding (financiamento pela internet), o filme traz estereótipos, como operários italianos pouco concentrados nos afazeres, e dá destaque a políticos como Nigel Farage, líder do Ukip, partido de extrema-direita. A produção faz sucesso entre os críticos da UE, que vêm compartilhando os trechos mais provocativos à exaustão. Já o vídeo oficial da campanha do Remain teve 26 mil acessos.

EXCESSO DE NÚMEROS X APELO À EMOÇÃO

Para o pesquisador Vyacheslav Polonski, especialista em sociologia da internet da Universidade de Oxford, os partidários do Brexit têm demonstrado maior habilidade no uso das mídias sociais — cada vez mais indispensáveis em campanhas políticas — dando o seu recado de forma mais poderosa e emotiva. Polonski analisou posts no Instagram e no Twitter nos últimos seis meses e avalia que os adversários da UE têm dominado o debate on-line tanto entre os eleitores mais jovens quanto entre os mais velhos.

— Os partidários do Brexit tendem a ser mais ativos e abertos no comportamento on-line. As redes fornecem um canal para esse ativismo e criam a percepção de que há mais apoio ao Brexit, mesmo que só exista um punhado de indivíduos ativos e posts políticos gerados automaticamente por robôs com mensagens de apoio ao Brexit — explica Polonski. — Por outro lado, sabemos que mensagens carregadas de emoção e humor se espalham mais rapidamente do que estatísticas.

Esse pode ter sido um dos erros da campanha pela permanência na UE: um excesso de números sobre as prováveis consequências econômicas do Brexit que tende a confundir os eleitores. Só na reta final da disputa, o time do Remain conseguiu atrair mais atenção nas mídias sociais com o apoio de vídeos gravados por comediantes populares e hashtags divertidas. Duas delas se tornaram virais no Twitter: #catsagainstbrexit (“gatos contra o Brexit”), com fotos de gatos “pedindo” votos pela permanência, e #hugabrit (“abrace um britânico”), ação que vem juntando imagens de cidadãos europeus abraçados a seus amigos do Reino Unido.

Para Mathew Goodwin, professor de Ciências Políticas da Universidade de Kent, o debate sobre o referendo é mais uma questão de mobilização do que persuasão. Ao mapear os eventos dos dois lados, ele concluiu que os defensores da permanência no bloco fizeram uma campanha mais intensa, enviando militantes a áreas mais diversificadas. Já os partidários do Brexit se concentraram em regiões avessas à UE. Mas, nas mídias sociais, o quadro é outro.

— O Leave parece levar vantagem na campanha on-line. Os grupos eurocéticos têm mais seguidores que os partidos políticos — avaliou.

oglobo.globo.com | 21-06-2016

BERLIM - Os países da União Europeia (UE) estão em estado de alerta diante da possibilidade de perder um dos seus membros mais importantes no referendo de quinta-feira, quando os britânicos decidem se querem permanecer ou sair do bloco. Embora analistas e políticos tenham certeza de que o Reino Unido sofrerá os maiores prejuízos, a perspectiva de saída ameaça pôr a UE em crise existencial e causar um efeito dominó que poderia terminar no esvaziamento do maior projeto político do continente desde a Segunda Guerra Mundial. brexit

— Um dos primeiros efeitos seria uma reação em cadeia que vai começar com a saída dos países escandinavos, Suécia e Dinamarca, do bloco. Os dois estão sempre ameaçando fazer um referendo para deixar a UE, um projeto que parece mais concreto com o crescimento dos partidos de direita — diz a cientista política Tanja Börzel, da Universidade Livre de Berlim.

Para a Alemanha, o cenário de uma UE sem o Reino Unido tem a dimensão de uma catástrofe. Desde que o então chanceler federal Helmut Kohl assumiu o governo, em 1983, o país apostou muito na união continental, colocando em risco a solidez das suas finanças com o ingresso da Grécia, em 1981, dos ibéricos Espanha e Portugal, em 1986, com o projeto do euro e, mais uma vez, com o ingresso de candidatos de risco, como Polônia, Hungria, Romênia e Bulgária.

— É verdade que, desde que o Reino Unido entrou no então Mercado Comum Europeu, o debate sobre o excesso de influência do bloco sobre os países é interminável, mas ninguém acreditava que mesmo (a então primeira-ministra) Margaret Thatcher levasse a sério as suas ameaças de deixar o grupo — afirma a analista.

A ex-premier, que morreu há três anos, deixou o governo britânico em 1990, mas suas ameaças e frases de efeito (para o próprio eleitorado), como a famosa “I want my money back” (“Quero meu dinheiro de volta”), com a qual ela conseguiu o famoso “abatimento inglês” — os britânicos pagam menos do que deveriam, segundo o seu peso econômico —, continuam gravadas na memória coletiva europeia.

Wolfgang Schäuble, que foi vice-presidente da União Democrata Cristã (CDU) na era de Kohl, é hoje ministro das Finanças de Merkel, tendo o poder de decidir se países do grupo do euro, como a Grécia, entram em falência ou continuam recebendo a ajuda da UE. Schäuble foi o único político europeu que esteve pessoalmente em Londres para participar da campanha pelo Remain (permanecer) e considera bastante negativos os riscos de uma saída do país, como afirmou em entrevista à revista “Der Spiegel”.

— Se houver uma saída, naturalmente teria efeitos negativos e riscos para os países parceiros do Reino Unido. Nós nos preparamos para todos os cenários possíveis para reduzir os perigos — disse ele à publicação alemã.

Na mesma entrevista, Schäuble apontou, como uma ameaça a Londres, os enormes riscos para os próprios ingleses, inclusive o de ruptura interna no Reino Unido. Na opinião dele, é provável que a Escócia queira continuar no bloco.

‘Nem britânicos nem Europa vão desmoronar’

O ex-presidente francês Nicolas Sarkozy também falou sobre o “risco de catástrofe” para os ingleses, sublinhando ainda as consequências negativas para a UE. Em entrevista ao jornal “Die Welt”, ele disse: “A União Europeia perderia sua segunda maior potência econômica. Isto seria um grande problema, mas para os nossos amigos ingleses a saída seria uma catástrofe”.

O ministro francês da Economia, Emmanuel Macron, disse ao jornal “Le Monde” que uma saída do bloco tornaria o Reino Unido irrelevante no cenário global e que a UE deveria mandar um “recado firme” sobre as consequências disso. Info Brexit - Imigração no Reino Unido

Mas a pior consequência da vitória do Leave (sair) para a UE, como diz Tanja Börzel, seria a perda de peso político no cenário mundial:

— O prejuízo será ainda maior na politica externa e na segurança do que no setor financeiro, embora este não deva ser menosprezado.

Sem os britânicos, a União Europeia seria um anão no aspecto militar. Londres é a garantia de funcionamento das ações militares fora do continente, diz Börzel. Segundo ela, ainda que o eventual Brexit — abreviação de british exit (saída britânica) — provoque uma reação em cadeia, o país com menor risco de deixar o bloco é a França, mesmo se a líder de extrema-direita Marine Le Pen subir ao poder.

— Marine Le Pen critica a UE, mas ela quer no máximo que o bloco passe por reformas.

Já o porta-voz de política externa da CDU, Karl Georg Wellmann, prefere que o tema seja debatido com mais sobriedade.

— Não devemos pensar que se trata do ser ou não ser. Por muitos motivos, precisamos do Reino Unido dentro do bloco. Mas nem o país nem a UE vão desmoronar se os ingleses votarem pela saída do bloco.

Info Brexit - Os empregos dependentes da UE

Suíça, Noruega e Islândia, ‘ausentes famosos’, inspiram campanha do Brexit

Enquanto a Turquia e outros países do Leste Europeu lutam há anos para ingressar na União Europeia, outras economias, riquíssimas, fazem tudo para ficar fora. É o caso de Suíça, Noruega e Islândia, que têm acordos bilaterais que lhes permite acesso ao mercado de cerca de 500 milhões de consumidores, e que já votaram, em referendos, para não entrarem na UE.

A Noruega, país de 5 milhões de habitantes, mas rico em petróleo e com o terceiro maior PIB per capita do mundo (US$ 68.430 ou cerca de R$ 240 mil), votou em 1972 e em 1994 contra o ingresso no bloco. A Suíça, com 8 milhões de habitantes e renda per capita de US$ 58.551 (mais de R$ 200 mil), também votou contra, em 1992.

Para o economista Peter Schwendner, da Universidade de Zurique, o modelo suíço seria ideal para a Inglaterra depois da saída da UE.

— Londres pode conseguir salvar seu setor financeiro. Não é fácil, mas é possível — avalia. Info Brexit - Balança comercial em jogo

Também a Noruega, que não faz parte da UE mas é país membro do “Espaço Econômico Europeu”, é vista como modelo para o Reino Unido se o país deixar a UE. Mas o cientista político Olvind Bratberg, da Universidade de Oslo, alerta sobre os custos do exemplo norueguês. O país não tem direito de voto e paga caro pelo acesso ao mercado da UE. Até 2021, para exportar 80% dos seus produtos para o bloco, Oslo precisará pagar aos cofres europeus 390 milhões de euros.

— Como a Inglaterra tem um PIB muito maior, os custos para os ingleses seriam proporcionalmente maiores — diz.

Bratberg admite que o processo de negociação será muito mais difícil para os ingleses. Ele deverá durar dois anos, e muitos políticos da UE dizem que, se os ingleses querem sair do bloco, que então o façam, mas não esperem que a UE corra para socorrê-los depois.

A conclusão dos especialistas é que o Reino Unido deverá se isolar inteiramente da UE para evitar a imigração, ou vai ter de negociar acordos que implicariam em preservar as fronteiras abertas, pelo menos para os cidadãos do bloco.

Mas, na lista dos “ausentes famosos” da UE, a Islândia é o país que mais chama a atenção e alimenta a campanha a favor do Brexit. No ano passado, a ilha de 320 mil habitantes retirou a candidatura para entrar na entidade. Os riscos da concorrência europeia para a pesca, principal força do país ao lado do turismo, eram maiores que os benefícios. Além disso, a crise do euro e o ingresso de países pobres fizeram os islandeses mudarem de opinião.

oglobo.globo.com | 20-06-2016

LONDRES - Os adversários do Brexit decidiram apostar suas fichas na campanha para convencer os jovens a deixarem a apatia de lado e entenderem que o plebiscito sobre a União Europeia é uma votação histórica que poderá definir o futuro de sua geração. Pesquisas mostram que o eleitorado entre 18 e 34 anos é majoritariamente a favor da permanência britânica na UE. Porém, os levantamentos sugerem que esses eleitores — desencantados com os políticos tradicionais e os ataques pessoais entre os dois lados — demonstram menos disposição de ir às urnas no dia 23. BREXIT CONTEÚDO PAPEL

O gap de gerações acendeu o alerta vermelho entre os inimigos do Brexit. A ONG Sociedade pela Reforma Eleitoral calcula que somente 21% dos eleitores entre 18 e 24 anos se dizem interessados no referendo. O índice salta para 47% entre os acima de 65 anos, que tendem a favorecer a saída da UE. Pesquisa do Instituto Opium indica que 53% dos eleitores abaixo dos 34 anos querem a permanência no bloco, mas só metade disse que vai votar.

Isolamento e globalização

Os números levaram à mobilização contra a abstenção. A ONG MyLifeMysay se juntou ao deputado Nick Clegg, social-democrata, para promover debates em universidades. Ele pediu que os jovens pensem em que tipo de sociedade querem viver.

— O que está em jogo não é se gostamos ou não das decisões de Bruxelas. É sobre quem somos. Somos um povo aberto ou fechado ao mundo? Na era da globalização, pensar em isolacionismo é uma ingenuidade — disse ele, num teatro da Universidade de Westminster.

O grupo We are Europe (Nós somos a Europa) reforçou a campanha usando como principal peça desenhos do conservador Boris Johnson beijando o candidato republicano, Donald Trump, um grafite inspirado no famoso beijo entre o soviético Leonid Brezhnev e o alemão-oriental Eric Honecker. Johnson pode se tornar o próximo premier se o Reino Unido sair da UE. Embora o ex-prefeito de Londres critique a xenofobia de Trump, é contra o fluxo livre de cidadãos entre os países da UE e sugere um reforço das barreiras a imigrantes. O principal alvo do We are Europe são os jovens.

— Foi um prazer ver tanta gente afetada pela imagem — disse Felix Braun, um dos artistas que criaram a imagem do beijo.

Info Brexit - Razões de cada lado

oglobo.globo.com | 19-06-2016

LONDRES - O primeiro-ministro David Cameron foi elevando nas últimas semanas o tom dos alertas sobre as desastrosas consequências que uma saída do Reino Unido da União Europeia (UE) poderia trazer até chegar a um recado bem claro: o Brexit — abreviação de british exit (saída britânica) — ameaça deixar os britânicos mais pobres, mais isolados no cenário mundial e mergulhados numa era de incertezas. Às vésperas do plebiscito que decidirá a questão na próxima quinta-feira, grande parte do eleitorado não se mostrava abalada com essas previsões. Nas últimas semanas, as pesquisas indicavam crescimento do apoio à retirada britânica da UE. Novas consultas, porém, realizadas após o assassinato da parlamentar Jo Cox, sugerem uma mudança de tendência. A divisão do Reino Unido, contudo, continua evidente. BREXIT CONTEÚDO PAPEL

A reta final da campanha, que ganhou contornos dramáticos na quinta-feira, com a morte da deputada trabalhista, defensora da permanência no bloco europeu, reviveu antigas feridas internas e no continente. Duas palavras-chave são citadas pelos eleitores decididos a votar no Brexit: soberania e imigração. Encabeçado pelo ex-prefeito de Londres, o populista Boris Johnson, o campo do Leave (sair) bate na tecla de que a UE é antidemocrática e submete os britânicos a leis que não foram aprovadas por eles, como a política de imigração.

As pesquisas indicam que a faixa da população mais velha e mais avessa aos efeitos da globalização tende a se identificar com esse discurso. A partir dos 45 anos os eleitores passam a demonstrar maior ceticismo em relação à UE. Em cidades como Londres, Oxford e Cambridge, marcadas pelo multiculturalismo, o voto no Remain (permanecer) ganha. A Escócia também é favorável à UE. Já em áreas como as costas Leste e Sul da Inglaterra, antigas regiões industriais, o Leave está na frente.

Mas uma pesquisa do instituto YouGov feita para o diário “Sunday Times” mostra, pela primeira vez em semanas, o Remain com uma leve vantagem: 44% a 43%. Divulgada ontem, a sondagem foi feita entre quinta e sexta-feira, logo após a morte de Jo Cox. Já a pesquisa Survation, feita para o “Mail on Sunday” entre sexta-feira e ontem, mostrou a permanência com três pontos à frente (45% a 42%).

Euroceticismo vivo

Embora a maioria dos analistas concorde que um divórcio do bloco teria altos custos econômicos, legais e políticos, a promessa de “retomada da soberania”, repetida por uma parte do Partido Conservador e pela extrema-direita, seduziu eleitores. Em Londres, outdoors prometem coisas como “Vamos retomar o controle”. O “The Sun”, o mais popular tabloide britânico, declarou apoio ao Brexit pedindo que o Reino Unido deixe a UE “antes de ser tragado por esse Estado federal em expansão sob domínio da Alemanha”. Info Brexit - Razões de cada lado

A crença no mito da soberania pode ser explicada pela insegurança financeira crescente desde a crise de 2008 e pela sensação de que os britânicos, que já formaram um império, estão perdendo influência global, diz o analista Nick Witney, do Conselho Europeu de Relações Internacionais. Segundo ele, a imprensa britânica é tradicionalmente hostil à UE, enquanto diferentes governos também preferiram travar uma queda de braço com Bruxelas.

— A visão popular é de que Bruxelas é uma torre sem rosto formada por burocratas não eleitos que conspiram contra o Reino Unido. É difícil explicar a realidade de que Bruxelas é uma espécie de andar único, em que os 28 membros competem, mas buscam soluções que são melhores para todos — diz o analista.

Ao contrário do que afirmam os partidários do Brexit, é o Parlamento britânico, e não a UE, que determina os rumos das principais políticas nacionais. Como um dos membros mais poderosos do bloco, o Reino Unido também interfere em assuntos globais. Fora dele, poderia perder esse lugar de destaque. Mas os riscos não convencem eleitores como a jovem Jade Smith, que se prepara para entrar na Universidade de Leeds e faz campanha pelo Brexit.

— A UE não favorece os direitos das mulheres, controla nossas leis e tem regulamentações ridículas. Para mim, a principal discussão é sobre democracia — defende a estudante.

Info Brexit - Imigração no Reino Unido

A imigração também tem enorme peso no debate. O número de europeus que trabalham no Reino Unido dobrou em uma década, atingindo dois milhões de pessoas. No ano passado, 270 mil europeus imigraram. Soma-se a esse movimento a crise dos refugiados do Oriente Médio e da África. Enquanto defensores do Brexit alegam que a imigração sobrecarrega os serviços públicos, quem apoia a permanência lembra que os imigrantes incentivam o crescimento econômico.

O desemprego no Reino Unido é baixo, mas por outro lado há eleitores que sentem sua cultura e identidade nacionais ameaçadas.

— A resistência à imigração cresceu com a entrada de países do antigo bloco comunista, após 2004. O ciclo coincidiu com um período de austeridade e corte nos serviços públicos. As pessoas passaram a associar esse aperto à imigração. Cidades pequenas viram sua população dobrar ou triplicar — explica a professora Catherine Barnard, especialista em leis europeias da Universidade de Cambridge.

Em 1975, um plebiscito discutiu se os britânicos deveriam ficar na Comunidade Econômica Europeia, precursora da UE. Mais de 65% votaram “sim”, mas o euroceticismo nunca morreu. Info Brexit - Ficha Reino Unido

oglobo.globo.com | 19-06-2016

LONDRES - A maioria dos economistas prevê um longo período de indefinições e paralisia para o Reino Unido caso o Brexit vença o plebiscito do dia 23. Ninguém sabe ao certo como seriam as negociações para que os britânicos mantenham as relações comerciais com os vizinhos europeus fora da União Europeia, mas não existem saídas fáceis. O primeiro-ministro David Cameron adiantou que serão necessários, provavelmente, anos de debates, deixando os britânicos num limbo comercial e provocando o que ele classificou como “uma década perdida”. BREXIT CONTEÚDO PAPEL

Os adversários de Cameron o acusam de estar tentando espalhar o pânico para evitar a saída britânica da UE, mas instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco da Inglaterra e a Organização Mundial do Comércio (OMC) reforçaram as previsões negativas para a economia, assim como líderes mundiais, da chanceler federal alemã Angela Merkel ao presidente americano Barack Obama. O FMI calcula uma recessão de três trimestres consecutivos e a OMC acredita que exportadores britânicos poderiam ter que pagar até US$ 8,15 bilhões em tarifas para continuar tendo acesso a um mercado consumidor de 500 milhões de pessoas. O Tesouro britânico fala em queda de 3,6% a 6% do Produto Interno Bruto (PIB) e um desemprego que afetaria entre 500 mil e 800 mil pessoas.

— O que podemos dizer é que foram divulgados sete grandes relatórios sobre o impacto do Brexit. Seis deles previram consequências negativas. Portanto, a maioria dos especialistas espera um custo, mas ainda não sabemos sua dimensão. Calcula-se entre 2 mil e 4 mil libras por família (entre R$ 10 mil e R$ 19 mil) — avalia Catherine Barnard, especialista em leis da Universidade de Cambridge.

O bloco europeu é o principal parceiro comercial do Reino Unido, e a revisão de laços comerciais não seria um processo simples. Obama deixou claro que os britânicos não terão prioridade na negociação de acordos bilaterais, ao contrário do que pregam os partidários do Brexit.

