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ALEPPO — Omran Daqneesh tem apenas 5 anos, o mesmo tempo que dura a guerra civil na Síria. Mas se transformou no novo rosto da tragédia depois que uma imagem sua sentado numa ambulância, após ser resgatado de escombros, ganhou repercussão mundial. Coberto de poeira e com a cabeça ensanguentada, Omran foi salvo com os três irmãos — com idades de 1, 6 e 11 anos — a mãe e o pai após seu prédio ser atingido por um bombardeio aéreo na cidade sitiada de Aleppo, na noite de quarta-feira. Ativistas culpam o regime sírio e a Rússia pelos ataques, que deixaram oito mortos, incluindo cinco crianças. Desde que a guerra começou, 4.500 crianças foram mortas na cidade no Norte do país, a principal de Síria.aleppo

A imagem — do fotógrafo Mahmoud Raslan — captura o momento em que Omran percebe que está sangrando. E foi compartilhada milhares de vezes nas redes sociais, incluindo por David Miliband, ex-secretário das Relações Exteriores do Reino Unido e hoje presidente do Comitê Internacional de Resgate. Socorristas passaram o menino de varanda em varanda, retirando a família momentos antes de o prédio inteiro desabar. Segundo a Syrian American Medical Society, ele foi hospitalizado, mas já teve alta. Outras 12 crianças foram encaminhadas para o mesmo hospital.

— Já tirei muitas fotos de crianças mortas ou feridas por bombardeios. Normalmente elas estão desmaiadas ou choram. Mas Omran estava lá sem voz, com o olhar perdido. É como se não compreendesse muito bem o que tinha acabado de acontecer.

Outro vídeo comovente de Omran, publicado pelo grupo ativista Aleppo Media Center, mostra um funcionário da defesa civil carregando o menino para uma ambulância. Já sentado, em segurança, ele levanta a mão esquerda até o olho e sente a área machucada na cabeça. Enxuga o rosto e percebe o sangue. Sem falar nada, limpa a mão no banco. Omran, que só conheceu a guerra, não chorou em nenhum momento do resgate.

— A verdade é que a imagem se repete todo dia em Aleppo — desabafou à CNN Mustafa al-Sarouq, que gravou o vídeo. — E o mundo está em silêncio. Há milhares de crianças sendo bombardeadas.

Na quarta-feira, mais três pessoas morreram e outras 12 ficaram feridas no bairro onde a família vive, controlado pelos rebeldes, de acordo com o Observatório Sírio para os Direitos Humanos. Acredita-se que um dos mortos seja parente de Omran.

AJUDA HUMANITÁRIA NÃO CHEGA

Ontem, John Kirby, porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, disse que Omran era o “verdadeiro rosto do que de fato acontece na Síria”

— Suponho que este menino jamais tenha passado um dia de sua vida longe da guerra, da morte, da destruição e da pobreza em seu país.

Após a comoção, os 28 países da União Europeia exigiram o “fim imediato” dos combates na cidade para garantir as operações humanitárias, segundo um comunicado da chefe da diplomacia do bloco, Federica Mogherini. A Rússia, por sua vez, anunciou estar disposta a instaurar, a partir da próxima semana, uma pausa semanal de 48 horas nos ataques.

Socorristas levaram quase uma hora para tirar Omran dos escombros, escavando o local sob a luz de uma lanterna. O médico que o tratou disse que sua lesão era leve em comparação a de outros feridos. O menino recebeu alta duas horas depois.

— Durante todo o tempo, ele estava sob o mesmo torpor e choque — disse Mohammedd, cirurgião de Aleppo que preferiu não dar seu sobrenome por razões de segurança.

Mas Omran teve a sorte de escapar. Segundo o Aleppo Media Center, 4.500 crianças foram mortas na cidade e cerca de cem mil permanecem lá. Na semana passada, a ONG Save the Children denunciou o aumento dos ataques a escolas na cidade, assim como em Idlib — mais de 6.500 delas foram destruídas até agora. Em apenas sete dias, seis escolas foram atacadas, matando alunos e professores.

— Os menores que vão ao colégio correm um grave perigo — disse Helle Thorning-Schmidt, diretora executiva da ONG: — Muitos estudam em porões para se proteger, e desviam dos tiros a caminho da escola para fazer as provas.

O caso também joga mais luz sobre a cidade, há meses sitiada. Crucial no conflito sírio, em que as forças do regime de Damasco e os rebeldes se enfrentam duramente, Aleppo vive hoje uma profunda crise humanitária, que inclui a falta de médicos, suprimentos hospitalares, alimentos, água e luz.

— Quando chegamos, o regime ataca novamente as equipes de resgate que tentam salvar civis — diz Sarouq. — As condições de vida são terríveis.

No último mês, nenhum comboio conseguiu entrar nas áreas sitiadas, segundo o enviado especial da ONU, Staffan de Mistura, que, irritado, cancelou a reunião semanal sobre o tema:

— Suspendi a reunião como sinal de nossa profunda insatisfação com o fato de a ajuda não estar chegando à Síria, devido à falta de uma trégua.

oglobo.globo.com | 19-08-2016

WASHINGTON — Autor de “Turquia, islamismo, nacionalismo e modernidade”, Carter Findley, professor emérito da Universidade Estadual de Ohio e especialista em cultura otomana, afirma que ninguém na democracia turca “abusou tanto do poder quanto o presidente Erdogan”, que, segundo ele, tem feito jogo duplo com os EUA. Findley explica ao GLOBO por que não vê a participação do clérigo Fethullah Gülen na tentativa de golpe.

A reação do presidente Erdogan à tentativa de golpe militar não é outro tipo de golpe?

Parece uma batalha de titãs. Erdogan acusa os seguidores de Gülen de conspirar para montar um golpe contra ele. Com o fracasso da rebelião, Erdogan começou um expurgo dos suspeitos de serem seguidores de Gülen, que dá a impressão de ser um homem verdadeiramente santo. O religioso leva uma vida de renúncia e de serviço aos outros, e tem muitos seguidores. O fato de ser o líder religioso mais influente da Turquia é suficiente para gerar hostilidade do governo, não importa o motivo. Gülen insiste que ele não sabia nada sobre um golpe de Estado. É crível que ele não soubesse. Por outro lado, tudo na Turquia é politizado, e muita gente não vai acreditar que ele era inocente, que não tinha envolvimento na tentativa.

Em certo sentido, o movimento de apoiadores de Gülen se parece com uma pirâmide de três níveis. O nível mais largo, mais baixo, inclui os muitos membros com motivação inteiramente religiosa. O nível médio inclui pessoas que misturam religião e negócios. No topo da pirâmide seriam pessoas religiosas com motivações políticas. Se houve uma conspiração de seguidores de Gülen contra Erdogan, teria vindo do topo. Outros membros do movimento (e não membros) poderiam ter sido levados a participarem de algo que não entendiam. No entanto, o apoio de Gülen não está formalmente organizado.

A democracia turca está em que grau de risco?

Se o Brasil é o país do futuro, a Turquia é a terra da democracia sob risco. A democracia está sempre em risco na Turquia. No mesmo período em que os positivistas foram imaginar a política na América Latina, os jovens turcos da geração de 1889 foram reimaginar a política da modernidade como o governo constitucional, parlamentar. Isso não resulta necessariamente em democracia. A República Turca (fundada em 1923) nunca teve mais de um partido político eficaz ao mesmo tempo. Seus líderes de governo têm sido pessoas cujos poderes não foram limitados pela Constituição. Sempre houve estruturas estatais profundas que exerceram poderes que vão além da Carta Magna. Durante muito tempo, as pessoas pensavam que os militares tinham esta liberdade. Quem tem o poder na Turquia sempre abusou dele.

Quais são as possíveis soluções para esta crise?

Isso está em aberto, é muito cedo para prevermos a solução. Erdogan pode estar cavando sua própria sepultura. Ele demitiu ou afastou cerca de 70 mil funcionários do governo e fechou mais de cem meios de comunicação. O que vai acontecer quando as escolas reabrirem? Erdogan tem sido o líder político de maior sucesso da Turquia desde Türgut Ozal, na década de 1980. No momento, seus seguidores ainda continuam a apoiá-lo. Mas nenhum líder abusou de seu poder tanto quanto Erdogan. Em algum momento, isso tem que parar, e então o futuro será incerto. Erdogan fez danos permanentes à cultura política da Turquia.

Como os países ocidentais devem agir neste caso?

Os países ocidentais costumam pensar no Oriente Médio como um lugar onde os seus interesses de segurança estão em perigo. Isso começou muito antes da era do petróleo, remonta, ao menos, à invasão do Egito por Napoleão em 1798. No curto prazo, os governos ocidentais terão de esperar e ver. Por causa dos perigos da situação na Síria, os países ocidentais também têm de tentar manter a cooperação com a Turquia. A União Europeia (UE), por exemplo, deve tentar gerenciar toda a sua influência a partir das esperanças históricas da Turquia de aderir ao bloco. Em vista da recente desestabilização no interior da UE, por um lado, e do crescente autoritarismo de Erdogan, por outro, os esforços do bloco não são suscetíveis em eficácia.

E como os EUA devem atuar?

Os EUA terão que enfrentar uma resposta difícil. O governo permite que Gülen viva nos EUA desde 1999 por causa de suas reivindicações, realmente críveis, de que ele pode ser perseguido na Turquia. Agora, muitos na Turquia acreditam que os EUA também estão por trás da tentativa de golpe. Erdogan faz jogo duplo, incentivando essa crença em seus discursos domésticos, apesar de seus militares terem tranquilizado os comandantes dos EUA, dizendo que acordos bilaterais de segurança não serão alterados.

oglobo.globo.com | 17-08-2016

BERLIM — Se até o início da crise de refugiados, a chanceler federal alemã, Angela Merkel - no poder há 11 anos e considerada pela revista "Forbes" a mulher mais poderosa do mundo - tinha aceitação recorde, uma recente queda de popularidade dramática, de 12 pontos percentuais em apenas quatro semanas, preocupa o governo. A sondagem mostra ainda que cerca de 76% desaprovam a política de Merkel e admitem que têm medo de novos atentados.

A queda fez com que seu partido, a União Social Cristã (CSU), começasse a debater a possibilidade de Horst Seehofer, governador da Baviera e presidente da sigla, se candidatar pela aliança conservadora com o CDU, no lugar de Merkel, nas eleições federais do próximo ano. Ele é, desde o ano passado, o maior crítico da política de refugiados adotada pelo governo, e a considera responsável pela maior onda de imigração para o país, no ano passado, desde o final da Segunda Guerra Mundial.

E depois dos ataques terroristas praticados por refugiados ligados ao grupo terrorista Estado Islâmico, Seehofer passou a ser visto pelos conservadores como a chance de solução na crise atual.

Enquanto a aprovação da chanceler caiu de 59%, no início de julho, para 47%, quatro semanas depois, Seehofer conquistou quase todos os pontos perdidos por Merkel, passando de 33% para 44%. Até agora ele não confirmou sua intenção em se candidatar, mas também não descartou essa possibilidade. Fundada em 1945, a CSU existe apenas na Baviera, onde detém o governo estadual ininterruptamente desde 1957. No plano federal, a legenda forma um bloco com a CDU, que por sua vez não existe na Baviera. Os dois juntos são chamados de CDU/CSU, ou simplesmente Union (União).

Segundo a pesquisa, divulgada na noite de quinta-feira, também em termos de simpatia pessoal Merkel está pagando um preço alto pela sua política de refugiados. Hoje ela ocupa apenas o sexto lugar, perdendo para políticos como o ministro das relações exteriores, Frank-Walter Steinmeier, do Partido Social Democrata (SPD), o ministro da fazenda, Wolfgang Schäuble, da CDU, ou o verde Wilfried Kretschmann, governador de Baden Württemberg.

Para o cientista político Heinrich Oberreuter, da Universidade de Passau, o acordo migratório com o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, irritou profundamente os alemães.

- Entregar a solução para o problema a Erdogan teve o efeito iniciar o processo de demolição carreira política de Merkel - disse.

No entender do jornalista Jörg Seisselberg, da Rádio do Norte da Alemanha (NDR), o acordo com Ancara causou impacto ainda mais negativo do que os últimos ataques dos jihadistas. Com a promessa de fim da exigência de visto para cidadãos turcos na União Europeia (UE), bem como de aceleração das negociações para o ingresso do país no bloco, Erdogan assumiu o compromisso de segurar os refugiados a caminho da Europa Ocidental.

- Merkel entregou a solução do problema à Turquia e é, desde então, constantemente confrontada com as provocações de Erdogan.

Em sua opinião, se o presidente turco liberar os fugitivos, a rota dos Bálcãs precisará ser de novo aberta e centenas de milhares de migrantes irão novamente se aglomerar na fronteira tentando chegar à Alemanha, país preferido por causa de seu sistema de amparo social, que é garantido pela Constituição.

E enquanto nas redes sociais o fórum anti-Merkel ganha dimensões absurdas, nos bastidores da CDU/CSU, o clima entrou em ebulição.

- As pessoas estão muito preocupadas sobre como vamos resolver a situação diante de um número cada vez maior de refugiados - disse Wolfgang Bosbach, deputado pela CDU.

Já Peter Ramsauer, ex-ministro de Merkel, acredita que o efeito de sua insistência em não mudar a política seria uma "provocação".

oglobo.globo.com | 06-08-2016

BERLIM — Depois dos últimos atentados praticados na Europa por extremistas islâmicos — ou de alguma forma ligados à religião — aumentaram em alguns países as manifestações públicas de aversão contra os muçulmanos. Na Alemanha, fiéis e mesquitas foram alvo de protestos, com pichações ou cartazes críticos ao Islã. Representantes de organizações muçulmanas denunciam a existência de um crescente clima de ódio. Na França, uma mesquita sofreu um incêndio aparentemente criminoso em Toulouse. Tudo isso num continente em que, segundo pesquisas, já vinha subindo o sentimento anti-islâmico desde o ano passado, com a crise dos refugiados — em sua maioria vindos do Oriente Médio, Norte da África, Paquistão e Afeganistão, onde o predomina o islamismo. europa

Boubekeur Bekri, do Conselho Regional do Culto Muçulmano da França, lembrou que os últimos ataques abalaram a sociedade francesa e contribuíram para aumentar o abismo entre os praticantes do islamismo e o resto da população.

— Há uma inquietação profunda entre os muçulmanos, que se sentem estigmatizados — disse.

Para Aiman Mazyek, presidente do Conselho Central dos Muçulmanos da Alemanha, em consequência dos atentados terroristas, toda uma religião vem sendo desacreditada. A famosa apresentadora Dunja Hayali, da TV alemã ZDF, muçulmana e filha de imigrantes iraquianos, revelou ter recebido ainda mais mensagens de ódio do que antes. Hayali apresentou no início da semana um programa que abordava, entre outros assuntos, a extrema-direita em ascensão como efeito colateral do jihadismo.

— Pela primeira vez desde a era nazista, temos partidos na Europa que crescem ao combater uma religião — confirma Mazyek.

QUANTO MAIS INCIDENTES, MAIS PRECONCEITO

Os incidentes têm se multiplicado. Em Zirndorf, Sul da Alemanha, uma bomba numa mala explodiu perto do abrigo de refugiados. Em algumas cidades alemãs, imigrantes muçulmanos foram alvo de ofensas e agressões. Mas não são só ataques terroristas que alimentam o sentimento anti-islâmico. Em Londres, cidade pela primeira vez governada por um muçulmano — Sadiq Khan, de 43 anos, filho de imigrantes do Paquistão — a discussão sobre o Brexit (a saída da União Europeia) terminou pondo a religião como alvo da nova onda de nacionalismo. Dados divulgados pela prefeitura revelam que ações de xenofobia, sobretudo contra muçulmanos, aumentaram em 42% em comparação com o ano passado.

Sedat Simsek, da organização muçulmana Ditib, disse que a islamofobia pode resultar na criação de um ciclo vicioso, uma espiral de ódio capaz de gerar ainda mais violência.

— O sentimento de ser discriminado é um dos motivos que tornam jovens vulneráveis à propaganda dos islamistas. Os terroristas oferecem a esses jovens vítimas da discriminação a aceitação e o reconhecimento dos quais têm sede — acredita.

Novos estudos divulgados recentemente revelam que cerca de 52% dos europeus veem os muçulmanos como “perigosos”. Na Hungria, onde praticamente não vivem muçulmanos, 62% veem a minoria com profunda desconfiança. Ayman Mayzek disse que um problema é a falta de objetividade na discussão atual.

— Cada novo debate negativo que associa os muçulmanos em geral a atentados praticados por terroristas aumenta a aversão da população para com os muçulmanos. As pessoas ignoram que os muçulmanos criticam os atentados de forma tão rigorosa quanto o restante da população.

Lamya Kaddor, alemã filha de sírios que preside a Liga do Islã Liberal, afirma que a associação “difusa” do islã ao terrorismo começou após o 11 de Setembro e sempre volta a cada atentado.

— Todo o preconceito contra minorias foi canalizado em direção aos muçulmanos. O debate já beira a histeria — criticou.

Num estudo da Universidade de Leipzig com as fundações Heinrich Böll e Rosa Luxemburgo, cerca de 50% dos alemães afirmam que deixaram de se sentir em casa diante do que consideram o excesso de muçulmanos no país — onde são 5,8% da população — enquanto 41% manifestaram-se favoráveis à proibição da imigração das pessoas dessa religião. Na Universidade de Bielefeld, a equipe do professor Andreas Zick investiga desde 2011 a relação entre terrorismo islâmico e islamofobia. A cada novo atentado, piora a situação.

— As manifestações de ódio não vêm mais apenas da extrema-direita. Elas partem de pessoas normais que não se consideram racistas — desabafou Lamya Kaddor, que confessa receber diariamente ofensas e ameaças via internet.

Na sua opinião, o preconceito contra os muçulmanos é antigo na Europa. A diferença é que hoje ele é mais intenso, e as pessoas são mais diretas, como se não tivessem medo de críticas.

— Os antissemitas, que continuam existindo, têm mais cautela ao expressar opiniões porque receiam ser alvo de críticas. Já para o anti-islâmico há praticamente um consenso — continua.

oglobo.globo.com | 30-07-2016

O chamado "direito ao esquecimento" será julgado em breve pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Na mesa, o pedido feito pela família de uma vítima de homicídio da década de 1950 - que quer impedir veículos de comunicação de relembrar a sua história sob alegação de violação de privacidade. Com repercussão geral, a ação na mais alta Corte brasileira vai definir um posicionamento único que deverá ser seguido pelo Judiciário. Mesmo com a Procuradoria-Geral da República posicionando-se de forma contrária à tese, quase 1/3 da jurisprudência em tribunais estaduais tem concedido o direito de se apagar da história fatos já noticiados.

Levantamento do jornal O Estado de S. Paulo mostra que, de ao menos 94 processos já analisados por desembargadores no País, 67 negaram o pedido de se esquecer o passado. No entanto, 27 aceitaram a hipótese.

O direito ao esquecimento obriga retirar e apagar de páginas da internet conteúdos que associem o nome de qualquer pessoa a fato calunioso, difamatório, injurioso ou a um crime do qual ela tenha sido absolvida e sobre o qual não haja mais possibilidade de recurso. Para o advogado que representa a família Curi, Roberto Algranti Filho, o caso da jovem Aída Jacob Curi, estuprada e assassinada brutalmente aos 18 anos de idade em julho de 1958, no Rio, é exemplar e pode criar "critérios mínimos para a atividade de imprensa".

Na avaliação de Algranti Filho, com o fim da Lei de Imprensa (2009), "ficou um vácuo em relação ao que é notícia de interesse público e aquilo que só diz respeito à família". A defesa da família questiona a veiculação do caso no programa Linha Direta, da TV Globo, em 2004. "Se tudo é jornalismo, nada está protegido, nem a própria imprensa. O caso de Aída não tem interesse público, não é um caso que conta a história do País, não existem motivos para reabrir uma ferida e causar dor aos parentes", diz o advogado.

Em seu parecer sobre o caso, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, lembrou que o direito ao esquecimento "ainda não foi reconhecido ou demarcado no âmbito civil por norma alguma do ordenamento jurídico brasileiro". Portanto, segundo ele, "não pode limitar o direito fundamental à liberdade de expressão por censura ou exigência de autorização prévia".

Embora o direito ao esquecimento tenha sido aprovado na Comissão de Constituição de Justiça (CCJ) da Câmara, ele ainda não foi votado em plenário. Ainda assim, acumulam-se processos em que o "princípio" é posto em pauta - alguns deles tendo como base o caso julgado no Tribunal de Justiça da União Europeia (mais informações nesta página).

Equívoco

Além do questionamento da família Curi, um outro recurso envolvendo um dos acusados, e depois absolvido, pela chacina da Candelária já chegou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) e muitos outros rondam os tribunais estaduais. "Ainda é um tema muito recente. Um princípio que ainda causa muito debate e dúvidas. Nesse sentido, o caso Curi não foi um bom exemplo para ser tomado como repercussão geral", diz o professor de Direito Constitucional da FGV Direito e coordenador do Supremo em Pauta, Rubens Glezer. "É um equívoco. O caso dos Curi está muito mais relacionado à ofensa do que ao esquecimento. A decisão do STF, seja qual for, pode causar mais problemas e interpretações inconclusivas", afirma Glezer.

Para o professor de Direito Constitucional Luiz Guilherme Arcaro Conci, da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), é imperativo separar a questão entre o cidadão comum e aquele que exerce cargo público ou que, porventura, tenha feito algo de repercussão nacional. "É preciso levar em conta a situação e a particularidade de cada caso. O que é vida pública não pode ser protegido pela lei do esquecimento. Uma coisa é quem teve um problema na vida pessoal aparecer na busca do Google para o resto da vida. Outra, bem diferente, é um político, com mandato, querer tirar seu nome de uma denúncia", diz.

A advogada Taís Gasparian, que já atuou em diversos casos em que o direito ao esquecimento foi ao menos citado, diz que a hipótese de aplicá-lo é "como queimar bibliotecas, uma volta à Idade Média". "Quem pode decidir o que é histórico ou não?", questiona Taís. Ela afirma que, "na esfera pública, mesmo os erros de informação podem ter relevância para estudos futuros". De acordo com a advogada, o perfil atual do STF não deve "abrir as portas para a Lei do Esquecimento".

Para Patrícia Blanco, diretora do Instituto Palavra Aberta, "toda e qualquer regra que estabeleça a retirada de conteúdo ou link de acesso a determinado conteúdo fere a liberdade de expressão e de imprensa". Patrícia diz acreditar, no máximo, em um código de autorregulamentação e voluntário, sem que haja a necessidade de uma nova lei que estabeleça esse procedimento. "Além disso, já existe no Brasil um amplo arcabouço jurídico capaz de proteger o cidadão de qualquer abuso ou excesso que possa ser cometido", afirma.

História

Para o professor de História da PUC-SP Luiz Antônio Dias, a função do historiador é "lembrar o que a sociedade quer esquecer". Para ele, o direito ao esquecimento não poderia criar barreiras para, por exemplo, o Brasil se deparar com sua própria história. "Separar o personagem público do personagem histórico é difícil. Eu entendo que a família de um torturado na ditadura militar não queira falar sobre o assunto, mas, ao mesmo tempo, o depoimento dele tem uma importância histórica fundamental. Em tese, sou contra a Lei do Esquecimento, mas não acho que seja um tema simples. Consigo entender o lado de quem, às vezes, prefere esquecer."

O doutor em História Social e colunista do jornal O Estado de S. Paulo, Leandro Karnal, afirma que o direito ao esquecimento "deveria ser possível". "O resgate da privacidade é um desafio novo. Nunca estivemos tão expostos. Logo, surge uma nova meta ou utopia: o esquecimento. O debate é muito contemporâneo: quem tem direito a controlar a memória da minha vida? Todos devem ter acesso permanente aos dados sobre mim? Ser esquecido é um direito, mas será exequível? Talvez, em breve, incluamos o anonimato como direito fundamental do homem", diz.

RIO E SÃO PAULO - O novo presidente do Banco Central (BC), Ilan Goldfajn, comanda hoje sua primeira reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), e a expectativa é que mantenha a taxa básica de juros (Selic) estável nos atuais 14,25% ao ano. Enquanto isso, os países europeus vêm reduzindo suas taxas, para tentar estimular a economia, e o Federal Reserve (Fed, o BC americano) deve adiar a alta dos juros. Essa combinação de fatores levou a diferença entre a taxa brasileira e a média dos países desenvolvidos ao maior patamar em dez anos: 13,73 pontos percentuais.

Juros18-07Levantamento feito pelo economista-chefe da agência de classificação de risco Austin Rating, Alex Agostini, a pedido do GLOBO, mostra que este é o maior nível desde fevereiro de 2006, quando ficou em 13,88 pontos. Agostini usou a média das taxas básicas de juros de Estados Unidos, Austrália, Canadá, Japão e zona do euro, que ficou em 0,53% em maio deste ano. Em fevereiro de 2006, portanto bem antes da crise financeira global, essa média era de 3,38%, enquanto a Selic estava em 17,25%.

O chamado diferencial de juros é um dos indicadores que estimulam a atração de capital de curto prazo, com perfil mais especulativo, e vinha variando entre 13,64 e 13,68 desde julho do ano passado. Neste século, o nível desse diferencial só foi maior entre fevereiro e março de 2003, quando a Selic estava em 26,50%, e a média dos juros dos países desenvolvidos era de 2,54%.

REAL TENDE A SE APRECIAR MAIS

E há pouca expectativa de mudança nesse cenário nos próximos meses, já que a economia global se vê às voltas com os efeitos econômicos do Brexit (a saída do Reino Unido da União Europeia) e da intensificação dos atentados terroristas.

— A perspectiva de aumento de juros lá fora está adormecida, e, aqui no Brasil, há dúvidas sobre o corte da taxa. Então a avaliação é que o diferencial de juros deve se manter elevado por pelo menos seis meses — afirma Agostini.

Ele aponta que a taxa de remuneração dos títulos do Tesouro americano para o prazo de dez anos — os chamados T-Bonds — estava em 2,3%, enquanto no Brasil, hoje, os papéis do Tesouro prefixados têm taxa de 12%.

Agostini ressalta, porém, que o diferencial elevado de juros não é o único fator determinante na decisão dos investidores estrangeiros — o risco-país e a variação cambial também são importantes. O credit default swap (CDS, espécie de seguro contra calote da dívida soberana), indicador do risco associado ao Brasil, de cinco anos ficou em 288,3 pontos. Em março deste ano, antes do início do processo de impeachment, havia superado os 400 pontos.

O economista-chefe da Austin lembra ainda que as pesquisas mostram aumento da confiança no Brasil nos últimos meses. Sua expectativa é que, com a definição sobre o impeachment, cresça o volume de investimentos no país, especialmente os de curto prazo.

