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União Européia Educação

Comissário europeu da saúde confessa-se “chocado” com o facto de na União Europeia “quase um em cada quatro adolescentes de 13 anos” que frequentam a escola já terem fumado.
www.publico.pt | 23-03-2017

RHODE ISLAND — Desde que renunciou à vida política, o ex-primeiro-ministro britânico David Cameron tem se dedicado a uma turnê de palestras pelos Estados Unidos. Em uma delas, na Universidade Brown, ele brincou que a maior vantagem de ter deixado o governo é não ter que ouvir mais os grampos de Donald Trump. Sem apresentar provas, o presidente dos Estados Unidos acusou o seu antecessor, Barack Obama, de ter ordenado escutas telefônicas na Trump Tower, em Nova York, durante as eleições americanas no ano passado. Cameron

— Só para ser claro, isso é uma brincadeira — explicou Cameron, esquivando-se de possíveis confusões e tuítes raivosos do republicano.

Cameron renunciou ao cargo após ser derrotado no referendo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia (UE), processo que ficou conhecido como Brexit.

Os principais temas de suas palestras são política e economia mundial. Durante a fala na universidade americana na segunda-feira, ele discorreu sobre Brexit, o presidente russo, Vladimir Putin, e a nova política americana para uma audiência de 2.400 pessoas.

— Quando o Muro de Berlim caiu em 1989, parecia que todas as grandes brigas estavam terminadas. Era óbvio que precisávamos de mais democracias, nós precisávamos de mais controle sobre as leis, precisávamos de livre iniciativa, de livre mercado, precisávamos da Otan, precisávamos nos posicionar contra a agressão, nós deveríamos ter investido nas Nações Unidas… hoje, todas essas questões estão em debate — declarou o ex-premier.

Para Cameron, os Estados Unidos e o Reino Unido eram “os guardiões da liberdade, tolerância, igualdade e sim, Justiça. Lute por eles e então seremos realmente grandes novamente”.

— A democracia está em xeque — alertou ele.

No início do ano, prestes a assumir o cargo de presidente, Trump chegou a declarar que a Otan era “obsoleta”. Desde então, ele defende algumas mudanças pontuais na organização, mas sem insistir que ela deva ser extinta. Cameron não vê com bons olhos a postura de Trump perante a organização:

— Deveríamos proteger a Otan, não enfraquecê-la. Nós não faremos a América grande novamente fazendo o Leste europeu fraco. — Ele aponta. — “Stop the world: I want to get off” (Pare o mundo: eu quero descer) pode ser um bom filme, mas é uma filosofia fracassada em um mundo doente.

oglobo.globo.com | 21-03-2017

A Comissária Europeia do Comércio, Cecilia Malmström, afirmou nesta segunda-feira que o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, envia "sinais preocupantes" em relação ao comércio. A principal autoridade da União Europeia sobre o tema argumentou que a construção de barreiras ao comércio global ameaça acabar com empregos e elevar preços para os consumidores, tanto nos países desenvolvidos quanto nos emergentes.

Em Toronto, Malmström disse que a UE busca fortalecer seus laços comerciais com parceiros como Canadá, após as duas partes fecharem um acordo no setor no ano passado. Por outro lado, a autoridade europeia disse que as conversas sobre um pacto de livre-comércio com os EUA estão em "profundo congelamento", no momento em que o governo Trump busca acordos bilaterais, em vez de regionais ou multilaterais.

A UE, segundo ela, continuará a buscar um comércio mais liberalizado pelo mundo, mesmo após o Reino Unido deixar o bloco. Isso, segundo Malmström, criará a necessidade de se fechar um acordo comercial entre o país e a UE. "Nós não concordamos com aqueles que pensam que a resposta é erigir barreiras", afirmou a autoridade em discurso na Universidade de Toronto. Fonte: Dow Jones Newswires.

BERLIM - O método de comparar Hitler a governos autoritários, com o objetivo de desacreditar o adversário, vem sendo cada vez mais usado por altos escalões do poder em vários países. Depois que Holanda, Alemanha e Dinamarca impediram eventos de propaganda eleitoral junto às minorias turcas em seus territórios, o presidente Recep Tayyip Erdogan pôs as relações entre a Turquia e a União Europeia (UE) numa profunda crise ao lançar mão do que para os alemães é o pior tipo de ofensa possível. Erdogan comparou a chanceler federal alemã, Angela Merkel, e o primeiro ministro holandês, Mark Rutte, a Hitler — insulto tão grave que desencadeou uma indignação nacional nos dois países.

— Rutte terminou tirando proveito do bombardeio verbal vindo de Ancara, o que pode ser visto no resultado da eleição — comentou Hajo Funke, cientista político da Universidade Livre de Berlim. Erdogan

A historiadora Sabine Schiffer, coautora do livro “Antissemitismo e islamofobia”, lembrou ainda que a tática é uma enorme distorção histórica, além de uma banalização do Holocausto e uma ofensa às vítimas e seus descendentes. Além disso, continuou ela, revela uma característica de fraqueza e de falta de argumentos concretos:

— Erdogan tenta desviar as atenções do tema concreto do momento. Com isso, quer evitar um debate de conteúdo sobre o sistema que planeja implantar na Turquia.

Berlusconi também fez comparação

Mas ele não é o único. O ex-primeiro ministro italiano Silvio Berlusconi reagiu a críticas dos social-democratas no Parlamento Europeu, ainda nos anos 1990, chamando seu então presidente e atual candidato ao governo alemão, Martin Schulz, de nazista. No auge da crise da Grécia, jornais locais atacavam Merkel com montagens de fotos suas usando o bigode de Hitler.

— Até que ponto é correta uma comparação da política da Rússia atual com a da Alemanha nazista, feita recentemente pelo presidente ucraniano Petro Poroschenko? Embora a Rússia tenha anexado a Crimeia, como Hitler anexou a então Tchecoslováquia, em 1938, a comparação é absurda e revela a fraqueza de argumentos do seu autor — disse a historiadora russa Irina Cherbakova.

Para ela, a analogia também é uma tentativa de banalizar o regime de Hitler, já que a anexação da Crimeia não foi acompanhada de execuções em massa como em 1938.

Segundo o jornal “Neue Zürcher Zeitung”, não só Erdogan caiu na cilada da chamada “lei de Godwin”, pronunciada pelo advogado americano Mike Godwin, que diz que quanto mais dura uma discussão, maior é a chance de que termine com uma comparação com Hitler e os nazistas. Nos debates da internet — onde comparações com o ditador nazista são frequentes — a cada minuto essa lei da comunicação moderna é confirmada.

oglobo.globo.com | 17-03-2017

ANCARA — Em plena crise diplomática entre a Turquia e países europeus, várias contas do Twitter foram atacadas por hackers nesta quarta-feira com mensagens em turco que comparam a Holanda e a Alemanha com o regime nazista. Entre as contas alvos do ciberataque estão a do Fundo das Nações Unidas para Crianças (Unicef), da Anistia Internacional (AI), da emissora BBC e do ministério francês da Economia. Turquia

“Alemanha nazista #Holanda nazista. Aqui uma pequena bofetada otomana para vocês. #Nos vemos em 16 de abril. Querem saber o que escrevi? Aprendam turco”, afirmava uma mensagem em turco postada às 7h (4h de Brasília), que também foi publicada nas contas de Javi Martínez, espanhol que joga no Bayern de Munique, e do ex-tenista alemão Boris Becker, entre outros.

A mensagem era acompanhada por um vídeo com trechos de um discurso do presidente turco Recep Tayyip Erdogan, que aprovou uma reforma constitucional para reforçar seus poderes, que será submetida a um referendo em 16 de abril. O Twitter confirmou ter sofrido um ataque de grande envergadura.

“Estamos cientes do problema que afeta várias contas”, declarou um porta-voz da rede social, antes de acrescentar que a fonte do ataque foi rapidamente localizada e que procede de um “aplicativo”. “Retiramos imediatamente suas permissões”.

O aplicativo em questão, o Twitter Counter, iniciou uma investigação sobre o ataque do qual foi vítima e que permitiu a ação de pirataria, afirmou à agência AFP seu presidente, Omer Ginor. Não está claro quantas contas foram atacadas, mas os alvos parecem ter sido totalmente oportunistas.

O ministério francês da Economia confirmou que sua conta no Twitter foi alvo de ataque e disse que já havia solucionado o problema, sem revelar detalhes. A BBC News North America, por sua vez, publicou uma mensagem no Twitter em que informou que “perdeu temporariamente o controle” de sua conta na rede social.

Informações publicadas em meios de comunicação, tais como Gizmodo, Engadget e o jornal "The Guardian", observaram que também foram atacadas as contas do Unicef, da Universidade de Duke e do Starbucks na Argentina.

A Turquia suspendeu as relações "de mais alto nível" com a Holanda e bloqueou a volta à Turquia do embaixador holandês, em resposta à decisão do governo do primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, de impedir a entrada na Holanda de ministros turcos que iriam participar de comícios políticos — anulados pelas autoridades locais — a favor de Erdogan.

O presidente turco classificou esta medida de "vestígio" do nazismo e criticou Haia, assim como a chanceler Angela Merkel e a União Europeia que saíram em sua defesa.

oglobo.globo.com | 15-03-2017

BERLIM — A Europa está com os olhos voltados para a Holanda. Se o Partido da Liberdade (PVV), do líder da extrema-direita Geert Wilders, for o mais votado nas eleições desta quarta-feira, especialistas receiam um efeito dominó que poderia abalar os alicerces do bloco. A Holanda é o primeiro de uma série de países com pleitos este ano, que incluem França, Alemanha e Itália. Na tentativa de retomar os votos perdidos, o primeiro-ministro Mark Rutte, do conservador Partido Popular para a Liberdade e Democracia (VVD), advertiu os holandeses para que evitassem “a catástrofe”. holanda

— As pedras que já caíram ainda podem ser levantadas — disse Rutte.

O cientista político Joost van Spanje, da Universidade de Amsterdã, receia que a União Europeia possa sofrer um forte abalo — ou mesmo um colapso — exatamente no seu jubileu de 60 anos. Em 25 de março de 1957, Alemanha, França, Itália, Holanda, Luxemburgo e Bélgica assinaram o Acordo de Roma, o primeiro passo para a formação do bloco.

O projeto foi idealizado ainda no trauma provocado pela Segunda Guerra Mundial. Agora, especialistas acham que a UE se vê ameaçada pelo mesmo racismo que desencadeou o conflito.

O problema não é só na Holanda. Muitos acreditam que o risco maior vem de Marine Le Pen, candidata à Presidência da França. E não está sozinha. Vinte e cinco partidos de extrema-direita começaram a formar em 2015 a aliança Europa das Nações e da Liberdade (ENF). Membros, como Le Pen, Wilders e Frauke Petry, do Alternativa para a Alemanha (AfD), reuniram-se em janeiro para desenvolver estratégias comuns. Embora tenham perdido alguns pontos nas últimas semanas, o sucesso de Wilders e Le Pen mostra que está funcionando.

— O método é uma verdadeira encenação, com elementos de teatro, com os quais esses partidos se mostram como a única força política capaz de defender os interesses do povo, como outsiders — observa Spanje. Eleições na Holanda esquentam debate sobre possível saída da UE

De acordo com o político franco-alemão Daniel Cohn-Bendit, uma vitória de Le Pen seria um golpe do qual a UE não conseguiria se recuperar.

— O efeito de uma possível saída da Holanda da UE (como defende Wilders) seria grave, mas se Le Pen ganhar, o golpe seria ainda pior — diz Cohn-Bendit, advertindo para o perigo de ressurgimento do nacionalismo caso a UE não sobreviva à crise.

Spanje lembra que os holandeses estão conscientes da sua responsabilidade em um momento crucial para o bloco.

— Os partidos democráticos vão fazer todo tipo de aliança para evitar os extremistas de Wilders e o perigo do fim da UE — disse. Os principais candidatos na eleição presidencial da Holanda

oglobo.globo.com | 13-03-2017

RIO - “É isso mesmo?”. É com essa pergunta simples e direta que O GLOBO entra de cabeça na guerra contra a proliferação de notícias falsas, problema que vem ganhando força em todo o mundo e virou alvo de preocupação dos principais grupos de mídia dos Estados Unidos e da Europa. Com o objetivo de checar de discursos e anúncios de autoridades a boatos disseminados nas redes sociais, o time contará inicialmente com sete profissionais e será coordenado pelo jornalista Fábio Vasconcellos.

O embrião da iniciativa foi o “Preto no Branco”, usado pelo GLOBO nos últimos anos para fazer o chamado fact-checking (checagem de fatos). Na internet, o blog funcionou entre 2014 e 2015 e teve seu ápice durante as últimas eleições presidenciais no Brasil. Frederic Kachar, diretor-geral da Infoglobo, afirma que o movimento de notícias falsas (fake news) reforça a importância do jornalismo profissional praticado por empresas consagradas de mídia.

— Em quem vou confiar? O fake news mistura fatos verídicos com deduções. A checagem de dados é fundamental. E só um jornalista profissional pode fazer isso. Temos 92 anos de história que nos dão legitimidade para ser uma fonte segura de informação e conhecimento para as pessoas — destaca Kachar.

Kachar cita o fenômeno das redes sociais, onde a maior parte dos boatos se prolifera. Segundo ele, esses ambientes devem ser usados não apenas como canal de distribuição de conteúdo, mas também para buscar pautas.

— Se pautar nas redes sociais é participar dessas conversas. É entender os dramas e voltar com as respostas. Antes você tinha que ir para a rua ouvir o que as pessoas estavam falando. Hoje você tem também as redes sociais — diz Kachar.

Ascânio Seleme, diretor de Redação do GLOBO, afirma que o objetivo do novo time é dar ao leitor condições para que ele tome decisões confortáveis para o seu dia a dia.

Produtos GLOBO

— Queremos ajudar o consumidor, com os nossos produtos, a tomar decisões corretas na sua vida, informando o que é falso ou verdadeiro. Isso é imprescindível, porque quando o leitor toma uma decisão sobre o que comer, o que vestir, onde investir o dinheiro, a escolha da escola para os filhos, se ele estiver bem informado, ele vai tomar decisões com mais conforto e com mais chance de acertar — explica Seleme.

O grupo vai ainda orientar todos os jornalistas da Redação a fazer checagens.

— Existem mais de cem iniciativas de fact-checking em 47 países, e essa é uma atividade, sem dúvida, importante. Em um mundo hiperconectado, com disseminação em massa de boatos, é fundamental que possamos checar informações e responder ao leitor de forma rápida e precisa: é isso mesmo? Outra coisa importante é que vamos continuar com o nosso Núcleo de Jornalismo de Dados, que busca e trata dados abertos para a produção de reportagens e análises — afirma Vasconcellos.

No mundo, as notícias falsas ficaram em evidência em dois momentos recentes. No referendo para votar se o Reino Unido sairia ou não da União Europeia, conhecido como Brexit, informações desencontradas se proliferaram pela internet. Nas eleições dos EUA, uma onda de boatos tomou conta da rede, interferindo na campanha. O atual presidente, Donald Trump, ele próprio, usou as redes sociais para espalhar boatos, como o que colocava em dúvida a autenticidade da certidão de nascimento do ex-presidente Barack Obama.

No Brasil, um exemplo recente ocorreu por ocasião da morte de Teori Zavascki, então ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), após a queda de um avião em janeiro deste ano em Paraty, no Rio de Janeiro. Inúmeras teorias da conspiração foram disseminadas, e O GLOBO foi a campo, mostrando o que era mentira, verdade e o que ainda precisava ser investigado em formato de perguntas e respostas. Dessa forma, mostrou que não havia elementos técnicos que reforçassem esses boatos.

Além do GLOBO, o “Extra” vai ter o seu próprio grupo de checagem de dados, chamado de “#Éverdade#Éboato”. Octavio Guedes, diretor de Redação do “Extra”, lembra que em 2010, às vésperas da ocupação do Complexo do Alemão, o Twitter e o Facebook foram tomados por falsas informações de ataques de traficantes a civis, alarmando a sociedade. Por sugestão do editor Fabio Gusmão, o “Extra” montou um time que, durante cinco dias, trabalhou 24 horas informando o que era verdade e o que era boato.

— Foi uma vacina contra as mentiras virais. O serviço virou referência, e o selo “#Éverdade#Éboato” passou a fazer parte editorial do “Extra”. A diferença de 2010 para hoje é que as crises provocadas por falsas notícias deixaram de ser pontuais para virarem permanentes. Para novos desafios, nada como pôr em prática o velho e bom jornalismo. O jornalismo é, em sua essência, a checagem de fatos. Pode parecer uma contradição a criação de um grupo especializado neste serviço, já que a correção da informação é um dever de toda Redação. Mas a Era Digital, que é muito bem-vinda, deu substância e agilidade a boatos, teorias da conspiração e mentiras, criando oportunidades para o jornalismo profissional defender com mais ênfase seu maior patrimônio, a credibilidade — diz Guedes.

oglobo.globo.com | 12-03-2017

BERLIM — Na contramão da sua tradição histórica, conhecida por receber judeus que fugiam da perseguição nazista e como um país progressista e liberal, a Holanda acompanha com suspense a expansão da extrema-direita e do racismo, o que pode ganhar contornos ainda mais fortes com a possível eleição de Geert Wilders, candidato do Partido da Liberdade (PVV), na próxima quarta-feira. Ao contrário de outros países onde a extrema-direita cresce, a Holanda não sofreu um atentado terrorista, não tem uma alta taxa de desemprego nem enfrenta uma crise econômica, daí a surpresa com o descontentamento da população com os partidos tradicionais e o impulso que o movimento vem tomando desde o início do século. Holanda

Embora todos os partidos, inclusive o conservador do primeiro-ministro Mark Rutte (DVV), já tenham recusado de antemão qualquer tipo de aliança com Wilders, uma vitória do PVV é vista por analistas políticos como ameaça para a União Europeia. Não só pelo fato de o candidato defender a saída do país do bloco como porque poderia causar reflexos nas eleições francesas, em abril.

— O sucesso da extrema-direita na Holanda é um enigma que desperta, de novo, muitas indagações sobre a identidade nacional do povo holandês — lembra o escritor Geert Mak.

A enorme popularidade do político, que tem como principal meta o fechamento das fronteiras contra a entrada de imigrantes, é vista como uma contradição, ainda mais porque trata-se de um país que deve a sua riqueza à indústria de exportação, com crescimento do PIB e baixa dívida externa. Apesar disso, muitos citam a imigração — e o temor de perder seu emprego para estrangeiros — para justificar o voto em Wilders.

— Os eleitores da extrema-direita não são os pobres no sentido clássico, mas aqueles que têm medo de ficar pobres — afirma Philipp Krämer, cientista político da Universidade Livre de Berlim.

Info - Holanda crise econômica

Os analistas estão divididos sobre se o racismo e a xenofobia aumentaram em consequência de Wilders ou se ocorreu o contrário, ou seja, o candidato é um produto dessa mudança. Para a antropóloga e socióloga Gloria Wekker, da Universidade de Utrecht, autora do livro “White innocence” (“Inocência branca”), o racismo é produto da própria cultura colonial, embora tenha piorado nos últimos anos com novos elementos.

— O racismo faz parte da história do passado colonial holandês e do presente — diz a especialista.

Para Wekker, nascida em Paramaribo, capital do Suriname (ex-Guiana Holandesa), há 67 anos, o que mudou foi o alvo da discriminação. Antes, eram os imigrantes das ex-colônias que precisavam conviver com o racismo, sem que o problema fosse abordado diretamente. Hoje, há também uma reação contra os muçulmanos, que já representam 5% da população.

— O racismo nunca deixou de fazer parte da sociedade holandesa. Os séculos de história colonial deixaram suas marcas. O que mudou foi que o racismo ficou mais ostensivo — diz.

Já o filósofo Luuk van Middelaar observa uma mudança brusca nos últimos 20 anos, o que tornou o fenômeno Geert Wilders possível.

— Tudo começou com o assassinato do político Pim Fortuyn e do cineasta Theo van Gogh — aponta Middelaar.

Fortuyn — assassinado em 2002 por um holandês que o via como ameaça aos direitos das minorias — liderava um partido anti-imigração e criticava o crescimento da população muçulmana no país. Nessa época, começavam a se formar comunidades de estrangeiros nas periferias das grandes cidades, como em Zuidoost, no Sudoeste de Amsterdã. Dois anos depois, o cineasta Theo van Gogh, que também criticava a imigração muçulmana, foi morto por um holandês de origem marroquina. Os principais candidatos na eleição presidencial da Holanda

Em um país de 17 milhões de habitantes, sendo que 19% são allochthon (pessoas de origem estrangeira), o abismo entre as etnias tornou-se cada vez maior. Para conter a extrema-direita, o governo começou a atender exigências. Da antiga política liberal de imigração, surgiu uma das mais rigorosas da Europa.

— Os imigrantes são hoje tratados como gente de segunda classe — critica Selcuk Öztürk, filho de turcos e cofundador do Denk (pense), partido dos imigrantes.

Para alguns, a xenofobia seria resultado também de um déficit de identidade nacional. Como disse certa vez a rainha Máxima, argentina casada com o rei Willem Alexander, o país, como uma fonte de identidade nacional, não existe. Ainda princesa, ela afirmou que o Norte é quase escandinavo; o Leste, meio alemão; Maastricht, francesa; enquanto as cidades de Randstad se identificam com o litoral atlântico.

— Com a globalização e o neoliberalismo, os holandeses voltam a tentar descobrir uma resposta para uma pergunta antiga: quem somos nós — diz o escritor Geert Mak, autor de “Pânico moral”.

Segundo Carola van Rihn, da NBTC Holland Marketing, muitos imigrantes já começaram a deixar o país com medo do efeito Wilders.

Lodewijk Asscher, vice-premier e candidato do Partido do Trabalho (PvdA), que encolheu em proporção igual à do crescimento da extrema-direita, observa que o país mudou nos últimos anos. Seu bisavô era Abraham Asscher, comerciante de diamantes que durante a ocupação nazista foi obrigado a organizar a deportação de outros judeus, como Anne Frank, a adolescente que ficou conhecida através do seu diário.

“Poderíamos dizer que a História se repete. De novo, os social-democratas perdem com uma coalizão de governo mal sucedida”, escreveu o jornal judaico “Jüdische Allgemeine”.

oglobo.globo.com | 12-03-2017

LONDRES - Recentemente, a ONU declarou que o número de pessoas deslocadas chegou a números sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial: 65 milhões de pessoas até 2015. Mas, um estudo da revista científica “Nature” indica que fluxos passados já foram tão altos quanto os de agora. Segundo o relatório, os dados — que teriam ajudado a criar o clima de medo que ajudou a eleger Donald Trump nos EUA e foram decisivos na vitória do Brexit no Reino Unido — incham ou encolhem, dependendo do contexto político.

— Uma manchete que dizia que 710 mil migrantes entraram na UE nos primeiros nove meses de 2015, por exemplo, não era totalmente verdadeira. A Frontex (agência europeia de fronteiras) contava as mesmas pessoas duas ou três vezes e até mais. Por exemplo, uma pessoa registrada ao chegar à Grécia e deixar a UE indo para a Albânia era recontada ao entrar novamente no bloco por outro país — explica à “Nature” Nando Sigona, cientista social da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, que participou do estudo.

Subjetividade também entra na equação, relata a revista, já que diferentes países muitas vezes têm diferentes definições sobre refugiados. Os especialistas advertem ainda sobre interpretações errôneas sobre imigrantes internacionais — aqueles que se deslocam por razões econômicas ou outras. Segundo o estudo, os dados também podem ser problemáticos, já que os números mais amplamente citados da ONU são cumulativos. A conclusão é que o temor com uma suposta invasão de refugiados ajudou a eleger Trump e pode ter influenciado eleitores que votaram pela saída do Reino Unido da União Europeia (UE).

— O suposto aumento da imigração e deslocamento forçado nos diz mais sobre o pânico moral sobre o tema do que a realidade — afirma Sigona. info-refugiados

Migração se manteve estável

O relatório sugere que a situação é muito diferente de como é frequentemente retratada: nos últimos anos, por exemplo, o número de refugiados chegou a níveis similares aos do começo da década de 1990, quando conflitos em países da África Ocidental, na República Democrática do Congo, em Ruanda e Iraque levaram a um enorme fluxo de refugiados.

“A má interpretação e a falsa apresentação de dados sobre os movimentos populacionais são abundantes”, diz o editorial da revista britânica. “Em resumo, a coleta de dados confiáveis sobre refugiados e migrantes é difícil”. Refugiados

Especialistas também questionaram avaliações como as realizadas pelo Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur) — que em 2015 declarou que o mundo estava “testemunhando os mais altos níveis de deslocamento registrados”. Para os pesquisadores, tais estimativas não são totalmente confiáveis. Por exemplo, o Acnur revelou que o ano de 2015 bateu recordes: foram 21,3 milhões de refugiados. Mas o valor é apenas ligeiramente mais alto que o de 1992 (20,6 milhões), quando a população global era dois terços da de hoje.

— O número de pessoas migrando se manteve estável nos últimos 50 anos — afirma Guy Abel, estatístico do Instituto de Demografia de Viena, que estudou o fluxo ao longo das últimas décadas.