Defensores criticam estratégia do medo

Para os defensores da saída da UE, os números fazem parte de uma “estratégia do medo” adotada por Cameron para assustar a população. Eles insistem que outros países, como Suíça e Noruega, continuam a manter relações comerciais com o mercado único mesmo não sendo Estados-membros da UE, e apostam que as empresas nacionais vão se beneficiar se puderem operar sem as amarras burocráticas do bloco. Além disso, repetiram durante toda a campanha que o Reino Unido paga para os cofres de Bruxelas 350 milhões de libras por semana, quantia que poderia ser aplicada na melhoria do sistema público de saúde (NHS). A cifra foi desmentida por diferentes fontes, já que não leva em conta o desconto ao qual os britânicos têm direito, um mecanismo negociado durante o governo de Margaret Thatcher (1979-1990). Com as deduções, a cifra cai à metade.

Info Brexit - Balança comercial em jogo

Em Londres, grandes empresas se preparam para um período de volatilidade nos mercados e desvalorização da libra se o Brexit vencer, e já fazem reservas da moeda. Diferentes institutos de estudos econômicos na capital concordam que, para continuar a negociar com a UE, o Reino Unido teria que seguir as regras de exportação do bloco, só que no período pós-Brexit não teriam direito a participar das discussões que decidem as regras. Mesmo entre os eurocéticos, que defendem uma reforma da UE, os riscos de uma saída não compensam.

— Estamos entrando numa era em que o mundo está sujeito a riscos políticos e econômicos como jamais vimos nas últimas décadas. Adicionar incertezas a esses riscos, sem qualquer ideia clara quanto a um plano alternativo, é irresponsável e potencialmente perigoso — disse o ex-chanceler William Hague a uma plateia de convidados no Instituto Real de Assuntos Internacionais, em Londres.

O ceticismo em relação à integração europeia não é novo entre os britânicos, que sempre foram mais críticos à UE do que seus vizinhos. Com o crescimento da extrema-direita, esse sentimento ganhou força e levou Cameron a convocar o referendo, pressionado também pela ala mais conservadora de seu partido. A oposição de esquerda, representada pelos trabalhistas, manteve certa distância da discussão sobre o referendo que rachou os conservadores e só demonstrou maior engajamento, assumindo posição contrária à saída da UE, na reta final da campanha. Info Brexit - Os empregos dependentes da UE

oglobo.globo.com | 19-06-2016

Os juros futuros de curto prazo encerraram com viés de alta e os longos recuaram nesta sexta-feira, 17. A percepção de que o referendo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia (UE), que tem sido chamado de risco Brexit, marcado para o dia 23, pode ser adiado ganhou força de ontem para hoje e favoreceu a redução da aversão ao risco nos mercados. No período da tarde, afirmações do secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, Mansueto Almeida, negando que o País repetiria em 2017 o déficit primário de R$ 170,5 bilhões esperado para este ano corroboraram o alívio das taxas longas.

Ao término da negociação regular, o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2017 indicou 13,785% (145.465 contratos), de 13,775% no ajuste anterior. O DI janeiro de 2018 (174.170 contratos) passou de 12,77% para 12,78%. Com 126.630 contratos, o DI janeiro de 2019 caiu de 12,59% para 12,54%. O DI janeiro de 2021 (102.040 contratos) terminou em 12,62%, de 12,70%.

"Como houve suspensão da campanha pelo segundo dia, há informações de que o referendo poderia ser adiado, o que está favorecendo a melhora dos ativos, com o dólar recuando fortemente. Nesse cenário, os longos caem", disse Luciano Rostagno, estrategista-chefe do Banco Mizuho.

No front doméstico, as afirmações de Mansueto sobre a meta fiscal de 2017 no começo da tarde foram bem recebidas. "Não sei de onde tiraram esse número, porque na Fazenda estamos rodando os modelos hoje", disse o secretário, que participou nesta sexta-feira de reunião mensal de Conjuntura Econômica da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da Universidade de São Paulo (USP), referindo-se à notícia veiculada hoje na imprensa segundo a qual o País repetiria em 2017 o déficit primário de R$ 170,5 bilhões previsto na meta de 2016.

As taxas curtas oscilaram em alta, refletindo os receios com a inflação de curto prazo neste início da era Ilan Goldfajn no Banco Central, já que o tema será tratado no Relatório Trimestral de Inflação (RTI) que sai no fim do mês. Hoje, mais um índice de inflação no atacado veio salgado e reforçou a avaliação de que a pressão logo chegará ao consumidor. O IGP-M subiu 1,33% na segunda prévia de junho, ante avanço de 0,68% na segunda prévia do mesmo índice de maio, informou a Fundação Getulio Vargas (FGV).

BIRSTALL, Reino Unido - O assassinato da deputada trabalhista Jo Cox — baleada e esfaqueada na cidade de Birstall, perto de Leeds — pode embaralhar ainda mais a campanha pelo referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia, que acontece daqui a uma semana. Imediatamente após o ataque, atos de campanha dos dois lados foram suspensos e o próprio primeiro-ministro David Cameron, defensor da permanência britânica no bloco, cancelou o discurso que faria em Gibraltar. Autoridades ainda não confirmaram, mas testemunhas garantem que o agressor teria gritado repetidamente “Reino Unido primeiro!” no momento do ataque. O suspeito, que foi preso, seria Thomas Mair, de 52 anos, identificado por moradores de Birstall.

— Nós perdemos uma grande estrela — lamentou Cameron, ontem. — Tinha um grande coração, era muito compassiva.

A expressão “Reino Unido primeiro” (Britain First) pode ser uma possível referência ao referendo — trata-se do slogan dos que defendem a saída do Reino Unido da UE — ou a um partido nacionalista de extrema-direita britânico criado em 2011, que defende políticas anti-imigração. Estrela em ascensão no Partido Trabalhista, a deputada defendia a permanência do país no bloco e, recentemente, havia pedido aos britânicos que votassem contra o Brexit — a proposta de saída da UE. jo cox

“Todo o Partido Trabalhista e a família dos trabalhistas, e de fato todo o país, guardaremos o choque do assassinato horrendo de Jo Cox”, disse o líder da legenda, Jeremy Corbyn, em comunicado.

A deputada, que iria completar 42 anos na próxima quarta-feira, estava nas escadas da biblioteca da cidade quando foi atingida, após participar de um evento no local. Um homem de 77 anos também ficou ferido no ataque. Golpeada com uma faca de 30 centímetros, Cox foi também atingida por três tiros no corpo e no rosto e já estava em parada cardíaca quando a assistência médica chegou. Foi declarada morta horas depois, já no hospital de Leeds.

— Vi um homem na casa dos 50 com um boné branco, casaco e um tipo de arma antiga na mão — contou à BBC Clarke Rothwell, dono do café no outro lado da rua. — Ele disparou mais de uma vez contra a mulher, caiu no chão sobre ela e disparou outra vez no rosto. Alguém tentou agarrá-lo, e ambos lutaram. Depois ele pegou uma espécie de faca de caça e começou a esfaqueá-la várias vezes.

Outras testemunhas, no entanto, afirmam que a deputada tentou intervir em uma briga entre duas pessoas e acabou sendo atacada.

Suspeito tinha problemas mentais

O irmão do suspeito contou que Mair já teve problemas mentais, mas nunca tinha se mostrado violento ou politicamente engajado. Pelos vizinhos, ele foi descrito como solitário, prestativo e discreto. Embora a polícia ainda não tenha confirmado o nome do detido, sua casa foi revistada. Ele mora sozinho e não costuma receber visitas.

— Ele tem um histórico de doença mental, mas já teve ajuda. Estou lutando para acreditar no que aconteceu. Meu irmão não é violento e nada político. Eu nem sei em quem ele vota — disse Scott Mair ao jornal “Telegraph”.

Até agora, a polícia não falou sobre as possíveis causas do ataque, mas há razões para acreditar que o crime tenha contornos políticos. Jayda Fransen, vice-líder do Britain First, se disse horrorizada e lembrou que, por enquanto, há apenas boatos sobre as motivações do agressor.

— Estamos extremamente chocados de ver estes relatos e estamos empenhados em confirmá-los porque, é claro, por enquanto são apenas boatos. Não é o tipo de comportamento que toleraríamos.

A vítima não podia estar mais distante do eleitorado anti-imigração. Além de ser uma forte apoiadora da permanência do Reino Unido na UE, defendia uma política mais abrangente e, recentemente, discursou na Câmara dos Comuns pedindo o acolhimento das três mil crianças sírias que chegaram sozinhas à Europa. Em sua estreia no Parlamento, em 2015, fez um forte discurso a favor da imigração e da diversidade — e se absteve em uma votação sobre uma polêmica ação militar britânica na Síria. Ela também era copresidente do grupo parlamentar Amigos da Síria, e integrante ativa de conselhos que trabalhavam em temas relacionados com Palestina, Paquistão e Cachemira.

— Nossas comunidades têm sido profundamente reforçadas pela imigração, seja de católicos irlandeses ou de muçulmanos da Índia ou do Paquistão — disse ela, em sua estreia no Parlamento.

A uma semana do referendo, pesquisas mostram que 20% dos britânicos ainda estão indecisos, e especula-se que o crime brutal possa ter alguma interferência entre o eleitorado.

— Até que esteja claro quem foi responsável e qual foi ou pode ter sido a motivação, isso só serve para interromper a campanha, embora o lado do “fica” provavelmente não quisesse que ela fosse interrompida — disse John Curtice, professor de Política da Universidade de Strathclyde.

Ativista a favor da imigração

Mãe de duas filhas de 3 e 5 anos e casada com Brendan Cox, Jo Cox dividia seu tempo entre o barco atracado no Rio Tâmisa, onde vivia em Londres, e sua casa em Batley e Spen, distrito do Norte do país. Ontem, centenas de pessoas lotaram a igreja de Birstall para prestar homenagens à deputada.

— Ela cresceu nesta comunidade, vivia para esta comunidade e, no fim, deu sua vida para esta comunidade — afirmou o reverendo Jonathan Gibbs.

“Jo acreditava em um mundo melhor e lutou por isso com uma energia e zelo que teria esgotado a maioria das pessoas”, disse Brendan em nota.

A deputada vinha do mundo do ativismo. Seu vínculo com a Europa aumentou nos anos em que viveu em Bruxelas, a serviço de Glenys Kinnock — eurodeputada e secretária de Estado para a Europa do governo de Gordon Brown. Também passou uma década trabalhando para a ONG Oxfam. Em 2008, colaborou na campanha do presidente Barack Obama.

oglobo.globo.com | 17-06-2016

NOVA YORK — Depois da crise financeira de 2008, em 10 economias importantes do mundo, inclusive os EUA, houve uma queda no investimento no setor da infraestrutura — ora urgente de melhorias — segundo um novo estudo do McKinsey Global Institute. A China, enquanto isso, avança a todo vapor nas obras de rodovias, pontes, redes de esgoto.

China 15-06

“A China gasta mais em infraestrutura econômica por ano do que a América do Norte e a Europa Ocidental juntas”, registra o relatório publicado na quarta-feira.

Economistas de todo o mundo argumentam que este é um ótimo momento para investir em infraestrutura porque as taxas de juros estão superbaixas e a economia global poderia se valer do choque de investimentos. “Alguém está orgulhoso do aeroporto Kennedy?”, pergunta o economista da Universidade de Harvard Lawrence Summers.

O relatório do MGI cita 10 países nos quais o investimento em infraestrutura caiu enquanto parcela do Produto Interno Bruto (soma das riquezas nacionais) entre 2008 e 2013: EUA, Reino Unido, Itália, Austrália, Coreia do Sul, Brasil, Índia, Rússia, México e Arábia Saudita. (O estudo abrange 11 economias porque lista a União Europeia como uma entidade separada.) Em contraste, diz o instituto, o investimento em infraestrutura cresceu enquanto fatia do PIB no Japão, Alemanha, França, Canadá, Turquia, África do Sul e China.

No entanto, existe uma espécie de investimento excessivo em infraestrutura. Pelo ritmo de investimento atual, a China, o Japão e a Austrália provavelmente superarão suas necessidades até 2030, projeta o grupo afiliado à McKinsey & Company.

Para financiar mais infraestrutura pública, o relatório sugere a elevação das cobranças aos usuários, como pedágios em rodovias, entre outras medidas. Já para incentivar um maior investimento privado em infraestrutura, o MGI defende o aumento da “certeza regulatória” e que se dê aos investidores “a capacidade de cobrar preços que produzam um retorno aceitável ajustado ao risco”.

oglobo.globo.com | 15-06-2016

RIO - O Brasil caiu uma posição no índice Soft Power 30, que mede o poder de influência a nível global, e alcançou o 24º lugar. O ranking aponta os 30 países com maior capacidade de convencimento a partir dos critérios governo, educação, cultura, inovação e empreendedorismo, inserção digital e engajamento internacional.

Segundo a Portland, consultoria de comunicação estratégica responsável pelo estudo, o subíndice no qual o Brasil apresentou a maior queda foi o referente ao governo. Além dos escândalos de corrupção e o afastamento da presidente Dilma Rousseff, outra razão que explica o pior desempenho no quesito, que avalia os valores políticos e os efeitos das políticas públicas, foi a lentidão na tomada de medidas para combater o vírus da zika.

A epidemia também prejudicou o subíndice da cultura, que caiu duas posições. Mesmo com pontos fortes como o futebol ou o samba, o receio em relação ao vírus e o possível impacto nos Jogos Olímpicos comprometeram a avaliação neste ano.

Entretanto, o Brasil apareceu pela primeira vez entre os dez primeiros na categoria engajamento, que qualifica o alcance das redes diplomáticas dos países, contribuição para a comunidade internacional e comprometimento com os grandes desafios globais, como o desenvolvimento sustentável. Além de ser o país sul americano em melhor classificação, o Brasil subiu três posições, do 13º lugar para 10º lugar neste setor.

A primeira colocação no ranking ficou com os Estados Unidos, que subiram duas posições e ultrapassaram o Reino Unido e a Alemanha. A influência americana se destaca principalmente na educação, cultura e inovação. A pesquisa também infere que a queda do Reino Unido deve-se ao Brexit e a incerteza em relação à posição global do país com uma eventual saída da União Europeia.

Outros destaques são a China — que apresentou considerável avanço no subíndice da cultura, apesar de ainda apresentar uma baixa pontuação na avaliação política — e o aparecimento da Rússia e da Argentina entre os 30 primeiros países pela primeira vez.

oglobo.globo.com | 14-06-2016

LONDRES — Boris Johnson é uma figura que parece confundir os analistas britânicos. Para uns, ele não passa de um palhaço narcisista que sabe dominar uma plateia, mas não deve ser levado a sério. Para outros, o parlamentar e ex-prefeito de Londres é um dos mais brilhantes estrategistas a surgir na cena política local nos últimos anos e suas ambições não podem ser desprezadas. O populista Boris (ninguém o chama pelo sobrenome), ou BoJo, como preferem os tabloides, se transformou na maior estrela da campanha pela saída do Reino Unido da União Europeia, tema que será decidido em plebiscito no próximo dia 23. As pesquisas mostram um eleitorado dividido, com ligeira vantagem para o grupo que defende a permanência na UE, encabeçado pelo premier David Cameron. A única certeza, por enquanto, é que o embate entre Boris e Cameron vai decidir o futuro do Partido Conservador e, provavelmente, do governo britânico.

A adesão de Boris à campanha pelo Brexit — junção de Britain com exit (saída) — complicou a vida de Cameron e acentuou o racha entre os conservadores. Os dois se dizem amigos, mas têm uma rivalidade histórica. Estudaram juntos em Eton, escola só para meninos famosa por receber os membros da nobreza e por formar futuros primeiros-ministros, e na Universidade de Oxford. Cameron, mais disciplinado, saiu com notas melhores, mas perdeu feio no quesito popularidade. Boris, sua cabeleira loura desgrenhada, sua disposição para debater em público e desconcertar os rivais com piadas sempre hipnotizaram o público. Um de seus ex-chefes, Conrad Black, ex-proprietário do grupo de mídia Telegraph quando Boris era jornalista, o definiu como uma “raposa em pele de ursinho de pelúcia”.

FATOS DISTORCIDOS

Embora ele não assuma publicamente, analistas apostam que Boris quer disputar o cargo de premier. Nas últimas semanas, o político, de 51 anos, dominou o noticiário sobre o plebiscito. Ao criticar os poderes da UE, a qual considera uma instituição tirana, o ex-prefeito comparou o bloco a Hitler e Napoleão, que também tentaram criar impérios. Para ele, a crise na Ucrânia não é culpa da Rússia, e sim resultado das fracassadas políticas de defesa da UE. E para provar o quanto a soberania estaria ameaçada pelas ordens de Bruxelas, apelou, alegando que pelas regras europeias é proibido vender cachos de banana com mais de “duas ou três unidades”.

Não é verdade, mas esse tipo de estratégia não chega a surpreender. Ele começou a carreira como jornalista e ficou conhecido por distorcer os fatos. Mesmo assim, virou uma celebridade como correspondente do “Daily Telegraph” em Bruxelas nos anos 90, quando escrevia artigos de grande repercussão contra a Comissão Europeia. Na volta a Londres, mostrou ser imbatível em talk-shows e virou editor da “Spectator”, a revista semanal dos conservadores, que lhe abriu as portas da vida política. Ao ser eleito prefeito da capital, muitos previram uma administração desastrosa, mas depois de dois mandatos — sempre pedalando para chegar ao trabalho — deixou o cargo com índices de aprovação acima de 50%. Apesar das controvérsias, Boris é, em geral, recebido como ídolo quando desembarca do ônibus da campanha pelo Brexit. Suas gafes alimentam memes, como uma exibição de rugby em que deveria mostrar suas habilidades, mas acabou passando por cima de um menino de 10 anos, que ficou estirado no chão.

—Ele ajuda a campanha porque chama a atenção para a causa dos que defendem a saída da UE. O problema é que tende a exagerar as alegações, e o resultado é a perda de credibilidade. Ele é um eurocético, mas a decisão de aderir ao Brexit foi baseada no desejo de ser o próximo líder do Partido Conservador — diz Martin Smith, professor de Política da Universidade de York.

A imigração é um dos principais temas do debate em torno do plebiscito. Embora sempre tenha se declarado a favor, Boris, que tem pais ingleses, raízes turcas e passaporte americano, vem repetindo que, se não saírem do bloco, os britânicos enfrentarão o aumento descontrolado de imigrantes. O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, comparou-o ao republicano Donald Trump, ao ultradireitista francês Jean-Marie Le Pen e ao político italiano Beppe Grillo, conhecido pelas piadas racistas. No Twitter, Juncker atacou: “2017 com Trump, Le Pen, Boris Johnson e Grillo? Um cenário de horror que deixa claro por que vale lutar contra o populismo”.

Na cidade de Bristol, ativistas do grupo We are Europe (Nós somos a Europa) pintaram um mural onde se vê Trump e Boris se beijando. A pintura “O beijo da morte” é uma tentativa de convencer os eleitores jovens a participar do plebiscito.

— As pesquisas estão apertadas. Não votar significa ajudar o voto pela saída da UE e por um mundo em que esses dois caras estarão no poder — disse Harriet Kingaby, porta-voz do coletivo.

Boris já definiu Trump como “ignorante” por suas declarações contra muçulmanos. No entanto, ele também foi acusado de preconceito ao sugerir que o presidente Barack Obama tem aversão ao Império Britânico devido às suas raízes quenianas. Obama defendeu a permanência do Reino Unido na UE, advertindo que é o bloco que fortalece a liderança global britânica.

No livro “Just Boris” (Apenas Boris), a jornalista Sonia Purnell, que trabalhou com o ex-prefeito no “Telegraph” em Bruxelas, o descreve como “o mais incomum, porém atraente político da era pós-Tony Blair”. A biografia, que irritou o parlamentar, retrata um homem inconsistente, que encara a vida como uma competição e tem um inexplicável poder de sobreviver a crises. Em entrevista à BBC, sua irmã, Rachel, contou que o irmão nunca aceitou derrotas. Quando era pequeno e lhe perguntavam o que queria ser, respondia: “Rei do mundo”.

oglobo.globo.com | 29-05-2016

RIO e ISE-SHIMA (Japão) - Conhecida pelas leis do trabalho mais protetivas do mundo, e pela resistência a mudanças, a França se prepara para implementar uma das mais ambiciosas reformas de sua história econômica: a flexibilização da legislação trabalhista. Subvertendo a cartilha do Partido Socialista e dos fortes sindicatos franceses, o governo do presidente François Hollande admitiu que a rigidez das regras é um entrave à competitividade e decidiu abraçar mudanças já implementadas pelos seus principais pares europeus — Alemanha, Reino Unido, Espanha e Itália. Para especialistas, o acirrado debate na França antecipa as discussões nas quais o Brasil mergulhará, após as propostas de reformas e revisão dos gastos encaminhada pelo presidente interino, Michel Temer.

