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União Européia Educação

WASHINGTON E RIO - O comércio é, setenta anos depois, a vertente mais capenga da Conferência de Bretton Woods. Com o foco principal da reformulação global na reativação dos mecanismos financeiros e monetário e na necessidade urgente de reconstruir uma Europa arrasada, a organização do tabuleiro comercial internacional foi postergada e, quando finalmente saiu, imperou – como ainda hoje é o caso – a proteção de interesses nacionais.

O Acordo Geral de Tarifas do Comércio (Gatt) – embrião da Organização Mundial do Comércio (OMC) – foi assinado em 1947, três anos depois de Bretton Woods, com escopo limitado. Em novembro daquele ano, os países aliados se reuniram em Havana, capital de Cuba, para detalhar a proposta de regulação. O delegado brasileiro na cúpula foi o economista Roberto Campos.

Os EUA, que detinham 50% do PIB global e era de longe a maior potência mundial, não aceitaram a camisa-de-força de um acordo amplo, com a estrutura trazida pela OMC, a partir de 1995.

— Só alcançou-se um simples acordo de tarifas de manufaturados. Ficaram três espaços vazios: agricultura, serviços e compras governamentais. O sistema ficou torto até os anos 1990, quando houve as rodadas de Tóquio e a do Uruguai, que incluíram serviços, propriedade intelectual, comércio de telecomunicações e compras governamentais no GATT, mas o acordo geral já não conseguia mais abraçar tantos temas diversos, não tinha órgão de solução de controvérsias. Isso fez com que se perdesse o timing de estruturação do comércio global e a gente vê isso refletido até hoje — explica o economista Marcos Troyjo, diretor do Bric-Lab da Universidade de Columbia.

Antes da formação da OMC, também houve a adoção de mecanismos bilaterais que minaram o crescimento mais igualitário do comércio internacional. Por exemplo, diz Troyjo, países como os EUA fizeram amplo uso da cláusula da nação mais favorecida, pela qual uma nação concedia a um parceiro eleito a possibilidade de exportar sem tarifas uma quantidade grande de produtos. A China, afirma o economista, foi uma das principais beneficiárias.

Outro problema é que as decisões da OMC são tomadas por unanimidade, ou seja, os interesses de um único país podem travar negociações inteiras. E as nações continuam muito presas a atender suas necessidades internas, por exemplo protegendo setores ineficientes mas que fazem grande barulho político.

A crise global de 2008 só tornou estas barreiras mais rígidas. Para se defender dos efeitos colaterais, as nações adotaram medidas protecionistas e se retiraram da arena multilateral, deixando a OMC, com seus mais de 140 países, esvaziada. A preferência, especialmente de EUA e União Europeia, tem sido pela costura de acordos regionais, como as alianças Transpacífica e Transtlântica, nos quais os interesses são mais claro e as agendas, mais fáceis de serem defendidas.

— Isso contribui para tornar a OMC menos relevante. O que vemos hoje é que EUA e UE estão relegando à OMC apenas a agenda de contenciosos. A UE está negociando um acordo de livre comércio com o Mercosul, mas abriu uma série de disputas na OMC com o Brasil — diz Troyjo.

BRASIL: SEM ACORDOS EM 16 ANOS

Para o diretor do Bric-Lab, é impossível antecipar qual será o incentivo que surgirá para que o aspecto multilateral do comércio se reanime. Por isso, a saída para países com menos poder de fogo, como o Brasil, é “fazer de tudo um pouco”: buscar parcerias comerciais regionais sem se retirar da OMC.

— É idealismo achar que os Estados vão se comportar com benevolência e passar por cima dos interesses nacionais, das disputas internas. Em algum momento, a reforma atualizadora do sistema econômico vai desencantar. Nem que seja porque a frustração cria a necessidade.

Carlos Langoni, diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getulio Vargas e ex-presidente do Banco Central do Brasil, destaca porém que a OMC é eficaz na solução de controvérsias, já que é o único organismo multilateral que tem força de lei, obrigando países a cumprirem decisões.

— O mais curioso é que a OMC é presidida por um brasileiro e é onde o Brasil menos evoluiu nos últimos 16 anos, sem firmar um único acordo comercial — disse.

* Colaborou Henrique Gomes Batista

oglobo.globo.com | 20-07-2014

WASHINGTON - A reestruturação da arquitetura financeira global passa, necessariamente, pela reforma dos organismos multilaterais, dizem os especialistas. O Banco Mundial (Bird) precisa de mais capital e foco redobrado na expansão do crescimento dos sócios. Mas, pela natureza das mudanças pelas quais o mundo passou, o trabalho concentra-se no Fundo Monetário Internacional (FMI) – que, apesar das críticas em diversas intervenções aos longo das décadas, tem tido papel central nas respostas globais às crises.

As organizações de Bretton Woods nasceram desempenhando papel tímido. O Bird foi ofuscado pelo Plano Marshall, de reconstrução da Europa com dinheiro americano. Já o Fundo apagava incêndios, basicamente europeus, e tinha até o fim dos anos 60 o Reino Unido como principal cliente.

Foi apenas em 1982, com a primeira crise da dívida do México, que o FMI assumiu sua função global, com a noção de risco sistêmico de um eventual calote mexicano. Esse papel foi reforçado com as crises dos anos 1990 e 2000, diz o economista James Boughton, ex-historiador do Fundo. No mesmo período, ficou claro que o FMI precisava refletir melhor a nova ordem mundial, com a ascensão da China e demais emergentes como o Brasil.

A estrutura de poder no FMI está ultrapassada, afirmam os especialistas. Com 19,2% do PIB mundial, os EUA mantêm 16,8% dos votos no Fundo, única nação com poder de veto sobre as decisões. A Europa está super-representada, ao passo que a China, com 16,1% da economia global, tem apenas 3,8% dos votos. No Brics, apenas Rússia e África do Sul têm seu peso econômico ajustado ao poder de voto. O Brasil, com 2,8% do PIB mundial, tem 1,7% dos votos e a Índia, que representa 6%, tem 2,3% das cotas.

— O papel do FMI está consolidado. Agora é preciso que o Congresso americano ratifique o pacote de mudanças, que dará mais recursos ao Fundo e redistribuirá votos, dando poder maior aos emergentes e consolidando a presença da União Europeia como voz unificada. O FMI terá assim mais legitimidade. Mas, junto, é preciso que se repense a relação do G-20 (grupo das 20 maiores economias do mundo), que representa um universo poderoso mas restrito — afirma Boughton.

Marcos Troyjo, diretor do Bric-Lab da Universidade de Columbia, concorda.

— Não basta apenas pensar em representação. Após 2008, há uma tensão entre ação, coordenação e delegação. Os EUA precisam revitalizar sua economia, enchem o mercado de recursos, mas não levam a política dos outros em consideração. O FMI precisa poder implementar as medidas necessárias e falar para os EUA que é hora de ajustar, falar para a China ajustar, como fala para os demais emergentes e nações pobres. O Fundo precisa de um novo mandato.

Kenneth Rogoff, ex-economista-chefe do FMI e professor de Havard, afirma que “será ridículo se o diretor-gerente que substituir Christine Lagarde (francesa) não for de um país emergente”, rompendo a tradição pela qual os EUA indicam o presidente do Bird e a Europa, o dirigente do FMI. Ele adiciona outro ponto para reforma: a dos instrumentos utilizados nos programas de assistência do Fundo. Ele vê com bons olhos a discussão sobre o re-profiling, mecanismo que permitiria a reprogramação do pagamento de dívida privada pelos governos, uma espécie de perdão temporário.

— Esta seria uma grande mudança de paradigma e era claramente a solução para a Europa periférica após 2008, que tinha dívidas altíssimas e, para saná-las, teve que segurar o crescimento, com consequências desastrosas — diz Rogoff.

Para James Boughton, o fortalecimento do FMI é uma peça-chave na nova arquitetura global, diante das dificuldades políticas de se criarem novas instituições e órgãos reguladores internacionais:

— Eu acho irrealizável um novo Bretton Woods, temos que trabalhar dentro do sistema que existe. Dentro do FMI, já temos estruturas tratando dos temas prementes, já temos o board de regulação financeira, temos muito trabalho sendo feito sobre capitais. Os países estão trabalhando regulações nacionais e, com os anos, elas ficarão prontas e as melhores práticas vão se sobressair. É preciso continuar nesta direção e o Fundo pode conectar essas pontas. Se não fortalecermos o FMI, haverá uma nova crise. Esta é a verdade a se encarar. É melhor fazermos as coisas sem precisarmos de nova crise para nos incentivar.

oglobo.globo.com | 20-07-2014

BRASÍLIA - Mercosul e União Europeia farão um esforço para trocar suas respectivas ofertas para um acordo de livre comércio até o fim deste ano. Foi o que disse ao GLOBO o ministro das Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo, após um almoço, nesta sexta-feira, com o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso.

- Estamos preparados para isso e esperamos que a troca de ofertas saia antes do fim do ano - afirmou Figueiredo.

Durão Barroso foi recebido nesta manhã, no Palácio da Alvorada, pela presidente Dilma Rousseff. Em seguida, dirigiu-se ao Itamaraty, onde almoçou com Figueiredo e outras autoridades brasileiras.

Na noite anterior, durante uma recepção em Brasília, o português afirmou estranhar a demora na confecção de uma zona de livre comércio com o Mercosul. Ele destacou que, de forma geral, esse processo costuma ser mais rápido com outros parceiros internacionais. Com isso, deu a entender que, para os europeus, ainda não há acordo por causa da demora do bloco sul-americano.

Nos bastidores, contudo, o que se fala em ambos os lados é que dificilmente haverá a troca de ofertas este ano, o que leva a crer que um entendimento seria um futuro remoto. As negociações começaram na década de 90 e até o momento houve poucos avanços.

No momento atual, há troca de comissários na UE. O próprio Barroso está deixando o cargo e será substituído por Jean-Claude Juncker, de Luxemburgo.

Momentos antes do almoço com Figueiredo, Durão Barroso disse que também acredita ser possível a troca de oferta ainda este ano. Depois de proferir uma palestra na Universidade de Brasília, ele defendeu que é preciso avançar nas negociações e revelou que essa foi a "conclusão implícita" da conversa que teve nesta manhã com a presidente Dilma Rousseff.

- Em relação ao Mercosul, ambos concordamos na necessidade de avançar com o processo e de fazer troca de ofertas - declarou o português, a respeito da reunião que teve pela manhã com Dilma Rousseff.

Perguntado sobre quando a troca de ofertas acontecerá, o presidente da Comissão Europeia disse acreditar que é possível que isso ocorra ainda este ano, mas enfatizou:

- Não há data ainda. Ficou expresso de ambos os lados o desejo de ser o mais rapidamente possível. Realisticamente, agora na Europa entra-se em férias no mês de agosto, não poderá ser antes do próximo outono.

Sobre até onde cada lado pode ceder, Durão Barroso lembrou que "há algumas sensibilidades, porque há interesses diferentes, também, entre os países do Mercosul, como existem entre os países da UE". Em sua opinião, o mais provável é que haja um movimento de redução das tarifas a nível global.

- Eu sei que aqui no Brasil interessa especialmente a área agrícola e é uma das áreas onde a Europa também tem que fazer aberturas. Ao mesmo tempo que no Brasil é importante avançar-se em relação às tarifas para produtos industriais e para serviços - afirmou.

Do lado europeu também. A comissão europeia pode vir com essa oferta...De qualquer maneira, a comissão europeia quer certificar-se se há o apoio entre todos os países europeus para essa oferta.

oglobo.globo.com | 18-07-2014

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, levou a cabo uma profunda restruturação do seu Governo no dia 15 de Julho, após a demissão do ministro dos Negócios Estrangeiros, William Hague. Hague foi substituído pelo ministro da Defesa, Philip Hammond, “um ministro que declarou que votaria na saída do Reino Unido da União Europeia caso não fossem implementadas reformas”, escreveu o Financial Times, e cuja missão será “preparar uma renegociação da adesão do Reino Unido à UE”. Entre outros, o secretário da Educação, Michael Gove, foi substituído pelo antigo ministro das Finanças, Nicky Morgan. Cameron também nomeou Jonathan Hill, o líder conservador da Câmara dos Lordes, como o próximo comissário europeu do Reino Unido.

Segundo o diário britânico, embora Cameron tenha dado ao seu Governo um “toque eurocético”,

os seus colaboradores insistem no facto de que Hammond vai abordar a renegociação com a UE com um espírito positivo e de que está determinado a realizar reformas que irão convencer o país a votar “sim” no referendo previsto para 2017.

www.voxeurop.eu | 17-07-2014
A principal saída é a do ministro da Educação, Michael Gove, muito contestado no país, em especial pelo professores. Ministério dos Negócios Estrangeiros recebe um líder que vai reforçar o cepticismo em relação à União Europeia.
www.publico.pt | 15-07-2014

RIO - Uma pesquisa da Universidade de Newcastle publicada no "British Journal of Nutrition" concluiu que os alimentos orgânicos têm um nível de antioxidantes “substancialmente maior” e apresentam menores níveis de metais tóxicos e de pesticidas que os cultivados em métodos convencionais, usando fertilizantes químicos.

Elaborado a partir de 343 análises e trabalhos prévios, o estudo rebate parcialmente uma investigação da Universidade de Stanford realizada há dois anos, que chegou à conclusão de que os produtos orgânicos não eram necessariamente mais nutritivos ou benéficos para a saúde.

Para a equipe internacional da Universidade de Newcastle, no entanto, há “diferenças estatisticamente significativas” a favor dos produtos orgânicos, que contêm de 19% a 69% a mais de antioxidantes que as verduras e frutas convencionais. A presença de antioxidantes em verduras como brócolis e couve, ou em frutas como as uvas, contribuem notavelmente para a prevenção de doenças degenerativas e cardiovasculares.

O resultado do estudo apontou que trocar verduras convencionais por outras cultivadas com métodos ecológicos equivaleria a adicionar uma ou duas porções em cinco recomendadas por dia pelos nutricionistas para se ter uma dieta saudável.

Vários cientistas têm questionado as conclusões da pesquisa por ela ter sido financiada pela ONG Sheepdorve Trust (voltada à apoiar iniciativas que aumentem a sustentabilidade, a biodiversidade e a agricultura orgânica) e pela União Europeia, além de ter sido dirigida pelo professor de Agricultura Ecológica, Carlo Leifert.

Após a crise econômica e as consequências dos estudos de opinião pública sobre a agricultura biológica, os resultados da pesquisa são positivos para o consumo de produtos orgânicos no Reino Unido.

De acordo com Helen Browning, diretora executiva da Soil Association, referência mundial em agricultura orgânica, estamos diante “uma investigação crucial que rebato o mito de que os métodos de cultivos não afetam a qualidade dos alimentos que comemos”.

A Soil Association levantou ainda que 55% dos consumidores britânicos compram orgânico por razões de saúde, frente a 53% que querem evitar produtos químicos, 44% que expressam sua preocupação pelo meio ambiente, 35% que afirmam que "sabem melhor" e 31% que o fazem pensando no "bom trato aos animais".

oglobo.globo.com | 14-07-2014

RIO - Um polêmico pesticida que se tornou um dos mais utilizados no mundo foi, pela primeira vez, associado diretamente à redução do número de aves em áreas agrícolas. Cientistas mostraram que a população de 15 espécies que se alimentam de insetos, como andorinhas e estorninhos, têm diminuído significativamente na Holanda, ao longo dos últimos 20 anos, com o aumento do uso de pesticidas neonicotinoides, ou neônicos, que começaram a ser utilizados nos anos 1990.