A “Nature” revela também que o número de refugiados e migrantes que entraram na UE é baixo em comparação com a população do bloco, e que nações em África e Ásia vêm absorvendo muito mais deslocados. Neste ponto, os dados batem com um novo relatório do Acnur, que indica que países de renda média ou baixa abrigaram a maior parte dos 3,2 milhões de refugiados no primeiro semestre de 2016.

Segundo a agência da ONU, mais da metade dos deslocados por conflitos no período foi vítima da guerra na Síria — a maioria para países próximos como Jordânia, Líbano e Egito. De todas as nações, a Turquia foi a que acolheu o maior número de migrantes, num total de 2,8 milhões de refugiados.

— O número de refugiados na Europa é um exemplo clássico de percepção versus realidade — argumenta o geógrafo Nikola Sander, da Universidade de Groningen, na Holanda.

oglobo.globo.com | 03-03-2017

As imagens do Maracanã abandonado, com o gramado morto e instalações deterioradas, e da piscina enlameada do Parque Olímpico ganharam o mundo e tiveram importante papel na desistência de Budapeste, que era candidata a sediar os Jogos de 2024.

O relato é de Tamás Boros, um dos mais requisitados comentaristas políticos da Hungria. Co-diretor e chefe de estratégia do Policy Solutions, um “think tank” de inclinação progressista baseado em Bruxelas e Budapeste, o cientista político publica com frequência artigos sobre euroceticismo, extremismo e política húngara.

LEIA MAIS: Escolha do Rio-2016 teve propina de envolvido na Calicute, diz Le Monde

Maracanã - 26.01

— O Movimento Momentum e as pessoas que se opunham à candidatura usaram o Rio como exemplo dissuasivo para convencer os cidadãos húngaros de que organizar os Jogos acarretaria um desastre financeiro. Os mais importantes argumentos foram o estouro de orçamento do Rio, mas as imagens das arenas e estádios degradados se tornaram memes nas redes sociais da Hungria — conta Boros, por e-mail.

Por quanto tempo houve debate público na Hungria sobre sediar os Jogos de 2024?

A discussão sobre disputar os Jogos começou em 2014. Foi exatamente quando o COI adotou a Agenda 2020, que se propõe a permitir que cidades menores, de 2 milhões a 3 milhões de habitantes, organizem a Olimpíada. O Comitê Olímpico Húngaro confiava que, a partir desse programa, as chances de Budapeste cresceriam. Contudo, organizar os Jogos Olímpicos em Budapeste era um velho ideal político do partido governista de direita, o Fidesz. Desde 2001, o então primeiro-ministro Viktor Orbán começou uma campanha de cidade-sede, mas, com sua derrota nas eleições gerais de 2002, a meta caiu para segundo plano. Embora os partidos de esquerda apoiassem a ideia em teoria, eles acreditavam que não se tratava de uma prioridade para a Hungria, e assim permaneceu até 2010.

Quando Orbán voltou ao poder e, com isso, a prioridade olímpica se reacendeu.

Exatamente. Esportes, principalmente o futebol, são pessoalmente importantes para o primeiro-ministro. Nos últimos anos, o governo gastou centenas de milhões de dólares para construir novos estádios de futebol — todos frequentemente vazios, dado o desinteresse atual pelo futebol. Essas obras estão entre as poucas iniciativas em que o governo habitualmente populista de Orbán operou contra a opinião pública. Os novos estádios são impopulares até mesmo entre os eleitores governistas. A questão olímpica também divide os budapestinos. De acordo com as pesquisas, 57% dos cidadãos da capital são contrários à candidatura olímpica, contra 38% a favor. Como os principais partidos concordavam com a candidatura, Orbán acreditava que poderia resolver a questão sem um enorme apoio popular.

O referendo surge de um iniciativa popular liderada pelo Movimento Momentum. Pode nos explicar quem são esses agentes?

O Momentum é um movimento político de “millenials”, que apareceu no cenário há poucos meses. Consiste principalmente de jovens com alto padrão de educação — muitos de seus líderes trabalharam ou estudaram na Europa Ocidental. O Momentum percebeu que os Jogos de Budapeste estavam entre as poucas questões simbólicas em que Orbán se colocava contra a vontade popular, e então começaram a colher assinaturas em Budapeste para convocação de um referendo sobre os Jogos. É um movimento muito peculiar, no sentido de que nos últimos anos a Europa assistiu à ascensão de partidos populistas de direita e de esquerda, enquanto o Momentum se apresenta como aberto, tolerante e de centro. Além disso, foi uma enorme surpresa política ver que a juventude húngara, antes tida como apática, se motivou a ajudou este movimento com centenas de ativistas e dezenas de milhares de assinaturas.

E por que o governo desistiu tão rápido de enfrentar o referendo?

No momento em que Orbán percebeu que o referendo sobre os Jogos monopolizaria a agenda política por meses, ele decidiu recuar da candidatura, em conjunto com o prefeito e o Comitê Olímpico Húngaro. Foi uma decisão política, uma vez que o primeiro-ministro não queria que outros movimentos políticos tivessem um impulso.

Foi feito um estudo sobre como os Jogos impactariam os cofres de Budapeste? Seria possível trazer o setor privado para colaborar com a sede?

A consultoria PriceWaterhouse Coopers foi incumbida pelo governo de produzir um estudo de impacto dos Jogos. O estudo sublinha que dinheiro da União Europeia poderia ser investido no projeto, mas o setor privado não era uma prioridade do documento.

oglobo.globo.com | 03-03-2017

LONDRES - O governo da premier Theresa May sofreu sua primeira derrota na Câmara dos Lordes, numa decisão que deve atrasar o início da saída britânica da União Europeia (o Brexit). A maioria dos membros da Câmara Alta do Parlamento votou a favor de uma emenda à lei — o que obrigaria o governo a apresentar sugestões para proteger os direitos dos cidadãos da União Europeia (UE) residentes no Reino Unido, no espaço de três meses após a ativação da saída do país do bloco.

Com o resultado, a emenda terá que voltar à Câmara dos Comuns, de maioria governista. Mesmo assim, é o primeiro grande baque do governo, que disse estar “desapontado” com a derrota. Brexit & may

A saída da União Europeia foi aprovada com maioria na Câmara dos Comuns, mas, para receber o carimbo que a torna lei, precisava passar pelas duas câmaras. O processo legislativo faz com que propostas de alteração funcionem como uma bola de pingue-pongue — termo pelo qual é conhecida a alternância — até ser encontrado um consenso. Agora, a ativação do Artigo 50 do Tratado de Lisboa, que deveria acontecer até o fim do mês, deve atrasar pelo menos uma semana.

A emenda, apresentada pela trabalhista Dianne Hayter, mas também apoiada por liberais, independentes e alguns conservadores, exige que os cidadãos europeus que já vivam legalmente no Reino Unido continuem a ser tratados da mesma forma depois do Brexit. A proposta venceu com 358 votos a favor e 256 contra — uma diferença de 102 parlamentares.

Keir Starmer, responsável pelo Brexit na oposição, lembrou que há um consenso crescente sobre a questão:

— A primeira-ministra está cada vez mais isolada. Os trabalhistas continuarão apoiando a mudança na Câmara dos Comuns — ressaltou.

De acordo com a emenda legislativa, “os ministros devem trazer propostas para garantir que os cidadãos de outros países da União Europeia e seus familiares que residirem legalmente no Reino Unido no dia da aprovação do ato continuem a ser tratados da mesma forma no que diz respeito a seus direitos enquanto cidadãos europeus”.

Ao longo de três horas de debate, muitos lordes defenderam que o Parlamento deveria garantir que os três milhões de cidadãos da UE que residem no Reino Unido possam ficar. Hayter abriu a discussão, alegando que o governo tinha o poder de agir agora sobre a questão:

— Em 1985, meu amigo Neil Kinnock disse a seu próprio partido: ‘Você não pode jogar a política com o empregos das pessoas’ — lembrou, pedindo que governo aja imediatamente para acabar com a incerteza. — Os residentes europeus no país precisam saber agora, não dentro de dois anos ou de 12 meses, qual será sua situação. Eles precisam fazer planos para a escola dos filhos, para mudar de emprego, alugar ou comprar uma casa. Muitos precisam de tratamento e muitos outros trabalham inclusive na saúde pública.

O ex-ministro conservador Douglas Hogg pediu que o governo adote uma “posição moral na campanha”, e advertiu que atacar os direitos dos residentes europeus pode levar a uma longa disputa legal.

— Uma garçonete francesa no Parlamento me perguntou o que iria acontecer com ela. Eu lhe dei minha opinião pessoal, dizendo que achava que não haveria nenhum problema após o Brexit, mas disse não ser capaz de lhe dar a garantia que acho que ela merece.

O ex-juiz Harry Woolf também afirmou ser uma questão moral.

— É melhor ser resolvida no Parlamento e não nos tribunais.

Os apoiadores do governo argumentaram que se tratava de uma “simples lei” e que a melhor opção era aprová-la o mais rapidamente possível.

— Temos que aprová-la o quanto antes para para ativar o Artigo 50 — defendeu o arcebispo de York, John Sentamu.

oglobo.globo.com | 02-03-2017

HAIA - Com a extrema-direita nacionalista do Partido da Liberdade (PVV) à frente das eleições do próximo mês na Holanda, o primeiro partido do país liderado por imigrantes espera vencer a tendência populista xenofóbica. Mesmo com poucas perspectivas de uma grande representação no Parlamento, o Denk (“Pense”, em holandês) assumiu o lema de combater o “racismo institucional” ao criar um registro nacional de frases e expressões racistas, trocar o termo “integração” por “aceitação” e cobrar um pedido oficial de desculpas do governo pelos laços do país com o tráfico de escravos, no passado.

O Denk foi lançado em 2015 por dois deputados expulsos do Partido Trabalhista numa disputa sobre suas políticas migratórias. Agora, quer se apresentar para o pleito de 15 de março como a “única resposta verdadeira” ao discurso anti-imigração e anti-islamismo do deputado anti-islamista Geert Wilders, líder do PVV. O principal argumento do partido é a ideia de que muçulmanos são “demonizados depois de anos de slogans e ataques de Wilders”, disse Geerten Waling, da Universidade de Leiden.

— Enquanto o partido de Wilders é o partido do homem branco irritado, você poderia dizer que o Denk é o partido do homem mulato irritado — avaliou o pesquisador político Aziz el Kaddouri, citado na mídia holandesa. — Eles sentem que foram abandonados.

Cenário fragmentado

Um colosso de 28 partidos compete pelas cédulas de 12,9 milhões de eleitores em março — um cenário político fraturado em um país já acostumado a governos de coalizão. O Denk, por sua vez, espera ganhar o apoio de alguns dos dois milhões de holandeses que têm pelo menos um pai nascido fora ou que sejam da União Europeia.

Pesquisas de opinião dizem que a legenda poderia alcançar um a dois assentos na Câmara baixa do Parlamento, de 150 assentos. Segundo uma pesquisa do Instituto EtnoBarómetro, cerca de 40% das pessoas de origem turca e 34% daquelas de raízes marroquinas votarão no Denk.

Embora o Denk e o PVV sejam ideologicamente de polos opostos, têm paralelos. Ambos foram fundados por deputados que deixaram partidos tradicionais; são muito ativos em mídias sociais; o Denk ataca regularmente a imprensa, como faz Wilders, e recorre a frases sensacionalistas para atrair manchetes. O partido também não tem medo do confronto — seu líder Tunahan Kuzu ganhou o noticiário ao se recusar, em nome dos palestinos, a cumprimentar o premier israelense, Benjamin Netanyahu.

— Eles certamente têm uma abordagem populista — avaliou o analista político Sjaak Koening, da Universidade de Maastricht.

Críticos afirmam que o Denk usa táticas agressivas como as de Wilders, citando um “tom divisivo” e a simpatia da legenda pelo presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, — ao mesmo tempo em que se associa à grande comunidade conservadora turca. Mas outro dos líderes da sigla, Farid Azarkan, garante que quer liderar “o partido de todos os holandeses”.

— Se Wilders publica uma imagem editada de um rival, não é polarização? Se um partido cristão diz que seu Deus é melhor do que o nosso, não é polarização? Se os jovens são excluídos da sociedade porque são muçulmanos, não é polarização? — questionou. — Queremos nosso lugar na democracia. (Da AFP)

oglobo.globo.com | 27-02-2017

Links Cinema 2602RIO — Morreu neste sábado, aos 36 anos, de ataque cardíaco, o britânico Neil Fingleton. Com 2,32m, ele era o homem mais alto da União Europeia, o maior já nascido Reino Unido e figurava entre os 25 homens mais altos do mundo. Por conta de sua estatura impressionante, fez alguns papéis em produções audiovisuais. O mais importante deles foi na série "Game of thrones", em que interpretou o gigante Mag o Poderoso.

Ele também fez participações na série "Doctor Who" e nos filmes "X-Men: Primeira classe" (2011) e "vingadores: Era de Ultron" (2015).

Segundo o site "TMZ", Fingleton foi jogador de basquete tanto na faculdade quanto profissionalmente, antes de virar ator. Ele jogou na Universidade da Carolina do Norte e na Holy Cross. Como profissional, atuou em clubes de menor expressão em países na Espanha, China, Itáli,a Grécia e Inglaterra.

Como Mag, ele apareceu no nono episódio da quarta temporada, "The watchers on the wall", em que contracenou com outro gigante, Dongo, interpretado por Ian Whyte.

oglobo.globo.com | 26-02-2017

BERLIM — Assustados e surpresos com a ascensão da extrema-direita, partidos progressistas começaram a reagir e a formar alianças para tentar frear seu avanço na Europa, num ano em que franceses, holandeses e alemães vão às urnas escolher seus próximos governantes. A estratégia de contra-ataque é pragmática e inclui até a aproximação com legendas de centro — todos reunidos, entre outros motivos, no intuito de preservar a União Europeia do ataque dos populistas de direita..

Na França, o abalo provocado por Marine Le Pen, da Frente Nacional (FN), uma forte candidata nas eleições de abril à Presidência, já fez com que François Bayrou, três vezes candidato ao Palácio do Eliseu, desistisse da corrida na quarta-feira passada. O veterano presidente do partido centrista Movimento Democrata declarou seu apoio ao independente Emmanuel Macron, justificado com a alegação de que o país corre “um risco extremo” que necessita de “respostas excepcionais”. Segundo o político verde Daniel Cohn-Bendit, que vive entre a França e a Alemanha, o único candidato com condições de evitar a “catástrofe europeia”, como descreve uma vitória de Le Pen, seria Macron, ex-ministro da Economia.

— Macron é o político que tem mais chances de frear os populistas. Em um segundo turno, ele se uniria ao candidato socialista (Benoit Hamon) — prevê Cohn-Bendit.

Toda a Europa acompanha com suspense o que vai acontecer na Holanda no próximo dia 15. Uma frente foi formada contra Geert Wilders, do Partido da Liberdade (PVV), um candidato antimuçulmano, anti-imigrante e anti-União Europeia. Para o cientista político Maurice de Hond, Wilders será o mais votado, mas isso não é garantia de que possa formar o governo. O premier Marc Rutte, do partido conservador liberal VVD, já adiantou que não aceitaria uma aliança com a extrema-direita. Depois da queda dramática do entusiasmo dos holandeses pela UE, Rutte é, porém, apenas um espectador do sucesso do líder populista que compara o Alcorão ao livro de Hitler “Mein Kampf”.

TEMOR DE REAÇÃO EM CADEIA

Com poucas chances, mas decididos a salvar a UE dos radicais, o GroenLinks (Verde Esquerda), de Jesse Klaver, está disposto a se unir aos liberais do D66 para frear Wilders. Se o “Trump holandês”, como é conhecido, ganhar, há o risco de uma reação em cadeia, temem analistas políticos. E se Le Pen for eleita na França, os dois países poderiam declarar sua saída da UE, uma decisão que provocaria graves consequências em todo o bloco e poderia atingir o euro.

Em toda a Europa são traçados cenários para evitar o terremoto, que não se restringe a França e Holanda. A esquerda alemã vai se unir nas eleições do dia 24 de setembro contra dois adversários: a extrema-direita e Angela Merkel. Para tirar a chanceler federal do governo, depois de quase 12 anos, o Partido Social Democrata (SPD) lançou Martin Schulz, ex-presidente do Parlamento Europeu, que tenta formar uma aliança de três partidos progressistas unindo SPD, os ex-comunistas e os verdes. O outro objetivo é barrar o crescimento do Alternativa para a Alemanha (AfD), de extrema-direita. Para isso, Schulz já começou a adotar um estilo bem mais progressista do que tinha Gerhard Schröder, ex-chanceler federal e colega de partido. Ele já antecipou que vai rever o programa de cortes sociais de Schröder, a Agenda 2010.

Na tentativa de frear radicais, os partidos europeus têm como modelo Bélgica e Suécia, onde a experiência de grandes alianças já começou a funcionar, incluindo o centro. Depois que os populistas dos Democratas Suecos (SD) galoparam nas pesquisas, alcançando 20% das previsões de votos, os dois principais blocos — do Partido Social Democrata com o Verde, de governo, e o conservador (formado por quatro partidos) — fecharam um acordo para que a aliança mais votada possa formar o governo, mesmo sem ter maioria. Nesse cenário, o atual governo “vermelho/verde” (social-democrata/verdes) é tolerado pela aliança conservadora. Trata-se da primeira ação do gênero.

Na Bélgica, que tem um cenário bastante complexo devido à divisão das agremiações entre as regiões de idioma francês e holandês, a ameaça da extrema-direita também vem sendo evitada por meio de alianças. O bloco conservador do primeiro-ministro Charles Michel — democracia cristã, liberais e nacional-democratas (CD&V,N-VA e VLD) — e o progressista Partido do Trabalho (PTB), atualmente de oposição, conseguiram frear o avanço de Vlaams Belang, separatista e de extrema-direita.

Mas a cientista política belga Chantal Mouffle, professora de Teoria Política da Universidade de Westminster, em Londres, defende que só é possível combater o inimigo, o populismo da extrema-direita, usando a mesma arma.

— Precisamos de um populismo da esquerda para salvar a Europa da ameaça da extrema-direita — diz a analista, que considera o populismo um instrumento da democracia.

Na França, Macron parece ser a concretização da teoria de Chantal. Jovem, bonito e carismático, o “Kennedy do Sena”, que registra um aumento de popularidade, tornou-se a principal arma para evitar uma presidente Le Pen, depois do desgaste do candidato do partido Os Republicanos, François Fillon, e da letargia dos socialistas, um legado deixado pela impopularidade de François Hollande.

A cientista política afirma que esse populismo como arma de contra-ataque pode ser visto também no Syriza, do premier grego, Alexis Tsipras, ou no Podemos, de Pablo Iglesias, na Espanha. Já na Itália, outra nação que pode contribuir para a perspectiva sombria de “desmoronamento da UE”, como receia Sigmar Gabriel, ex-presidente do SPD e ministro das Relações Exteriores, o populismo é quase exclusivo da extrema-direita, da Liga Norte — ou do Movimento Cinco Estrelas de Bepe Grillo.

OPOSIÇÃO ESTÁ ENFRAQUECIDA

Oskar Niedermeyer, da Universidade de Berlim, lembra que a extrema-direita encontra chances de crescer quando os partidos democráticos deixam de ser vistos como uma opção.

— Os conservadores e os social-democratas perderam os seus contornos ideológicos — critica.

Também no Leste Europeu, partidos começaram a adotar uma política mais agressiva contra populistas. Depois de quase dez anos de governo de Viktor Orbán, os socialistas húngaros vão tentar derrubá-lo nas eleições do próximo ano. Mas o cientista político Peter Kreko, de Budapeste, afirma que a oposição continua fraca e que Orbán precisa temer mais a ameaça que vem da sua direita:

— Na Hungria, aliança progressista não avançou.

Orban pode ser ultrapassado pelo partido Jobbik, ainda mais conservador, que nos últimos meses tenta se livrar da imagem de racista.

oglobo.globo.com | 26-02-2017

Em um mês, o presidente americano, Donald Trump, conseguiu espalhar caos e incertezas — e um grau de temor que faria qualquer terrorista orgulhoso — num ritmo estonteante. Compreensivelmente, cidadãos e líderes em negócios, sociedade civil e governo estão lutando para reagir de forma apropriada e efetiva.

Qualquer visão com respeito a seguir em frente é necessariamente profissional, à medida que Trump ainda não propôs uma legislação detalhada, e o Congresso e as cortes ainda não reagiram integralmente à sua avalanche de ordens executivas. Mas reconhecer incertezas não é desculpa para negação.

Pelo contrário, está agora claro que o que Trump diz e tuíta deve ser considerado com seriedade. Após as eleições de novembro, havia uma esperança quase universal de que ele abandonasse o extremismo que definiu sua campanha. Pensou-se que este mestre da irrealidade adotaria uma persona diferente quando assumisse a maravilhosa responsabilidade do que é comumente chamado de posto mais poderoso do mundo.

Algo similar ocorre com cada novo presidente americano: independentemente de termos ou não votado no novo mandatário, projetamos nele nossa imagem do que queremos que ele seja. Mas, embora a maioria dos eleitos gostem de ser todas as coisas para todas as pessoas, Trump não deixou espaço para dúvida de que ele pretende fazer o que disse: proibir a imigração muçulmana, um muro na fronteira com o México, renegociação do Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta), rejeição da lei Dodd-Frank de regulação do mercado financeiro, entre outras coisas.

Tenho, vez por outra, criticado aspectos específicos e políticas da ordem econômica e de segurança criadas após a Segunda Guerra Mundial, apoiadas em ONU, Otan, União Europeia e uma teia de outras instituições e relações. Mas há uma enorme diferença entre tentar reformar estas instituições para permitir que elas sirvam melhor ao mundo, e uma agenda que busca simplesmente destruí-las.

Trump vê o mundo em termos de um jogo de soma zero. Em realidade, a globalização, se bem administrada, é uma força positiva: os EUA ganham se seus amigos e aliados — seja a Austrália, a UE ou o México — são mais fortes. Mas a abordagem de Trump ameaça tornar o jogo numa soma negativa: os EUA também irão perder.

Esta abordagem ficou clara no seu discurso de posse, no qual a repetição da expressão “América em primeiro lugar”, com seus históricos sobretons fascistas, reforçou seu compromisso com seus piores esquemas. Governos anteriores sempre levaram a sério sua responsabilidade de fazer avançar os interesses dos EUA. Mas as políticas que eles buscaram em geral eram tangidas em termos de uma compreensão iluminada do interesse nacional. Os americanos, eles acreditavam, iriam se beneficiar de uma economia global mais próspera e uma rede de alianças entre nações comprometidas com a democracia, direitos humanos e a regra da lei.

Se há um fio de luz no nebuloso Trump, é o novo sentimento de solidariedade em relação a valores básicos, tais como tolerância e igualdade, sustentado pela consciência do fanatismo e misoginia, quer dissimulada ou aberta, que Trump e sua equipe abraçam. E esta solidariedade se tornou global, com Trump e seus aliados enfrentado rejeição e protestos em todo o mundo democrático.

Os principais veículos da mídia americana, como o “New York Times” e o “Washington Post”, até agora se recusaram a normalizar a rejeição de Trump aos valores americanos. Não é convencional para os EUA terem um presidente que rejeita a independência judicial; substitui as autoridades militares e de inteligência mais importantes na base da formulação de políticas de segurança nacional com um zelote da mídia da extrema-direita; e, em face dos mais recentes testes balísticos de mísseis da Coreia do Norte, promove os negócios de sua filha.

Mas, quando somos constantemente atormentados por eventos e decisões que estão além da normalidade, é fácil ficar atordoado e começar a olhar para além dos grandes abusos de poder. Um dos principais desafios nesta nova era será permanecer vigilante e, quando e onde for necessário, resistir.

Joseph E. Stiglitz é vencedor do Prêmio Nobel de Economia, professor da Universidade de Columbia e economista-chefe do Roosevelt Institute.

© Project Syndicate

oglobo.globo.com | 22-02-2017

ESTRASBURGO - A Eurocâmara aprovou nesta quarta-feira o acordo comercial da União Europeia com o Canadá, abrindo caminho a uma implementação provisória iminente deste espaço de livre comércio de 550 milhões de pessoas. Por 408 votos a favor, 254 contra e 33 abstenções, os eurodeputados deram sua aprovação ao acordo Acordo Econômico e Comercial Global (Ceta) e negociado por sete anos, após um debate de três horas marcado por uma série de duras críticas entre partidários e opositores do tratado.

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Bruxelas busca que este tratado comercial, negociado durante sete anos, se converta no modelo dos futuros acordos, como o negociado com o Mercosul, em um contexto de incerteza no comércio internacional depois da chegada de Donald Trump à Casa Branca.

Trump retirou seu país do Tratado Transpacífico de Cooperação Econômica (TPP) e anunciou sua intenção de renegociar o Tratado de Livre Comércio para América do Norte (Nafta), por considerá-lo especialmente generoso para com o México.