Isso traz consequências para o câmbio: o real tende a se apreciar ainda mais, movimento que vem sendo observado nas últimas semanas. O professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Fundação Getulio Vargas André Nassif ressalta que, quanto maior o diferencial de juros, maior a atração de capital de curto prazo, mantendo-se as demais condições constantes. Estudo feito por ele para o período entre 1999 e 2015 aponta que a evolução da renda per capita, o diferencial de juros e os termos de troca são os três fatores que mais determinam o comportamento da taxa real de câmbio.

— Existe um alto estoque de liquidez no mundo, freneticamente desejoso por ganhos com diferenciais de preços. A tendência é mirar países em que o diferencial de juros é maior, sem riscos de controle cambial — diz Nassif.

AJUSTE NO COMÉRCIO EXTERNO

O aumento da confiança com uma avaliação melhor da situação fiscal favorece esse processo, mas o professor destaca que também há influência do ajuste comercial externo em curso no país. Ele lembra que o déficit em conta corrente era de US$ 104 bilhões no fim de 2014 — o que correspondia a 4,3% do Produto Interno Bruto (PIB) —, montante que caiu para US$ 58,8 bilhões no fim de 2015 (3,3% do PIB) e US$ 29,5 bilhões (1,7% do PIB) no período de 12 meses encerrado em maio deste ano. A previsão é que chegue a zero no fim de 2016, segundo Nassif:

— Fizemos um ajuste externo recessivo, com queda forte de importações, de maneira muito rápida. Dado o cenário, a perspectiva é que o diferencial de juros continue alto e o real continue se apreciando.

O mercado acredita que o BC vá manter a taxa de juros em 14,25% ainda por algum tempo. Nassif destaca que, diante da postura cautelosa da autoridade monetária, o movimento não só não será imediato como ocorrerá de forma gradual. Com isso, vai se manter o diferencial de juros elevado. A avaliação é compartilhada pelo economista Joaquim Elói Cirne de Toledo:

— Acredito que há espaço para reduzir juros, mas acho que o Banco Central não vai mexer nos juros pelo menos nas próximas duas reuniões, até pela questão da credibilidade. Com isso, os movimentos de capitais de curto prazo vão continuar, pressionando o dólar mais para baixo.

(Colaborou Ana Paula Ribeiro)

oglobo.globo.com | 19-07-2016

BERLIM — Para o cientista político turco Hüseyin Bagci, o presidente Recep Tayyip Erdogan saiu fortalecido da tentativa de golpe dos militares e poderá concentrar ainda mais poderes durante o “processo de limpeza” nas Forças Armadas e no Judiciário. “O golpe dos militares poderia ser visto como um presente para Erdogan se não tivesse sido tão sangrento”, disse Bagci, da Universidade de Ancara, por telefone.

As lutas acabaram definitivamente ou o senhor espera nova ação dos militares?

Acho que as forças que apoiam o governo superaram a tentativa de golpe. Muitos militares foram presos. Os culpados serão julgados. Vejo como palavras vazias as ameaças de políticos de reintroduzir a pena de morte. A Turquia negocia atualmente com o Conselho Europeu e assinou documentos em que reafirmou que não haverá pena de morte no país.

A Turquia vem sendo vítima de ataques terroristas. Isso contribui para a desestabilização?

A Turquia é um alvo do terrorismo desde 1995. Não há exatamente falta de estabilidade. O que há é uma luta de poder, a sociedade está polarizada e vai ficar ainda mais polarizada.

Erdogan, criticado pela falta de liberdade de imprensa, pode contar agora com o apoio da oposição?

O presidente saiu bastante fortalecido e poderá concentrar ainda mais poderes. A tentativa de golpe foi uma luta de militares contra civis, pois pessoas de todos os setores foram às ruas para defender a democracia. Até adeptos do HDP, partido curdo. Também as críticas do exterior vão diminuir. Mas Erdogan vai encontrar um limite. A Turquia continua sendo uma democracia parlamentar. Ele só vai conseguir transformá-la em regime presidencial através de referendo.

Haverá mais apoio da União Europeia?

O surgimento de caos não é do interesse nem dos Estados Unidos nem da UE. O país é membro da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), é estratégico para os EUA na luta contra o Estado Islâmico. Toda a UE condentou o golpe. Mesmo os maiores críticos de Erdogan sabem que sem a Turquia não vão conseguir resolver o problema dos refugiados. O apoio da UE vai continuar, e as críticas vão diminuir. Em resumo, o golpe poderia ser visto como um presente para Erdogan se não tivesse sido tão sangrento.

oglobo.globo.com | 17-07-2016

LONDRES E NOVA YORK - A tentativa de golpe que abalou o delicado cenário político na Turquia também gerou reflexos para a economia do país. A reação de investidores às primeiras notícias de mobilização de militares, no fim da tarde de sexta-feira, foi rápida. A lira turca, que tinha dia de estabilidade, despencou 5% — a maior queda desde 2008. Segundo analistas ouvidos pela imprensa internacional, não se trata de pânico passageiro, mas sim um sinal de crescente incerteza em relação à economia turca, altamente dependente de fluxo de capital externo de curto prazo.

turquia1607Reportagem do jornal britânico "Financial Times" destaca que uma fuga da capital duradoura seria nociva para o país em várias frentes. O mais imediato seria o potencial efeito inflacionário, devido à moeda mais fraca. O mais preocupante, no entanto, é o volume de investimentos, que podem afetar diretamente a capacidade de crescimento do país. A nova onda de incerteza, causada não só pela tentativa de golpe, como também pelos recentes ataques terroristas, ocorre em um cenário de perda de confiança dos investidores. As projeções para o crescimento da Turquia deste ano estão entre 3% e 4%, contra um avanço do PIB de 4,5% em 2015.

— O desafio para a Turquia, e o governo esqueceu disso, é a necessidade de aumentar a produtividade. Sem investimento de longo prazo em educação... Ou uma economia baseada em exportação, você se condena a um crescimento econômico mais lento — avalia Gultekin.

Neil Shearing, economista-chefe para mercados emergentes da Capital Economics, destaca que a situação se agrava diante da alta necessidade de financiamento turca, após um boom de crédito: “Um período prolongado de instabilidade política poderia desencadear uma séria baixa na economia”, escreveu Shearing em relatório, segundo a Bloomberg.

A instabilidade política traz consequências para um dos principais setores da economia turca: o turismo. Segundo dados do governo citados pelo “FT”, o fluxo de turistas para o país já caiu 23% em maio, frente ao ano anterior. A sequência de ataques terroristas, a proximidade com a Síria e, agora, a tentativa de golpe, agravam a situação. Mais uma razão para que a capacidade de crescimento do país seja colocada em xeque.

— Da perspectiva de investidor, a Turquia parece cada vez mais um caso perdido — resume Dami Rodrik, economista turco da Universidade de Harvard.

IMPACTO MENOR QUE BREXIT

A avaliação sobre o quão duradouro será o impacto econômico da crise política turca, no entanto, ainda é incerto. Alguns analistas destacam que é cedo para prever se os desdobramentos serão tão graves.

— Não acho que isso (a tentativa de golpe) resultará em uma grande mudança de avaliação de risco nos mercados globais. Claramente, há um foco nessa parte do mundo em relação ao que está ocorrendo na Síria, mas não acho que é outro choque para os mercados como foi o Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia). Considerando a história, é um evento muito menor — ponderou Jeffrey Kleintop, estrategista global da Charles Schwap, em entrevista à Bloomberg.

oglobo.globo.com | 16-07-2016

Às vésperas de sediar a Olimpíada, a “remodelada” cidade do Rio se assemelha à antiquíssima Atenas, mas não em seus imemoriais e gloriosos dias homéricos, e sim em seu presente neoliberal, decadente e injusto. Com seus deuses decadentes, mas ainda no poder, o Estado do Rio, por sua vez, se depara, tal qual o Brasil, com um tenebroso cenário grego, no qual a maioria da população, privada de participação política, se encontra refém de poderes tirânicos, representantes de uma minoria de oligarcas que habita palácios e jardins. Se, na Grécia contemporânea, os interesses do povo se curvam aos ditames privatistas dos banqueiros da União Europeia, no Brasil de hoje, um governo golpista implementa um draconiano ajuste fiscal que pode significar o fim da educação e da saúde públicas. Governado pelos mesmos titãs decrépitos que controlam a pólis olímpica — e o poder federal —, o estado é um laboratório do modelo de gestão que o PMDB de Temer oferece ao país.

Enquanto nas favelas a PM, olimpicamente, assassina jovens negros, o direito à educação e à saúde é subtraído aos cidadãos por meio de um impudente desfinanciamento — e a greve dos profissionais da educação e as mobilizações do Fórum de Saúde são justas respostas a isso. Boa parte da artilharia do governo estadual está voltada contra a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), com destaque para seu hospital, o Pedro Ernesto (Hupe).

O caso da Uerj é exemplar do projeto perpetrado pelo triunvirato Pezão-Dornelles-Picciani. A crise financeira estadual, oriunda não só dos vultosos gastos com os megaventos, mas também das incontáveis isenções fiscais concedidas a cervejarias e outras empresas de serviços dionisíacos, tem servido de justificativa para a destruição da maior universidade do estado, a primeira no país a instituir cotas raciais. Rios de tinta poderiam ser gastos para descrever o que é feito com a Uerj, mas basta ao leitor saber que, numa reedição neoliberal da escravidão ateniense, os terceirizados trabalharam meses sem receber, até se tornarem escravos por dívidas dos bancos. E, finalmente, foram sumariamente demitidos sem direitos trabalhistas pelas empresas prestadoras de serviços, que alegam nada ter recebido dos cofres públicos em um ano no qual a execução orçamentária da universidade é, até agora, de zero centavo. Nesse quadro calamitoso, as bolsas não são pagas, e os salários de técnicos e docentes são atrasados/parcelados.

Por fim, não é escusado destacar que os diversos campi universitários hoje acumulam tanta sujeira e lixo que, como num castigo maligno ordenado pelo Zeus Cabral, trabalhadores e estudantes parecem destinados a agonizar, acorrentados, junto a ratos, baratas e Aedes aegypti, por milênios, pelo simples fato de terem optado pela tocha prometeica do conhecimento (público, gratuito e de qualidade) em detrimento da vergonhosa tocha olímpica peemedebista.

Mas a UERJ resiste!

Lia Rocha e Felipe Demier são diretores da Associação dos Docentes da Uerj

oglobo.globo.com | 16-07-2016
A nova primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, sinalizou que pretende conduzir os preparos para a saída da União Europeia o mais rápido possível ao colocar alguns dos políticos mais anti-UE em papéis importantes. Seu novo gabinete inclui figuras-chave do Brexit, como o novo Secretário de Relações Exteriores, Boris Johnson, e David Davis, que se tornou o ministro encarregado do Brexit.

"Muitas das pessoas que ela escolheu estão cientes de que o Partido Conservador precisa responder a esse momento populista", afirmou o professor de política na universidade Queen Mary, Tim Bale.

Johnson e Davis estão agora encarregados de elaborar uma nova política externa e examinar a relação comercial do Reino Unido com países dentro e fora da União Europeia. Johnson tem um histórico de insultar alguns dos líderes e pessoas de outros países com as quais ele terá de negociar agora. Nos últimos meses, ele acusou o presidente dos EUA, Barack Obama, de ser anti-Reino Unido porque seu pai era do Quênia e também escreveu uma anedota sobre o presidente da Turquia transar com uma cabra.

Davis, o "ministro do Brexit", escreveu um artigo antes de ser nomeado dizendo que as negociações deveriam começar no início do ano que vem, com a saída completa do Reino Unido acontecendo em dezembro de 2018. Além disso, ele defende que o resultado ideal das negociações seria que o Reino Unido continuasse a ter acesso ao mercado único da União Europeia, mas com a imposição de novos controles sobre imigração. Fonte: Dow Jones Newswires.

LONDRES — Foi bem mais rápido do que se pensava. A confirmação da conservadora Theresa May como a nova primeira-ministra do Reino Unido ocorreu na manhã de ontem, de forma inesperada, após a abrupta desistência da concorrente de partido, Andrea Leadsom. Segunda mulher a ocupar o cargo na História — a anterior foi Margaret Thatcher (1979-90) — May vai escrever seu nome como a governante que conduzirá o país para fora da União Europeia (UE), aquela que seguirá à risca a decisão dos britânicos em referendo mês passado com a retumbante e inconteste frase: “Brexit significa Brexit.”

May chega com força ao cargo por ter logo de saída já largado bem na frente — com mais de 50% do total de votos — dos outros quatro concorrentes, levando dois a desistirem após a primeira votação. Com os 165 conseguidos na segunda rodada, contra os 66 de Leadsom, quinta-feira passada, mostrou ter a preferência inegável do partido. Segundo anunciou David Cameron, chefe de governo de saída, que renunciou após o referendo, a posse dela se dará amanhã. O premier, que só deixaria o cargo em setembro, antecipou a saída alegando não fazer sentido estender a transição.

Se para os britânicos, é praticamente a confirmação do Brexit, para os brasileiros poderá significar um entrave para visitar as ilhas se ela ressuscitar uma proposta de 2013, quando defendeu que se passasse a exigir visto dos brasileiros para entrar em solo britânico. Como ministra do Interior, a questão da migração — alvo de severos debates dentro da UE — sempre foi um tema caro a ela. Na época, em entrevista ao “Financial Times”, May disse que o Brasil era o único da lista dos dez países com mais imigrantes ilegais no Reino Unido que não tinha exigência de visto. Mas, após protestos sobre o impacto que restrições poderiam ter sobre a economia britânica, May voltou atrás e o governo anunciou que não havia planos para impor um regime de vistos ao Brasil.

‘MINHA FILOSOFIA É FAZER, NÃO FALAR’

Titular do Interior desde 2010, May, de 59 anos, é a mais longeva no cargo no país em meio século, com reputação de seriedade, trabalho duro e evitando as intrigas e traições que assolam seu partido. Ela faz parte de um número crescente de mulheres na política britânica a subirem ao escalão da liderança, tradicionalmente dominado pelos homens. Conhecida pela conduta férrea, pragmática e inflexível, May é conhecida dentro do Partido Conservador pelo meticuloso processo nas tomadas de decisão.

— Minha filosofia é fazer, e não falar — afirmou ela ao jornal britânico “The Telegraph”. — Sempre defendi mulheres na política. A política não é um jogo: as decisões que tomamos afetam as pessoas.

Ao contrário de Cameron e do ministro da Fazenda, George Osborne, May vê o Twitter como uma perda de tempo. Estas características levaram um colega de partido, Ken Clarke, a dizer que “Theresa é uma mulher terrivelmente difícil”, ressaltando que já tinha trabalhado com outra mulher, “com reputação de aço”, que também enfrentou uma política dominada pelos homens: Margaret Thatcher.

— Sei que não sou uma política que chama atenção. Não vou a estúdios de televisão. Eu não fofoco sobre as pessoas durante o almoço. Eu não vou beber nos bares do Parlamento — assume-se May, segundo o “New York Times”.

Por outro lado, a comparação política mais intrigante não é exatamente com a Dama de Ferro, mas com Gordon Brown, o premier que sucedeu a Tony Blair em 2007, também em votação interna do partido após a renúncia do trabalhista. Filhos de pais religiosos, criados com postura séria e moral rígida, tanto uma como o outro têm a necessidade do controle total. May é conhecida pela dificuldade em delegar, necessitando passar em revista tudo o que está sendo feito, checando todos os detalhes de decisões alheias a ela. E, como Brown, exige uma lealdade inabalável.

A política metódica de May — e sua história de vida — também permite traçar um paralelo com outra sistemática chefe de governo, a chanceler federal da Alemanha, Angela Merkel. As diligentes mulheres no comando das duas maiores economias europeias são filhas de clérigos: o pai da alemã, teólogo e pastor luterano; e o inglês, sacerdote da Igreja Católica.

Nascida em 1956, na cidade litorânea de Eastbourne, no condado de Sussex, May cresceu em Oxfordshire, condado industrial que abriga a cidade universitária de Oxford. Um “estudante boazinha”, como ela contou em entrevista ao “The Daily Telegraph”, nunca se rebelou contra a educação religiosa e continua a frequentar a igreja. Como Cameron e Boris Johnson, ex-prefeito de Londres que recentemente abandonou a corrida pela liderança conservadora, May estudou na Universidade de Oxford.

PROVÁVEL ROTA DE COLISÃO COM MERKEL

Política sempre foi um dos seus interesses, e May participou do famoso diretório estudantil Oxford Union, passando a integrar também a Associação Conservadora universitária. Numa das reuniões do grupo, uma colega — Benazir Bhutto, futura primeira-ministra do Paquistão — apresentou-a ao homem com quem ela iria se casar, Philip May, que viria a se tornar um banqueiro de investimentos. Theresa May trabalhou em serviços financeiros, inclusive no Banco da Inglaterra, sem deixar de lado suas ambições políticas. Conquistou um assento no Parlamento britânico em 1997, por Maidenhead, próspera cidade a oeste de Londres — e teve rápida ascensão no Partido Conservador. Ontem, chegou ao posto mais alto.

— Teremos uma nova primeira-ministra neste prédio atrás de mim na noite de quarta-feira — afirmou ele em entrevista coletiva diante da residência oficial em Downing Street, acrescentando que manterá a última sessão de perguntas como primeiro-ministro no Parlamento amanhã, antes de se reunir com a rainha Elizabeth II para apresentar a renúncia.

Mas será com Merkel que May terá um provável primeiro embate. No domingo, a chanceler federal alemã reafirmou que, com a decisão do referendo, o Reino Unido deve deixar em breve a UE. Entretanto, a nova premier reiterou a “necessidade de negociar o melhor acordo para que o Reino Unido deixa a UE”, o que pode adiar o início do processo para 2017.

May, uma eurocética que passou para o campo dos partidários à permanência na UE por fidelidade a Cameron, declarou que “não pode haver um segundo referendo” e “nenhuma tentativa de voltar à UE pela porta dos fundos”:

— Não poderia ser mais clara: não haverá uma tentativa para permanecer na UE. Brexit significa Brexit, e nós faremos isso com êxito.

oglobo.globo.com | 12-07-2016

RIO - Professor da Universidade de Harvard e vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 2007 – ao lado de Leonid Hurwicz e Roger Myerson, Eric Maskin vê no Brexit uma ameaça à globalização. Apesar das desigualdades criadas pelo fenômeno, ele lembra que a globalização também ajudou a levar prosperidade aos países em desenvolvimento. Maskin defende políticas de redução de desigualdade para neutralizar alguns desses efeitos, como a educação de trabalhadores menos capacitados.

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Na sua avaliação, o mundo ainda vive os efeitos da profunda recessão que se seguiu à crise financeira internacional, que levou à estagnação dos salários da classe média. Assim, muitos acabam confundindo as razões pelas dificuldades que atravessam.

— Muitos que estão sofrendo com essa recessão confundem suas críticas. Eles acham que é por causa da globalização, da imigração, mas é na verdade a consequência de uma recessão muito profunda. De certa forma, Donald Trump é uma fraude porque ele dá a explicação errada para o sofrimento das pessoas — apontou.

O Nobel elogiou o programa Bolsa Família do governo brasileiro, exatamente pela exigência de manter as crianças na escola, e defendeu os investimentos em educação mesmo em plena crise fiscal porque “a melhor maneira de dar às pessoas a oportunidade de ter sucesso por elas mesmas”.

O senhor foi um dos economistas laureados com o Nobel que se posicionou publicamente contra o Brexit. Diante do resultado, quais os maiores riscos?

Na economia, o maior risco é um retorno para as elevadas tarifas e para as restrições no comércio e no mercado de trabalho, o que é ruim para todos. Mas também há os riscos políticos. Uma razão para a Europa estar em paz há quase 70 anos é a cooperação econômica. No momento em que o Reino Unido sai na União Europeia, outros países podem decidir sair também e pode se imaginar até uma desintegração da União Europeia. Ninguém sabe. Certamente é um passo na direção errado. Eu me preocupo com o futuro da paz na Europa se isso ocorrer. Historicamente, a Europa tem sido o continente mais violento no mundo. A ideia de um período de 70 anos sem guerra é uma novidade e está ligada ao fato de existir tanta cooperação agora. Se essa cooperação se deteriorar, ninguém sabe o que vai ocorrer.

É uma ameaça à globalização?

É uma ameaça à globalização e é uma grande pena. Apesar das reclamações sobre a globalização, ela tem sido um instrumento poderoso para levar prosperidade aos países em desenvolvimento. O Brasil, por exemplo, se beneficiou enormemente da globalização, assim como a China. É verdade que há elevada desigualdade nesses países. Mas é possível lidar com a desigualdade sem eliminar a globalização. Você deve ter programas contra desigualdade ao lado da globalização para neutralizar a desigualdade que ela pode criar. O Brexit certamente coloca a globalização em risco.

Como os trabalhadores são afetados?

A globalização tende a criar mais desigualdades entre os trabalhadores dos países em desenvolvimento. Os trabalhadores mais capacitados são os que conseguem as novas vagas criadas pela globalização, e aqueles sem habilidades ficam para trás. Então o intervalo entre eles cresce. Isso é verdade. Mas a maneira de atacar o problema não é atacar a globalização, mas dar aos trabalhadores menos capacitados mais treinamento e educação para que possam competir no mercado de trabalho global também. O Brasil agiu nessa direção. O Brasil tem um programa de transferência condicional de renda de muito sucesso em que famílias pobres recebem subsídio se concordarem em enviar seus filhos para a escola. O sucesso ocorre não apenas porque ganham maior renda, mas porque as crianças são educadas e podem ganhar mais por elas mesmas. O programa é muito importante para enfrentar a desigualdade.

Mas o Brasil enfrenta hoje um grande problema fiscal. Como isso pode afetar?

Entendo que quando há um problema fiscal é preciso equilibrar o orçamento de alguma forma, mas acho que é um grande erro reduzir gastos em educação. Educação é um importante investimento para o futuro: há outras coisas com prioridade mais baixa. Educação deve ser a prioridade porque é importante para lutar contra a desigualdade, mas também porque o população é o ativo mais importante de um país. E a educação é a melhor maneira de dar às pessoas a oportunidade de ter sucesso por elas mesmas.

Muitos ligam o fenômeno do Brexit e a popularidade de Donald Trump à desigualdade. Como vê isso?

É verdade. Mas eu acho que o problema não é tanto a desigualdade, mas o fato de que os salários para a classe média estão estagnados há muito tempo. E uma grande razão para isso é a crise financeira de 2008/2009 e a profunda recessão que se seguiu a ela. O grande problema é que tivemos uma profunda recessão e ainda não nos recuperamos dela. E muitos que estão sofrendo com essa recessão confundem suas críticas. Eles acham que é por causa da globalização, da imigração, mas é na verdade a consequência de uma recessão muito profunda. De certa forma, Donald Trump é uma fraude porque ele dá a explicação errada para o sofrimento das pessoas. É inegável que as pessoas estão sofrendo, mas a razão não é a que ele dá. Não é por causa da imigração. Não é por causa de acordos de comércio ruins.

No início muitos consideraram Trump como uma piada...

Trump não é uma piada, ele é uma ameaça muito mais séria que muitos de nós imaginávamos. Mas apesar disso as pessoas para as quais ele está se voltando são uma minoria. Felizmente, a maioria dos americanos ainda entende que ele será muito ruim para o país e para o mundo. Acho que há uma grande probabilidade de ele perder.

Antes da elevação dos juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano), o senhor estava muito cauteloso sobre esse movimento. Como vê a economia americana hoje?

Há muita incerteza, não apenas com o que está acontecendo nos Estados Unidos, mas também na Europa e na China. Se eu estivesse no Fed, seria muito cauteloso para elevar juros nesse momento, não vejo nenhuma razão para correr com isso.

Mas o que acha que a presidente Janet Yellen vai fazer?

Você deveria perguntar a ela. Ela não me contou e não tenho como adivinhar. Mas ela é uma economista muito inteligente então acho que vai levar em consideração esses aspectos que conversamos.

oglobo.globo.com | 12-07-2016

LONDRES — Filha de um vigário da Igreja Anglicana, Theresa May deverá se tornar primeira-ministra do Reino Unido na próxima quarta-feira, após David Cameron anunciar sua renúncia nesta manhã. Será a primeira mulher a assumir o cargo desde Margaret Thatcher, conhecida como a Dama de Ferro.

Uma sucessão de fatos nas últimas horas acelerou a disputa, depois de sua única concorrente desistir inesperadamente da corrida pela liderança nesta segunda-feira, acabando com a necessidade de uma votação final.

May, de 59 anos, já estava à frente do Ministério do Interior desde 2010 — um dos cargos mais difíceis no governo. Entre os candidatos à sucessão de Cameron, era considerada uma das mais preparadas.

Ela estudou Geografia na Universidade de Oxford, trabalhou no Bank of England após se formar e como consultora financeira da Association for Payment Clearing Services (APACS). Foi eleita para o Parlamento em 1997.

Em 2002, se tornou a presidente do Partido Conservador (responsável pela administração da máquina partidária), após um discurso famoso em que disse que as pessoas viam a legenda como “um partido sujo”.

— Sei que não sou uma política em evidência — disse ao anunciar que disputaria a liderança, em junho. — Não vou aos estúdios de TV. Não fofoco sobre pessoas no almoço. Não bebo no bar do Parlamento. Apenas faço o trabalho que tenho diante de mim.

May tem diabetes Tipo Um e toma injeções de insulina várias vezes ao dia. Ela se descreve como uma cristã praticante e tem mais de cem livros de culinária.

— Gosto de manter minha vida pessoal. Não tivemos filhos, lidamos com isso e seguimos em frente. Espero que ninguém considere isso importante — disse ela, citando um tópico que acabou sendo usado pela adversária Andrea Leadsom contra ela.

May foi a favor da permanência do país na UE no referendo do mês passado, mas repetiu seu novo mantra, “Brexit significa Brexit”, dizendo que não pode haver um segundo referendo e nenhuma tentativa de voltar à UE pela porta dos fundos.

— Como primeira-ministra, farei com que saiamos da União Europeia — prometeu.

oglobo.globo.com | 11-07-2016

LONDRES — As muitas conquistas de Tony Blair como primeiro-ministro do Reino Unido ficaram, de certa forma, manchadas por sua entrada na Guerra do Iraque. Vencedor de três eleições legislativas e chefe de governo durante um período de prosperidade, o símbolo do “Novo Trabalhismo” teve seu legado marcado pela disposição irrestrita para tomar parte num conflito que muitos de seus compatriotas — inclusive vários de seus colegas de partido — veem como um equívoco, e que seus desafetos mais ferrenhos afirmam ser um crime de guerra.

Eleito para o Parlamento britânico pela primeira vez em 1983, Blair chegou à liderança do Partido Trabalhista em 1994 e, três anos mais tarde, levou a legenda de volta ao governo, após 18 anos de domínio dos conservadores. Já em seu primeiro ano como premier, obteve uma importante vitória com a assinatura do Acordo de Belfast, que redefiniu a relação da Irlanda do Norte com o Reino Unido e pôs fim ao conflito entre católicos e protestantes que há décadas assolava a região.