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Na sexta-feira, após reunião do G-7, no Japão, Hollande garantiu que não recuará da revisão das leis:

— Acredito que é uma boa reforma e devemos continuar até sua adoção.

Às vésperas da campanha presidencial, em 2017, porém, o debate sobre mudanças estruturais na França não se restringe à reforma trabalhista. Alain Jupeé, provável candidato de centro-direita à presidência, tem afirmado que o ajuste precisa ser mais duro, com corte de gastos e de funcionários públicos e aumento da idade mínima de aposentadoria de 62 para 65 anos.

Quase todos os países europeus fizeram reformas para elevar a idade mínima, ao longo do tempo, para 65, 67 e até 68 anos. A França é exceção. Istvan Kasznar, economista da Fundação Getulio Vargas (FGV), diz que a mudança é urgente:

— A França vive, desde o fim dos anos 70, um envelhecimento populacional, e a sua capacidade de criar receitas para essa Previdência se limitou.

Para o economista Paulo Tafner, ao adiar a correção do déficit, cria-se um problema futuro:

— É uma irresponsabilidade, pois o jovem de hoje vai pagar a conta. Quando ele se aposentar, corre o risco de encontrar um país sem recursos.

Para especialistas, a França, tardiamente, se depara com os dilemas que o restante da União Europeia enfrenta desde a crise de 2008, que levou à bancarrota Estados com máquina pública inchada, orçamentos estourados e alto grau de endividamento. O ajuste foi severo desde então, com cortes de gastos e revisões gerais de legislações — especialmente a trabalhista e a previdenciária.

No caso mais emblemático, a Grécia, falida, foi obrigada a diminuir salários do funcionalismo, aumentar contribuições previdenciárias e reduzir benefícios pagos. A Espanha facilitou demissões coletivas e permitiu redução de jornada e salários, voltando a crescer.

A situação da França não é tão crítica. Mas o país está perdendo terreno aceleradamente para a Alemanha, que aproveitou o processo de unificação, nos anos 1990, para realizar um duro ajuste, que a consolidou como principal potência europeia, com economia em expansão e baixo desemprego — na França, a taxa chega a 10%.

— A Alemanha, após a reunificação, passou dez anos fazendo reformas. Controlou salários, reformulou a política industrial, reorganizou a economia. Quem mais cresce na Europa agora? — indaga a economista Monica de Bolle.

Esta semana, o FMI divulgou que a França deve crescer apenas 1,75% ao ano nos próximos cinco anos. Ressaltou que o ritmo não será suficiente para criar empregos e reduzir a dívida: “A economia francesa está se recuperando, mas maiores esforços ainda são necessários para criar empregos e colocar as finanças públicas em uma trajetória mais sustentável”.

A reforma trabalhista é uma opção clara no plano de recuperação da França. Um dos principais pontos é permitir que a sagrada jornada de 35 horas de trabalho semanais possa ser estendida para 48 ou até 60 horas. Demissões em empresas cujas receitas caiam por quatro trimestres passam a ser admitidas, e o pagamento de hora extra será flexibilizado.

Monica de Bolle argumenta que o Brasil tem muito a aprender com a França: ajustes devem ser feitos para ganhos de longo prazo. Temer parece ter optado por este caminho. Na posse, indicou que enviará as reformas trabalhista e da Previdência ao Congresso, com flexibilização de jornada e salários e a adoção de idade mínima para a aposentadoria. Esta semana, propôs uma revisão profunda nos gastos sociais, com desvinculação das despesas com saúde, educação e benefícios previdenciários.

Na avaliação do economista Manuel Thedim, do Iets, o desafio enfrentado por Hollande antecipa o debate no qual o Brasil vai mergulhar:

— No Brasil, essas duas reformas também são essenciais, pois temos problemas semelhantes: desemprego de dois dígitos e déficit da Previdência. Acredito que vai ter reação muito forte dos sindicatos apoiados pelo PT. Mas, diferentemente da França, aqui são menos organizados, e Temer parece ter apoio do Congresso.

Monica de Bolle concorda:

— No Brasil, não é mais possível ignorar as reformas necessárias. Elas estão em todas as áreas da economia. Quanto maior a demora em realizá-las, maiores os cortes a serem feitos.

oglobo.globo.com | 28-05-2016

Ainda há os que pensam que tudo que é bom para os EUA é bom para o Brasil. Os adeptos dessa tese agora cultuam a Parceria Comercial Transpacífica (TPP), lançada pelos EUA em nome dos benefícios “incondicionais” do livre comércio. Trata-se o acordo como se fosse revolucionário e inovador, mas há vários questionamentos, inclusive de setores organizados da sociedade americana.

A TPP casa-se com a Parceria Transatlântica de Comércio e Investimentos (TTIP), entre EUA e União Europeia. Dois mega acordos que deixam os EUA como ator central na economia mundial e englobam cerca de metade do comércio do planeta. É, de fato, o resgate da hegemonia do eixo EUA, UE e Japão, frente a novos atores como China e os emergentes (inclusive o Brics) que ameaçam a velha ordem.

O objetivo maior é adequar a economia mundial aos interesses das multinacionais da tríade, num momento de incertezas econômicas. Busca-se enfraquecer os emergentes e e consolidar os interesses geoestratégicos dos EUA. A bandeira do livre comércio é pura balela, já que a média das tarifas comerciais aplicadas entre os pretendentes à TPP já é bem baixa.

Trata-se de uma espécie de mega-Alca, o famigerado projeto enterrado há doze anos. Quer-se abrir o setor de serviços — o que mais cresce e gera empregos no mundo — nos países emergentes e em alguns desenvolvidos , com privilégios especiais ao setor financeiro. Preconiza-se a abertura de soberania, com condicionantes que impeçam a aplicação de legislação nacional ou restrições a bancos e outras instituições. Os emergentes ficariam sem instrumentos para enfrentar ataques especulativos contra as moedas, por exemplo. Uma ditadura do capital financeiro. O pacote inclui a abertura de setores estratégicos como educação, saúde, comunicações etc.

Pela TPP, os EUA reafirmam a intenção de abrir o setor de compras governamentais, de grande importância para estimular o mercado interno. Naturalmente, os emergentes teriam poucas condições de competir com as potências. No caso do Brasil, essa medida inviabilizaria a política de conteúdo nacional da Petrobras, que impulsiona a indústria naval e gera renda e empregos localmente. Em resumo, conferem-se privilégios abusivos a estrangeiros, inclusive com a possibilidade de impor arbitragens internacionais, em detrimento dos Estados nacionais.

Argumenta-se que não podemos ficar de fora das “cadeias produtivas globais” e critica-se nossa opção pelo Mercosul e nossa política externa. Análise errada. Nossa política não é isolacionista, e foi nos últimos 11 anos que nossa participação no comércio mundial passou de 0,88% para 1,46% — 63% de aumento. Nos últimos três anos, diminuiu, devido à crise mundial e a sobrevalorização do câmbio, mas não por causa do Mercosul. Interesse nacional vale. Os EUA que o digam.

Sibá Machado é deputado federal é deputado federal (PT-AC)

oglobo.globo.com | 27-05-2016

RIO - O aumento do desemprego e os cortes na saúde, consequências da crise financeira de 2008, teriam contribuído para um aumento da mortalidade por câncer, matando mais de 500.000 pessoas no mundo, diz um estudo publicado nesta quinta-feira.

"Associamos a recente crise econômica a 260 mil mortes adicionais por câncer nos países da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômicos) entre 2008 e 2010, sendo 160 mil delas na União Europeia", afirma o trabalho, publicado na revista britânica "The Lancet".

cancer

"Em nível mundial, são mais de 500 mil mortes além do normal por câncer nesse período de dois anos", disse à agência de notícias AFP o doutor Mahiben Maruthappu, do Imperial College de Londres e líder da pesquisa.

Em 2012, a doença causou 8,2 milhões de mortes e é uma das maiores causas de mortes no mundo.

"Verificou-se que o aumento do desemprego foi associado com um aumento da mortalidade por câncer, porque a cobertura de saúde geral protegia a população e foi cortada em medidas de austeridade. Em particular, no caso de cânceres em que há um tratamento, como de mama, próstata ou colorretal ", acrescenta o cientista. Para ele, as economias na área matam.

Desemprego e mortalidade

O trabalho usou dados do Banco Mundial e da Organização Mundial de Saúde. As informações permitiram fazer uma ligação entre desemprego, cortes na saúde e mortalidade por câncer em mais de 70 países, analisando dados de mais de 2 bilhões de pessoas. Eles foram baseados em tendências entre 1990 e 2010.

Os casos de câncer são divididos em duas categorias: "aqueles que podem ser tratados", cuja taxa de sobrevivência é superior a 50%, e "incurável", cuja melhoria é inferior a 10%. A relação entre o desemprego e o excesso de mortalidade é mais importante exatamente nos que podem ser tratados.

Os cientistas apontam que um aumento de 1% no desemprego está associado com mais 0,37 mortes por câncer por 100.000 habitantes. Um aumento de 1% nos cortes no orçamento da saúde (em percentagem do Produto Interno Bruto) é associado com mortes adicionais de 0,0053.

Nos Estados Unidos, eles foram registrados 18 mil casos adicionais e na França, 1.500 mortes.

"Em países onde não há cobertura de saúde geral, o acesso ao tratamento muitas vezes depende do contrato de trabalho. Sem emprego, os pacientes são diagnosticados provavelmente mais tarde e receber tratamento inadequado ou atrasado", disse o professor Rifat Atun, da Universidade de Harvard e participante do estudo.

oglobo.globo.com | 26-05-2016

MUKACHEVO, UCRÂNIA – Antes de percorrer as trilhas e encostas nevadas, boa parte dos esquis do mundo começa a vida nessa fábrica enorme no oeste da Ucrânia.

Aqui, trabalhadores habilidosos combinam fitas flexíveis de fibra de carbono e chapas de titânio rígido, empilhando tudo como em uma espécie de bolo e prensando sob o calor das máquinas, dando forma e polimento até que se tornem os esquis utilizados na prática de cross-country ou downhill.

Aqui, os trabalhadores também usam vapor para dobrar a madeira e fabricar os tacos utilizados por jogadores de hóquei do mundo todo, vendidos por marcas como Nike e Oxelo.

A proprietária austríaca da fábrica, a Fischer Sports, paga o equivalente a US$307 ao mês em média aos funcionários – cerca de um oitavo do valor pago a operadores de máquinas e marceneiros experientes na sede da Fischer.

E desde janeiro deste ano, quando um novo pacto de livre comércio foi firmado entre a Ucrânia e os 28 países da União Europeia, os custos da Fischer caíram ainda mais com a eliminação das tarifas sobre o maquinário e as matérias primas que vão até a fábrica, bem como sobre os produtos finalizados, que são comercializados no restante do continente.

O pagamento pode parecer ruim para os padrões ocidentais, mas os 1.500 funcionários da fábrica veem os empregos como uma oportunidade. A Ucrânia é um dos países mais pobres do Hemisfério Norte, com uma economia que gera menos de US$3.100 per capita ao ano.

— A Europa é nosso futuro — afirmou Yuri V. Oros, operador de máquinas na linha de esquis.

Porém, o futuro sofre com o passado problemático do país e o conflito da Ucrânia com a Rússia. Agora, o nacionalismo ameaça a solidariedade da União Europeia. Em um referendo votado recentemente pela Holanda, por exemplo, quase dois terços dos eleitores holandeses pediram para que o governo deixe de apoiar o pacto com a Ucrânia.

E embora a Fischer e outras multinacionais, incluindo a Nexans, uma fabricante francesa de cabos elétricos, tenham investido em fábricas na Ucrânia para tirar proveito do acordo de livre comércio, muitas outras empresas ainda têm medo de se arriscar nessa antiga república soviética.

Por isso, não se sabe ao certo quais serão os benefícios do pacto comercial para além da região mais ocidental da Ucrânia, na divisa com a Polônia, onde boa parte dessas fábricas está se instalando, ou na economia desse país de 44,4 milhões de habitantes, dos quais cerca de cinco milhões vivem atualmente em áreas requisitadas pela Rússia, ou por separatistas pró-Rússia.

— Vamos ouvir falar de histórias de sucesso aqui e ali, mas ainda é cedo demais para falar em um sucesso real —afirmou Tymofiy S. Mylovanov, presidente da Escola de Economia de Kiev.

No geral, afirmou Mylovanov, a economia ucraniana mal está crescendo, afetada pela baixa produtividade dos trabalhadores e pela corrupção generalizada. Segundo ele, somente no longo prazo o acordo comercial poderá tirar os ucranianos da pobreza.

O acordo, conhecido como Acordo de Associação com a União Europeia, já percorreu um caminho tortuoso. Depois que um ex-presidente ucraniano o rejeitou em 2013, optando por um acordo com Moscou, cidadãos pró-Europa tomaram as ruas de Kiev em protestos que levaram a uma revolução.

O novo governo em Kiev assinou o acordo com a União Europeia em março de 2014. Mas naquele mesmo mês a Rússia anexou a província ucraniana da Crimeia, levando a uma guerra civil incitada pela Rússia no leste da Ucrânia.

Quando o acordo com a União Europeia entrou em vigor conforme o esperado, muitos ucranianos estavam tão distraídos ou desmoralizados pela guerra e pelos anos de recessão, que praticamente não notaram.

Ainda assim, aqui em Mukachevo, uma cidade pitoresca de ruas de paralelepípedos e um castelo do século XIV construído pelo Império Austro-Húngaro, a fábrica da Fischer representa um sinal de como poderia ser um futuro de maior integração com o restante Europa.

A subsidiária da Fischer na Ucrânia não revela números de faturamento, mas os executivos afirmam que os benefícios do pacto comercial devem representar um aumento de US$565 mil no lucro da fábrica este ano.

— A Ucrânia tem todas as condições iniciais para o investimento — afirmou Vasyl Ryabych, diretor da fábrica, em uma entrevista concedida em seu escritório, com vista para os jardins da fábrica e seus roseirais.

De forma similar a quando o Acordo de Livre Comércio da América do Norte, firmado em 1994, levou a um aumento no número de fábricas leves – conhecidas como “maquiladoras” – na fronteira do México com os Estados Unidos, o acordo de associação deve encorajar o desenvolvimento ao longo das fronteiras da Ucrânia com a União Europeia. Em troca, a Ucrânia fica obrigada a alterar as políticas econômicas por meio de medidas que modificam o judiciário, além de uma reforma nas regras para a concessão de contratos estatais.

A fábrica da Fischer é apenas um dos sinais do investimento estrangeiro surgindo ao redor de Lviv, a capital regional da Ucrânia ocidental.

A francesa Nexans alugou terras nos arredores de Lviv, onde planeja gastar US$4,7 milhões em uma fábrica que empregaria duas mil pessoas na fabricação de cabos elétricos para automóveis. Outra fábrica da Nexans já está produzindo cabos elétricos para a BMW, a General Motors e outras montadoras na região.

A Leoni, concorrente alemã da Nexans, conta com uma fábrica em Stryi, na região de Lviv, produzindo cabos para a Volkswagen, Opel, Porsche e outras montadoras.

Além disso, no ano passado, a Fujikura, fábrica japonesa de componentes automotivos, anunciou planos de abrir uma fábrica nos próximos três anos, empregando mais 3 mil ucranianos.

— A economia está se voltando para a Europa — afirmou Veronika Movchan, economista da VoxUkraine, um grupo de pesquisa com sede em Kiev.

A mudança em favor do Ocidente aumentou o comércio da Ucrânia com a União Europeia para mais de um terço do total de exportações e importações do país, se comparado a menos de um quarto em 2012.

Entretanto, durante o mesmo período as exportações para a Rússia caíram de mais da metade para apenas 12,7 por cento – um número que pode piorar ainda mais, já que Moscou aumentou as tarifas sobre produtos ucranianos, em retaliação ao pacto comercial com a Europa.

Além disso, o fim dos impostos comerciais em transações com a União Europeia representa uma faca de dois gumes: à medida que mais produtos europeus competem com produtos locais, a Ucrânia pode ser incapaz de sustentar até mesmo a modesta previsão de crescimento de um por cento este ano, de acordo com alguns economistas.

O pacto comercial também criou restrições rígidas sobre produtos agrícolas importados pela União Europeia, apesar de a agricultura ser um dos pontos fortes da Ucrânia. As cotas para importação de mel livre de tarifas são tão baixas, por exemplo, que os apicultores ucranianos estouraram o limite nas seis primeiras semanas do ano.

— Se a Ucrânia tem qualquer esperança, ela está na agricultura. Mas o fato de já terem utilizado boa parte das cotas anuais sugere que o acordo não teve o efeito desejado — afirmou Ivan Tchakarov, economista chefe de Estados da antiga União Soviética no banco Citi.

Essa é mais uma razão para que os apoiadores do pacto comercial contem com o sucesso da fábrica da Fischer, que já começa a produzir mais que skis e tacos de hóquei.

Depois de demonstrar sua destreza com materiais a base de fibra de carbono, além de destacar o crescimento da região na fabricação de peças automotivas, a fábrica criou uma oficina que realiza o polimento de componentes para o setor automotivo.

As peças leves incluem bases para motores de alta performance dos modelos BMW M3, além de painéis externos da Audi, Porsche e Tesla. Após o polimento, as peças são enviadas de volta para mercados mais ricos.

Ryabych, o diretor da fábrica, afirmou:

— Somos como a China, mas fazemos fronteira com a Europa.

oglobo.globo.com | 26-05-2016

WASHINGTON — O governo dos Estados Unidos anunciou na noite desta quarta-feira que Peter Michael McKinley será o novo embaixador americano no Brasil. Diplomata com grande experiência, seu último posto foi no Afeganistão. Antes disso havia passado pela Colômbia, Peru, União Europeia, Uganda, Moçambique, Bolívia e Reino Unido.

McKinley tem 62 anos e está no serviço diplomático americano desde 1982. Ele tem doutorado na Universidade de Oxford e fez estudos sobre a América Latina. Liliane Ayalde, que está no posto desde o fim de 2013

Ele também já ocupou cargos no gabinete do Subsecretário Regional de Assuntos Políticos, no escritório da África Austral e no Centro de Inteligência e Pesquisa do Departamento de Estado. O Itamaraty já confirmou sua indicação, que deve passar sem problemas pelo Senado. Não há data de quando ele assumirá o posto em Brasília.

oglobo.globo.com | 26-05-2016

Em março, a União Europeia e a Turquia selaram um acordo: o país construiria campos para abrigar os refugiados que foram barrados na Europa e o bloco pagaria por eles — três bilhões de euros (cerca de R$ 12 bilhões) logo de cara, com outros três a seguir. Outras nações observaram o pacto de perto e agora estamos começando a ver as consequências.

No dia três de maio, Níger, país da África Ocidental, exigiu 1,1 bilhão de euros (aproximadamente R$ 4,37 bilhões) da União Europeia para impedir que seus imigrantes seguissem para a Líbia e, de lá, para o Mediterrâneo. Na semana passada, o governo do Quênia anunciou que planeja fechar o maior campo de refugiados do mundo, Dadaab. O país usa o exemplo europeu de rejeitar os sírios como base para justificar o plano de retornar quase 600 mil somalis à sua nação de origem.