Em sua intervenção aos eurodeputados, a comissária europeia de Comércio, Cecilia Malmström, reiterou os benefícios do comércio internacional na economia e no comércio e defendeu os valores compartilhados com o Canadá, como a tolerância, os direitos humanos ou a luta contra o terrorismo.

— Construir muros não funciona — disse Malmström em uma referência velada a Trump. — O caminho são os acordos comerciais justos e equilibrados com parceiros que pensam como nós — acrescentou.

A direita e os liberais expressaram seu apoio ao acordo, frente à rejeição dos verdes, da extrema esquerda e da ultradireita. O grupo social-democrata votou dividido, sendo criticado por seu principal rival, o PPE, de direita.

Na próxima quinta-feira, será a vez do primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, defender na Eurocâmara reunida em Estrasburgo (nordeste da França) "o caráter singularmente progressista do acordo", nas palavras de seu gabinete.

'DESMANTELAR A DEMOCRACIA?’

O 'sim' da Eurocâmara abre caminho para a aplicação provisória deste acordo, em princípio a partir de abril, que deixaria de fora alguns dos aspectos mais controversos como o mecanismo de resolução de litígios que facilita que as multinacionais denunciem os Estados caso considerem suas políticas contrárias a seus interesses comerciais.

Embora Bruxelas defenda que esse tratado comercial suprimirá 99% das tarifas e implicará em uma economia de € 500 milhões para os exportadores europeus, seus críticos alegam que o acordo é perigoso para o meio ambiente e para os agricultores europeus, enquanto seria demasiadamente favorável às multinacionais.

Vários opositores ao tratado, tanto membros de ONGs como de partidos de esquerda, bloqueavam deitados no chão a passagem à sessão plenária, que atrasou alguns minutos.

Frases como "Dizer sim ao Ceta é pisotear o povo" e "Desmantelar a democracia? De maneira nenhuma" podiam ser lidas em cartazes carregados pelos manifestantes. Cerca de 700 pessoas protestaram nas ruas de Estrasburgo, segundo a polícia.

Vários estudos contestam os aparentes benefícios do acordo, como o da universidade americana de Tufts, perto de Boston, que estima que o Ceta "implicará a perda de 230 mil empregos até 2023", e 200 mil na UE.

Para sua entrada em vigor completa e definitiva, o acordo deverá ser ratificado pelos parlamentos nacionais e alguns regionais dos 28 países da UE, um longo trâmite de anos com final incerto.

oglobo.globo.com | 15-02-2017
O objectivo da iniciativa é aproximar os jovens da União Europeia, das suas políticas e instituições.
www.publico.pt | 15-02-2017

SEUL E PALM BEACH, EUA — O primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, estava a quilômetros de distância, ao lado da família do presidente americano, Donald Trump, em seu resort de golfe, na Flórida, mas o líder norte-coreano, Kim Jong Un, deu um recado em alto e bom som ao disparar um míssil balístico na manhã de domingo — no que seria o primeiro teste da Coreia do Norte do ano e o primeiro grande desafio ao novo chefe de Estado americano. Em uma breve aparição conjunta após o teste, Trump e Abe falaram de uma “frente unida”. Coreia_1302

Para Carl Schuster, professor de Inteligência militar da Universidade Pacífica do Havaí e ex-diretor de operações do Comando do Pacífico, o teste é dirigido claramente ao Japão, mas é também uma mensagem forte aos EUA.

— O lançamento é mais significativo politicamente do que operacionalmente: é o primeiro desde que Trump tomou posse, e apenas 10 dias depois de (o atual secretário de Defesa, o general Jim) Mattis prometer que se uniria a japoneses e sul-coreanos contra a ameaça nuclear norte-coreana.

No domingo, um membro da equipe do presidente lembrou que o lançamento “não é uma surpresa, mas uma provocação” da Coreia do Norte — algo que já era esperado pelo novo governo.

— O líder norte-coreano gosta de chamar a atenção em momentos como este — afirmou o funcionário americano, sob anonimato, afirmando que a Casa Branca vai estudar possíveis reações, numa resposta que deverá ser gradual “para evitar escalada nuclear”.

O porta-voz do Ministério da Defesa da Coreia do Sul também citou uma provocação armada para testar a resposta do novo governo dos Estados Unidos:

— Parece que o lançamento foi realizado para chamar a atenção e mostrar o aumento das capacidades nucleares e de mísseis da Coreia do Norte.

Classificando o lançamento como “absolutamente intolerável”, o premier japonês pediu ao regime de Pyongyang que cumpra as resoluções do Conselho de Segurança da ONU — que lhe proíbem o desenvolvimento nuclear militar e limitam a tecnologia de mísseis. Trump, por sua vez, evitou mencionar o teste em si, mas reafirmou a aliança entre os EUA e o Japão:

— Quero que todos entendam e estejam cientes de que os EUA apoiam o Japão, seu maior aliado, em 100% — reiterou o presidente americano, que na sexta-feira já havia ressaltado a aliança, em clara mudança do tom da campanha.

PROJÉTIL DE ALCANCE INTERMEDIÁRIO

O míssil foi disparado às 7h55m (horário local) de domingo, a partir da região Oeste da Coreia do Norte. Segundo Pyongyang, um “míssil terra-terra de médio a longo alcance Pukguksong-2 (...) foi testado com sucesso”.

O míssil voou em direção ao Leste por 500 quilômetros, caindo no Mar do Japão. De acordo com a agência de notícias Yonhap, os militares inicialmente suspeitaram de um Musudan, míssil de alcance intermediário, projetado para uma extensão máxima de 3 mil a 4 mil km (com Guam e quase o Alasca em seu raio de cobertura). Pouco depois, no entanto, começaram a discutir a possibilidade de um míssil do tipo Rodong, cujo alcance oscila entre 900 e 1.400 quilômetros, de acordo com a carga transportada.

O Pentágono também confirmou tratar-se de um míssil de “alcance médio ou intermediário” — e não um verdadeiro ICBM, sigla que determina mísseis balísticos intercontinentais.

— É provável que o ICBM que desejavam lançar não estivesse pronto, então dispararam o que tinham. A intenção política é a mesma — disse Schuster.

“Acreditamos que a Coreia do Norte testou novos mísseis, após vários lançamentos fracassados no ano passado”, afirmaram, em nota, representantes do Comitê Conjunto dos Chefes de Estados-Maiores da Coreia do Sul.

Após o teste, o secretário-geral da OTAN, Jens Stoltenberg, exortou a Coreia do Norte a “não aumentar ainda mais as tensões e voltar a se comprometer com um diálogo com a comunidade internacional”. A União Europeia também se uniu às críticas, declarando em um comunicado que “o desrespeito contínuo de obrigações internacionais é inaceitável”.

Em sua mensagem de Ano Novo, o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, tinha anunciado que estava prestes a testar mísseis de longo alcance capazes de chegar aos EUA e de transportar ogivas nucleares. E apesar de estar em silêncio desde que Trump assumiu, jornais estatais têm enviado mensagens a Washington para que abandone sua “política hostil”.

O lançamento de mísseis serve a Kim como uma mensagem a adversários, lembrando inimigos sobre a capacidade militar da Coreia do Norte. Desde o início do ano passado, o país conduziu dois testes nucleares e diversos lançamentos de mísseis sem precedentes, o que é visto por especialistas como um progresso na habilidade militar do país. Em outubro, Pyongyang testou mísseis Musudan duas vezes, ambos disparados a partir da mesma base aérea de Banghyon.

Analistas divergem sobre o quão próximo Pyongyang está de realizar suas aspirações nucleares, mas todos concordam nos enormes avanços desde a chegada ao poder de Kim após a morte de seu pai, Kim Jong-il, em dezembro de 2011.

Na tentativa de enviar uma resposta à Coreia do Norte, no início do mês, Trump enviou o secretário de Defesa, Jim Mattis, a Tóquio e Seul, onde ele prometeu uma resposta ao uso de arma nuclear:

— Qualquer ataque contra os EUA ou nossos aliados será derrotado, e qualquer uso de armas nucleares receberá uma resposta eficaz e avassaladora.

Se durante a campanha, Trump afirmou que achava “injustos” os compromissos de defesa que os EUA tinham com o Japão e com a Coreia do Sul — ele chegou a pedir que Tóquio pagasse o custo das tropas americanas no seu território —, após eleito, mudou de discurso. Na sexta-feira, Abe foi recebido efusivamente na Casa Branca. Em entrevista conjunta, o americano ressaltou que a aliança entre os dois países era “muito, muito profunda”.

— A mensagem é que vamos reforçar e fortalecer nossas alianças vitais na região do Pacífico, como parte de nossa estratégia para dissuadir e impedir a crescente hostilidade que vimos nos últimos anos a partir do regime norte-coreano — disse Stephen Miller, consultor sênior de Trump à Fox News.

oglobo.globo.com | 13-02-2017

PARIS - Sua ascensão meteórica nas pesquisas justifica o frenesi dos ataques de seus adversários. Como a guinada radical à esquerda do Partido Socialista (PS) e o candidato da direita, François Fillon, enfrentando um escândalo de suposta corrupção, Emmanuel Macron, de centro, aparece cada vez mais como o favorito das eleições de 23 de abril. frança

A cerca de 80 dias do primeiro turno, o ex-ministro da Economia de François Hollande foi criticado alternadamente por seus rivais e acusado, entre outras coisas, de ser um “candidato vazio”. Ainda assim, esse fenômeno da política francesa, de 39 anos, ganhou seis pontos percentuais nas sondagens em menos de um mês. Com cerca de 22% das intenções de voto, Macron terminaria em segundo lugar no primeiro turno das eleições, atrás de Marine Le Pen, líder da Frente Nacional (FN), com 25%. Nesse cenário, venceria o segundo turno com 63% contra 37% da candidata da extrema-direita, que pretende seguir os passos de Donald Trump, dando fim à imigração, deixando a União Europeia (UE) e abandonando o euro.

Além de seu grande carisma, as explicações por trás do avanço do fundador do Movimento Em Marcha são muitas. A primeira delas é o colapso da campanha do conservador François Fillon, alvo de uma investigação judicial sobre supostos empregos fantasmas de sua mulher. A segunda é o triunfo nas primárias socialistas de Benoît Hamon, representante da ala mais à esquerda do PS, que aprofundou as divisões dentro do partido e incitou os militantes liberal-sociais a recorrerem a Macron.

Mas, acima de tudo, ele parece se beneficiar da tendência global que tem levado os eleitores a romperem com as convenções. É verdade que o jovem prodígio é formado pela renomada Escola Nacional de Administração, que prepara a elite governante francesa, e que ele fez fortuna no Banco Rothschild antes de chegar ao governo. Mas, no ano passado, Macron rompeu (“traiu”, dizem muitos) com seu protetor, Hollande, para fundar seu movimento centrista que não é — de acordo com ele — “nem de esquerda nem de direita”. Seu discurso iconoclasta não atrai apenas os jovens. Seduz também grande parte do eleitorado progressista, desorientado frente a um PS em pleno processo de implosão. Conheça os candidatos à Presidência da França

Slogan conhecido

Impulsionado por essa tsunami de simpatia, Macron passou a combater os pontos fracos de sua candidatura. Ele sabe que sua falta de experiência (nunca ocupou um cargo eletivo) é um problema; que ele ignora tudo o que envolve a segurança e o combate ao terrorismo; e que sua falta de definição ideológica é uma aposta complicada.

Em Lyon, com uma audácia sem limites, diante de oito mil pessoas, Macron se apropriou dos lemas da República para sua campanha: será liberdade, igualdade e fraternidade. Fácil de lembrar, e prático. Porque permite listar suas principais propostas nessas três áreas: a liberdade, principalmente econômica; a igualdade de oportunidades; a fraternidade europeia e, principalmente, ecológica.

Nada mal. Até agora, apesar da inconsistência de seu programa, é possível dizer que ele teve uma “jornada perfeita”. Tanto que todos começam a acreditar que ele poderia ganhar.

oglobo.globo.com | 07-02-2017

RIO — A líder da extrema-direita francesa Marine Le Pen lançou sua candidatura à Presidência do país ontem, de olho na onda populista que varre o Ocidente, simbolizada pela recente eleição de Donald Trump nos EUA e a vitória da proposta de saída União Europeia (UE) em plebiscito no Reino Unido, o chamado Brexit. Frente a milhares de partidários agitando bandeiras e gritando “este é nosso país”, Le Pen afirmou que só ela pode protegê-los do extremismo islâmico e dos malefícios da globalização. Com uma plataforma anti-imigração e também contrária à UE, a Frente Nacional, partido de Le Pen, espera “surfar” esta onda e alcançar o governo da França.

— O que está em jogo nesta eleição é se a França vai continuar uma nação livre — discursou Le Pen no comício de lançamento de sua campanha em Lyon, segunda maior cidade do país. — A divisão não é mais entre esquerda e direita, mas entre patriotas e globalistas. O impossível é possível. Como é possível que presidentes como Donald Trump sejam eleitos enfrentando um sistema unido contra eles. Este despertar dos povos é histórico. Significa o fim de um ciclo. O vento da História mudou e nos levará ao topo.

Em 144 “compromissos” divulgados ainda no sábado, Le Pen diz que vai coibir drasticamente a imigração, expulsar imigrantes ilegais e restringir direitos hoje disponíveis a todos os residentes do país, como educação gratuita, apenas para cidadãos franceses. Um eventual governo da Frente Nacional também pretende tirar a França da zona do euro, realizar um referendo sobre a permanência do país na UE, como o feito no Reino Unido, e aumentar os impostos sobre importações e nos contratos de trabalho de estrangeiros.

— Os líderes do passado escolheram uma globalização desregulada. Eles disseram que seria algo bom, mas acabou sendo uma coisa atroz — disse Le Pen. — A globalização financeira e a globalização islâmica estão ajudando uma a outra. Essas duas ideologias querem pôr a França de joelhos.

Agenda nacionalista

Embora Le Pen tenha buscado tornar a Frente Nacional mais palatável para os eleitores desde que herdou a liderança do partido de seu pai, Jean-Marie Le Pen, em 2011, seu discurso ontem deixou claro que as políticas contra a imigração e a União Europeia ainda estão no centro de sua agenda. Ela recebeu os aplausos mais efusivos, com ovações em pé aos gritos de “França! França!” e “esta é nossa casa”, quando prometeu expulsar todos os estrangeiros condenados por crimes ou contravenções e quando afirmou que imigrantes sem documentos não deviam nunca poder ficar na França ou obter tratamentos de saúde e educação grátis. A multidão então respondeu: “vamos vencer! Vamos vencer!”.

E o otimismo dos partidários de Le Pen tem lá suas razões. A menos de 80 dias do primeiro turno das eleições, marcado para 23 de abril, a líder da Frente Nacional lidera as pesquisas de intenção de voto. Mas também enfrenta forte rejeição dos eleitores mais moderados, o que a coloca como derrotada nos levantamentos para o segundo turno do pleito, previsto para 7 de maio.

Inicialmente, as pesquisas apontavam que o duelo de Le Pen no segundo turno seria com o conservador de direita François Fillon. Mas um escândalo envolvendo a esposa de Fillon, que segundo denúncia do jornal satírico “Le canard enchainé” teria sido paga com centenas de milhares de euros de dinheiro público para um trabalho que não foi feito, minou o apoio à sua candidatura mesmo entre suas bases. Neste fim de semana, o senador do Bruno Gilles, do Partido Republicano, que faz parte da direita moderada e conservadora do país, instou Fillon, de 62 anos, a se retirar da corrida presidencial, afirmando que os fiéis do partido “viraram a página” e agora pedem, de forma esmagadora, uma mudança de candidato.

Macron em vez de Fillon

Quem acabou “lucrando” com os problemas de Fillon foi o candidato centrista Emmanuel Macron, que agora, de acordo com as pesquisas, aparece como adversário de Le Pen no segundo turno das eleições. Em um comício também em Lyon neste fim de semana, Macron se definiu como um “progressista” e defendeu que a França se transforme em uma “terra de inovação”, facilitando o trabalho e colocando de novo no centro da vida política a divisa “Liberdade, igualdade, fraternidade”.

— Não digo que a esquerda e a direita já não signifiquem nada, mas nos momentos históricos, estas divisões são intransponíveis? — questionou o candidato, que foi ministro da Economia durante a presidência de François Hollande. — Me reconheço como progressista, quero ser um europeu generoso e inovador.

Já no outro lado do espectro político de Le Pen está o líder de extrema-esquerda Jean-Luc Melenchon, mais um candidato presidencial que escolheu Lyon para lançar sua campanha neste fim de semana. E embora as plataformas de um e da outra tenham suas interseções, como o ceticismo com relação à UE e à globalização, Melenchon afirma ter respostas muito diferentes para estas questões.

— O que não queremos é algumas combinações e arranjos. Seremos intransigentes — disse ele, que luta contra o socialista Benoit Hamon pelos votos da esquerda francesa.

Segundo uma das últimas pesquisas de intenção de voto para o primeiro turno, divulgada na sexta-feira pela firma BVA, Melenchon tem entre 11% e 11,5% da preferência do eleitorado. Le Pen lidera o levantamento, com 25%, enquanto Macron aparece com 21% a 22%, Fillon com 20% e Hamon com entre 16% e 17%.

oglobo.globo.com | 06-02-2017

WASHINGTON - Em novembro de 2015, Stephen Bannon — então presidente da “Breitbart News” — apresentava um programa de rádio e entrevistava o congressista republicano Ryan Zinke, que se opunha ao plano do presidente Barack Obama de abrigar refugiados sírios nos EUA. “Precisamos suspender a chegada de refugiados até que possamos analisá-los”, afirmou Zinke. Bannon o interrompeu:

— Por que deixá-los entrar?

Bannon argumentou que a análise de refugiados custaria tempo e dinheiro, que poderiam ser investidos no país, e sugeriu uma interrupção na aceitação de imigrantes do Oriente Médio por alguns anos.

As declarações de Bannon anteriores à sua transformação em estrategista chefe da Casa Branca servem como um mapa para a polêmica agenda que obscureceu Washington e agitou a ordem global durante as duas primeiras semanas de Donald Trump na Presidência. Agora, no centro do poder, Bannon está rapidamente transformando suas ideias em políticas: a retirada do país de um enorme acordo comercial, o veto (revogado) à entrada de cidadãos de sete países de maioria muçulmana e — seguindo a posição expressada em sua conversa com Zinke, agora indicado para a secretaria do Interior — uma proibição temporária na aceitação de novos refugiados.

Esta visão de mundo, expressada em entrevistas e discursos, apoia-se imensamente na crença de Bannon na “soberania” americana. Ele diz que países devem proteger seus cidadãos e sua essência reduzindo a imigração — legal e ilegal — e abandonando acordos multinacionais. Ao mesmo tempo, ele demonstrava preocupação com a ideia de que os EUA e o “Ocidente judaico-cristão” entrassem em guerra contra uma ideologia islâmica expansionista, mas que a estavam perdendo por não compreenderem o que combatiam. Bannon afirmou que esta luta era tão importante que valeria a pena passar por cima de diferenças e rivalidade com países como a Rússia.

CAOS ADMINISTRATIVO

Ainda não está claro como ele colocará sua agenda em prática. Suas movimentações políticas iniciais foram marcadas por caos administrativo. Mas sua visão de mundo pede mudanças maiores do que as já feitas.

Ex-oficial da Marinha e banqueiro do Goldman Sachs, Bannon tornou-se um dos homens mais poderosos dos EUA. E não tem medo de assumir isso.

— Dick Cheney. Darth Vader. Satã. Isso é poder — afirmou o estrategista chefe ao “Hollywood Reporter”, abraçando associações com esses nomes, e comparando-se a um poderoso assessor de Henrique VIII que ajudou a separar a Igreja Anglicana da Católica. — Sou Thomas Cromwell na corte dos Tudor.

Em declarações públicas, Bannon levantou uma ideia que Trump posteriormente transformaria no principal pilar de sua campanha: culpou os dois principais partidos políticos do país pela crise financeira de 2008 e buscou emplacar suas ideias junto a uma pouco disposta liderança republicana. O que ele queria, e repetiu muitas e muitas vezes, era “soberania” para os EUA e seus tradicionais aliados na Europa Ocidental. Em um dos primeiros programas na Breitbart Radio, elogiou o movimento britânico que buscava a saída da União Europeia, afirmando que o Reino Unido havia se juntado a uma federação comercial que se transformara em uma força que roubara a soberania da população britânica “em todos os aspectos importantes da vida”.

Bannon defendeu movimentos semelhantes de secessão na Europa, e Trump refletiu esses sentimentos em seus primeiros dias como presidente. É uma incrível mudança na política americana: após décadas construindo alianças multinacionais como garantia de paz, agora a Casa Branca indicou que pode sabotá-las.

— Acredito que países fortes e movimentos nacionalistas fortes formam vizinhos fortes — afirmou em um discurso no Vaticano em 2014. — E esses são os alicerces que construíram a Europa Ocidental e os EUA, e acho que é o que nos pode fazer avançar.

No caso dos EUA, Bannon acredita que acordos comerciais multinacionais entregam o controle do país, e em uma entrevista em 2015, o senador Jeff Sessions concordou com ele.

— Não deveríamos nos amarrar como Gulliver na terra dos Liliputianos, incapazes de nos mover — afirmou Sessions, que agora é o indicado de Trump para o cargo de procurador-geral. — É para onde estamos indo e não é algo necessário.

Bannon afirmou que restaurar a soberania significaria reduzir a imigração, e criticou programas de vistos que permitem que companhias americanas preencham posições técnicas com estrangeiros.

— As escolas de engenharia estão repletas de asiáticos. Eles vêm aqui pegar os empregos. Estudantes americanos não conseguem entrar nas universidades e obter o diplomas porque estão repletas de estrangeiros. Não temos um problema com a imigração legal? Vinte por cento do país é formado por imigrantes. Não é este o coração do problema?

Este foi um dos raros temas em que Trump rebateu suas ideias.

— Ainda quero que as pessoas venham — afirmou o agora presidente, em 2015. — Mas quero que passem pelo processo legal.

Até agora Trump não fez mudanças no programa de vistos para imigrantes qualificados, mas nesta semana, seu secretário de Imprensa, Sean Spicer, afirmou que o governo pode reexaminar o programa.

Mesmo pregando uma retirada total das alianças multinacionais, ele alertou para a necessidade de uma nova coalizão, para um seleto grupo de países.

— Há uma guerra vindo aí, uma guerra que já é global — afirmou Bannon no Vaticano em 2014, quando o Estado islâmico ganhava território. — Todo dia em que nos recusarmos a enxergá-la como ela é, em toda sua dimensão e maldade, será um dia em que nos arrependeremos de não ter agido.

Se Bannon conseguir fazer com que EUA e Rússia esqueçam suas diferenças para se concentrar numa ameaça em comum, sua comparação com Cromwell fará sentido — até certo ponto.

— A analogia, se é que ela funcionará, é que Bannon tem sua própria agenda, para a qual usará Trump, e explorará o poder que o presidente lhe deu, sem que seu mestre perceba — diz Diarmaid MacCulloch, professor de História da Universidade de Oxford.

Mas Cromwell foi executado depois que Henrique VIII se voltou contra ele. Para homens assim, diz MacCulloch, o poder é sempre tênue.

— Depende muito da boa vontade do rei.

oglobo.globo.com | 05-02-2017

BERLIM - Com preocupação, mas dispostos a demonstrar uma nova autoconfiança, líderes europeus reagiram de forma contundente à primeira entrevista do presidente eleito dos EUA, Donald Trump, à imprensa estrangeira — ao jornal britânico “Times” e ao alemão “Bild Zeitung” — que causou um abalo sísmico. Disparando sua metralhadora giratória verbal, Trump criticou a União Europeia (UE), a Otan, o acordo nuclear com o Irã e a resposta da Alemanha à crise dos refugiados, classificando de “erro catastrófico” a decisão da chanceler Angela Merkel de abrir as portas do país a mais de um milhão de fugitivos de guerras e da pobreza extrema em países de Ásia, África e Oriente Médio. CONTEÚDO TRUMP 1701

Em uma primeira reação, Merkel afirmou que “a Europa é dona do seu próprio destino”. A chefe de governo alemã, que como presidente (rotativa) do G-20 deverá visitar Trump em abril ou maio, apelou aos colegas no continente a não se deixarem confundir pelas declarações dele. Reunidos em Bruxelas, os chanceleres europeus apelaram para a unidade dos 28 membros da UE. O chanceler francês, Jean-Marc Ayrault, foi enfático:

— A melhor resposta à entrevista do presidente é a unidade dos europeus.

Já o ex-premier e pré-candidato à Presidência da França, Manuel Valls, chamou as falas de Trump de provocação:

— Uma declaração de guerra à Europa.

O presidente da França, François Hollande, também se juntou ao coro que desancou Trump.

— A Europa não precisa de conselhos extremos para dizer o que tem de fazer — pontuou o francês.

Depois de um encontro com o secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, o ministro das Relações Exteriores alemão, Frank-Walter Steinmeier, lembrou que as declarações de Trump sobre a Otan vão contra as ideias do futuro secretário de Defesa dos EUA, James Mattis. Segundo Steinmeier — que dentro de poucas semanas deverá ser eleito o novo presidente da Alemanha — Trump causou “surpresa e agitação” na Europa. As críticas também vieram internamente. O secretário de Estado americano, John Kerry, classificou as declarações de Trump sobre Merkel como inapropriadas.