Ao lado de Gordon Brown, que viria a suceder-lhe em 2007, Blair deixou de lado o compromisso do partido com a nacionalização da indústria e aproveitou o bom momento econômico, ampliando gastos em saúde e educação — o que lhe rendeu duas reeleições. No entanto, os ataques terroristas de julho de 2005 em Londres e as críticas cada vez mais severas à Guerra do Iraque acabaram por minar sua popularidade.

Nos últimos anos, o ex-premier atuou como emissário no Oriente Médio do Quarteto Diplomático (ONU, EUA, União Europeia e Rússia), mas deixou o cargo no ano passado sem obter resultados expressivos. Na campanha do referendo britânico, Blair teve rápida participação, alertando para os perigos de uma saída do bloco europeu, mas não teve impacto junto ao eleitorado.

oglobo.globo.com | 07-07-2016

Há histórias tão verdadeiras que, às vezes, parecem inventadas. A frase, de Manoel de Barros, parece ter sido especialmente desenhada para o Brasil de hoje. Na Sucupira real, as notícias se superam, e a última é sempre mais inacreditável que a anterior. A sucessão de escândalos políticos nos governos PT e PMDB, a queda da ciclovia no Rio, o estupro coletivo, o japonês da Federal e tantas outras histórias nas páginas deste jornal soam absurdas, inacreditáveis. Já entre os acontecimentos que não nos surpreendem, destacam-se os negativos, como a recente divulgação do Ranking de Competitividade Global da escola de negócios suíça IMD, que revelou o Brasil como o quinto pior país do mundo nessa medição.

Diante do quadro de corrupção e da falta de credibilidade no governo por parte do empresariado, não foi zebra a queda de posição (pelo sexto ano) no ranking do qual fazem parte 61 economias. O IMD leva em conta cerca de 300 critérios para a classificação, com foco em desempenho econômico, eficiência governamental, eficiência empresarial e infraestrutura. Estamos no 57ª lugar, à frente apenas de Croácia, Ucrânia, Mongólia e Venezuela.

Uma dose de curiosidade resultou na breve análise dessas nações que nos rodeiam no ranking, vizinhas na arte da corrupção, do descontrole e da ineficiência. Infelizmente, algumas informações nos levam a crer que, em 2017, o buraco do Brasil pode ser mais embaixo.

Vamos à Croácia. O país, que se tornou independente da URSS em 1991, foi pego de jeito pela crise financeira que atingiu a Europa. De 2008 a 2014, os croatas enfrentaram alta das taxas de desemprego e pobreza. Mas, como novata da União Europeia, a Croácia nutre expectativas de reformas (já anunciadas) e acesso a fundos. Segundo o FMI, desde o fim de 2014, o país se recupera da recessão, sobretudo com aumento das exportações. O turismo, fortemente incentivado, já representa parcela significativa do PIB.

Entre a influência russa e a europeia, a Ucrânia tem sua história recente marcada por guerras e rebeliões, tendo o país se transformado em palco de corrupção e espionagem. Em 2015, apesar da queda de quase 10% no PIB, houve progresso em direção à estabilidade, de acordo com relatório do FMI. A liberação de ajuda bilionária do Fundo tem como contrapartida esforços do governo contra a corrupção, além da implementação de reformas de gestão. O país é peça importante na geopolítica do petróleo.

Se há esperança ocidental em relação à Croácia e à Ucrânia, não se pode afirmar o mesmo de Mongólia e Venezuela, que parecem ter menos chances de ultrapassar o Brasil no curto prazo. A Mongólia, também ex-comunista, está na zona de influência da China, principal importador de sua produção agropastoril e mineral. Grande parte da população vive em extrema pobreza, e a infraestrutura é defasada. Com a desaceleração da economia chinesa, as perspectivas não são positivas.

Por fim, a Venezuela, bolivariana, em estado de emergência, até faz com que o Brasil pareça promissor. Com a economia dependente do petróleo, o país sofre os efeitos drásticos da queda do preço do barril. A miséria avança. A indústria inexistente e a redução de importações geraram uma escassez sem precedentes. A população convive com racionamento, previsão de inflação anual na casa de 700%, crise política, medidas autoritárias e ameaças de confisco.

Nossa história e o desenvolvimento socioeconômico brasileiro dos últimos anos estão bem distantes do ocorrido em cada um dos países citados. Para que a imagem do Brasil não se confunda com realidades tão duras quanto às vividas por Mongólia e Venezuela, por exemplo, o país precisa pavimentar seu próprio caminho priorizando combate à corrupção, reforma política e controle das contas públicas. Só assim poderá reconstruir as condições para a eficiência, investir em infraestrutura e, consequentemente, escapar de uma inacreditável 61ª posição do ranking da IMD.

Luciana Brafman é jornalista

oglobo.globo.com | 07-07-2016

RIO - Os mercados globais receberam com pânico a decisão dos eleitores britânicos pela saída do Reino Unido da União Europeia (EU), evento que sugou mais de US$ 3,5 trilhões do valor de mercado das empresas abertas no mundo em apenas dois pregões, em 24 e 27 de junho. Na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), o tombo acumulado naqueles dias foi de 4,49%, mas as perdas foram inteiramente recuperadas nos pregões posteriores, quando se consolidou a percepção de que o chamado Brexit levaria a uma nova onda de estímulos monetários no mundo. Mas, se o Ibovespa, índice de referência do mercado brasileiro, parece ter saído ileso da cisão geopolítica, nem todos os setores e papéis que o compõem tiveram a mesma sorte, e analistas recomendam que se leve em conta o Brexit na hora de escolher ações a partir de agora.

Para entender como as empresas brasileiras podem ser influenciadas, os analistas de corretoras e gestoras recomendam olhar mais para a macroeconomia do que para fatores corporativos. Como observou Jason Vieira, economista-chefe da Infinity Asset, os efeitos do Brexit sobre o Brasil, em si, “são bastante limitados”. A razão disso, afirmou, é que o país não possui nenhum grande acordo comercial com o bloco europeu.

— Dessa forma, trata-se mais de uma questão de volatilidade de mercado — afirmou Vieira.

O que realmente está influenciando a Bolsa é a interpretação de que o Brexit, por suscitar preocupações de que o crescimento da economia global será mais lento do que se imaginava, fará com que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) interrompa por ora o processo de elevação de suas taxas de juros, hoje entre 0,25% e 0,50% ao ano.

Segundo algumas estimativas, o ritmo de crescimento da economia americana deve ser reduzido em 0,2 ponto percentual durante os próximos seis trimestres. Como juros mais altos implicam em economia mais lenta, os economistas estão apostando que o baque do Brexit levará à postergação de novas altas nas taxas dos Estados Unidos. Se antes a aposta era que o Fed poderia aumentar os juros mais duas vezes este ano, a maioria agora descarta qualquer nova elevação em 2016. Os mais recentes números de negociações no mercado de juros sugerem que os investidores veem maior probabilidade de só haver uma alta de juros nos EUA no começo de 2018.

Como o dólar subiu em escala global na expectativa de um aperto monetário nos EUA, a frustração dessa aposta levará à queda da divisa. O processo já está ocorrendo: o dólar comercial estava em R$ 3,34 antes do Brexit e agora vale R$ 3,22, proporcionando ao real seu maior fortalecimento em um mês desde abril de 2003.

— Isso significa que ações de empresas eminentemente exportadoras, com fluxo de caixa dolarizado, vão sofrer maior pressão de venda na Bolsa — comentou Alexandre Wolwacz, diretor da Leandro & Stormer Escola de investimentos.

Wolwacz e Thiago Bisi, analista da L&S Análise, citam entre companhias especialmente afetadas a Embraer e aquelas do setor de celulose (Klabin, Suzano e Fibria). Outra que deve sofrer pressões negativas é a catarinense Weg, fabricante de maquinário industrial.

— A Weg deve ser influenciada não só pelo câmbio. Ela produz bens de capital, produtos que só são demandados quando há crescimento no mundo. Acontece que o Brexit deve impor um ritmo mais lento à expansão da atividade global — acrescentou Wolwacz.

Não à toa, essas empresas estão entre as que mais caíram na Bovespa desde o referendo britânico. Até a última quinta-feira, as ações ordinárias (ON, com direito a voto) da Fibria haviam caído 17,2%. Já a Weg ON perdeu 4,72%, enquanto os papéis preferenciais (PN, sem voto) da Suzano PNA tiveram desvalorização de 3,98%, a Embraer ON teve baixa de 3,85% e a unit da Klabin recuou 1,20%.

Gigantes do ramo de alimentos da Bovespa também são exportadores importantes, como JBS e BRF, mas os analistas lembram que essas empresas têm robustas operações de hedge (proteção) cambial, suavizando possíveis impactos da queda do dólar.

FRIGORÍFICOS: MELHOR ESPERAR NEGOCIAÇÕES

Considerando-se especificamente o setor de frigoríficos (que também inclui companhias como Marfrig e Minerva), o Brexit acendeu a esperança de que o Reino Unido poderia flexibilizar as importações de carne, uma vez que a oferta do produto vinda do bloco europeu tende a diminuir. Por enquanto, porém, Victor Martins, analista da Planner, recomendou esperar para ver os desdobramentos antes de fazer qualquer aposta:

— Vai depender efetivamente se haverá regras mais flexíveis para as vendas destinadas ao Reino Unido. Nesse contexto, e olhando a curto prazo, acreditamos que não haverá um reflexo destacadamente positivo nas cotações das ações dos frigoríficos brasileiros.

Quando o dólar se desvaloriza, a tendência é de alta para as commodities. Por isso, embora os produtos básicos ainda estejam sofrendo com a turbulência provocada pelo Brexit, os analistas acreditam que companhias ligadas a matérias-primas podem se beneficiar daqui para frente, em algum grau. Esse grupo inclui Petrobras, Vale e siderúrgicas, por exemplo.

SETOR BANCÁRIO SENTE REFLEXOS

Raphael Figueredo, da corretora Clear, destaca ainda o setor de concessionárias de serviços públicos, sobretudo no setor de energia. Segundo ele, além de serem ações consideradas defensivas, há a expectativa de que o segmento seja beneficiado pela onda de privatizações prometida pelo governo do presidente interino, Michel Temer. Essas companhias estão entre as que mais subiram desde o Brexit, aliás. Até a última quinta-feira, por exemplo, a Cemig saltou 15,56%, enquanto a Tractebel avançou 6,07%.

— O mercado vai voltar a procurar o setor de utilities (serviços públicos) como uma postura anticíclica. Isso está acontecendo também nos EUA. Como está havendo uma retomada da confiança no front doméstico e como o Temer vem falando em privatizações, empresas como Alupar, Light e Equatorial podem ser beneficiadas — explicou Figueredo.

O setor bancário, por sua vez, está na berlinda. Embora não tenha acumulado perdas nos pregões pós-Brexit, ele está sujeito a parte da intensa volatilidade que os bancos europeus vêm enfrentando desde o referendo.

— Os bancos brasileiros podem sofrer um pouco com maiores entraves nas captações do mercado externo, que acessam com alguma frequência. Trata-se de uma particularidade do mercado financeiro. Mas, a princípio, seus balanços não devem ser machucados por isso — disse Mario Roberto Mariante, analista-chefe da Planner.

Mariante também observou que, mais do que os desdobramentos do Brexit, os investidores devem estar atentos ao desenrolar do cenário político, sobretudo ao processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff:

— Isso vai ser muito mais importante do que o Brexit.

oglobo.globo.com | 04-07-2016

LONDRES — A indefinição sobre o futuro atinge hoje todos os setores do Reino Unido, país que mergulhou num período de turbulência política e econômica após a aprovação do fim da parceria com a União Europeia (UE). Os efeitos colaterais do Brexit (saída britânica) não poupam universidades que estão entre as melhores do mundo. Alunos e professores europeus que têm direito a estudar e trabalhar no Reino Unido graças às fronteiras abertas da UE podem ser afetados, assim como fundos essenciais para pesquisas. No rastro do Brexit, a posição das universidades britânicas como líderes globais em ciência e inovação enfrentará obstáculos. Brexit_0307

Cerca de 125 mil estudantes europeus frequentam atualmente instituições de ensino superior no Reino Unido. Nenhum outro lugar do mundo, com exceção dos EUA, atrai tantos alunos estrangeiros. A grande quantidade de jovens falando diferentes línguas forma uma base multicultural vibrante, sustentada pela diversidade, em cidades como Londres, Oxford, Cambridge e Edimburgo. Os que vêm de países membros da UE têm direito aos mesmos preços e benefícios que os britânicos. Sem o bloco europeu, as regras devem sofrer mudanças, elevando consideravelmente os custos de uma graduação ou pós-graduação para essa massa de alunos (5% do total de estrangeiros). O potencial de estrago do Brexit ainda está sendo avaliado, mas o clima é de pessimismo no meio acadêmico.

Às vésperas do referendo que decidiu o rompimento com a UE, cem vice-reitores de universidades britânicas divulgaram um alerta sobre os perigos do Brexit para o status global das instituições de ensino. “Deixar a UE criará um ambiente difícil para o investimento a longo prazo no ensino superior e pesquisas, o que é necessário para o Reino Unido manter sua posição como uma economia do conhecimento altamente qualificada e globalmente competitiva”, dizia o documento. No dia seguinte à vitória do Brexit, as universidades foram rápidas em avisar que, por enquanto, nada muda nas condições oferecidas aos estudantes e funcionários europeus. A participação em programas de intercâmbio e o acesso a fundos também continua igual a curto prazo. Porém, como o Reino Unido terá que rever todos os acordos com a UE nos próximos anos, o ensino superior vive tempos de incerteza.

ESTUDOS CONJUNTOS

O resultado do referendo revelou um contexto de insatisfação da maioria da população com a imigração, as políticas aprovadas em Bruxelas e os efeitos da globalização, mas está cada vez mais claro que os defensores do Leave (saída) ficaram aturdidos com a própria vitória e não tinham um plano concreto de retirada. Só no setor universitário, fundos europeus de pesquisa movimentaram 836 milhões de libras esterlinas (R$ 3,5 bilhões) no ano passado e geraram 8,8 mil empregos diretos. Um exemplo de colaboração que prova a força da aliança com a UE: a Universidade de Cambridge recebeu milhões de libras para pesquisar a incidência de câncer de mama e ovário em diferentes países europeus. O resultado foi um teste genético (Boadicea) que detecta a predisposição para o desenvolvimento da doença, já adotado por oncologistas e clínicos gerais na Europa. Vidas podem ser salvas com acompanhamento ou tratamento adequados.

— O impacto do Brexit é um desastre — resume a brasileira Renata Schaeffer, responsável pela área de política e estratégia dos fundos europeus da Universidade de Cambridge, primeira colocada no ranking britânico. — Não se faz pesquisa hoje sem um intenso trabalho de cooperação internacional, e a grande maioria dos parceiros de Cambridge é da Europa — explica ela, ressaltando que a Inglaterra recebe mais do que investe nos fundos europeus.

A conexão entre as universidades do bloco também é fundamental para o sucesso do Erasmus, o maior programa de intercâmbio do continente, que já beneficiou três milhões de jovens, entre eles 200 mil britânicos, em três décadas. Ainda não se sabe como o Brexit afetará o programa. Segundo Ronald Barnett, professor do Instituto de Educação da University College London (UCL), existe ainda o risco de as universidades britânicas se tornarem menos atraentes também para acadêmicos altamente qualificados.

— É difícil fazer previsões, mas alguns aspectos poderiam contribuir para isso: pode ocorrer uma redução dos financiamentos; há uma clara intenção de exercer maior controle sobre a imigração e pode haver uma percepção, mesmo que incorreta, de que o Reino Unido é pouco acolhedor para quem vem de fora. Acadêmicos poderiam considerar, mesmo que equivocadamente, que as universidades britânicas foram diminuídas em alguns aspectos — avalia ele.

Para o estudante francês Hippolyte Abadie, que faz doutorado em Artes Visuais em Londres, a curto prazo não há motivos para mudar seus planos, mas ele já olha para o futuro de outro jeito.

— Com certeza não quero planejar uma carreira acadêmica num país que está fora da UE — afirma.

Uma pesquisa com estudantes estrangeiros que consultaram universidades britânicas ou que já estão em meio ao processo de seleção evidencia o impacto negativo do Brexit: para 47%, a educação no Reino Unido fica menos interessante sem a integração com a UE (17% declararam o oposto e 35% afirmaram não ver diferença). Entre os candidatos europeus, o índice dos que se sentem menos atraídos pelo ensino superior britânico pula para 82%. Enquanto um estudante britânico e europeu paga um valor máximo de 9 mil libras esterlinas por ano (R$ 38,7 mil), o preço para outras nacionalidades pode subir para 15 mil libras (R$ 64,5 mil).

Mesmo para quem não está na Inglaterra com um passaporte do bloco, como é o caso do bielorusso Ales Herasimenka, que também estuda na capital britânica, o Brexit preocupa:

— Não vejo consequências imediatas, mas se a UE ficar mais fraca, seu principal benefício para a Europa, a paz, corre risco. O bloco é um dos principais fatores que impedem uma guerra no Leste Europeu, como a deflagrada na Ucrânia.

oglobo.globo.com | 03-07-2016

BERLIM — Após a vitória do Brexit, filósofos e cientistas políticos veem o futuro da Europa com pessimismo. Para eles, a tentativa de construção de uma identidade europeia fracassou diante de uma nova onda de nacionalismo: há uma volta ao conceito de nação, marcada pela forte rejeição à ideia de bloco como substituição para a identidade nacional. Os analistas, porém, se dividem se nesse novo cenário europeu existe ou não um risco real de ameaça à democracia. Brexit_0307

Para o historiador Herfried Münkler, da Universidade Humboldt, de Berlim, o maior projeto do continente depois da Segunda Guerra, idealizado para aproximar nações historicamente inimigas, não deu certo porque a integração econômica e política da União Europeia (UE) “foi na verdade um projeto de elite”, realizado sem consulta às populações dos respectivos países.

— O projeto funcionou relativamente bem enquanto a UE significava cada vez mais a melhoria do padrão de vida. Com o surgimento de problemas, como o desafio representado pelo ingresso dos países pobres do Leste, a crise do euro e a crise dos refugiados, o grau de aceitação foi diminuindo — disse Münkler.

O filósofo Otfried Höffe, da Universidade de Tübingen, no entanto, acredita que o “projeto de criação dos Estados Unidos da Europa”, como queriam os idealizadores do bloco, nunca teve uma chance de dar certo: nações são construções formadas historicamente que dão aos seus habitantes identidade e a sensação de fazer parte, o que nunca foi o caso da UE, ressaltou.

REAÇÃO À GLOBALIZAÇÃO

Com a globalização e a reação a ela, como num processo chamado na filosofia de dialética, explica, o conceito de nação e Estado nacional, que parecia ter sido superado no final do século XX, voltou a ser a base da identidade dos povos europeus.

— A UE só tem chance de sobreviver se abandonar o centralismo e passar a respeitar mais a identidade dos países-membros. Trata-se de uma riqueza cultural enorme à qual os europeus não querem renunciar — comentou.

Uma pesquisa realizada pelo Instituto de Ciências Políticas da Universidade de Bonn parece reforçar a tese de Höffe. Segundo o estudo, quando o aspecto da identidade nacional é ignorado, as pessoas correm o risco de adotar um nacionalismo agressivo e comportamento xenófobo.

Em toda a Europa, os partidos que têm o conceito mais tradicional de nação estão crescendo, contribuindo ainda mais para a perda de imagem da UE, que virou uma espécie de bode expiatório dos governos populistas de direita e de esquerda.

Höffe afirma que, depois da globalização e das frequentes crises no continente, a volta da identidade nacional foi descoberta como um porto seguro que ajuda a enfrentar os novos desafios do mundo de hoje.

— Eu sou um cidadão de Tübingen, do estado de Baden Württemberg, da Alemanha. Nós compramos os nossos brinquedos da China, vendemos os nossos carros para os Estados Unidos e as nossas máquinas para o mundo todo — observa o filósofo. — Assim como eu, pensam outros europeus, que mesmo não sendo nacionalistas querem que a UE dê mais espaço para o (aspecto) nacional, em vez de ser o monstro burocrático que perde tempo até na definição de como deve ser a forma de uma banana ou de um pepino. De outra forma, há risco de o pior, da ascensão de partidos nacionalistas, acontecer.

Mas a volta ao conceito de nação não deve significar o risco da repetição de conflitos do século XX realizados em nome do patriotismo. Otfried Höffe acrescenta que o componente que mais contribuiu para a tragédia causada pelo nacionalismo das décadas de 1920 e 1930, o ódio entre as nações e entre os partidos extremistas, entre nazistas e comunistas, não existe hoje.

— Hoje há, no máximo, a competição entre as nações. O perigo de conflito existe apenas quando há regiões separatistas, como as guerras da Iugoslávia nos anos 1990. Motivo de preocupação é a disposição para a violência de militantes da direita e da esquerda — diz o filósofo de Tübingen.

Não só no Reino Unido houve manifestações de xenofobia de direita, como os insultos a estrangeiros após o Brexit. Na Alemanha, os extremistas incendeiam frequentemente abrigos de refugiados. A polícia registrou também, desde o final do ano passado, centenas de casos de agressão física contra imigrantes. Já a extrema-esquerda alemã se concentra no incêndio e destruição de carros estacionados nas ruas.

Para Höffe, autor de uma importante obra sobre a filosofia política de Immanuel Kant, a UE vai certamente sobreviver, mas corre o risco de perder vários dos seus membros num período de curto a médio prazo.

Na sua opinião, o projeto da União Europeia tem um grau de aceitação tão baixo que em muitos países não teria chances de sobreviver a um referendo, que é o modelo mais direto de democracia.

Enquanto nos países do Norte da Europa a crise dos refugiados é vista como a mais grave enfrentada pelo bloco, levando os eleitores para a extrema-direita, no Sul é a crise do euro, ainda não superada, que desperta a fúria coletiva contra Bruxelas, fortalecendo partidos como o Syriza, que governa a Grécia, ou o Podemos, terceira força no Parlamento espanhol.

Os governos populistas, de direita, como o de Viktor Orban, na Hungria, ou de esquerda, como o Syriza, passaram a usar essa imagem profundamente negativa como um instrumento de pressão. Quando negociam com Bruxelas e querem obter mais benefícios, esses países costumam ameaçar com uma proposta de referendo, uma palavra mágica, pois a Comissão Europeia sabe que é cada vez maior o número de pessoas que seriam favoráveis à saída em quase todos os membros do bloco — mesmo nos países do Leste, que ainda em 2004 viam o ingresso na instituição como uma data tão importante quanto o fim do comunismo, ressaltam especialistas.

O descontentamento geral é ainda mais complexo. Como lembra o cientista político americano Irving Collier, do Instituto John F. Kennedy da Universidade Livre de Berlim, o fenômeno ocorre também do outro lado do Atlântico, onde uma onda de insatisfação popular, registrada sobretudo entre os perdedores do modelo econômico, deu força a populistas como o virtual candidato republicano à Casa Branca, Donald Trump.

— Há, de um lado, a volta do nacionalismo na Europa, mas há também um clima de insatisfação popular dos indignados no mundo inteiro. Enquanto na Europa o alvo da aversão é Bruxelas, nos Estados Unidos a insatisfação se volta contra Washington — diz Collier, que compara Trump à francesa Marine Le Pen, da Frente Nacional, ou ao líder populista austríaco Heinz Christian Strache, do Partido da Liberdade.

Collier lembra que há em todos esses países a ânsia popular por uma liderança forte e a disposição até em aceitar um novo modelo autoritário, chamado de “democracia não liberal”, como a democracia dirigida do presidente da Rússia, Vladimir Putin, de Viktor Orban na Hungria, ou do partido PiS (Paz e Justiça) na Polônia. Já Münkler não vê uma ameaça à democracia.

— Nada é mais democrático do que um referendo. Se há uma ameaça de crise, esta é na democracia parlamentar — diz Münkler, ao comentar o Brexit.

oglobo.globo.com | 03-07-2016

BERLIM — O ministro da Economia da Alemanha, Sigmar Gabriel, afirmou neste sábado que a saída do Reino Unido da União Europeia não pois o bloco em perigo. Ele sugeriu haver a possibilidade de que os britânicos voltem se unir ao grupo dentro de algumas décadas, especialmente porque os mais jovens votaram a favor da permanência. Brexit_0107

O Brexit não é irreversível, disse o ministro em uma conferência europeia sobre seu Partido Socialdemocrata, em Berlim:

— Estou certo que historicamente este é um mais um episódio do que uma época.

O resultado do referendo britânico realizado em 23 de junho a fabor da retirada da União Europeia sacudiu os mercados financeiros mundiais, mergulhou o Reino Unido no caos político e gerou preocupação sobre o futuro do bloco.

Ao mesmo tempo, em entrevista publicada na edição deste sábado do jornal “Neue Osnabruecker Zeitung”, Gabriel instistiu que a UE seja célere na condução da saída britânica, para evitar “imitações” que tragam problemas ao bloco.

Ele descatou que o Reino Unido deve ser tratado de forma justa, mas acrescentou:

— Não seria aceitável que o governo britânico possa fazer a consulta sobre abandonar a União Europeia e suas futuras relações com o bloco e, em paralelo, possa escolher o melhor das duas negociações — disse Gabriel.

O ministro alemão afirmou ainda que a UE aceitaria sem hesitação a Escócia como membro de pleno direito, caso o país deixe o Reino Unido e queira se unir ao bloco.

No que toca à União Europeia, Gabriel pediu que se reduza o número de comissários e que Bruxelas reconsidere como distibui o orçamento:

— Uma Europa onde 27 comissários querem demonstrarm seu valor não tem sentido. Seria bom reduzir o tamanho.

Sobre o orçamento comunitário, Gabriel disse que é preciso comprovar se é preciso seguir dedicando perto de 40% para a agricultura, enquanto se destina muito menos dinheiro à pesquisa, inovação e educação. Ele afirmou ainda que a UE deveria constituir um exército comum e investir cada vez mais na luta contra o desemprego.

oglobo.globo.com | 02-07-2016

BUENOS AIRES - Do lado dos argentinos, cautela e expectativa. Por parte dos cerca de 3 mil habitantes das Ilhas Malvinas, tensão e preocupação. A única sensação que ambos compartilham é a de que a vitória do Brexit poderia impactar na disputa entre a Argentina e o Reino Unido pela soberania das Ilhas Malvinas. BREXIT PAPEL 28-06

Nos últimos dias, analistas e dirigentes políticos argentinos asseguraram que o resultado do referendo poderia fortalecer a posição da Casa Rosada, já que fora da União Europeia (UE) o Reino Unido perderia importantes aliados em sua história queda-de-braço com a Argentina. Em meio ao debate, Julian Assange, criador do WikiLeaks, asilado na embaixada do Equador em Londres, afirmou que o triunfo do Brexit tornará mais difícil qualquer tipo de entendimento entre os dois países.