Karanja Kibicho, membro do governo queniano responsável por contraterrorismo, declarou, explicitamente, a um jornal britânico:

— Não podemos mais permitir que nosso povo arque com o peso da falta de comprometimento da comunidade internacional para com os refugiados — disse, antes de citar também uma queda na ajuda internacional voluntária aos campos quenianos em favor do aumento do orçamento no Hemisfério Norte, para os refugiados que seguiram para o Ocidente.

Os campos de refugiados sofrem de uma falta de verba crônica, mas a proposta do Quênia não diz respeito às necessidades de quem os habita; parece mais uma exigência de pagamento de resgate. Seu governo já ameaçou fechar os acampamentos duas vezes, alegando questões de segurança depois dos ataques terroristas ao shopping center Westgate, em Nairóbi, em 2013, e à Universidade Garissa, em 2015. A resposta do Secretário de Estado John Kerry foi prometer US$ 45 milhões (R$ 157 milhões) em ajuda extra – ajuda essa que provavelmente não chegará nem perto dos campos, bancados integralmente pelas Nações Unidas.

Por ter feito ameaças antes, o país tem que se esforçar muito mais para conseguir atenção da comunidade internacional; para provar que fala sério, na semana passada desativou o Departamento de Questões dos Refugiados e revogou o status automático para os somalis que pediram asilo. Isso significa que quem chegar nas próximas levas não terá documentos garantidos e corre o risco de deportação imediata. O Quênia também culpa constantemente os refugiados pelo terrorismo, mesmo sem provas que liguem os campos aos ataques.

A verdade é ainda mais cínica: descobriu-se, no ano passado, que as forças quenianas que invadiram a Somália para combater o Shabab, grupo extremista afiliado à Al-Qaeda, estava colaborando com o próprio grupo para contrabandear carvão e açúcar, garantindo um faturamento de até US$ 400 milhões. Em resposta, o governo somali aprovou uma moção pedindo a retirada das tropas quenianas de seu território. Partir para a ofensiva contra os refugiados significa que a energia internacional se concentrará em convencer o Quênia a não fechar os campos em vez de exigir uma mudança de comportamento na Somália.

Considerando-se o cenário do acordo turco, os refugiados dão muito poder de barganha para as nações: represtentam proteção contra a crítica estrangeira, são fáceis de se acusar pelos problemas domésticos, e são também moeda de troca para favores especiais no exterior. Em sua tentativa baixa de se esquivar das obrigações internacionais, a União Europeia começou uma guerra de lances e exigências.

Isso é perigoso. Oitenta por cento dos desalojados do mundo são abrigados em países em desenvolvimento. O mundo está se encaminhando para uma situação na qual os direitos dos refugiados são enumerados não em leis e tratados internacionais, mas em dólares e euros. No início deste mês, a União Europeia decidiu mudar sua política de garantia de asilo, que assegurava aos Estados-membros o direito de recusa da cota de refugiados que lhe cabe, remanejada dos países a que chegam primeiro, como Grécia e Itália. A mudança foi ocorreu após uma "contribuição solidária" de 250 mil euros (cerca de R$ 992 mil) por cabeça aos países.

A decisão é insana por vários motivos, mas principalmente porque, ao não aceitar um refugiado, o país está se recusando a admitir um ser humano com capacidade de trabalho que vai, como mostra a grande maioria dos estudos econômicos, fazer uma contribuição positiva ao crescimento econômico em longo prazo. Essa foi, em parte, a base do argumento da chanceler alemã Angela Merkel para aceitar tamanho influxo de estrangeiros na Alemanha em 2015.

Na mesma linha, David Miliband, diretor do Comitê Internacional de Resgate e ex-Secretário de Relações Exteriores britânico, pediu, no sábado, a criação de uma iniciativa internacional para assentar os refugiados mais vulneráveis nos países ricos e aceitar os restantes como residentes produtivos com o direito de trabalhar nos países em que foram acolhidos.

É uma ideia sensata. Como aconteceu com os 400 mil moradores de Dadaab, os refugiados sempre constroem economias e comunidades. Apesar das tentativas do Quênia de manter o campo como local temporário, proibindo a implantação de estruturas permanentes, ruas, sistema de esgoto e eletricidade, ele se tornou uma cidade. Impedir sua permanência é desperdiçar verba internacional e abdicar da arrecadação fiscal e do potencial de talento: a ONU pagou para educar três gerações de pessoas que estão proibidas de trabalhar.

A escolha dos países acolhedores, portanto, é uma escolha entre economias formais e informais. Com um pouquinho mais de visão, os 25 anos de fundos humanitários aplicados em Dadaab poderiam ter sido gastos no investimento em uma cidade e uma população com potencial para, eventualmente, empregar refugiados e quenianos, contribuindo com milhões em impostos e abrindo um caminho para a Somália conquistar a paz e o desenvolvimento.

Apesar do bom senso óbvio da proposta de Miliband, a distância entre uma visão global generosa como essa e a dura realidade da política xenófoba que vai de Nairóbi a New Hampshire é imensa. Dadaab sobrevive como uma favela isolada justamente porque o Quênia não quer que o número de somalis chegue a um milhão, o equivalente a dois por cento de sua população.

A impressão é a de que a maioria dos países prefere deportar contribuintes em potencial e pagar multas pesadíssimas, negando-se a crescer economicamente. A Cúpula Humanitária Mundial, conferência patrocinada pela ONU que será realizada ainda este mês, em Istambul, é uma oportunidade para voltar a discussão mundial sobre refugiados para o potencial benefício de todos. Temo, porém, que a ocasião se transforme em um simples leilão.

oglobo.globo.com | 20-05-2016

ATENAS - O Parlamento grego se pronuncia neste domingo sobre uma polêmica reforma das aposentadorias exigida pelos credores da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional (FMI), em meio a protestos convocados pelos sindicatos e na véspera de uma reunião do Eurogrupo sobre a Grécia. Quinze mil pessoas protestaram de forma pacífica em Atenas e Tessalônica — segunda cidade grega no norte do país —, 14.000 delas simpatizantes da Frente de Luta dos Trabalhadores (PAME), próxima ao partido comunista KKE, segundo a polícia.

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“Vamos acabar com o desastre do sistema de aposentadorias, o desastre social e econômico”, afirmava um cartaz.

A mobilização foi, no entanto, muito menor que a registrada na última grande manifestação contra esta reforma, no dia 4 de fevereiro, quando 50.000 pessoas participaram dos protestos.

O sindicato público Adedy convocou uma manifestação diante do Parlamento, na noite de domingo, horas antes da votação prevista sobre a reforma, considerada um "saque" pelos sindicatos.

O projeto de lei para reformar o sistema de aposentadorias e aumentar os impostos, exigido pelos credores do país - a UE e o FMI - em troca de um novo plano de resgate assinado em julho, está sendo debatido no Parlamento desde sábado e será submetido a votação na noite deste domingo.

O governo de esquerda de Alexis Tsipras, que dispõe de uma maioria parlamentar mínima, com 153 deputados de 300, espera que, ao organizar a votação no fim de semana, em plenas férias de Páscoa, a reforma seja aprovada antes da reunião do Eurogrupo de segunda-feira. Isso pode ajudar os 19 ministros das Finanças da zona do euro a concluírem a primeira avaliação da implementação do plano de resgate e iniciarem o espinhoso debate sobre a dívida grega.

A reforma das aposentadorias prevê cortes das aposentadorias mais elevadas, a fusão de várias caixas, o aumento das cotações e a instauração de uma aposentadoria nacional de 384 euros para os que tiverem trabalhado 20 anos.

Durante a greve de 48 horas, convocada pelos sindicatos, a quarta desde a chegada ao governo de Tsipras, em janeiro de 2015, nenhum transporte público funcionou no país na sexta-feira e no sábado.

“Cansada e decepcionada”

Apenas os deputados da coalizão governamental - do Syriza e do partido soberanista Anel - estão dispostos a votar a favor deste projeto. Os partidos da oposição, entre eles a formação conservadora Nova Democracia, indicaram que votariam contra o projeto de lei.

“As pessoas estão cansadas e decepcionadas com o governo de esquerda no poder (...), as manifestações não tiveram a repercussão que esperávamos”, lamentou à AFP Maria K., que participou do protesto deste domingo.

Para o governo, esta reforma forma parte do acordo entre Atenas e os credores do verão passado em contrapartida ao empréstimo concedido ao país.

“Fazemos o que combinamos com nossos sócios europeus”, explicou na noite de sábado no Parlamento o ministro das Finanças, Eucleide Tsakalotos.

A reforma das aposentadorias é indispensável para "garantir a viabilidade do sistema para a segurança social" e bloquear o déficit dos planos de aposentadorias, indicou por sua vez o ministro do Trabalho, Georges Katrougalos, impulsionador desta tarefa.

Para Panayiotis Petrakis, professor de Economia na universidade de Atenas, as mobilizações não ameaçam a aprovação da lei: "A reforma será adotada e conseguir este voto antes do Eurogrupo é uma boa decisão", disse à AFP.

“Mas a distância entre Atenas e os credores, que exigem medidas adicionais de € 3,6 bilhões, continua sendo importante", advertiu.

oglobo.globo.com | 08-05-2016

RIO— Uma nova escola fundada em São Paulo irá permitir que seus alunos tenham um diploma da Inglaterra sem ter colocado os pés fora do país. A Escola Britânica de Artes Criativas (Ebac) foi inaugurada na última quinta-feira e pretende impulsionar a economia criativa no Brasil. O diploma de graduação concedido pela instituição é da Universidade de Hertfordshire, em Londres, e será válido em toda União Europeia e nos Estados Unidos.

— No Brasil os desafios são enormes e instigantes. Há muita oportunidade. Nossos investimentos não se justificam somente pelo crescimento de empregos criados pelos setores criativos ou pela contribuição da cultura e da criatividade no PIB, mas especialmente porque a cultura é o nosso primeiro recurso econômico. Este projeto é uma novidade no Brasil, mas em 10 anos o país descobrirá que não será mais necessário atravessar fronteiras para ter acesso a uma das melhores escolas de disciplinas criativas do mundo— disse Mauricio Tortosa, diretor-presidente da Ebac.

A Ebac pretende desenvolver competências criativas em seus estudantes. Dessa forma, além dos conteúdos técnicos tradicionais, a instituição pretende promover ensino de transdisciplinar, que envolva empreendedorismo, habilidades sociais e socioculturais, entre outras.

— Nos últimos dois anos, mais de 5,5 jovens saíram do Brasil para estudar no Reino Unido em busca de melhor qualidade de ensino. Nosso grande desafio é desenvolver e reter esses talentos aqui. A educação de qualidade mundial é um dos caminhos prioritários para levar o Brasil a um estágio de desenvolvimento mais avançado— argumenta Maurício.

A Ebac oferecerá também cursos técnicos como de Desenvolvimento de Aplicativos para Dispositivos Móveis, além de Degign Gráfico e Direção de Arte Digital. A universidade londrina, parceira da instituição brasileira, tem cerca de 25 mil alunos, vindos de diversos lugares do mundo e recebeu o prêmio “Universidade Empreendedora do Ano”, da Times Higher Education.

oglobo.globo.com | 03-05-2016

BRIXHAM, Inglaterra – Mike Walker, pescador aposentado na cidade, resume o que muita gente pensa a respeito da União Europeia nessa cidade portuária no sul da Inglaterra. A entrada do Reino Unido na União de 28 países encorajou a França, a Espanha, a Holanda “e o resto todo” a “violar nossas águas”, afirmou Walker.

Outras pessoas talvez escolham palavras menos extremas, mas a opinião de Walker é comum nessa cidade de 17 mil habitantes e sinaliza o desconforto generalizado do Reino Unido com a União Europeia, antes que o país vote no dia 23 de junho o referendo para decidir se deve continuar fazendo parte da união.

Não importa se as queixas envolvam peixes, imigrantes ou regras irracionais, muitos britânicos se incomodam com o que interpretam como a interferência de instituições europeias e burocratas de Bruxelas.

No caso de Brixham, o maior porto pesqueiro comercial da Inglaterra, muitos querem que o Reino Unido retome o controle das águas que fica a 322 quilômetros do litoral. Essa área é controlada por Bruxelas e se encontra repleta de navios com bandeira europeia, que jogam redes e muitas vezes exploram até o leito marinho.

No mundo todo, a maioria das nações soberanas, incluindo Estados Unidos e Canadá, tem domínio sobre os direitos de pesca dentro do limite de 322 quilômetros a partir do litoral. Os pescadores de Brixham argumentam que uma Inglaterra livre da supervisão europeia poderia banir as embarcações estrangeiras e devolver os empregos aos britânicos.

“É claro que eu quero que o país saia da união”, afirmou o pescador Michael Sharp, com os braços desafiadoramente cruzados. “Todas as guerras que travamos contra a França, a Alemanha – com todos eles desde só Deus sabe quando, desde que Jesus era menino – nós nunca vamos nos entender, não é?”

As pesquisas de opinião pública realizadas em todo o país indicam que a saída da união, apelidada de Brexit, corre grandes riscos de ocorrer. Mas mesmo no setor pesqueiro, a visão comum em Brixham sobre a Brexit não é compartilhada em todos os portos britânicos.

Ainda existe um forte apoio à União Europeia, por exemplo, em alguns dos portos escoceses, que tem altos lucros com a venda de salmão, mariscos e lagosta para outras partes da Europa. Caso o Reino Unido deixe a união, os pescadores escoceses podem ser afetados por impostos de exportação altíssimos.

Os pescadores de Brixham, por outro lado, contam com poucos incentivos de comércio internacional, já que vendem principalmente para o mercado interno. Em sua opinião, a Brexit representa menos concorrentes estrangeiros. Menos concorrência também pode ajudar a aumentar o faturamento dos pescadores locais, que atualmente varia entre US$43 mil e US$100 mil ao ano.

A motivação econômica de Brixham está em consonância com as tradições culturais deste lado do Canal da Mancha, que repete a narrativa histórica de uma Grã-Bretanha sob cerco constante do restante da Europa.

Os muros de um forte construído na região no século XV continuam cravejados de bolas de canhão francesas e, em 1588, Sir Francis Drake espantou uma Armada Espanhola dessas águas.

Um século depois, William de Orange, o príncipe holandês protestante, aportou em Brixham com 14 mil soldados para ajudar a derrubar o Rei Jaime II da Inglaterra, que era católico. Esse foi um dos poucos casos em que os habitantes da cidade receberam de braços abertos a intervenção estrangeira, que foi comemorada com uma estátua na cidade em homenagem ao Príncipe William.

Agora, para muita gente em Brixham, o inimigo não é um único invasor, mas a reunião de todos eles na União Europeia.

Os moradores do local se queixam de Bruxelas especialmente por sua Política Pesqueira Comum, que há décadas permite que toda a frota pesqueira europeia tenha acesso às águas da região. A política se mostrou desastrosa já que o volume de pesca permitido é alto demais, de acordo com Robin Churchill, professor de Direito Internacional na Universidade de Dundee, na Escócia, destacando que a população de bacalhau entrou em colapso no início dos anos 2000.

Outros especialistas argumentam que as águas britânicas já sofriam com a sobrepesca muito antes das políticas pesqueiras entrarem em vigor em 1983. Além disso, eles citam algumas medidas bem sucedidas de recuperação da população de peixes a partir de 2003, quando a União Europeia passou a exigir que os pescadores reduzissem o tamanho das frotas e limitassem o total de dias de pesca por ano. Os cientistas afirmam que o bacalhau do Mar do Norte está se recuperando vigorosamente e a pesca provavelmente será sustentável a partir do ano que vem.

Isso não teria acontecido sem que a União Europeia pressionasse o governo britânico, que era próximo demais do setor pesqueiro, afirmou Howard Wood, diretor do Fundo Fiduciário do Leito Marinho da Comunidade de Arran. O grupo visa proteger os habitat marinhos no entorno da Ilha de Arran, na costa ocidental da Escócia.

Caso a Brexit se confirme, afirmou Wood, “temos que torcer para que não voltemos aos velhos hábitos” de ignorar as regras e praticar a sobrepesca.

Brian Tollis, chefe do cais na cidade, está entre os habitantes de Brixham que preferem que o Reino Unido permaneça na União Europeia. “Se sairmos, teremos muitos problemas. Os outros países podem se juntar contra nós em termos de comércio internacional e nossa situação vai piorar.”

Até mesmo o suposto nacionalismo do setor pesqueiro de Brixham não é o que parece ser. Muitos pescadores, incluindo Sharp, empregam filipinos, que ajudam a completar as tripulações, já que muitos pessoas da cidade preferem trabalhar em outras áreas.

Pescadores de outras partes da Europa disputam as águas britânicas em função da abundância e grande quantidade de espécies de peixe. As Ilhas Britânicas se encontram sobre uma enorme plataforma continental que permite que a vida marinha sobreviva nas águas rasas onde a maioria dos peixes são pescados. O Oceano Atlântico no litoral de Portugal e Espanha, por outro lado, conta com populações menores de peixe, já que fica profundo muito rapidamente.

De acordo com as atuais regulamentações da União Europeia, as embarcações britânicas podem pescar mais nas águas do país do que os barcos estrangeiros. Contudo, muitos pescadores de outras partes tiraram proveito das leis europeias para abrir empresas na Inglaterra. Isso permite que eles comprem barcos com bandeira britânica, utilizados para pescar conforme a cota britânica. Uma iniciativa do governo inglês para combater essa prática foi impedida em 1992 pelo Tribunal de Justiça Europeu.

Mais de um terço da frota que opera na costa sudoeste da Inglaterra pertence a estrangeiros, afirmou Jim Portus, ex-regulador de pesca da Grã-Bretanha e atual executivo-chefe do grupo comercial South Western Fish Producer.

Uma vez que essas embarcações vendem os peixes no país de origem de seus donos, afirmou Portus, “eles navegam sob a bandeira britânica, mas não trazem qualquer benefício para o Reino Unido”.

Naturalmente, os pescadores britânicos também têm o direito de pescar na costa de outros países da União Europeia. Mas “essas águas não têm nada que a gente queira”, afirmou Ian Perkes, comprador que trabalha todos os dias no mercado de peixe de Brixham.

Richard Barnes, professor da Faculdade de Direito da Universidade de Hull especializado em leis ambientais marinhas, destaca que caso a Grã-Bretanha saia da União Europeia, o país ainda terá oportunidade de cooperar com cada membro do bloco separadamente, ou de fazer a gestão das populações de peixes em águas transnacionais.

Mas caso o Reino Unido deseje manter um relacionamento de livre comércio com o bloco, afirmou Barnes, isso ainda permitira que os países europeus tivessem acesso às águas britânicas.

Walker, o pescador aposentado de Brixham, se referiu à longa disputa do bacalhau, que só terminou em 1976, quando o Reino Unido concordou em não pescar mais nas águas da Islândia, que não faz parte da União Europeia.

“Costumávamos ir até lá e violar as águas da Islândia. Mas eles chutaram nosso traseiro, e tinham toda razão. Agora eles cuidam dos próprios peixes e vende a produção para nós”, afirmou Walker, cerrando os punhos enormes.

Walker afirmou que gostaria que a Inglaterra recobrasse a mesma autonomia. “Temos as melhores águas da Europa, mas não podemos fazer nada a respeito.”

oglobo.globo.com | 29-04-2016

AGADEZ, Níger – É segunda-feira e isso significa dia de mudança em Agadez, um cruzamento ao norte do deserto do Níger e a principal plataforma de onde saem os imigrantes da África Ocidental. Fugindo da agricultura devastada, superpopulação e falta de emprego, os imigrantes de uma dezena de países se reúnem em caravanas todas as segundas-feiras à noite e iniciam uma corrida louca pelo deserto do Saara em direção à Líbia, na esperança de eventualmente cruzar o Mediterrâneo até a Europa. refugiados

A montagem dessa caravana é uma cena a ser testemunhada. Embora seja noite, ainda faz 40 graus e há apenas uma lua crescente para iluminar a escuridão. Então, de repente, o deserto acorda.