— Ele terá que responder por isso. Acho que devemos ser muito prudentes antes de dizer que um dos líderes mais poderosos na Europa cometeu um erro.

A inquietação indica que os europeus esperavam que, depois de eleito, o republicano deixasse de fazer declarações incendiárias. De fato, Trump não disse nada de novo. Na campanha, criticou Merkel, elogiou o Brexit (a saída do Reino Unido da UE), e antecipou que iria adotar medidas protecionistas para proteger as empresas americanas — ele já anunciou uma taxa de 35% para os carros da montadora alemã BMW produzidos no México. Trump Info

Para o cientista político Thomas Jäger, da Universidade de Colônia, Trump não tem a intenção apenas de chocar:

— Ele tem dois objetivos: acelerar a economia americana e só fazer acordos internacionais se estes favorecerem os EUA.

Para ele, a ideia é pôr a perspectiva americana, durante muito tempo ignorada, no centro das atenções.

Mas, poucos dias antes de tomar posse, o presidente eleito continua dividindo os europeus. A maior parte dos países da Europa Ocidental acompanha com apreensão o receio da influência do republicano na possível desintegração de uma já dividida UE. No Leste, da Rússia à República Tcheca, no entanto, Trump é admirado. Irina Sherbakova, historiadora e ativista da ONG Memorial, lembra que os russos — que detestavam Barack Obama — associam o novo governo à possibilidade de melhoria nas relações entre Moscou e o Ocidente e, com isso, o fim das sanções e superação da crise econômica.

Já na Europa Ocidental, apenas os partidos de extrema-direita apoiam o novo presidente. E não é só o estilo direto de Trump que assusta a maioria dos europeus. A possibilidade de uma forte aliança dos EUA com a Rússia, que teria assim carta branca para novas ações como a ocupação da Crimeia, até então território da Ucrânia, é vista como sombria. Contra uma possível aliança Trump-Putin, 17 políticos europeus, entre eles o ex-presidente da Estônia, Toomas Hendrik, enviaram uma carta ao novo presidente alertando sobre a Rússia, que teria em vista, segundo os signatários, “a desestabilização da Otan, a espionagem e a guerra psicológica”.

Extrema-direita celebra

Pior do que isso. Como escreveu o cientista político Ulrich Speck na sua coluna no jornal “Neue Zürcher Zeitung”, a proximidade entre os dois presidentes desperta lembranças amargas da Conferência de Yalta, que selou a derrota da Alemanha nazista, em 1945, e resultou na divisão da Europa em áreas de influência dos EUA (Europa Ocidental) e da então União Soviética (Europa Oriental). “Os EUA de Trump não são mais (como foi no passado) a garantia de uma ordem mundial liberal, mas são definidos pelos seus interesses nacionais imediatos”, sustenta Speck.

Embora o secretário-geral da Otan não veja grandes riscos para a Europa, analistas advertem para o perigo concreto de um racha dessa aliança — com efeitos negativos para a UE, que precisaria investir muito mais na sua segurança. Em crise, o bloco não tem sido capaz de chegar a um consenso nem na divisão de um sistema de cota de refugiados — uma unanimidade na decisão de medidas de defesa é vista como muito difícil.

Não por coincidência, a posse de Trump será acompanhada com atenção pela extrema-direita europeia. Um dia depois, lideres do bloco extremista em Alemanha, França, Holanda, Bélgica e Itália vão se reunir na cidade alemã de Koblenz, na cúpula dos populistas. A iniciativa partiu de Marine Le Pen, da Frente Nacional, da França, que quer fazer do Movimento para uma Europa das Nações e da Liberdade, que fundou em junho de 2015, uma espécie de “Internacional da extrema-direita”, a exemplo da tradicional Internacional Socialista.

De carona no populismo de Trump, os direitistas europeus contam com mudanças radicais em 2017, que começariam com a possível vitória de Geert Wilders, do Partido da Liberdade, na Holanda, e de Le Pen, na França, em março e em maio. Para o cientista político italiano Giulietto Chiesa, ex-deputado do Parlamento Europeu, a extrema-direita continuará contando com a influência do americano para realizar seus dois mais importantes projetos: acabar com o fluxo de refugiados e reduzir o papel da UE nos países-membros.

oglobo.globo.com | 17-01-2017

O rico ambiente cultural e a receptividade do povo foram as primeiras boas impressões de Estêvão Monteiro, 19 anos, ao chegar na cidade, em setembro de 2015. Estudante de Direito, ele realiza o sonho de cursar uma faculdade fora do Brasil e é um dos dois mil alunos brasileiros da Universidade de Coimbra, em Portugal. A instituição privada aceita a nota do ENEM para facilitar o ingresso nos cursos de graduação.

Com mais de 700 anos de história e considerada Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, a Universidade de Coimbra, a duas horas de carro de Lisboa, tornou-se opção para estudantes brasileiros, que obtiveram mais de 600 pontos no ENEM. Atraídos pela facilidade da língua e tradição no ensino, eles procuram prioritariamente os cursos de Direito, como é o caso de Estêvão, mas também os de Relações Internacionais, Arquitetura e Engenharia Civil.

Para estudar na Universidade de Coimbra é preciso se dedicar até mesmo fora do horário das aulas. Além disso, ter flexibilidade para lidar com diferenças culturais é essencial.

– Senti diferença no nível de dificuldade das matérias aqui em Coimbra. A relação com os professores também é muito diferente da que existe no Brasil, onde é comum uma proximidade maior. Não há controle de presença. Chamamos os professores de “senhor doutor”, até para manter certo distanciamento. Além desta diferença, o aluno em Coimbra precisa ser proativo, ir à biblioteca, buscar e construir o conhecimento – explica Estêvão, se referindo à Joanina, biblioteca construída no século XVII e que é um dos muitos tesouros da instituição.

O resultado de tanta dedicação é um diploma de peso, reconhecido em mais de 57 países, incluindo toda a União Europeia e os Estados Unidos.

Além da excelência de seus cursos, a UC também possibilita aos estudantes brasileiros a ampliação desta experiência em outros países, destaca o vice-reitor para as Relações Internacionais, Joaquim Ramos de Carvalho, referindo-se ao Programa de Intercâmbio Internacional Erasmus. Criado para estimular a mobilidade de estudantes e docentes do Ensino Superior entre estados membros da União Europeia e estados associados, o programa permite que alunos estudem em outro país por um período de até 12 meses.

– Procuramos aliar tradição e modernidade: temos uma estrutura secular, mas também laboratórios de ponta, como o Centro de Neurociências e Biologia Celular. O curso de Engenharia está entre os 200 melhores do mundo, e o aluno ainda tem a oportunidade de cursar um semestre ou até um ano em outra universidade europeia conveniada à UC. Acreditamos que essa experiência pode complementar o conhecimento acadêmico.

Viver em Coimbra

A chance de viver em Coimbra traz em si a possibilidade de experimentar uma nova cultura e de conviver com uma população jovem e cosmopolita. São aproximadamente 30 mil universitários circulando por suas ruas arborizadas e parques públicos, como o popular Parque Verde. Cortada pelo Rio Mondego e a pouco mais de meia hora do mar, a paisagem de Coimbra ganha um elemento a mais com tantos estudantes em seus trajes acadêmicos, que parecem ter saído de um filme. Composto de gravata preta, camisa branca e capa também preta, o traje que data do século XIX, é usado pelos estudantes e encantam os visitantes.

Com dois mil anos de história, a cidade é marcada por uma arquitetura imponente, de muros altos e escadas medievais. A segurança e o baixo custo de vida, se comparado a outras cidades da Europa, são atrativos a mais para essa escolha, e contribuem para que a instituição receba alunos de mais de 90 nacionalidades. A Universidade oferece alojamento, e despesas como água, luz, internet e lavanderia estão incluídas na taxa mensal – dá para ter uma ideia desses e de outros custos no próprio site da UC.

Entre os cursos disponíveis para o ingresso via ENEM, estão Farmácia, Psicologia e Engenharia Biomédica, do Ambiente, Eletrotécnica e de Computadores, assim como Engenharia Física, Mecânica e Química. Os interessados podem se candidatar às vagas até o final de janeiro e em outros dois períodos, em março e junho. As aulas começam em setembro. Para os demais cursos clique aqui.

Fotogaleria Universidade de Coimbra

Ampliando os horizontes

Coimbra fica a três horas de carro de Salamanca e a duas de Vigo, na Espanha. Em poucas horas de trem chega-se a Madri, Barcelona ou Paris. O próprio Estêvão está cheio de planos de viagens para o futuro.

– Quero conhecer outras cidades em Portugal e outros países também. Já penso em um mestrado nos Estados Unidos. A verdade é que a Universidade de Coimbra é uma janela para o mundo, e sinto que posso realizar muitos outros sonhos a partir daqui – conta Estêvão, que se forma em 2019.

oglobo.globo.com | 16-01-2017

RIO - Em dezembro de 1976, quando foi eleito premier de Portugal, Mário Soares veio ao Brasil numa tentativa de quebrar o gelo nas relações. Por aqui, ainda vivia-se um momento de distensão da ditadura militar, “lenta, gradual e segura”, comandada por Ernesto Geisel. Na época, fontes diplomáticas informaram que, enquanto Portugal esperava encontrar um parceiro comercial que substituísse suas ex-colônias na África, o Brasil poderia ter um aliado em vias de integração na Europa.

Nesta aproximação, especialistas brasileiros afirmavam que manter relações com um membro da União Europeia seria fundamental, já que a política externa de um país em desenvolvimento deveria ser eminentemente voltada para fins econômicos.

Soares ainda faria outras visitas ao Brasil. Em 1987, um ano após ser eleito o primeiro presidente civil da redemocratização portuguesa, veio “retribuir a visita do presidente José Sarney” e “mostrar a nova imagem de Portugal”.

— Mário era de uma geração que considerava Brasil e Portugal como um só país. Ao mesmo tempo, tinha um grande amor ao povo brasileiro — afirmou ontem Sarney. — Era um devoto das relações com o Brasil. Conhecia nossa História.

Em 1989, Soares visitou o Rio de Janeiro. Caiu no samba num ensaio da escola Unidos da Tijuca. E, em 1990, conheceu Búzios, destino que dissera “sempre desejar conhecer”.

oglobo.globo.com | 08-01-2017

O ex-presidente de Portugal, Mário Soares, morreu neste sábado, aos 92 anos. Ele foi uma figura fundamental na transição de Portugal da ditadura para a democracia, e como primeiro-ministro, levou seu país da crise para a União Europeia. A sua morte foi anunciada pela agência estatal de notícias Lusa.

Desde o dia 13 de Dezembro de 2016, Soares esteve em tratamento intensivo no Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa, em Lisboa. Um sobrinho do ex-presidente, Eduardo Barroso, disse que Soares foi hospitalizado em 2013 com encefalite aguda, uma inflamação do cérebro, e que a sua saúde havia se deteriorado ainda mais desde a morte de sua esposa, em julho de 2015.

Soares, socialista, era admirado por sua tenacidade e otimismo exuberante. Como primeiro-ministro, ele apostou sua carreira na conquista da adesão de Portugal à UE, considerando-a um caminho para fortalecer a jovem democracia do país, modernizar sua economia e acabar com o isolamento internacional.

Muitos portugueses eram céticos, mas Soares persistiu. "Portugal será um país diferente e certamente muito melhor para todos os portugueses", declarou em 1985, depois de ter concluído oito anos de negociações para aderir ao bloco, então conhecido como Comunidade Econômica Europeia.

A adesão plena e o acesso ao mercado comum do bloco, iniciado em 1986, traduziram-se numa melhoria significativa dos padrões de vida portugueses. O comércio e o investimento estrangeiro expandiram-se, e Portugal abraçou a moeda do euro. Hoje, o país está ligeiramente abaixo da média europeia em termos de rendimento per capita, mas a diferença com os seus pares mais ricos diminuiu.

Filho de um político muitas vezes preso por se opor à ditadura de direita, Soares tornou-se politicamente engajado na Universidade de Lisboa, sendo graduado em filosofia e direito nos anos 50.

Sua própria atividade de oposição o colocou na prisão 12 vezes. Durante um destes períodos na prisão, ele se casou com Maria Barroso, uma atriz que conheceu na universidade. Em 1970, foi forçado a pedir exílio na França. Três anos mais tarde, ele, sua esposa e um grupo de amigos se encontraram na Alemanha para fundar o Partido Socialista de Portugal. Ele foi nomeado secretário-geral.

Em 25 de abril de 1974, uma revolta militar conhecida como Revolução dos Cravos terminou com 48 anos de ditadura e 13 anos de guerra contra os movimentos de independência nas colônias africanas de Portugal. Três dias depois, Soares voltou a Lisboa em comboio e foi recebido por milhares de simpatizantes, com a esperança de que pudesse ajudar a trazer democracia e prosperidade para o que era então um canto fechado da Europa.

Ele foi nomeado ministro das Relações Exteriores no governo recém-instalado, controlado por militares, que estava comprometido com o estabelecimento de um regime democrático. Ele supervisionou a concessão de independência a Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.

Ele renunciou e entrou em oposição em 1975, depois que uma facção pró-soviética comunista ganhou influência no governo. Eventualmente, uma facção militar moderada apoiada por Soares prevaleceu, bloqueou uma tentativa de golpe apoiada pelo Partido Comunista e convocou eleições em 1976.

Soares venceu, tornando-se o primeiro chefe de governo constitucionalmente eleito de Portugal depois da revolução. Ele liderou dois governos até 1979 e um terceiro de 1983 a 1985.

Ele assumiu uma economia paralisada por guerras dispendiosas na África, a turbulência política interna e a repentina chegada de pelo menos 500.000 refugiados portugueses de antigas colônias a um país mal preparado para alojá-los e empregá-los.

Por duas vezes ele buscou ajuda do Fundo Monetário Internacional para administrar as dívidas, enquanto lutava para construir um estado de bem-estar moderno. Ele abriu o país para a Coca-Cola e outros bens de consumo estrangeiros proibidos sob a ditadura.

Mas sua aceitação das prescrições de austeridade do FMI - aumentos de impostos e cortes salariais acentuados, e principalmente o cancelamento de um bônus de Natal para funcionários públicos, em 1983 - o desgastaram politicamente.

A coligação governamental de Soares desmoronou logo após o parlamento ratificar o tratado para entrar na Comunidade Econômica Europeia, mas sua imagem de estadista respeitado permaneceu. Ele foi eleito presidente, um cargo em grande parte cerimonial, em 1986, e cumpriu dois mandatos de cinco anos.

Ele permaneceu politicamente engajado depois de deixar o cargo e escreveu colunas frequentes para um jornal português, o Diário de Notícias, até 2015.

Depois que a Europa mergulhou em recessão em 2008, ele levantou sua voz contra as políticas de austeridade lideradas pela Alemanha impostas às economias mais fracas da zona do euro - políticas semelhantes às que o FMI havia exigido nos anos 80. Em 2011, Portugal foi obrigado a cortar gastos públicos em troca de um resgate de 78 bilhões de euros pelo FMI e pela UE.

"Eu não acho que o Estado de bem-estar que os portugueses demoraram tanto para construir deveria ser destruído, como se nós fôssemos um simples servo da troika", disse Soares em um discurso de 2012, referindo-se aos credores internacionais do país . Fonte: Dow Jones Newswires.

BRASÍLIA - Na tentativa de incrementar as receitas, em queda livre nos últimos anos, o governo decidiu não renovar desonerações concedidas pelos governos Lula e Dilma Rousseff a alguns setores da economia. Dados da Receita Federal, levantados a pedido do GLOBO, mostram que incentivos tributários dados a cinco setores tiveram sua vigência encerrada no ano de 2016 e não foram renovados. Entre eles estão, por exemplo, o sucroalcooleiro e o de telecomunicações. Com isso, o governo deve ter um alívio de pelo menos R$ 3,3 bilhões anuais, valor equivalente à renúncia de impostos desses setores em todo o ano passado.

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As desonerações que venceram durante 2016 e não foram renovadas incluem o crédito presumido de PIS/Cofins para importadores ou produtores de álcool; o Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento de Infraestrutura da Indústria Petrolífera nas Regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste (Repenec); os incentivos de PIS/Cofins e Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para implantação de rede de banda larga; o Imposto de Renda sobre a aquisição de Vale Cultura por empresas; e a desoneração das alíquotas de PIS/Cofins de jornais e periódicos.

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, tem sinalizado há meses a intenção de passar um pente-fino para reduzir ou encerrar programas de desonerações tributárias. O objetivo da equipe econômica é acabar aos poucos com incentivos para setores muito específicos e deixar apenas programas que atendam ao setor produtivo de forma mais ampla.

NOVA PROGRAMAS VENCEM ESTE ANO

As desonerações encerradas em 2016, no entanto, ainda respondem por uma pequena parcela daquilo que está em vigor. Até outubro do ano passado (dado mais recente), o governo abriu mão de R$ 75,5 bilhões em impostos. Assim, as desonerações revistas respondem por apenas 4,4% do total renunciado pela União. Mesmo com essa pequena redução, o volume de tributos renunciados pelo governo no ano passado já ficou abaixo do total percebido em 2015, de R$ 88,6 bilhões.

Info desoneração

Outros nove programas de incentivos devem ter vencimento em dezembro de 2017, entre eles o Inovar-Auto, para o setor automotivo, e os subsídios dados a projetos financiados pelos Fundos de Desenvolvimento da Amazônia e do Nordeste. Não há ainda uma definição sobre quais deles poderão ser renovados ao fim da vigência. Em 2018, outros sete perdem vigência. Se não renovados, esses 16 programas permitirão a economia de outros R$ 3 bilhões.

Outro incentivo que havia sido derrubado ainda por Medida Provisória em 2015 é a isenção de PIS/Cofins para smartphones, tablets e outros equipamentos eletrônicos. No entanto, esses incentivos foram retomados em 2016, por meio de uma liminar obtida pela Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee).

O GLOBO procurou os setores que foram afetados pelo fim das desonerações. A representante do setor sucroalcooleiro, Unica, afirmou que já esperava que a isenção de PIS/Cofins fosse encerrada, mas disse que ainda é cedo para avaliar o impacto no setor. O SindiTelebrasil, que representa as empresas de telecomunicação, informou, por nota, que “sempre defendeu a prorrogação do prazo de vigência do Regime Especial de Tributação do Programa Nacional de Banda Larga, por entender que esse projeto permite a ampliação das redes de banda larga, que se constitui no principal vetor de inclusão social e digital dos brasileiros”.

A Associação Nacional de Jornais (ANJ) explicou que uma Medida Provisória chegou a ser aprovada na Câmara ampliando a desoneração, mas o texto caducou no Senado, fazendo o incentivo desaparecer a partir de abril. A representante das petroleiras não quis se manifestar.

Alguns programas, no entanto, foram renovados pelo governo em 2016. Entre eles, o Fundo da Marinha Mercante, que teve um decreto publicado em dezembro prorrogando-o por mais um ano. O Repetro, regime especial do setor de petróleo, não venceu em 2016, mas deve ser ampliado para além de 2019 em breve.

Para a especialista em contas públicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Margarida Gutierrez, as desonerações precisam ser revistas com cuidado, uma vez que, se por um lado elas representam um peso para os cofres, por outro podem prejudicar ainda mais o setor produtivo, que tenta sair da crise. Na avaliação dela, várias desonerações foram dadas sem critério nos últimos anos e precisam agora passar por um pente-fino.

— O governo tem que rever todos os programas, de forma a deixar apenas aquelas desonerações que são fundamentais para a recuperação da economia. O simples fato de haver crise não é justificativa para deixar vigorar qualquer desoneração. É preciso fazer uma triagem, as desonerações têm que ser objeto de um estudo estratégico — ponderou.

AÇÃO NA OMC CONTRA O BRASIL

Se depender dos países da União Europeia e do Japão, os programas de incentivos adotados para estimular a economia, que preveem desonerações para banda larga, automóveis e bens de informática, já deveriam ter terminado. Para isso, entraram com uma ação contra o Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC), que preliminarmente já se mostrou contrária a esses benefícios.

oglobo.globo.com | 05-01-2017

RIO — Ken Loach dedicou a vida inteira a fazer filmes de cunho social, expondo as fraturas da sociedade britânica e defendendo fracos e oprimidos — sem nunca deixar-se abalar por revezes nas conquistas comunitárias. E é com o mesmo empenho do início da carreira, mais de cinco décadas atrás, que o cineasta lança nesta quinta-feira “Eu, Daniel Blake”, poderosa denúncia sobre a falência do sistema previdenciário do Reino Unido (uma das vítimas do ventos neoliberais que assolam a Europa), que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, depois de vencer a Palma de Ouro no Festival de Cannes, em maio.

Aos 80 anos, completados em junho, o cineasta demonstra certa fadiga física, mas não intelectual:

— A pior parte da velhice é a filmagem. Acordar às 6h e trabalhar por 14 e até 16 horas todos os dias, por dois meses seguidos, é uma rotina pesada. Sobrevivendo a isso, o resto é fácil — sorri o veterano realizador, autor de mais 50 títulos, entre longas de ficção, documentários, telefilmes e séries de TV. — Fora isso, não há como me sentir frustrado. É o curso do monopólio capitalista. Não há surpresas. O que está acontecendo hoje no Reino Unido é o resultado lógico da chegada ao poder da (ex-primeira-ministra) Margaret Thatcher, em 1979, que liderou a campanha neoliberal na Europa.

Após “A parte dos anjos” (2012), comédia inspirada na falta de perspectiva da juventude britânica, e o histórico “Jimmy’s Hall” (2014), que resgata a figura de um militante político dos anos 1930, Loach está de volta ao terreno do realismo social contemporâneo, que o consagrou como o mais ativista dos diretores britânicos. “Eu, Daniel Blake” descreve o drama de um marceneiro de 59 anos de Newcastle que, após sofrer um ataque cardíaco, enfrenta a burocracia do sistema previdenciário, que teve vários departamentos privatizados, para receber a pensão por invalidez.

COMEDIANTE COMO PROTAGONISTA

O personagem-título é vivido por Dave Johns, comediante de stand up que faz sua estreia no cinema em atuação que tem comovido plateias do mundo inteiro.

— A decisão por um comediante não foi intencional. Gosto de comediantes, em geral, porque eles costumam ter raízes profundas na classe trabalhadora. Muitos deles vêm do exercício de uma resistência política — explica Loach. — David é um sujeito muito engraçado, mas também é da cidade onde filmamos, estava na idade certa, o pai dele era carpinteiro, então ele conhecia o contexto social do personagem. Tudo estava interligado.

Acuado por formulários e exigências contraditórias para conseguir o benefício a que tem direito, o recém-viúvo Blake (Johns) se vê ameaçado de morar na rua. Entre muitas idas e vindas ao Departamento de Trabalho e Pensões, ele conhece a jovem Katie (Hayley Squires), mãe solteira despejada com os dois filhos de um conjugado em Londres, e despachada pelo Serviço Social para uma cidade a centenas de quilômetros da capital. Eles se ajudam como podem, mas esbarram nas engrenagens de organizações que acabam punindo os menos favorecidos.

— Os burocratas são ineficientes, mas é uma ineficiência cujo objetivo é humilhar as pessoas, mostrá-las que a pobreza é culpa delas — lamenta. — Há ainda a propaganda negativa na imprensa, nas TVs. Temos programas de televisão que fazem piadas sobre pessoas gordas, ou que têm muitos filhos. São tão comuns que já há um termo para eles, “poverty porn”. Ao culpar as pessoas, essas organizações tiram a responsabilidade dos verdadeiros culpados, que são as corporações que precisam de trabalho barato. É a agenda liberal de austeridade, guiando as pessoas à frustração.

O filme chega às salas 50 anos após “Cathy come home”, telepeça que Loach dirigiu para uma série da BBC. Nela, uma mulher entra em choque com as rígidas regras do Serviço Social, criadas sob a desculpa de evitar fraudes no sistema previdenciário, e acaba perdendo a casa, o marido e, finalmente, a custódia dos filhos. O paulatino desmantelamento das conquistas sociais britânicas já havia sido esmiuçado pelo diretor no documentário “O espírito de 45” (2013), sobre o projeto de reconstrução do país após a Segunda Guerra Mundial, quando a Inglaterra criou políticas públicas para os sistemas de transporte, habitação, educação e saúde.

Loach vê com extrema preocupação a saída do Reino Unido da União Europeia, decidida por um referendo popular em junho de 2016. É, segundo ele, mais uma vitória da ascensão do pensamento de direita que contamina o mundo, alimentado por sucessivas crises econômicas, e que tem na eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos, com o apoio das classes trabalhadoras, sua simbologia máxima.