Em teleconferência com alunos da Universidade Nacional de Buenos Aires, Assange opinou o surgimento de um forte sentimento nacionalista no Reino Unido “tornará muito difícil qualquer negociação”.

Nas ilhas, o clima é de incerteza. Pouco após confirmado o resultado do referendo, o governo das Falklands (como são chamadas as Malvinas pelos britânicos) divulgou nota oficial na qual informou estar “trabalhando com setores públicos e privados para investigar o impacto do Brexit sobre as ilhas”. Na mesma nota, as autoridades das ilhas afirmaram que “garantiremos que os interesses do território serão levados em consideração e manteremos os benefícios que temos, particularmente em relação ao acesso comercial”. Outra das preocupações do governo local das Falklands é que não sejam afetadas as importações e exportações entre as ilhas e os países que integram a UE.

Em abril passado, o representante das Malvinas no Reino Unido, Sukey Cameron, manifestou sua preocupação pelas consequencias do referendo britânico. Ainda não está claro com que tipo de respaldo internacional contará Londres a partir de agora em sua política de defender a soberania britânica sobre as Malvinas.

— Se o Reino Unido não for mais membro da UE, poderia perder-se o apoio de um grande número de Estados que sim são membros e isso poderia, por sua vez, levar a Argentina a ser muito mais agressiva — dissera Cameron.

Na mesma época, o representante das Ilhas garantiu que um eventual triunfo do Brexit seria “catastrófico” em termos econômicos, já que, segundo ele, 70% do crescimento das Malvinas depende do acesso ao mercado europeu.

Pouco antes do referendo, o secretário de Defesa britânico, Michael Fallon, visitou as ilhas e prometeu que a proteção militar às Falklands seria mantida, seja qual fosse o resultado.

O governo do presidente Mauricio Macri reagiu com tranquilidade e evitou antecipar futuros cenários, favoráveis ou desfavoráveis para o país. A ministra das Relações Exteriores, Susana Malcorra, negou que a saída do Reino Unido da UE signifique, automaticamente, o início de uma negociação bilateral sobre a soberania das Malvinas.

— Não estamos num processo de negociação com o Reino Unido, não aconteceu nada neste sentido... temos de trabalhar na reconstrução da confiança mútua — declarou a chanceler argentina.

Segundo ela, “ainda é cedo” para saber como impactará o referendo na questão Malvinas.

— Temos de ser prudentes. A questão Malvinas tem uma longa história em ambos os países. Queremos avançar em esquemas de negociação e diálogo — enfatizou a ministra, que é candidata à secretaria geral das Nações Unidas.

Já analistas e dirigentes argentinos foram mais ousados em suas avaliações sobre o Brexit. Para Daniel Filmus, ex-secretário sobre Assuntos Relativos às Malvinas do governo Cristina Kirchner, “está se abrindo uma oportunidade história e esperamos que o governo saiba aproveitá-la”.

— Todos os organismos multilaterais e todos os blocos do mundo apoiam a posição argentina. Os únicos potenciais aliados (de Londres) eram os europeus, porque pertenciam à mesma comunidade — disse Filmus, atual deputado do Parlamento do Mercosul.

Segundo ele, a partir de agora “cada país europeu poderá definir sua posição de acordo a suas tradições em relação ao colonialismo”. Na opinião do ex-vice chanceler Andrés Cisneros, a vitória do Brexit “gera uma eventual perda de apoio (aos britânicos) dentro do bloco”.

oglobo.globo.com | 28-06-2016

PEQUIM - Legisladores e economistas chineses manifestaram preocupação sobre a saída do Reino Unido da União Europeia neste domingo. O ministro das Finanças da China, Lou Jiwei afirmou que o processo elevou a incerteza no mercado financeiro, apesar de uma expectativa de impacto limitado sobre a economia do país.

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A decisão “lança uma sombra sobre a economia global. As repercussões vão emergir durante os próximos cinco a dez anos”, disse Jiwei no primeiro encontro anual do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura em Pequim.

— É difícil prever agora — disse a autoridade. — A reação instintiva do mercado é provavelmente um pouco exagerada e precisa se acalmar e tomar uma visão objetiva.

As Bolsas acionária pelo mundo despencaram após o resultado do referendo britânico, e a libra atingiu seu menor valor desde 1985 frente ao dólar.

As declarações de Jiwei foram apoiadas pelo chefe do principal órgão de planejamento econômico da China e outros economistas no Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês) na cidade de Tianjin.

— Para as empresas chinesas que vão investir ou continuar fusões, os empresários são mais esperto que eu, e provavelmente esperarão para ver — afirmou Shaoshi, presidente da Comissão de Reforma e Desenvolvimento Nacional, no WEF neste domingo. — O incidente do Brexit afetará a economia chinesa através do investimento, comércio e capital, mas acredito que o impacto não será grande, e departamentos de governo relevantes prepararam planos de contingência.

Huang Yiping, professor na Peking University e integrante do comitê de política monetária do Banco Central chinês, afirmou que é difícil julgar o impacto direto do referendo na economia chinesa.

— Se (o Brexit) é um marco importante em termos de reversão da globalização, acho que é muito ruim para o mundo, muito ruim para a China — disse o acadêmico.

Li Daokui, professor da Universidade de Tsingua e ex-consultor do BC da China, se mostrou mais otimista sobre os efeitos da saída do Reino Unido da União Europeia para a segunda maior economia do mundo.

— A China é provavelmente uma das economias menos impactada no mundo pelo acontecimento do Brexit — disse Daokui em conferência no Fórum. — O impacto de curto prazo acho que poder ser na taxa de câmbio do yuan. Mas acho que dentro de algumas sessões de mercado a situação será rapidamente controlada.

Michael Falcon, diretor executivo de gerenciamento de investimento global para a região Ásia-Pacífico do banco americano JP Morgan, afirmou que espera mais volatilidade no mercado, mas duvida que o referendo fará descarrilhar uma recuperação global:

— É um choque, não uma crise, e até agora os mercados pareceram lidar bem — disse o economista em participação no WEF.

oglobo.globo.com | 26-06-2016

É uma trágica ironia que a União Europeia — originalmente construída para acalmar os impulsos nacionalistas do século XX — esteja hoje por trás do ressurgimento de tais sentimentos em grande parte da Europa. O referendo que emitiu um voto para o Brexit é a mais recente e dramática indicação de que esse novo nacionalismo veio para ficar.

Tal nacionalismo foi construído em grande parte como reação à forma como a UE tem evoluído ao longo das últimas décadas. O que começou como um mercado comum cresceu para abraçar uma moeda única, o Espaço Schengen e a integração no domínio da Justiça e assuntos internos. Tudo isso diluiu aspectos centrais da soberania nacional: Estados têm menos controle sobre a política macroeconômica, fronteiras e pessoas.

A União Europeia tornou-se mais ampla ao incorporar a Europa Central e Oriental. A inclusão de 12 novos Estados-membros, com histórias, estruturas econômicas e tradições democráticas distintas tornou o processo de tomada de decisões ainda mais complicado. Ao mesmo tempo, essa situação fez a política da UE menos sensível à opinião pública. Essas transformações têm sido inquietantes para os eleitores em certos países — como o Reino Unido.

Mas o que temos testemunhado no Reino Unido é parte de uma mudança muito mais ampla nas atitudes públicas em relação à UE do que os analistas têm chamado de “consenso permissivo” para um “desacordo constrangedor”. No passado, os líderes europeus discretamente perseguiram a integração em áreas como a agricultura, e o público deu pouca atenção a isso. Mais recentemente, porém, os líderes têm procurado tomar decisões coletivas em áreas como comércio de serviços, sistemas bancários e asilo político. Mas eles têm que ter em mente que eleitores em casa são mais propensos a prestar mais atenção e a serem céticos.

Esse ceticismo fortalece a percepção de que a União Europeia é responsável pelo mal-estar sentido por muitos eleitores europeus. Isolamento econômico e reestruturação industrial, austeridade e privatizações, desemprego e insegurança no trabalho, medo da imigração. Tudo alimenta os sentimentos negativos que as pessoas têm sobre a UE.

O euroceticismo é encontrado nos extremos do espectro político. À esquerda, os eleitores e os partidos veem a UE como um enredo neoliberal. Ela existe apenas para servir às grandes empresas que fazem lobby em Bruxelas para uma legislação favorável. Para a direita, a UE é um gigante burocrático que impõe a regulamentação excessiva e ameaça as identidades nacionais antigas, incentivando a migração laboral. Quando esses dois pontos de vista se fundem, como acontece na base política do Partido da Independência do Reino Unido (Ukip), eles são fortemente tóxicos.

O Ukip é apenas um dos muitos partidos desse tipo. Retóricas e padrões de apoio político semelhantes colaboram para o sucesso de outras legendas também. A Frente Nacional na França, os Novos Democratas da Suécia e o Partido dos Finlandeses acompanharam de perto os eventos no Reino Unido.

Alguns têm mesmo clamado por seus próprios referendos, Frexit ou Swexit após Brexit. Outros adequam o seu euroceticismo para atender às idiossincrasias locais. Tome, por exemplo, as plataformas do Partido da Liberdade da Holanda, virulentamente anti-islâmico, ou a ação violenta promovida pelo Aurora Dourada, da Grécia.

Mas, em todos os casos, o que temos assistido com a ascensão do euroceticismo é à explosão de uma forma robusta do nacionalismo populista. Ele vai durar porque mapeia e reforça a culpa de linhas sociais existentes.

Mais importante: ele depende da existência de divisões entre os vencedores e os perdedores da globalização no século XXI. Ele prospera sobre as diferentes experiências dos poliglotas viajados que trabalham em profissões altamente qualificadas e os mirrados indivíduos deixados para trás pelas transformações econômicas globais.

Se trabalham em empregos de baixa remuneração nas cidades portuárias de Essex ou reivindicam benefícios de desemprego em Lille, aqueles deixados para trás compartilham um sentimento comum de desespero e frustração que rende uma rejeição visceral de corpos estranhos.

Em certos países, como a Polônia e os nórdicos, divisões sociais e ideológicas também se transformam em geográficas. Moradores patrióticos da zona rural veem seus vizinhos metropolitanos — e seus valores liberais — com suspeita.

E, na ausência de uma alternativa socialista crível para protegê-los, muitos se voltaram para o instinto mais básico de solidariedade com a etnia nativa e dominante: o inglês, o francês, o alemão. Em todos os países, o que sustenta esse nacionalismo é o agrupamento de indivíduos com interesses econômicos de esquerda e valores conservadores que divergem tremendamente do padrão dominante.

Assim, quando estes sentimentos são agrupados por atores políticos empresariais, tais como o Ukip, ganha-se um sabor político que faz lembrar o nacionalismo do passado. Mantém uma visão da História do país que glorifica o controle democrático nacional e defende um retorno reacionário ao passado, não importem os custos econômicos.

É sinceramente anti-intelectual, oferece soluções fáceis para problemas complexos, prefere o que chama de “fala franca” a uma dicção bem articulada, e é totalmente sem remorso em seu desdém.

A principal diferença é que, em contraste com o passado, a democracia é agora o único jogo. Os sistemas em que esses partidos nacionalistas operam são (relativamente) estáveis e a rotatividade geracional deveria conduzir à predominância de valores liberais, sugerindo que existe um limite para o conjunto de apoio.

Contudo, mesmo que as instituições democráticas em si não estejam em questão, a democracia atualmente oferece o mecanismo pelo qual esses partidos nacionalistas podem contaminar as plataformas de outras legendas tradicionais. Eles podem exercer pressões competitivas durante as eleições locais, nacionais e europeias, obrigando os partidos maiores a mudarem suas promessas políticas, na tentativa de evitar a perda de eleitores.

Então, a menos que significativas reformas econômicas e sociais internas enfrentem as divisões agudas sobre as quais esse nacionalismo populista se apoia, isso persistirá num futuro próximo. E a menos que a UE possa gerir suas instituições com maior legitimidade democrática, isso vai continuar a incitar a ira populista. Os eleitores precisam ser capazes de se identificar com as pessoas que tomam decisões em seu nome.

O Reino Unido pode ser o primeiro país a sair da UE, mas pode não ser o último. O novo nacionalismo europeu está aqui para ficar.

Simon Toubeau é professor da Escola de Política e Relações Internacionais da Universidade de Nottingham. Este artigo foi originalmente publicado em “The Conversation” (http://theconversation.com)

oglobo.globo.com | 26-06-2016

RIO — Quando os espanhóis voltarem às urnas neste domingo, seis meses depois das últimas eleições parlamentares, a sensação será de déjà vu. Após o fracasso dos partidos em formar um governo de coalizão, os eleitores foram convocados para uma nova votação na tentativa de destravar o impasse. Pesquisas de opinião, no entanto, indicam uma repetição do resultado anterior: nenhuma legenda terá maioria suficiente no Parlamento para governar sozinha, deixando o país novamente refém de tensas negociações partidárias.

De acordo com as últimas sondagens, o Partido Popular (PP) — do presidente do Executivo espanhol, Mariano Rajoy — deve vencer, assim como na disputa de dezembro. A aliança anti-establishment Unidos Podemos passa na frente do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), tornando-se a segunda maior força política do país, e a legenda pró-mercado Cidadãos ficaria em quarto lugar.

A falta de um acordo entre os partidos colocou a Espanha num beco sem saída, ainda sob os efeitos da crise econômica e mergulhada em escândalos de corrupção. Em sua primeira eleição geral, Podemos e Cidadãos obtiveram quase nove milhões de votos, sepultando a tradicional polarização entre PP e PSOE. Para o analista Joan Culla Clarà, da Universidade Autônoma de Barcelona, as lideranças tiveram de aprender a lidar com um novo xadrez político.

— O que aconteceu nas urnas em dezembro foi inédito. Pela primeira vez, havia quatro partidos com 40 ou mais deputados. Nunca tivemos um governo de coalizão na Espanha democrática. Precisávamos de tempo para que líderes e organizações digerissem a situação. Supomos que depois destes seis meses ficou claro que os quatro grandes partidos continuarão assim, e é preciso administrar essa nova realidade — afirmou.

ALIANÇA DE ESQUERDA PODE OBTER MAIORIA

Alguns levantamentos sugerem que uma eventual aliança entre PSOE e Podemos somaria assentos suficientes para viabilizar um governo de maioria parlamentar de esquerda, podendo forçar uma mudança de postura do líder socialista Pedro Sánchez, que descartou pactuar tanto com o Podemos quanto com o PP.

— Se o Unidos Podemos superar o PSOE em votos e assentos, e se houver clara maioria de esquerda, será muito difícil para o PSOE dizer “não” — avaliou o cientista político David Redoli Morchón.

Segundo os especialistas, os cenários prováveis são uma grande coalizão entre PP e PSOE; um governo de direita formado por PP e Cidadãos; um pacto de centro-esquerda entre socialistas e Cidadãos; ou um governo de esquerda liderado por PSOE e Unidos Podemos.

Morchón descartou a possibilidade de uma terceira eleição geral consecutiva:

— A opinião pública não toleraria se não houvesse um acordo depois de mais de meio ano de governo interino. Acho que todos os partidos vão fazer grandes esforços para moderar as suas posições e possibilitar um novo governo. Além disso, a pressão internacional é grande. E o mundo empresarial exige que se alcance um acordo para normalizar a situação no país.

Ante a paralisia do governo e uma onda de apatia da população, o instituto Metroscopia previu a abstenção de entre 30% e 32% dos eleitores — a maior taxa desde que a Espanha voltou à democracia, em meados da década de 1970.

Consultor político e presidente do centro de estudos Conselho Hispânico, Daniel Ureña destacou o sentimento de descontentamento:

— A falta de acordo para formar governo não fez outra coisa que não aumentar a crise de confiança na classe política, iniciada junto com a crise econômica entre 2008 e 2009.

Nos últimos dias de campanha, o governo de Rajoy foi sacudido por mais um escândalo. O ministro do Interior, Jorge Fernández Díaz, foi acusado de usar seus serviços para tentar incriminar partidos independentistas catalães.

A decisão britânica de deixar a União Europeia entrou na campanha, durante os encerramentos anteontem. Rajoy alertou para o perigo de votar “em partidos eurocéticos”:

— Não é o momento para experiências — disse Rajoy, em Madri, depois de um telão mostrar imagens de Iglesias defendendo que o país retomasse o controle da política monetária e saísse da zona do euro.

Já o líder do Podemos viu no resultado britânico um recado à UE:

— Hoje há uma mensagem para todos os europeus e é muito clara: a Europa dos cortes sociais, a Europa que humilha os refugiados e não cumpre os direitos humanos não nos serve e não nos seduz — declarou Iglesias.

oglobo.globo.com | 26-06-2016

WASHINGTON - As autoridades dos Estados Unidos tentaram demonstrar tranquilidade com o Brexit. O presidente Barack Obama, que conversou com os principais líderes europeus, disse que espera que trabalhem juntos “pela manutenção da estabilidade, da segurança e da prosperidade”. Mas a saída do Reino Unido da União Europeia, já influenciando a corrida pela Casa Branca nas eleições de novembro, vai alterar a política externa dos EUA, que vê seu maior aliado no Velho Continente perder força, e pode forçar uma aproximação maior com países como Alemanha e França, segundo especialistas.

Em nota, a Casa Branca informou que Obama “respeitava a decisão” do povo britânico e lembrou que tanto o bloco europeu como o Reino Unido seguem sócios dos americanos na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). A questão da segurança foi lembrada ao longo do dia pelos Estados Unidos, que têm nos ingleses o principal parceiro em suas investidas militares pelo mundo. CONTEÚDO EXCLUSIVAS PAPEL 2506

— O Reino Unido está comprometido com uma transição ordenada. Nós concordamos que os EUA e nossos aliados europeus trabalharão em conjunto nas próximas semanas e meses — disse, em evento na Califórnia. — Uma coisa que não vai mudar é a relação especial.

Obama, que nunca escondeu que preferia o Reino Unido na União Europeia, não culpou os eleitores pela mudança de status do país no bloco.

— A votação trata de mudanças em curso e desafios que são colocados pela globalização.

Hillary Clinton, provável candidata democrata à sucessão, também adotou a cautela:

— O momento de incerteza só ressalta a necessidade de calma e de uma liderança constante e com experiência na Casa Branca para proteger os bolsos e os empregos dos americanos.

Trump: ‘Querem o país de volta’

Já o virtual candidato republicano à Casa Branca, Donald Trump, comemorou a vitória da saída do Reino Unido da União Europeia. Falando de seu campo de golpe na Escócia, Trump disse que o resultado era “fantástico” e viu paralelo entre o que os britânicos fizeram e sua proposta política de fechar o país:

— Eles retomaram o controle. É uma grande coisa. As pessoas querem seu país de volta. Elas querem ter independência, em certo sentido. Você vê isso na Europa, em toda a Europa.

Especialistas, contudo, veem novos desafios à diplomacia americana. Charles Lichfield, analista do Eurasia Group, acredita que Washington terá que reforçar laços com Berlim e Paris:

— Londres era para os Estados Unidos a principal voz liberal dentro da União Europeia.

Carles Catchot Costello, do Atlantic Council, afirmou ao GLOBO que as relações militares entre os países continuarão fortes dentro da Otan, mas vê uma das principais democracias do mundo, a britânica, abalada pelo populismo e pelo autoritarismo em ascensão no mundo.

— Mas a mudança certamente vai exigir a criação de novos mecanismos de coordenação para garantir uma resposta às ameaças que surgem no mundo, como o terrorismo.

Kevin Casas-Zamora, do Inter-American Dialogue, afirma que é nítido que o Reino Unido perderá importância relativa para os Estados Unidos. E que não será fácil para o país mais rico do mundo substituir a Europa na relação dos ingleses:

— Os britânicos não querem também uma associação tão forte aos EUA como alternativa à União Europeia. Muitos ainda sofrem com o apoio incondicional da ilha à Guerra do Iraque.

Para Larive Maxime, diretor do Centro de Estudos Europeus da Universidade Illinois, o Reino Unido tentará manter seus laços para continuar relevante, e a questão militar pode ser uma porta:

— Para Londres, fazer parte da Otan ajuda no relacionamento especial com os Estados Unidos e eles não vão querer perder isso — disse.

oglobo.globo.com | 25-06-2016

SÃO PAULO - As consequências da ruptura do Reino Unido com a União Europeia são diversas e imprevisíveis para a economia mundial e inevitavelmente vão se refletir no Brasil, dizem os especialistas. Entre os efeitos mais prováveis, estão o adiamento da retomada do crescimento nas principais economias da América Latina, o nascimento de uma onda protecionista nas relações comerciais com a região, além de um período de muitas incertezas. Para o Brasil, o primeiro impacto se dá via mercado financeiro, mas o contágio virá também por outras vias.

Nesse cenário, avalia o estrategista-chefe do banco Mizuho, Luciano Rostagno, se as moedas latino-americanas apresentarem uma forte e persistente desvalorização frente ao dólar, os bancos centrais da região poderão estender os ciclos de aperto monetário, reduzindo as perspectivas de crescimento para as principais economias da região. Para o Brasil, se isso se concretizar, diz ele, o BC deve adiar um pouco mais o início da redução da Selic, o que também irá retardar a retomada do crescimento.

— Se o real tiver um movimento forte de depreciação frente ao dólar, por um período prolongado, o BC deverá adiar o corte de juros — diz Rostagno, que considera que o BC brasileiro só voltaria a subir os juros no caso de uma turbulência mais forte causado pela ruptura, como a quebra de um grande banco, o que não está no horizonte do banco neste momento.

Para a professora Margarida Gutierrez, economista e professora do Instituto COPPEAD de Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) a decisão da Inglaterra de deixar a União Europeia pode ser interpretada como um 'não à globalização'. Na prática, avalia Gutierrez, é um passo contrário ao que vinha se praticando em termos de acordos comerciais e uma volta ao 'isolacionismo'.

— Isso terá consequências para o comércio mundial e para o Brasil. A decisão de romper com tratados comerciais e livre circulação de pessoas, previstos pela União Europeia, mostra que o Reino Unido quer decidir suas práticas comerciais e quem vai circular pelo país. É uma mudança radical no cenário político e econômico desde o fim da Segunda Guerra Mundial, quando se começaram a costurar acordos comerciais e o mundo se tornou globalizado — explica a professora da UFRJ.

Num mundo que cresce pouco, a sinalização de relações comerciais mais protecionistas é um problema, não só para o Reino Unido, que exporta cerca de 50% para a União Europeia, mas para o mundo.

— Vamos passar um período de muita incerteza, de aversão ao risco. Todas as moedas, com exceção do dólar e do iene, tendem a se depreciar, e haverá menos disposição ao investimento. E com moedas depreciadas, aumentam as pressões inflacionárias — observa Gutierrez, lembrando, entretanto, que um real mais fraco acaba beneficiando a indústria nacional em termos de exportações.

A economista da consultoria Tendências, Alessandra Ribeiro, avalia que o crescimento mundial deve ser afetado negativamente com a saída do Reino Unido. E para a economia brasileira as consequências também são negativas.

— Além dos impactos diretos sobre o crescimento econômico, diante do menor fluxo de comércio de bens e serviços, financeiro e de pessoas, as incertezas com relação ao processo, considerando, inclusive, a possibilidade de desmembramento da União Europeia, deve manter elevada a aversão ao risco, afetando negativamente decisões de investimento e consumo. Para a economia mundial, que apresenta taxa moderada de expansão, esses efeitos devem provocar um crescimento ainda menor — afirma a economista.

Para ela, a economia brasileira, não escapa das consequências do Brexit, dados os efeitos via preços de ativos, confiança e crescimento econômico dos parceiros comerciais. Ainda que o comércio direto seja pequeno (1,5% das exportações brasileiras tem como destino o Reino Unido e 1,6% de nossas importações vem de lá), os maiores efeitos virão das consequências para a comunidade europeia, segundo maior destino de nossas exportações, e demais países como Estados Unidos e China.

Em relatório, os economistas do Itaú Unibanco preveem um crescimento menor nos países avançados, que tende a transbordar para os países emergentes. De acordo com o texto, o preço das commodities deve cair e as moedas ligadas a elas se desvalorize, com efeitos incertos sobre a inflação. O efeito positivo, diz o relatório do banco, a política monetária global será mais expansionista, sustentando o fluxo de capital para os mercados emergentes.

"O impacto global sobre a política monetária no Brasil vai depender do tamanho da depreciação do real e seu impacto sobre a inflação. Uma substancial depreciação da moeda poderia atrasar o início de um ciclo de corte de juros no segundo semestre desse ano", diz o texto do Itaú Unibanco.

oglobo.globo.com | 25-06-2016

SÃO PAULO e RIO - A surpreendente decisão do Reino Unido de deixar a União Europeia (UE) derrubou os mercados em todo o mundo, movimento que se refletiu no Brasil, mas com intensidade menor. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) chegou a cair quase 4%, mas encerrou o último pregão da semana com perda de 2,82%, aos 50.105 pontos. No mercado de câmbio, no início dos negócios, o dólar chegou a disparar 3,14% contra o real, mas acabou perdendo força no decorrer do dia e fechou em alta de 1,04%, a R$ 3,37.

‘CONTINUAMOS EXPOSTOS À VOLATILIDADE’

Diferentemente das fortes perdas das Bolsas europeias — algumas caíram mais mais de 12% —, o mercado brasileiro seguiu mais de perto o comportamento observado em Nova York, onde o Dow Jones recuou 3,39%. Também pesou o cenário político, com maior possibilidade de impeachment.

— Mas os efeitos indiretos do Brexit, a médio prazo, também serão sentidos no Brasil, como uma menor liquidez, maior aversão a risco e redução do fluxo de investimentos — estimou o economista Hersz Ferman, da Elite Corretora.

Entre as ações brasileiras, Petrobras e Vale registram as perdas mais significativas, reagindo à desvalorização das commodities no mercado internacional. Os papéis ordinários (ON, com direito a voto) da petrolífera despencaram 5,47%, enquanto os preferencias (PN, sem voto) caíram 4,65%. No caso da mineradora, as quedas foram de 8,19% (ON) e 8,65% (PN).

— O comportamento do mercado brasileiro foi razoavelmente controlado — avaliou Paulo Gomes, economista-chefe da gestora Azimut. — A alta do dólar, inclusive, é favorável para as exportações das empresas brasileiras. No caso da Vale, embora a China consuma metade de sua produção, a mineradora despenca com a desvalorização das commodities que ocorre quando o dólar avança.

No mercado de câmbio brasileiro, a libra, que atingiu menor valor em 30 anos frente ao dólar, despencou mais de 7% em relação ao real, cotada a R$ 4,60. O euro teve desvalorização de 1,38% frente ao real, sendo negociado a R$ 3,75.

— Foi surpreendente o comportamento do dólar por aqui. O comunicado do BC (Banco Central) brasileiro mostrando que estava alerta, o cenário político positivo, que fortalece o impeachment, e o sentimento de que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano), não deve elevar os juros em breve, ajudaram a segurar a cotação do dólar — explicou Cleber Alessie, operador de câmbio da corretora H. Commcor.