Segundo os pesquisadores, os resultados sugerem que os neonicotinoides, que também são associados à diminuição do número de abelhas e outros insetos polinizadores, pode ter impactos ainda mais negativos sobre o meio ambiente, em relação ao que já se acreditava.

O estudo é o primeiro a encontrar uma correlação direta entre o produto, fabricado pela empresa alemã Bayer Cropscience, e o declínio de aves. A expectativa é que os resultados aumentem a pressão sobre o governo do Reino Unido para mudar sua postura tolerante em relação a neonicotinoides, considerados, até então, seguros para o meio ambiente.

Ecologista da Universidade de Radboud, na Holanda, Caspar Hallmann disse que havia uma ligação forte e estatisticamente significativa entre os níveis de concentrações de uma substância química chamada imidacloprida, encontrada em águas de superfície, e o registro de diminuição de diversas espécies de aves, como a toutinegra, cotovias e tordos, compilado anualmente por ornitólogos.

- Em locais onde a concentração de imidacloprida na água passa de 20 nanogramas por litro, as populações de aves tendem a diminuir em 3,5%, em média, a cada ano. Isto significa que, dentro de dez anos, 30% da população dessas aves estaria em declínio - disse ele. - Esta não é, definitivamente, a prova de que o produto causa as mortes. No entanto, há uma linha de evidência sendo construída para explicar o que está acontecendo. Sabemos que o número de insetos também caiu nestas áreas e que os mesmos são um alimento importante para estas aves.

No mês passado, um grupo de pesquisadores analisou centenas de estudos publicados sobre neonicotinoides e descobriu que estavam ligados ao declínio de uma grande variedade de vida selvagem - de abelhas a minhocas e borboletas - que não são as pragas-alvo dos inseticidas.

O estudo mais recente, publicado na revista Nature, procurou analisar as variações das populações de uma grande variedade de espécies de aves em diferentes zonas da Holanda, antes e depois da introdução do imidacloprida em 1995.

- Também levamos em consideração outros fatores que possam estar relacionados ao declínio destas aves. Mas nossa análise mostra que o imidacloprida foi de longe o melhor fator explicativo para as diferentes tendências registradas nas áreas - disse o professor Hans de Kroon of Sovon, do Centro Holandês para Campo Ornitologia, que supervisionou a pesquisa.

- Os neonicotinóides sempre foram considerados toxinas seletivas. Mas nossos resultados sugerem que eles podem afetar todo o ecossistema. Este estudo mostra o quão importante é ter bons dados de campo, e analisá-los com rigor - disse o professor de Kroon.

Os pesquisadores não conseguiram encontrar um declínio comparável em aves antes da introdução do imidacloprida e não foram capazes de vincular os declínios em aves a mudanças nos métodos de cultivo ou uso da terra. Eles acreditam que a explicação mais provável é que os neonicotinóides estão causando escassez de alimentos para as aves que comem insetos, especialmente quando estão alimentando seus filhotes.

A União Europeia introduziu uma moratória de dois anos sobre determinados usos de neonicotinóides. No entanto, estes pesticidas são amplamente utilizados no tratamento de sementes para cultivos aráveis. Eles são criados para serem absorvidos pela muda em crescimento e são tóxicos para o sistema nervoso central de pestes que prejudicam o plantio.

Ao comentar o assunto, representantes da Bayer disseram que a pesquisa não apresenta argumentos aceitáveis.

oglobo.globo.com | 10-07-2014

SÃO PAULO - Para tentar reconquistar a confiança do empresariado nacional e internacional no governo Dilma Rousseff, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva recorreu nesta semana a uma enxurrada de números e indicadores para sustentar a continuidade das conquistas sociais e econômicas de seu governo na gestão de sua sucessora.

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Uma análise feita pelo GLOBO do discurso que ele fez num evento da Câmara de Comércio França-Brasil mostra, no entanto, que o ex-presidente cometeu vários deslizes em sua fala. Indicadores como investimento externo direto, dívida bruta e corrente de comércio, citados por Lula como “êxitos dos últimos 12 anos”, na verdade pioraram durante o governo Dilma.

O ex-presidente se enganou ainda ao citar dados sobre reajuste salarial, informações sobre exportação de alimentos e também a posição do PIB do Brasil no mundo, em especial na comparação com outras nações emergentes.

A assessoria do Instituto Lula informou que o ex-presidente não adota a paridade monetária para falar sobre o PIB, apesar de esta ser considerada pelo Banco Mundial a medida mais adequada para comparar economias. O instituto admitiu que Lula se equivocou sobre dados relativos à exportação de alimentos e diz haver diferentes dados sobre os índices de reajuste salarial do Dieese.

É ISSO MESMO

- "Em 2013, o Brasil se tornou o segundo maior investidor externo na União Europeia"- Os dados consideram principalmente o investimento de empresas brasileiras em Portugal e Espanha.

Investidores externos da UE (em euros):

EUA - 313 bilhões / Brasil - 21 bilhões/ Suíça - 18 bilhões

- "O salário mínimo, em 12 anos, aumentou 72%" - Segundo o Dieese, este é o índice de ganho, descontada a inflação.

Evolução do salário:

2002: R$ 200/ 2006: R$ 350/ 2010: R$ 510/ 2014: R$ 724

- "Saímos de 70 milhões de brasileiros com contas bancárias para 120 milhões" - Contas poupança, segundo a Febraban:

2010: 97 milhões/ 2011: 98 milhões/ 2012: 112 milhões/ 2013: 125 milhões

- "Com o ProUni, colocamos 1,5 milhões de jovens de periferia para fazer universidade" - De acordo com o MEC, 31,1% dos estudantes de ensino superior estão no ProUni.

- "Há 12 anos, tínhamos 37 milhões de passageiros em aeroportos. Ano passado, foram 113 milhões" - Lula acertou, mas com pequena diferença.

Passageiros transportados no Brasil, segundo Abear:

2002: 36 milhões/ 2006: 49 milhões/ 2010: 79 milhões /2013: 111 milhões

- "Aumentou produção de automóvel de 1,8 milhão para 3,7 milhões" -Produção brasileira de veículos, segundo a Anfavea:

2002: 1,6 milhão/ 2006: 2,4 milhões/ 2010: 3,3 milhões/ 2013: 3,7 milhões

NÃO É BEM ASSIM

- "A ONU adota o bolsa família como o mais importante programa de transferência de renda do mundo" - Embora o programa seja citado como exemplo para a erradicação da pobreza, a ONU também cita o programa Oportunidades, do México, como iniciativa no mesmo patamar.

- "94% dos acordos salariais em 12 anos foram feitos com aumentos salariais reais, acima da inflação" - Segundo o Dieese, apenas em 2012 o índice citado foi alcançado; nos outros anos, não.

Balanço de reajustes acima da inflação (%):

2009- 79,9/ 2010- 88,8/ 2011- 87,5/2012- 95,1/ 2013- 86,9

- "O BNDES é o único banco brasileiro com inadimplência zero, é o único que só empresta para quem pode pagar" - A "inadimplência zero” é obtida graças à rolagem constante das dívidas, peculiares de um banco público de fomento. Foi assim em relação às dívidas das empresas de Eike Batista, por exemplo.

- "Entre 2008 e 2013 o país produziu superavit primário médio de 2,58%" -Para alcançar a média, o governo usou artifícios, como o uso de ações da Petrobras compradas pelo BNDES em 2012 e a contabilização do parcelamento de dívidas de empresas, realizado contra a vontade da Receita Federal.

- "O Brasil tem hoje o sétimo PIB da economia mundial, o segundo maior entre os grandes países emergentes, depois da China" - Segundo o Banco Mundial, o Brasil está em quarto colocado entre os emergentes. O cálculo por paridade de poder de compra é a melhor maneira de comparar o tamanho de diferentes economias.

Maiores economias:

1- EUA/ 2- China/ 3- Índia/ 4- Japão/ 5- Alemanha/ 6- Rússia/ 7 Brasil

- "O Brasil é o segundo maior exportador de alimentos" - Na verdade, é o quarto.

Exportação de alimentos no mundo, segundo a OMC (em dólares):

EUA: 138 bilhões/ Holanda: 84,3 bilhões/ Alemanha: 78,4 bilhões Brasil: 77,2 bilhões

- "Estamos ampliando o investimento público em educação há 12 anos" - Nos três primeiros anos do governo Lula, o investimento em relação ao PIB foi menor que no último ano de FH. Subiu apenas a partir de 2006.

Investimento em educação (% do PIB):

2002: 4,8%/ 2003: 4,6%/ 2004: 4,5%/ 2005: 4,5%/ 2006: 5%/ 2012: 6,4%

NOS ANOS DILMA, FOI PIOR

- "O PIB per capita passou de 2,8 mil dólares para 11,1 mil dólares" - No primeiro ano de Dilma, o PIB cresceu até 12,5 mil dólares, mas caiu e não voltou ao mesmo patamar, segundo o Banco Mundial.

PIB per capita (em dólares):

2010- 10,9 mil/ 2011- 12,5 mil/ 2012- 11,3 mil/ 2013- 11,7 mil

- "Há 10 anos consecutivos a inflação se mantém dentro das metas estabelecidas pelo governo" - Para o mercado, ao comemorar índices que ficaram distantes do centro da meta, o governo passa a mensagem que a meta real não corresponde ao centro, como aponta o discurso oficial. Para manter dentro da margem, o governo segura preços, como da energia elétrica, gasolina e diesel.

- "A reserva de 380 bilhões (de dólares) corresponde a 18 meses de importações" - Para não perder reservas, o governo atua no mercado futuro de câmbio. Até o fim do ano, deverá manter uma posição vendida de cerca de 100 bilhões, o que equivale a quase um quarto das reservas.

- "Saímos de fluxo de balança comercial de 107 bilhões de dólares em 2007 para fluxo de 482 bilhões em 2013. Não é pouca coisa" - O crescimento dos anos Lula não se repetiu e o fluxo ficou estagnado.

Corrente de comércio, segundo o MDIC (em bilhões US$):

2010: 383,7/ 2011: 482,3/2012: 465,7/2013: 481,8

- "Há três anos o Brasil está entre os cinco maiores destinos de investimento externo direto do mundo. Em 2013 foram 64 bilhões, um bilhão a menos que em 2012" - Segundo a ONU, o Brasil caiu da quinta para a sétima posição no ranking de investimento direito em 2013, quando recebeu 4% a menos de investimento. No fluxo mundial o aumento foi de 11%. Entre os emergentes, de 6%.

- "A dívida pública bruta está estabilizada em torno de 57% do PIB" - A dívida pública cresceu no governo Dilma.

Dívida pública bruta, segundo o BC:

dez/2010: 53,3%/ dez/2011: 54,1%/ dez/2012: 58,8%/ abr/2014: 57,7%

oglobo.globo.com | 28-06-2014

LONDRES - Foi na madrugada de 11 de junho de 1903, em Belgrado, que teria começado a contagem regressiva para o conflito que arrastou 65 milhões de soldados aos campos de batalha, derrubou três impérios, matou 20 milhões e feriu outros 21 milhões de pessoas. Rebeldes invadiram o palácio real, cortaram a eletricidade em uma explosão e, depois de uma longa perseguição à luz de velas pelos corredores e cômodos do castelo, finalmente encontraram e mataram o rei Alexandre I e a mulher, escondidos em um vestíbulo. É com este episódio que o professor de História da Universidade de Cambridge Christopher Clark dá início à narrativa eletrizante e minuciosa (a camisa de seda vermelha que o rei vestiu às pressas para não ser descoberto sem roupas é um dos detalhes) de “Os sonâmbulos — Como eclodiu a Primeira Guerra Mundial”, que se tornou um best-seller na Europa no ano passado e está sendo lançado no Brasil pela Companhia das Letras.

A semente da Primeira Guerra mundial — o confronto que, segundo Clark, está por trás de todos os horrores do século XX — havia sido plantada em 1903 pela rede terrorista Mão Negra, até então secreta. O mesmo grupo foi o responsável, anos depois, pelo assassinato do Arquiduque Francisco Ferdinando em Sarajevo, em 28 de junho de 1914, episódio considerado o estopim da guerra. O que aconteceu entre a morte do arquiduque e o primeiro disparo nas trincheiras, porém, não foi como muitos aprenderam nas escolas, de acordo com Clark. Diferentemente do que a literatura destes últimos 100 anos ensina, ele afirma que a Alemanha não foi a única responsável pela escalada da tensão. Outros tiveram a sua parcela de culpa: Império Austro-Húngaro, França, Rússia, Grã-Bretanha e Itália, que, embora de fato não quisessem uma guerra, deixaram-se levar para o conflito como sonâmbulos.

— Todos contribuíram. Não adianta apenas apontar o dedo para os alemães. Os “mocinhos” também tiveram a sua parcela de responsabilidade nos conflitos — diz o historiador ao GLOBO.

Soldados franceses caminham por rua bombardeada na cidade de Verdun, leste da França, em 1917 - AFP/ Frantz Adam/ 1-10-1917

A reação à análise de Christopher Clark deixou-o em uma posição desconfortável. Foi acusado por especialistas de eximir a Alemanha da culpa pela Primeira Guerra e aclamado por alguns grupos — sobretudo alemães — justamente por tê-lo feito. Antes mesmo de ser perguntado sobre o assunto, Clark garante que as críticas não o incomodam e são saudáveis para o debate:

— Não estou tirando a responsabilidade da Alemanha sobre o que aconteceu. Até porque os alemães têm uma substancial parcela de culpa — diz Clark, ressaltando que as origens da guerra devem ser estudadas à luz do cenário europeu de então, considerando-se os vários filtros da época. — Depois da guerra com armas nos campos de batalha, veio a guerra dos documentos — diz.

Não bastasse a quantidade maciça de informações sobre a guerra, com mais de 25 mil volumes e artigos, a maioria dos documentos oficiais produzidos pelas nações à época trazia diferentes visões dos fatos. Os 57 volumes do “Die Grosse Politik”, por exemplo, com os 15.889 documentos divididos por 300 assuntos, encarregou-se de tirar dos ombros alemães o ônus da culpa refletida no Tratado de Versalhes.

RISCO DE MANIPULAÇÃO E DESTRUIÇÃO DE DOCUMENTOS

Outros países também deram destaque ao que queriam que ficasse para a posteridade. É como se qualquer ponto de vista pudesse ser comprovado “a partir de uma seleção de documentos”, diz. Na Rússia, boa parte dos registros se perderam durante a guerra civil que levou os bolcheviques ao poder. E a União Soviética nunca teria compilado documentos de maneira sistemática para rivalizar com as edições inglesas, francesas, alemães ou austríacas.

— Não estou menosprezando esses documentos. Eles são importantíssimos. Não são manipulados, mas têm omissões — afirma Clark. — O problema de 1914 não é que sabemos pouco, pelo contrário, sabemos demais. Há uma oferta oceânica de informações. Mas existe o risco de destruição das fontes, o que significa que algumas informações podem não chegar a público

Historiador britânico Christopher Clark, autor de "Sonâmbulos" - Nina Lübbren/Divulgação

Tendo como pano de fundo uma Europa em crise, onde não havia transparência nem confiança, os líderes da época tomaram as suas decisões com base nas informações de que dispunham, em estereótipos dos inimigos e nas interpretações que eram capazes de fazer dos fatos. Para Clark, contribuíram para este cenário cinzento o medo que as elites no poder tinham da ascensão do proletariado e dos partidos socialistas, e uma espécie de “crise de masculinidade”, a partir da qual os homens que estavam no comando da situação tentavam se afirmar.

— É claro que não queriam a guerra, mas correram o risco. Eram muitos atores, dos Bálcãs até Romênia, Bulgária e Itália. Todos eram independentes e tomavam decisões autônomas. Por isso, considero este o evento mais complexo do século XX.