— Foi assim que Hitler chegou ao poder. As pessoas estão direcionando sua raiva para os lugares errados. Antes, eram os judeus; hoje são os muçulmanos. É muito perigoso — alerta. — A União Europeia é um projeto neoliberal, que estimula a privatização. Muitas pessoas dizem que devemos sair, que precisamos mudar. Meu temor é que, se sairmos de verdade, tenhamos mais governos de extrema-direita, cada um querendo atrair mais investimentos para si e cortando leis trabalhistas e ambientais. Será uma corrida para o fundo do poço.

oglobo.globo.com | 02-01-2017

BERLIM - O euro completa hoje uma década e meia de existência diante do desafio de garantir sua sobrevivência. De seus 15 anos de circulação no comércio, nos bancos, nas trocas internacionais e nos bolsos dos europeus, a moeda que simboliza a utopia de perfeita integração continental vive há oito anos uma crise inesgotável, perigosamente embalada por uma onda nacionalista, amplo descrédito das instituições que governam a zona do euro e frágeis condições fiscal e bancária dos países-membros.

EURO EM 2017

Previsto pelo Tratado de Maastricht há 25 anos, o euro nasceu do desejo de superação dos conflitos e de união das nações que amargaram duas grandes guerras no século XX. Quando suas cédulas e moedas começaram a circular, em 1º de janeiro de 2002, eram 11 os países a adotá-lo. Atualmente, são 19, que juntos têm 339,7 milhões de habitantes e um Produto Interno Bruto (PIB) de € 10,4 trilhões — um dos três pilares da economia global, com uma balança comercial superavitária em € 322 bilhões.

Porém, esse gigante europeu também impressiona por números alarmantes. Como proporção do PIB, a dívida pública está estagnada em patamar elevado há cinco anos, chegando a 90,3% em 2016. O limite imposto pelo tratado de criação da moeda é de 60%, mas apenas cinco países, todos pequenos, o respeitam.

A explosão do nível de endividamento — elevado também no setor privado — está no cerne das preocupações com a zona do euro desde a grande crise global iniciada em 2008, com implicações fiscais, bancárias e na economia real. É ela quem responde pela perda de confiança na moeda única europeia.

Combinada a outros indicadores (juros zero por período prolongado, déficit fiscal de 1,9% do PIB, taxa de desemprego de 10,9%) e ao crescente euroceticismo, que ganhou musculatura após a convulsão socioeconômica da Grécia, o cenário leva muitos analistas a temerem um colapso do euro.

— O euro cambaleia e está prestes a virar um projeto fracassado — afirma o economista Wolfgang Münchau, que assina uma coluna semanal na revista alemã “Der Spiegel”.

POUCAS AMARRAS NO PROJETO ORIGINAL

O euro foi criado em um período de abundância de recursos a juros baixos, o que permitiu uma farra de crédito entre os estados-membros, especialmente dos mais ricos para a “periferia” ibérica e ao sul. As dívidas pública e corporativa dispararam. Bancos, sem regulação, assumiram posições temerárias. As contas públicas foram negligenciadas. Quando veio a crise de 2008 e a seca do crédito, esse quadro alimentou uma brutal desconfiança. E economias, asfixiadas, começaram a ruir: Espanha, Irlanda, Portugal, Grécia.

A expansão do crédito não veio acompanhada de mecanismos de controle e contenção, como regulação do setor financeiro, e, sobretudo, de coordenação supranacional. Apesar das instituições centrais em Bruxelas, as nações que aderiram à moeda comum retiveram basicamente todos os poderes sobre suas políticas econômicas, que obedeciam a características e interesses próprios.

Info Euro

Esses fatores complicaram imensamente a resposta às turbulências, e ainda hoje são entrave à solidez do euro. Só no auge da crise, por exemplo, a zona do euro criou um mecanismo de socorro financeiro — os resgates de países-membros eram proibidos — e deu mais autonomia de formulação ao Banco Central Europeu (BCE).

Porém, os planos iniciais — quase uma utopia pós-era comunista traçada pelo ex-chanceler alemão Helmut Kohl e o ex-presidente francês François Miterrand — eram a criação dos “Estados Unidos da Europa”, ou seja, a moeda comum deveria ser complementada por uma política econômica comum.

— Com o euro, eles queriam se tornar os Estados Unidos da Europa, mas o projeto não podia funcionar por causa da falta de homogeneidade (entre os países) — explica o jornalista Henryk M. Broder, para o qual o “projeto de grande ilusão está perto de despencar e arrastar consigo a União Europeia para o precipício”.

— Os países do euro só vão superar definitivamente a crise quando forem submetidos a uma política econômica comum entre os seus membros e aceitarem os países mais pobres ou em dificuldades econômicas como a região mais pobre de um país, que precisa de ajuda — afirma o economista Alexander Thiele, da Universidade de Göttingen, autor do livro “O BCE e o euro”.

O especialista Clemens Fuest, autor do livro “O complexo de Odisseus, uma sugestão pragmática para a solução da crise do euro”, recomenda quatro passos básicos às autoridades europeias: aperfeiçoamento da regulação dos bancos, controle das dívidas dos países (chegou a 177% do PIB na Grécia), reforma do mecanismo de resgate e do BCE e fortalecimento das economias nacionais:

— Só austeridade não resolve nenhuma crise.

Segundo os economistas Jorg Haas e Katharina Gnath, que escreveram em setembro um relatório de diagnóstico da crise, “é senso comum entre as autoridades europeias que a união econômica e monetária não é sustentável a longo prazo”.

Ainda assim, o progresso das reformas necessárias ao seu aperfeiçoamento — como maior poder decisório supranacional, união bancária e mecanismos mútuos de seguro e amortecimento — tem sido “imperceptivelmente lento”, concluem Haas e Gnath.

ONDA NACIONALISTA É RISCO ADICIONAL

E não é por falta de aviso. Apesar de a zona do euro ter deixado a recessão para trás e estar crescendo a um ritmo de 1,5%, os desequilíbrios não desapareceram. A Grécia ainda luta para recolocar a economia de pé, atolada em dívidas e de pires na mão, tentando evitar uma custosa saída do euro.

Para piorar, a Itália, a terceira maior economia do bloco, enfrenta grave crise bancária, com uma das três maiores instituições do país, o Monte dei Paschi, à beira do precipício, precisando levantar mais de € 5 bilhões.

— A zona do euro pode pegar fogo se a Itália recorrer ao fundo de resgate — afirmou Christoph Schmidt, do Instituto de Pesquisa Econômica de Essen e chefe do grupo de institutos de pesquisa que assessora o governo alemão.

Fuest adverte ainda para o risco da “japonização” da zona do euro, com “bancos zumbis” que sofrem com os juros baixos praticados pelo BCE.

— Faz-se na zona do euro o mesmo que se fez no Japão nos anos de recessão. As reações à crise eram liberar liquidez em vez de resolver os problemas. O resultado foram 20 anos de estagnação. Também na zona do euro a dívida dos países cresce, o BCE injeta mais dinheiro, mas não resolve o problema — sustenta Fuest.

Há um risco adicional à situação da zona do euro. Em 2017, três países, França, Holanda e Alemanha, terão eleições decisivas, nas quais poderão ser eleitos para a Presidência e os Parlamentos candidatos de partidos antieuro, uma face do nacionalismo de ultradireita que cresce vertiginosamente na Europa.

Na França, Marine Le Pen, da Frente Nacional, já anunciou que, se sair vitoriosa da campanha presidencial, em maio, vai realizar um referendo sobre o euro. Também na Holanda e na Alemanha, os populistas, com chances de vencer em eleições parlamentares, têm como principal plataforma o combate ao euro. Embora nos dois países a economia esteja relativamente bem, o euro é visto como ameaça, sob a ótica do risco de os países ricos terem de socorrer os mais pobres.

Na Itália, onde o primeiro-ministro Matteo Renzi renunciou ao interpretar recente referendo como uma desaprovação de sua política, o euro é cada vez mais visto como um problema e não uma solução.

Os efeitos perversos dos planos de resgate e ajuste — como desemprego, perda salarial e contração dos gastos públicos — reforçam o discurso de extremo nacionalismo e o desinteresse pelo euro. Theodoros Parakevopoulos, assessor econômico do Syriza, o partido do primeiro-ministro grego Alexis Tsipras, lembra que a situação é um círculo vicioso:

— Com a ajuda, a Grécia tem afundado cada vez mais na crise.

O economista Marcus Brunnenmeier adverte, porém, que os problemas de hoje se agravariam ainda mais se o euro fosse abolido:

— Os custos de uma volta às moedas nacionais nos 19 países seriam astronômicos, e a ruptura teria consequências políticas e sociais.

oglobo.globo.com | 01-01-2017

BERLIM - Um dos pilares da União Europeia (UE), o Espaço Schengen, que permite a livre circulação de pessoas nos 26 países signatários, sofreu um bombardeio de críticas de políticos de extrema-direita do continente após o acusado pelo atentado em Berlim, o tunisiano Anis Amri, ter sido abatido por policias italianos em Milão, a mais de mil quilômetros da capital alemã. Segundo informações preliminares, durante os quatro dias após atropelar com um caminhão e matar 12 pessoas, deixando outras 48 feridas, Amri deixou Berlim e atravessou boa parte da Alemanha e da França até Lyon ou Chambéry. Então, por via ferroviária, de acordo com uma passagem encontrada com ele, entrou na Itália, primeiro em Turim, depois, Milão. Eurocéticos, que já questionavam o Espaço Schengen como uma Europa de “fronteiras abertas para os criminosos”, atacaram o acordo, assinado há 31 anos e que abrange 400 milhões de cidadãos, que fazem cerca de 1,25 bilhão de deslocamentos dentro da UE por ano.

Amri já conhecia a Itália — e falava italiano —, pois foi seu primeiro destino depois de sair da Tunísia, no Norte da África, cruzando o Mediterrâneo e desembarcando na Ilha de Lampedusa, em 2011. Segundo o chefe de polícia de Milão, Antonio de Lesu, o jihadista foi morto por acaso, e não havia nenhuma informação sobre a presença dele em território italiano. Por volta das 3h da madrugada (hora local), dois policiais abordaram Amri numa praça de Milão e pediram documentos, num procedimento de rotina. No entanto, o jovem, de 24 anos, tirou repentinamente uma arma da mochila e feriu um dos agentes nas costas. O outro disparou contra Amri, que morreu. Antes de atirar, o tunisiano teria gritado “Alá é grande!”. A pistola provavelmente é a mesma com a qual o jihadista matou o motorista polonês de quem roubou o caminhão usado no atentado — ele teria viajado armado o tempo todo. berlim-online

Embora, após o atentado de Berlim, Amri fosse o homem mais procurado da Europa, ele viajou através de três países europeus incólume. Não se sabe se ele planejava algum atentado na Itália, país que já foi frequentemente alvo de ameaças do Estado Islâmico, ao qual o tunisiano jurou lealdade, num vídeo divulgado ontem.

— Minha mensagem aos cruzados que bombardeiam muçulmanos todos os dias: nós vamos nos vingar — disse o tunisiano, no vídeo.

MERKEL VAI AGILIZAR DEPORTAÇÕES

Para líderes eurocéticos, sem o Espaço Schengen a longa viagem do terrorista não teria sido possível. Em comunicado, Marine Le Pen, candidata à Presidência da França pelo partido de extrema-direita Frente Nacional, afirmou que “Schengen é uma catástrofe para a segurança”. “Sem fronteiras nacionais permanentes, a França e vizinhos ficaram assistindo a um jihadista armado e perigoso vagar em seu solo logo após o atentado (em Berlim). O mito da livre circulação total na Europa, ao qual meus adversários ainda se apegam nesta eleição, deve ser enterrado”, escreveu Marine.

No fim do ano passado, depois dos atentados de Paris, o presidente francês, François Hollande, suspendeu o acordo por três meses. CONTEÚDO BERLIM

— Schengen só poderia funcionar bem se houvesse a possibilidade de identificação dos terroristas e criminosos e troca de informações entre os diversos países, o que nunca acontece — criticou o vice-presidente do partido de extrema-direita alemão Alternativa para a Alemanha (AfD), Georg Paderski.

Ainda ontem, Nigel Farage, ex-líder do Partido da Independência do Reino Unido, também criticou Schengen, classificando o acordo como “um risco para a segurança pública”. No Twitter, Geert Wilders, líder do holandês Partido da Liberdade, de extrema-direita, publicou: “Então Anis Amri entra na UE como solicitante de asilo, comete terror na Alemanha, viaja para a Itália e fechar nossas fronteiras é uma má ideia?” Engrossando o coro, Beppe Grillo, líder do movimento italiano antissistema Cinco Estrelas, disse que a troca de tiros com policiais e a morte de Amri em Milão provou que a crise migratória está fora de controle:

— É loucura que dois policiais italianos tenham arriscado suas vidas para lidar com um terrorista procurado por metade da Europa. A Itália tornou-se um caminho para os terroristas graças a Schengen, algo que não somos capazes de reconhecer.

Para o cientista político Thomas Jäger, da Universidade de Colônia, Schengen já foi criado condenado a falhar, por causa do contexto histórico, pouco depois do exagero do aparato de segurança que vigorou até o final de 1970, os chamados “anos de chumbo”, auge do terrorismo do grupo de extrema-esquerda Baader-Meinhof.

— Naquela época, a integração europeia não deveria parar em Schengen. O plano era transformar a UE num gigantesco país, uma superpotência, pelo menos do ponto de vista econômico, que não foi adiante porque os países não queriam abrir mão da soberania — lembra Jäger, que acredita que Schengen pode sobreviver após reformas radicais. Suspeito do atentado de Berlim é morto na Itália

Na sede da UE, em Bruxelas, foi disparado o alarme vermelho e teve início um trabalho para salvar a utopia da “Europa sem fronteiras”. Há cerca de quatro semanas, foi apresentado um pacote de medidas com o objetivo de um funcionamento mais efetivo do sistema de informações entre os países. Sob pressão, a chanceler federal alemã, Angela Merkel, anunciou ontem que vai agilizar a deportação de refugiados que tiverem o pedido de asilo recusado, caso de Anis Amri. Mas a presidente do AfD, Frauke Petry, não acredita:

— Foi ela que convidou os refugiados para vir para a Alemanha, importando o terrorismo.

oglobo.globo.com | 24-12-2016

BRUXELAS - A Apple e a AB InBev poderiam encarar uma dura batalha diante da cobrança da União Europeia por impostos atrasados, depois que o principal tribunal do bloco ter respaldado parcialmente a tentativa de reguladores de obrigar empresas espanholas a devolver milhões de euros em isenções tributárias.

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Em um parecer que poderia maior ímpeto à campanha na região contra um tratamento fiscal especial para companhias selecionadas, os juízes da Corte de Justiça da União Europeia, em Luxemburgo, disseram que um tribunal menor deveria reexaminar o sistema espanhol que conferia isenções tributárias a empresas, entre elas o Banco Santander, pela aquisição de cotas em empresas estrangeiras. Essas vantagens fiscais agora devem retornar, disse a União Europeia em comunicado.

A Corte Geral da UE se equivocou ao emitir parecer no qual a Comissão Europeia não havia demonstrado que havia sido escolhido um grupo de empresas para o programa, que outorgava deduções para participações em empresas entrangeiras, disseram os juízes nesta quarta-feira. Os reguladores nem sempre têm que demonstrar qiue somente certas companhias se beneficiam da ajuda, disse o tribunal.

— Esta decisão é um marco porque esclarece as regras do jogo — afirmou Raymon H.C. Luja, professor de direito tributário comparativo na Universidade de Maastricht. — Ela também terá seu efeito sobre alguns casos abertos.

A campanha europeia contra o tratamento tributário desigual levou a comissária antitruste da UE, Margrethe Vestager, a exigir da Apple o pagamento de US$ 13,6 bilhões em impostos atrasados devido a acordos com a Irlanda que, segundo a funcionária, não estavam disponíveis para outros países. A Bélgica também foi instruída a reembolsar cerca de US$ 700 milhões em vantagens fiscais outogradas a empresas, com a AB InBev, maior produtora de cerveja do mundo.

“A decisão é importante porque confirma que é possível que uma medida seja seletiva, se beneficia somente as companhias que levam a sério certas transações”, disse a Comissão Europeia em comunicado. “O fato de as condições que uma companhia precisava cumprir não serem restristas e que os benefícios estavam disponíveis para muitas empresas não põem em dúvida o natureza seletiva”.

A ação agora mudou de instância, com a disputa legal que estabelece a Apple esta semana, junto a Starbucks, uma filial da Fiat e mais de um dezena de empresas com sede na Bélgica, que pedem aos juízes um freio à UE. Autoridades regulatórias também estão investigando Amazon, McDonald’s e Engie, por acordos tributários com Luxemburgo.

A decisão desta quarta-feira se concentra em insenções tributárias na Espanha para empresas locais que permitiam a realização de grandes compras no exterior. O Santander passou de um banco local ao segundo maior em valor de mercado na zona do euro com a compra de bancos no Reino Unido e no continente americano.

oglobo.globo.com | 21-12-2016

BERLIM — Depois do atentado ao mercado de Natal, a campanha para a quarta eleição de Angela Merkel ficará ainda mais difícil. À frente dos ataques à chanceler federal está o partido Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla em alemão), de extrema-direita, que, apesar de ainda não saber sequer quem foi o autor do ação, usou o ataque que custou a vida de 12 pessoas com fins políticos. Para além das fronteiras, políticos extremistas de outros países europeus seguiram a mesma receita, responsabilizando projetos como o de Merkel — de acolhimento de imigrantes que fogem de guerras e miséria no Oriente Médio e na África — como responsáveis pela chegada de terroristas.

Marcus Pretzell, chefe da AfD na Renânia do Norte-Westfalia, o estado mais populoso da Alemanha,acusou a chanceler de ser co-responsável pelo massacre.

— As vítimas são os mortos de Merkel.

Sua opinião foi acompanhada pela da presidente nacional do partido, Frauke Petry, que acusou Merkel de ter importado o terror para o país.

— A Alemanha deixou de ser um país seguro.

Como depois de outros atentados islamistas na Europa, a extrema-direita espera obter um forte impulso e crescer com a ajuda dos votos dos eleitores contrariados da União Democrata Cristã (CDU), o partido de Merkel. E por parte dos próprios aliados começou uma nova pressão contra a chefe do governo. Horst Seehofer, presidente da União Social Cristã (CSU), partido que faz parte do governo, voltou a atacar a política de refugiados, que resultou na entrada de quase um milhão de pessoas no ano passado. À época, pesquisas de opinião mostravam que a maior parte da população alemã apoiava a abertura do país a refugiados.

— Nós temos o dever diante das vítimas de mudar a nossa política de segurança e de imigração — enfatizou Seehofer.

Segundo o cientista político Gero Neugebauer, da Universidade Livre de Berlim, este foi o mais letal atentado na Alemanha desde as Olimpíadas de Munique, em 1972. E poderá fortalecer a dissidência contra a chanceler federal nas próprias fileiras.

— Merkel foi reeleita recentemente presidente do partido, mas o apoio ficou poroso e poderá diminuir dramaticamente depois do atentado de segunda-feira — ressaltou Neugebauer.

Entre o medo e o populismo

Candidata à Presidência da França em maio próximo, Marine Le Pen, da Frente Nacional, bem como o candidato a primeiro-ministro holandês Geert Wilders, do Partido da Liberdade, também tiraram proveito político do atentado de Berlim.

— Quantas pessoas mais devem morrer nas mãos de extremistas islâmicos antes que nossos governos fechem as fronteiras e parem de receber milhares de imigrantes ilegais? — questionou, ontem, Le Pen, para acrescentar, sem apresentar evidências: — Todo mundo sabe que os jihadistas estão entrando na Europa passando-se por refugiados.

Já o holandês Wilders compartilhou no Twitter uma imagem de Merkel com as mãos manchadas de sangue. Por sua vez, Nigel Farage, ex-líder do Partido da Independência do Reino Unido (Ukip) e um dos responsáveis pela vitória da opção pela saída britânica da União Europeia (UE) no referendo, também tuitou: “Terríveis notícias de Berlim, ainda que não sejam uma surpresa. É parte do legado de Merkel.” Questionado sobre como se pode considerar a chanceler federal alemã a responsável por um ataque com um caminhão, supostamente roubado, Farage reagiu:

— Merkel e os líderes da Europa apoiam o Espaço Schengen de livre movimentação de pessoas. E isso supõe não somente o movimento de gente boa, mas também de gente má.

Farage disse ainda que “Merkel causa os problemas sociais e de terrorismo na Alemanha”.

— A Europa está numa encruzilhada entre o medo do terror e do populismo — observou Neugebauer, reforçando que o atentado abrirá um debate nacional sobre a política de asilo político.

Desde 2005 no poder e conhecida pelo estilo frio e racional, Merkel deu uma guinada no início de setembro do ano passado, quando ordenou a abertura das fronteiras alemãs para os refugiados. A decisão desencadeou uma onda inédita de solidariedade para com os fugitivos. Mas, logo depois dos atentados em Paris, em novembro de 2015, e das dezenas de casos de roubos e assédio sexual na praça da Catedral de Colônia, no último réveillon, começaram a surgir dúvidas sobre essa política. No congresso anual do CDU, Merkel deu outra guinada, no sentido contrário, afirmando que os incidentes de Colônia nunca mais se repetirão. Mas nem todos os alemães são contra a política da líder alemã.

— Merkel é uma das poucas defensoras do modelo liberal de democracia ocidental, cada vez mais ameaçado. Sem ela no poder, a União Europeia ameaça acabar em caos, e os populistas assumirão o comando na Europa — lembra Thomas Jäger, da Universidade de Colônia.

Ainda é cedo para uma avaliação dos efeitos políticos do atentado de Berlim. Mas muitos alemães defendem a preservação do modelo liberal com Merkel.

— Se reagirmos ao atentado fechando as nossas fronteiras para os perseguidos, como querem Le Pen ou Frauke Petry, isso seria uma vitória dos islamistas, que querem matar, mas também destruir nosso estilo de vida liberal — concluiu Jäger.

oglobo.globo.com | 21-12-2016
A líder da extrema-direita da França, Marine Le Pen, afirmou hoje que o país deveria estabelecer um "período de espera" para que imigrantes possam ter acesso ao serviço social no país e que crianças de famílias ilegais não tenham acesso gratuito à escola.Le Pen, uma das principais candidatas da eleição do ano que vem, afirmou que pretende interromper o que chamou de uma imigração "massiva" e exortou pela saída da União Europeia e da zona do euro. [Leia mais...]
atarde.uol.com.br | 08-12-2016

RIO E ROMA - Da noite para o dia, a Itália se viu mergulhada, mais uma vez, na incerteza sobre seu futuro político. Num simbólico vácuo de poder, o anúncio da renúncia do primeiro-ministro Matteo Renzi — após ter sido duramente derrotado no referendo sobre a reforma constitucional proposta por ele, no domingo — provoca receios de forte instabilidade em Roma e se coloca como um novo teste à União Europeia (UE). Com quase 60% dos votos contra o projeto do premier, o resultado foi considerado uma vitória da oposição populista italiana e brindado por polêmicos líderes antissistema dos vizinhos europeus. E, enquanto começam a surgir os nomes para ocupar a cadeira de Renzi, os eurocéticos italianos já se dispõem a assumir as rédeas de um governo fragilizado e, possivelmente, pressionar por um novo referendo sobre o abandono do euro. RENZI 0612

O premier postergou a renúncia até, pelo menos, sexta-feira. Após o Conselho de Ministros chegar a um consenso pela saída de Renzi, ele foi na segunda-feira ao Palácio do Quirinal, sede da Presidência, para comunicar ao presidente Sergio Mattarella que deixará o cargo, mas esperará a votação da Lei Orçamentária, nesta semana.

— Faço isso por senso de responsabilidade e para evitar o exercício provisório do cargo — disse Renzi após a reunião derradeira com seus ministros, citado pelo “La Repubblica”.

Mattarella disse que o clima político é de “serenidade e respeito recíproco”. A meta do presidente, segundo fontes, era evitar trazer mais instabilidade ao país no contexto da atual crise na zona do euro. De acordo com analistas, a derrota de Renzi, do Partido Democrático (PD), de centro-esquerda, é um sinal de que os italianos não estão satisfeitos com as atuais governanças do bloco europeu. E, embora não queiram chegar ao extremo de deixar a UE, pedem uma profunda transformação: mudanças no sistema de proteção social, mais atenção às políticas de trabalho e menos mecanismos de defesa para os bancos e especuladores financeiros. Hoje, a Itália se vê diante de altos índices de desemprego, que incentivam os clamores de revolta contra a política tradicional, vindos, sobretudo, do jovem Movimento Cinco Estrelas (M5S), a segunda maior força no Parlamento.

O professor Mattia Guidi, cientista político da Universidade LUISS, em Roma, explica que, pelas pesquisas, o resultado do referendo não foi uma surpresa. Mas o que surpreendeu foi a sua proporção, muito acima das intenções de voto. O índice de rejeição a Renzi acabou por surpreender até mesmo o premier, que disse aos seus aliados que não acreditava ser “tão odiado assim”.

— Ninguém previa uma diferença tão grande e isso provavelmente aconteceu por causa do grande comparecimento às urnas. O referendo foi visto pela população como um grande plebiscito sobre Renzi — explica Guidi.