Para o economista Ignácio Rey, da Guide Investimentos, o impacto no câmbio puniu mais os países diretamente ligados ao mercado europeu:

— De qualquer forma, continuamos sendo um mercado emergente bastante exposto à volatilidade, e o Brexit foi uma surpresa ruim que complica ainda mais o cenário externo.

Para Rey, a postergação de uma alta de juro nos Estados Unidos também tem um componente negativo do ponto de vista global.

— Isso significa que o mundo vai crescer menos. A própria alta do dólar em virtude do Brexit continuará prejudicando a indústria americana, por exemplo — ressaltou.

Nos EUA, a preocupação é com a valorização do dólar, considerado um porto seguro pelos investidores. Cresceu também a procura por ouro e títulos do Tesouro americano. O papel de dez anos viu seu rendimento (que é inversamente proporcional à demanda) cair 0,19 ponto percentual, para 1,56%.

— Não se sabe o que vai acontecer no fim de semana — disse ao site CNNMoney o diretor de Estratégia Global da Charles Schwab, Jeff Kleintop.

As consequências da ruptura do Reino Unido com a União Europeia são diversas e imprevisíveis para a economia mundial e inevitavelmente vão se refletir no Brasil, dizem os especialistas. Entre os efeitos mais prováveis, estão o adiamento da retomada do crescimento nas principais economias da América Latina, o nascimento de uma onda protecionista nas relações comerciais com a região, além de um período de muitas incertezas. Para o Brasil, o primeiro impacto se dá via mercado financeiro, mas o contágio virá também por outras vias.

Nesse cenário, avalia o estrategista-chefe do banco Mizuho, Luciano Rostagno, se as moedas latino-americanas apresentarem uma forte e persistente desvalorização frente ao dólar, os bancos centrais da região poderão estender os ciclos de aperto monetário, reduzindo as perspectivas de crescimento para as principais economias da região. Para o Brasil, se isso se concretizar, diz ele, o BC deve adiar um pouco mais o início da redução da Selic, o que também irá retardar a retomada do crescimento.

— Se o real tiver um movimento forte de depreciação frente ao dólar, por um período prolongado, o BC deverá adiar o corte de juros — diz Rostagno, que considera que o BC brasileiro só voltaria a subir os juros no caso de uma turbulência mais forte causado pela ruptura, como a quebra de um grande banco, o que não está no horizonte do banco neste momento.

Para a professora Margarida Gutierrez, economista e professora do Instituto COPPEAD de Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) a decisão da Inglaterra de deixar a União Europeia pode ser interpretada como um 'não à globalização'. Na prática, avalia Gutierrez, é um passo contrário ao que vinha se praticando em termos de acordos comerciais e uma volta ao 'isolacionismo'.

— Isso terá consequências para o comércio mundial e para o Brasil. A decisão de romper com tratados comerciais e livre circulação de pessoas, previstos pela União Europeia, mostra que o Reino Unido quer decidir suas práticas comerciais e quem vai circular pelo país. É uma mudança radical no cenário político e econômico desde o fim da Segunda Guerra Mundial, quando se começaram a costurar acordos comerciais e o mundo se tornou globalizado — explica a professora da UFRJ.

Num mundo que cresce pouco, a sinalização de relações comerciais mais protecionistas é um problema, não só para o Reino Unido, que exporta cerca de 50% para a União Europeia, mas para o mundo.

— Vamos passar um período de muita incerteza, de aversão ao risco. Todas as moedas, com exceção do dólar e do iene, tendem a se depreciar, e haverá menos disposição ao investimento. E com moedas depreciadas, aumentam as pressões inflacionárias — observa Gutierrez, lembrando, entretanto, que um real mais fraco acaba beneficiando a indústria nacional em termos de exportações.

A economista da consultoria Tendências, Alessandra Ribeiro, avalia que o crescimento mundial deve ser afetado negativamente com a saída do Reino Unido. E para a economia brasileira as consequências também são negativas.

— Além dos impactos diretos sobre o crescimento econômico, diante do menor fluxo de comércio de bens e serviços, financeiro e de pessoas, as incertezas com relação ao processo, considerando, inclusive, a possibilidade de desmembramento da União Europeia, deve manter elevada a aversão ao risco, afetando negativamente decisões de investimento e consumo. Para a economia mundial, que apresenta taxa moderada de expansão, esses efeitos devem provocar um crescimento ainda menor — afirma a economista.

Para ela, a economia brasileira, não escapa das consequências do Brexit, dados os efeitos via preços de ativos, confiança e crescimento econômico dos parceiros comerciais. Ainda que o comércio direto seja pequeno (1,5% das exportações brasileiras tem como destino o Reino Unido e 1,6% de nossas importações vem de lá), os maiores efeitos virão das consequências para a comunidade europeia, segundo maior destino de nossas exportações, e demais países como Estados Unidos e China.

Em relatório, os economistas do Itaú Unibanco preveem um crescimento menor nos países avançados, que tende a transbordar para os países emergentes. De acordo com o texto, o preço das commodities deve cair e as moedas ligadas a elas se desvalorize, com efeitos incertos sobre a inflação. O efeito positivo, diz o relatório do banco, a política monetária global será mais expansionista, sustentando o fluxo de capital para os mercados emergentes.

"O impacto global sobre a política monetária no Brasil vai depender do tamanho da depreciação do real e seu impacto sobre a inflação. Uma substancial depreciação da moeda poderia atrasar o início de um ciclo de corte de juros no segundo semestre desse ano", diz o texto do Itaú Unibanco.

oglobo.globo.com | 25-06-2016

BRASÍLIA — Habitualmente contido, o presidente interino, Michel Temer, mostrou-se bem-humorado em entrevista concedida aos principais jornais do país, entre eles O GLOBO, na sexta-feira. Ele fez piada e até riu do uso constante que faz de mesóclises, inusuais na linguagem coloquial. Ao responder a uma questão sobre possibilidade de aumento de impostos, saiu-se com um “fá-las-á”, que até o surpreendeu. Parou e emendou:

— Vocês sabem que isso até ensinou para muita gente o que é próclise, ênclise e mesóclise.

Temer entrevista 24.06

Temer disse que gosta de caminhar e sugeriu, em tom de brincadeira, um grupo de caminhada para os que precisavam acompanhar as pedaladas matinais da presidente afastada Dilma Rousseff. Ele contou que quando era jovem ia a pé para a escola e chegava a caminhar 20 km por dia.

Um dos alvos dos comentário bem humorados de Temer foi o ministro das Relações Exteriores, José Serra, conhecido por seus hábitos notívagos e por não tolerar eventos matinais.

— Vocês sabem que Serra chegou pontualmente a duas reuniões esta semana que marquei às 9 horas? Numa outra, chegou até adiantado, mas era três da tarde — brincou.

Mais tarde, Serra disse que seu problema não é acordar , mas manter o bom humor logo cedo.

— Estou chegando mais cedo mesmo, para deixar os outros sem graça — disse Serra, rindo. — Meu problema não é acordar cedo, é ficar de mau humor. Para não ficar de mau humor, estou tomando guaraná em pó.

Temer ainda não tinha falado com Serra sobre a saída do Reino Unido da União Europeia, mas fez um breve comentário:

— Não chamo de retrocesso, mas digo que quebra a ideia de unidade entre os estados.

oglobo.globo.com | 25-06-2016

Um antigo colega de universidade fez um resumo preciso com apenas uma mensagem na manhã de sexta-feira: “Duas recessões antes dos 30 anos, estamos bem!”

Essa segunda ainda está para acontecer, e os sinais não são bons com a libra e o mercado de ações afundando mais rapidamente do que o capital político de George Osborne (o ministro das Finanças). CONTEÚDO EXCLUSIVAS PAPEL 2506

Muito será falado nos próximos dias sobre a nação dividida. O próximo primeiro-ministro, seja lá quem for, terá uma enorme responsabilidade para atenuar as rachaduras entre os 52% e os 48%.

Mas essa divisão veio para ficar. Já sabíamos dela nas pesquisas, e a reação do dia após o referendo a evidenciou — os jovens queriam permanecer, os mais velhos queriam sair. Ou para colocar em outros termos, quanto maior o tempo que a pessoa terá que viver com as consequências do Brexit, maior a rejeição.

Antes do referendo, os jovens já tinham bons motivos para se sentirem injustiçados. Os baby boomers — ou mais especificamente, a Geração X — que desfrutaram dos benefícios da educação superior gratuita e puderam aproveitar em suas casas próprias enquanto o curso estava favorável, foram os arquitetos da crise financeira que devastou a economia, na qual os millennials estavam apenas começando a se tornar participantes ativos.

Foi difícil para todos, mas foi particularmente difícil para os jovens, visto que os empregos ficaram escassos, os investimentos do governo cessaram, e as casas deixaram de ser construídas por demanda. Nós não somos chamados de Geração do Aluguel à toa: não temos outras opções.

Enquanto a geração dos nossos pais se acomodou em seus investimentos habitacionais esperando ansiosamente pelas generosas pensões estatais, nós vimos, mesmo antes dos 25 anos, o corte nos serviços públicos. Até o salário mínimo nos foi negado. Ah, e obrigado por introduzir, e depois triplicar, as mensalidades das universidades.

Nas últimas semanas, a campanha do Brexit afirmou que os jovens se beneficiariam com o colapso nos preços dos imóveis. Mas, se isso acontecer, com as pessoas sem patrimônio líquido, quem irá querer vender? E com a economia em queda livre, quem irá construir novas moradias? Isso promete, como quase tudo no referendo, provar- se uma fantasia.

De acordo com o YouGov, 75% dos jovens com idades entre 18 e 24 anos, e 56% da faixa etária entre 25 e 49 anos votaram pela permanência. Não são muitas as pessoas com menos de 30 anos que entendem o motivo de os britânicos considerarem a ideia de deixar a União Europeia. Agora eles vão ficar chocados, vão ficar irritados. E não será surpreendente se acontecer um miniêxodo para as capitais do continente europeu, onde a vida é mais barata e as atmosferas sociais e políticas, mais de acordo com a forma de pensar da geração.

Existem outros motivos para o descontentamento dos jovens, que não os econômicos. A geração que cresceu como nativa da UE e foi criada na era da internet tem uma inclinação inerente a pensar além das fronteiras. As gerações mais velhas pensam o país na direção oposta.

É um prejuízo para os jovens que querem se identificar como britânicos e como europeus. Se essas identidades já foram compatíveis entre si, agora estão separadas e seguem direções diametralmente opostas.

oglobo.globo.com | 25-06-2016

LONDRES — A saída britânica da União Europeia (UE) também pode afetar os brasileiros que vivem no Reino Unido, milhares deles com passaporte europeu e que se beneficiam da livre circulação entre os países do bloco. O primeiro-ministro, David Cameron, ao anunciar que deixará o cargo em outubro, garantiu que por enquanto nada muda para os cidadãos europeus que têm direito a visto de residência e trabalho no país. Novas regras de controle da imigração deverão fazer parte de um longo processo de negociações entre Londres e Bruxelas, ainda cercado de incertezas. vitória brexit-24-06

Mas, para brasileiros que moram na capital, o impacto do referendo não se resume a questões imediatas. Numa cidade conhecida por sua diversidade e multiculturalismo, a vitória do Brexit (abreviação de “British Exit”, que é “Saída Britânica” em inglês) foi um susto. Para o pesquisador Guilherme Carréra, que faz doutorado em Londres, o resultado do referendo, depois de uma campanha marcada pela forte rejeição à imigração, representa um retrocesso que favorece a extrema-direita.

— Viver em Londres nos coloca diariamente em contato com o outro, o novo, o diverso. E nos faz acreditar que essa pluralidade é o caminho. Por outro lado, essa decisão nos impõe uma verdade que fingíamos não ver: Londres não é o Reino Unido. E o Reino Unido, pasmem, é mais conservador do que quem vive em Londres poderia supor. A longo prazo, temo que esse sentimento de derrota dê lugar a projetos políticos ainda mais amargos — disse ele.

Katiuscia Funes, que trabalha no setor de limpeza e vive há dez anos em Londres com passaporte italiano, não se sente pressionada a deixar o Reino Unido, mas também teme o futuro.

— Minha preocupação é o impacto econômico e uma provável redução da oferta de empregos. Meus filhos nasceram aqui e são cidadãos britânicos. Eu achava que o futuro das crianças seria no Reino Unido. Agora não sei mais — disse ela.

VEJA A COBERTURA COMPLETA DO BREXIT

Dono de uma empresa de catering no sudoeste de Londres, o paulista Luiz Oliveira, que também tem passaporte da UE, contou que o resultado não chega a ser uma surpresa para ele.

— No interior da Inglaterra, é muito grande a insatisfação com o atual governo. Vejo esse voto como um protesto contra Cameron, mas também como uma revolta alimentada por uma campanha contra a imigração que foi baseada em propagandas mentirosas. Passaram a culpar o imigrante por todos os problemas do país, entre eles a crise no serviço de saúde, que já é antiga — afirmou o pequeno empresário, que espera uma retração econômica nos próximos meses.

A professora Maria Teresa Pollard trocou o Rio pela Inglaterra há 12 anos. Casada com um inglês, ela queria que os filhos, Laura e Benjamin, crescessem numa sociedade aberta para o mundo, com justiça social e igualdade. Encontrou o que buscava em Cambridge, cidade que, assim como Londres, votou majoritariamente pela permanência na UE. Mas, agora, diz se sentir traída pela vitória do Brexit. O que acontece agora com a saída do Reino Unido da União Europeia?

— Foi um voto que contradiz tudo isso. É uma escolha anti-imigração, anticooperação, antimulticulturalismo. O futuro é incerto para minha família, para a escola do meu filho, que é europeia, para os ideais que me fizeram escolher ser britânica. É um dia muito triste — resumiu.

A jornalista Suzana Camargo, também moradora de Londres, concorda:

— O resultado do referendo me pegou de surpresa esta manhã. Ainda acreditava que os britânicos votariam para ficar na UE. Isso significa que deixaram uma visão mais ampla e a ideia de que, junto a uma comunidade, o país fica mais forte. Numa época em que se fala cada vez mais em economia colaborativa, mais de 50% dos eleitores decidiram seguir um caminho isolado — disse.

oglobo.globo.com | 24-06-2016

LONDRES — A convocação de dois referendos potencialmente devastadores em dois anos, o da independência da Escócia e a votação sobre a permanência ou não na União Europeia (UE), dão uma ideia da crise existencial do Reino Unido, preso entre a nostalgia e o temor do futuro.

Há apenas 60 anos, a Grã-Bretanha reinava como um império que, em seu auge, reunia 25% da população mundial. Hoje tem um território um pouco maior do que o da Islândia. CONTEÚDO BREXIT PAPEL 2306

No debate, a Inglaterra está na linha de frente. Motor econômico, cultural e demográfico do Reino Unido é a mais ameaçado pela explosão. Mas também é a menos pró-europeia das quatro nações constituintes.

— Não vamos nos transformar na “pequena Inglaterra” — implorou o primeiro-ministro David Cameron, partidário da UE, recorrendo a um termo usado para definir uma mentalidade insular e paroquial.

Para Michael Skey, especialista em questões de identidade na Universidade de Loughborough, o referendo foi um sinal da incapacidade de assumir que o país não é mais um império.

— Aqueles, sobretudo as pessoas mais velhas, que já não se reconhecem em uma sociedade mais diversa são mais receptivos a um discurso que propõe entrar em uma máquina do tempo e começar de novo. Eles dizem, “Ah!, se pudéssemos largar esta maldita Europa e começar de novo” — explico Skey à AFP.

“NOSSA REVOLUÇÃO FRANCESA”

Por este motivo, afirma Skey, as incessantes referências ao passado e, em particular, à Segunda Guerra Mundial, o último grande momento de glória antes da desintegração do império, “a última vez em que a Grã-Bretanha contou de verdade”.

Mais de 70 anos depois de vencer os nazistas, a recordação da guerra permanece muito viva no Reino Unido: os caças Spitfire sobrevoam Londres regularmente e Winston Churchill é citado em todos os debates.

Na Eurocopa-2016, os torcedores ingleses cantam a cada partida sobre como “a RAF (Royal Air Force) da Inglaterra abateu” dez bombardeiros nazistas.

Tudo isto é natural, pois a campanha estava repleta de referências sobre a Segunda Guerra Mundial, especialmente no campo que defende a ruptura com Bruxelas, cujo líder, Boris Johnson, ex-prefeito de Londres e biógrafo de Churchill, chegou a comparar a UE a Adolf Hitler.

— Ao contrário de outras nações europeias, saímos da guerra sem nenhum motivo de vergonha. Este país venceu o fascismo e combateu sozinho durante muito tempo. O ano de 1940 é fundamental no imaginário britânico. É nossa revolução francesa — destacou Robert Colls, professor de História da Universidade De Monfort de Leicester.

Ao sair da guerra, explica Sunder Katwala, diretor do instituto de debates British Future, a “Grã-Bretanha estava convencida de que ainda era parte do Top 3 e via o projeto europeu com certo desapego. Quando percebeu o erro pela crise do Canal de Suez nos anos 1950, o trem da UE já havia partido”.

Quando finalmente embarcou, em 1973, foi “aos encontrões e muito tarde para moldar o bloco a seu gosto”, destaca Katwala.

— Os britânicos estão menos aferrados à ideia da Europa como projeto moral. Têm a tendência de considerar a UE como um mecanismo puramente econômico e comercial, exatamente como previu o general (Charles) De Gaulle. E se não os beneficia, ficam dispostos a sair — afirmou o historiador Robert Tombs.

Além disso, “ser uma ilha é parte central do debate”, sugere Sunder Katwala.

— Há muito euroceticismo na Europa, mas nenhum país se pergunta seriamente se faz parte da Europa. O Reino Unido, sim — conclui.

oglobo.globo.com | 24-06-2016

LONDRES - Imigração, economia, soberania, união nacional... Cada um dos dois lados na disputa usa as mesmas munições em armas de diferentes calibres de argumentação para justificar a saída ou a permanência do Reino Unido na UE, uma decisão crucial tanto para o futuro do país como da ordem construída no continente europeu no pós-guerra.

A FAVOR DA PERMANÊNCIA:

Carolyn Fairbairn | Diretora-geral da Confederação da Indústria Britânica: “Em 2020, o custo total de uma saída da União Europeia poderia chegar a £ 100 bilhões e 950 mil empregos. A renda familiar no mesmo ano pode apresentar uma queda de até £ 3.700. A economia poderia até se recuperar lentamente ao longo dos anos, mas nunca chegando aos níveis que atingiria dentro do bloco. Deixar a UE significa enfrentar uma economia reduzida em 2030.”

Nicky Edwards | Diretor de políticas e negócios públicos do TheCityUK, grupo de lobby da indústria de serviços financeiros de Londres: “A saída da União Europeia teria uma série de impactos potenciais. Uma delas é que veríamos as empresas estrangeiras que estão concentradas no país sendo obrigadas a realocar boa parte ou mesmo todas as suas operações de volta ao mercado único europeu.” CONTEÚDO BREXIT PAPEL 2306

John M. Roberts | Especialista em segurança energética do Atlantic Council: “Se os britânicos optarem pelo Brexit, não será apenas o cargo de David Cameron que estará em risco, mas a própria existência do Reino Unido. É praticamente certo que a maioria dos eleitores escoceses apoiará a permanência. No caso de uma vitória da saída, o governo da Escócia, comandado por fervorosos nacionalistas, estará preparado para um futuro no qual a Escócia não integre a UE? Nessas condições seria muito difícil para um governo britânico negar a realização de um novo referendo sobre a independência escocesa, e, caso ele acontecesse, é muito provável que a rejeição do último pleito fosse revertida em favor do apoio à independência. Além de gerar caos em Londres, Bruxelas e Edimburgo — que teriam que renegociar praticamente todos os seus acordos — que espécie de Reino Unido teríamos no caso de uma vitória da independência escocesa? Seria o País de Gales o próximo na fila por um referendo nacionalista?”

Danny Dorling | Professor da Universidade de Oxford: “A vida não é um mar de rosas para muitos dos cidadãos britânicos, mas isso não é culpa da UE. Se o Reino Unido fosse um Estado mais progressista, na vanguarda do progresso social do continente, poderíamos ter motivo para nos ressentirmos e alegar que Bruxelas está nos impedindo de progredir. Mas somos retardatários sociais. Precisamos das leis da UE para impedir que exploremos nossos trabalhadores. Nosso establishment político não teria problema algum em tolerar níveis de poluição atmosférica muito superiores àqueles que nos rendem multas da Comissão Europeia. E nunca teríamos noção dos inacreditáveis níveis de desigualdade econômica se não fosse pela leis europeias que forçam nossos banqueiros mais ricos a divulgarem detalhes de seus salários e bônus. Ao contrário de muitos dos nossos benefícios, nossos problemas não são criados pelo fato de pertencermos à UE. Somos diferentes do resto da Europa porque nosso passado é diferente. Costumávamos nos apoiar num império, e deixar a UE não vai trazê-lo de volta.”

David Cameron | Primeiro-ministro britânico: “O Brexit levaria, sem dúvida, a uma perda na influência global do Reino Unido, enfraqueceria a Otan e fortaleceria os inimigos do Ocidente, justamente quando precisamos estar lado a lado com a comunidade euro-atlântica contra ameaças comuns, inclusive no nosso continente. Sair significa retroceder a uma era de nacionalismo competitivo na Europa. Podemos estar tão seguros de que a paz e a estabilidade no continente estão garantidas sem sombra de dúvida? Esse é um risco que vale a pena correr? Eu não seria tão inconsequente a ponto de presumir isso. O isolacionismo nunca funcionou muito bem para este país.”

Stephen Hawking | Físico britânico, em carta assinada juntamente com outros 150 membros da Royal Society: “O financiamento da UE aumentou enormemente o nível da ciência europeia em geral e do Reino Unido em particular, já que temos uma vantagem competitiva. Atualmente, recrutamos nossos melhores pesquisadores a partir da Europa continental, incluindo jovens que adquiriram benefícios da UE e escolheram o Reino Unido como destino. Trabalhando em conjunto, fortalecemos nossa economia, aumentamos nossa influência no mundo e damos oportunidades futuras aos jovens.”

Sadiq Khan | Prefeito de Londres: “Temos praticamente um consenso por parte dos economistas que concordam que permanecer na UE será melhor para a economia, para o comércio, para os negócios, para a geração de empregos e para as exportações. Sabemos também que, ficando na UE, estamos protegendo direitos trabalhistas, fortalecendo as defesas do país, melhorando a qualidade do ar e garantindo o respeito às mulheres no mercado de trabalho. A campanha pela saída tenta vender a ideia de que fazer parte da Europa nos torna menos britânicos. Mas, na verdade, a opção patriótica é não virar as costas para nosso passado de abertura e disposição de coexistir com o resto do mundo. Será que realmente queremos que nosso legado seja a criação de barreiras para a próxima geração, impedindo a continuidade de programas que ajudaram mais de 200 mil estudantes britânicos nos últimos 30 anos?”

A FAVOR DA SAÍDA:

Michael Gove | Ministro da Justiça e um dos líderes da campanha pela saída britânica da UE: “A resposta da União Europeia à crise migratória é um convite irrestrito para que Macedônia, Montenegro, Sérvia, Albânia e Turquia se juntem ao bloco. Como não podemos controlar nossas fronteiras, os serviços públicos, como o Sistema Nacional de Saúde, se verão diante de uma demanda inqualificável, já que milhões de pessoas se tornarão cidadãs europeias e terão o direito de se mudar para o Reino Unido.”

Gerard Lyons | Economista e ex-conselheiro econômico da prefeitura de Londres: “A UE está mal posicionada para prosperar na economia global do futuro. A geografia deixou de ser uma barreira para o comércio, e as economias que quiserem prosperar precisarão ser flexíveis, adaptáveis e em controle de seu destino. A saída da UE nos permite ter esse controle, enquanto o bloco se tornou mais centralizador, aumentando a regulação e o controle, exatamente o oposto do que precisamos para criar empregos e obter sucesso no futuro. É errado pensar que, se permanecermos na UE, poderemos mudá-la e adequá-la. Sempre ouvimos que a UE será reformada, mas essa reforma nunca acontece. O bloco nunca enfrenta seus principais problemas, como o alto índice de desemprego entre os jovens, a depressão econômica na Grécia ou as migrações em massa. E o cenário ainda pode piorar. Estima-se que a UE será a região de menor crescimento no planeta nas próximas décadas. Permanecer no bloco envolve uma grande dose de incerteza, porque não sabemos o que acontecerá com o euro. Para encobrir suas rachaduras econômicas, a zona do euro terá que aumentar ainda mais sua centralização rumo a uma união política, e embora o Reino Unido não precise adotar o euro, estando dentro da UE ficará incapaz de evitar as consequências negativas do que quer que aconteça com a moeda.”

Philip Johnston | Editor-assistente do diário inglês “Daily Telegraph”: “A questão que será apresentada ao eleitorado britânico é, na verdade, sobre soberania: quem governa? Podemos criar nossas próprias leis, aumentar nossos próprios impostos, negociar com quem bem entendermos, pescar em nossas próprias águas, convidar quem quisermos para dentro de nosso país e remover aqueles que não quisermos? Se fôssemos uma nação independente, poderíamos fazer tudo isso, exceto atividades reguladas por tratados internacionais. Como membro da UE, não podemos fazer nenhuma delas, a menos que façamos de maneira coletiva. O Parlamento ainda detém a soberania. A questão é se ele vai usá-la para devolver ao Reino Unido o controle de suas leis. E isso só será possível caso o país vote pela saída da UE no referendo. Não há meio-termo.”

Boris Johnson | Ex-prefeito de Londres: “Uma relação com a Europa que não seja baseada nos caprichos de burocratas não eleitos, mas na cooperação entre governos eleitos na qual poderemos continuar cooperando com nossos amigos e parceiros em questões de interesse mútuo. Podemos fazer tudo isso num nível intergovernamental, no qual não estamos mais sujeitos ao modelo único e ineficaz das leis supranacionais da UE. Quando pudermos retomar o controle dos £ 350 milhões semanais que damos à UE, teremos também o controle de nossas fronteiras. Então, quando ouço as pessoas dizendo que não podemos fazer comércio livremente com o resto do mundo, ou que a libra vai despencar ou ainda que as taxas de juros irão disparar, me lembro dos profetas do apocalipse que diziam que o bug do milênio faria com que os aviões caíssem dos céus. São as mesmas pessoas que disseram que teríamos um desastre econômico se não adotássemos o euro. O oposto provou ser verdade, e é justamente por termos nos mantido longe do euro que temos hoje a economia mais dinâmica da Europa.”

Michael Caine | Ator, duas vezes premiado com o Oscar: “Temos atualmente na Europa uma espécie de governo por procuração de todos os países que agora saiu do controle. A menos que haja uma mudança extremamente significativa, deveríamos sair da UE.”