Usando o aplicativo de mensagens WhatsApp de seus celulares, os traficantes locais, vinculados a redes de contrabandistas que se estendem por toda a África Ocidental, começam a coordenar o carregamento clandestino de migrantes que estão em abrigos e porões por toda a cidade. Eles vêm se reunindo há semanas, vindos do Senegal, Serra Leoa, Nigéria, Costa do Marfim, Libéria, Chade, Guiné, Camarões, Mali e outras cidades de Níger.

Com 15 a 20 homens – não há mulheres – amontoados na parte de trás de pick-ups Toyota, seus braços e pernas pendurados para fora, os veículos surgem de becos e ruelas e seguem os carros que partiram na frente para garantir que não haverá policiais, oficiais ou guardas de fronteiras desagradáveis à espreita que ainda não foram pagos. É como assistir a uma sinfonia, mas ninguém tem ideia de quem é o maestro. Eventualmente, todos convergem para um ponto de encontro no norte da cidade, formando uma caravana gigante de 100 ou 200 veículos – a grande quantidade é necessária para afastar os bandidos do deserto.

Pobre Níger. Agadez, que tem casas com paredes de barro ornamentadas, é um notável Patrimônio Mundial da Unesco, mas a cidade foi abandonada pelos turistas depois que locais próximos foram atacados pelo Boko Haram e outros jihadistas. Por isso, como explica um traficante, os carros e os ônibus da indústria do turismo estão sendo reaproveitados na indústria da migração. Há agora por toda a África Ocidental recrutadores, ligados aos traficantes, que trabalham por conta própria e pedem às mães dos meninos US$400 ou US$500 para mandá-los procurar empregos na Líbia ou na Europa. Poucos conseguem, mas outros continuam chegando.

Estou na estação de controle da rodovia de Agadez vendo esse desfile de carros. À medida que os veículos Toyota passam por mim, levantando poeira, pintam a estrada do deserto com incríveis silhuetas de jovens banhados de luar, em silêncio, de pé na carroceria das pick-ups. Pensar que sua Terra Prometida é a Líbia devastada pela guerra mostra o quanto as condições que estão deixando para trás são desesperadoras. Entre nove mil e dez mil homens fazem essa jornada todos os meses.

Poucos concordam em conversar – nervosamente. Um grupo de homens muito jovens de outro lugar de Níger me conta que estão, na verdade, indo se unir à corrida para encontrar ouro em Djado, mais ao norte de Níger. Mais típicos são cinco jovens que, com um francês com sotaque senegalês, contam uma história familiar: não havia emprego em sua vila, foram para a cidade, não acharam trabalho lá, estão indo para o norte.

A revolução na Síria foi provocada, em parte, pela pior seca de quatro anos da história moderna do país – além da superpopulação, tensões climáticas e a internet – e o mesmo acontece com a onda de migração dos africanos. É por isso que estou aqui filmando um episódio da série “Years of Living Dangerously” (Os Anos em que Vivemos Perigosamente) sobre as mudanças climáticas no planeta, que aparecerá no canal da National Geographic no próximo outono. Estou viajando com Monique Barbut, chefe da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação, e Adamou Chaifou, ministro do Meio Ambiente de Níger.

Chaifou explica que a África Ocidental passou por duas décadas de secas não contínuas. Os períodos secos levam as pessoas desesperadas a desmatar as encostas para retirar madeira para cozinhar ou vender, mas agora são seguidos de chuvas cada vez mais violentas, que facilmente lavam o solo estéril, já sem árvores. Enquanto isso, a população explode – as mães de Níger têm uma média de sete crianças –, os pais continuam a ter muitos filhos por causa do seguro social, e a cada ano mais terras férteis viram desertos.

— Hoje perdemos anualmente para a desertificação 100 mil hectares de terras aráveis. E perdemos entre 60 mil e 80 mil hectares de florestas todos os anos — afirma Chaifou.

O normal, segundo ele, é que a estação das chuvas começasse em junho e durasse até outubro.

— Agora temos mais chuvas fortes em abril, e você precisa plantar logo depois que chove — diz ele.

Então, fica seco novamente por um mês ou dois, depois as chuvas voltam muito mais fortes do que antes e causam inundações que levam as colheitas embora. Isso é uma consequência das mudanças climáticas – causadas, diz ele, principalmente pelas emissões do norte, não de Níger e de seus vizinhos.

— A desertificação age como o gatilho. E as mudanças climáticas são o amplificador dos desafios políticos que estamos vendo hoje: migrantes econômicos, conflitos entre etnias e extremismo — explica Monique Barbut. Ela mostra três mapas da África com um esboço oblongo em torno de vários pontos agrupados no meio do continente. O mapa 1 mostra as regiões mais vulneráveis de desertificação na África em 2008. O mapa 2, os conflitos e brigas por comida na África em 2007 e 2008. E o mapa 3, os ataques terroristas na África em 2012.

As três linhas cobrem o mesmo território.

Recentemente, a União Europeia fez um acordo com a Turquia para aumentar muito a ajuda da União Europeia para que Ancara lide com os refugiados e migrantes que chegarem ao país e restrinja seu fluxo para a Europa.

— Se investíssemos uma fração dessa quantia para ajudar as nações africanas a combater o desmatamento, melhorar a saúde e a educação e sustentar a agricultura de pequena escala, que é o meio de sustento de 80 por cento das populações na África, elas poderiam ficar na terra. Seria muito melhor para elas e para o planeta — explicou Michele.

Todo mundo quer construir muros nos dias de hoje, afirmou ela, mas o muro que mais precisamos é um “muro verde”, de reflorestamento que seguraria o deserto e se estenderia de Mali no oeste à Etiópia no leste.

— É uma ideia que os próprios africanos tiveram — contou ela. E faz muito sentido.

Porque, no final, nenhum muro vai segurar essa onda de migrantes. Tudo que você vê por aqui são gritos de que, a não ser que haja uma maneira de estabilizar a pequena agricultura da África, de alguma maneira ou de outra, eles vão tentar chegar à Europa. Os que não podem, com certeza vão gravitar para um grupo extremista que os pague. Muitos hoje sabem pelos meios de comunicação que há uma vida melhor além-mar e acreditam que seus governos são muito frágeis para poder ajudá-los a melhorar.

Entrevistei 20 homens de pelo menos dez países africanos no centro de apoio Organização Internacional para a Migração em Agadez – todos haviam ido para Líbia, tentaram e não conseguiram chegar à Europa e voltaram, mas não tinham dinheiro nem meios de retornar para suas vilas. Perguntei a eles:

— Quantos de vocês e de seus amigos deixariam a África e iriam para a Europa se pudessem entrar legalmente?

— Tout le monde — eles praticamente gritaram, enquanto levantavam as mãos.

Não sei muito francês, mas acho que significa “todo mundo”.

oglobo.globo.com | 28-04-2016

O candidato do partido de direita da Áustria foi o vencedor o primeiro turno das eleições presidenciais neste domingo, reunindo mais de 35% dos votos, melhor resultado da história do partido, e deixando os outros cinco candidatos para trás. Entre os perdedores estão os candidatos da coalizão do governo, refletindo a rejeição dos eleitores e as incertezas no cenário político.

O triunfo de Norbert Hofer ofusca o melhor desempenho obtido anteriormente pelo seu Partido da Liberdade - mais de 27% de apoio nas eleições que definiram a adesão da Áustria à União Europeia. Com a sua vontade declarada de desafiar a coalizão governista pelo partido Social Democrata, de centro-esquerda, e o Partido Popular, de centro, Hofer pode pressionar por novas eleições, caso ele vença a disputa marcada para 22 de maio, na esperança de que seu Partido da Liberdade pode triunfar nas urnas.

Com 98% dos votos apurados, Hofer estava muito à frente de Alexander Van der Bellen, do Partido Verde, que correu como um candidato independente. Ele conquistou pouco mais de 21% de apoio, e vai desafiar Hofer no segundo turno.

Irmgard Griss, também independente, ficou em terceiro lugar. Com pouco menos de 20% dos votos, ela ainda ficou à frente do candidato do Partido Popular, Andreas Khol, e do Social Democrata Rudolf Hundstorfer, ambos com cerca de 10%. O candidato Richard Lugner, que não é do meio político ficou com pouco mais de 2% dos votos.

O chefe do Partido da Liberdade, Heinz-Christian Strache, saudou o "evento histórico" que, segundo ele, reflete a enorme "insatisfação dos eleitores" com a paisagem política tradicional. Ainda assim, Van der Bellen ainda permanece na disputa no segundo turno, e deve ter o apoio de grande parte dos eleitores que votaram nos outros candidatos, na esperança de brecar o avanço do partido de Hofer.

O triunfo de Hofer foi significativo, no entanto, e confirmam pesquisas recentes que mostram a popularidade do Partido da Liberdade. Impulsionado por preocupações sobre a crise de migrantes da Europa, o apoio a seu partido subiu para 32%, em comparação com o pouco mais de 20% para cada um dos partidos do governo.

Os eleitores já estavam descontentes com os social-democratas e o Partido Popular mesmo antes da crise migrante no ano passado, que forçou o governo de coalizão a mudar de uma política de fronteiras abertas para duras restrições de asilo aos refugiados. As polêmicas sobre outras questões importantes, como a política fiscal, previdenciária e reforma da educação, aumentaram a percepção de estagnação política do país.

Uma eventual vitória de Hofer no segundo turno poderia aproximar a Áustria das nações da União Europeia que são contra a entrada de imigrantes, o que complicaria ainda mais a resolução desta e de outras crises no continente.

Van der Bellen prometeu não nomear qualquer político do Partido da Liberdade como chanceler da Áustria, caso ele vença a eleição. A próxima eleição nacional deve ser realizada dentro de dois anos. O presidente tem um mandato de seis anos. Isso deve resultar em possíveis confrontos entre o Partido Liberdade e Van der Bellen, caso ele triunfe. Fonte: Associated Press

GAZIANTEP, Turquia — Em meio aos esforços para aliviar as tensões provocadas pela crise migratória europeia, a chanceler alemã Angela Merkel chegou à Turquia neste sábado para se encontrar com o primeiro-ministro do país, Ahmet Davutoglu. A líder política visitou refugiados ao lado do premier e conversou com as crianças em uma escola. Junto com várias autoridades europeias, a viagem vem como mais uma defesa do acordo migratório em um momento de tensão pelas pressões contrárias ao pacto. refugiadoss2304

Após uma visita a um campo de refugiados na cidade de Nizip, Merkel segue para uma discussão sobre a crise migratória com o presidente do Conselho da União Europeia (UE), Donald Tusk, e o vice-presidente da Comissão Europeia, Frans Timmermans. Aberto em 2013, o local abriga em suas casas pré-fabricadas quase 5 mil refugiados sírios, incluindo 1,9 mil crianças, de acordo com o governo turco.

"Esta visita serve para mostrar como a Turquia e a UE colocam seus esforços em conjunto para enfrentar a crise dos refugiados sírios", afirmou a Comissão Europeia ao indicar que até o momento gastou 77 milhões de euros em vários projetos na Turquia, aos quais devem ser adicionados outros 110 milhões.

A passagem de Merkel pelo campo de refugiados, no entanto, foi criticada por grupos defensores dos direitos humanos, em um pedido para que a Europa olha para as dezenas de milhares de refugiados sírios que permanecem retidos na tentativa de chegar à Turquia.

A visita acontece três semanas depois da entrada em vigor do polêmico acordo entre Bruxelas e Ancara, que pretende dissuadir as viagens marítimas clandestinas de imigrantes e refugiados para a Europa — que enfrenta sua maior crise migratória em 70 anos.

Merkel pediu que líderes europeus apoiassem o acordo para devolver milhares de imigrantes das ilhas gregas à Turquia. Mas as dúvidas sobre a eficácia, a viabilidade a longo prazo e a legalidade da proposta têm crescido. Agora, políticos europeus são pressionados a rever o acordo firmado entre a UE e o governo turco.

Inicialmente, o acordo e o fechamento das fronteiras europeias para impedir que contrabandistas garantissem a passagem de refugiados aos estados do Norte da Europa surtiram efeito. O número de imigrantes recém-chegados à Grécia diminuiu bruscamente. No entanto, a chegada barcos transportando centenas de pessoas por dia indicou que a eficácia da política já tinha expirado.

Na sexta-feira, Merkel defendeu o acordo com a Turquia, afirmando que esta é uma medida correta e importante para ajudar a proteger a fronteira do espaço Schengen junto com os vizinhos europeus.

A agência de refugiados da ONU (Acnur) e legisladores europeus questionam as implicações morais e legais da expulsão de pessoas da Grécia de volta à Turquia. O país é considerado, para muitos, precário em termos de segurança e de direitos humanos.

Merkel afirmou que a visita a Gaziantep permitirá fazer um balanço sobre a aplicação do acordo e decidir ações futuras para ajudar os 2,7 milhões de sírios refugiados na Turquia.

A ONG Anistia Internacional afirma que a Turquia não é um país seguro para os refugiados e acusa Ancara de ter devolvido dezenas de pessoas à Síria, onde a guerra provocou mais de 270 mil mortes em cinco anos.

Os líderes europeus também terão que lidar com a questão da liberdade de expressão e de imprensa na Turquia. Na sexta-feira, teve início o julgamento de quatro professores universitários acusados de propaganda terrorista e de dois jornalistas famosos acusados de espionagem.

oglobo.globo.com | 23-04-2016

RIO - Ministros de países da OCDE reúnem-se nesta segunda-feira, em Bruxelas, com o objetivo de discutir soluções para o excesso de capacidade da indústria siderúrgica mundial. São 700 milhões de toneladas de aço, que acabam jogando os preços para baixo e inviabilizando muitas usinas. A expectativa das siderúrgicas brasileiras, que sofrem com a queda da demanda interna devido à recessão no país, é que sejam acordados no encontro os primeiros passos de um plano de reestruturação do setor em nível internacional, de modo a enxugar esse excesso de aço. Isso poderia abrir portas para as exportações brasileiras, apontadas como a saída para compensar a queda nas vendas domésticas.

Marco Polo, presidente-executivo do Instituto Aço Brasil, que reúne as empresas do setor, participará de um simpósio organizado pela OCDE que acontecerá paralelamente ao encontro de ministros. Ele defende que seja criado um plano de reestruturação que contemple o fechamento de usinas obsoletas, com apoio de programas de auxílio para desempregados, a exemplo do que foi feito na década de 70, o chamado Plano Davignon.

— Temos que retirar a capacidade das usinas obsoletas. A discussão hoje está no que é obsoleto e o que é o estado da arte. As usinas brasileiras têm tecnologia avançada e podem ser beneficiadas por medidas como essa — disse Marco Polo.

O Plano Davignon, lançado pela Comunidade Econômica Europeia — embrião da União Europeia — nos anos 70 consistia em uma série de medidas para reativar a indústria siderúrgica europeia, abalada com a queda das encomendas. O plano previa preços mínimos para os produtos siderúrgicos, cotas de importação e apoio financeiro do Estado para fechamento de unidades e estímulo a demissões e aposentadorias. Etienne Davignon, , idealizador do plano nos anos 70, participará do simpósio em Bruxelas.

MEDIDAS DE DEFESA COMERCIAL

A grande responsável pela oferta excessiva de aço no mundo hoje a China. Desde 2013, quando atingiu o pico do consumo de aço, o país passou a inundar o mercado global com produtos siderúrgicos baratos que não encontravam compradores em casa. Naquele ano, a economia chinesa dava sinais de desaceleração. Mas, apesar da queda do consumo de aço, a produção foi mantida, principalmente devido a dívidas das usinas com bancos locais e à responsabilidade social dessas siderúrgicas — controladas pelo Estado — para manutenção do emprego, escreveu em recente relatório analistas do banco de investimentos Morgan Stanley.

— As siderúrgicas chinesas não tem compromisso com legislação trabalhista nem com resultado (financeiro). Por isso, continuam produzindo e exportando — diz Germano Mendes de Paula, professor de economia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU)

Ano passado, a China exportou 112 milhões de toneladas. A previsão do Morgan Stanley para 2016 é de uma leve queda, para 102 milhões de toneladas. Mas ainda assim o volume é gigantesco, três vezes maior que o da produção brasileira de 2015.

Não à toa, a China é o principal alvo da onda protecionista que tomou conta do setor no mundo todo. Segundo levantamento feito por Germano Mendes, da UFU, das 147 medidas de defesa comercial iniciadas ou que tiveram alguma decisão entre 2014 e 2015, o país é alvo de 116. Em seguida vêm países asiáticos: Coreia do Sul (48), Taiwan (29), Japão (25) e Vietnã (23). Cada medida pode ter mais de um país como alvo e contempla ações antidumping, salvaguardas e pedidos de direito compensatório.

Marco Polo lembra que, caso a China seja reconhecida como economia de mercado, a chance de vitória dos países que abriram os processos contra ela diminui. Hoje, os dados que embasam tais processos têm como referência outros mercados. Com status de economia de mercado, os dados oficiais chineses passam a ser a referência e estes não são considerados confiáveis.

O Brasil é alvo de 9 medidas de defesa comercial no biênio 2014-2015, entre elas a denúncia do governo americano de que empresas brasileiras que exportam laminados a frio para o país estariam praticando antidumping. A conclusão do processo aberto pelos EUA está prevista para julho, mas, segundo decisão preliminar, as empresas serão tributadas em 39,93%. Usiminas e CSN, que produzem esse tipo de aço, serão prejudicadas.

Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, há três investigações de dumping em curso relacionadas a produto siderúrgicos, duas delas contra a China e uma contra a Turquia. Das 11 medidas de defesa comercial que já estão em vigor, seis são direcionadas à China.

oglobo.globo.com | 18-04-2016

BERLIM - O sociólogo Armin Nassehi, da Universidade de Munique, diz que a falta de competência dos governos e da União Europeia na abordagem da crise dos refugiados terminou favorecendo as posições extremistas. migra 1404

Como o senhor explica o fenômeno dos “caçadores” de imigrantes nas fronteiras do Leste Europeu?

No ano passado, predominava a disposição à ajuda aos refugiados. Muitos continuam ajudando, mas desde que os políticos e a União Europeia se mostraram divididos e incapazes de encontrar soluções, aumentou a tendência aos extremos.

Há risco de expansão da extrema-direita como reação à crise dos refugiados?

A extrema-direita está instrumentalizando o tema dos refugiados para conseguir mais adeptos. E realmente está ficando mais forte, como na França ou na Alemanha, porque os governos não têm mostrado competência na solução da crise. A rota dos Bálcãs foi fechada, mas o problema não foi solucionado.

Esse comportamento é manifestação de medo dos aspectos econômicos da imigração ou do terrorismo ou é pura xenofobia?

É xenofobia e, como todo tipo de preconceito contra o estranho, resulta de uma visão estereotipada dos refugiados. Há uma tendência aos extremos porque as pessoas têm dificuldade em entender o momento atual. Na falta de explicações, buscam interpretações simples. Mas se o fenômeno será passageiro ou se ficará como uma ameaça aos direitos humanos na Europa, vai depender do sucesso ou não das políticas de integração nos países.

Por que o tema divide tanto os europeus?