DESAFIOS À EUROPA

É neste mesmo clima de insatisfação que ecoam os discursos populistas em diversas nações europeias, incluindo, muitas vezes, retóricas xenófobas da extrema-direita nos países mais afetados pela crise migratória. Não foi à toa que, rapidamente, a líder da francesa Frente Nacional, Marine Le Pen, comemorou o resultado das urnas no referendo italiano e o atribuiu ao seu colega da Liga Norte, Matteo Salvini. As duas legendas são, atualmente, aliadas no Parlamento Europeu e dividem fortes discursos anti-imigração. “Os italianos repudiaram a UE e Renzi. É necessário escutar essa sede de liberdade das nações e de autodefesa!”, escreveu Le Pen nas redes sociais. “Parabéns ao meu amigo Matteo Salvini por esta vitória do Não.”

Os parabéns também vieram do líder do xenófobo Partido da Liberdade, Geert Wilders, da Holanda. E o próprio Salvini fez uma comemoração bastante expressiva: “Viva Trump, viva Putin, viva Le Pen e viva a Liga!”, em referência à recente vitória do republicano Donald Trump nas eleições americanas de novembro.

O professor Ennio Triggiani, diretor do Departamento de Ciências Políticas da Universidade de Bari, explica que, embora o voto dos italianos tenha sido movido por questões internas, o referendo afetará a posição de Roma na política europeia. Mas não acredita numa crise para a zona do euro:

— Hoje, se abre um problema na Europa: o avanço dos populismos e nacionalismos. Com eleições em França, Alemanha e Holanda no ano que vem, seria preferível um governo italiano forte e estável, que daria ao país um papel maior no contexto europeu. É um efeito negativo do referendo para a Itália.

Dentre as especulações sobre o que o presidente Mattarella definirá, a hipótese mais provável é a formação de um governo tecnocrático, com um novo líder apoiado pela maioria de centro-esquerda do Parlamento. Dentre os nomes mais cotados, estão o Presidente do Senado, Pietro Grasso, e o ministro das Finanças, Pier Carlo Padoan.

Info referendo Itália

oglobo.globo.com | 06-12-2016

BERLIM — A vitória do político verde Alexander van der Bellen nas eleições presidenciais austríacas, realizadas no domingo, freou temporariamente as ambições do populismo anti-establishment na Europa. Depois de uma mobilização nacional, Bellen derrotou Norbert Hofer, do Partido da Liberdade, de extrema-direita, contrário à União Europeia e que defendia a construção de muros nas fronteiras para evitar a entrada de refugiados no país.

— Eu lutei desde o início por uma Áustria pró-Europa e por valores como liberdade, fraternidade e tolerância — afirmou o presidente eleito, de 72 anos, que nasceu no Tirol em uma família de refugiados do Leste Europeu.

Bellen assumirá a presidência da Áustria, um cargo mais cerimonial, no fim de janeiro com a missão de superar a divisão interna causada pela longa campanha eleitoral, a mais agressiva no país desde o final da Segunda Guerra Mundial. Hofer, aceitou a derrota e afirmou em seu perfil no Facebook que está “infinitamente triste” com o resultado. Ao mesmo tempo, seus adeptos usavam as redes sociais para especular sobre o perigo de “transformação da Áustria em um Estado muçulmano”.

Mas a festa da extrema-direita europeia pode ter sido apenas adiada, como afirma a cientista política brasileira Júlia Mourão Permoser, professora da Universidade de Viena:

— A mobilização nacional contra a extrema-direita surtiu efeito. No final, muitos potenciais eleitores de Norbert Hofer tiveram medo de uma política agressiva e da imagem negativa que a escolha de um presidente da extrema-direita significaria para a Áustria. Em maio do próximo ano, entretanto, Marine Le Pen tem grandes chances de ser eleita presidente da França.

A vitória de Alexander van der Bellen marcou o fim de um drama eleitoral nunca visto pelos austríacos. Em maio último, ele venceu o segundo turno da eleição presidencial com apenas 30 mil votos de diferença. A votação, porém, foi anulada sob a suspeita de irregularidades, o que fez a TV alemã ZDF chamar a Áustria de “república de bananas”. Em outubro, a repetição do segundo turno foi adiada para dezembro, depois de ter sido constatado que a cola usada para fechar os envelopes de voto por carta, importada da Alemanha, não colava direito. Durante os nove meses de campanha eleitoral, o discurso dos dois candidatos tornou-se mais agressivo, com acusações mútuas de “mentiroso descarado” ou “nazista simpatizante de Hitler”.

Para Julia Mourão Permoser, o resultado de ontem é mais um sinal de que apenas parte dos eleitores dos partidos populistas têm mesmo uma ideologia de extrema-direita.

— Alguns votam na direita como uma forma de protesto ao ver que os partidos até então no poder — no caso da Áustria, os social-democratas (SPÖ) e o Partido do Povo (ÖVP) — têm se mostrado incapazes de resolver os problemas registrados pela população — analisa a professora.

IMPACTO NA ALEMANHA

A vitória de Alexander van der Bellen poderá ter um efeito positivo na campanha da chanceler alemã Angela Merkel, que se candidatará pela quarta vez nas eleições parlamentares de setembro do próximo ano. O presidente eleito da Áustria elogiou a política para os refugiados da chefe do governo da Alemanha. Merkel foi alvo de críticas quando decidiu abrir as fronteiras do país e tem o seu futuro político ameaçado pelo crescimento do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), de extrema-direita, que tem tomado votos da União Democrata Cristã (CDU), partido da chanceler.

— A Europa tirou um peso do seu coração. A vitória (de Van der Bellen) foi uma vitória da razão — disse Sigmar Gabriel, presidente do Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD), que espera que o resultado austríaco fortaleça a mobilização contra a extrema-direita também em outros países onde há a ameaça dos populistas chegarem ao poder.

oglobo.globo.com | 05-12-2016

RIO e ROMA — Depois de apostar o seu cargo em uma ousada reforma legislativa, o primeiro-ministro da Itália, Matteo Renzi, se depara frente a uma perigosa encruzilhada política. Neste domingo, os italianos vão às urnas para decidir se o país reduzirá ou não os poderes do Senado — uma proposta que, segundo o premier, é necessária para aumentar a governança e reduzir os custos do Estado. No entanto, após meses de uma dramática campanha entre governo e oposição, em que Renzi prometeu renunciar caso sua reforma fosse derrotada, a verdade é que a disputa virou um grande julgamento popular do seu governo de centro-esquerda. E, agora, com as pesquisas apertadas, uma dividida Itália se vê diante da incerteza sobre o seu futuro, em que podem entrar em jogo o avanço de discursos populistas, a convocação de eleições antecipadas e até mesmo a sua saída da zona do euro. italia

A duas semanas do referendo, uma pesquisa do Instituto Demopolis marcava 52% das intenções de voto para o “Não”, que rechaça a reforma, e 48% para o “Sim”. No entanto, o diretor da organização, Pietro Vento, explica que o cenário era bastante diferente em abril, quando 58% dos eleitores indicavam endossar a proposta do premier. Mas a campanha de Renzi entrou em queda livre e, em apenas quatro meses, perdeu dez pontos — justamente porque o primeiro-ministro personalizou a votação e prometeu renunciar em caso de derrota. Tudo isso enquanto muitos italianos estão frustrados pelos altos índices de desemprego e pela crise migratória.

— Muitos começaram a pensar não tanto na reforma, mas em decidir se ainda queriam ou não o governo de Renzi, o que reduziu o percentual do “Sim” — explica o analista político. — Cerca de 56% dos italianos votarão para fazer um julgamento positivo ou negativo do seu governo.

GOVERNO SOB JULGAMENTO

Ao longo da campanha, o premier passou a evitar falar em renúncia. Mas, diante de um cerco cada vez mais apertado, ele agora diz que honrará sua palavra e não permanecerá em um governo enfraquecido. Já o vice-secretário da sua legenda, Lorenzo Guerini, sugeriu que, se o “Não” vencesse, o partido pressionaria por eleições antecipadas — sem esclarecer se o premier continuaria no Palácio Chigi, garantiu que ele ainda seria o líder do maior partido do Parlamento.

Entretanto, o que mais surpreende é o alto número de indecisos: na mesma pesquisa, eram 7 milhões de italianos que não sabiam que lado escolheriam. E outros 5 milhões que nem mesmo haviam decidido se sairiam de casa para comparecer às urnas. Vento atribui o clima de dúvida, sobretudo, à distância entre uma reforma tão complexa e a população, que nem sempre compreende os efeitos práticos de reduzir uma das duas Casas do país — o Senado e a Câmara de Deputados, hoje, têm o mesmo nível de poder e juntas reúnem quase mil legisladores. E, também, cita uma tendência recente dos cidadãos menos informados de escolher o voto na última hora, aumentando os desafios das pesquisas em acertar suas previsões — um fenômeno já registrado no referendo pela saída do Reino Unido da União Europeia (UE) e nas eleições presidenciais dos EUA.

— Há um movimento de voto muito mais forte hoje, e isso aconteceu muito nos últimos anos também na Itália. Quando a opinião pública está rachada praticamente ao meio, com este número tão alto de indecisos, que é de um italiano em quatro, tudo pode acontecer — avalia Vento.

Renzi, no entanto, pediu repetidamente na reta final da campanha que os eleitores saíssem hoje para votar. Enquanto crescia a pressão sobre os seus ombros por um sinal de vitória, uma das apostas do premier era a ampla comunidade italiana no exterior — que compõe cerca de 8% do eleitorado e, segundo analistas, pode ser decisiva para o referendo. E também apelava a uma suposta maioria silenciosa a seu favor, em contraposição aos eleitores que clamavam em alto e bom som em protestos nas ruas que votariam contra a reforma.

POSSÍVEL ABANDONO DO EURO

O pacote de Renzi parece não ter convencido, sobretudo, os desempregados e a juventude. Com sensação de abandono, em tempos de altos níveis de desocupação, muitos desconfiam das legendas tradicionais, incluindo o governista Partido Democrático. Na contramão, se veem atraídos pelo discurso antissistema do Movimento Cinco Estrelas (M5S). A retórica populista do grupo, liderado pelo temperamental comediante Beppe Grillo, conquista eleitores com críticas à tradicional elite política italiana. Enquanto a centro-direita não encontrou ainda um líder depois do ex-premier Silvio Berlusconi, o movimento é hoje a segunda força política da Itália.

O M5S fez uma fervorosa campanha pelo “Não”, na esperança de ver crescer sua potência política em eventuais eleições antecipadas. Dentre as suas propostas, a mais preocupante para os mercados e vizinhos europeus é um novo referendo: desta vez para votar a saída italiana da zona do euro. Ao lado do Italexit, como já é apelidada a potencial polêmica, os temores do rechaço à reforma incluem consequências semelhantes ao que vive hoje o Reino Unido pós-Brexit: troca repentina de governo, instabilidade na política e forte turbulência para a economia.

Renzi, por outro lado, tem ao seu lado investidores, a imprensa italiana e fortes líderes da comunidade internacional. Inclusive, é pressionado a não deixar o governo, se derrotado, para conter uma terceira revolta eleitoral antissistema no Ocidente, após os resultados em Reino Unido e EUA. O presidente Barack Obama disse que o italiano não deveria sair de cena. E em editorial, o “New York Times” pediu que Renzi amenize os efeitos da sua própria derrota.

— Renzi deu um sentido publicitário para a consulta e, assim, desencadeou um mecanismo de dramatização. Agora, a Europa, os grandes bancos e as organizações internacionais nos pedem que ele não saia — diz Fulco Lanchester, professor de Ciências Políticas da Universidade La Sapienza, em Roma.

oglobo.globo.com | 04-12-2016

BERLIM - Tratado durante mais de 70 anos como um filho renegado, Adolf Hitler está de volta à sua pátria, pelo menos como um dos principais temas da campanha para a eleição de amanhã, que terminou com troca de acusações mútuas sobre o ditador entre os candidatos Nobert Hofer, do Partido Liberal Democrata (FPÖ), e Alexander van der Bellen, do Partido Verde. Cartazes e outdoors mostrando Hofer com o famoso bigodinho de Hitler fizeram parte da paisagem urbana das cidades nos últimos meses.

Em resposta, seus aliados publicaram no Facebook uma foto usada na campanha do verde Alexander van der Bellen em uma pose parecida com a documentada em duas fotos de Hitler — na mesma paisagem montanhosa dos Alpes, com o seu pastor alemão. “Nós não queremos acusar, mas a escolha dos temas da foto, Alpes, cachorro e cerca, foi pelo menos infeliz”, escreveu um aliado de Norbert Hofer.

No último duelo na TV, na quinta feira à noite, Van der Bellen, de 72 anos, mostrou o que classificou como a “face real de Hofer” exibindo a foto do candidato beijando a mão da sua colega francesa Marine Le Pen. O populismo vem crescendo no continente como uma onda antiglobalização, manifestação da população mais pobre, que se vê como perdedora por conta da União Europeia (UE) e da imigração. Para o historiador Oliver Rathkolb, nem na campanha de 1986, quando Kurt Waldheim foi eleito, o nome de Hitler foi usado com tanta frequência.

— Não nos deixem brincar com o fogo — advertiu o candidato verde, alertando para o perigo de uma vitória do adversário.

Ameaça de populismo global

Os olhos dos políticos defensores do liberalismo ocidental estão voltados para a “república alpina”. A possibilidade de uma vitória de Hofer é vista como uma catástrofe para a Europa e poderia dar novo impulso aos populistas da França, Holanda e Alemanha, aumentando o avanço da extrema-direita no continente. Analistas já falam sobre o perigo de um populismo global, reação em cadeia de um fenômeno que começou com o Brexit, no Reino Unido, e culminou com a eleição de Donald Trump, nos EUA.

Para a cientista política Sarah de Lange, o fenômeno é semelhante em toda a Europa. Os eleitores votam em uma pessoa carismática e não mais em um programa partidário, como era a tradição antigamente.

— O programa é ser contra a UE, o euro e os imigrantes.

Caso Hofer vença e assuma o suntuoso palácio presidencial Hofburg, o presidente russo, Vladimir Putin, e o nacionalista sérvio, Tomislav Nikoli, terão um novo amigo na UE. Em termos de política externa, suas primeiras medidas seriam o fim das sanções contra a Rússia e a suspensão do reconhecimento da Áustria ao Kosovo, que seria visto como parte da Sérvia. Ele ainda prometeu o apoio aos sérvios que habitam parte da Bósnia-Herzegovina e almejam uma reunificação.

Manfred Welan, autor de um livro sobre a Constituição austríaca, adverte que Hofer poderia revolucionar a Presidência ao usar poderes que foram ignorados desde a Segunda Guerra Mundial — ele já anunciou que, se necessário, vai usar isso para demitir o Gabinete. Foi o modelo de Constituição da República de Weimar que tornou possível a chegada de Hitler ao poder.

Culpa transferida

Quando a Áustria foi reunificada com o grande império alemão, em 1938, 700 mil austríacos tinham a carteira do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. A transferência de toda a culpa pelo Holocausto para a Alemanha seria, segundo o historiador Rathkolb, um alicerce da identidade austríaca de hoje, compartilhada pela direita e pela esquerda.

— A Áustria sempre teve uma relação complicada com Hitler — diz Rathkolb, que é professor da Universidade de Viena.

Um exemplo da dificuldade na abordagem do passado é a postura complicada que teve até agora com a casa de Hitler, em Braunau. Apenas 71 anos após a morte, o governo tomou a primeira decisão importante sobre o imóvel. O “berço do mal”, como a casa de três andares é chamada, deverá passar por uma reforma para evitar que se transforme em um “santuário dos neonazistas”.

— Braunau foi apenas o lugar de origem de Hitler. Os acontecimentos começaram em outro lugar, na Alemanha — afirmou o prefeito da cidade, Johannes Waidbacher.

Há poucos dias, Christian Kern, presidente do Partido Social Democrata (SPÖ), foi anfitrião de uma reunião de partidários no continente, na tentativa de frear o crescimento populista. No encontro, foi divulgado um pacto que seria a principal arma do contra-ataque social democrata contra a extrema-direita.

— Estamos diante de um abismo — disse, sobre a expansão do populismo de direita.

oglobo.globo.com | 03-12-2016

HAVANA — A morte de Fidel Castro consolida no poder seu irmão, Raúl Castro, que formou um governo com a velha guarda comunista e chefes militares veteranos. Conheça alguns nomes de peso no governo cubano:

Miguel Díaz-Canel — Engenheiro elétrico, nascido em 20 de abril de 1960. Desde fevereiro de 2013 designado sucessor de Raúl Castro na condição de primeiro vice-presidente dos Conselhos de Estado e de Ministros. Ex-chefe do Partido Comunista em Villa Clara e Holguín e ex-ministro de Educação Superior.

José Ramón Machado Ventura — Médico e dirigente histórico, nascido em 26 de outubro de 1930. Segundo secretário do Partido Comunista e um dos vice-presidentes dos Conselhos de Estado e de Ministros. Conhecido por ser linha dura.

Ramiro Valdés — Comandante da Revolução, nascido em 28 de abril de 1932. Membro do bureau político e vice-presidente dos Conselhos de Estado e de Ministros.

Bruno Rodríguez — Membro do bureau político e chanceler que efetivou o restabelecimento das relações com os EUA. Também promoveu a aproximação com a União Europeia. Nasceu em 22 de janeiro de 1958.

Esteban Lazo — Economista, nascido em 26 de fevereito de 1944. Membro do bureau político e do secretariado do Partido Comunista, onde estava a cargo do departamento ideológico. Vice-presidente do Conselho de Estado.

Leopoldo Cintra — Dirigente histórico, nascido em 17 de julho de 1941. Ocupa o cargo de Ministro da Defesa e general do Corpo de Exército. Membro do bureau político e do Conselho de Estado.

Marino Murillo — Economista, nascido em 19 de fevereiro de 1961. Ocupa o Ministério da Economia e é membro do bureau político e do Conselho de Estado, além de vice-presidente do Conselho de Ministros e supervisor geral das reformas econômicas.

oglobo.globo.com | 27-11-2016

O primeiro turno das primárias presidenciais da coalizão de centro-direita francesa sugere que o ex-primeiro-ministro François Fillon será o candidato a enfrentar a candidata da extrema-direita pela Frente Nacional, Marine Le Pen. Fillon derrotou Alain Juppé, também ex-primeiro-ministro, por 44,1% a 28,5%. O ex-presidente Nicolas Sarkozy, com 20,6% dos votos, ficou em terceiro lugar, fora, portanto, da disputa. Ele prometeu apoio a Fillon.

Além do Partido dos Republicanos, dos três pré-candidatos, participaram das primárias o Centro Nacional dos Independentes e Camponeses e o Partido Cristão-Democrata, com um comparecimento de mais de quatro milhões de eleitores. Fillon e Juppé ainda se enfrentam no próximo domingo, no segundo turno das primárias. Segundo pesquisas, o primeiro deve derrotar o segundo e vencer Marine Le Pen, nas eleições presidenciais de 2017, que serão realizadas em dois turnos: 23 de abril e 7 de maio.

Apoiado pelo movimento católico conservador “La manif pour tous” (“A manifestação para todos”) fundado em 2012, Fillon defende a revogação da lei que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo, e tem uma visão conservadora da vida civil. Sua vitória no primeiro turno das primárias surpreendeu e reforçou a tendência global de guinada à direita. De acordo com o jornal “Le Monde”, Fillon tem a admiração de líderes de extrema-direita e é visto como um candidato mais difícil para Marine Le Pen, pois muitas de suas propostas seguem na mesma direção da candidata da Frente Nacional.

Como o presidente recém-eleito dos EUA, Donald Trump, Fillon, por exemplo, também demonstra admiração pelo presidente Vladimir Putin, sugerindo que a França se aproxime da Rússia e tenha uma posição mais independente em relação à União Europeia (UE). Também defende o controle do fluxo de imigração para o país.

A relativa proximidade ideológica entre Fillon e Marine Le Pen sugere que o candidato de centro-direita dos Republicanos poderá roubar votos da líder da Frente Nacional.

Mas Fillon, que não esconde sua admiração por Margaret Thatcher, não vai tão longe quanto Marine Le Pen, que apoia abertamente a saída da França da UE, como fez o Reino Unido (o chamado Brexit); nem propõe retirar o país de acordos de livre comércio; e barrar completamente a entrada de estrangeiros na França.

O Partido Socialista, por sua vez, fará suas primárias em janeiro de 2017, com o presidente Hollande amargando a menor popularidade já registrada — 8%. Dificilmente o partido conseguirá obter apoio a uma candidatura própria com chances de vitória. O cientista político Remi Lefebvre, da Universidade de Lille, disse à Bloomberg que “a direita sairá das primárias unida e pacificada, ao passo que (Marine) Le Pen está correndo alto. Não há espaço para a esquerda.” Resta saber como votarão seus eleitores.

oglobo.globo.com | 25-11-2016

Como resumir um ano de tantas notícias surpreendentes em uma só palavra? O que têm em comum a saída da Inglaterra da União Europeia, a eleição de Trump, as guerras no Oriente e as nossas escolhas políticas? Alguma coisa pode conectar tudo isto — além, do aquecimento global que nos torra os miolos? Pois o Dicionário de Oxford acaba de nos dar uma valiosa contribuição para entender o mundo em que vivemos. Escolheu como palavra do ano uma expressão pouco conhecida: pós-verdade.

O serviço da Universidade de Oxford tem autoridade para tanto. O dicionário começou a ser concebido em 1857. A tarefa foi entregue ao professor James Murray, em 1879. Cinco anos depois, ainda não tinham saído da letra “a”. Somente em 1884 os primeiros volumes foram lançados. O alfabeto só seria coberto em 1928, com 400 mil palavras. Essas referências ajudam a entender que não se trata de um dicionário comum. Ele tenta registrar as palavras desde a sua origem até seu uso corrente nas ruas, como elas ganham novos significados e se incorporam às nossas vidas.

Post-truth. É um adjetivo. Não chega a ser novo. Tem uma década, pelo menos. Mas os estudiosos de Oxford perceberam que nos últimos tempos seu uso passou a ser mais frequente: em artigos acadêmicos, por escritores, nos jornais e, finalmente, nas ruas. Como em 2015, quando os “emojis” dominaram o mundo.

Pela definição do dicionário, pós-verdade quer dizer “algo que denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência para definir a opinião pública do que o apelo à emoção ou crenças pessoais”. Em outros termos: a verdade perdeu o valor. Não nos guiamos mais pelos fatos. Mas pelo que escolhemos ou queremos acreditar que é a verdade.

A palavra se tornou recorrente depois da surpresa do Brexit e da eleição “sangrenta” nos Estados Unidos. Mas pode perfeitamente ser aplicada ao nosso momento político. Para o jornalismo, é uma má notícia. Embora seja quase folclórico em nossas redações citar algum dono de jornal (e os nomes variam) que teria por vício repetir diante de alguma noticia que não queria saber dos fatos, mas da versão que o jornal iria publicar.

O terreno da internet tem se revelado fértil para a propagação de mentiras — sempre interessadas —, trincheira dos haters. Levamos tanto tempo para estabelecer uma visão “científica” dos fatos, construir a isenção do jornalista, a independência editorial e, de repente, vemos que o debate político se dá entre “socos e pontapés”. A pós-verdade arrasta a política, o jornalismo, a justiça, a economia, a nossa vida pessoal...

Seria prudente resgatarmos o território da verdade. Substantivo feminino. Simples assim. Expressão dos fatos, e fatos podem ser verificados. Esse é o papel do jornalismo. Ou torcermos para que no ano que a palavra escolhida pelo Dicionário de Oxford não seja parecida com desastre.

_________

PS: A história do dicionário de Oxford está bem contada no livro “O professor e o louco”, de Simon Winchester, que relata o trabalho de um dos colaboradores do professor James Murray, William Chester Minor, o louco do título. Durante todos os anos que contribuiu para o dicionário selecionando citações para ilustrar o uso das palavras, ele esteve internado numa clínica para doenças mentais.

Luiz Cláudio Latgé é jornalista

oglobo.globo.com | 23-11-2016

BERLIM — Karamba Diaby, nascido no Senegal há 56 anos, gosta de enfrentar desafios. Ele não só vive há 30 anos no Leste alemão, onde a extrema-direita tem crescido vertiginosamente nos últimos tempos, como conseguiu ser eleito há três anos: é o primeiro deputado federal de origem africana. Mesmo o status político não o poupa do racismo cotidiano, das agressões verbais e das cartas com ameaças que recebe em Halle, na antiga Alemanha Oriental, ou da discriminação sutil no próprio Parlamento. Na autobiografia “Mit Karamba in den den Bundestag: mein weg vom Senegal ins Deutsche Parlament” (Com Karamba no Bundestag: o meu caminho do Senegal para o Parlamento alemão), que escreveu em parceria com a jornalista Eva Sudholt, Diaby revela os detalhes do racismo com o qual é obrigado a conviver. Mas o doutor em Química pela Universidade de Halle não guarda rancor. Pelo contrário, como deputado federal por Halle, ele trabalha na defesa dos interesses do Leste alemão, onde vive com a esposa, a alemã Ute, e os dois filhos. Em entrevista ao GLOBO, Diaby lembra, porém, que o racismo não é um problema só da Alemanha porque existe em toda a Europa.

Quais foram as suas experiências mais graves com atos racistas na Alemanha?