Sol Campbell | Ex-zagueiro da seleção inglesa de futebol: “Se tivermos um controle rigoroso sobre quem pode entrar e sair do Reino Unido, poderemos trazer os melhores entre os melhores, não importa de onde quer que eles venham, enquanto impedimos aqueles que não produzirão de entrar no país.”

Richard Werner | Economista e professor da Universidade de Southampton: “O super-Estado europeu que já se formou não é democrático. O chamado Parlamento Europeu não tem o poder de propor leis. A legislação é formulada e proposta pela Comissão Europeia, que não é eleita! Como um observador russo comentou, o Parlamento Europeu é uma farsa com a função única de carimbar documentos, tal qual o Parlamento soviético durante os dias da União Soviética, enquanto o governo não eleito é a Comissão Europeia — uma espécie de Politburo repleto de seus comissários.”

oglobo.globo.com | 23-06-2016

LONDRES — Nas ruas de Londres, a batalha entre os que defendem a permanência na União Europeia (UE) e os que votam pela saída do bloco é discreta, com partidários dos dois lados da disputa distribuindo panfletos sem muito barulho. Já nas mídias sociais, os defensores do Leave (sair) e do Remain (permanecer) travam uma guerra, com mais de cem organizações fazendo das plataformas digitais seu principal palanquemais de cem organizações fazendo das plataformas digitais seu principal palanque. Analistas que estudaram a movimentação nas redes concordam que o voto pelo Brexit está levando vantagem. brexit2106

Um dos vídeos mais assistidos da campanha, “Brexit, o filme”, já teve 1,4 milhão de acessos no YouTube. O documentário de 70 minutos foca principalmente nas razões econômicas apresentadas pelo campo do Leave, para quem as regras da UE são um entrave ao desenvolvimento do Reino Unido. Produzido pelo diretor Martin Durkin através de crowdfunding (financiamento pela internet), o filme traz estereótipos, como operários italianos pouco concentrados nos afazeres, e dá destaque a políticos como Nigel Farage, líder do Ukip, partido de extrema-direita. A produção faz sucesso entre os críticos da UE, que vêm compartilhando os trechos mais provocativos à exaustão. Já o vídeo oficial da campanha do Remain teve 26 mil acessos.

EXCESSO DE NÚMEROS X APELO À EMOÇÃO

Para o pesquisador Vyacheslav Polonski, especialista em sociologia da internet da Universidade de Oxford, os partidários do Brexit têm demonstrado maior habilidade no uso das mídias sociais — cada vez mais indispensáveis em campanhas políticas — dando o seu recado de forma mais poderosa e emotiva. Polonski analisou posts no Instagram e no Twitter nos últimos seis meses e avalia que os adversários da UE têm dominado o debate on-line tanto entre os eleitores mais jovens quanto entre os mais velhos.

— Os partidários do Brexit tendem a ser mais ativos e abertos no comportamento on-line. As redes fornecem um canal para esse ativismo e criam a percepção de que há mais apoio ao Brexit, mesmo que só exista um punhado de indivíduos ativos e posts políticos gerados automaticamente por robôs com mensagens de apoio ao Brexit — explica Polonski. — Por outro lado, sabemos que mensagens carregadas de emoção e humor se espalham mais rapidamente do que estatísticas.

Esse pode ter sido um dos erros da campanha pela permanência na UE: um excesso de números sobre as prováveis consequências econômicas do Brexit que tende a confundir os eleitores. Só na reta final da disputa, o time do Remain conseguiu atrair mais atenção nas mídias sociais com o apoio de vídeos gravados por comediantes populares e hashtags divertidas. Duas delas se tornaram virais no Twitter: #catsagainstbrexit (“gatos contra o Brexit”), com fotos de gatos “pedindo” votos pela permanência, e #hugabrit (“abrace um britânico”), ação que vem juntando imagens de cidadãos europeus abraçados a seus amigos do Reino Unido.

Para Mathew Goodwin, professor de Ciências Políticas da Universidade de Kent, o debate sobre o referendo é mais uma questão de mobilização do que persuasão. Ao mapear os eventos dos dois lados, ele concluiu que os defensores da permanência no bloco fizeram uma campanha mais intensa, enviando militantes a áreas mais diversificadas. Já os partidários do Brexit se concentraram em regiões avessas à UE. Mas, nas mídias sociais, o quadro é outro.

— O Leave parece levar vantagem na campanha on-line. Os grupos eurocéticos têm mais seguidores que os partidos políticos — avaliou.

oglobo.globo.com | 21-06-2016

BERLIM - Os países da União Europeia (UE) estão em estado de alerta diante da possibilidade de perder um dos seus membros mais importantes no referendo de quinta-feira, quando os britânicos decidem se querem permanecer ou sair do bloco. Embora analistas e políticos tenham certeza de que o Reino Unido sofrerá os maiores prejuízos, a perspectiva de saída ameaça pôr a UE em crise existencial e causar um efeito dominó que poderia terminar no esvaziamento do maior projeto político do continente desde a Segunda Guerra Mundial. brexit

— Um dos primeiros efeitos seria uma reação em cadeia que vai começar com a saída dos países escandinavos, Suécia e Dinamarca, do bloco. Os dois estão sempre ameaçando fazer um referendo para deixar a UE, um projeto que parece mais concreto com o crescimento dos partidos de direita — diz a cientista política Tanja Börzel, da Universidade Livre de Berlim.

Para a Alemanha, o cenário de uma UE sem o Reino Unido tem a dimensão de uma catástrofe. Desde que o então chanceler federal Helmut Kohl assumiu o governo, em 1983, o país apostou muito na união continental, colocando em risco a solidez das suas finanças com o ingresso da Grécia, em 1981, dos ibéricos Espanha e Portugal, em 1986, com o projeto do euro e, mais uma vez, com o ingresso de candidatos de risco, como Polônia, Hungria, Romênia e Bulgária.

— É verdade que, desde que o Reino Unido entrou no então Mercado Comum Europeu, o debate sobre o excesso de influência do bloco sobre os países é interminável, mas ninguém acreditava que mesmo (a então primeira-ministra) Margaret Thatcher levasse a sério as suas ameaças de deixar o grupo — afirma a analista.

A ex-premier, que morreu há três anos, deixou o governo britânico em 1990, mas suas ameaças e frases de efeito (para o próprio eleitorado), como a famosa “I want my money back” (“Quero meu dinheiro de volta”), com a qual ela conseguiu o famoso “abatimento inglês” — os britânicos pagam menos do que deveriam, segundo o seu peso econômico —, continuam gravadas na memória coletiva europeia.

Wolfgang Schäuble, que foi vice-presidente da União Democrata Cristã (CDU) na era de Kohl, é hoje ministro das Finanças de Merkel, tendo o poder de decidir se países do grupo do euro, como a Grécia, entram em falência ou continuam recebendo a ajuda da UE. Schäuble foi o único político europeu que esteve pessoalmente em Londres para participar da campanha pelo Remain (permanecer) e considera bastante negativos os riscos de uma saída do país, como afirmou em entrevista à revista “Der Spiegel”.

— Se houver uma saída, naturalmente teria efeitos negativos e riscos para os países parceiros do Reino Unido. Nós nos preparamos para todos os cenários possíveis para reduzir os perigos — disse ele à publicação alemã.

Na mesma entrevista, Schäuble apontou, como uma ameaça a Londres, os enormes riscos para os próprios ingleses, inclusive o de ruptura interna no Reino Unido. Na opinião dele, é provável que a Escócia queira continuar no bloco.

‘Nem britânicos nem Europa vão desmoronar’

O ex-presidente francês Nicolas Sarkozy também falou sobre o “risco de catástrofe” para os ingleses, sublinhando ainda as consequências negativas para a UE. Em entrevista ao jornal “Die Welt”, ele disse: “A União Europeia perderia sua segunda maior potência econômica. Isto seria um grande problema, mas para os nossos amigos ingleses a saída seria uma catástrofe”.

O ministro francês da Economia, Emmanuel Macron, disse ao jornal “Le Monde” que uma saída do bloco tornaria o Reino Unido irrelevante no cenário global e que a UE deveria mandar um “recado firme” sobre as consequências disso. Info Brexit - Imigração no Reino Unido

Mas a pior consequência da vitória do Leave (sair) para a UE, como diz Tanja Börzel, seria a perda de peso político no cenário mundial:

— O prejuízo será ainda maior na politica externa e na segurança do que no setor financeiro, embora este não deva ser menosprezado.

Sem os britânicos, a União Europeia seria um anão no aspecto militar. Londres é a garantia de funcionamento das ações militares fora do continente, diz Börzel. Segundo ela, ainda que o eventual Brexit — abreviação de british exit (saída britânica) — provoque uma reação em cadeia, o país com menor risco de deixar o bloco é a França, mesmo se a líder de extrema-direita Marine Le Pen subir ao poder.

— Marine Le Pen critica a UE, mas ela quer no máximo que o bloco passe por reformas.

Já o porta-voz de política externa da CDU, Karl Georg Wellmann, prefere que o tema seja debatido com mais sobriedade.

— Não devemos pensar que se trata do ser ou não ser. Por muitos motivos, precisamos do Reino Unido dentro do bloco. Mas nem o país nem a UE vão desmoronar se os ingleses votarem pela saída do bloco.

Info Brexit - Os empregos dependentes da UE

Suíça, Noruega e Islândia, ‘ausentes famosos’, inspiram campanha do Brexit

Enquanto a Turquia e outros países do Leste Europeu lutam há anos para ingressar na União Europeia, outras economias, riquíssimas, fazem tudo para ficar fora. É o caso de Suíça, Noruega e Islândia, que têm acordos bilaterais que lhes permite acesso ao mercado de cerca de 500 milhões de consumidores, e que já votaram, em referendos, para não entrarem na UE.

A Noruega, país de 5 milhões de habitantes, mas rico em petróleo e com o terceiro maior PIB per capita do mundo (US$ 68.430 ou cerca de R$ 240 mil), votou em 1972 e em 1994 contra o ingresso no bloco. A Suíça, com 8 milhões de habitantes e renda per capita de US$ 58.551 (mais de R$ 200 mil), também votou contra, em 1992.

Para o economista Peter Schwendner, da Universidade de Zurique, o modelo suíço seria ideal para a Inglaterra depois da saída da UE.

— Londres pode conseguir salvar seu setor financeiro. Não é fácil, mas é possível — avalia. Info Brexit - Balança comercial em jogo

Também a Noruega, que não faz parte da UE mas é país membro do “Espaço Econômico Europeu”, é vista como modelo para o Reino Unido se o país deixar a UE. Mas o cientista político Olvind Bratberg, da Universidade de Oslo, alerta sobre os custos do exemplo norueguês. O país não tem direito de voto e paga caro pelo acesso ao mercado da UE. Até 2021, para exportar 80% dos seus produtos para o bloco, Oslo precisará pagar aos cofres europeus 390 milhões de euros.

— Como a Inglaterra tem um PIB muito maior, os custos para os ingleses seriam proporcionalmente maiores — diz.

Bratberg admite que o processo de negociação será muito mais difícil para os ingleses. Ele deverá durar dois anos, e muitos políticos da UE dizem que, se os ingleses querem sair do bloco, que então o façam, mas não esperem que a UE corra para socorrê-los depois.

A conclusão dos especialistas é que o Reino Unido deverá se isolar inteiramente da UE para evitar a imigração, ou vai ter de negociar acordos que implicariam em preservar as fronteiras abertas, pelo menos para os cidadãos do bloco.

Mas, na lista dos “ausentes famosos” da UE, a Islândia é o país que mais chama a atenção e alimenta a campanha a favor do Brexit. No ano passado, a ilha de 320 mil habitantes retirou a candidatura para entrar na entidade. Os riscos da concorrência europeia para a pesca, principal força do país ao lado do turismo, eram maiores que os benefícios. Além disso, a crise do euro e o ingresso de países pobres fizeram os islandeses mudarem de opinião.

oglobo.globo.com | 20-06-2016

LONDRES - Os adversários do Brexit decidiram apostar suas fichas na campanha para convencer os jovens a deixarem a apatia de lado e entenderem que o plebiscito sobre a União Europeia é uma votação histórica que poderá definir o futuro de sua geração. Pesquisas mostram que o eleitorado entre 18 e 34 anos é majoritariamente a favor da permanência britânica na UE. Porém, os levantamentos sugerem que esses eleitores — desencantados com os políticos tradicionais e os ataques pessoais entre os dois lados — demonstram menos disposição de ir às urnas no dia 23. BREXIT CONTEÚDO PAPEL

O gap de gerações acendeu o alerta vermelho entre os inimigos do Brexit. A ONG Sociedade pela Reforma Eleitoral calcula que somente 21% dos eleitores entre 18 e 24 anos se dizem interessados no referendo. O índice salta para 47% entre os acima de 65 anos, que tendem a favorecer a saída da UE. Pesquisa do Instituto Opium indica que 53% dos eleitores abaixo dos 34 anos querem a permanência no bloco, mas só metade disse que vai votar.

Isolamento e globalização

Os números levaram à mobilização contra a abstenção. A ONG MyLifeMysay se juntou ao deputado Nick Clegg, social-democrata, para promover debates em universidades. Ele pediu que os jovens pensem em que tipo de sociedade querem viver.

— O que está em jogo não é se gostamos ou não das decisões de Bruxelas. É sobre quem somos. Somos um povo aberto ou fechado ao mundo? Na era da globalização, pensar em isolacionismo é uma ingenuidade — disse ele, num teatro da Universidade de Westminster.

O grupo We are Europe (Nós somos a Europa) reforçou a campanha usando como principal peça desenhos do conservador Boris Johnson beijando o candidato republicano, Donald Trump, um grafite inspirado no famoso beijo entre o soviético Leonid Brezhnev e o alemão-oriental Eric Honecker. Johnson pode se tornar o próximo premier se o Reino Unido sair da UE. Embora o ex-prefeito de Londres critique a xenofobia de Trump, é contra o fluxo livre de cidadãos entre os países da UE e sugere um reforço das barreiras a imigrantes. O principal alvo do We are Europe são os jovens.

— Foi um prazer ver tanta gente afetada pela imagem — disse Felix Braun, um dos artistas que criaram a imagem do beijo.

Info Brexit - Razões de cada lado

oglobo.globo.com | 19-06-2016

LONDRES - O primeiro-ministro David Cameron foi elevando nas últimas semanas o tom dos alertas sobre as desastrosas consequências que uma saída do Reino Unido da União Europeia (UE) poderia trazer até chegar a um recado bem claro: o Brexit — abreviação de british exit (saída britânica) — ameaça deixar os britânicos mais pobres, mais isolados no cenário mundial e mergulhados numa era de incertezas. Às vésperas do plebiscito que decidirá a questão na próxima quinta-feira, grande parte do eleitorado não se mostrava abalada com essas previsões. Nas últimas semanas, as pesquisas indicavam crescimento do apoio à retirada britânica da UE. Novas consultas, porém, realizadas após o assassinato da parlamentar Jo Cox, sugerem uma mudança de tendência. A divisão do Reino Unido, contudo, continua evidente. BREXIT CONTEÚDO PAPEL

A reta final da campanha, que ganhou contornos dramáticos na quinta-feira, com a morte da deputada trabalhista, defensora da permanência no bloco europeu, reviveu antigas feridas internas e no continente. Duas palavras-chave são citadas pelos eleitores decididos a votar no Brexit: soberania e imigração. Encabeçado pelo ex-prefeito de Londres, o populista Boris Johnson, o campo do Leave (sair) bate na tecla de que a UE é antidemocrática e submete os britânicos a leis que não foram aprovadas por eles, como a política de imigração.

As pesquisas indicam que a faixa da população mais velha e mais avessa aos efeitos da globalização tende a se identificar com esse discurso. A partir dos 45 anos os eleitores passam a demonstrar maior ceticismo em relação à UE. Em cidades como Londres, Oxford e Cambridge, marcadas pelo multiculturalismo, o voto no Remain (permanecer) ganha. A Escócia também é favorável à UE. Já em áreas como as costas Leste e Sul da Inglaterra, antigas regiões industriais, o Leave está na frente.

Mas uma pesquisa do instituto YouGov feita para o diário “Sunday Times” mostra, pela primeira vez em semanas, o Remain com uma leve vantagem: 44% a 43%. Divulgada ontem, a sondagem foi feita entre quinta e sexta-feira, logo após a morte de Jo Cox. Já a pesquisa Survation, feita para o “Mail on Sunday” entre sexta-feira e ontem, mostrou a permanência com três pontos à frente (45% a 42%).

Euroceticismo vivo

Embora a maioria dos analistas concorde que um divórcio do bloco teria altos custos econômicos, legais e políticos, a promessa de “retomada da soberania”, repetida por uma parte do Partido Conservador e pela extrema-direita, seduziu eleitores. Em Londres, outdoors prometem coisas como “Vamos retomar o controle”. O “The Sun”, o mais popular tabloide britânico, declarou apoio ao Brexit pedindo que o Reino Unido deixe a UE “antes de ser tragado por esse Estado federal em expansão sob domínio da Alemanha”. Info Brexit - Razões de cada lado

A crença no mito da soberania pode ser explicada pela insegurança financeira crescente desde a crise de 2008 e pela sensação de que os britânicos, que já formaram um império, estão perdendo influência global, diz o analista Nick Witney, do Conselho Europeu de Relações Internacionais. Segundo ele, a imprensa britânica é tradicionalmente hostil à UE, enquanto diferentes governos também preferiram travar uma queda de braço com Bruxelas.

— A visão popular é de que Bruxelas é uma torre sem rosto formada por burocratas não eleitos que conspiram contra o Reino Unido. É difícil explicar a realidade de que Bruxelas é uma espécie de andar único, em que os 28 membros competem, mas buscam soluções que são melhores para todos — diz o analista.

Ao contrário do que afirmam os partidários do Brexit, é o Parlamento britânico, e não a UE, que determina os rumos das principais políticas nacionais. Como um dos membros mais poderosos do bloco, o Reino Unido também interfere em assuntos globais. Fora dele, poderia perder esse lugar de destaque. Mas os riscos não convencem eleitores como a jovem Jade Smith, que se prepara para entrar na Universidade de Leeds e faz campanha pelo Brexit.

— A UE não favorece os direitos das mulheres, controla nossas leis e tem regulamentações ridículas. Para mim, a principal discussão é sobre democracia — defende a estudante.

Info Brexit - Imigração no Reino Unido

A imigração também tem enorme peso no debate. O número de europeus que trabalham no Reino Unido dobrou em uma década, atingindo dois milhões de pessoas. No ano passado, 270 mil europeus imigraram. Soma-se a esse movimento a crise dos refugiados do Oriente Médio e da África. Enquanto defensores do Brexit alegam que a imigração sobrecarrega os serviços públicos, quem apoia a permanência lembra que os imigrantes incentivam o crescimento econômico.

O desemprego no Reino Unido é baixo, mas por outro lado há eleitores que sentem sua cultura e identidade nacionais ameaçadas.

— A resistência à imigração cresceu com a entrada de países do antigo bloco comunista, após 2004. O ciclo coincidiu com um período de austeridade e corte nos serviços públicos. As pessoas passaram a associar esse aperto à imigração. Cidades pequenas viram sua população dobrar ou triplicar — explica a professora Catherine Barnard, especialista em leis europeias da Universidade de Cambridge.

Em 1975, um plebiscito discutiu se os britânicos deveriam ficar na Comunidade Econômica Europeia, precursora da UE. Mais de 65% votaram “sim”, mas o euroceticismo nunca morreu. Info Brexit - Ficha Reino Unido

oglobo.globo.com | 19-06-2016

LONDRES - A maioria dos economistas prevê um longo período de indefinições e paralisia para o Reino Unido caso o Brexit vença o plebiscito do dia 23. Ninguém sabe ao certo como seriam as negociações para que os britânicos mantenham as relações comerciais com os vizinhos europeus fora da União Europeia, mas não existem saídas fáceis. O primeiro-ministro David Cameron adiantou que serão necessários, provavelmente, anos de debates, deixando os britânicos num limbo comercial e provocando o que ele classificou como “uma década perdida”. BREXIT CONTEÚDO PAPEL

Os adversários de Cameron o acusam de estar tentando espalhar o pânico para evitar a saída britânica da UE, mas instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco da Inglaterra e a Organização Mundial do Comércio (OMC) reforçaram as previsões negativas para a economia, assim como líderes mundiais, da chanceler federal alemã Angela Merkel ao presidente americano Barack Obama. O FMI calcula uma recessão de três trimestres consecutivos e a OMC acredita que exportadores britânicos poderiam ter que pagar até US$ 8,15 bilhões em tarifas para continuar tendo acesso a um mercado consumidor de 500 milhões de pessoas. O Tesouro britânico fala em queda de 3,6% a 6% do Produto Interno Bruto (PIB) e um desemprego que afetaria entre 500 mil e 800 mil pessoas.

— O que podemos dizer é que foram divulgados sete grandes relatórios sobre o impacto do Brexit. Seis deles previram consequências negativas. Portanto, a maioria dos especialistas espera um custo, mas ainda não sabemos sua dimensão. Calcula-se entre 2 mil e 4 mil libras por família (entre R$ 10 mil e R$ 19 mil) — avalia Catherine Barnard, especialista em leis da Universidade de Cambridge.

O bloco europeu é o principal parceiro comercial do Reino Unido, e a revisão de laços comerciais não seria um processo simples. Obama deixou claro que os britânicos não terão prioridade na negociação de acordos bilaterais, ao contrário do que pregam os partidários do Brexit.

Defensores criticam estratégia do medo

Para os defensores da saída da UE, os números fazem parte de uma “estratégia do medo” adotada por Cameron para assustar a população. Eles insistem que outros países, como Suíça e Noruega, continuam a manter relações comerciais com o mercado único mesmo não sendo Estados-membros da UE, e apostam que as empresas nacionais vão se beneficiar se puderem operar sem as amarras burocráticas do bloco. Além disso, repetiram durante toda a campanha que o Reino Unido paga para os cofres de Bruxelas 350 milhões de libras por semana, quantia que poderia ser aplicada na melhoria do sistema público de saúde (NHS). A cifra foi desmentida por diferentes fontes, já que não leva em conta o desconto ao qual os britânicos têm direito, um mecanismo negociado durante o governo de Margaret Thatcher (1979-1990). Com as deduções, a cifra cai à metade.

Info Brexit - Balança comercial em jogo

Em Londres, grandes empresas se preparam para um período de volatilidade nos mercados e desvalorização da libra se o Brexit vencer, e já fazem reservas da moeda. Diferentes institutos de estudos econômicos na capital concordam que, para continuar a negociar com a UE, o Reino Unido teria que seguir as regras de exportação do bloco, só que no período pós-Brexit não teriam direito a participar das discussões que decidem as regras. Mesmo entre os eurocéticos, que defendem uma reforma da UE, os riscos de uma saída não compensam.

— Estamos entrando numa era em que o mundo está sujeito a riscos políticos e econômicos como jamais vimos nas últimas décadas. Adicionar incertezas a esses riscos, sem qualquer ideia clara quanto a um plano alternativo, é irresponsável e potencialmente perigoso — disse o ex-chanceler William Hague a uma plateia de convidados no Instituto Real de Assuntos Internacionais, em Londres.

O ceticismo em relação à integração europeia não é novo entre os britânicos, que sempre foram mais críticos à UE do que seus vizinhos. Com o crescimento da extrema-direita, esse sentimento ganhou força e levou Cameron a convocar o referendo, pressionado também pela ala mais conservadora de seu partido. A oposição de esquerda, representada pelos trabalhistas, manteve certa distância da discussão sobre o referendo que rachou os conservadores e só demonstrou maior engajamento, assumindo posição contrária à saída da UE, na reta final da campanha. Info Brexit - Os empregos dependentes da UE

oglobo.globo.com | 19-06-2016

Os juros futuros de curto prazo encerraram com viés de alta e os longos recuaram nesta sexta-feira, 17. A percepção de que o referendo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia (UE), que tem sido chamado de risco Brexit, marcado para o dia 23, pode ser adiado ganhou força de ontem para hoje e favoreceu a redução da aversão ao risco nos mercados. No período da tarde, afirmações do secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, Mansueto Almeida, negando que o País repetiria em 2017 o déficit primário de R$ 170,5 bilhões esperado para este ano corroboraram o alívio das taxas longas.

Ao término da negociação regular, o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2017 indicou 13,785% (145.465 contratos), de 13,775% no ajuste anterior. O DI janeiro de 2018 (174.170 contratos) passou de 12,77% para 12,78%. Com 126.630 contratos, o DI janeiro de 2019 caiu de 12,59% para 12,54%. O DI janeiro de 2021 (102.040 contratos) terminou em 12,62%, de 12,70%.

"Como houve suspensão da campanha pelo segundo dia, há informações de que o referendo poderia ser adiado, o que está favorecendo a melhora dos ativos, com o dólar recuando fortemente. Nesse cenário, os longos caem", disse Luciano Rostagno, estrategista-chefe do Banco Mizuho.

No front doméstico, as afirmações de Mansueto sobre a meta fiscal de 2017 no começo da tarde foram bem recebidas. "Não sei de onde tiraram esse número, porque na Fazenda estamos rodando os modelos hoje", disse o secretário, que participou nesta sexta-feira de reunião mensal de Conjuntura Econômica da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da Universidade de São Paulo (USP), referindo-se à notícia veiculada hoje na imprensa segundo a qual o País repetiria em 2017 o déficit primário de R$ 170,5 bilhões previsto na meta de 2016.

As taxas curtas oscilaram em alta, refletindo os receios com a inflação de curto prazo neste início da era Ilan Goldfajn no Banco Central, já que o tema será tratado no Relatório Trimestral de Inflação (RTI) que sai no fim do mês. Hoje, mais um índice de inflação no atacado veio salgado e reforçou a avaliação de que a pressão logo chegará ao consumidor. O IGP-M subiu 1,33% na segunda prévia de junho, ante avanço de 0,68% na segunda prévia do mesmo índice de maio, informou a Fundação Getulio Vargas (FGV).

BIRSTALL, Reino Unido - O assassinato da deputada trabalhista Jo Cox — baleada e esfaqueada na cidade de Birstall, perto de Leeds — pode embaralhar ainda mais a campanha pelo referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia, que acontece daqui a uma semana. Imediatamente após o ataque, atos de campanha dos dois lados foram suspensos e o próprio primeiro-ministro David Cameron, defensor da permanência britânica no bloco, cancelou o discurso que faria em Gibraltar. Autoridades ainda não confirmaram, mas testemunhas garantem que o agressor teria gritado repetidamente “Reino Unido primeiro!” no momento do ataque. O suspeito, que foi preso, seria Thomas Mair, de 52 anos, identificado por moradores de Birstall.

— Nós perdemos uma grande estrela — lamentou Cameron, ontem. — Tinha um grande coração, era muito compassiva.