Desde a queda da Cortina de Ferro, um assunto não empolgou tanto os europeus quanto os refugiados. É um momento histórico. Esse fluxo em massa poderá mudar a Europa, que tem de se organizar como região de imigração. Construir cercas e muros só vai ajudar a agravar a crise e aumentar as chances eleitorais dos extremistas.

oglobo.globo.com | 14-04-2016


O curitibano Alexandre Fontana Beltrão, ex-diretor-executivo da Organização Internacional do Café (OIC), com sede em Londres, foi o diretor mais longevo da OIC, ocupando o cargo por 26 anos, de 1º de abril de 1968 a 30 de setembro de 1994. A organização considera o brasileiro um dos mais influentes e inovadores diretores-executivos da entidade, tendo a liderado em “tempos de grandes mudanças”. A OIC, que por muitos anos regulou o comércio internacional de café, é uma organização destinada a gerenciar a produção e consumo deste grão, reunindo os maiores produtores e consumidores mundiais.
Beltrão nasceu em 28 de abril de 1924 em Curitiba (PR) e foi casado com Anna Emilia Beltrão. Ele estudou na Universidade de São Paulo e na Escola Nacional de Engenharia no Rio de Janeiro. Iniciou a carreira em 1948 como assistente de engenharia no departamento de Mecânica de Solo do Instituto de Pesquisas Tecnológicas.
Segundo a OIC, Beltrão foi um ávido defensor de iniciativas de promoção de consumo de café, contribuiu para o lançamento do Grupo de Desenvolvimento de Café nos EUA durante os anos 1980, e ajudou a Associação Americana de Cafés Especiais, fundada em 1982, em seus primeiros anos de atividade. Ocupou, ainda, o cargo de CEO do Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar), entre 1995 e 1998, modernizando o instituto e ajudando a transformá-lo em um importante centro de ciência e tecnologia.
O paranaense também foi assessor especial do presidente do Instituto Brasileiro do Café (IBC), em 1964, e presidiu o escritório da entidade brasileira em Nova York. Beltrão é autor de livros e estudos sobre o setor cafeeiro e recebeu a Ordem de Rio Branco do Ministério de Relações Exteriores do Brasil.
Jorio Dauster, que presidiu o IBC de 1987 a 1990, foi presidente da Vale de 1999 a 2001 e embaixador junto à União Européia de 1991 a 1999, considera que o maior legado deixado por Beltrão ao setor é a confiança de que a busca da qualidade garantiria ao Brasil a sua primazia nas vendas mundiais de café. Dauster ressaltou, ainda, que como diretor-executivo da OIC na sua fase de consolidação, Beltrão trouxe ao cargo "toda a força de sua inteligência e tato diplomático".
"Sem nunca perder sua condição de grande brasileiro, angariou o respeito de dezenas de países produtores e consumidores por sua isenção, virtude excepcional dos melhores funcionários internacionais", complementou Dauster.
Ele faleceu no último dia 4, no Rio, aos 92 anos. A causa da morte não foi informada. Em memória ao ex-diretor, a OIC publicou em sua página na internet o último discurso feito por Beltrão no comando da entidade, em 30 de setembro de 1994, durante a 65ª Sessão do Conselho Internacional do Café em Londres.

oglobo.globo.com | 13-04-2016

PARIS — Quando me mudei para a Europa, há doze anos, minha maior preocupação era saber se falaria um francês decente algum dia. Praticamente todos os norte-americanos que eu conhecia vieram me visitar, muitos dizendo que também sonhavam em morar ali. Não me preocupava muito com os partidos políticos de extrema direita ou com a União Europeia. Certamente não temia o terrorismo. belgica2803

Parece que foi há séculos.

Um dos fatos mais perturbadores sobre os ataques em Bruxelas, na terça-feira passada, foi a pouca surpresa que causaram. Um dia antes, o ministro do Interior da Bélgica tinha ido a uma rádio nacional para avisar que seu país enfrentava uma ameaça palpável e iminente.

No dia seguinte, membros do Estado Islâmico detonaram bombas em um dos saguões de partida do Aeroporto de Bruxelas e em uma das principais linhas do metrô da cidade. Juntas, mataram pelo menos trinta pessoas e deixaram 300 feridos.

Uma mulher de 47 anos contou ao jornal francês “Libération” que, depois de ver a explosão no metrô, fechou os olhos e disse a si mesma: “Então é isso. Estou no atentado de que estamos falando há meses.”

Uma amiga belga comentou que, no jantar daquela noite, a filha de 14 anos explicou:

— Na escola a gente sabia que Bruxelas seria o próximo alvo. Os terroristas só esperaram a gente baixar a guarda.

A foto mais simbólica da violência mostrava os sobreviventes caminhando em um túnel, às escuras, pelos trilhos do metrô. A imagem representa bem o atual pesadelo europeu: você está lá, fazendo compras, indo para o trabalho, fazendo o check-in no aeroporto – e, de repente, não está mais.

É difícil se ajustar a essa nova realidade. Um médico de pronto socorro me confessou que, antes dos ataques em Paris, em novembro passado – quando diversos grupos usaram coletes suicidas e Kalashnikovs para atirar nos clientes de vários cafés e em uma casa de shows –, muitos de seus colegas nunca tinham visto ferimentos a balas. E os poucos casos que tinham atendido geralmente eram casos de suicídio com fuzis de caça.

Para os europeus, Bruxelas era um lugar sem graça em que ninguém pensava muito — a não ser que tivesse que fazer uma conexão ali. Havia até uma brincadeira no qual o maior desafio era dar o nome de dez belgas famosos.

“Bruxelas, a capital antifanatismo atacada por fanáticos”, dizia a edição de quarta-feira do “Libération”. “Bruxelas é aquela prima que, para todo mundo, basta saber que continua existindo”.

Logo após um atentado, é fácil dizer que tudo parece diferente. As pessoas estão horrorizadas. Os pais deixam os filhos em casa, com medo de mandá-los para a escola. Nos jornais, as manchetes dizem "A Europa em Guerra". Começa a busca tristemente familiar por um bordão. Desta vez, preferi as batatas fritas belgas arrumadas para parecer a mão de alguém mostrando o dedo do meio e, logo abaixo, a frase: "Je suis cansado de toda essa...", concluída com um palavrão.

Em breve, porém, para a maioria, a vida volta ao normal. Inauguraram algumas lanchonetes especializadas em sucos no meu bairro; a loja de departamentos Le Bon Marché está fazendo uma exibição com o ícone norte-americano da moda, a excêntrica Iris Apfel. A Europa ainda tem várias belas capitais cortadas por rios.

Os franceses, em especial, estão decididos a agir como se nada tivesse mudado muito. No fim de 2015, assustada pelas notícias que diziam que as escolas poderiam ser alvos dos próximos ataques, mandei um e-mail para o comitê de pais e mestres do colégio dos meus filhos, sugerindo que, dada a ameaça, deveríamos nos reunir para discutir como melhorar a segurança.

Quando quase ninguém respondeu, fiquei pensando se não estava tendo uma reação exagerada tipicamente norte-americana. Um pai me explicou, na calçada mesmo, que as escolas devem ser lugares abertos. O próprio diretor falou que, a princípio, não via razão para mudanças. Poucos meses depois, um grupo de pais se organizou para lidar com um tipo de crise bem diferente: a garotada do segundo ano ainda não tinha aprendido a conjugar o verbo "être" (ser/estar em francês).

A verdade é que a Europa parece, sim, um lugar diferente do que era há um ano. E não é só por causa da ameaça de bombas em malas: tem também a crise que vem atingindo o continente todo de uma vez. Mais de um milhão de imigrantes e refugiados chegaram aqui nos últimos quinze meses, a grande maioria da Síria, Afeganistão e Iraque – e não importa que essas pessoas estejam fugindo de uma violência muito pior do que a estamos vendo na Europa, também perpetrada pelo Estado Islâmico. Os partidos de extrema direita estão se fortalecendo cada vez mais por demonizá-los.

PROVA DE FOGO

Tudo isso serve de teste para saber se a União Europeia – que a maior parte das pessoas aqui já chegou a ignorar – vai se manter unida. Em junho, os britânicos decidem se continuam no bloco. Em pesquisa recente, a maioria dos franceses manifestou o desejo de fazer a mesma coisa.

Embora os governos anunciem novos – e preocupantes – poderes para frear o terrorismo, não conseguem entrar em um acordo para compartilhar informações vitais, não sabem como os membros das células terroristas franco-belgas se comunicam entre si e não concordam em como transliterar os nomes estrangeiros para rastrear os suspeitos de uma fronteira a outra. Salah Abdeslam, que ajudou a orquestrar os ataques de Paris, conseguiu sair do país logo em seguida. Quatro meses depois foi encontrado escondido em Molenbeek, bairro onde foi criado, em Bruxelas.

Esse é um dos fatos mais difíceis de aceitar: europeus atacando suas próprias pátrias. Cerca de 5 mil cidadãos da União Europeia lutam na Síria, a maioria originária de basicamente quatro países: França, Alemanha, Reino Unido e Bélgica, onde levava uma vida comum. Abdeslam, aparentemente, só foi pego porque a polícia reparou em um pedido de entrega de pizza excepcionalmente grande. O plano dos três homens que perpetraram o atentado no Aeroporto de Bruxelas se atrasou um pouco porque a empresa de táxi mandou o carro errado para levá-los até lá.

Até as motivações são reconhecíveis: segundo o ProPublica, um militante belga que estava treinando na Síria ligou para a mãe para perguntar o que o pessoal de Molenbeek andava falando sobre o amigo de vinte anos que se explodiu no Stade de France:

— O que estão falando dele? Estão elogiando? Dizendo que foi corajoso?

Os europeus estão mais vigilantes. Um amigo em Berlim contou que, em uma viagem recente que fez para Dusseldorf, tanto os passageiros como os funcionários ficaram nervosos quando ninguém apareceu para pegar uma mala deixada perto de uma das portas do trem. Um esquadrão antibomba aguardava na parada seguinte e informou aos passageiros que todos seriam levados para uma área de segurança. Foi então que o velhinho turco, dono da mala, acordou e a abriu para revelar uma pilha de roupas.

Apesar de tantos alarmes falsos, é difícil não se manter vigilante. Toda hora eu me pego fazendo os cálculos existenciais mais triviais: vale a pena se arriscar indo ao cinema? Devo deixar as crianças pegarem o metrô para ir à escolinha de futebol? O dia a dia adquiriu tons contraditórios: em um minuto você está no ônibus, apreciando a vista do rio; no outro, já está de olho no cara que leva uma mochila exageradamente grande.

Com isso, a vida dos europeus de pele escura, na casa dos vinte e poucos anos, ficou difícil. A discriminação já era problema antes do terrorismo; agora, os atos grotescos de um punhado de pessoas pioraram a vida de milhões. Ouvi a história de um passageiro do metrô de Paris que, exasperado pelos olhares desconfiados que recebia no metrô, começou lentamente a esvaziar a bolsa que levava só para garantir aos outros passageiros que não tinha bomba nenhuma.

Conforme a "fantasia europeia" se desfaz, quase não recebo mais visitas de estrangeiros. Uma prima que veio de Nova York outro dia disse que sua viagem a Paris era um ato solidário. Minha mãe quer que eu deixe a França de vez.

Os franceses estão aprendendo a viver com mais segurança. Há guardas fazendo revista – ou pelo menos dando uma boa olhada – na entrada de teatros, cinemas e lojas de departamentos. Os alunos do ensino médio podem fumar no pátio da escola porque é arriscado demais deixá-los sair. Há uma grande polêmica em relação à proposta do governo – que, aliás, parece pouco poder fazer para acabar com os ataques – de tirar dos terroristas condenados à nacionalidade francesa.

Desde o atentando em Bruxelas, os europeus começaram a exigir medidas mais práticas. Já estão consultando especialistas em segurança israelenses. E se discute um compartilhamento maior de informações entre os governos. A manchete de capa de quinta-feira do “Le Parisien” foi: "O que precisa mudar agora" – mas a verdade é que, para todo mundo aqui, muita coisa já mudou.

oglobo.globo.com | 29-03-2016

BERLIM - Começou na Europa uma longa era de um tipo de terror antes conhecido apenas no Oriente Médio: o terrorismo suicida, afirma o cientista político Ferhard Ibrahim Seyder, da Universidade Livre de Berlim. O professor, de 65 anos e nascido na Síria, afirma que a União Europeia descuidou da sua segurança nos últimos anos. “A Europa precisa levar muito a sério essa guerra, mesmo que não a chame de guerra”, alerta ele, sob pena de enfrentar consequências desastrosas se não o fizer.

O terrorismo suicida, que antes era conhecido mais no Oriente Médio, vai virar rotina na Europa?

Pelo menos em proporção igual à que acontece em Israel. Isso foi possível porque a União Europeia descuidou da sua segurança nos últimos anos. Embora o risco já fosse conhecido, as fronteiras abertas não foram acompanhadas por medidas eficientes de segurança, e isso tornou possível a formação de perigosas células terroristas, dispostas a tudo para causar a maior destruição possível. bruxelas

Muitos terroristas divulgaram até no Facebook fotos do treinamento que tiveram do Estado Islâmico (EI) na Síria. Como conseguem se esconder depois de voltarem à Europa?

Há na França e na Bélgica, mas também na Alemanha, bairros onde o Estado perdeu o controle. Nesses bairros, onde a maioria da população é contra o Estado, os jihadistas conseguem se esconder sem precisar deixar o país. Foi assim que Salah Abdeslam (procurado pelos ataques em Paris, em novembro) conseguiu se esconder na Bélgica por tanto tempo, embora fosse procurado pela polícia.

Como os terroristas são recrutados?

Na mesquita ou através de amigos. Há casos de pessoas bem-sucedidas que aderem, mas a maioria é de jovens que se sentem discriminados e excluídos da sociedade. Eles sofrem uma lavagem cerebral que faz com que estejam dispostos a virar um homem-bomba. Entre 2004 e 2010, lecionei na Universidade da Jordânia, em Amã. E fiquei mais do que surpreso quando alguns estudantes me perguntaram se havia algo na vida mais importante do que a religião. Eu respondi, “claro que sim, a vida, o humanismo”, etc. Mas eles tentaram argumentar que a religião era mais importante do que qualquer outra coisa.

Qual é o papel do Islã, então?

O terrorismo da jihad está diretamente ligado à religião. Muitos trechos do Alcorão dizem que os não crentes devem ser aterrorizados. Mas é interessante observar também que um outro fator pouco abordado tem sua parcela de influência. O livro “Os condenados da Terra”, de Frantz Fanon, um filósofo francês da Martinica, obra dos anos 1960 que havia caído no esquecimento e foi redescoberta, é também uma espécie de Bíblia dos jihadistas, por pregar a violência como um instrumento contra a violência colonial da qual se julgam vítimas.

Que medidas a Europa vai tomar para combater o terrorismo?

A Europa precisa levar muito a sério essa guerra, mesmo que não a chame de guerra. Não é preciso muita fantasia para se imaginar o que os terroristas já cogitam: atacar usinas de energia atômica.

oglobo.globo.com | 25-03-2016

BERLIM – Pressionada pela crise dos fugitivos, a União Europeia resolveu ignorar valores básicos como democracia e liberdade de imprensa. É o que sustenta o cientista político Hüseyin Bagci, da Universidade de Ancara, que alega que o governo turco está em posição vantajosa para negociar, mesmo com a ocupação do jornal “Zaman” e os ataques contra curdos — porque a UE depende da sua ajuda para resolver a crise.

“A Turquia vai continuar a aumentar o seu preço e planeja exigir, depois dos seis bilhões já negociados, três bilhões de euros por ano para resolver a crise dos refugiados para a União Européia”, disse Bagci em entrevista ao GLOBO. Turquia

Houve até agora algum tipo de pressão da União Europeia contra a Turquia em reação à intervenção no jornal "Zaman"?

Não. Até agora a UE poupou a Turquia de críticas. O assunto foi mencionado apenas superficialmente. A UE parece ter esquecido os seus valores básicos como democracia e liberdade de imprensa em consequência da crise dos refugiados. O presidente Recep Tayyip Erdogan fez da Turquia um estado autoritário, com perseguição de jornalistas críticos. O "Zaman" não é um caso isolado. Já no ano passado o jornal “Bugun”, que fazia críticas ao governo, passou a ser controlado pelo Estado. O "Zaman" era porta voz do movimento “Hizmet”, fundado pelo pregador Fethullah Gülen, que foi até há dois anos aliado de Erdogan. Depois, Gülen e o "Zaman" mudaram de posição e passaram a ser o que mais criticava o governo. O conflito entre os dois foi escalando nos últimos anos. Os jornalistas do "Zaman" já receavam o pior. Alguns fugiram para o estrangeiro para evitar uma prisão.

Os turcos ficaram surpreendidos com o novo status da Turquia na UE?

Antes da crise dos refugiados, a UE exigia mais da Turquia dos que o fez no caso de alguns países do Leste Europeu que já são membros do bloco. Mesmo a chanceler Angela Merkel, que até há pouco tempo defendia uma “parceria privilegiada” entre a Turquia e a UE, para evitar o ingresso do nosso país no bloco, passou a defender uma aceleração das negociações. Em um aspecto o povo turco tem opinião idêntica a do governo. O preço cobrado pelos turcos deve ser alto. E a Turquia vai continuar aumentando o seu preço. Depois dos 6 bilhões de euros já definidos, Ancara quer aumentar de novo o seu preço, passando a exigir 3 bilhões por ano, enquanto a crise durar.

Em troca do dinheiro e de outras facilidades, como o fim da exigência do visto para turcos na UE, a Turquia vai segurar os refugiados, evitando que eles continuem viagem para a Grécia?

Evitar a viagem para a Grécia não vai ser possível, porque é muito difícil um controle no mar. Mas alem das medidas já anunciadas, que preveem que a Turquia receba de volta refugiados que já estão na Grécia, a Ancara já começou a reduzir dramaticamente o número de fugitivos vindos da Síria. Ao longo da fronteira de 822 km, só podem passar idosos, doentes e crianças. Os outros não são mais aceitos.

A crise dos refugiados será resolvida, pelo menos para a UE?

O número de refugiados que vem para a UE vai praticamente zerar. Mas a crise não pode ser considerada resolvida. Ainda ontem morreram 18 pessoas, afogadas ao tentar atingir o território grego, da UE, através do Mar Egeu. E o motivo da fuga, que é a guerra, ainda não acabou.

É verdade que a Turquia forneceu armas para o Estado Islâmico?

No início, muitos forneceram armas para os islamistas porque os julgavam oposição à ditadura de Assad. Depois a Turquia reconheceu que foi um erro, mas evita admitir isso publicamente, embora todo mundo saiba que o fluxo de fornecimento de armas para o EI ocorria através da Turquia. Setenta por cento dos turcos são contra um possivel envolvimento, mesmo indireto, da Tuquia na luta contra Assad.

Depois dos últimos atentados há o receio de que alguns dos conflitos da Síria e do Iraque sejam importados?

Os atentados causaram uma grande apreensão. As pessoas têm medo de que ocorram novos atentados. Mas apesar do tema minorias curdas da Síria e do Iraque, que querem autonomia, o conflito não será importado. O Iraque e a Síria são estados que fracassaram. Já a Turquia, apesar de todos os seus problemas, da falta de liberdade de imprensa, é muito mais estável. E é, além disso, país membro da Otan e candidato à UE.

oglobo.globo.com | 08-03-2016

Os líderes do G-20 devem tratar de grandes temas, como distribuição de renda e a estrutura de nosso sistema financeiro, para combater as causas profundas da fraca demanda global.

As políticas macroeconômicas foram importantes para estabilizar a economia global, mas já não são suficientes para enfrentar a fragilidade e o baixo crescimento do atual ambiente econômico. Em especial, elas não conseguem resolver a persistente debilidade da demanda, menos ainda estimular um novo aumento da produtividade.

Tais políticas possuem uma munição bem mais limitada hoje do que há oito anos, quando eclodiu a crise global. A política monetária em várias nações desenvolvidas está em torno de zero, e as taxas de juros dificilmente podem ser reduzidas ainda mais. As políticas fiscais em alguns países estão mais contidas hoje do que estavam antes da crise.

De fato, a dívida soberana em economias desenvolvidas cresceu de 70% para mais de 100% do PIB. Enquanto alguns países, como a Alemanha, podem usar a política fiscal para estimular o investimento público na infraestrutura necessária e assim promover o crescimento, para muitas nações esta política não é uma opção devido ao limitado espaço fiscal.

É hora de olhar para as causas mais profundas que subjazem ao enfraquecimento da demanda global, à desaceleração do comércio e do crescimento econômico em geral.

A primeira questão é a distribuição de renda. A parcela da renda nacional que vai para o trabalho vem declinando globalmente, o que significa que o crescimento da produtividade não resulta em aumentos de renda para os trabalhadores, mas sim para os donos do capital.

A participação do trabalho no setor corporativo nos EUA, por exemplo, caiu de mais de 65% nos anos 1970, para menos de 60% há alguns anos, e declínios similares são verificados em Japão, China e Alemanha. Além disso, boa parte do crescimento do PIB está fluindo para a parcela 5% mais rica da população.