Em uma crítica elogiosa ao livro, a revista “Foreign Affairs” afirma que a interpretação de Clark “não apenas captura as tendências na historiografia moderna da Primeira Guerra, mas também destaca as semelhanças (e algumas diferenças) no processo de decisão dos conflitos contemporâneos”.

Enquanto escrevia a conclusão do livro, em plena crise financeira na zona do euro, Clark destacou que os homens de 1914 são “nossos contemporâneos”. Segundo ele, as diferenças são tão relevantes quanto as semelhanças. “Pelo menos os ministros encarregados de lidar com a crise na zona do euro concordaram em linhas gerais sobre o que era o problema — em 1914, por outro lado, um abismo de perspectivas éticas e políticas minou o consenso e acabou com a confiança”, afirma. E termina: “Mas se a crise financeira global recente teve como pano de fundo a difusão de poderes e responsabilidades sob um único sistema político-financeiro, a complexidade de 1914 está justamente no fato de terem sido interações rápidas entre centros de poder autônomos fortemente armados confrontando diferentes tipos de ameaças em condições de alto risco e pouca confiança e transparência”.

'O MUNDO DE HOJE NÃO É TRANSPARENTE', DIZ CLARK

Clark observa que a crise na Ucrânia foi mais um episódio que fez lembrar o momento histórico de 1914. Já não se trata da disputa de poder entre dois blocos, como acontecia durante a Guerra Fria. Há outras potências em questão, e a China é uma delas, além da Turquia e o Irã:

— O mundo de hoje não é transparente e os níveis de confiança são baixos — diz ele, fazendo uma comparação com a Primeira Guerra. — Naquela época, duas potências centrais enfrentavam um trio de impérios mundiais nas periferias leste e oeste da Europa. Hoje, uma coalizão ampla de estados da Europa Ocidental e Central se uniu contra as intervenções da Rússia na Ucrânia. Mas o incansável e ambicioso reino do Kaiser de 1914 pouco se parece com a União Europeia, uma ordem internacional em que a paz é garantida por diferentes atores estatais, uma espécie de balanço de poder, que não consegue projetar poder nem formular política externa.

Recentemente,Clark voltou a ser acusado de deixar de lado os “mocinhos” e tomar partido dos “bandidos” ao afirmar que a crise na Ucrânia, que começou com protestos nas ruas no final do ano passado e culminou na derrubada do poder local e a anexação da Crimeia pela Rússia em fevereiro, não foi provocada apenas pelo presidente russo, Vladimir Putin. Os países do Ocidente, segundo ele, também têm a sua parcela de culpa ao interferir nos problemas domésticos de Kiev e apoiar a derrubada do presidente democraticamente eleito.

Perguntado sobre que lições o mundo poderia tirar do conflito de 100 anos atrás, ele é taxativo:

— Não é lição. 1914 é um oráculo, um alerta importante sobre como os custos podem ser terríveis quando a política falha, o diálogo acaba e o compromisso se torna impossível.

oglobo.globo.com | 14-06-2014

ABUJA — As manifestações de apoio às cerca de 200 estudantes sequestradas pelo grupo radical islâmico armado Boko Haram foram proibidas na capital federal nigeriana Abuja, anunciou nesta segunda-feira a polícia, que alega risco de atentados.

O anúncio da polícia surpreendeu as pessoas que protestam com o lema "Bring Back our Girls" (Tragam nossas meninas de volta) em Abuja e em outras cidades do país desde o sequestro, no dia 14 de abril em Chibok (nordeste). Essa decisão foi tomada "por motivos de segurança", disse o porta-voz da polícia para o território da capital federal, Altine Daniel, que não deu maiores detalhes.

As organizadoras dos protestos contestaram a legitimidade da medida, questionando uma eventual motivação política. Mas o chefe da polícia local, Joseph Mbu, afirmou que a proibição foi motivada pela ameaça de infiltração de "elementos perigosos" que podiam cometer atentados.

No Twitter, uma das responsáveis pelas manifestações, Oby Ezekwesili, afirmou que não há base alguma para "proibir manifestações pacíficas" em Abuja."Esta decisão é louca", reagiu o advogado das organizadoras, Femi Falana, afirmando que a decisão deve ser contestada na justiça "o mais rápido possível". Uma nova manifestação deve ser realizada terça na capital federal, segundo uma porta-voz.

O destino das jovens sequestradas em sua escola no estado de Borno, epicentro da insurreição islamita, suscitou uma imensa mobilização internacional, principalmente nas redes sociais com a hashtag #bringbackourgirls. O anúncio da proibição foi feito no dia seguinte a um atentado no nordeste, que ainda não foi reivindicado. As autoridades acusam o Boko Haram.

Uma bomba explodiu domingo em um campo de futebol na cidade de Mubi, estado de Adamawa, um dos três em estado de emergência há mais de um ano, desde o início da ofensiva das forças de segurança para combater os islamitas armados.Fontes de segurança e dos serviços de saúde indicaram pelo menos 40 mortos no atentado, ocorrido por volta das 18h30 (14h30 de Brasília).Após uma decisão tomada há duas semanas pela ONU, a União Europeia incluiu o Boko Haram em sua lista de organizações terroristas.

oglobo.globo.com | 03-06-2014

TEL AVIV — Eles sequer foram empossados e já se depararam com o primeiro obstáculo. Três futuros ministros palestinos foram impedidos por Israel de deixar a Faixa de Gaza e viajar para Ramallah, na Cisjordânia — onde o novo governo da Autoridade Nacional Palestina (ANP) será empossado nesta segunda-feira. O trio deverá fazer por videoconferência o juramento de lealdade ao governo de união nacional que reunirá lado a lado, pela primeira vez, o partido secular Fatah e o religioso Hamas após uma cisão violenta que se estendeu por sete anos. E a decisão israelense de não autorizar o deslocamento dos novos ministros apenas reforçou a reprovação do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu à reconciliação palestina. No domingo, o premier pediu que líderes mundiais não reconheçam o gabinete de 17 ministros costurado pelo presidente da ANP, Mahmoud Abbas. Para Netanyahu, a união entre o Fatah e o Hamas significa o fortalecimento do terrorismo.

— Apelo a todos os responsáveis da comunidade internacional para que não se apressem a reconhecer o governo palestino do qual o Hamas é parte. É uma organização terrorista que prega a destruição de Israel, e a comunidade internacional não deve aceitá-la — disse, na reunião semanal de gabinete.

Abbas alega que a administração temporária, até a realização de eleições gerais, em seis meses, contará apenas com ministros tecnocratas liderados pelo atual premier, Rami Hamdallah, e que continuará honrando os acordos com Israel e rejeitando a violência. Mas Israel já planeja anunciar retaliações à ANP tão logo o governo Hamas-Fatah seja empossado. No passado, o governo reagiu com pressão financeira, ao suspender o repasse dos US$ 100 milhões que arrecada mensalmente em impostos e taxas em nome da ANP. Desta vez, porém, fontes do governo acreditam que Netanyahu possa esperar alguns dias até perceber a reação internacional.

EUA E EUROPA DÃO CHANCE A ABBAS

Preocupado, o secretário de Estado americano, John Kerry, telefonou no domingo para o presidente da ANP e recebeu a garantia de que os palestinos continuarão a renunciar à violência. Segundo o jornal jordaniano “al-Arab al-Yawn”, Kerry e Abbas se encontrarão em Amã na quarta-feira. Se o gesto não significa um apoio formal dos Estados Unidos, dá a entender que os americanos pretendem dar uma chance à nova administração palestina — assim como a União Europeia.

— Se Netanyahu cumprir com as ameaças veladas, os palestinos realmente enfrentarão muitas dificuldades. Mas acho difícil que Israel consiga influenciar na formação do novo governo, tanto entre os próprios palestinos quanto internacionalmente — acredita o professor Uri Rosset, especialista em Hamas da Faculdade Sapir, no Sul de Israel.

Para especialistas, no entanto, Netanyahu não tem realmente a intenção de evitar a união Hamas-Fatah. Essa seria apenas o pretexto para alcançar seu objetivo — distanciar-se das moribundas negociações de paz mediadas pelos EUA, permitindo que mantenha a seu lado seus aliados da extrema-direita, contrários à criação da Palestina.

— O interesse político dele é muito claro: sobreviver como primeiro-ministro e manter a atual coalizão de governo. Ele não acredita em nenhum avanço com os palestinos — opina Yoram Meital, da Universidade Ben Gurion, em Beer Sheva.

A disputa entre Hamas e Fatah dividiu os palestinos em dois campos desde 2007, quando o Hamas tomou o controle da Faixa de Gaza, expulsando do território costeiro representantes do grupo rival. Desde então, Gaza e Cisjordânia se tornaram duas regiões virtualmente autônomas — mais um obstáculo à demanda palestina de criar um Estado nacional com base na Cisjordânia, na Faixa de Gaza e na disputada Jerusalém Oriental.

Apesar da determinação, os dois partidos ainda divergem quanto a pastas-chave, como os ministérios do Exterior e de Prisioneiros. A reconciliação, porém, parece a única alternativa viável ao futuro.

— O Hamas está fazendo tudo isso por estar num momento delicado. Perdeu o apoio do Egito, onde a situação dele é pior do que na era Mubarak, da Síria e do Irã. Está claro que o Hamas falhou enquanto governo em Gaza e que a população da região nunca viveu tão mal — diz o professor Uri Rosset.

No caso do Fatah, o fracasso das negociações de paz com Israel, em abril, fez com que Abbas apostasse na paz interna entre os palestinos e tirasse da gaveta seu “Plano B”: voltar ao plenário da ONU em busca do reconhecimento da Palestina também pelo Conselho de Segurança. Em 2011, Abbas conseguiu a elevação de status da Palestina como “Estado não membro” apenas pela Assembleia Geral. Agora, quer um reconhecimento mais “sério”.

oglobo.globo.com | 02-06-2014

ROMA — A Europa registrou nos últimos meses um aumento significativo do número de imigrantes, de acordo com dados da Agência de Fronteiras da União Europeia — Frontex. Ao menos 60 mil tentaram entrar no continente europeu de janeiro a abril, incluindo rotas menos usadas, informou a BBC. Pelo menos um terço das últimas chegadas são de sírios, que fogem da guerra civil no país. Outro número significante é de imigrantes provenientes do Afeganistão e da Eritreia. A agência alerta que o fluxo pode subir ainda mais com a chegada do verão e mares mais calmos.

O número registrado no primeiros quatro meses de 2014 é próximo ao total de 2013 e superior ao mesmo período de 2011, ano da Primavera Árabe, quando chegaram 140 mil imigrantes ilegais na Europa.

“Olhando para frente, tudo aponta para uma probabilidade elevada de um grande número de travessias ilegais para a União Europeia e o aumento do número de imigrantes que necessitam de assistência de operações de busca e salvamento e também em termos de prestação de proteção internacional”, diz o relatório da Frontex.

A agência informou ainda que o número de pessoas que tentou a perigosa travessia marítima do Norte da África para a Itália subiu consideravelmente. De janeiro para abril, 42 mil pessoas fizeram a rota, sendo que 25.650 partiram da Líbia.

— A principal via através da Líbia foi fechada por tanto tempo que as pessoas em países da África Subsariana ficaram à espera por muitos anos — explicou à BBC Franck Duvell, professor associado do Centro para a Imigração, Política e Sociedade da Universidade de Oxford. — Assim, os números têm subido. As pessoas estavam à espera da primeira oportunidade de se mover.

Em 2013, o número de pessoas que tentaram entrar nos 28 países da União Europeia ilegalmente subiu para 107 mil contra 75 mil em 2012, segundo o relatório.

Além da rota do Mediterrâneo Central, onde os imigrantes arriscam suas vidas em embarcações superlotadas para chegar à Itália e Malta, também houve um forte aumento do outro lado da fronteira entre a Hungria, que é membro da UE, e a Sérvia , o que não pertence ao grupo.

Em Calais, onde as autoridades francesas desmantelaram nesta semana dois principais acampamentos, foram identificados imigrantes de uma série de países, da África Ocidental a Bangladesh, com grandes grupos do Irã e de áreas tribais do Paquistão.

oglobo.globo.com | 30-05-2014
Com sua tradicional gravata borboleta,  o polonês Janusz Korwin-Mikke, 72, novo membro do Parlamento Europeu, defendeu todo seu conservadorismo e um discurso anti-União Europeia. Disse, por exemplo, ser contra o voto feminino e propagou a educação à base de chicotes. Na quinta (29), fui ... Leia post completo no blog Leia mais (05/30/2014 - 05h13)
redir.folha.com.br | 30-05-2014

RIO — A crise econômica insiste em abalar os mercados, dar fôlego a partidos ultranacionalistas e fazer crescer o bloco dos chamados "eurocéticos" — os descrentes na União Europeia. Nesse cenário conturbado, o atentado contra o Museu Judaico de Bruxelas, no último fim de semana, fez com que as comunidades judaicas da Europa se vissem, mais uma vez, diante da ameaça do antissemitismo. Equilibrando-se entre um medo concreto e as sombrias lembranças da primeira metade do século XX,

metade dos judeus europeus garante estar mais insegura, segundo a pesquisa anual do Centro Kantor para Estudos do Judaísmo Europeu, da Universidade de Tel Aviv. Ainda assim, há uma contradição: o número de ataques antissemitas violentos no mundo caiu 19% no ano passado: foram 554, contra os 686 registrados em 2012. Mas os episódios se mantêm em curva ascendente nos últimos dez anos e têm sido cada vez mais violentos.

— O ano de 2013 foi especialmente difícil. Apesar da queda do número de ataques registrados, vimos a expansão de ações antissemitas a países onde não antes isso não era percebido, como Dinamarca, Suécia e Bélgica. A violência desses ataques também aumentou, de agressões físicas nas ruas, às vezes com o uso de armas de fogo, a insultos verbais. Há registros de trotes telefônicos, cartas anônimas e atéassédio em locais de trabalho, trata-se de uma violência quase diária — afirmou a historiadora Dina Porat, diretora do Centro Kantor.

A violência contra o indivíduo chamou a atenção dos pesquisadores. Se há alguns anos atos de vandalismo como pichações a cemitérios, escolas e sinagogas eram as formas mais comuns de antissemitismo, dos 554 incidentes registrados em 2013, 185 foram direcionados diretamente a pessoas. Na França, por exemplo, pouco depois do atentado belga, dois jovens judeus foram agredidos na rua por desconhecidos no sábado passado, perto de uma sinagoga em Créteil, que fica a 70 quilômetros de Paris. Pesquisas locais indicam que três em cada quatro judeus franceses desejam emigrar. E números coletados por órgãos como a Agência de Direitos Fundamentais da União Europeia (FRA, na sigla em inglês) mostram que 55% dos judeus europeus não se sentem seguros. Ao menos 25% evitam usar artefatos que os identifiquem como judeus nas ruas.

Para a psiquiatra Mônica Waitzfelder, que é judia e mora em Paris desde 1985, judeus que usam símbolos religiosos podem sofrer mais com possíveis ataques, sejam verbais ou violentos:

— Eu não me sinto insegura, mas também não fica claro para todo mundo que me vê que sou judia, pois não sou religiosa. Ainda assim, houve o caso do Ilan Halimi, em 2006, que foi sequestrado e morto por antissemitas em Paris, mas não usava símbolos religiosos também. O antissemitismo nunca deixou de existir na França, e na Europa como um todo. Prova disso é a Hungria. Mas não podemos deixar de lembrar que, na França, o presidente François Hollande sempre foi extremamente claro em sua posição de defesa aos judeus. Acredito que o antissemitismo hoje, aqui e em qualquer parte do mundo, se confunde muito também com a questão israelense-palestina. Coisas que as pessoas teriam medo de dizer contra os judeus apenas dez anos depois da Segunda Guerra, quando o antissemitismo era extremamente vergonhoso, hoje são faladas em meio a críticas que são feitas contra Israel. Daí a complexidade dessa questão.