A expressão “Reino Unido primeiro” (Britain First) pode ser uma possível referência ao referendo — trata-se do slogan dos que defendem a saída do Reino Unido da UE — ou a um partido nacionalista de extrema-direita britânico criado em 2011, que defende políticas anti-imigração. Estrela em ascensão no Partido Trabalhista, a deputada defendia a permanência do país no bloco e, recentemente, havia pedido aos britânicos que votassem contra o Brexit — a proposta de saída da UE. jo cox

“Todo o Partido Trabalhista e a família dos trabalhistas, e de fato todo o país, guardaremos o choque do assassinato horrendo de Jo Cox”, disse o líder da legenda, Jeremy Corbyn, em comunicado.

A deputada, que iria completar 42 anos na próxima quarta-feira, estava nas escadas da biblioteca da cidade quando foi atingida, após participar de um evento no local. Um homem de 77 anos também ficou ferido no ataque. Golpeada com uma faca de 30 centímetros, Cox foi também atingida por três tiros no corpo e no rosto e já estava em parada cardíaca quando a assistência médica chegou. Foi declarada morta horas depois, já no hospital de Leeds.

— Vi um homem na casa dos 50 com um boné branco, casaco e um tipo de arma antiga na mão — contou à BBC Clarke Rothwell, dono do café no outro lado da rua. — Ele disparou mais de uma vez contra a mulher, caiu no chão sobre ela e disparou outra vez no rosto. Alguém tentou agarrá-lo, e ambos lutaram. Depois ele pegou uma espécie de faca de caça e começou a esfaqueá-la várias vezes.

Outras testemunhas, no entanto, afirmam que a deputada tentou intervir em uma briga entre duas pessoas e acabou sendo atacada.

Suspeito tinha problemas mentais

O irmão do suspeito contou que Mair já teve problemas mentais, mas nunca tinha se mostrado violento ou politicamente engajado. Pelos vizinhos, ele foi descrito como solitário, prestativo e discreto. Embora a polícia ainda não tenha confirmado o nome do detido, sua casa foi revistada. Ele mora sozinho e não costuma receber visitas.

— Ele tem um histórico de doença mental, mas já teve ajuda. Estou lutando para acreditar no que aconteceu. Meu irmão não é violento e nada político. Eu nem sei em quem ele vota — disse Scott Mair ao jornal “Telegraph”.

Até agora, a polícia não falou sobre as possíveis causas do ataque, mas há razões para acreditar que o crime tenha contornos políticos. Jayda Fransen, vice-líder do Britain First, se disse horrorizada e lembrou que, por enquanto, há apenas boatos sobre as motivações do agressor.

— Estamos extremamente chocados de ver estes relatos e estamos empenhados em confirmá-los porque, é claro, por enquanto são apenas boatos. Não é o tipo de comportamento que toleraríamos.

A vítima não podia estar mais distante do eleitorado anti-imigração. Além de ser uma forte apoiadora da permanência do Reino Unido na UE, defendia uma política mais abrangente e, recentemente, discursou na Câmara dos Comuns pedindo o acolhimento das três mil crianças sírias que chegaram sozinhas à Europa. Em sua estreia no Parlamento, em 2015, fez um forte discurso a favor da imigração e da diversidade — e se absteve em uma votação sobre uma polêmica ação militar britânica na Síria. Ela também era copresidente do grupo parlamentar Amigos da Síria, e integrante ativa de conselhos que trabalhavam em temas relacionados com Palestina, Paquistão e Cachemira.

— Nossas comunidades têm sido profundamente reforçadas pela imigração, seja de católicos irlandeses ou de muçulmanos da Índia ou do Paquistão — disse ela, em sua estreia no Parlamento.

A uma semana do referendo, pesquisas mostram que 20% dos britânicos ainda estão indecisos, e especula-se que o crime brutal possa ter alguma interferência entre o eleitorado.

— Até que esteja claro quem foi responsável e qual foi ou pode ter sido a motivação, isso só serve para interromper a campanha, embora o lado do “fica” provavelmente não quisesse que ela fosse interrompida — disse John Curtice, professor de Política da Universidade de Strathclyde.

Ativista a favor da imigração

Mãe de duas filhas de 3 e 5 anos e casada com Brendan Cox, Jo Cox dividia seu tempo entre o barco atracado no Rio Tâmisa, onde vivia em Londres, e sua casa em Batley e Spen, distrito do Norte do país. Ontem, centenas de pessoas lotaram a igreja de Birstall para prestar homenagens à deputada.

— Ela cresceu nesta comunidade, vivia para esta comunidade e, no fim, deu sua vida para esta comunidade — afirmou o reverendo Jonathan Gibbs.

“Jo acreditava em um mundo melhor e lutou por isso com uma energia e zelo que teria esgotado a maioria das pessoas”, disse Brendan em nota.

A deputada vinha do mundo do ativismo. Seu vínculo com a Europa aumentou nos anos em que viveu em Bruxelas, a serviço de Glenys Kinnock — eurodeputada e secretária de Estado para a Europa do governo de Gordon Brown. Também passou uma década trabalhando para a ONG Oxfam. Em 2008, colaborou na campanha do presidente Barack Obama.

oglobo.globo.com | 17-06-2016

NOVA YORK — Depois da crise financeira de 2008, em 10 economias importantes do mundo, inclusive os EUA, houve uma queda no investimento no setor da infraestrutura — ora urgente de melhorias — segundo um novo estudo do McKinsey Global Institute. A China, enquanto isso, avança a todo vapor nas obras de rodovias, pontes, redes de esgoto.

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“A China gasta mais em infraestrutura econômica por ano do que a América do Norte e a Europa Ocidental juntas”, registra o relatório publicado na quarta-feira.

Economistas de todo o mundo argumentam que este é um ótimo momento para investir em infraestrutura porque as taxas de juros estão superbaixas e a economia global poderia se valer do choque de investimentos. “Alguém está orgulhoso do aeroporto Kennedy?”, pergunta o economista da Universidade de Harvard Lawrence Summers.

O relatório do MGI cita 10 países nos quais o investimento em infraestrutura caiu enquanto parcela do Produto Interno Bruto (soma das riquezas nacionais) entre 2008 e 2013: EUA, Reino Unido, Itália, Austrália, Coreia do Sul, Brasil, Índia, Rússia, México e Arábia Saudita. (O estudo abrange 11 economias porque lista a União Europeia como uma entidade separada.) Em contraste, diz o instituto, o investimento em infraestrutura cresceu enquanto fatia do PIB no Japão, Alemanha, França, Canadá, Turquia, África do Sul e China.

No entanto, existe uma espécie de investimento excessivo em infraestrutura. Pelo ritmo de investimento atual, a China, o Japão e a Austrália provavelmente superarão suas necessidades até 2030, projeta o grupo afiliado à McKinsey & Company.

Para financiar mais infraestrutura pública, o relatório sugere a elevação das cobranças aos usuários, como pedágios em rodovias, entre outras medidas. Já para incentivar um maior investimento privado em infraestrutura, o MGI defende o aumento da “certeza regulatória” e que se dê aos investidores “a capacidade de cobrar preços que produzam um retorno aceitável ajustado ao risco”.

oglobo.globo.com | 15-06-2016

RIO - O Brasil caiu uma posição no índice Soft Power 30, que mede o poder de influência a nível global, e alcançou o 24º lugar. O ranking aponta os 30 países com maior capacidade de convencimento a partir dos critérios governo, educação, cultura, inovação e empreendedorismo, inserção digital e engajamento internacional.

Segundo a Portland, consultoria de comunicação estratégica responsável pelo estudo, o subíndice no qual o Brasil apresentou a maior queda foi o referente ao governo. Além dos escândalos de corrupção e o afastamento da presidente Dilma Rousseff, outra razão que explica o pior desempenho no quesito, que avalia os valores políticos e os efeitos das políticas públicas, foi a lentidão na tomada de medidas para combater o vírus da zika.

A epidemia também prejudicou o subíndice da cultura, que caiu duas posições. Mesmo com pontos fortes como o futebol ou o samba, o receio em relação ao vírus e o possível impacto nos Jogos Olímpicos comprometeram a avaliação neste ano.

Entretanto, o Brasil apareceu pela primeira vez entre os dez primeiros na categoria engajamento, que qualifica o alcance das redes diplomáticas dos países, contribuição para a comunidade internacional e comprometimento com os grandes desafios globais, como o desenvolvimento sustentável. Além de ser o país sul americano em melhor classificação, o Brasil subiu três posições, do 13º lugar para 10º lugar neste setor.

A primeira colocação no ranking ficou com os Estados Unidos, que subiram duas posições e ultrapassaram o Reino Unido e a Alemanha. A influência americana se destaca principalmente na educação, cultura e inovação. A pesquisa também infere que a queda do Reino Unido deve-se ao Brexit e a incerteza em relação à posição global do país com uma eventual saída da União Europeia.

Outros destaques são a China — que apresentou considerável avanço no subíndice da cultura, apesar de ainda apresentar uma baixa pontuação na avaliação política — e o aparecimento da Rússia e da Argentina entre os 30 primeiros países pela primeira vez.

oglobo.globo.com | 14-06-2016

LONDRES — Boris Johnson é uma figura que parece confundir os analistas britânicos. Para uns, ele não passa de um palhaço narcisista que sabe dominar uma plateia, mas não deve ser levado a sério. Para outros, o parlamentar e ex-prefeito de Londres é um dos mais brilhantes estrategistas a surgir na cena política local nos últimos anos e suas ambições não podem ser desprezadas. O populista Boris (ninguém o chama pelo sobrenome), ou BoJo, como preferem os tabloides, se transformou na maior estrela da campanha pela saída do Reino Unido da União Europeia, tema que será decidido em plebiscito no próximo dia 23. As pesquisas mostram um eleitorado dividido, com ligeira vantagem para o grupo que defende a permanência na UE, encabeçado pelo premier David Cameron. A única certeza, por enquanto, é que o embate entre Boris e Cameron vai decidir o futuro do Partido Conservador e, provavelmente, do governo britânico.

A adesão de Boris à campanha pelo Brexit — junção de Britain com exit (saída) — complicou a vida de Cameron e acentuou o racha entre os conservadores. Os dois se dizem amigos, mas têm uma rivalidade histórica. Estudaram juntos em Eton, escola só para meninos famosa por receber os membros da nobreza e por formar futuros primeiros-ministros, e na Universidade de Oxford. Cameron, mais disciplinado, saiu com notas melhores, mas perdeu feio no quesito popularidade. Boris, sua cabeleira loura desgrenhada, sua disposição para debater em público e desconcertar os rivais com piadas sempre hipnotizaram o público. Um de seus ex-chefes, Conrad Black, ex-proprietário do grupo de mídia Telegraph quando Boris era jornalista, o definiu como uma “raposa em pele de ursinho de pelúcia”.

FATOS DISTORCIDOS

Embora ele não assuma publicamente, analistas apostam que Boris quer disputar o cargo de premier. Nas últimas semanas, o político, de 51 anos, dominou o noticiário sobre o plebiscito. Ao criticar os poderes da UE, a qual considera uma instituição tirana, o ex-prefeito comparou o bloco a Hitler e Napoleão, que também tentaram criar impérios. Para ele, a crise na Ucrânia não é culpa da Rússia, e sim resultado das fracassadas políticas de defesa da UE. E para provar o quanto a soberania estaria ameaçada pelas ordens de Bruxelas, apelou, alegando que pelas regras europeias é proibido vender cachos de banana com mais de “duas ou três unidades”.

Não é verdade, mas esse tipo de estratégia não chega a surpreender. Ele começou a carreira como jornalista e ficou conhecido por distorcer os fatos. Mesmo assim, virou uma celebridade como correspondente do “Daily Telegraph” em Bruxelas nos anos 90, quando escrevia artigos de grande repercussão contra a Comissão Europeia. Na volta a Londres, mostrou ser imbatível em talk-shows e virou editor da “Spectator”, a revista semanal dos conservadores, que lhe abriu as portas da vida política. Ao ser eleito prefeito da capital, muitos previram uma administração desastrosa, mas depois de dois mandatos — sempre pedalando para chegar ao trabalho — deixou o cargo com índices de aprovação acima de 50%. Apesar das controvérsias, Boris é, em geral, recebido como ídolo quando desembarca do ônibus da campanha pelo Brexit. Suas gafes alimentam memes, como uma exibição de rugby em que deveria mostrar suas habilidades, mas acabou passando por cima de um menino de 10 anos, que ficou estirado no chão.

—Ele ajuda a campanha porque chama a atenção para a causa dos que defendem a saída da UE. O problema é que tende a exagerar as alegações, e o resultado é a perda de credibilidade. Ele é um eurocético, mas a decisão de aderir ao Brexit foi baseada no desejo de ser o próximo líder do Partido Conservador — diz Martin Smith, professor de Política da Universidade de York.

A imigração é um dos principais temas do debate em torno do plebiscito. Embora sempre tenha se declarado a favor, Boris, que tem pais ingleses, raízes turcas e passaporte americano, vem repetindo que, se não saírem do bloco, os britânicos enfrentarão o aumento descontrolado de imigrantes. O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, comparou-o ao republicano Donald Trump, ao ultradireitista francês Jean-Marie Le Pen e ao político italiano Beppe Grillo, conhecido pelas piadas racistas. No Twitter, Juncker atacou: “2017 com Trump, Le Pen, Boris Johnson e Grillo? Um cenário de horror que deixa claro por que vale lutar contra o populismo”.

Na cidade de Bristol, ativistas do grupo We are Europe (Nós somos a Europa) pintaram um mural onde se vê Trump e Boris se beijando. A pintura “O beijo da morte” é uma tentativa de convencer os eleitores jovens a participar do plebiscito.

— As pesquisas estão apertadas. Não votar significa ajudar o voto pela saída da UE e por um mundo em que esses dois caras estarão no poder — disse Harriet Kingaby, porta-voz do coletivo.

Boris já definiu Trump como “ignorante” por suas declarações contra muçulmanos. No entanto, ele também foi acusado de preconceito ao sugerir que o presidente Barack Obama tem aversão ao Império Britânico devido às suas raízes quenianas. Obama defendeu a permanência do Reino Unido na UE, advertindo que é o bloco que fortalece a liderança global britânica.

No livro “Just Boris” (Apenas Boris), a jornalista Sonia Purnell, que trabalhou com o ex-prefeito no “Telegraph” em Bruxelas, o descreve como “o mais incomum, porém atraente político da era pós-Tony Blair”. A biografia, que irritou o parlamentar, retrata um homem inconsistente, que encara a vida como uma competição e tem um inexplicável poder de sobreviver a crises. Em entrevista à BBC, sua irmã, Rachel, contou que o irmão nunca aceitou derrotas. Quando era pequeno e lhe perguntavam o que queria ser, respondia: “Rei do mundo”.

oglobo.globo.com | 29-05-2016

RIO e ISE-SHIMA (Japão) - Conhecida pelas leis do trabalho mais protetivas do mundo, e pela resistência a mudanças, a França se prepara para implementar uma das mais ambiciosas reformas de sua história econômica: a flexibilização da legislação trabalhista. Subvertendo a cartilha do Partido Socialista e dos fortes sindicatos franceses, o governo do presidente François Hollande admitiu que a rigidez das regras é um entrave à competitividade e decidiu abraçar mudanças já implementadas pelos seus principais pares europeus — Alemanha, Reino Unido, Espanha e Itália. Para especialistas, o acirrado debate na França antecipa as discussões nas quais o Brasil mergulhará, após as propostas de reformas e revisão dos gastos encaminhada pelo presidente interino, Michel Temer.

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Na sexta-feira, após reunião do G-7, no Japão, Hollande garantiu que não recuará da revisão das leis:

— Acredito que é uma boa reforma e devemos continuar até sua adoção.

Às vésperas da campanha presidencial, em 2017, porém, o debate sobre mudanças estruturais na França não se restringe à reforma trabalhista. Alain Jupeé, provável candidato de centro-direita à presidência, tem afirmado que o ajuste precisa ser mais duro, com corte de gastos e de funcionários públicos e aumento da idade mínima de aposentadoria de 62 para 65 anos.

Quase todos os países europeus fizeram reformas para elevar a idade mínima, ao longo do tempo, para 65, 67 e até 68 anos. A França é exceção. Istvan Kasznar, economista da Fundação Getulio Vargas (FGV), diz que a mudança é urgente:

— A França vive, desde o fim dos anos 70, um envelhecimento populacional, e a sua capacidade de criar receitas para essa Previdência se limitou.

Para o economista Paulo Tafner, ao adiar a correção do déficit, cria-se um problema futuro:

— É uma irresponsabilidade, pois o jovem de hoje vai pagar a conta. Quando ele se aposentar, corre o risco de encontrar um país sem recursos.

Para especialistas, a França, tardiamente, se depara com os dilemas que o restante da União Europeia enfrenta desde a crise de 2008, que levou à bancarrota Estados com máquina pública inchada, orçamentos estourados e alto grau de endividamento. O ajuste foi severo desde então, com cortes de gastos e revisões gerais de legislações — especialmente a trabalhista e a previdenciária.

No caso mais emblemático, a Grécia, falida, foi obrigada a diminuir salários do funcionalismo, aumentar contribuições previdenciárias e reduzir benefícios pagos. A Espanha facilitou demissões coletivas e permitiu redução de jornada e salários, voltando a crescer.

A situação da França não é tão crítica. Mas o país está perdendo terreno aceleradamente para a Alemanha, que aproveitou o processo de unificação, nos anos 1990, para realizar um duro ajuste, que a consolidou como principal potência europeia, com economia em expansão e baixo desemprego — na França, a taxa chega a 10%.

— A Alemanha, após a reunificação, passou dez anos fazendo reformas. Controlou salários, reformulou a política industrial, reorganizou a economia. Quem mais cresce na Europa agora? — indaga a economista Monica de Bolle.

Esta semana, o FMI divulgou que a França deve crescer apenas 1,75% ao ano nos próximos cinco anos. Ressaltou que o ritmo não será suficiente para criar empregos e reduzir a dívida: “A economia francesa está se recuperando, mas maiores esforços ainda são necessários para criar empregos e colocar as finanças públicas em uma trajetória mais sustentável”.

A reforma trabalhista é uma opção clara no plano de recuperação da França. Um dos principais pontos é permitir que a sagrada jornada de 35 horas de trabalho semanais possa ser estendida para 48 ou até 60 horas. Demissões em empresas cujas receitas caiam por quatro trimestres passam a ser admitidas, e o pagamento de hora extra será flexibilizado.

Monica de Bolle argumenta que o Brasil tem muito a aprender com a França: ajustes devem ser feitos para ganhos de longo prazo. Temer parece ter optado por este caminho. Na posse, indicou que enviará as reformas trabalhista e da Previdência ao Congresso, com flexibilização de jornada e salários e a adoção de idade mínima para a aposentadoria. Esta semana, propôs uma revisão profunda nos gastos sociais, com desvinculação das despesas com saúde, educação e benefícios previdenciários.

Na avaliação do economista Manuel Thedim, do Iets, o desafio enfrentado por Hollande antecipa o debate no qual o Brasil vai mergulhar:

— No Brasil, essas duas reformas também são essenciais, pois temos problemas semelhantes: desemprego de dois dígitos e déficit da Previdência. Acredito que vai ter reação muito forte dos sindicatos apoiados pelo PT. Mas, diferentemente da França, aqui são menos organizados, e Temer parece ter apoio do Congresso.

Monica de Bolle concorda:

— No Brasil, não é mais possível ignorar as reformas necessárias. Elas estão em todas as áreas da economia. Quanto maior a demora em realizá-las, maiores os cortes a serem feitos.

oglobo.globo.com | 28-05-2016

Ainda há os que pensam que tudo que é bom para os EUA é bom para o Brasil. Os adeptos dessa tese agora cultuam a Parceria Comercial Transpacífica (TPP), lançada pelos EUA em nome dos benefícios “incondicionais” do livre comércio. Trata-se o acordo como se fosse revolucionário e inovador, mas há vários questionamentos, inclusive de setores organizados da sociedade americana.

A TPP casa-se com a Parceria Transatlântica de Comércio e Investimentos (TTIP), entre EUA e União Europeia. Dois mega acordos que deixam os EUA como ator central na economia mundial e englobam cerca de metade do comércio do planeta. É, de fato, o resgate da hegemonia do eixo EUA, UE e Japão, frente a novos atores como China e os emergentes (inclusive o Brics) que ameaçam a velha ordem.

O objetivo maior é adequar a economia mundial aos interesses das multinacionais da tríade, num momento de incertezas econômicas. Busca-se enfraquecer os emergentes e e consolidar os interesses geoestratégicos dos EUA. A bandeira do livre comércio é pura balela, já que a média das tarifas comerciais aplicadas entre os pretendentes à TPP já é bem baixa.

Trata-se de uma espécie de mega-Alca, o famigerado projeto enterrado há doze anos. Quer-se abrir o setor de serviços — o que mais cresce e gera empregos no mundo — nos países emergentes e em alguns desenvolvidos , com privilégios especiais ao setor financeiro. Preconiza-se a abertura de soberania, com condicionantes que impeçam a aplicação de legislação nacional ou restrições a bancos e outras instituições. Os emergentes ficariam sem instrumentos para enfrentar ataques especulativos contra as moedas, por exemplo. Uma ditadura do capital financeiro. O pacote inclui a abertura de setores estratégicos como educação, saúde, comunicações etc.

Pela TPP, os EUA reafirmam a intenção de abrir o setor de compras governamentais, de grande importância para estimular o mercado interno. Naturalmente, os emergentes teriam poucas condições de competir com as potências. No caso do Brasil, essa medida inviabilizaria a política de conteúdo nacional da Petrobras, que impulsiona a indústria naval e gera renda e empregos localmente. Em resumo, conferem-se privilégios abusivos a estrangeiros, inclusive com a possibilidade de impor arbitragens internacionais, em detrimento dos Estados nacionais.

Argumenta-se que não podemos ficar de fora das “cadeias produtivas globais” e critica-se nossa opção pelo Mercosul e nossa política externa. Análise errada. Nossa política não é isolacionista, e foi nos últimos 11 anos que nossa participação no comércio mundial passou de 0,88% para 1,46% — 63% de aumento. Nos últimos três anos, diminuiu, devido à crise mundial e a sobrevalorização do câmbio, mas não por causa do Mercosul. Interesse nacional vale. Os EUA que o digam.

Sibá Machado é deputado federal é deputado federal (PT-AC)

oglobo.globo.com | 27-05-2016

RIO - O aumento do desemprego e os cortes na saúde, consequências da crise financeira de 2008, teriam contribuído para um aumento da mortalidade por câncer, matando mais de 500.000 pessoas no mundo, diz um estudo publicado nesta quinta-feira.

"Associamos a recente crise econômica a 260 mil mortes adicionais por câncer nos países da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômicos) entre 2008 e 2010, sendo 160 mil delas na União Europeia", afirma o trabalho, publicado na revista britânica "The Lancet".

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"Em nível mundial, são mais de 500 mil mortes além do normal por câncer nesse período de dois anos", disse à agência de notícias AFP o doutor Mahiben Maruthappu, do Imperial College de Londres e líder da pesquisa.

Em 2012, a doença causou 8,2 milhões de mortes e é uma das maiores causas de mortes no mundo.

"Verificou-se que o aumento do desemprego foi associado com um aumento da mortalidade por câncer, porque a cobertura de saúde geral protegia a população e foi cortada em medidas de austeridade. Em particular, no caso de cânceres em que há um tratamento, como de mama, próstata ou colorretal ", acrescenta o cientista. Para ele, as economias na área matam.

Desemprego e mortalidade

O trabalho usou dados do Banco Mundial e da Organização Mundial de Saúde. As informações permitiram fazer uma ligação entre desemprego, cortes na saúde e mortalidade por câncer em mais de 70 países, analisando dados de mais de 2 bilhões de pessoas. Eles foram baseados em tendências entre 1990 e 2010.

Os casos de câncer são divididos em duas categorias: "aqueles que podem ser tratados", cuja taxa de sobrevivência é superior a 50%, e "incurável", cuja melhoria é inferior a 10%. A relação entre o desemprego e o excesso de mortalidade é mais importante exatamente nos que podem ser tratados.

Os cientistas apontam que um aumento de 1% no desemprego está associado com mais 0,37 mortes por câncer por 100.000 habitantes. Um aumento de 1% nos cortes no orçamento da saúde (em percentagem do Produto Interno Bruto) é associado com mortes adicionais de 0,0053.

Nos Estados Unidos, eles foram registrados 18 mil casos adicionais e na França, 1.500 mortes.

"Em países onde não há cobertura de saúde geral, o acesso ao tratamento muitas vezes depende do contrato de trabalho. Sem emprego, os pacientes são diagnosticados provavelmente mais tarde e receber tratamento inadequado ou atrasado", disse o professor Rifat Atun, da Universidade de Harvard e participante do estudo.

oglobo.globo.com | 26-05-2016

MUKACHEVO, UCRÂNIA – Antes de percorrer as trilhas e encostas nevadas, boa parte dos esquis do mundo começa a vida nessa fábrica enorme no oeste da Ucrânia.

Aqui, trabalhadores habilidosos combinam fitas flexíveis de fibra de carbono e chapas de titânio rígido, empilhando tudo como em uma espécie de bolo e prensando sob o calor das máquinas, dando forma e polimento até que se tornem os esquis utilizados na prática de cross-country ou downhill.

Aqui, os trabalhadores também usam vapor para dobrar a madeira e fabricar os tacos utilizados por jogadores de hóquei do mundo todo, vendidos por marcas como Nike e Oxelo.

A proprietária austríaca da fábrica, a Fischer Sports, paga o equivalente a US$307 ao mês em média aos funcionários – cerca de um oitavo do valor pago a operadores de máquinas e marceneiros experientes na sede da Fischer.

E desde janeiro deste ano, quando um novo pacto de livre comércio foi firmado entre a Ucrânia e os 28 países da União Europeia, os custos da Fischer caíram ainda mais com a eliminação das tarifas sobre o maquinário e as matérias primas que vão até a fábrica, bem como sobre os produtos finalizados, que são comercializados no restante do continente.

O pagamento pode parecer ruim para os padrões ocidentais, mas os 1.500 funcionários da fábrica veem os empregos como uma oportunidade. A Ucrânia é um dos países mais pobres do Hemisfério Norte, com uma economia que gera menos de US$3.100 per capita ao ano.

— A Europa é nosso futuro — afirmou Yuri V. Oros, operador de máquinas na linha de esquis.

Porém, o futuro sofre com o passado problemático do país e o conflito da Ucrânia com a Rússia. Agora, o nacionalismo ameaça a solidariedade da União Europeia. Em um referendo votado recentemente pela Holanda, por exemplo, quase dois terços dos eleitores holandeses pediram para que o governo deixe de apoiar o pacto com a Ucrânia.