O pior acontece no dia a dia. Eu recebo regularmente ameaças e mensagens de ódio de pessoas que me odeiam só por causa da cor da minha pele. Uma vez um motorista de táxi se recusou a me levar dando como motivo o fato de eu ser negro. Mas o racismo acontece também onde não se espera. Depois de eleito deputado, fui pela primeira vez à cantina do Parlamento. A mulher do caixa olhou para mim e disse: “O senhor não!” Mais tarde, contei que era parlamentar e mostrei a carteira de deputado. Esses episódios são acontecimentos que marcam. Há alguns meses, recebi um cartão postal de um pequeno partido de direita, “O Terceiro Caminho”, que mandava eu ir embora para a África.

Há mais racismo na Alemanha do que em outros países europeus?

O racismo não é um problema só do Leste ou mesmo da Alemanha. Em toda a Europa, as forças de extrema-direita estão crescendo. Vejo como grave também a situação na França, no Reino Unido e na Polônia. Muitas pessoas parecem não ter aprendido com o passado, sobre como o racismo pode levar a uma catástrofe como a causada pelos nazistas. Os governos europeus precisam trabalhar para combater o racismo.

Muitos estrangeiros evitam o Leste da Alemanha com medo de agressão. O senhor os aconselharia a não visitar essa região?

Não. Eu sei que muitos imigrantes evitam o Leste chocados com as notícias de um comportamento xenófobo agressivo. Mas não devemos criar clichês como se isso fosse algo generalizado. É verdade que lá acontecem coisas horríveis, mas eu faço questão de afirmar que racismo e extremismo de direita não são um fenômeno típico da antiga RDA (República Democrática Alemã, a antiga Alemanha Oriental). O Leste tem se desenvolvido, e a maioria vê os imigrantes de forma positiva.

É verdade que muitos moradores do Leste preferiam a volta do regime comunista?

São os insatisfeitos porque nunca conseguiram se integrar ao mercado de trabalho depois da reunificação alemã. Muitos alemães do Leste sofreram com a mudança porque precisaram começar tudo de novo. Sobretudo os mais velhos, que passaram do desemprego para a aposentadoria, sem conseguir melhorar de vida, são atacados pela “ostalgia” (nostalgia do Leste). Eu também tive problemas para conseguir emprego, apesar do título de doutor em Química. Mas tive sorte porque consegui trabalhar como intérprete.

O senhor vê o Pegida (movimento de extrema-direita) como algo novo ou essas tendências já existiam em Dresden no passado?

As tendências de xenofobia que levaram ao surgimento do Pegida já existiam, certamente. Mas houve uma escalada na situação quando aumentou o fluxo de refugiados para o país.

Como o senhor veio para a Alemanha?

Os estudos sempre foram algo muito importante para mim, a ponto de eu não medir esforços para conseguir o meu diploma na Alemanha. Durante o meu estudo universitário, em Dacar, candidatei-me a uma bolsa de estudos internacional. No formulário de candidatura, precisava escrever no lado esquerdo os meus países preferidos, enquanto no lado direito a especialidade que queria. Eu escrevi eletrotécnica, e como países para onde queria ir indiquei a União Soviética, Tchecoslováquia, Alemanha Oriental e Bulgária. Terminei sendo escolhido para a RDA, onde comecei o programa com um curso de alemão de nove meses.

Como deputado do Partido Social Democrata (SPD), o senhor é responsável pelo tema refugiados. Na sua opinião, a Europa vai conseguir no futuro barrar os refugiados construindo cercas nas suas fronteiras?

Barrar os refugiados na fronteira não é uma solução. Trata-se de um dever humanitário da União Europeia acolher os fugitivos, que vêm para a Europa fugindo da violência e da morte nos seus países de origem. Ao mesmo tempo, a Europa precisa combater os motivos dessa fuga, quer dizer, apoiar as nações para o fim de conflitos e para que se recuperem economicamente. A União Europeia não vai conseguir permanecer como uma ilha da fartura enquanto ao seu redor predominam a miséria, a guerra e a fome. Enquanto houver essa discrepância, as pessoas que sofrem com a guerra e a pobreza farão tudo para alcançar a Europa.

oglobo.globo.com | 20-11-2016

Grande parte do mundo ficou chocada e assustada com o sucesso eleitoral de Donald Trump, mas há aqueles que se deleitaram. “Foi uma vitória para as forças que se opõem à globalização, estão lutando contra a migração ilegal e são a favor de Estados étnicos limpos”, declarou um porta-voz do Aurora Dourada, o partido de extrema-direita da Grécia, muitas vezes caracterizado como neonazista.

Trump - Gabinete - 19.11

Viktor Orbán, o primeiro-ministro húngaro que afirmou querer construir um “Estado iliberal” em seu país, chamou o resultado de “uma grande notícia”. O vice-líder da Frente Nacional, legenda de direita da França historicamente considerada ultranacionalista e antissemita, também ficou exultante.

Ninguém pode ser julgado por aqueles que aprovam suas ações, mas vale a pena tentar entender o que os admiradores de Trump estão comemorando. Em alguns casos, seu apelo é que ele está contra o politicamente correto. Beppe Grillo, o ex-comediante que agora lidera o Movimento Cinco Estrelas, na Itália, observou que, como Trump, seu partido tinha sido rotulado de sexista e populista, mas que as pessoas não se importavam com isso.

Para outros, é o sentimento de parentesco entre homens fortes que não se preocupam com direitos humanos. O ditador sírio Bashar al-Assad chamou Trump de “aliado natural”. Rodrigo Duterte, líder autoritário das Filipinas, disse: “Nós dois somos iguais”. Robert Mugabe, no poder no Zimbábue por 36 anos, se mostrou esperançoso e teria descrito Trump como “um amigo”.

O que unifica os admiradores internacionais de Trump é a ideia de que a ordem global existente é podre e deve ser demolida. Todos os partidos europeus que aplaudem sua vitória buscam a destruição da União Europeia e, de forma mais geral, da comunidade ocidental fortemente unida centrada em valores e interesses partilhados. Eles são quase todos pró-russos porque veem na Rússia de Vladimir Putin um país que busca ativamente minar o atual sistema internacional.

Onda nacionalista ganha força na Europa

Muitos destes grupos têm o apoio secreto ou explícito da Rússia e se beneficiam da guerra cibernética do Kremlin. “Todos precisamos usar (a eleição de Trump) para remodelar o relacionamento transatlântico e acabar com os grandes conflitos na Ucrânia e na Síria, juntamente com a Rússia”, disse a alemã Frauke Petry, líder do partido ultranacionalista Alternativa para a Alemanha.

Mas o que é esse globalismo ao qual essas pessoas tanto se opõem? Depois de 1945, após a Grande Depressão e duas guerras mundiais, as nações ocidentais estabeleceram um sistema internacional caracterizado por regras que honraram a soberania nacional, permitiram o florescimento do comércio global e encorajaram o respeito pelos direitos humanos e liberdades.

Esta ordem resultou no mais longo período de paz entre as maiores potências do mundo, marcado por um crescimento econômico que criou grandes classes médias no Ocidente, garantiu o renascimento da Europa, o crescimento nos países pobres e a propagação da liberdade em todo o mundo.

O papel dos EUA em tudo isso foi fundamental. Ele estabeleceu a agenda e proporcionou segurança, que era mais do que apenas dissuadir a União Soviética e outras potências agressivas. Radek Sikorski, ex-ministro das Relações Exteriores da Polônia, disse: “A influência dos EUA e seus compromissos têm sido nosso cobertor de segurança. Permitiram que as rivalidades nacionais da Europa permanecessem dormentes. Se tirarmos essas garantias, a Europa poderia ficar muito instável”. E vale lembrar que a União Europeia é o maior mercado do mundo e o maior parceiro comercial dos EUA.

Os retratos de Trump por cartunistas

Para os EUA, o “globalismo” produziu enormes vantagens. Com 5% da população mundial, o país domina a economia global, em tecnologia, educação, finanças e energia limpa. Um em cada cinco empregos no país é resultado do comércio, e esse número cresce rapidamente. Os EUA ainda mantêm a moeda de reserva do mundo, o que lhes dá uma enorme vantagem econômica.

Os benefícios do crescimento e da globalização não foram compartilhados igualmente, e o ritmo da mudança causa a ansiedade em toda parte. Mas essas são razões para investir em pessoas e integrar melhor as comunidades. Não são motivo para destruir o sistema internacional mais pacífico e produtivo jamais concebido na história da Humanidade.

*Fareed Zakaria é colunista do Washington Post

oglobo.globo.com | 19-11-2016

LONDRES - Três meses depois de ser eleita para liderar o mais complexo processo político e econômico já enfrentado pelo Reino Unido no pós-guerra — a saída da União Europeia (UE) — a primeira-ministra Theresa May vê seu poder ser desafiado por pressões internas e externas que dificultam ainda mais o caminho do Brexit.

Reino Unido - 16.11

Ela prometeu ativar em março do ano que vem o Artigo 50 do Tratado de Lisboa, que dá início à retirada do bloco europeu, prevista para durar dois anos, mas divisões internas no Partido Conservador e a impaciência crescente do Parlamento e dos vizinhos europeus, além das evidências de que o governo estava totalmente despreparado para colocar o Brexit em prática, complicam os planos da premier. O governo italiano definiu a estratégia de May como caótica, enquanto a oposição falou em “desordem total”, dando o tom das críticas à confusa condução do rompimento com a UE.

Questionada pelo líder trabalhista Jeremy Corbyn, que mencionou o vazamento de um relatório apontando divisões internas no Gabinete e a falta de direção política clara sobre o processo, a primeira-ministra garantiu, em sessão no Parlamento, que o governo está unido e pronto para negociar a saída do bloco europeu. Membros da UE, no entanto, afirmam que a equipe de May está perdida.

O ministro do Desenvolvimento Econômico da Itália, Carlo Calenda, afirmou que até agora os europeus não entenderam o que o Reino Unido pretende. Já o holandês Jeroen Dijsselbloem, presidente do Eurogrupo (que reúne os ministros das Finanças da UE), rejeitou a intenção britânica de deixar o bloco sem perder as vantagens econômicas dos países-membros.

Embora o chanceler britânico, Boris Johnson, tenha afirmado que isso seria possível, Dijsselbloem foi taxativo: não existe acesso ao mercado único sem a livre circulação de cidadãos. O controle da imigração é um dos pontos principais do Brexit, reflexo da onda nacionalista que vem reforçando a influência da extrema-direita na Europa.

— Ele (Johnson) está dizendo coisas que são intelectualmente impossíveis e politicamente inviáveis. Ele não está oferecendo ao povo britânico uma visão realista sobre as opções disponíveis e o que pode ser alcançado — reclamou Dijsselbloem, acrescentando que as negociações serão extremamente complexas e devem durar muito mais do que dois anos.

DECISÃO NÃO DEVE SER REVISTA

No início do mês, a Alta Corte do Reino Unido decidiu que o país não poderá acionar o Artigo 50 sem a aprovação do Parlamento. O anúncio foi uma derrota para May. Ela apelou à Suprema Corte, que deve dar seu veredicto em dezembro, mas a única mulher a integrar o corpo de 12 membros da mais alta instância judicial do país, Brenda Hale, sinalizou que o Executivo terá dificuldades para derrubar a decisão. Em visita à Malásia, a juíza admitiu a possibilidade de o tribunal complicar ainda mais os planos do governo, exigindo que o Brexit seja precedido de uma revisão mais abrangente da lei de 1972 que permitiu a própria adesão britânica à UE.

Apesar dos obstáculos, analistas acreditam que May manterá a promessa que fez ao substituir David Cameron, em julho: “Brexit significa Brexit”. Ou seja, é pouco provável que a decisão seja revista.

Revertérios do Brexit

— O mais provável é que o Brexit aconteça, mesmo que tenha que passar pelo Parlamento. É improvável que os conservadores votem contra a decisão. A posição do Partido Trabalhista é não se opor, embora alguns deputados do partido e oito do grupo liberal-democrata prometam votar contra. Eles veem a votação no Parlamento mais como uma maneira de forçar o governo a esboçar um plano para a UE — disse Robert Ladrech, professor de Política Europeia da Universidade de Keele.

Corbyn exigiu que a primeira-ministra esclareça quantos funcionários públicos serão necessários para colocar o Brexit em prática, e disse que os ministros estão desorientados. Documento de consultoria publicado pela imprensa britânica falou em 30 mil pessoas e pelo menos 500 projetos sendo tocados ao mesmo tempo.

— Revelar todos os detalhes das negociações com os outros 27 membros da UE seria a melhor maneira possível de conseguir o pior de todos os resultados para nosso país. É por isso que não vamos fazer isso — reagiu May, numa troca acalorada de acusações no Parlamento.

BUSCA POR SAÍDA MENOS TRAUMÁTICA

Johnson, grande estrela da campanha pelo Brexit, tem percorrido as capitais da UE para negociar uma saída menos traumática, mas não se sabe ainda como o governo pretende se relacionar com o bloco. As discussões se dividem entre uma retirada suave — conhecida como “soft Brexit” — e uma mais radical — a “hard Brexit”. A primeira opção significaria deixar a UE, mas continuar se beneficiando da isenção tarifária. Para isso, no entanto, Londres precisaria respeitar o princípio básico do bloco: livre movimentação de capital, bens, serviços e pessoas.

Já uma ruptura total, com controle da entrada de imigrantes e independência de Bruxelas, deixaria os britânicos sem acesso ao mercado único, o que poderia provocar uma recessão. Pesquisa divulgada ontem indicou que 90% dos britânicos defendem o livre comércio com a UE, enquanto 74% apoiam o controle da imigração. A combinação das duas coisas não será aceita por Bruxelas.

— Não entendo como seria um Brexit suave. Ou você está dentro da UE, usufruindo dos benefícios e aceitando as responsabilidades, incluindo as que não agradam, ou você está fora do bloco. Uma posição pela metade é implausível — avalia Nick Witney, analista do Conselho Europeu para Relações Internacionais.

Os esforços diplomáticos de Johnson têm sido desastrosos. Em visita à Itália, ele deu declarações ofensivas, insinuando que os italianos “venderão menos prosecco” se abrirem mão dos negócios com o Reino Unido. A vitória do protecionista Donald Trump nos EUA ameaça também as relações bilaterais entre os dois parceiros históricos.

oglobo.globo.com | 17-11-2016

BERLIM — Em uma primeira tentativa de terapia contra o trauma que causou a eleição de Donald Trump para a Presidência dos EUA, os ministros das Relações Exteriores da União Europeia (UE) reuniram-se nesta segunda-feira, em Bruxelas, para definir o futuro das relações transatlânticas. A vitória do republicano e suas críticas à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) deixaram a Europa em uma encruzilhada, colocando a chanceler alemã, Angela Merkel, em uma posição praticamente isolada na defesa da aliança.

EUA - Obama, Trump, Putin

Para acalmar os ânimos, o presidente americano, Barack Obama, indicou, nesta segunda-feira, que a troca de comando não representará grande mudança em questões internacionais, afirmando que Trump está comprometido com a organização.

— Um fato ótimo sobre os EUA é que em temas mundiais nossa influência é resultado não apenas do presidente, mas de múltiplas interações que envolvem diversos atores. Isso é o que nos torna uma nação indispensável para manter a ordem no mundo. Trump manifestou intenção em manter esse papel na conversa que tivemos, ele está comprometido com a Otan. Eu farei com que eles (líderes mundiais) saibam que não há um enfraquecimento nesse papel — declarou Obama, em sua primeira entrevista coletiva desde o resultado das eleições americanas e antes de embarcar para a Europa.

A UE ficou ainda mais dividida sobre o futuro da aliança após Trump ter antecipado que o seu governo teria pouco interesse em financiá-la e sugerido que iria redefinir as relações com a Rússia. Ontem, os países da UE concordaram em um plano para aumentar o papel de defesa e segurança da organização. No entanto, Federica Mogherini, chefe da Política Externa da UE, salientou que o bloco não pretendia competir com a Otan ou criar um Exército europeu.

‘TRUMPS DA EUROPA’

Pressionada pelo fenômeno do “Trumpusconi” — um termo que mistura Trump e Berlusconi, usado pelos analistas para se referir à onda de populismo de extrema-direita dos dois lados do Atlântico — Merkel tem poucos argumentos para convencer os outros líderes europeus, incapazes de chegar a um acordo para garantir o futuro da Otan. Fundada depois da Segunda Guerra Mundial como uma resposta do Ocidente ao poderio soviético, a aliança é tida como uma das últimas defensoras de um sistema liberal ocidental.

Onda nacionalista ganha força na Europa

— Com o aumento da participação dos partidos populistas de direita nos governos europeus, a UE e a Otan estão condenadas a uma grande perda de importância, e isso resulta no aumento do espaço de poder deixado à Rússia — avaliou o cientista político Nikolas Kessels, do Instituto John-F.Kennedy da Universidade Livre de Berlim.

A Europa também tem os seus Trumps. O processo de “fim do mundo como nós o conhecemos”, como descreveu a revista alemã “Der Spiegel”, terá um novo capítulo já no próximo mês, quando Norbert Hofer, do Partido Liberal Democrata (FPÖ) será, provavelmente, eleito no segundo turno das eleições presidenciais austríacas. Hofer é a favor de muros e cercas e contra o ingresso de imigrantes, assim como o republicano.

Mas o que está sendo visto como a maior ameaça para a Europa é uma possível eleição de Marine Le Pen, da Frente Nacional, em maio próximo, como a primeira mulher presidente da França.

— Uma presidente Le Pen seria um choque que a Europa dificilmente superaria — lembrou Kessels.

POPULISTAS CRESCEM NA ALEMANHA

Na Alemanha, os populistas do Alternativa para a Alemanha (AfD) poderão conquistar no fim do próximo ano cerca de 20% dos votos, com chances de impedir a maioria de governo da União Democrata Cristã (CDU), de Merkel.

As manchetes dos jornais alemães desta segunda-feira mostram como os europeus estão perplexos com possíveis mudanças na política externa americana. No último fim de semana, Trump se reuniu em Nova York com Nigel Farage, um dos líderes da campanha pelo Brexit (saída do Reino Unido da UE), numa situação embaraçosa para a premier britânica, Theresa May.

Tudo isso contribui para aumentar o abismo em uma Europa que já está fortemente dividida entre apoio e repulsa a Trump. Enquanto Berlim reage com aversão, o chanceler britânico, Boris Johnson, e o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, esbanjam elogios ao presidente americano eleito.

— Trump é um especialista em chegar a acordos e penso que (sua eleição) pode ser uma grande oportunidade para a Europa — disse Johnson, enquanto Orbán afirmou que o republicano seria o melhor para a Europa.

RÚSSIA GANHA NOVOS ALIADOS

Para Volker Perthes, diretor da Fundação de Ciências Políticas de Berlim, ainda é cedo para antecipar um atestado de óbito para a Aliança Atlântica.

— Os problemas do mundo não deixaram de existir, e Trump vai acabar entendendo a importância da UE e da Otan.

Motivo especial de preocupação dos europeus é a possível nova autoconfiança da Rússia para consolidar os seus interesses geopolíticos.

— Os dois machos Trump e Putin falam a mesma linguagem apesar dos idiomas diferentes — define Kessels.

No Leste Europeu, os Países Bálticos são os que mais receiam a sede de poder de Moscou. Com a crise econômica, Putin investe no patriotismo. Para isso, tem novos aliados: Bulgária e Moldávia acabam de eleger líderes pró-Rússia.

oglobo.globo.com | 15-11-2016

LONDRES — A frase mais ouvida por quem consulta especialistas em relações internacionais nos últimos dias é: “Honestamente, eu não sei.” A retórica isolacionista e protecionista de Donald Trump indica que os EUA mudarão a direção de sua política externa, mas não há dados suficientes para afirmar que caminho seu governo deverá tomar. Há, porém, um consenso entre os analistas: o presidente russo, Vladimir Putin, não tem razões para reclamar do presidente eleito. Cada vez mais afastado do Ocidente, o Kremlin se vê agora diante de um líder americano sem experiência política ou militar, e que já deixou clara sua admiração pelo homem que controla o arsenal nuclear russo com ares de czar. Trump pode tornar a vida de Putin mais fácil, complicando em contrapartida a situação dos vizinhos que temem a ameaça de Moscou. EUA-13-11

Durante a campanha, Trump deu declarações que soaram como música para os ouvidos do presidente russo. Prometeu reduzir as tensões com o Kremlin, que só fizeram crescer nos últimos anos; menosprezou a importância da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e não descartou a possibilidade de aceitar a anexação da Crimeia pelos russos, manobra que espalhou insegurança por todo o Leste da Europa. Assim como o futuro ocupante da Casa Branca, Putin também explora a desilusão dos eleitores que não se identificam com os valores liberais, é um narcisista assumido e recorre a uma linguagem vulgar para atacar inimigos. Ainda é cedo para afirmar se será possível uma parceria entre os dois homens, mas a humilhação dos democratas nas urnas favorece, a princípio, o governo de Putin.

Uma das principais dúvidas em meio às muitas incertezas que tomaram conta da geopolítica mundial é como o novo presidente dos EUA vai se posicionar em relação à crise na Ucrânia. Suas declarações como candidato dão a entender que poderia negociar um não envolvimento americano no Leste da Europa em troca de relações mais amigáveis com Moscou. Durante a campanha, o general Keith Kellogg, um dos conselheiros do republicano, afirmou que Trump “preferia deixar suas opções para a Ucrânia em aberto”, o que foi interpretado como uma possibilidade de reconhecimento da ocupação da Crimeia. Quando perguntado sobre o assunto, o então candidato à Casa Branca disse acreditar que a população da península estava mais satisfeita sob domínio russo do que ucraniano. Sua posição em relação à Otan também é motivo de preocupação na Europa. Ele ressaltou que só estaria disposto a defender os países que contribuem com o orçamento da aliança militar.

— Estamos diante do imprevisível. Trump é perfeitamente capaz de negociar com qualquer pessoa. Ele promete aplicar os princípios do mundo dos negócios na política externa, o que o leva para o caminho do pragmatismo, podendo fazer acordos cínicos e deixando os outros países desamparados — diz Andrew Wilson, especialista em Ucrânia do Conselho Europeu para Relações Internacionais.

Para Wilson, a Ucrânia e os países bálticos têm motivos suficientes para estarem preocupados.

Putin, por outro lado, vai apostar no fim das sanções econômicas aprovadas pelos EUA e pela União Europeia (UE) após a anexação da Crimeia, em 2014. Além disso, já que Trump ainda não esclareceu qual será sua política para a Síria, a Rússia espera que as pressões para derrubar o ditador Bashar al-Assad, que conta com apoio do Exército russo, sejam aliviadas.

Durante toda a campanha presidencial nos EUA, a mídia russa, sob controle do Kremlin, criticou o sistema democrático americano. Com a vitória de Trump, o tom mudou. Um símbolo do otimismo no círculo de Putin veio de um post no Twitter de Margarita Simonyan, editora-chefe do canal RT, porta-voz do governo russo: “Hoje gostaria de dirigir por Moscou com uma bandeira americana na janela. Se eu puder achar uma”, escreveu ela quando a derrota democrata foi confirmada.

A partir de janeiro, no entanto, Trump poderá perceber que o peso do Salão Oval o obrigará a levar mais a sério a relação com os aliados que pautou a ordem global no pós-guerra:

— Os aliados ocidentais dos EUA veem a Rússia como séria ameaça à segurança global. Os supostos crimes de guerra cometidos na Ucrânia e na Síria são os exemplos mais óbvios. Trump teria que restabelecer relações diplomáticas com a Rússia sem afastar seus aliados tradicionais ou refazer completamente a dinâmica da atual ordem mundial. Não vejo como ele poderia reconhecer a anexação da Crimeia porque as repercussões diplomáticas seriam devastadoras — diz Clive Webb, professor de História Americana Moderna da Universidade de Sussex.

Nigel Sheinwald, ex-embaixador britânico nos EUA e na UE, concorda:

— Trump aprenderá cedo que presidentes americanos não gostam de ser vistos como fracos. Se enfrentar um desafio internacional, sofrerá pressão para responder. Não poderá virar as costas e dizer que não é problema dele — disse o diplomata em debate na London School of Economics.

Desde o resultado que fez o mundo enxergar sua superpotência como uma incógnita, observadores apontam as semelhanças entre Trump e Putin. Wilson, no entanto, ressalta as diferenças:

— Putin veio da KGB e sua definição de negócios envolve acordos corruptos com seus defensores. Trump será o primeiro presidente americano que nunca ocupou cargo público ou militar. Seu estilo é típico do capitalismo americano. E ele é muito bom em mídias sociais, enquanto Putin não cuida disso pessoalmente.

oglobo.globo.com | 13-11-2016

RIO - A globalização foi a vilã apontada pelo presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, para atrair a classe média de regiões que já foram potências industriais. A vitória de Trump, amparada nesse discurso, intensificou o debate sobre os efeitos da ampla abertura comercial a partir dos anos 1990 sobre a vida dos cidadãos em diferentes partes do planeta.

trumpNo mundo, as nações pobres e ricas se aproximaram com a globalização, e a desigualdade diminuiu. Mas, dentro de cada país, a renda ficou mais concentrada, dizem especialistas. Esse fenômeno afetou não só os EUA, como também a China — alvo preferencial do discurso protecionista de Trump.