Estas são mudanças estruturais muito profundas em nossas economias. Sem dúvida, elas merecem atenção do G-20 quanto às suas causas subjacentes e suas consequências econômicas.

Há explicações distintas sobre as razões desse fenômeno, variando de mudanças técnicas e o uso de robôs para aumentar a integração global à transição do poder político. Mas, independentemente das causas da mudança na distribuição de renda, ela tem implicações para a demanda agregada e o futuro do Estado de bem-estar social. Ela também vai afetar a cooperação internacional sobre a taxação de capital e a estabilidade e prosperidade de nossas economias em geral.

A segunda questão tem a ver com a estrutura de nossos sistemas financeiros. Pesquisa recente mostra que os sistemas financeiros com uma grande estrutura bancária relativa aos mercados de ações e de títulos estão associados a mais riscos sistêmicos e menor crescimento, sobretudo durante crises no setor imobiliário.

Prover as condições estruturais corretas para o desenvolvimento de mercados de capital, e regular de forma adequada o sistema financeiro como um todo é, portanto, essencial para a estabilidade e o crescimento, particularmente na União Europeia e na China.

Embora alguns argumentem que as reformas estruturais correm o risco de se tornarem deflacionárias em um ambiente de baixa inflação, as medidas corretas podem ter um impacto positivo.

De fato, algumas reformas podem estimular o investimento quase imediatamente. O estabelecimento de um registro de terra adequado na Grécia, a liberalização do transporte rodoviário, o melhoramento da eficiência do sistema judiciário, a melhoria das instalações de educação e a integração e o aprofundamento dos mercados poderiam ter consequências benéficas para a inflação e a demanda. Aplicar reformas que permitam o aumento da produtividade devem induzir o investimento.

Muitas reformas são específicas em nível nacional, mas essas grandes questões de reformas estruturais são relevantes para todos os países do G-20. Há espaço para iniciativas conjuntas em todo o bloco, assim como o aprendizado de experiências bem-sucedidas e o estabelecimento de padrões.

Numa época de fraca demanda, os países do G-20 devem realizar reformas que disparem rapidamente investimentos, e as políticas macroeconômicas de apoio devem complementar estas reformas. Mudar a distribuição de renda e fortalecer a resistência e a diversidade de nosso sistema financeiro deveriam estar no âmago da agenda de reforma estrutural que a China rapidamente identificou como prioridade crucial de sua presidência.

Guntram B. Wolff é diretor do Instituto Bruegel, de Bruxelas

oglobo.globo.com | 08-03-2016

RIOPara António Costa, analista político e professor da Universidade de Lisboa, a vitória do conservador Marcelo Rebelo de Sousa nas eleições presidenciais de Portugal vai equilibrar as forças políticas e levará confiança aos mercados e à União Europeia (UE). Segundo Costa, o novo presidente de centro-direita deverá ter uma postura conciliadora com o governo liderado pelos socialistas. Portugal

Professor de Direito Constitucional e famoso comentarista de televisão, Sousa foi eleito no primeiro turno com 52% dos votos, uma ampla vantagem em relação a seu oponente mais próximo, o independente de esquerda António Sampaio da Novoa, com 22,01%.

A vitória de Marcelo Rebelo de Sousa colocaria em risco o governo socialista?

Ele é o mais centrista da centro-direita e não colocou o governo socialista em xeque. Disse que não seria inimigo e que queria unir os portugueses que ficaram muito divididos com a formação de um governo de esquerda. Fez uma campanha muito conciliadora entre esquerda e direita.

Como o resultado mexe nas forças políticas?

Temos um governo do Partido Socialista com a novidade de ser apoiado por legendas mais à sua esquerda e, agora, com um presidente de centro-direita, o sistema fica mais equilibrado. Marcelo fez uma campanha eleitoral muito ao centro, independente dos partidos, focada nele e em sua popularidade. Isso significa que ele pode ter muita autonomia. Para ganhar mais de 50% dos votos, Marcelo teve que buscar mais apoio do que o obtido pela coligação de centro-direita nas últimas eleições.

Sua popularidade foi determinante para a vitória?

Sousa ganhou sobretudo por causa de sua presença midiática nos últimos 20 anos e não necessariamente pelo apoio dos partidos de centro-direita. Ele é professor de Direito, foi deputado e secretário-geral do Partido Social Democrata (PSD), do ex-presidente Pedro Passos Coelho. Nos últimos anos, todos os domingos, tem participado de um programa de TV como analista político. É muito conhecido no país.

A continuidade de um presidente de centro-direita acalma o mercado e a União Europeia?

Haverá mais confiança. Ele é partidário do euro, da estabilidade e das relações com a UE. Apesar de ter dito que não dissolverá o Parlamento, acredito que ele não hesitaria em convocar eleições e derrubar o governo se houver problemas.

Então o presidente deve pressionar os socialistas?

No semipresidencialismo português, um presidente não governa, mas tem poderes informais. E o seu poder é sempre maior quando o governo é minoritário. Neste ano, a principal ameaça não vem do presidente de centro-direita, mas principalmente da dificuldade financeira para se cumprir os acordos firmados com os partidos da coligação de esquerda. Tendo que manter a meta de déficit da UE, o governo socialista pode não ter condições de cumprir o aumento do salário mínimo, por exemplo. Em dezembro, o governo foi obrigado a salvar um banco sem apoio da esquerda.

A existência de dez candidatos neste pleito demonstra uma falta de liderança nos partidos?

Vários políticos da esquerda se postularam para tentar forçar um segundo turno com o candidato de centro-direita. Na esquerda, também há cada vez mais mulheres dirigentes políticas. As três principais dirigentes do Bloco de Esquerda são mulheres. E, com o passar dos anos, a conquista de sete mil assinaturas para se candidatar tornou-se algo fácil. (C.J.)

oglobo.globo.com | 25-01-2016

RIO — Em eleições presidenciais marcadas pelo número recorde de candidatos e pela alta taxa de abstenção, o veterano de centro-direita e comentarista político Marcelo Rebelo de Sousa foi eleito neste domingo com folga no primeiro turno, com um discurso conciliador e a promessa de colaborar com o governo socialista. Sem apoio político e econômico de seu partido, tampouco de empresários, o conservador e estrela de TV obteve 52% dos votos, desbancando o independente António Sampaio da Nóvoa, ex-reitor da Universidade de Lisboa, que somou apenas 22,74%%.

Em seu discurso de vitória, na noite de ontem, Sousa disse que vai trabalhar para promover o consenso e reparar divisões criadas após as eleições de outubro, quando a esquerda derrubou um governo de centro-direita que impôs duras regras de austeridade no país. Ele já havia se mostrado favorável a um governo de “coabitação” — termo usado para se referir a um presidente eleito por uma maioria diferente da parlamentar.

— Esta eleição termina um processo eleitoral muito longo que enervou o país e dividiu uma sociedade já ferida por anos de crise. É hora de virar a página, acabar com o trauma e iniciar uma pacificação econômica, social e política — afirmou Sousa, professor de Direito Constitucional e membro do Partido Social-Democrata (PSD), diante de dezenas de simpatizantes na Universidade de Lisboa.

Conhecido como “professor Marcelo”, ele se mostrou bastante conciliador com o governo de esquerda liderado por António Costa, seu ex-aluno na Faculdade de Direito de Lisboa.

— Não serei o presidente de nenhum partido — prometeu, declarando que deseja ser “um árbitro acima das confusões”.

Para o analista político Tiago Fernandes, da Universidade Nova de Lisboa, o novo presidente deve cumprir sua promessa e estabelecer uma relação de cooperação com os socialistas. Dois meses após sua turbulenta formação, o governo se divide entre as pressões da União Europeia (UE) para o cumprimento do déficit e as expectativas de seus aliados de esquerda, que exigem um alívio na política de austeridade.

— Pelo menos no primeiro momento, Marcelo terá boa uma relação com o governo de esquerda e o ajudará a ter estabilidade — avaliou Fernandes, em entrevista ao GLOBO, de Lisboa.

Apesar de ter funções fundamentalmente honorárias, o presidente tem em mãos uma prerrogativa considerada uma “bomba atômica”: o poder de dissolver o Parlamento. Fernandes, no entanto, considera algo improvável.

— Marcelo não tem razões para destituir o Parlamento. Só se houver algo realmente muito forte. O governo socialista está no início e tem apoio eleitoral e dos parlamentares — disse o especialista.

Mais de 9,7 milhões de eleitores em Portugal e no exterior foram convocados às urnas para eleger o novo presidente para os próximos cinco anos, após uma década em que o também social democrata Aníbal Cavaco Silva ocupou o Palácio de Belém.

A liderança clara de Sousa nas pesquisas e o papel principalmente cerimonial da figura de presidente no país não conseguiram chamar a atenção do público. A taxa de abstenção ficou em 51,16%, depois de um recorde de 53,48% na disputa presidencial de 2011.

DUAS MULHERES NO PÁREO

No total, dez candidatos participaram da disputa, um número recorde para eleições presidenciais em Portugal. Foi a primeira vez em 30 anos que uma mulher participou da disputa.

Marisa Matias, a candidata do Bloco de Esquerda, próximo ao grego Syriza e ao espanhol Podemos, surpreendeu ao ficar em terceiro lugar, com 10,14% dos votos, à frente da ex-ministra socialista Maria de Belém Roseira (4,26%).

A cerimônia de posse do novo presidente está marcada para 9 de março. De acordo com a Constituição, ele poderá usar sua prerrogativa de dissolução do Parlamento somente a partir de abril, quando se completam seis meses das eleições legislativas de outubro.

oglobo.globo.com | 24-01-2016

WASHINGTON — Além da questão humanitária, o recebimento de refugiados pela Europa pode, no fim das contas, ser uma vantagem econômica para os países receptores. O estudo “Onda de refugiados na Europa — desafios econômicos”, publicado na manhã desta quarta-feira pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) afirma, contudo, que os benefícios somente serão sentidos se os refugiados forem rapidamente integrados à sociedade e ao mercado de trabalho. refugiados

O estudo indica que, em 2015, o fluxo de refugiados deve ter acrescentado 0,15% da população europeia. Nos doze meses encerrados em outubro, o total de pedidos de asilos tinha sido de 995 mil, um novo recorde, superando os 670 mil de 1992, após a queda do Muro de Berlim e da desintegração da Iugoslávia. Para o FMI, no curto prazo, o efeito é pequeno no crescimento da economia, nas mesmo assim tende a ser maior que o aumento de gastos públicos.

“Despesas dos requerentes de asilo nos países da União Europeia poderiam crescer de 0,05 a 0,1 ponto percentual do PIB em 2015 e 2016”, afirma o texto, lembrando que os dados são experimentais. Em alguns países, o impacto poderá ser bem maior, como na Suécia (de 0,2 a 0,7 ponto percentual do PIB) e da Alemanha (de 0,12 a 0,27 ponto percentual do PIB).

“Já o PIB deverá crescer cerca de 0,05% (2015), 0,09% (2016) e 0,13% (2017)”. Novamente, o impacto será diferenciado e a Áustria pode ver seu PIB 0,5% maior, a Suécia um incremento de 0,4% e da Alemanha de 0,3% nestes anos. Mas, no longo prazo, os impactos tendem a ser positivos, se estas populações forem bem integradas. “Em 2020, o nível do PIB ficaria 0,25% maior na União Europeia como um todo, e o incremento pode ser de 0,5% a 1,1% nos três países que mais recebem refugiados (Áustria, Alemanha, Suécia)”, diz o documento.

Além do impacto na demanda de produtos e serviços, como habitação, a chegada dos imigrantes pode rejuvenescer a força de trabalho de diversos países e trazer novas criatividades para as nações europeias. Um estudo recente mostrou que 21% dos sírios que estão migrando para a Alemanha possuem curso superior completo, percentual próximo ao dos alemães (23%). A integração social, laboral e de educação é apontado como fundamental pelo estudo de 50 página.

O levantamento do FMI leva em conta que alguns países, como a Suécia, já contam com 14,8 refugiados para cada grupo de 1.000 habitantes. Nos países vizinhos à Síria, contudo, o número é muito maior: 323 por mil no Líbano e 87 por mil na Jordânia.

O FMI alerta ainda que a crise dos refugiados deve aumentar. O fundo contabilizou que em 2014 60 milhões de pessoas foram deslocadas à força em todo o mundo, sendo o maior número desde a Segunda Guerra Mundial. Destes, 14,4 milhões eram refugiados. Além do problema sírio, conflitos na África devem continuar ampliando a onda migratória. O estudo indica, contudo, que o continente mais pobre do mundo foi o que mais recebeu pedidos de refugiados -- sobretudo de fugidos de países vizinhos: 39% em 2014. Na sequência, aparecem a Europa (32%), a Ásia (14%), a América do Norte (11%), a América Latina (2%) e a Oceania (1%).

oglobo.globo.com | 20-01-2016

VALE HEFER, Israel – O novo branco fresco, ácido e mineral de uma vinícola de qualidade de Israel envelheceu oito meses – ou, dependendo de como você prefira olhar para o fato, pelo menos 1.800 anos. O vinho, chamado marawi e lançado em outubro pela Recanati Winery, é o primeiro produzido comercialmente pela crescente e moderna indústria israelense com uvas locais. Ele nasceu de um projeto inovador da Universidade Ariel na Cisjordânia ocupada que tem como foco usar testes de DNA para identificar – e recriar – vinhos antigos bebidos por gente como o rei Davi e Jesus Cristo.

Eliyashiv Drori, enólogo da Ariel que liderou a pesquisa, seguiu o marawi – também chamado de hamdani – e as uvas jandali até o ano 220 a.C., baseado em uma referência no Talmude da Babilônia.

"As nossas escrituras estão cheias de vinhos e uvas – antes dos franceses começarem a pensar em fazer vinhos, estávamos exportando a bebida. Temos uma identidade muito antiga e, para mim, reconstruí-la é importante. É uma questão de orgulho nacional."

O redesenvolvimento de castas locais, no entanto – como tantas coisas nessa terra contestada – não está livre de fricção política. Ela vem junto com as novas diretrizes de rotulagem polêmicas lançadas pela União Europeia, que exigem que os vinhos da Cisjordânia e das Colinas de Golã tenham uma etiqueta dizendo que foram feitos em assentamentos israelenses. E os palestinos têm suas próprias reivindicações de propriedade sobre essas uvas.

Para os produtores de vinho de Israel, a busca por castas novas/velhas é uma oportunidade de distinguir seus produtos em um mercado global competitivo em que eles têm poucas esperanças de ser melhores, por exemplo, do que um chardonnay francês. Os arqueólogos e geneticistas estão testando novos métodos para analisar velhas sementes queimadas. Na luta sem fim entre israelenses e palestinos, é uma busca para reafirmar as raízes judaicas na terra santa.

Mas a Recanati não é a primeira a vender vinho dessas uvas. A Cremisan, uma pequena vinícola perto de Belém, onde os palestinos são sócios de monges italianos, vem usando hamdani, jandali e outras frutas locais desde 2008.

"Como sempre acontece com os israelenses, eles declaram que o falafel, o tahini, o tabule, o homus e agora as uvas jandali são produtos de Israel", reclama Amer Kardosh, diretor de exportação da Cremisan, em um e-mail. "Gostaria de informá-lo que esses tipos de uva são totalmente palestinos e crescem em vinhedos palestinos."

Sim, mas as fazendas palestinas que venderam as uvas para a Recanati insistiram em continuar anônimas, por medo da reação de trabalhar com os israelenses, ou apenas de ajudar a fazer vinho, que geralmente é proibido no islamismo. A Recanati, por seu lado, abraçou a herança, usando a língua árabe no rótulo do marawi e contratando um cantor árabe-israelense para cantar no lançamento, em outubro, para 50 sommeliers selecionados.

O viticultor, Ido Lewinsohn, diz que seu produto é "limpo e puro de qualquer influência política", e afirma que as uvas: "Não são israelenses; não são palestinas. Pertencem à região – e isso é algo bonito".

Foram descobertos lagares em Israel – e na Cisjordânia – que datam de tempos bíblicos. Mas a produção do vinho se tornou ilegal depois que os muçulmanos conquistaram a terra santa no século VII. Quando o barão Edmond de Rothschild, sionista de primeira hora e descendente da famosa vinícola de Bordeaux, ajudou a recomeçar a produção local em 1880, trouxe os frutos da França.

Hoje, as 350 vinícolas de Israel produzem 65 milhões de garrafas por ano. Há tempos o viscoso e doce Manischewitz foi ofuscado por chardonnays, cabernets, merlots, syrahs, carignans e outros de alta qualidade. Mas não há muito para onde ir com as uvas importadas.

"Ainda não conseguimos criar um DNA para os vinhos israelenses", lamenta Haim Gan, dono da Grape Man, uma empresa que defende a cultura vinícola de Israel.

Drori, que é doutor em Agricultura, começou em 2005 uma vinícola boutique, a Gvaot, perto de sua casa na Cisjordânia. Ali, ele percebeu um vinhedo abandonado com uvas brancas pequenas e muito doces que pensou que poderiam resultar em vinhos saborosos.

Com um orçamento de cerca de US$750 mil, a maior parte do Fundo Nacional Judeu – uma organização sionista de um século que ajuda a transformar o cenário da agricultura de Israel – Drori e uma dezena de colegas identificaram, desde 2011, 120 variedades únicas de uvas cujos perfis de DNA são distintos de todas as importadas. Cerca de 50 foram domesticadas, conta Drori, e 20 delas são "adequadas para a produção de vinho".

Separadamente, pesquisadores identificaram 70 variedades distintas usando DNA e um escaneamento tridimensional, que nunca havia sido utilizado antes dessa forma e com sucesso, de sementes queimadas e secas descobertas em escavações arqueológicas. A ideia é comparar essas sementes antigas com as uvas vivas, ou algum dia talvez recriar a fruta como foi feito no filme "Jurassic Park".

Dadas as dificuldades de conseguir as uvas de fazendeiros palestinos, a Recanati produziu apenas 2.480 garrafas de marawi 2014, que estão disponíveis em cerca de dez restaurantes de Tel Aviv. A vinícola tem perto de quatro mil garrafas de marawi 2015 envelhecendo e espera em breve plantar seu próprio vinhedo para expandir e refinar a marca.

Itay Gleitman, que escreve sobre vinhos para a Haaretz, chamou o marawi de "o vinho israelense mais importante do ano", por sua procedência, se não pelo gosto. Ele diz que é "agradável e fácil de beber" e que "abre um pouco no copo com aromas suaves de maçã e pêssego". E, se a uva for cultivada especialmente para a vinicultura, tem potencial que "estimula a imaginação".

O próximo é o dabouki, também branco, que o conhecido viticultor israelense Avi Feldstein planeja lançar junto com sua nova vinícola em alguns meses. Dabouki pode ser umas das castas locais mais antigas, um bom candidato para o vinho que encheu o copo de Jesus (que Drori acredita que bebia brancos e tintos).

Feldstein diz que tem cerca de 800 garrafas de cada safra de dabouki 2014 e 2015, uma "com gosto de castanha" e a outra "um pouco tropical".

"Se você é um viticultor de verdade, quer expressar um lugar. Sem a região e a diversificação que ela traz, o vinho fica reduzido à uma Coca-Cola alcoólica", diz Feldstein.

oglobo.globo.com | 24-12-2015

ESKISEHIR, TURQUIA — Uma nova linha férrea de alta velocidade, entregue em 2014, agora liga a cidade de Eskisehir a Istambul, no Oeste do país, e Ancara, no Leste. Um rio estreito serpenteia pelo Centro da cidade, pontilhado por belas pontes azuis em praticamente todos os quarteirões, atraindo turistas do mundo todo. As fábricas da cidade produzem de tudo, de bolos e biscoitos a caminhões Ford e peças para aviões.