E embora a Fischer e outras multinacionais, incluindo a Nexans, uma fabricante francesa de cabos elétricos, tenham investido em fábricas na Ucrânia para tirar proveito do acordo de livre comércio, muitas outras empresas ainda têm medo de se arriscar nessa antiga república soviética.

Por isso, não se sabe ao certo quais serão os benefícios do pacto comercial para além da região mais ocidental da Ucrânia, na divisa com a Polônia, onde boa parte dessas fábricas está se instalando, ou na economia desse país de 44,4 milhões de habitantes, dos quais cerca de cinco milhões vivem atualmente em áreas requisitadas pela Rússia, ou por separatistas pró-Rússia.

— Vamos ouvir falar de histórias de sucesso aqui e ali, mas ainda é cedo demais para falar em um sucesso real —afirmou Tymofiy S. Mylovanov, presidente da Escola de Economia de Kiev.

No geral, afirmou Mylovanov, a economia ucraniana mal está crescendo, afetada pela baixa produtividade dos trabalhadores e pela corrupção generalizada. Segundo ele, somente no longo prazo o acordo comercial poderá tirar os ucranianos da pobreza.

O acordo, conhecido como Acordo de Associação com a União Europeia, já percorreu um caminho tortuoso. Depois que um ex-presidente ucraniano o rejeitou em 2013, optando por um acordo com Moscou, cidadãos pró-Europa tomaram as ruas de Kiev em protestos que levaram a uma revolução.

O novo governo em Kiev assinou o acordo com a União Europeia em março de 2014. Mas naquele mesmo mês a Rússia anexou a província ucraniana da Crimeia, levando a uma guerra civil incitada pela Rússia no leste da Ucrânia.

Quando o acordo com a União Europeia entrou em vigor conforme o esperado, muitos ucranianos estavam tão distraídos ou desmoralizados pela guerra e pelos anos de recessão, que praticamente não notaram.

Ainda assim, aqui em Mukachevo, uma cidade pitoresca de ruas de paralelepípedos e um castelo do século XIV construído pelo Império Austro-Húngaro, a fábrica da Fischer representa um sinal de como poderia ser um futuro de maior integração com o restante Europa.

A subsidiária da Fischer na Ucrânia não revela números de faturamento, mas os executivos afirmam que os benefícios do pacto comercial devem representar um aumento de US$565 mil no lucro da fábrica este ano.

— A Ucrânia tem todas as condições iniciais para o investimento — afirmou Vasyl Ryabych, diretor da fábrica, em uma entrevista concedida em seu escritório, com vista para os jardins da fábrica e seus roseirais.

De forma similar a quando o Acordo de Livre Comércio da América do Norte, firmado em 1994, levou a um aumento no número de fábricas leves – conhecidas como “maquiladoras” – na fronteira do México com os Estados Unidos, o acordo de associação deve encorajar o desenvolvimento ao longo das fronteiras da Ucrânia com a União Europeia. Em troca, a Ucrânia fica obrigada a alterar as políticas econômicas por meio de medidas que modificam o judiciário, além de uma reforma nas regras para a concessão de contratos estatais.

A fábrica da Fischer é apenas um dos sinais do investimento estrangeiro surgindo ao redor de Lviv, a capital regional da Ucrânia ocidental.

A francesa Nexans alugou terras nos arredores de Lviv, onde planeja gastar US$4,7 milhões em uma fábrica que empregaria duas mil pessoas na fabricação de cabos elétricos para automóveis. Outra fábrica da Nexans já está produzindo cabos elétricos para a BMW, a General Motors e outras montadoras na região.

A Leoni, concorrente alemã da Nexans, conta com uma fábrica em Stryi, na região de Lviv, produzindo cabos para a Volkswagen, Opel, Porsche e outras montadoras.

Além disso, no ano passado, a Fujikura, fábrica japonesa de componentes automotivos, anunciou planos de abrir uma fábrica nos próximos três anos, empregando mais 3 mil ucranianos.

— A economia está se voltando para a Europa — afirmou Veronika Movchan, economista da VoxUkraine, um grupo de pesquisa com sede em Kiev.

A mudança em favor do Ocidente aumentou o comércio da Ucrânia com a União Europeia para mais de um terço do total de exportações e importações do país, se comparado a menos de um quarto em 2012.

Entretanto, durante o mesmo período as exportações para a Rússia caíram de mais da metade para apenas 12,7 por cento – um número que pode piorar ainda mais, já que Moscou aumentou as tarifas sobre produtos ucranianos, em retaliação ao pacto comercial com a Europa.

Além disso, o fim dos impostos comerciais em transações com a União Europeia representa uma faca de dois gumes: à medida que mais produtos europeus competem com produtos locais, a Ucrânia pode ser incapaz de sustentar até mesmo a modesta previsão de crescimento de um por cento este ano, de acordo com alguns economistas.

O pacto comercial também criou restrições rígidas sobre produtos agrícolas importados pela União Europeia, apesar de a agricultura ser um dos pontos fortes da Ucrânia. As cotas para importação de mel livre de tarifas são tão baixas, por exemplo, que os apicultores ucranianos estouraram o limite nas seis primeiras semanas do ano.

— Se a Ucrânia tem qualquer esperança, ela está na agricultura. Mas o fato de já terem utilizado boa parte das cotas anuais sugere que o acordo não teve o efeito desejado — afirmou Ivan Tchakarov, economista chefe de Estados da antiga União Soviética no banco Citi.

Essa é mais uma razão para que os apoiadores do pacto comercial contem com o sucesso da fábrica da Fischer, que já começa a produzir mais que skis e tacos de hóquei.

Depois de demonstrar sua destreza com materiais a base de fibra de carbono, além de destacar o crescimento da região na fabricação de peças automotivas, a fábrica criou uma oficina que realiza o polimento de componentes para o setor automotivo.

As peças leves incluem bases para motores de alta performance dos modelos BMW M3, além de painéis externos da Audi, Porsche e Tesla. Após o polimento, as peças são enviadas de volta para mercados mais ricos.

Ryabych, o diretor da fábrica, afirmou:

— Somos como a China, mas fazemos fronteira com a Europa.

oglobo.globo.com | 26-05-2016

WASHINGTON — O governo dos Estados Unidos anunciou na noite desta quarta-feira que Peter Michael McKinley será o novo embaixador americano no Brasil. Diplomata com grande experiência, seu último posto foi no Afeganistão. Antes disso havia passado pela Colômbia, Peru, União Europeia, Uganda, Moçambique, Bolívia e Reino Unido.

McKinley tem 62 anos e está no serviço diplomático americano desde 1982. Ele tem doutorado na Universidade de Oxford e fez estudos sobre a América Latina. Liliane Ayalde, que está no posto desde o fim de 2013

Ele também já ocupou cargos no gabinete do Subsecretário Regional de Assuntos Políticos, no escritório da África Austral e no Centro de Inteligência e Pesquisa do Departamento de Estado. O Itamaraty já confirmou sua indicação, que deve passar sem problemas pelo Senado. Não há data de quando ele assumirá o posto em Brasília.

oglobo.globo.com | 26-05-2016

Em março, a União Europeia e a Turquia selaram um acordo: o país construiria campos para abrigar os refugiados que foram barrados na Europa e o bloco pagaria por eles — três bilhões de euros (cerca de R$ 12 bilhões) logo de cara, com outros três a seguir. Outras nações observaram o pacto de perto e agora estamos começando a ver as consequências.

No dia três de maio, Níger, país da África Ocidental, exigiu 1,1 bilhão de euros (aproximadamente R$ 4,37 bilhões) da União Europeia para impedir que seus imigrantes seguissem para a Líbia e, de lá, para o Mediterrâneo. Na semana passada, o governo do Quênia anunciou que planeja fechar o maior campo de refugiados do mundo, Dadaab. O país usa o exemplo europeu de rejeitar os sírios como base para justificar o plano de retornar quase 600 mil somalis à sua nação de origem.

Karanja Kibicho, membro do governo queniano responsável por contraterrorismo, declarou, explicitamente, a um jornal britânico:

— Não podemos mais permitir que nosso povo arque com o peso da falta de comprometimento da comunidade internacional para com os refugiados — disse, antes de citar também uma queda na ajuda internacional voluntária aos campos quenianos em favor do aumento do orçamento no Hemisfério Norte, para os refugiados que seguiram para o Ocidente.

Os campos de refugiados sofrem de uma falta de verba crônica, mas a proposta do Quênia não diz respeito às necessidades de quem os habita; parece mais uma exigência de pagamento de resgate. Seu governo já ameaçou fechar os acampamentos duas vezes, alegando questões de segurança depois dos ataques terroristas ao shopping center Westgate, em Nairóbi, em 2013, e à Universidade Garissa, em 2015. A resposta do Secretário de Estado John Kerry foi prometer US$ 45 milhões (R$ 157 milhões) em ajuda extra – ajuda essa que provavelmente não chegará nem perto dos campos, bancados integralmente pelas Nações Unidas.

Por ter feito ameaças antes, o país tem que se esforçar muito mais para conseguir atenção da comunidade internacional; para provar que fala sério, na semana passada desativou o Departamento de Questões dos Refugiados e revogou o status automático para os somalis que pediram asilo. Isso significa que quem chegar nas próximas levas não terá documentos garantidos e corre o risco de deportação imediata. O Quênia também culpa constantemente os refugiados pelo terrorismo, mesmo sem provas que liguem os campos aos ataques.

A verdade é ainda mais cínica: descobriu-se, no ano passado, que as forças quenianas que invadiram a Somália para combater o Shabab, grupo extremista afiliado à Al-Qaeda, estava colaborando com o próprio grupo para contrabandear carvão e açúcar, garantindo um faturamento de até US$ 400 milhões. Em resposta, o governo somali aprovou uma moção pedindo a retirada das tropas quenianas de seu território. Partir para a ofensiva contra os refugiados significa que a energia internacional se concentrará em convencer o Quênia a não fechar os campos em vez de exigir uma mudança de comportamento na Somália.

Considerando-se o cenário do acordo turco, os refugiados dão muito poder de barganha para as nações: represtentam proteção contra a crítica estrangeira, são fáceis de se acusar pelos problemas domésticos, e são também moeda de troca para favores especiais no exterior. Em sua tentativa baixa de se esquivar das obrigações internacionais, a União Europeia começou uma guerra de lances e exigências.

Isso é perigoso. Oitenta por cento dos desalojados do mundo são abrigados em países em desenvolvimento. O mundo está se encaminhando para uma situação na qual os direitos dos refugiados são enumerados não em leis e tratados internacionais, mas em dólares e euros. No início deste mês, a União Europeia decidiu mudar sua política de garantia de asilo, que assegurava aos Estados-membros o direito de recusa da cota de refugiados que lhe cabe, remanejada dos países a que chegam primeiro, como Grécia e Itália. A mudança foi ocorreu após uma "contribuição solidária" de 250 mil euros (cerca de R$ 992 mil) por cabeça aos países.

A decisão é insana por vários motivos, mas principalmente porque, ao não aceitar um refugiado, o país está se recusando a admitir um ser humano com capacidade de trabalho que vai, como mostra a grande maioria dos estudos econômicos, fazer uma contribuição positiva ao crescimento econômico em longo prazo. Essa foi, em parte, a base do argumento da chanceler alemã Angela Merkel para aceitar tamanho influxo de estrangeiros na Alemanha em 2015.

Na mesma linha, David Miliband, diretor do Comitê Internacional de Resgate e ex-Secretário de Relações Exteriores britânico, pediu, no sábado, a criação de uma iniciativa internacional para assentar os refugiados mais vulneráveis nos países ricos e aceitar os restantes como residentes produtivos com o direito de trabalhar nos países em que foram acolhidos.

É uma ideia sensata. Como aconteceu com os 400 mil moradores de Dadaab, os refugiados sempre constroem economias e comunidades. Apesar das tentativas do Quênia de manter o campo como local temporário, proibindo a implantação de estruturas permanentes, ruas, sistema de esgoto e eletricidade, ele se tornou uma cidade. Impedir sua permanência é desperdiçar verba internacional e abdicar da arrecadação fiscal e do potencial de talento: a ONU pagou para educar três gerações de pessoas que estão proibidas de trabalhar.

A escolha dos países acolhedores, portanto, é uma escolha entre economias formais e informais. Com um pouquinho mais de visão, os 25 anos de fundos humanitários aplicados em Dadaab poderiam ter sido gastos no investimento em uma cidade e uma população com potencial para, eventualmente, empregar refugiados e quenianos, contribuindo com milhões em impostos e abrindo um caminho para a Somália conquistar a paz e o desenvolvimento.

Apesar do bom senso óbvio da proposta de Miliband, a distância entre uma visão global generosa como essa e a dura realidade da política xenófoba que vai de Nairóbi a New Hampshire é imensa. Dadaab sobrevive como uma favela isolada justamente porque o Quênia não quer que o número de somalis chegue a um milhão, o equivalente a dois por cento de sua população.

A impressão é a de que a maioria dos países prefere deportar contribuintes em potencial e pagar multas pesadíssimas, negando-se a crescer economicamente. A Cúpula Humanitária Mundial, conferência patrocinada pela ONU que será realizada ainda este mês, em Istambul, é uma oportunidade para voltar a discussão mundial sobre refugiados para o potencial benefício de todos. Temo, porém, que a ocasião se transforme em um simples leilão.

oglobo.globo.com | 20-05-2016

ATENAS - O Parlamento grego se pronuncia neste domingo sobre uma polêmica reforma das aposentadorias exigida pelos credores da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional (FMI), em meio a protestos convocados pelos sindicatos e na véspera de uma reunião do Eurogrupo sobre a Grécia. Quinze mil pessoas protestaram de forma pacífica em Atenas e Tessalônica — segunda cidade grega no norte do país —, 14.000 delas simpatizantes da Frente de Luta dos Trabalhadores (PAME), próxima ao partido comunista KKE, segundo a polícia.

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“Vamos acabar com o desastre do sistema de aposentadorias, o desastre social e econômico”, afirmava um cartaz.

A mobilização foi, no entanto, muito menor que a registrada na última grande manifestação contra esta reforma, no dia 4 de fevereiro, quando 50.000 pessoas participaram dos protestos.

O sindicato público Adedy convocou uma manifestação diante do Parlamento, na noite de domingo, horas antes da votação prevista sobre a reforma, considerada um "saque" pelos sindicatos.

O projeto de lei para reformar o sistema de aposentadorias e aumentar os impostos, exigido pelos credores do país - a UE e o FMI - em troca de um novo plano de resgate assinado em julho, está sendo debatido no Parlamento desde sábado e será submetido a votação na noite deste domingo.

O governo de esquerda de Alexis Tsipras, que dispõe de uma maioria parlamentar mínima, com 153 deputados de 300, espera que, ao organizar a votação no fim de semana, em plenas férias de Páscoa, a reforma seja aprovada antes da reunião do Eurogrupo de segunda-feira. Isso pode ajudar os 19 ministros das Finanças da zona do euro a concluírem a primeira avaliação da implementação do plano de resgate e iniciarem o espinhoso debate sobre a dívida grega.

A reforma das aposentadorias prevê cortes das aposentadorias mais elevadas, a fusão de várias caixas, o aumento das cotações e a instauração de uma aposentadoria nacional de 384 euros para os que tiverem trabalhado 20 anos.

Durante a greve de 48 horas, convocada pelos sindicatos, a quarta desde a chegada ao governo de Tsipras, em janeiro de 2015, nenhum transporte público funcionou no país na sexta-feira e no sábado.

“Cansada e decepcionada”

Apenas os deputados da coalizão governamental - do Syriza e do partido soberanista Anel - estão dispostos a votar a favor deste projeto. Os partidos da oposição, entre eles a formação conservadora Nova Democracia, indicaram que votariam contra o projeto de lei.

“As pessoas estão cansadas e decepcionadas com o governo de esquerda no poder (...), as manifestações não tiveram a repercussão que esperávamos”, lamentou à AFP Maria K., que participou do protesto deste domingo.

Para o governo, esta reforma forma parte do acordo entre Atenas e os credores do verão passado em contrapartida ao empréstimo concedido ao país.

“Fazemos o que combinamos com nossos sócios europeus”, explicou na noite de sábado no Parlamento o ministro das Finanças, Eucleide Tsakalotos.

A reforma das aposentadorias é indispensável para "garantir a viabilidade do sistema para a segurança social" e bloquear o déficit dos planos de aposentadorias, indicou por sua vez o ministro do Trabalho, Georges Katrougalos, impulsionador desta tarefa.

Para Panayiotis Petrakis, professor de Economia na universidade de Atenas, as mobilizações não ameaçam a aprovação da lei: "A reforma será adotada e conseguir este voto antes do Eurogrupo é uma boa decisão", disse à AFP.

“Mas a distância entre Atenas e os credores, que exigem medidas adicionais de € 3,6 bilhões, continua sendo importante", advertiu.

oglobo.globo.com | 08-05-2016

RIO— Uma nova escola fundada em São Paulo irá permitir que seus alunos tenham um diploma da Inglaterra sem ter colocado os pés fora do país. A Escola Britânica de Artes Criativas (Ebac) foi inaugurada na última quinta-feira e pretende impulsionar a economia criativa no Brasil. O diploma de graduação concedido pela instituição é da Universidade de Hertfordshire, em Londres, e será válido em toda União Europeia e nos Estados Unidos.

— No Brasil os desafios são enormes e instigantes. Há muita oportunidade. Nossos investimentos não se justificam somente pelo crescimento de empregos criados pelos setores criativos ou pela contribuição da cultura e da criatividade no PIB, mas especialmente porque a cultura é o nosso primeiro recurso econômico. Este projeto é uma novidade no Brasil, mas em 10 anos o país descobrirá que não será mais necessário atravessar fronteiras para ter acesso a uma das melhores escolas de disciplinas criativas do mundo— disse Mauricio Tortosa, diretor-presidente da Ebac.

A Ebac pretende desenvolver competências criativas em seus estudantes. Dessa forma, além dos conteúdos técnicos tradicionais, a instituição pretende promover ensino de transdisciplinar, que envolva empreendedorismo, habilidades sociais e socioculturais, entre outras.

— Nos últimos dois anos, mais de 5,5 jovens saíram do Brasil para estudar no Reino Unido em busca de melhor qualidade de ensino. Nosso grande desafio é desenvolver e reter esses talentos aqui. A educação de qualidade mundial é um dos caminhos prioritários para levar o Brasil a um estágio de desenvolvimento mais avançado— argumenta Maurício.

A Ebac oferecerá também cursos técnicos como de Desenvolvimento de Aplicativos para Dispositivos Móveis, além de Degign Gráfico e Direção de Arte Digital. A universidade londrina, parceira da instituição brasileira, tem cerca de 25 mil alunos, vindos de diversos lugares do mundo e recebeu o prêmio “Universidade Empreendedora do Ano”, da Times Higher Education.

oglobo.globo.com | 03-05-2016

BRIXHAM, Inglaterra – Mike Walker, pescador aposentado na cidade, resume o que muita gente pensa a respeito da União Europeia nessa cidade portuária no sul da Inglaterra. A entrada do Reino Unido na União de 28 países encorajou a França, a Espanha, a Holanda “e o resto todo” a “violar nossas águas”, afirmou Walker.

Outras pessoas talvez escolham palavras menos extremas, mas a opinião de Walker é comum nessa cidade de 17 mil habitantes e sinaliza o desconforto generalizado do Reino Unido com a União Europeia, antes que o país vote no dia 23 de junho o referendo para decidir se deve continuar fazendo parte da união.

Não importa se as queixas envolvam peixes, imigrantes ou regras irracionais, muitos britânicos se incomodam com o que interpretam como a interferência de instituições europeias e burocratas de Bruxelas.

No caso de Brixham, o maior porto pesqueiro comercial da Inglaterra, muitos querem que o Reino Unido retome o controle das águas que fica a 322 quilômetros do litoral. Essa área é controlada por Bruxelas e se encontra repleta de navios com bandeira europeia, que jogam redes e muitas vezes exploram até o leito marinho.

No mundo todo, a maioria das nações soberanas, incluindo Estados Unidos e Canadá, tem domínio sobre os direitos de pesca dentro do limite de 322 quilômetros a partir do litoral. Os pescadores de Brixham argumentam que uma Inglaterra livre da supervisão europeia poderia banir as embarcações estrangeiras e devolver os empregos aos britânicos.

“É claro que eu quero que o país saia da união”, afirmou o pescador Michael Sharp, com os braços desafiadoramente cruzados. “Todas as guerras que travamos contra a França, a Alemanha – com todos eles desde só Deus sabe quando, desde que Jesus era menino – nós nunca vamos nos entender, não é?”

As pesquisas de opinião pública realizadas em todo o país indicam que a saída da união, apelidada de Brexit, corre grandes riscos de ocorrer. Mas mesmo no setor pesqueiro, a visão comum em Brixham sobre a Brexit não é compartilhada em todos os portos britânicos.

Ainda existe um forte apoio à União Europeia, por exemplo, em alguns dos portos escoceses, que tem altos lucros com a venda de salmão, mariscos e lagosta para outras partes da Europa. Caso o Reino Unido deixe a união, os pescadores escoceses podem ser afetados por impostos de exportação altíssimos.

Os pescadores de Brixham, por outro lado, contam com poucos incentivos de comércio internacional, já que vendem principalmente para o mercado interno. Em sua opinião, a Brexit representa menos concorrentes estrangeiros. Menos concorrência também pode ajudar a aumentar o faturamento dos pescadores locais, que atualmente varia entre US$43 mil e US$100 mil ao ano.

A motivação econômica de Brixham está em consonância com as tradições culturais deste lado do Canal da Mancha, que repete a narrativa histórica de uma Grã-Bretanha sob cerco constante do restante da Europa.

Os muros de um forte construído na região no século XV continuam cravejados de bolas de canhão francesas e, em 1588, Sir Francis Drake espantou uma Armada Espanhola dessas águas.

Um século depois, William de Orange, o príncipe holandês protestante, aportou em Brixham com 14 mil soldados para ajudar a derrubar o Rei Jaime II da Inglaterra, que era católico. Esse foi um dos poucos casos em que os habitantes da cidade receberam de braços abertos a intervenção estrangeira, que foi comemorada com uma estátua na cidade em homenagem ao Príncipe William.

Agora, para muita gente em Brixham, o inimigo não é um único invasor, mas a reunião de todos eles na União Europeia.

Os moradores do local se queixam de Bruxelas especialmente por sua Política Pesqueira Comum, que há décadas permite que toda a frota pesqueira europeia tenha acesso às águas da região. A política se mostrou desastrosa já que o volume de pesca permitido é alto demais, de acordo com Robin Churchill, professor de Direito Internacional na Universidade de Dundee, na Escócia, destacando que a população de bacalhau entrou em colapso no início dos anos 2000.

Outros especialistas argumentam que as águas britânicas já sofriam com a sobrepesca muito antes das políticas pesqueiras entrarem em vigor em 1983. Além disso, eles citam algumas medidas bem sucedidas de recuperação da população de peixes a partir de 2003, quando a União Europeia passou a exigir que os pescadores reduzissem o tamanho das frotas e limitassem o total de dias de pesca por ano. Os cientistas afirmam que o bacalhau do Mar do Norte está se recuperando vigorosamente e a pesca provavelmente será sustentável a partir do ano que vem.

Isso não teria acontecido sem que a União Europeia pressionasse o governo britânico, que era próximo demais do setor pesqueiro, afirmou Howard Wood, diretor do Fundo Fiduciário do Leito Marinho da Comunidade de Arran. O grupo visa proteger os habitat marinhos no entorno da Ilha de Arran, na costa ocidental da Escócia.

Caso a Brexit se confirme, afirmou Wood, “temos que torcer para que não voltemos aos velhos hábitos” de ignorar as regras e praticar a sobrepesca.

Brian Tollis, chefe do cais na cidade, está entre os habitantes de Brixham que preferem que o Reino Unido permaneça na União Europeia. “Se sairmos, teremos muitos problemas. Os outros países podem se juntar contra nós em termos de comércio internacional e nossa situação vai piorar.”

Até mesmo o suposto nacionalismo do setor pesqueiro de Brixham não é o que parece ser. Muitos pescadores, incluindo Sharp, empregam filipinos, que ajudam a completar as tripulações, já que muitos pessoas da cidade preferem trabalhar em outras áreas.

Pescadores de outras partes da Europa disputam as águas britânicas em função da abundância e grande quantidade de espécies de peixe. As Ilhas Britânicas se encontram sobre uma enorme plataforma continental que permite que a vida marinha sobreviva nas águas rasas onde a maioria dos peixes são pescados. O Oceano Atlântico no litoral de Portugal e Espanha, por outro lado, conta com populações menores de peixe, já que fica profundo muito rapidamente.

De acordo com as atuais regulamentações da União Europeia, as embarcações britânicas podem pescar mais nas águas do país do que os barcos estrangeiros. Contudo, muitos pescadores de outras partes tiraram proveito das leis europeias para abrir empresas na Inglaterra. Isso permite que eles comprem barcos com bandeira britânica, utilizados para pescar conforme a cota britânica. Uma iniciativa do governo inglês para combater essa prática foi impedida em 1992 pelo Tribunal de Justiça Europeu.

Mais de um terço da frota que opera na costa sudoeste da Inglaterra pertence a estrangeiros, afirmou Jim Portus, ex-regulador de pesca da Grã-Bretanha e atual executivo-chefe do grupo comercial South Western Fish Producer.

Uma vez que essas embarcações vendem os peixes no país de origem de seus donos, afirmou Portus, “eles navegam sob a bandeira britânica, mas não trazem qualquer benefício para o Reino Unido”.

Naturalmente, os pescadores britânicos também têm o direito de pescar na costa de outros países da União Europeia. Mas “essas águas não têm nada que a gente queira”, afirmou Ian Perkes, comprador que trabalha todos os dias no mercado de peixe de Brixham.

Richard Barnes, professor da Faculdade de Direito da Universidade de Hull especializado em leis ambientais marinhas, destaca que caso a Grã-Bretanha saia da União Europeia, o país ainda terá oportunidade de cooperar com cada membro do bloco separadamente, ou de fazer a gestão das populações de peixes em águas transnacionais.

Mas caso o Reino Unido deseje manter um relacionamento de livre comércio com o bloco, afirmou Barnes, isso ainda permitira que os países europeus tivessem acesso às águas britânicas.

Walker, o pescador aposentado de Brixham, se referiu à longa disputa do bacalhau, que só terminou em 1976, quando o Reino Unido concordou em não pescar mais nas águas da Islândia, que não faz parte da União Europeia.

“Costumávamos ir até lá e violar as águas da Islândia. Mas eles chutaram nosso traseiro, e tinham toda razão. Agora eles cuidam dos próprios peixes e vende a produção para nós”, afirmou Walker, cerrando os punhos enormes.

Walker afirmou que gostaria que a Inglaterra recobrasse a mesma autonomia. “Temos as melhores águas da Europa, mas não podemos fazer nada a respeito.”

oglobo.globo.com | 29-04-2016
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