A França continua sendo o país com o maior registro de atos antissemitas: foram 116 no ano passado. Na Polônia, um estudo da Universidade de Varsóvia, concluído em janeiro passado, indicou que 63% dos poloneses acreditam haver uma "conspiração judaica para controlar o sistema bancário internacional e a mídia"; 90% disseram nunca ter visto um judeu.

As ondas de antissemitismo na Europa vão e vêm. E costumam, frequentemente, estar atreladas às crises políticas de Israel. Para os especialistas, uma falsa crença de que os judeus europeus são mais fiéis ao Estado israelense que ao seu próprio incentiva ações antissemitas que, na verdade, são antissionistas. Ou anti-israelenses.

Basta um período de crise no conflito israelense-palestino para que extremistas transformem em antissemitismo suas condenações pela política de ocupação israelense dos territórios palestinos. O ano de 2009 registrou o maior número de atos antissemitas desde a Segunda Guerra Mundial, a maioria no primeiro semestre — nos meses que se seguiram à Operação Chumbo Fundido, entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009, quando uma ofensiva israelense contra o grupo islâmico Hamas matou mais de 1.200 palestinos na Faixa de Gaza.

O antissemitismo atual, porém, seria diferente desse que está atrelado ao conflito em Israel. Segundo o presidente do Congresso Judaico Europeu, Moshe Kantor, trata-se de antissemitismo clássico, fruto de uma mistura de insatisfação com a crise econômica iniciada em 2008, da xenofobia e do fortalecimento de partidos ultranacionalistas, através das urnas, ao cenário político. E alerta para brechas sociais que permitem o comportamento agressivo.

— Isso ocorre num clima geral de deslegitimação dos judeus e do Estado de Israel, onde o discurso racista fica mais normalizado e os extremistas violentos acham que têm carta branca para agir. Vejo o nascimento de um "antissemitismo democrático", como aconteceu durante o período nazista. Por exemplo, somente dez anos depois do fenômeno Dieudonné M'bala M'bala, o governo francês decidiu ir à Justiça e bani-lo completamente. O antissemitismo passa por uma politização, e isso é muito perigoso — disse Kantor, lembrando o caso do humorista franco-camaronês banido dos palcos por suas "piadas" antissemitas e seu apego ao "quenelle", um gesto que remete à saudação nazista usada por Adolf Hitler.

O atual cenário político é uma fonte primária de angústia para as comunidades judaicas locais. As recentes eleições para o Parlamento Europeu deram impulso ao euroceticismo e ao nacionalismo exacerbado de partidos como a Frente Nacional, de Marine Le Pen, na França, e o Partido da Independência do Reino Unido (Ukip), de Nigel Farage, no Reino Unido — todos interessados em formar alianças com os novos eurodeputados ultradireitistas nórdicos do Partido do Povo (o mais votado na Dinamarca), dos Democratas Suecos e Verdadeiros Finlandeses. Nesse novo Legislativo, talvez uma das presenças mais incômodas seja a do partido húngaro Jobbik, que elegeu três eurodeputados com 14,7% dos votos e já é a terceira maior força política da Hungria.

A legenda é motivo de polêmica: seria inspirada no nazismo e alguns de seus integrantes já professaram abertamente seu ódio a ciganos e judeus. No fim de 2012, um de seus deputados, Marton Gyongyosi, sugeriu listar e investigar os deputados judeus do Parlamento para determinar se eram "uma ameaça à segurança nacional". Protestos forçaram-no a pedir desculpas. Mas, para muitos húngaros, a atitude pode ter sido interpretada como um exemplo de que aceitar pensamentos antissemitas publicamente é algo aceitável.

— No quesito segurança, a vida é normal. Nunca penso duas vezes antes de sair à rua à noite, ir ou vir, o que é ótimo — contou recentemente à revista "Forward" o rabino Baruch Oberlander, um filho de húngaros sobreviventes do Holocausto. -- Por outro lado, a retórica antissemita é um problema. O Jobbik nunca perde a chance de fazer uma provocação ou criar manchetes nos jornais.

Dar a dimensão exata à ameaça antissemita, com segurança e sem alarmismo, é o desafio da comunidades judaicas europeias.

— Nosso papel é garantir que não vamos nos dobrar ao terror. Não devemos dar uma vitória aos racistas ao esconder nossa identidade. Devemos garantir a proteção de nossas comunidades, dedicando os recursos necessários à segurança e à coleta de informações, respeitando e aplicando as leis adequadas contra crimes de ódio e terrorismo. Acima de tudo, é preciso educar os jovens sobre os valores da tolerância e da democracia, o que é da responsabilidade dos governos. Continuaremos a insistir que junto aos governos no nível nacional e pan-europeu a viver de acordo com essas responsabilidades — resumiu Moshe Kantor.

Este texto foi publicado na edição vespertina O GLOBO A MAIS

oglobo.globo.com | 29-05-2014

MADRI — As eleições ao Parlamento Europeu significaram um antes e um depois para a tradicional divisão do poder na Espanha. O bipartidarismo foi nocauteado, já que os governistas do Partido Popular e a oposição socialista, pela primeira vez na História da democracia do país, não reuniram nem a metade dos votos — dos cerca de 74% em 2009, despencaram para 49%. Um golpe que fez com que perdessem 17 eurodeputados (oito populares e nove socialistas). Ainda não se sabe, no entanto, se o panorama será mantido nas próximas eleições, em 2015, pintando um novo quadro em uma Espanha que, nos últimos 40 anos, sempre contou com maiorias estáveis, prescindindo de governos de coalizão.

O cenário é de grande desalento com a classe política, muita desinformação sobre a importância das eleições europeias — a participação provavelmente seria superior aos 45% de domingo em eleições nacionais —, e de descrença nas instituições (entre 67% e 75% dos espanhóis não confiam no Parlamento Europeu, na União Europeia e na Comissão Europeia). Neste contexto, ninguém duvida de que o bipartidarismo esteja seriamente ferido, mas especialistas ainda acham cedo para falar em morte.

— Temos um sistema eleitoral que favorece enormemente os grandes partidos. Se o Partido Popular (PP) se recuperar, a hegemonia será mantida. E isso é possível, já que a grande abstenção marcou, principalmente, os redutos eleitorais do PP — explica o cientista político Fernando Vallespín, da Universidade Autônoma de Madri.

O que significa que não houve tanta migração do voto conservador como houve do de esquerda. Embora alguns eleitores do Partido Popular tenham apostado, desta vez, pelo União, Progresso e Democracia (UPyD), de centro — que passou de um a quatro eurodeputados —, quem realmente sofreu com o voto de castigo foram os socialistas.

Três meses, cinco cadeiras

O eleitorado indignado com o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) acabou atomizando a esquerda, triplicando a presença da Esquerda Unida no Parlamento Europeu e, para surpresa generalizada, dando cinco cadeiras a um recém-nascido Podemos — registrado há três meses — que, principalmente através das redes sociais, soube captar o voto de protesto (quase 8%).

— É um grupo alternativo que critica “a casta política”, como dizem, mas que não sabe claramente qual é sua própria mensagem. O grego Syriza, que o Podemos apoia, quer outra política econômica europeia mas sem romper com o sistema. Mas não sabemos o que o Podemos quer. Retoricamente deseja romper com tudo, mas não apresenta um plano. É uma incógnita, que soube captar o voto antissistema — opina Vallespín.

A fragmentação da esquerda e a preocupante perda de votos fizeram que o líder socialista Alfredo Pérez Rubalcaba anunciasse sua saída como secretário-geral do partido. Seu sucessor terá que renovar profundamente o partido, reconquistar a credibilidade perdida nestes últimos cinco anos e evitar que, de fato, o bipartidarismo seja enterrado.

oglobo.globo.com | 27-05-2014

RIO - O futuro da tecnologia está sendo escrito a lápis. Descoberto a partir do grafite, o grafeno, material de flexibilidade, leveza e condutividade extremas tem o potencial de dar à luz aparelhos eletrônicos, baterias e outras soluções high tech que só existem hoje nos sonhos dos consumidores.

Com espessura de um único átomo de carbono, equivalente à milionésima parte de um fio de cabelo, não há nada mais fino que o grafeno. Se o grafite fosse um livro, ele seria uma folha. Mas essa finura se mostra inversamente proporcional a seu poder de fogo: é 300 vezes mais duro que o aço e chega a ser mais resistente que o diamante. Tem ainda a maior condutividade já registrada em temperatura ambiente, e os elétrons passam através dele até 200 vezes mais rápido do que pelo silício dos chips de computador.

Flexível, o material pode ser usado na criação de smartphones, tablets e até televisores que dobraremos e guardaremos no bolso. Por ser finíssimo, também é transparente, abrindo espaço para o desenvolvimento de telas maleáveis sensíveis ao toque, com a vantagem de serem resistentes à água.

O grafeno pesa quase nada, sendo possível cobrir a área de um campo de futebol com apenas um grama do material. Por causa disso, ele poderia ser integrado a outras superfícies sem prejuízo de sua portabilidade, transformando qualquer objeto em um equipamento eletrônico. Isso permitiria um salto na concepção dos chamados eletrônicos vestíveis, abrangendo de roupas conectadas a lentes de contato com visão noturna.

Os mais ambiciosos veem o grafeno penetrando mais fundo, graças às dimensões nanométricas e à capacidade de adaptação do material: sensores de grafeno que se comunicam com tecidos humanos, por exemplo. Já a Fundação Bill e Melinda Gates doou US$ 100 mil à Universidade de Manchester para o desenvolvimento de uma camisinha de grafeno que manteria intacto o prazer sexual e seria à prova de estouro.

Uma rede mais rápida

Com tantas qualidades, imaginou-se logo que o grafeno seria, enfim, um substituto à altura para o silício nos chips de computador. O material que dá nome à região onde nasceram empresas como Apple e Intel se aproxima do seu limite como matéria-prima de processadores, uma vez que seus transistores já são quase do menor tamanho permitido pela física. Mas não é bem assim.

— A ideia não é substituir o silício. Isso até pode acontecer daqui a 30 anos, mas o que queremos hoje é usar o grafeno onde o silício não atua bem, como em superfícies flexíveis, transparentes e integradas ao corpo, em baterias e supercapacitores — disse Andrea Ferrari, diretor do Centro do Grafeno da Universidade de Cambridge.

Claudius Feger, diretor da divisão de Dispositivos Inteligentes da IBM no Brasil, admite que o silício sempre baterá o grafeno em uma das tarefas básicas dentro dos chips. A verdade é que o grafeno é tão condutivo que, uma vez que os elétrons começam a passar através dele, é muito difícil pará-los. Só que a interrupção controlada da corrente é justamente o que torna possível armazenar os dados expressos pelos dígitos “1” e “0” em chips. Por isso o especialista prevê que o grafeno exercerá papel mais importante por sua capacidade óptica, via fotodetectores e receptores de radiofrequência que tornariam mais rápida a transmissão de dados nos equipamentos de silício.

— O grafeno poderia melhorar o desempenho dos equipamentos feitos de sílica, que é a base da fibra óptica. Assim, o acesso dos aparelhos à internet poderia ser mais veloz, por exemplo — observa o físico Fernando Lázaro, da PUC-Rio.

Mas nada disso existirá se não surgir um método eficiente para produção de grafeno em larga escala, e é sobre isso que se debruçam cientistas de todo o mundo agora. O método tradicional de obtenção do grafeno é conhecido como esfoliação mecânica. É útil às pesquisas, mas não atende às necessidades industriais, pois proporciona folhas de grafeno com apenas alguns milímetros.

— Para obter placas com um metro quadrado, por exemplo, a alternativa é a chamada deposição química, em que se espalha um vapor de metano sobre cobre ou níquel. Depois se mergulha isso em uma solução que corrói o metal, e o que sobra é grafeno. Mas esse processo tem o revés de “sujar” o material, reduzindo algumas de suas propriedades — diz o físico Eunézio Antônio de Souza, responsável na Universidade Presbiteriana Mackenzie pelo MackGrafe, primeiro centro de pesquisas dedicado ao grafeno no Brasil.

Reduzir as falhas da deposição química é justamente um dos objetivos hoje daGraphene Flagship, a maior iniciativa de pesquisa sobre grafeno no mundo. O consórcio foi estabelecido pela União Europeia (UE), envolve 17 países e tem orçamento de € 1 bilhão. Gigantes da tecnologia como a Samsung também vêm se debruçando sobre o problema.

oglobo.globo.com | 26-05-2014

RIO - O futuro da tecnologia está sendo escrito a lápis. Descoberto a partir do grafite, o grafeno, material de flexibilidade, leveza e condutividade extremas tem o potencial de dar à luz aparelhos eletrônicos, baterias e outras soluções high tech que só existem hoje nos sonhos dos consumidores.

Com espessura de um único átomo de carbono, equivalente à milionésima parte de um fio de cabelo, não há nada mais fino que o grafeno. Se o grafite fosse um livro, ele seria uma folha. Mas essa finura se mostra inversamente proporcional a seu poder de fogo: é 300 vezes mais duro que o aço e chega a ser mais resistente que o diamante. Tem ainda a maior condutividade já registrada em temperatura ambiente, e os elétrons passam através dele até 200 vezes mais rápido do que pelo silício dos chips de computador.

Flexível, o material pode ser usado na criação de smartphones, tablets e até televisores que dobraremos e guardaremos no bolso. Por ser finíssimo, também é transparente, abrindo espaço para o desenvolvimento de telas maleáveis sensíveis ao toque, com a vantagem de serem resistentes à água.

O grafeno pesa quase nada, sendo possível cobrir a área de um campo de futebol com apenas um grama do material. Por causa disso, ele poderia ser integrado a outras superfícies sem prejuízo de sua portabilidade, transformando qualquer objeto em um equipamento eletrônico. Isso permitiria um salto na concepção dos chamados eletrônicos vestíveis, abrangendo de roupas conectadas a lentes de contato com visão noturna.

Os mais ambiciosos veem o grafeno penetrando mais fundo, graças às dimensões nanométricas e à capacidade de adaptação do material: sensores de grafeno que se comunicam com tecidos humanos, por exemplo. Já a Fundação Bill e Melinda Gates doou US$ 100 mil à Universidade de Manchester para o desenvolvimento de uma camisinha de grafeno que manteria intacto o prazer sexual e seria à prova de estouro.

Uma rede mais rápida

Com tantas qualidades, imaginou-se logo que o grafeno seria, enfim, um substituto à altura para o silício nos chips de computador. O material que dá nome à região onde nasceram empresas como Apple e Intel se aproxima do seu limite como matéria-prima de processadores, uma vez que seus transistores já são quase do menor tamanho permitido pela física. Mas não é bem assim.

— A ideia não é substituir o silício. Isso até pode acontecer daqui a 30 anos, mas o que queremos hoje é usar o grafeno onde o silício não atua bem, como em superfícies flexíveis, transparentes e integradas ao corpo, em baterias e supercapacitores — disse Andrea Ferrari, diretor do Centro do Grafeno da Universidade de Cambridge.

Claudius Feger, diretor da divisão de Dispositivos Inteligentes da IBM no Brasil, admite que o silício sempre baterá o grafeno em uma das tarefas básicas dentro dos chips. A verdade é que o grafeno é tão condutivo que, uma vez que os elétrons começam a passar através dele, é muito difícil pará-los. Só que a interrupção controlada da corrente é justamente o que torna possível armazenar os dados expressos pelos dígitos “1” e “0” em chips. Por isso o especialista prevê que o grafeno exercerá papel mais importante por sua capacidade óptica, via fotodetectores e receptores de radiofrequência que tornariam mais rápida a transmissão de dados nos equipamentos de silício.