E os que menos ganharam com a globalização foram os 20% mais ricos no mundo, ou seja, a classe média e média baixa das economias avançadas, afirma a economista Monica de Bolle, pesquisadora do Peterson Institute e professora da Universidade Johns Hopkins, em Washington:

— O Brexit (a saída do Reino Unido da União Europeia) e a eleição de Trump têm vários matizes, além da distribuição de renda. Essas pessoas se sentiram deixadas para trás. Outros melhoraram muito mais do que eles. O que importa é sua posição relativa. A economia comportamental explica isso. As pessoas preferem ganhar R$ 50 enquanto todo mundo ganha R$ 20, do que ganhar R$ 100, se todo mundo estiver ganhando R$ 200. O sentimento de estar acima dos outros é preponderante.

A mudança da estrutura produtiva, o avanço tecnológico e até os valores culturais de cada canto do planeta são a outra parte da história para entender os motivos de parte da população na Europa e nos EUA querer fechar seus mercados e suas fronteiras. Nessa equação, a desigualdade é uma explicação comum. No caso dos EUA, o país, que já era o mais desigual entre seus pares de economia avançada, a disparidade de renda hoje já é tão grande como no Brasil.

Entre os americanos, o 1% mais rico da população concentra 22% da renda, parcela semelhante à apropriada no Brasil pelo topo da pirâmide. Há menos de uma década, os mais ricos americanos concentravam cerca de 12% dos ganhos do país.

CRISE DE 2008 EXPÔS A DIVISÃO

Marcelo Medeiros, sociólogo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e da UnB, especialista em desigualdade e pobreza, diz que a classe média fabril americana viu a renda estagnar e perdeu a estabilidade com a transferência da produção para a Ásia. Contra esses efeitos, nenhuma medida foi tomada. Ao contrário, políticas públicas aprofundaram a crise:

— A estrutura sindical foi destruída, as regras trabalhistas foram flexibilizadas, tornando o trabalho mais inseguro, e não se preparou esses trabalhadores para a economia 3.0. O topo da distribuição de renda, os trabalhadores qualificados, a economia digital e, principalmente, o setor financeiro aumentaram sua renda. Não se mudou a estrutura tributária para redistribuir os ganhos gigantescos dessa parte da população.

Segundo Medeiros, o processo de globalização transformou a China numa potência industrial:

— A produção industrial menos sofisticada da Europa, dos EUA e até da América Latina migrou para a China. Não dá para atribuir todas as mudanças à globalização. Mas a Ásia virar a grande potência industrial só foi possível no mundo globalizado — afirma Medeiros.

A globalização beneficiou os pobres dos países subdesenvolvidos e prejudicou os pobres dos países desenvolvidos, afirma José Márcio Camargo, professor da PUC.

— Se, por um lado, houve o empobrecimento dessas pessoas no mundo ocidental, esse processo de globalização reduziu a pobreza no mundo de forma espetacular. Desde 1995, o preço internacional da TV caiu 96%, e o do brinquedo, 67%, o que significou um aumento monumental de renda real das pessoas. Já os preços dos serviços subiram: os médicos, 100%; matrícula escolar, 197%. Quem estava no setor de educação teve ganho de renda, mas o produtor de TV, não.

Tudo ia bem enquanto o mundo crescia 6%, 7% ao ano, lembra Camargo. Com a crise de 2008, a insatisfação com a desigualdade aflorou, porque “quando se chega perto da estagnação, acaba a expectativa de melhora, e a única solução é se revoltar”, diz o economista.

— A crise torna pior o quadro preexistente, com estagnação de renda, desemprego. Os que mais sofreram com a crise foram os mesmos que já estavam sofrendo com a globalização. Os trabalhadores de Pensilvânia, Ohio, Michigan, da indústria tradicional, antes tinham um bom salário. Hoje, não conseguem o mesmo nível nem de perto, porque a indústria tradicional acabou, e não foi só pela globalização. Toda a transformação tecnológica e a mudança da estrutura produtiva acabaram com o emprego desses pessoas — complementa Monica.

Sergei Soares, do Ipea, que atualmente é pesquisador visitante do Centro Global de Desenvolvimento, em Washington, diz que a saída dos trabalhadores da indústria para o setor de serviços se estreitou:

— O caminho seria se deslocar para os serviços, mas neles há uma concorrência forte dos imigrantes. Estão presos, sem saída. E as políticas sociais foram esvaziadas, até mesmo por pressão dessa mesma população. Hoje, só contam com food stamps.

Os especialistas temem uma onda protecionista, mesmo achando improvável estabelecer tarifas de importação muito altas, pois as grandes empresas americanas trabalham em cadeias globais de produção. O último movimento protecionista desse tipo aconteceu na Grande Depressão dos anos 1930.

— Trump é um empresário, vive no meio deles. Mas é muito difícil agora saber o que vai acontecer — afirma Monica.

Segundo Sergei, se os EUA ficarem mais protecionistas, vão sofrer retaliação de outros países, e o mundo se fecha:

— Esse é um jogo de perde-perde. Mas se Trump não oferecer uma resposta a essa população que o elegeu, vai embora em quatro anos.

oglobo.globo.com | 13-11-2016

CIDADE DO MÉXICO E BERLIM - O discurso do medo e da incerteza se espalhou em todo o mundo após o choque da vitória de Donald Trump. A maior comoção se deu no México, país que esteve no centro da campanha presidencial americana, com a proposta do candidato republicano de construção de um muro na fronteira e a aplicação de uma alíquota de 35% sobre as importações mexicanas, além das acusações de que os imigrantes ilegais mexicanos seriam estupradores.eua1011

O estudante Samuel Sanchéz, de 20 anos, estava de férias na Riviera Maya, de férias, e conferia a cada cinco minutos as notícias sobre a apuração das eleições. De origem mexicana, ele nasceu em Los Angeles, onde mora com a família. Enviou seu voto, em Hillary, por correio.

— Se Trump ganhar, não me deixam entrar de volta — brincou, com ar incrédulo.

Horas depois, o desdém de Samuel virou coisa séria e, para ele e milhares de compatriotas. É o principal assunto nas ruas mexicanas, onde autoritarismo e racismo são os maiores receios.

— Não foi só a Hillary que perdeu. Os mexicanos também perderam — diz Carmen Díaz, comerciante da península de Yucatán, no Sudeste mexicano, que tem dois irmãos trabalhando nos EUA.

O México viveu as eleições americanas com a ânsia de quem tem no vizinho seu maior parceiro econômico e fonte de ingresso para muitas famílias que dependem das remessas enviadas por mexicanos imigrantes nos EUA.

— Caiu como um balde de água fria. Todas as forças políticas se voltavam para a Hillary, pois ela se transformou numa “defensora” do México diante das agressões do Trump — diz ao GLOBO Raul Benitez-Manaut, especialista da Universidade Nacional Autônoma do México (Unam). — Pode haver a volta do sentimento anti-EUA. Trump o despertou. E serão tempos diplomáticos difíceis daqui pra frente.

Apesar do medo, os mexicanos também demonstram esperança de que as ameaças de Trump durante a campanha não se mostrem efetivas. Ontem, o presidente Enrique Peña Nieto usou o Twitter para comentar o resultado: “México e EUA são amigos e aliados, e devem trabalhar juntos para o desenvolvimento da América do Norte. Confio que o México e os Estados Unidos sigam estreitando seus laços de cooperação e respeito mútuo”, escreveu.

A apreensão com a vitória de Trump também foi sentida em Cuba e no Irã. Poucas horas após o anúncio oficial, o jornal oficial cubano “Granma” informou que o país daria início a cinco dias de exercícios militares para se preparar para possíveis ações inimigas, embora não tenha feito referências ao presidente eleito. No Irã, o presidente Hassan Rohani afirmou que Trump não poderá reverter o acordo nuclear de 2015 entre o Irã e as grandes potências, já que foi ratificado pela Organização das Nações Unidas (ONU).

‘NADA VAI FICAR MAIS FÁCIL’

Na União Europeia, a chanceler alemã Angela Merkel, que chegou a ser algumas vezes ofendida por Trump durante a campanha, reagiu diplomaticamente, oferecendo a continuação da cooperação “com base nos valores básicos ocidentais”. Já o ministro das relações exteriores, Frank-Walter Steinmeier, que há poucos dias havia chamado o ainda candidato Trump de “pregador do ódio”, preferiu não parabenizar o americano, como é praxe.

— Nada vai ficar mais fácil (com Trump). Algumas coisas ficarão bem mais difíceis — comentou.

O presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, classificou o momento como muito difícil, mas disse que respeitaria a decisão:

— Não será fácil (a relação) porque durante a campanha ouvimos alguns elementos de protecionismo e palavras preocupantes sobre mulheres e minorias. Mas minha experiência é de que campanhas são diferentes da política real.

Já os presidentes do Conselho Europeu, Donald Tusk, e da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, escreveram uma carta conjunta a Trump em que pedem que o republicano se comprometa com o fortalecimento das relações entre Estados Unidos e União Europeia, incluindo as ações da Rússia na Ucrânia e o futuro do Acordo Transpacífico (TPP, na sigla em inglês).Eleitores reagem a apuração dos votos nos EUA

oglobo.globo.com | 10-11-2016

BRASÍLIA - O ministro das Relações Exteriores, José Serra, afirmou que o Brasil prepara um plano de contingência para abrir um canal de comunicação com o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump. Serra, que durante a campanha chegou a declarar que a vitória do republicano seria um pesadelo, disse que Trump não deve cumprir tudo o que prometeu durante a disputa presidencial. Reações

— Treino é treino, jogo é jogo. Treino é campanha – ponderou o chanceler.

José Serra ressaltou que, nos Estados Unidos, cargos importantes do primeiro escalão como os da equipe econômica têm de ser aprovados pelo Senado. Esses nomes que serão responsáveis pelas políticas econômica e comercial. Como o parlamento tem um controle maior, várias propostas feitas na campanha podem não ser implementadas. Para o ministro, por exemplo, a vitória de Trump não deve significar um aumento do protecionismo do país.

— Eu espero que não aconteça. De verdade. Nunca o treino é igual ao jogo.

PESADELO DE SERRA

Questionado sobre a frase dita durante a campanha, ele disse que não teve sonho ruim na noite passada porque passou o tempo inteiro acordado em contato com o embaixador brasileiro em Washington, Sérgio Amaral.

— Não (tive pesadelo), porque eu estive acordado. A gente só tem pesadelo dormindo – esquivou-se o ministro.

Ele disse ainda que Amaral abrirá canais de interlocução com a equipe de transição de Donald Trump. Ele disse que acredita que prevalecerá a determinação de reforçar a relação de Brasil e Estados Unidos. Lembrou que o governo brasileiro não fez parte da campanha. Por isso, não deve ter problema de relacionamento.

— No ponto de vista de pós eleição é positivo.

O ministro afirmou que é importante fazer uma reflexão sobre os rumos da política mundial. Lembrou do resultado do plebiscito no Reino Unido, em que a população decidiu por uma saída da União Europeia. Na ocasião, foi fortalecido o discurso de evitar a livre circulação de pessoas. Inglaterra e os demais países tem recebido refugiados.

— Na minha opinião, a gente tem de refletir muito cuidadosamente sobre o significado desse resultado. Vai caber muita análise sociológica e muita análise política sobre o efeito da globalização nesse resultado. (Muita análise) sobre a crise da sociedade contemporânea.

Após as declarações do ministro, o Itamaraty divulgou uma nota. Nela, diz que o governo brasileiro saúda os Estados Unidos pelas eleições e que vê positivamente a “mensagem de superação das divisões nacionais e busca de relacionamento construtivo com todos os países, emitida pelo presidente eleito em seu discurso de aceitação”.

O texto diz ainda que o Brasil buscará manter os laços com os Estados Unidos.

“Sobre essas bases, em respeito aos compromissos políticos e jurídicos existentes, desejamos renovar e dinamizar nossa agenda de cooperação. Estamos prontos a trabalhar em conjunto com o novo governo Trump, já a partir de sua posse em janeiro de 2017”.

A nota ainda ressalta que há novas oportunidades de investimentos, energia, educação, inovação e tecnologia, combate ao crime organizado, transparência e eficiência regulatória, infraestrutura e promoção dos negócios.

oglobo.globo.com | 09-11-2016

ISTAMBUL - Centenas de acadêmicos, estudantes e membros de sindicatos da Turquia realizaram um protesto nesta quinta-feira contra um expurgo de milhares de empregados do setor educacional desde a tentativa de golpe de Estado ocorrida em julho, a mando do presidente Recep Tayyip Erdogan. erdogan

Ancara acusa o clérigo Fethullah Gülen, que mora nos Estados Unidos, de orquestrar o golpe de 15 de julho, e demitiu ou suspendeu mais de 110 mil servidores públicos, acadêmicos, juízes, policiais e outros por seus supostos laços com o religioso.

A multidão entoava "venceremos resistindo" diante da Universidade de Istambul enquanto dezenas de policiais da tropa de choque usando máscaras de gás observavam. Professores que perderam o emprego choravam e abraçavam alunos.

Entre os suspensos ou removidos nos expurgos há quase 50 mil funcionários do setor educacional. O inquérito do golpe fracassado colocou na prisão cerca de 37 mil pessoas, que aguardam julgamento.

— Estamos enfrentando um período pior do que o golpe — disse Tahsin Yesildere, líder de um grupo de docentes da universidade. — Em nosso país, que está sendo transformado em um regime de um homem só por meio do estado de emergência (declarado após o golpe), todos aqueles na oposição resistindo a esta tendência se tornaram alvos.

A escala da repressão vem alarmando os aliados ocidentais e investidores estrangeiros da Turquia. Grupos de direitos humanos e partidos da oposição dizem que Erdogan, cujas raízes políticas estão em um partido islâmico proscrito, está usando o levante como pretexto para silenciar todos os dissidentes da nação candidata a ingressar na União Europeia.

oglobo.globo.com | 03-11-2016

LONDRES - Desde o final da Segunda Guerra Mundial, as relações entre americanos e britânicos já foram celebradas como incomparáveis por sucessivos líderes, de Winston Churchill e Franklin Roosevelt a David Cameron e Barack Obama. Embora os EUA tenham outros grandes aliados no mundo, nenhum tem o status do Reino Unido. Durante as últimas sete décadas, os dois países se uniram para enfrentar a Guerra Fria, conflitos em diferentes pontos do planeta e o terrorismo islâmico. A “relação especial”, termo criado por Churchill, tem enorme peso econômico, militar e diplomático para Washington e Londres. Essa parceria, no entanto, pode sofrer mudanças, seja quem for o novo ocupante da Casa Branca.

Enquanto Obama e a candidata democrata, Hillary Clinton, deixaram claro que eram contra a saída britânica da União Europeia (UE) — o Brexit —, o republicano Donald Trump aplaudiu a decisão aprovada em junho, que inaugurou uma era de incerteza para o bloco europeu. Obama avisou — e Hillary, se eleita, deve seguir a mesma linha — que o Reino Unido fora da UE perde relevância e irá “para o fim da fila” dos acordos comerciais.

Perda de relevância

A primeira-ministra Theresa May ainda negocia com Bruxelas os termos da saída, que começa oficialmente em março de 2017. Uma das principais preocupações de um eventual governo Hillary é impedir que a parceria militar com os britânicos, que têm um dos mais poderosos Exércitos do mundo, também saia enfraquecida do processo.

A democrata defende uma Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) fortalecida. Uma Europa desunida e guiada por ideais nacionalistas é uma ameaça aos interesses americanos, principalmente diante das manobras expansionistas do presidente russo, Vladimir Putin. Nesse ponto, acredita o analista Clive Webb, professor de História Americana Moderna da Universidade de Sussex, Hillary e May devem se entender. Mesmo assim, ressalta, não é possível ignorar o efeito Brexit:

— A relação especial continuaria sob a Presidência de Hillary. É interesse dos EUA e do Reino Unido manter a parceria militar e de inteligência. Porém, o Brexit poderá diminuir a importância britânica para os americanos, já que o país não servirá mais como uma ponte para o continente. O Reino Unido sempre atuou como intermediário entre os EUA e a Europa — avalia Webb. EUA-Impacto-UK

Para Scott Lucas, professor de Política Internacional da Universidade de Birmingham, se o rompimento com a UE for mantido, os britânicos não terão tratamento privilegiado por parte de um possível governo democrata. A explicação é, principalmente, econômica: teme-se uma recessão britânica nos próximos anos, o que afetaria as relações comerciais. O mercado americano é o principal destino das exportações britânicas.

— Essa relação especial já vinha mudando porque o cenário econômico mundial é outro. Os EUA não olham mais necessariamente para Londres, mas para a China, para a União Europeia ou a América Latina. Ainda existe uma sólida relação na área militar e de inteligência, mas a grande mudança é econômica e, nesse sentido, o maior choque veio do Brexit. Os EUA querem negociar com uma Europa como mercado único, e o Reino Unido está se retirando desse bloco — diz Lucas.

Se Trump derrotar Hillary, o futuro da aliança anglo-americana ficaria ainda mais incerto. O republicano definiu a vitória do Brexit como “a independência britânica”. A campanha pela saída do bloco repetiu a retórica populista, protecionista e anti-imigração que sustenta Trump. Por outro lado, ele promete melhorar as relações com Putin e avisou que seu apoio à Otan é condicional: somente os países que reservam 2% do PIB para a Defesa merecem ser protegidos pela aliança militar. Apenas cinco dos 28 membros conseguem cumprir essa meta (os britânicos estão entre eles). A intenção de Trump contradiz um dos principais artigos do tratado, segundo o qual um ataque a um dos membros da Otan é encarado como uma agressão contra todo o bloco. “Os EUA não olham mais necessariamente para Londres, mas para a China, para a União Europeia ou a América Latina.”

— Ironicamente, se o Brexit afastou o Reino Unido da Europa, Trump poderia aproximá-los. Putin representa um desafio para os países europeus. Trump não definiu o que seriam melhores relações com a Rússia. Seria a relação pessoal com Putin? Ou uma maior cooperação econômica? Não sabemos. Trump adiciona incertezas às políticas econômicas e de relações internacionais — resume Lucas.

Hillary se dedicou à Ásia

Os militares britânicos desempenharam papel fundamental no Iraque e no Afeganistão. Além disso, Londres apoia as sanções contra a Rússia e participa de ataques aéreos ao Estado Islâmico na Síria. Em 2012, ao receber Cameron em Washington, Obama ressaltou “uma das maiores alianças que o mundo já viu”. Para John Bew, professor de História e Política Externa do King’s College de Londres, essa cooperação será mantida com Hillary no poder, mas em termos diferentes.

— Hillary ressaltará a importância da defesa da Europa e da Otan. Mas também arquitetou a reorientação da política comercial americana para a Ásia. Ela passou mais tempo na Ásia do que qualquer outro secretário de Estado. Portanto, seria boa opção para o Reino Unido, mas por outro, o mundo está mudando, e o balanço de poder também — resumiu.

oglobo.globo.com | 02-11-2016

BERLIM - Nunca uma eleição fora do continente moveu tanto os europeus quanto o pleito americano, no próximo dia 8. Abandonando a tradicional diplomacia no que se refere a candidatos estrangeiros, os europeus não poupam críticas (ou elogios) ao republicano Donald Trump. Como na sua pátria, também na Europa o magnata imobiliário não deixa ninguém indiferente. Na Itália ele é o “Berlusconi americano”. Na Alemanha, o candidato foi chamado pelo ministro das Relações Exteriores, Frank Walter Steinmeier, de “pregador do ódio”. Mas na Hungria ele só recebe elogios do primeiro-ministro Viktor Orbán.

— Trump ultrapassou todas as fronteiras, e por isso é acompanhado por uma mistura de ódio e amor no mundo inteiro — diz Sabine Hermeling, especialista em relações transatlânticas da Fundação Heinrich Böll.

Não só pelas críticas que fez à política de refugiados da chanceler federal Angela Merkel ou por suas previsões de fim da União Europeia (UE), a perspectiva de um presidente Trump, descendente de alemães, é vista como catastrófica.

Os políticos europeus não procuram nem disfarçar a aversão que sentem pelo candidato republicano, que é criticado pelo presidente francês François Hollande pelos seus excessos e chamado por Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu, como um “perigo para o mundo inteiro”. Info - Europa

Rejeitado por 60% dos alemães

“Trump personifica os preconceitos existentes na Europa sobre os Estados Unidos, e a sua eleição marcaria uma nova fase de forte antiamericanismo no continente”, escreveu o jornal berlinense “Der Tagesspiegel”, expressando a opinião de mais de 60% dos alemães, segundo um estudo recente. “O futuro deve tratar de educação, e não de intolerância; de confiança, e não de ódio; de construir pontes, e não muros”.

Para o cientista político Crister Garrett, da Universidade de Leipzig, o “fenômeno Trump”, do populismo acompanhado de xenofobia, existe também na Europa, onde é expressado por políticos como Orbán, a francesa Marine Le Pen ou o polonês Jaroslaw Kaczynski, do Partido Lei e Justiça, hoje chefe do governo.

Kaczynski e Orban recusam, como Trump, os muçulmanos.

— O que é bom para a Europa não poderia ser formulado de maneira melhor — disse Orbán, recentemente, ao falar para a minoria húngara na Romênia, alegando que um político como Trump seria o melhor para o continente.

Já o cientista político italiano Enrico Rusconi, da Universidade de Turim, lembra que o fenômeno Trump pode acontecer também na Europa Ocidental. Trata-se do que ele chama “estilo Berlusconi”, que se tornou possível através de uma “mutação” na sociedade.

— Trata-se da democracia do espectador. Vence o político que consegue se vender melhor na mídia, mesmo que tenha uma forma vulgar de expressão — lembra ele.

Sabine Hermeling também observa que os adeptos de Trump são parecidos com os franceses que apoiam Le Pen, os austríacos partidários de Heinz-Christian Strache, do Partido Democrata Liberal (FPÖ) e os poloneses que apoiam Kaczynski. “Não estou tendo pesadelos com a possibilidade de Trump ser o próximo presidente americano. Não vejo necessidade de responder suas críticas.”

Mesmo políticos moderados, como o ministro das Relações Exteriores da Áustria, Sebastian Kurz, observam Trump com interesse. Kurz chegou a apontar a ideia do magnata de construir um muro na fronteira com o México como interessante, pelo menos do ponto de vista de evitar imigrantes. A Áustria também constrói muros e cercas para evitar o êxodo de refugiados e imigrantes do Sul da Europa.

Mas, na sua maioria, os governos da Europa Ocidental preferem na Presidência dos EUA a democrata Hillary Clinton, de quem esperam mais confiabilidade. Segundo um estudo do “Deutsche Bank Research”, o instituto de pesquisa do Deutsche Bank, a economia europeia conta com uma vitória de Hillary porque enxerga que a cooperação econômica com a ex-secretária de Estado será mais intensa.

“Trump, ao contrário do que se espera de Hillary, quer cortar os laços econômicos com os países estrangeiro e concentrar o seu programa no mercado interno”, diz o estudo.

Medo de interferência

Thomas Jäger, do Instituto de Ciências Políticas da Universidade de Colônia, lembra que qualquer que seja o vitorioso haverá mudanças para pior nas relações com a Europa e com a Rússia.

— Trump não vai se intrometer nas questões europeias, mas também não terá uma influência positiva — considera o analista.

A Europa também espera de uma presidente Hillary mudanças para pior, como a de uma nova política de confrontação com a Rússia.

O jornalista alemão Jakob Augstein, coproprietário da revista “Der Spiegel”, afirmou que o papel que Hillary pode assumir na guerra da Síria, “o conflito mais perigoso do mundo”, terá o efeito de desencadear uma nova Guerra Fria. “Os excessos de Trump dão vontade de vomitar. A democracia está em risco, porque há cada vez mais políticos tentados pelo autoritarismo. Se os americanos escolherem Trump, haverá consequências, porque uma eleição nos EUA é uma eleição global”.

— Os riscos de um novo confronto com a Rússia se Hillary adotar as medidas que anunciou na campanha, como a criação de uma zona de proibição de voo, serão incalculáveis — disse Augstein.

O barril de pólvora da Síria, onde lutam lado a lado Rússia, Irã, Turquia, Israel e Arábia Saudita, mas cada um defendendo os próprios interesses, pode ser transformar em um explosivo para o mundo.

Ordem mundial multipolar

A Europa vê Trump como uma farsa, lembra Augstein, que é de esquerda. Mas mais do que essa farsa, ele receia a volta de uma política intervencionista, que seria possível com Hillary.

O cientista político austríaco Stefan Haderer diz que se Trump ganhar, os europeus vão observar com aversão como um presidente americano, da única superpotência do mundo, “usa uma terminologia que não é digna do seu posto". Mas com uma presidente Hillary Clinton vão sofrer se o novo governo americano se colocar contra uma ordem mundial multipolar. Segundo ele, com Hillary os Estados Unidos “podem retomar o papel de policiais do mundo”.

oglobo.globo.com | 02-11-2016
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