Ainda assim, apesar da aparência de prosperidade, a economia de Eskisehir sentiu a crise que se abateu sobre o país, à medida que as exportações para a China e o Oriente Médio perderam a força. Além disso, a Rússia interrompeu boa parte do turismo para a Turquia e ameaçou interromper a importação de alimentos do país depois que jatos F-16 turcos abateram um avião de combate russo na fronteira com a Síria em novembro, tornando ainda mais delicada a situação econômica.

— Com a taxa de desemprego crescendo a cada dia, nossa economia perdeu a força — afirma o prefeito de Eskisehir, Yilmaz Buyukersen.

A Rússia é um dos maiores mercados exportadores da Turquia, atrás apenas da Alemanha. A cidade de Eskisehir tem uma grade refinaria que produz açúcar com as beterrabas colhidas nos campos da região e exporta mais de US$ 30 milhões (R$ 116,7) em biscoitos, bolos, bolachas e outros alimentos para a Rússia, de acordo com a câmara de comércio local.

A Turquia estava aumentando o volume de alimentos exportados para a Rússia nos últimos meses, quando os conflitos políticos entre os russos e os países ocidentais levaram à redução das importações de alimentos da União Europeia (UE).

Os russos também estavam entre os principais turistas na Turquia até 2014, quando uma queda no valor do rublo e as sanções do Ocidente geradas pelo apoio aos insurgentes ucranianos levaram a uma queda brusca no número de pessoas capazes de realizar viagens internacionais. A queda no turismo já preocupava os economistas turcos antes mesmo da queda do jato da Rússia.

— O déficit comercial está fora de controle. As exportações não são suficientes para compensar as importações, então o faturamento do turismo é fundamental para manter nossas contas equilibradas — explica o diretor da Faculdade de Economia da Universidade de Bilkent, Erinc Yeldan, nos arredores de Ancara.

Ainda assim, vice-diretor-geral de assuntos econômicos gerais e bilaterais do Ministério do Exterior turco, Cengiz Kamil Firat, observa que a economia do país está em melhor forma do que pode parecer. A decisão russa de desencorajar o turismo, por exemplo, ocorreu justamente no início da baixa temporada turca. O país é basicamente um destino de verão e não espera um grande número de turistas antes do mês de junho.

— Os problemas provavelmente vão ser resolvidos muito antes da estação — aposta Firat.

As exportações turcas para a Rússia corresponderam a 0,8% da produção econômica do país em 2014. Mas Yeldan afirma que, mais importante que o valor do dólar ou as sanções comerciais, é que a Rússia não leve o mercado internacional a deixar de trazer os investimentos necessários para equilibrar o déficit crônico da balança comercial turca.

As dificuldades econômicas da Turquia são preocupantes para o Ocidente. A UE e os Estados Unidos têm buscado ajuda turca para limitar o número de europeus que usam o país como porta de entrada ou saída de áreas na Síria e no Iraque controladas pelo Estado Islâmico.

A crise da economia de Eskisehir, e da Turquia como um todo, vai muito além de lidar com imigrantes indesejados ou com uma possível queda no número de turistas. Muitos mercados emergentes têm enfrentado problemas com a desaceleração do comércio internacional.

A Turquia depende há muito tempo da exportação de produtos manufaturados para a Europa e o Oriente Médio, duas regiões onde a demanda está em baixa nos últimos tempos. Isso se deve em parte à geopolítica e em parte à sobreprodução industrial chinesa, que leva à exportação de produtos com custo baixíssimo para os mercados outrora cativos da Turquia no Oriente Média, na Europa e na África.

Tradicionalmente, o Iraque costumava ser o segundo maior mercado de exportação da Turquia, atrás apenas da Alemanha, mas os anos de guerra afetaram drasticamente as vendas. A Síria, outro importante mercado para a Turquia, está em plena guerra civil e o transporte de produtos através das rodovias que passam pela Síria ou pelo Iraque em direção ao Golfo Pérsico se tornou difícil e perigoso.

— As rotas não estão fechadas. Ainda há muito contrabando e as pessoas precisam disso para viver na Síria — explica Savas M. Ozaydemir, poderoso industrial de Eskisehir ligado à fabricação de telhas, materiais elétricos e ao setor imobiliário. — Mas a queda nas vendas foi de mais de 70%.

Ainda assim, a indústria Turca teve alguns bons momentos e a previsão é de que a economia do país continue a crescer em torno de 3% ao ano pelos próximos anos — menos do que os 5% aos quais a economia turca se habituou nas épocas de vacas gordas, mais ainda assim mais do que a maioria dos países.

Uma das áreas mais fortes é a construção de casas. Temendo instabilidades no mundo árabe, famílias de todo o Oriente Médio estão comprando apartamentos na Turquia. Juntamente com as baixas taxas de juros, isso gerou um boom imobiliário em Ancara e Istambul.

Em Eskisehir, a nova linha de trem de alta velocidade e a transformação de um velho distrito industrial no Centro em um bairro de apartamentos luxuosos levou a um aumento no número de projetos de construção. Mas, por enquanto, muitos proprietários estão preocupados.

— Vivo em Eskisehir há 15 anos e nunca vi a economia tão devagar quanto agora — afirmou Sinan Atinar, dono de uma lanchonete no Centro.

oglobo.globo.com | 23-12-2015

MADRI — O cenário de incertezas, resultado das eleições gerais de domingo, no qual o Partido Popular (PP) saiu vencedor perdendo 62 deputados, deverá durar até o final de março ou início de abril. É estreita a margem de manobra para conseguir a reeleição de Mariano Rajoy como presidente do Executivo espanhol, e, no caso de tomar posse, são igualmente reduzidas as expectativas de um governo estável, que aguente os quatro anos de mandato. Espanha

— Destas eleições não saíram dois blocos, um de esquerda e outro de direita, que competem entre si. Dentro da própria esquerda, com PSOE e Podemos, há disputa pela hegemonia, assim como dentro da própria direita, com PP e Cidadãos. Entrar em acordos minimamente estáveis será muito difícil — disse ao GLOBO o analista político Julián Santamaría Ossorio, ex-presidente do Centro de Investigações Sociológicas.

Na noite eleitoral, Rajoy, diante de seus correligionários, na varanda da sede do PP em Madri, disse que “a Espanha necessita de estabilidade”. Para conseguir formar um governo, são necessários, numa primeira sessão, pelo menos 176 votos a favor. A votação deve acontecer na segunda quinzena de janeiro, no máximo 20 dias depois da posse do novo Parlamento, no dia 13. Se não houver maioria absoluta, 48 horas depois ocorre uma segunda votação, que, nesse caso, se resolve com maioria simples — ou seja, mais votos a favor do que contra. Se o ‘não’ volta a prevalecer, ocorrem novas sessões. Dois meses depois da primeira votação, se não houver uma definição, o Parlamento é dissolvido e são convocadas novas eleições.

‘Oposição pode golpear PP até nocauteá-lo’

O partido de Pedro Sánchez, líder dos socialistas, anunciou ontem que não se absterá: votará contra Rajoy. Isso não significa, no entanto, que esta atitude tenha que se manter em todas as sessões, segundo analistas políticos. Não é improvável que os socialistas demonstrem sua posição política votando contra na primeira sessão, mas negociando sua abstenção na segunda.

— O PSOE pode estar mais interessado eleitoralmente em aparecer como um salvador da governabilidade — opina Josep María Reniu, autor do livro “Formação de governos minoritários na Espanha”.

Por um lado, pode haver pressões por parte da União Europeia, alegando que o panorama atual de crise na Espanha não pode permitir tal situação de indefinição. Por outro, pode ser mais interessante para o PSOE assistir ao desgaste de seu principal rival, num governo fraco, do que apostar na convocação de novas eleições, das quais poderia sair ainda mais debilitado.

— Sem maioria absoluta, a aprovação do Orçamento, a principal lei de um sistema parlamentar, é muito difícil. Sem ela, é impossível levar adiante políticas públicas. Portanto, desta maneira, a oposição iria golpeando o PP até que ele fosse nocauteado. Os socialistas poderiam, então, apresentar uma moção de censura, para acabar com o mandato (do PP). É uma maneira de esperar que a fruta madura caia da árvore — explica Reniu.

Este contexto de tolerância do PSOE a um novo governo conservador se daria, segundo os analistas, na segunda conjuntura mais provável, caso uma grande coalizão com os socialistas seja completamente descartada: uma união do PP com o Cidadãos, que juntos têm 163 deputados.

— O Cidadãos está obrigado a agir. Se não se mexer, será criticado por não usar os votos recebidos, e se aceitar uma coalizão, será igualmente criticado. (O líder Albert) Rivera está numa situação muito complicada — afirma Reniu, que é professor de Ciências Políticas da Universidade de Barcelona.

A terceira hipótese (muito pouco provável, segundo os analistas políticos) seria a formação de um bloco de esquerda dos socialistas, com Podemos e Esquerda Unida. No suposto contexto de que o Podemos estivesse aberto para esta negociação, os socialistas teriam que abdicar de boa parte de seu programa eleitoral e teriam que seduzir nacionalistas catalães para engordar esta maioria.

— Pelo discurso de Pablo Iglesias, interpreto que o líder de Podemos se inclina pela convocatória de novas eleições, apostando que sairá ainda mais reforçado — opina Santamaría Ossorio.

oglobo.globo.com | 22-12-2015

CARACAS — O chefe da campanha chavista para as eleições legislativas venezuelanas, Jorge Rodríguez, chamou de “desempregados” o grupo de ex-presidentes convocados pela oposição para observar o pleito de domingo.

“Facemos uma convocação ao reconhecimento dos resultados em paz, distantes de declarações polêmicas como as que vimos deste grupo de ex-presidentes desempregados”, afirmou Rodríguez em um coletiva.

Rodríguez se referia aos ex-presidentes da Bolívia, Horacio Quiroga; da Colômbia, Andrés Pastrana; da Costa Rica, Laura Chinchilla e Miguel Ángel Rodríguez; do Panamá, Mireya Moscoso, e do Uruguai, Luis Lacalle, e criticou o “triste legado” deixado pelos políticos, e rachaçou o que classificou como “uma tentativa de dar lições e emitir julgamentos sobre a democracia venezuelana”.

Na sexta-feira, os ex-presidentes, convidados pela coalizão opositora Mesa de Unidade Democrática (MUD), exigiram transparência nas eleições legislativas, denunciando um cenário de vantagens ilícitas para os candidatos do governo.

— Esperamos eleições tranquilas, democráticas, transparentes, em que as pessoas possam votar tranquilamente — afirmou Pastrana, um duro crítico do presidente Nicolás Maduro, e que observou que os seis ex-presidentes mantêm sua “preocupação com o contexto em que as eleições serão realizadas”.

Ex-chefe do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), Rodríguez defendeu a confiabilidade do sistema eleitoral venezuelano — automatizado — e disse que está entre os mais seguros do mundo.

— Quantos mortos estão na memória e nas costas de alguns desses presidentes, quantos camponeses mortos em massacres, quanta violação do Estado de direito, dos direitos humanos! — afirmou Rodríguez, que também é prefeito do município de Libertador.

O CNE convidou como uma missão da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e líderes como o ex-presidente do governo espanhol, José Luis Rodriguez Zapatero como observadores internacionais das eleições.

O órgão eleitoral se recusou a permitir uma observação da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da União Europeia, tal como exigido pela MUD, que pode obter uma maioria na Assembleia pela primeira vez após 16 anos de chavismo, de acordo com pesquisas.

Tiros em seções eleitorais

Um dia antes das eleições que podem tirar do governo chavista o controle sobre a Assembleia Nacional, duas zonas eleitorais foram palco de violência. Em Sucre, um sargento da Polícia Militar foi assassinado por homens bêbados que tentaram entrar em um centro de votação. Em Aragua, oito membros de uma gangue conhecida como “El Manota”, renderam três soldados da Força Aérea na Escola Nacional Nueva Venezuela, que funcionará como centro de votação,e roubaram suas armas. Posteriormente foram cercados pela polícia que recuperou as armas e matou o líder da gangue, Yohan Enriques Reyes Tocar.

oglobo.globo.com | 06-12-2015

BRASÍLIA - Em momento de crise, a América Latina não terá outro caminho a não ser investir em inovação e conhecimento tecnológico para crescer e, com isso, evitar que os programas sociais desenvolvidos com êxito na região sejam ameaçados. O Brasil não é uma exceção. O diagnóstico é de Rebeca Grynspan, ex-vice-presidente da Costa Rica, ex-ministra da Economia do país nos anos 1980 e titular da Secretaria-Geral Ibero-americana. Em visita ao Brasil, ela teve, em Brasília, uma série de encontros com técnicos de vários ministérios, entre os quais da Educação e das Relações Exteriores, e, hoje, participará, no Rio, do encerramento do Laboratório Ibero-Americano de Inovação Cidadã.

A senhora prega que a recessão na América Latina ameaça as conquistas sociais. É uma visão generalizada?

É uma percepção generalizada, porque as taxas de crescimento vão ser baixas em todos os países, em torno de 2,5%. Esse crescimento é pouco para a expansão do emprego, fundamental para queda da pobreza e da desigualdade na região.

Qual a solução para os problemas econômicos enfrentados pela América Latina?

Na região não há mais alternativa, a não ser o caminho do conhecimento e da inovação. Esse também é o pensamento de organismos como a OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) e a Cepal (Comissão Econômica para a América Latina). A melhora da competitividade vai depender da produtividade, dos investimentos em ciência e tecnologia e da capacidade de inovar.

Países como o Brasil estão em uma encruzilhada: ou cortam gastos, inclusive sociais, ou aumentam impostos. O que dizer sobre isso?

Estive no Ministério da Fazenda de meu país. E digo que sempre há uma combinação que é preciso usar. Se apenas um instrumento é adotado, então é usado em excesso, e isso não é bom para a economia. Nada em excesso é bom. A combinação de instrumentos que se complementam sempre é o melhor caminho a seguir.

A vitória do empresário e político de centro-direita Maurício Macri na Argentina deve representar uma mudança no panorama político da América do Sul. Como seria esse cenário?

Quando há democracia, sempre há mudanças. Democracia implica alternância de poder.

Macri disse que vai pedir ao Mercosul a suspensão da Venezuela do bloco.

O mais importante que se passa neste momento são as eleições parlamentares na Venezuela. Não sei o que pensa a Unasul (Unidade Sul-Americana de Nações), mas, pela minha cabeça, a solução do processo venezuelano tem de vir através das eleições.

Qual a sua opinião sobre a Parceria Transpacífico (TPP)?

Creio que o fracasso da Rodada de Doha na Organização Mundial do Comércio (OMC) fragmentou o comércio no mundo. Inicialmente, surgiu uma microfragmentação, com um número incontável de acordos bilaterais, formando o que chamamos de tigela de espaguete. Agora vemos uma tendência diferente, uma macrofragmentação. Os acordos são muito grandes, mas não contemplam todo mundo. Alguns latinos estão na TPP e outros não. Todos preferiríamos um acordo na OMC, seria o ideal.

E quanto às negociações entre Mercosul e União Europeia para a criação de uma zona de livre comércio?

É muito importante que Mercosul e União Europeia retomem as conversas. Não devemos nos esquecer de que está em negociação um acordo no Atlântico Norte, formado por Estados Unidos e União Europeia.

Qual a responsabilidade dos EUA e da China nas economias latino-americanas?

A desaceleração da China afeta toda a região, mas especialmente a América do Sul. Já o crescimento dos EUA beneficia, fundamentalmente, a parte Norte da América Latina: América Central e México. A China afeta muito a economia do Sul de duas maneiras: pelos preços das matérias-primas e pelo volume de comércio. A demanda está baixando.

O aumento dos juros nos EUA não vai piorar o endividamento dos países latino-americanos?

O aumento das taxas de juros nos EUA foi antecipado para o mercado. Por isso, não espero um impacto muito grande na dívida dos países. A dúvida é como vai ficar o setor privado.

Há quem compare a situação atual à crise dos anos 1980, por causa da política monetária americana.

Não é verdade. Na época, os governos latino-americanos estavam muito endividados. Estamos em outro momento; os países estão mais bem preparados. A comparação com os anos 1980 é totalmente equivocada. Há 30 anos, não tínhamos instrumentos flexíveis. Os tipos de câmbio eram fixos e, por isso, não era possível se ajustar para internalizar o problema. Estamos em um momento de maior resistência na América Latina para enfrentar o mau tempo.

oglobo.globo.com | 29-11-2015

WASHINGTON - O franco-americano Maxime Larive é diretor do Centro União Europeia na Universidade de Illinois e publicou, em 2014, o livro “Debatendo a Política de Defesa Europeia de Segurança e Compreendendo sua Complexidade”. Estudioso sobre terrorismo, afirma que é preciso uma visão estratégica e evitar retrocessos, do contrário, a França e o Ocidente estarão entrando na armadilha armada pelo Estado Islâmico.

Esta nova fase do Estado Islâmico de ataques no exterior tende a ser intensificada?

É importante para o Ocidente e para a Rússia olharem para o Estado Islâmico além da ameaça que representa para os seus respectivos países e terem uma visão abrangente da ameaça que representa para a maioria dos países vizinhos. Os atentados na Turquia e em Beirute foram horrendos e ainda não receberam tanta atenção das principais capitais ocidentais. O debate nas nações ocidentais está se deslocando em direção a tons xenófobos e mudanças políticas extremas, que podem violar seus princípios democráticos. O Ocidente, e especialmente a França, pode estar caindo na armadilha do Estado Islâmico.

Como o senhor vê a atuação do presidente François Hollande após os ataques?

O presidente francês deu uma mensagem muito forte nos dias seguintes aos atentados, afirmando que a França está em guerra. A mensagem e a atuação dele me lembram muito o que foi feito por George W. Bush após os ataques de 11 de setembro de 2001. O Ocidente e a Rússia estão em um momento crítico e certamente devem agir com precauções. Os erros cometidos pelos Estados Unidos depois de 2001 parecem estar ressurgindo na França, que era altamente crítica à política externa dos EUA sob o presidente Bush. Isso é esquecer a sua própria História apenas 14 anos depois.

O que a morte do líder dos ataques na França pode significar?

A morte de Abdelhamid Abaaoud, suposto autor intelectual dos ataques em Paris, levanta mais perguntas do que respostas. Como ele entrou na Europa? Como poderia se mover tão livremente por toda a Europa? Como foi capaz de orquestrar sofisticados ataques sem alertar as autoridades francesas e europeias? Estas questões são importantes, a fim de impedir futuros ataques.

Como estes ataques podem mudar a Europa?

Os europeus têm desenvolvido uma política complexa e bem sucedida de uma Europa sem fronteiras com o acordo de Schengen. Uma região sem fronteiras não deve ser sinônimo de ilegalidade, e agora há a necessidade de uma maior cooperação entre as polícias e os serviços de inteligência. Em certa medida, as nações europeias estão em uma encruzilhada: ou projeto europeu se aprofunda com mais integração, ou morre.

A França deve fechar nesta semana um acordo com EUA e Rússia. Por que isso é importante?

Conforme anunciado pelo presidente François Hollande, a França está em guerra. A Rússia, um aliado histórico da França, é muito importante, considerando a necessidade de reforçar a cooperação entre UE e Rússia. A maior parte oriental da UE e os países bálticos veem a Rússia como a principal ameaça à sua segurança. Então, se envolver com a Rússia, a fim de lutar contra o EI em solo e encontrar uma solução para Bashar al-Assad é muito importante. Já Barack Obama está demonstrando sua aversão a compromissos militares mais profundos além dos bombardeios aéreos e dos consultores na região. A política externa americana tem sido baseada em contenção em vez de intervenção.

EUA e Rússia podem chegar a um acordo sobre Assad?

Moscou certamente quer ver Assad sobrevivendo à guerra, mas Washington tem sido bastante claro de que não aceitaria um futuro com Assad no comando da Síria. As negociações de Viena, que incluíram o Irã, abriram um caminho para a busca de uma solução política para a Síria. Mas as questões estão abertas e a maioria dos especialistas é incapaz de fornecer uma resposta sobre esta questão complexa.

oglobo.globo.com | 24-11-2015
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