— O grafeno poderia melhorar o desempenho dos equipamentos feitos de sílica, que é a base da fibra óptica. Assim, o acesso dos aparelhos à internet poderia ser mais veloz, por exemplo — observa o físico Fernando Lázaro, da PUC-Rio.

Mas nada disso existirá se não surgir um método eficiente para produção de grafeno em larga escala, e é sobre isso que se debruçam cientistas de todo o mundo agora. O método tradicional de obtenção do grafeno é conhecido como esfoliação mecânica. É útil às pesquisas, mas não atende às necessidades industriais, pois proporciona folhas de grafeno com apenas alguns milímetros.

— Para obter placas com um metro quadrado, por exemplo, a alternativa é a chamada deposição química, em que se espalha um vapor de metano sobre cobre ou níquel. Depois se mergulha isso em uma solução que corrói o metal, e o que sobra é grafeno. Mas esse processo tem o revés de “sujar” o material, reduzindo algumas de suas propriedades — diz o físico Eunézio Antônio de Souza, responsável na Universidade Presbiteriana Mackenzie pelo MackGrafe, primeiro centro de pesquisas dedicado ao grafeno no Brasil.

Reduzir as falhas da deposição química é justamente um dos objetivos hoje daGraphene Flagship, a maior iniciativa de pesquisa sobre grafeno no mundo. O consórcio foi estabelecido pela União Europeia (UE), envolve 17 países e tem orçamento de € 1 bilhão. Gigantes da tecnologia como a Samsung também vêm se debruçando sobre o problema.

oglobo.globo.com | 26-05-2014

BRUXELAS — O ataque deste sábado ao Museu Judaico de Bruxelas, que deixou três mortos e um ferido na capital belga provocou comoção entre a comunidade judaica do país — às vésperas de eleições locais e continentais — e entre líderes de países europeus e de Israel.

— Este assassinato é resultado da constante difamação contra os judeus e sua nação. Mentiras e calúnias contra o Estado de Israel continuam a ser ouvidas na Europa ao mesmo tempo em que crimes contra a humanidade perpetrados em nosso solo continuam a ser ignorados — afirmou o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. — Nossa resposta a essa hipocrisia é continuar dizendo a verdade, e nos fortalecer na nossa incansável luta contra o terrorismo.

Comentando o ataque, o ministro israelense das Relações Exteriores, Avigdor Lieberman, líder de um partido ultranacionalista, acusou o ativismo pró-palestino, “que, novamente, como nas épocas mais obscuras, convocou o boicote aos produtos judaicos e atua com agressividade contra a única democracia do Oriente Médio” de ser “puramente antissemita e nada além disso”.

Atentados motivados pelo antisemitismo não acontecem na Bélgica — que abriga uma população judaica superior a 40 mil pessoas — desde os anos 1980, mas o ódio e o preconceito contra os judeus têm sido opontados como principais motivos por trás do ataque, por figuras que vão da ministra do Interior, Joëlle Milquet, até o presidente do Congresso Mundial Judaico, Ronald S. Lauder, que comparou o atentado aos assassinatos cometidos em Toulouse, em 2012, no qual Mohamed Morah baleou quatro estudantes judeus em uma escola francesa.

— Trata-se de um ato terrorista. O assassino entrou deliberadamente em um museu judaico — afirmou o presidente da Liga Belga Contra o Antisemtismo (LBCA), Joël Rubinfeld. — Houve uma liberação do discurso antisemita. Essa é uma desgraça decorrente de um ambiente que destila o ódio.

Viviane Teitelbaum, uma deputada judia de Bruxelas, afirmou que ataques antisemitas tiveram seu auge nos anos 1980, mas diminuíram antes de uma recente ressurreição do antisemitismo belga.

O presidente francês, François Hollande, também condenou "a matança assustadora" no museu, manifestando aos belgas a "solidariedade" da França. Em nota divulgada no sábado à noite, Hollande "expressa sua grande comoção e condena fortemente a matança assustadora ocorrida no Museu Judaico de Bruxelas".

O chefe de Estado manifesta ainda "a total solidariedade da França ao povo belga nessa prova e envia suas profundas condolências às famílias das vítimas".

Também em nota divulgada este sábado, o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, denunciou o ataque cometido "contra os valores da Europa".

"A notícia do violento tiroteio que custou a vida de três pessoas inocentes esta tarde no centro de Bruxelas, na frente do Museu Judaico, chocou-me profundamente", declarou Durão Barroso."Condeno duramente o fato de que esse terrível tiroteio tenha sido dirigido contra um símbolo religioso no coração da capital europeia. Trata-se de um ataque contra os valores da Europa, o que não podemos tolerar".

A alta representante para Política Externa e Segurança da União Europeia, Catherine Ashton, foi outra autoridade que condenou o ataque.

Em nota, o rei Philippe, da Bélgica, enviou condolências às famílias das vítimas, e se disse “indignado com este ato violento que afeta a comunidade judaica”.

— Nosso país e todos os belgas, independentemente de seu idioma, sua origem ou seus credos, estão unidos em solidariedade, e condenam este detestável ataque a uma instituição cultural judaica — afirmou, durante uma coletiva de imprensa, o primeiro-ministro belga, Elio Di Rupo.

oglobo.globo.com | 25-05-2014

LONDRES — Quando os eleitores de toda a Europa forem às urnas nesta semana para eleger um novo parlamento, espera-se que os partidos de extrema-direita estejam entre os vencedores. Mas um dos maiores beneficiados pela eleição pode ser um homem cujo nome não está na cédula: Vladimir Putin.

Mesmo que os principais líderes europeus façam barulho ao condenar a agressão russa, os eleitores parecem estar prontos para recompensar aqueles partidos que não fazem nenhum segredo da admiração sobre a forma como o líder russo desafiou o Ocidente e desmembrou a Ucrânia.

O resultado poderia ser um novo golpe no esforço europeu — que está naufragando — de ter uma alinhamento firme e unido contra a Rússia. Durante meses, os líderes europeus têm refugado sobre como e quando dar sanções contra Moscou. Alguns dos pesos pesados do continente têm argumentado que as restrições são a melhor maneira de influenciar o comportamento russo, como que oferecendo a melhor chance de preservar os amplos laços econômicos entre a Rússia e a Europa.

Mas muitos dos partidos de extrema-direita — bem como um número menor de extrema-esquerda — têm aplaudido abertamente os movimentos da Rússia na Ucrânia, acusando a União Europeia e os Estados Unidos de provocarem uma crise em um continente há muito tempo acostumado à paz.

— A extrema-direita e a extrema-esquerda gostam do fato de que Putin está irritando o mainstream europeu — ressalta Simon Hix, especialista em política europeia da Escola de Economia e Ciência Política de Londres. — E gostam de toda esta situação, que ilustraria a hipocrisia das elites estabelecidas, que haviam bajulado Putin e, depois, disseram que seriam resistentes a ele, mas não são.

O aumento da representação da extrema-direita dentre os 751 membros do Parlamento Europeu não vai permitir tomar diretamente decisões sobre futuras sanções, que continuarão a ser feitas pelos governos nacionais, dominados pelos partidos tradicionais. E mesmo no Parlamento, onde os partidos de centro-direita e centro-esquerda quase que certamente vão prevalecer.

Mas as projeções mostram que a extrema-direita pode duplicar a quantidade de cadeiras e que, juntamente com a extrema-esquerda, poderia ocupar um terço do Parlamento, que tem sede em Estrasburgo, na França. Na guerra de relações públicas, que tem sido crucial na batalha da Ucrânia, esse resultado pode dar a Putin nova munição.

— Vai ser mais fácil para Putin tirar sarro dos europeus. ‘Quem você representa? Você nem mesmo representa seu próprio povo.’ Ele vai dar essa cartada — aposta Hix.

E, de fato, a mídia russa começou a fazer exatamente isso, dando destaque para os líderes da extrema-direita como os legítimos representantes da Europa. Esses líderes, por sua vez, abraçaram seu momento no centro das atenções russo.

Enquanto as forças pró-russas causaram estragos no leste da Ucrânia no mês passado, a líder da extrema-direita francesa, do partido Frente Nacional, estava em Moscou declarando a repórteres que “a Guerra Fria com a Rússia foi declarada na União Europeia”.

Marine Le Pen, cujo partido anti-imigração pode triunfar na porção francesa do voto europeu, usou sua visita a Moscou para reunir-se com o líder do Parlamento Russo, Sergei Naryshkin, que foi solapado pelas sanções da UE por ajudar a provocar os conflitos na Ucrânia.

O porta-voz de Le Pen, Ludovic de Danne , já havia dito à rádio “Voz da Rússia” que as sanções do Ocidente foram “injustificadas” e que a Crimeia pertencia à Rússia, porque o povo da Crimeia compartilha “alguma espécie de sonho de voltar à pátria-mãe”.

A Crimeia foi anexada pela Rússia em março, após um envio maciço de tropas russas e um referendo aprovado — de acordo com os resultados oficiais — por 95% dos eleitores. A votação foi condenada como uma farsa nas capitais ocidentais, mas foi endossada como livre e justa por numerosos políticos europeus de extrema-direita convidados para a península do Mar Negro como observadores da votação.

Werner Neubauer, membro do Partido da Liberdade, da Áustria, comemorou o referendo como um “trem da liberdade”, que estava em seu caminho para a Europa, e iria ajudar a libertar os países da UE. Seu colega de partido, Andreas Mölzer, disse que a UE é desfavorável ao Terceiro Reich e que a Europa corre perigo de tornar-se “um conglomerado de negros”, que não tem a ética de trabalho dos austríacos e alemães.

Nigel Farage, líder do Partido da Independência, do Reino Unido, e convidado frequente da rede de televisão RT, pró-Kremlin, citou Putin como o líder estrangeiro que mais admira e afirmou, em rede nacional, que os 28 membros da UE tem “sangue nas mãos” por manipularem a Ucrânia.

O partido extremista búlgaro Ataka foi tão longe que escolheu Moscou para lançar a própria campanha para as eleições europeias. Seu líder, Volen Siderov, disse que os Estados Unidos estão tentando provocar “uma terceira guerra mundial, através da qual a Rússia deveria ser trazida de joelhos”.

Enquanto os partidos de extrema-direita da Europa diferem em muitos aspectos, eles compartilham um desejo de enfraquecer a influência da União Europeia, sediada em Bruxelas, e “perseguir similarmente uma linha nacionalista e autoritária”, que seja abraçada por Putin, destaca Hajo Funke, analista político alemão e especialista em extremismo de direita.

De fato, em muitos aspectos, Putin é uma alma gêmea ideológica. Ele trilha contra a decadência ocidental e do liberalismo e fala em favor de um nacionalismo ortodoxo e conservador, que rejeita os direitos dos homossexuais e comanda a adesão aos valores tradicionais.

— Os partidos de extrema direita veem a Europa como estando em declínio por causa do cosmopolitismo e pró-americanismo – afirma Peter Kreko, diretor da firma de pesquisa e consultoria Capital Política, da Hungria. — Putin oferece um modelo alternativo: um líder que diz abertamente que apoia a visão cristã, que não pensa que direitos humanos são tão importantes e que acredita em comandar com mão de ferro.

Se os partidos de extrema-direita forem tão bem como se espera na votação desta semana, poderiam ter uma plataforma muito mais proeminente do que apenas promover esse tipo de visão para a Europa. Le Pen e seus aliados podem estar muito perto de ter apoio suficiente para formar seu próprio bloco no Parlamento, o que lhes daria acesso a financiamentos públicos e uma maior influência sobre a legislação.

— Se houver uma forte bancada anti-Europa no Parlamento, eles podem fazer muito para mudar o foco — analisa Kreko. — Não vão formar uma maioria, mas podem votar para apoiar os interesses e articular os ponto de vista russos.

Uma área que poderia ser particularmente afetada são as negociações sobre um extenso novo pacto comercial EUA-UE. A administração Obama considera o acordo uma prioridade, mas tanto a extrema-direita, quanto a extrema-esquerda europeias se opõem inflexivelmente, preferindo, em vez disso, laços econômicos mais estreitos com Moscou.

Embora os extremistas provavelmente não tenham os votos para afundar o negócio por conta própria, poderiam colocar pressão suficiente sobre pontos principais, tornando o acordo impossível.

— O populistas com seus forcados estarão se reunindo contra isso — ressalta Hix. — Eles não gostam da globalização, nem da elite urbana. Querem apoiar o “pequeno rapaz” (Vladimir Putin), o que vai tornar muito difícil para a centro-direita e a centro-esquerda conseguir o acordo. Vai ficar feio.

oglobo.globo.com | 23-05-2014

LONDRES — Quando os eleitores de toda a Europa forem às urnas nesta semana para eleger um novo parlamento, espera-se que os partidos de extrema-direita estejam entre os vencedores. Mas um dos maiores beneficiados pela eleição pode ser um homem cujo nome não está na cédula: Vladimir Putin.

Mesmo que os principais líderes europeus façam barulho ao condenar a agressão russa, os eleitores parecem estar prontos para recompensar aqueles partidos que não fazem nenhum segredo da admiração sobre a forma como o líder russo desafiou o Ocidente e desmembrou a Ucrânia.

O resultado poderia ser um novo golpe no esforço europeu — que está naufragando — de ter uma alinhamento firme e unido contra a Rússia. Durante meses, os líderes europeus têm refugado sobre como e quando dar sanções contra Moscou. Alguns dos pesos pesados do continente têm argumentado que as restrições são a melhor maneira de influenciar o comportamento russo, como que oferecendo a melhor chance de preservar os amplos laços econômicos entre a Rússia e a Europa.

Mas muitos dos partidos de extrema-direita — bem como um número menor de extrema-esquerda — têm aplaudido abertamente os movimentos da Rússia na Ucrânia, acusando a União Europeia e os Estados Unidos de provocarem uma crise em um continente há muito tempo acostumado à paz.

— A extrema-direita e a extrema-esquerda gostam do fato de que Putin está irritando o mainstream europeu — ressalta Simon Hix, especialista em política europeia da Escola de Economia e Ciência Política de Londres. — E gostam de toda esta situação, que ilustraria a hipocrisia das elites estabelecidas, que haviam bajulado Putin e, depois, disseram que seriam resistentes a ele, mas não são.

O aumento da representação da extrema-direita dentre os 751 membros do Parlamento Europeu não vai permitir tomar diretamente decisões sobre futuras sanções, que continuarão a ser feitas pelos governos nacionais, dominados pelos partidos tradicionais. E mesmo no Parlamento, onde os partidos de centro-direita e centro-esquerda quase que certamente vão prevalecer.

Mas as projeções mostram que a extrema-direita pode duplicar a quantidade de cadeiras e que, juntamente com a extrema-esquerda, poderia ocupar um terço do Parlamento, que tem sede em Estrasburgo, na França. Na guerra de relações públicas, que tem sido crucial na batalha da Ucrânia, esse resultado pode dar a Putin nova munição.

— Vai ser mais fácil para Putin tirar sarro dos europeus. ‘Quem você representa? Você nem mesmo representa seu próprio povo.’ Ele vai dar essa cartada — aposta Hix.

E, de fato, a mídia russa começou a fazer exatamente isso, dando destaque para os líderes da extrema-direita como os legítimos representantes da Europa. Esses líderes, por sua vez, abraçaram seu momento no centro das atenções russo.

Enquanto as forças pró-russas causaram estragos no leste da Ucrânia no mês passado, a líder da extrema-direita francesa, do partido Frente Nacional, estava em Moscou declarando a repórteres que “a Guerra Fria com a Rússia foi declarada na União Europeia”.

Marine Le Pen, cujo partido anti-imigração pode triunfar na porção francesa do voto europeu, usou sua visita a Moscou para reunir-se com o líder do Parlamento Russo, Sergei Naryshkin, que foi solapado pelas sanções da UE por ajudar a provocar os conflitos na Ucrânia.

O porta-voz de Le Pen, Ludovic de Danne , já havia dito à rádio “Voz da Rússia” que as sanções do Ocidente foram “injustificadas” e que a Crimeia pertencia à Rússia, porque o povo da Crimeia compartilha “alguma espécie de sonho de voltar à pátria-mãe”.

A Crimeia foi anexada pela Rússia em março, após um envio maciço de tropas russas e um referendo aprovado — de acordo com os resultados oficiais — por 95% dos eleitores. A votação foi condenada como uma farsa nas capitais ocidentais, mas foi endossada como livre e justa por numerosos políticos europeus de extrema-direita convidados para a península do Mar Negro como observadores da votação.

Werner Neubauer, membro do Partido da Liberdade, da Áustria, comemorou o referendo como um “trem da liberdade”, que estava em seu caminho para a Europa, e iria ajudar a libertar os países da UE. Seu colega de partido, Andreas Mölzer, disse que a UE é desfavorável ao Terceiro Reich e que a Europa corre perigo de tornar-se “um conglomerado de negros”, que não tem a ética de trabalho dos austríacos e alemães.

Nigel Farage, líder do Partido da Independência, do Reino Unido, e convidado frequente da rede de televisão RT, pró-Kremlin, citou Putin como o líder estrangeiro que mais admira e afirmou, em rede nacional, que os 28 membros da UE tem “sangue nas mãos” por manipularem a Ucrânia.

O partido extremista búlgaro Ataka foi tão longe que escolheu Moscou para lançar a própria campanha para as eleições europeias. Seu líder, Volen Siderov, disse que os Estados Unidos estão tentando provocar “uma terceira guerra mundial, através da qual a Rússia deveria ser trazida de joelhos”.

Enquanto os partidos de extrema-direita da Europa diferem em muitos aspectos, eles compartilham um desejo de enfraquecer a influência da União Europeia, sediada em Bruxelas, e “perseguir similarmente uma linha nacionalista e autoritária”, que seja abraçada por Putin, destaca Hajo Funke, analista político alemão e especialista em extremismo de direita.

De fato, em muitos aspectos, Putin é uma alma gêmea ideológica. Ele trilha contra a decadência ocidental e do liberalismo e fala em favor de um nacionalismo ortodoxo e conservador, que rejeita os direitos dos homossexuais e comanda a adesão aos valores tradicionais.

— Os partidos de extrema direita veem a Europa como estando em declínio por causa do cosmopolitismo e pró-americanismo – afirma Peter Kreko, diretor da firma de pesquisa e consultoria Capital Política, da Hungria. — Putin oferece um modelo alternativo: um líder que diz abertamente que apoia a visão cristã, que não pensa que direitos humanos são tão importantes e que acredita em comandar com mão de ferro.

Se os partidos de extrema-direita forem tão bem como se espera na votação desta semana, poderiam ter uma plataforma muito mais proeminente do que apenas promover esse tipo de visão para a Europa. Le Pen e seus aliados podem estar muito perto de ter apoio suficiente para formar seu próprio bloco no Parlamento, o que lhes daria acesso a financiamentos públicos e uma maior influência sobre a legislação.

— Se houver uma forte bancada anti-Europa no Parlamento, eles podem fazer muito para mudar o foco — analisa Kreko. — Não vão formar uma maioria, mas podem votar para apoiar os interesses e articular os ponto de vista russos.

Uma área que poderia ser particularmente afetada são as negociações sobre um extenso novo pacto comercial EUA-UE. A administração Obama considera o acordo uma prioridade, mas tanto a extrema-direita, quanto a extrema-esquerda europeias se opõem inflexivelmente, preferindo, em vez disso, laços econômicos mais estreitos com Moscou.

Embora os extremistas provavelmente não tenham os votos para afundar o negócio por conta própria, poderiam colocar pressão suficiente sobre pontos principais, tornando o acordo impossível.

— O populistas com seus forcados estarão se reunindo contra isso — ressalta Hix. — Eles não gostam da globalização, nem da elite urbana. Querem apoiar o “pequeno rapaz” (Vladimir Putin), o que vai tornar muito difícil para a centro-direita e a centro-esquerda conseguir o acordo. Vai ficar feio.

oglobo.globo.com | 22-05-2014

PARIS — Entre amanhã e domingo, cerca de 390 milhões de eleitores de 28 países serão chamados às urnas para escolher 751 deputados para um novo mandato do Parlamento Europeu. No rastro de sete anos de crise econômica, de alta do desemprego e em clima de desencanto com a política e com o sonho europeu, as pesquisas de opinião acenam com um importante crescimento dos partidos eurocéticos e com um acentuado índice de abstenção. A disputa pela cobiçada presidência da Comissão Europeia, que dependerá da nova composição do Parlamento, deverá ser decidida por consenso entre as duas frentes tradicionalmente majoritárias, o conservador Partido Popular Europeu (PPE) e os Socialistas e Democratas (S&D), de tendência esquerdista. Mas, se confirmadas as previsões das sondagens, a grande novidade do pleito será o aumento da influência dos eurodeputados nacionalistas e extremistas de direita em Estrasburgo, identificados pela eurofobia e a xenofobia.

Reforçada, a direita radical poderá criar um grupo parlamentar para legislar com maior poder de voz — para isso são necessários pelo menos 25 deputados de sete países —, em uma aliança costurada pelos franceses da Frente Nacional (FN) com o Partido da Liberdade austríaco (FPÖ), os belgas do Vlaams Belang, a Liga do Norte Italiana, os Democratas Suecos, os holandeses do Partido da Liberdade (PVV), o Partido Nacional eslovaco (SNS) e ainda, se eleitos, o Partido Popular romeno e União Democrática Croata (HDZ).

Os extremistas do Partido da Independência do Reino Unido (Ukip), de Nigel Farage, rejeitaram o convite da líder da FN, Marine Le Pen, para integrar o grupo ao evocar divergências ideológicas: os britânicos, arautos da bandeira anti-imigração como os franceses, acusam a FN de "manter o antissemitismo em seu DNA". No esforço de edulcorar sua imagem, associada a um discurso radical, Marine Le Pen evitou acordos com os "infrequentáveis" neonazistas húngaros do Jobbik ou os extremistas gregos da Aurora Dourada. A formação de um grupo no Parlamento não é algo anódino: garante recursos de financiamento — neste caso, estimados em mais de € 2 milhões —, assentos em comissões e maior tempo de palavra nos debates em plenário.

Na França, pela primeira vez a FN poderá alcançar a liderança em uma votação de nível nacional. Desempenho ainda melhor do que o segundo turno alcançado por Jean-Marie Le Pen, o fundador do partido, na eleição presidencial de 2002. Sua filha, Marine, mudou na aparência a imagem da sigla, inspirada na experiência do italiano Gianfranco Fini, que na década de 1990 transformou o partido fascista Movimento Social Italiano (MSI) em uma direita mais moderada, a Aliança Nacional.

A última pesquisa feita na França apontou a popularidade em alta do euroceticismo. Apenas 39% dos entrevistados qualificaram a União Europeia como uma "boa coisa", e 54% disseram que o euro traz "mais inconveniências do que vantagens". Mais: 65% defenderam a volta do controle nas fronteiras entre os Estados-membros, uma renúncia a um dos princípios básicos da construção europeia.

O veredicto das urnas europeias poderá ter reflexos nos tabuleiros políticos nacionais. Caso vença o pleito na França, a FN sinaliza com pressões para que o presidente François Hollande, em franca queda de popularidade, dissolva a Assembleia Nacional e convoque novas eleições legislativas — algo considerado improvável, mas avaliado por analistas como um ruído estratégico visando a eleição presidencial de 2017. Nesse contexto, Hollande se apresentaria em situação desconfortável na primeira reunião do Conselho Europeu pós-eleição, prevista para 26 e 27 de junho. O mesmo ocorreria com os líderes britânico, grego (ameaçado pela esquerda radical do Syriza) ou dinamarquês (face ao crescimento da extrema-direita populista), no caso de derrotas diante dos oposicionistas eurocéticos.

Na Espanha, segundo as pesquisas de opinião as duas principais siglas políticas do país — o Partido Popular (PP), do primeiro-ministro Mariano Rajoy, e o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) — devem perder cadeiras no Parlamento Europeu. Já pequenas agremiações, como a Esquerda Plural, o partido Podemos, criado a partir do movimento dos Indignados, ou centrista União Progresso e Democracia (UpyD) poderão, mesmo que modestamente, crescer na hora do voto.

Os italianos, de acordo com as sondagens, votarão em sua maioria no Partido Democrático (PD), do premier Matteo Renzi, mas o movimento eurocético de Beppe Grillo promete atrair eleitores descontentes com as crises política e econômica e os indecisos rumos de uma Europa cacofônica, a exemplo do que poderá ocorrer nos domínios da chanceler alemã Angela Merkel com o antieuropeu Alternativa para a Alemanha (AFD).

A rejeição ao projeto europeu poderá se manifestar também pela ausência de voto. Desde 1979, a participação do eleitorado está em declínio: de 63% para 43%, em 2009. Para estimular os eleitores a saírem de casa, o Parlamento Europeu lançou uma campanha sublinhando o caráter "inédito" do pleito deste ano. Com a mudança de regras, os eurodeputados devem aprovar por maioria absoluta o candidato proposto pelo Conselho à presidência da Comissão Europeia, para o qual concorrem como favoritos o ex-primeiro-ministro de Luxemburgo Jean-Claude Juncker (PPE) e o alemão Martin Schulz (S&D), atual presidente do Parlamento.

Órgão tem poder limitado para definir políticas

O Parlamento Europeu, órgão legislativo da União Europeia (UE), eleito pelo sufrágio universal desde 1979, representa cerca de 500 milhões de cidadãos do continente e legisla sobre 85 temas comuns aos 28 países-membros. Com poderes legislativos limitados (pode alterar, rejeitar ou votar leis propostas pela Comissão Europeia, órgão executivo responsável pela gestão cotidiana da UE) e partilhados com o Conselho de Ministros (formado por representantes do primeiro escalão dos governos nacionais de cada um dos países-membros), sua competência abrange questões sobre política externa, segurança, agricultura, meio ambiente, transporte, saúde, educação proteção ao consumidor ou liberdades civis.

Os eurodeputados podem receber queixas de cidadãos europeus e constituir comissões parlamentares de inquérito no caso de desrespeito às regras do direito comunitário, com a possibilidade de recorrer ao tribunal de justiça da UE. É o Parlamento também que define, em colaboração com o Conselho Europeu, o orçamento anual da UE.

Os 751 deputados — novo limite estabelecido desde a adesão da Croácia, em julho do ano passado — são eleitos proporcionalmente ao tamanho da população de cada país membro: Malta, por exemplo, elege apenas seis parlamentares, contra 96 para a Alemanha. Os eurodeputados eleitos neste domingo terão mandato de cinco anos, até 2019.

Cada país tem suas próprias regras para a eleição de eurodeputados, mas em muitos deles os assentos são divididos de maneira proporcional, sem um limite mínimo de votos para que um partido possa eleger deputados — o que faz que partidos fora dos Parlamentos nacionais consigam entrar no Parlamento Europeu.

oglobo.globo.com | 22-05-2014
O ministro da Educação afirmou hoje que a União Europeia pretende aumentar a cooperação com universidades africanas e asiáticas, nomeadamente com a China, e admitiu que o ensino de uma segunda língua estrangeira possa vir a ser obrigatório.
www.rtp.pt | 20-05-2014

TRÍPOLI — A Arábia Saudita fechou sua embaixada em Trípoli, capital da Líbia, nesta segunda-feira, um dia após a invasão de forças rebeldes ao parlamento e suspensão dos trabalhos. Já a União Europeia manifestou preocupação com a instabilidade no país.

No domingo, milicianos com armas antiaéreas, morteiros e disparos de foguetes invadiram o prédio do parlamento, suspenderam as sessões e saquearam o local. O grupo é liderado pelo general Khalifa Hifter, um comandante rebelde. Segundo informações, duas pessoas morreram no ataque e mais de 50 ficaram feridas.

Um dos representantes dos rebeldes, Mokhtar Farnana, disse que o atentado não é um golpe de estado, mas uma batalha pela “escolha do povo”. A ideia é que o atual governo funcione como um gabinete de emergência, mas Farnana não deu mais detalhes .

— A Líbia país não pode ser um terreno fértil ou uma incubadora para o terrorismo — disse o representante sentado em frente a uma bandeira do país.

O governo interino na Líbia condenou a invasão em um comunicado e pediu o fim do uso do arsenal militar. Autoridades acreditam que membros das organizações Al-Qaaqaa e Sawaaq apoiaram Hifter.

O Ministério da Educação negou que os exames do ensino médio foram suspensos, segundo a agência de notícias líbia LANA. O ministério pediu que os alunos não deixem de ir à escola.

oglobo.globo.com | 19-05-2014

GENEBRA - No país hoje apontado como o grande sucesso econômico da África, a Nigéria, 236 das 275 meninas sequestradas há mais de um mês por extremistas continuam desaparecidas. O motivo da violência: querem estudar. Caíram nas mãos do Boko Haram, grupo de fanáticos islâmicos que atua na região norte, a mais pobre do país. Na língua local, Boko Haram quer dizer “educação ocidental proibida”. Os militantes, armados, decididos a impor o Islã radical na Nigéria, explodiram 50 escolas só nos primeiros sete meses de 2013, segundo a Anistia Internacional. E assassinaram mais de 1.700 alunos e professores nos últimos anos, inclusive dentro da sala de aula. Longe dali, no Paquistão, em 2012, Malala Yousafzai, aos 15 anos de idade, levou um tiro na cabeça quando estava no ônibus da escola. O motivo, o mesmo: querer estudar.

- Estes grupos sabem que educação dá poder às meninas. Jovens educadas iluminam comunidades, a nação. É disso que têm medo - ressalta Changu Mannathoko, consultora em Políticas de Educação do Unicef, a agência da ONU dedicada às crianças, em Nova York.

As meninas da Nigéria e Malala são casos extremos que chegaram ao noticiário internacional. Não são, nem de longe, os únicos. Um estudo do Unicef, “Educação sob ataque”, revela uma impressionante sequência de eventos em que alunos e professores, em escolas e universidades de pelo menos 70 países, sofreram violência ou foram mortos por todo tipo de grupo: de fanáticos religiosos a militares, forças de segurança ou gangsteres. Os motivos são políticos, ideológicos, religiosos, sectarismo e perseguição étnica. O Brasil consta da lista com casos esporádicos. Segundo a pesquisa, a violência é recorrente em 30 países. A Colômbia é o pior caso na América Latina, com 140 professores mortos entre 2009 e 2012, e crianças recrutadas por grupos armados.

Talibã explode escolas

A Unesco, agência da ONU para educação, ciência e cultura, estima que das 57 milhões de crianças no mundo que estão fora das salas de aula, 57% são meninas. No Paquistão, 838 colégios foram atacados entre 2009 e 2012. “Nas áreas de atuação dos talibãs, centenas de escolas foram explodidas, e os que defendem a educação feminina foram mortos”, informa o Unicef. Em alguns países, o acesso à educação é dificultado pelo próprio Estado. É o caso do Irã, onde, desde 2012, mulheres estão proibidas de estudar em 36 universidades públicas, em 77 campos de atuação, como engenharia e administração de empresas.

A executiva-chefe do Fundo de Desenvolvimento da Mulher Africana, Theo Sowa, nascida em Gana, diz que já arrecadou US$ 17 milhões (R$ 38 milhões) para ajudar 800 associações em 42 países da África. Para ela, as barreiras à ascensão feminina vão além da África, ou do extremismo.

- Olhe para o mundo e verá discriminação. Há sequestros na América do Norte e tráfico de meninas, para exploração sexual, na Europa, e com o continente americano. Mulheres são vistas como “commodity”, propriedade - analisa Sowa.

A iraniana Nadereh Chamlou, ex-consultora do Banco Mundial para Oriente Médio e África, hoje ativa em organizações no mundo árabe, diz que meninas educadas são uma ameaça por terem uma visão mais moderada, e rejeitarem radicais. Não por acaso, segundo Chamlou, mulheres no Irã votaram em massa no atual presidente, o reformista Hassan Rouhani.

- O mesmo acontece no Afeganistão: o voto feminino elegendo políticos moderados. É por isso que extremistas têm medo de mulheres e meninas educadas, porque trazem moderação - enfatiza Chamlou.

Crise diminuiu recursos para ensino

Governos combatem radicais com meios militares. O Orçamento dos EUA para 2015 prevê US$ 1,3 bilhão em segurança e contraterrorismo, sem incluir os gastos no Oriente Médio, Leste da Ásia, Pacífico, Afeganistão e Paquistão, que terão orçamento específico. Já educação entra num pacote de US$ 1,1 bilhão para o mundo todo, que inclui “diplomacia pública e acordos culturais”.

Mas as especialistas Changu, Sowa e Chamlou afirmam em uníssono: educação é a arma que extremistas mais temem. Só que, com a crise mundial, os recursos para o ensino foram os mais enxugados: 14% entre 2009 e 2011. Segundo a Unesco, a União Europeia (UE) reduziu em um terço a ajuda internacional, entre 2010 e 2011, e os EUA deixaram de ser o maior doador. A promessa de pôr todas as crianças do planeta na escola até 2015 - estabelecido num pacto na ONU conhecido como Objetivo de Desenvolvimento do Milênio, firmado por 191 países em 2000 - virou letra morta no papel.

O terror, em alguns casos, tem efeito contrário, ao reforçar a militância em prol da educação. Hoje, aos 17 anos, Malala, a paquistanesa que levou um tiro na cabeça, virou símbolo mundial. Após cinco operações para reconstituir o crânio, mais viva do que nunca, Malala vive no Reino Unido, e percorre o mundo militando pela causa.

- Os terroristas pensaram que mudariam meus objetivos e acabariam com minhas ambições. Mas nada mudou na minha vida, à exceção disto: minha fraqueza, meu medo e minha desesperança morreram - disse Malala, na ONU, em Nova York, em 2013.

oglobo.globo.com | 18-05-2014

MADRI — A integração europeia fornece soluções simples para problemas nacionais que pareciam insolúveis. O crescimento para o leste e o Mediterrâneo em 2004 surgiu como o bálsamo para movimentos nacionalistas após a implosão da ex-Jugoslávia.

No entanto, coincidindo com a crise econômica, a frente foi reaberta. Não apenas na Escócia, que realiza um referendo sobre a independência em setembro, com a aprovação de Londres; ou na Catalunha, que quer celebrar um, mas não têm a autorização de Madrid, ou na Bélgica, um país que ficou 589 dias sem governo, embora o nacionalismo flamengo tenha renunciado à independência. Como explicou José Enrique Ruiz-Domènech, professor de História Medieval da Universidade Autônoma de Barcelona, ​​"a História voltou para a Europa com todas as suas características e, portanto, a ideia nacional".

Neste sentido, Manuel Medina, Professor Direito Internacional e ex-eurodiputado socialista que acaba de publicar “O direito de secessão na UE” (Marcial Pons), encontra um "novo fenômeno", em que certos movimentos, grupos ou partidos de regiões ou territórios de determinados Estados-Membros afirmam que têm o direito de se separar e de se tornar Estados independentes.

— Desde a assinatura do Tratado de Roma, em 1957, quando a Comunidade Econômica Europeia foi fundada, a UE nunca se preparou para o que aconteceria se a separação ocorresse dentro de um dos seus Estados. Isso sempre foi tratado como um assunto interno, embora, sem dúvida, teria implicações para todo o aumento do nível de interação na UE. Como isso afetaria o euro? O Schengen? Será que afeta a instabilidade política de recuperação? Não há uma resposta unânime. Em caso de separação, a maioria acredita que o novo país deixaria a UE e todos concordam que os tratados seriam afetados, com suas consequências em um momento em que o euroceticismo em países como o Reino Unido está desenfreado, com proposta de um referendo para a saída do bloco.

— Por um lado, pertencer à UE facilita alguns movimentos separatistas que, apesar da secessão, tem a intenção de continuar no mesmo clube. Mas, como a UE é um clube de Estados, ela sempre tentará impedir e evitar a sua maior fragmentação — explica César Colino, professor da UNED especialista em federalismo e questões territoriais.

Um estudo do Centro de Política Europeia divulgado na semana passada tentou responder à pergunta: "Qual é a política da UE para o separatismo?”. Este trabalho, como o livro de Medina, mostra que o debate está crescendo.

— Não se pode falar muito em uma resposta por que a UE nunca deparou em dar uma — explicou o autor, Welsh Graham Avery, que passou 40 anos em instituições europeias. Sua conclusão é que "a maioria dos membros resiste à divisão de outros Estados”.

— A UE não tem uma política, embora haja o temor de um efeito dominó na Europa Central caso a Escócia ganhe o referendo — diz Colino.

No cerne da ideia da UE está a união política e econômica dos Estados e a segregação é algo que necessariamente fica de fora.

— A Europa nasce com a ideia do desaparecer das fronteiras. A ideia central é aliviar o efeito nacional — diz Ruiz-Domènec.

Medina, deputado entre 1987 e 2009, afirma que a UE representa um processo de integração através dos estados com base no Estado de direito, que é o oposto do estado de coisas.

— A Europa é o produto de duas guerras mundiais, um labirinto de fronteiras e aldeias construídas sobre impérios extintos. A complexidade do seu nacionalismo é quase infinito e é difícil quantificar o número de países que poderiam enfrentar problemas mais ou menos agudos. E nem todos os movimentos separatistas tentam deixar um território. No velho continente as coisas são sempre mais complicadas. Além do Reino Unido, Espanha e Bélgica, até quase uma dúzia de países da UE (França, Itália, Hungria, Bulgária, Chipre, Áustria, Croácia, Dinamarca, Grécia, Eslováquia, os países bálticos) apresentaram reivindicações regionais ou étnicas.

Parecia que as ampliações do bloco de 2004 e de 2007 iriam fechar um grande conflito aberto desde a Primeira Guerra Mundial: a presença de minorias húngaras (1,6 milhões de pessoas) na Eslovénia, Eslováquia, Roménia, Croácia, Ucrânia e Sérvia após a dissolução do Império Austro-Húngaro. A maioria dos húngaros no estrangeiro iria viver novamente sob a mesma organização política. No entanto, a chegada do nacionalista Viktor Orbán ao poder começou a agitar as águas; primeiro porque concedeu o direito de voto em 2010 aos húngaros no estrangeiro. No sábado, durante a inauguração do seu segundo mandato, Orbán causou irritação em seus vizinhos ao dizer que "os húngaros no estrangeiro têm o direito de autonomia", um novo pedido.

O analista Andrés Ortega estuda as mudanças das três mudanças de fronteiras internas que ocorreram desde que a UE existe. A independência da Argélia em 1962 levou à sua saída automática da CEE e sem nenhuma pretensão de entrar novamente. Mas estava no tratado de Maastricht, assinado em fevereiro de 1992, afirma Ortega, porque a Argélia era parte da França como uma província.

O segundo caso é a Groenlândia, que saiu da CEE após um referendo em 1985, mas ainda pertence à Dinamarca, que é um membro da União Europeia. "Não é um caso encerrado, porque ainda não terminou de definir sua relação com a Dinamarca", continua ele.

O terceiro caso é a unificação alemã, que produziu ajustes jurídicos. Em todos os três foi necessário reajustar tratados. Fora destes precedentes, que nada têm a ver com a Escócia ou Catalunha, a maioria dos especialistas e líderes europeus são claros: o restabelecimento do Estado de saída na UE não é garantido e deve ser realizado por meio de negociação. "Eu acho que é uma discussão fechada no mundo acadêmico", explica o professor Colino.

A crise, que chegou a ameaçar o euro, terminou com a ilusão de que a UE significaria o fim dos problemas da Europa. Velhas feridas ressurgiram. Elas não têm nada em comum, exceto que são baseadas em diferentes interpretações da História e apelam para o passado como se ele fizesse parte do presente. A solução não é, em qualquer caso, fácil. Como Ruiz-Domènec escreveu: “O mundo europeu é um sistema complexo de realidade com mais de 1.500 anos. Historicamente marcado por um mosaico de povos com tradições, línguas e pontos de vista diferentes, ou opostos, denominações de origem, memórias e feridas”.

oglobo.globo.com | 18-05-2014
A União Europeia (UE) condenou hoje o rapto de mais de 200 raparigas numa escola do estado de Borno, na Nigéria, por radicais islamitas e os recentes ataques terroristas no Norte do país.
www.rtp.pt | 13-05-2014

GENEBRA — Depois que pró-russos foram às urnas num referendo em Donetsk e Luhansk, no Leste da Ucrânia, neste domingo, um líder separatista anunciou durante a tarde que o grupo de rebeldes da autoproclamada República Popular Independente de Donetsk criará seu próprio governo e Exército. E afirmou que as forças do governo de Kiev serão consideradas “ocupantes” a partir de agora. Enquanto as primeiras seções eleitorais começavam a abrir, os combates eram retomados nos subúrbios de Slaviansk, reduto dos separatistas pró-russos cercado pelas forças ucranianas. Outros incidentes isolados refletiram o ambiente de tensão. Em Novoaidar, a 60 quilômetros de Luhansk, a comissão eleitoral foi esvaziada depois que o Exército ucraniano proibiu eleitores de votar. Cenas caóticas também foram observadas em outros locais de votação, onde não há urnas ou mesmo registro eleitoral.

— Após o anúncio oficial do resultado do referendo, todas as tropas militares em nosso território serão consideradas ilegais — disse Denis Pushilin, líder da república independente. — É necessário formar corpos estatais e autoridades militares o mais rapidamente possível.

Um homem entrevistado pela BBC afirmou que conseguiu votar em Donetsk apenas fornecendo o seu nome e seu número da carteira de identidade, mesmo sem ter o título eleitoral na cidade. Em alguns seções, multidões fazem longas filas à espera do momento de votar.

A ucraniana Victoria Petrovna chegou cedo, às 7h45 locais, 15 minutos antes do início da votação, a uma seção eleitoral em uma escola de Donetsk.

— Disseram para que viéssemos votar, é essencial fazer isso. Estamos vivendo momentos muito importantes — afirmou.

Dentro da escola, duas grandes urnas transparentes foram colocadas diretamente no chão e dez pessoas estavam ali para dirigir a votação, com grandes listas eleitorais nas mãos.

Após a votação, o presidente francês, François Hollande, criticou o referendo, que ele chamou de “nulo e sem validade”.

— As consultas eleitorais deste tipo não têm nenhum sentido e são nulas e sem validade — declarou o presidente. — A única eleição que conta é a presidencial prevista para o dia 25 de maio em toda a Ucrânia. Não quero chamá-las de referendo — insistiu Hollande, ressaltando que não há “urnas, nem centros de votação, (nem) listas eleitorais”.

Segundo o chefe da comissão organizadora do referendo, Roman Lyugin, três milhões de pessoas estão aptas a votar. A pergunta nas cédulas produzidas às pressas pelos rebeldes pró-russos é simples: “Você concorda com a independência da República Popular?” ou “Você concorda com a independência da República Popular de Luhansk?”.

UE é principal responsável por crise, diz ex-chanceler

Ex-república soviética, a Ucrânia está no centro de uma feroz disputa geopolítica entre a Rússia, de um lado, e a União Europeia (UE) e os Estados Unidos, de outro. Os russos têm uma longa história de dominância do país e não aceitam abrir mão disso. Já europeus e americanos querem puxar a Ucrânia para o lado ocidental. A crise estourou quando manifestantes em Kiev, a capital, derrubaram do poder Viktor Yanukovich — um presidente pró-Rússia que operava quase como uma marionete de Moscou. O Kremlin acolheu o presidente foragido e acusou a Europa de patrocinar um golpe de Estado. A revanche aconteceu logo depois: a maioria russa da Península da Crimeia votou num referendo pela independência da Ucrânia. Pouco depois, indiferente às sanções e aos protestos no Ocidente, Putin anexou a Crimeia à Rússia.

Mas a crise não parou aí. Como uma bola de neve, outros lugares povoados no Leste da Ucrânia se revoltaram. Rebeldes pró-Rússia se armaram e ocuparam prédios públicos, erguendo barricadas nas cidades. Hoje, confrontos nas ruas são diários.

O ex-chanceler alemão Gerhard Schröder afirmou que a UE é a principal responsável pela crise ucraniana, ao ter obrigado Kiev a escolher entre um futuro junto ao bloco ou à Rússia, segundo declarações publicadas no jornal “Welt am Sonntag” neste domingo.

— O erro fundamental vem da política da UE a favor de um tratado de associação que Bruxelas queria assinar com a Ucrânia — declarou Schröder, amigo há muitos anos do presidente russo Vladimir Putin. — A UE ignorou o fato de que a Ucrânia é um país profundamente dividido culturalmente. Historicamente, o povo do Sul e do Leste está mais orientado à Rússia e o do oeste mais à UE.

Dois analistas ouvidos pelo GLOBO — Arnaud Dubien, do Observatório Franco-Russo, em Moscou, e Philippe Migault, do Instituto de Relações Internacionais e Estratégias (IRIS), em Paris — não têm dúvida: é o fim da Ucrânia. Isto é, da Ucrânia tal como se conhecia recentemente.

— A Ucrânia como a conhecíamos não existe mais. Não existe mais administrativamente, porque a Crimeia passou a ser da Rússia. E não existe mais na cabeça das pessoas. Há combates, mas a divisão está acontecendo no espírito e na cabeça das pessoas — diz Arnaud Dubien.

Para Migault, a divisão do país em dois blocos distintos — um voltado para a Europa e outro, para a Rússia — está selada. Mas não vai acontecer agora.

— Para mim, o mais provável é a partição. Talvez não dentro de um mês, mas daqui a alguns anos. Ou o país vai ser tão federalizado que não será mais um Estado que poderá fazer parte da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Ou vai ser dividido em vários países independentes — diz.

Migault e Dubien não têm dúvida do vencedor da disputa geopolítica: Vladimir Putin.

— O objetivo de Putin é que a Otan não chegue à fronteira da Rússia. Acho que Putin ganhou esta batalha. A médio prazo, a Rússia vai atingir todos os objetivos que fixou para a Ucrânia — opina Migault.

oglobo.globo.com | 11-05-2014

BUENOS AIRES — O presidente da Federação de Centros Universitários da Universidade Central da Venezuela, Juan Requesens, um dos principais líderes estudantis do país, disse acreditar nos estudantes que negaram a presença de armas e drogas nos acampamentos violentamente desmontados por agentes da Guarda Nacional Bolivariana. "Era um protesto pacífico e não existe qualquer prova sobre as denúncias do governo", assegurou Requesens ao GLOBO.

Qual é a situação dos estudantes detidos?

Não temos muita informação, sabemos apenas que estão abrindo os expedientes, interrogando... Os processos estão sendo acompanhados por advogados de ONGs como a Foro Penal, da Universidade Central da Venezuela (UCV) e da Católica. Também estão nos acompanhando deputados da oposição.

O governo disse que nos acampamentos havia armas, explosivos e drogas...

Nossos companheiros negaram essas acusações, e nós acreditamos neles. O governo atuou de madrugada, não havia testemunhas e não existem provas. Toda a operação foi muito irregular, temos muitas dúvidas sobre tudo o que está acontecendo. Era um protesto pacífico, acampamentos de estudantes que estavam repudiando a repressão e pedindo a presença no país de organismos internacionais de defesa dos direitos humanos, como as Nações Unidas. Vendo o que vimos, não podemos mais do que duvidar deste governo.

Qual será a resposta dos estudantes?

Já estão ocorrendo novas manifestações, existe um clima de mal estar profundo. A sensação entre muitos estudantes é que serão reprimidos acampamentos pacíficos, então é necessário voltar a marchar como antes. Não esperávamos este grau de violência neste momento. Mas este é um governo militar, não se pode esperar outra coisa.

Deputados americanos pediram a aplicação de sanções econômicas ao governo de Maduro pela violação dos direitos humanos...

Cada país pode fazer o que quiser, não nos interessa. Mas os problemas dos venezuelanos devem ser resolvidos pelos venezuelanos.

Os estudantes continuam rechaçando a intermediação da União de Nações Sul-americanas (Unasul)?

Nunca acreditamos nesse processo de diálogo, nem na mediação da Unasul.

oglobo.globo.com | 09-05-2014
Um grupo de investigadores da Universidade de Aveiro está a avaliar o estado do solo português. O trabalho faz parte daquele que é considerado o maior projeto da União Europeia. A missão vai decorrer durante cinco anos e envolve 11 países com diferentes casos de estudo.
www.rtp.pt | 04-05-2014

RIO - A extração de petróleo, gás e águas subterrâneas está provocando o afundamento da zona costeira de diversas regiões do planeta. Em metrópoles como Bangcoc (Tailândia), Jacarta (Indonésia), Xangai (China) e Nova Orleans (EUA), o rebaixamento do terreno é até dez vezes maior do que o aumento do nível do mar - uma consequência das mudanças climáticas. O alerta foi disparado por um levantamento da Universidade de Utrecht, na Holanda, apresentado ontem na Assembleia Geral da União Europeia de Geociências.

Autor principal do estudo e pesquisador de Utrecht, Gillen Erkens destaca que Tóquio “desceu” dois metros nas últimas décadas, até interromper a extração de águas subterrâneas para consumo. Veneza adotou a mesma restrição e conseguiu atenuar o seu afundamento.

Metrópoles brasileiras não foram estudadas, mas os pesquisadores estimam que as cidades próximas ao delta do Rio Amazonas, como Belém, possam ser afetadas pelo rebaixamento do solo. Recife também pode ser prejudicada, uma vez que lá, segundo Erkens, também há extração de água na costa. O Rio de Janeiro, por sua vez, não estaria ameaçado.

Segundo Erkens, o afundamento das cidades litorâneas ainda é ignorado pela população. Seu efeito, no entanto, já pesa no bolso do governo. A manutenção de edifícios, estradas e pavimentação, o aumento de barragens e a adaptação da infraestrutura subterrânea, como o sistema de drenagem e esgoto, consomem US$ 4,5 bilhões por ano só em Amsterdã. As mesmas obras custaram US$ 2 bilhões entre 2001 e 2010.

- A sociedade ainda não está ciente desse problema porque ele aparece no orçamento como “investimentos pontuais” ou “esquemas de manutenção planejada” - explica Erkens. - Quando o prejuízo for maior, as medidas de preparação contra o afundamento serão mais visíveis.

O combate ao rebaixamento do solo deve ser local, porque em cada cidade ele é determinado por um motivo e está em um estágio diferente. No entanto, algumas fórmulas pode ser adequadas para muitas regiões.

Desordem urbana contribui

A melhor solução, segundo o relatório, é interromper o bombeamento de água subterrânea no litoral, que passa por tratamento antes de seu consumo pela população. No entanto, essa medida obrigaria as cidades a buscar outras fontes de água potável.

- Ainda há uma grande carência de dados geológicos que preveniriam o afundamento das cidades - lamenta Erkens. - Também faltam medidas de adaptação, como melhores sistemas de água urbana e um ordenamento do território. A construção de rodovias e complexos de escritórios, entre outros grandes investimentos, requer a redução dos níveis freáticos do subsolo. Se isso não ocorrer, um terreno pode afundar até 15 centímetros por ano.

Rien Dam, coautor do levantamento, lembra que as cidades também terão que lidar com o aumento do nível do mar, que pode crescer cerca de sete centímetros até o fim do século.

- Trata-se de um fenômeno duplo: o solo cai devido à extração de águas subterrâneas, e o mar sobe com o aquecimento global - explica Dam, que integra a equipe de Utrecht. - Ambos podem levar a inundações catastróficas, cada vez mais frequentes e longas, a danos à infraestrutura das cidades e ao rompimento da gestão da água.

Nove anos atrás, o rebaixamento do solo de Nova Orleans cooperou para o aumento dos estragos causados pela passagem do furacão Katrina, que provocou a evacuação de mais de um milhão de pessoas e um prejuízo de US$ 2 bilhões.

- Como a elevação do nível do mar é um fenômeno global, todos os países precisam tomar medidas para combatê-lo - destaca Dam. - Neste aspecto, o Brasil está muito avançado, porque adota hidrelétricas, em vez de combustíveis fósseis.

A preservação das cidades costeiras, no entanto, exige cautela. A exploração da água costeira deixa as cidades vulneráveis a problemas de infraestrutura, como a conservação de estradas e a fundação de edifícios.

Um satélite da Agência Espacial Europeia, Sentinel-1a, deve monitorar o rebaixamento de terrenos naquele continente.

oglobo.globo.com | 30-04-2014

EUROPA - Em algumas partes da Terra, o solo vem sofrendo com um ‘afundamento’ que ocorre num ritmo 10 vezes superior ao da elevação dos níveis do mar. As causas, no entanto, são comuns: a ação do homem.

Em Tóquio, por exemplo, décadas e décadas de extração de água subterrânea fez com que a cidade “descesse” dois metros antes de a prática ser interrompida. Segundo pesquisadores da União Europeia de Geociências, outras cidades precisam seguir urgente o mesmo exemplo, informa a BBC News.

Gilles Erkens, cientista do Instituto de Pesquisa Deltares, em Utrecht, na Holanda, aponta que partes das cidades asiáticas de Jacarta, Ho Chi Minh, Bangkok - e vários outros assentamentos urbanos costeiros - podem afundar abaixo do nível do mar.

- O afundamento de terras e o aumento do nível do mar estão acontecendo. Ambos têm contribuindo para o mesmo problema: maiores e mais longas inundações e maior quantidade de enchentes - disse Erkens à BBC News.

O pesquisador sugere que a solução mais rigorosa e eficiente é por fim ao bombeamento de água potável subterrânea.

- É claro que é preciso achar uma nova fonte de água. Mas, Tóquio e Veneza tomaram essa decisão e o problema parou - avaliou o cientista.

A famosa cidade italiana, que fica no Nordeste do país, experimentou um grande afundamento no século passado devido à extração constante de água abaixo do solo. Quando isso foi interrompido, estudos posteriores indicaram que o problema cessou.

Uma grande pesquisa feita pelo cientista Pietro Teatini, da Universidade de Padova, na Itália, indica que casos significativos de afundamento agora estão restritos a locais específicos.

- Quando alguns prédios forem restaurados, a terra pode descer até cinco milímetros em um ano, dependendo do tipo de compactação de solos sob os edifícios - aponta.

Como todas as cidades, Veneza também tem que lidar com o “afundamento” natural. Processos geológicos de grande escala estão pressionando o terreno sobre o qual a cidade está localizada. Isto, em si, é provavelmente responsável pelo abaixamento de cerca de um milímetro por ano.

- No entanto, em geral, a ação humana tem uma magnitude maior do que as ações naturais - avalia o pesquisador.

Ferramenta importante

Os cientistas têm agora uma ferramenta muito poderosa para avaliar estas questões. Trata-se do radar interferométrico de abertura sintética. Através da sobreposição de imagens de satélite é possível discernir deformações milimétricas do solo. Arquivos apontam registros desde a década de 90, permitindo uma série de análises.

Além disso, a Agência Espacial Europeia acaba de lançar o satélite/radar “Sentinel- 1-A”, que é considerado uma bênção para este tipo de estudo .

oglobo.globo.com | 29-04-2014

JERUSALÉM — Numa tentativa de reconstruir sua relação com Israel após o colapso das negociações de paz, o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas condenou o massacre de judeus durante a Segunda Guerra Mundial, rechaçando alegações oriundas do livro “O outro lado: a relação secreta entre o nazismo e o sionismo”, sua tese de doutorado publicada em 1984, de que negue a existência do Holocausto.

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“O que aconteceu aos judeus durante o Holocausto foi o crime mais atroz contra a humanidade na era moderna”, afirmou Abbas durante um encontro com um rabino americano na semana passada. A mensagem, publicada em árabe e em inglês, foi divulgada pela agência oficial de notícias da Palestina, WAFA, neste domingo, dia anual da lembrança pelas vítimas do Holocausto.

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, pediu ao presidente palestino que “rasgue o pacto com o Hamas”, dizendo que Israel não irá tomar parte em negociações de paz no Oriente Médio com um governo palestino apoiado pelo grupo islâmico.

Netanyahu também disse que os comentários de Abbas denunciando o Holocausto não podem ser conciliados com a sua aliança com o Hamas.

— Abbas tem de decidir se quer um pacto com o Hamas ou a paz com Israel. Ele não pode falar de ambos os lados de sua boca. Ele não pode abraçar o Hamas e dizer que quer a paz com Israel — afirmou Netanyahu no programa de televisão americano “Face the Nation”. — Na verdade, o que eu digo a ele de forma muito simples é o seguinte: presidente Abbas, rasgue o seu pacto com o Hamas, reconheça o Estado judeu, faça a paz. Eu espero que você faça isso. Mas você não pode ter o Hamas e a paz com Israel.

Israel suspendeu as negociações de paz patrocinadas pelos EUA com os palestinos na quinta-feira, depois que Abbas anunciou um pacto de unidade com o grupo palestino rival. O Hamas é visto pelos EUA, a União Europeia e Israel como uma organização terrorista.

No programa da rede americana CBS, o primeiro-ministro israelense afirmou que ele e o secretário americano de Estado, John Kerry, ficaram “chocados” aos saber do acordo de reconciliação entre o Hamas e a Organização pela Liberação da Palestina (OLP) na última quarta-feira. O prazo para as negociações de paz se aproxima do prazo final, marcado para a próxima terça-feira, e ambos os lados demonstram parecem pouco dispostos a estender os diálogos. Nentanyahu, no entanto, afirmou que trabalhou com Kerry por nove meses, e que a dupla “conseguiu resultados significativos”.

O primeiro-ministro afirma que a recusa de Abbas em reconhecer Israel como um Estado judaico interrompeu o progresso das negociações. O acordo do presidente palestino com o Hamas visa a criação de um governo de unidade formado por “tecnocratas apolíticos” em cinco semanas.

Membros do Hamas não comentaram as declarações de Netanyahu, mas em uma carta aberta a um membro das Nações UNidas, em 2009, o grupo se referiu ao Holocausto como “uma mentira inventada por sionistas”.

O Yad Vashem, memorial israelense do Holocausto, publicou uma nota, comentando as declarações de Abbas:

“Infelizmente, a negação do Holocausto ainda é comum no mundo árabe, inclusive entre palestinos. Portanto, uma declaração como essa, vinda de Abbas, ponde sinalizar um mudança nesse cenário”, afirma a nota.

Nethanyahu: 'O mundo aprendeu com os erros do passado?'

No memorial, Nentanyahu advertiu o mundo para que aprenda as lições, e evite outros massacres no futuro, durante seu discurso pelo Dia da Lembrança.

— Muitas vezes neste mesmo local eu disse que temos que identificar ameaças a tempo, e hoje me pergunto por que nos anos que antecederam o Holocausto a maioria dos líderes mundiais não enxergaram o perigo a tempo. Todos os sinais estavam ali — afirmou o primeiro-ministro. — O mundo aprendeu as lições com os erros do passado? Hoje estamos novamente diante de um perigo real. O Irã pede nossa destruição e desenvolve armas nucleares.

oglobo.globo.com | 28-04-2014

TEXAS - A morte de um homem de 35 anos em São Paulo virou motivo de estudo de pesquisadores da Universidade do Texas. Após análises em laboratório eles confirmaram uma nova superbactéria - aquelas resistentes a antibióticos - no Brasil. A equipe de pesquisa alerta que o microrganismo não é restrito à hospitais e que pode representar um problema de saúde pública, uma vez que não responde a vancomicina, um dos antibióticos mais comuns e baratos utilizados nesse tipo de tratamento, e também a meticilina, que pertence ao grupo das penicilinas

A nova superbactéria pertence a uma classe conhecida como SARM, Staphylococcus aureus resistente à meticilina, que vem preocupando especialista por ser cada vez mais frequente e ameaçar os medicamentos utilizados para combater a infecção hospitalar, o que poderia tornar qualquer procedimento médico altamente perigoso para a saúde. Somente na União Europeia, as superbactérias matam cerca de 20 mil por ano.

Os pesquisadores afirmam que a cepa original da superbactéria encontrada no Brasil é disseminada largamente entre a população, e é uma das causas mais comuns de infecções de pele e mucosas em pacientes de todas as idades. A infecção pode ser fatal, apesar de até o momento responder bem ao tratamento com vancomicina.

“É diferente de tudo que já vimos, e essa mutação em específico está causando infecções na comunidade e não nos hospitais” - alertou Cesar Arias, líder da equipe de pesquisa do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Texas, em Houston, em artigo publicado na revista “The England Journal of Medicine”.

De acordo com o estudo, o paciente em questão apresentava uma micose fungoide - o tipo mais frequente de linfoma cutâneo de células T -, era diabético e viciado em cocaína. Ele deu entrada em um hospital psiquiátrico por “depressão e pensamentos suicidas” e começou a apresentar muitas infecções na pele e depois no sangue.

- Os diferentes tratamentos com antibióticos talvez tenham proporcionado tempo suficiente para a bactéria se tornar resistente - afirmou Arias.

A nova superbactéria preocupa, mas como ela não infectou outros pacientes, os cientistas afirmam que não representa risco imediato. No entanto, segundo Barbara Murray, outra autora do estudo e presidente da Sociedade de Doenças Infecciosas da União Europeia, é preciso ficar alerta.

- Essa descoberta nos indica que no futuro teremos que aumentar a vigilância na América do Sul e no resto do mundo - disse Barbara ao “El Mundo”. - Isso reforça a ideia de que é importante não usar mais antibióticos do que o necessário para evitar a resistência.

O estudo aponta, ainda, para a necessidade de a indústria farmacêutica começar a desenvolver novos antibióticos.

- Perder a vancomicina, um remédio tão econômico, por culpa da resistência bacteriana, supõe uma carga econômica considerável para o sistema de saúde de qualquer lugar - afirmou David Weber, professor de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da Universidade da Carolina do Norte.

oglobo.globo.com | 22-04-2014

BERLIM — Sahra Wagenknecht, atual vice-presidente do partido alemão A Esquerda e figura mais mediática e polêmica de sua organização, tinha apenas 20 anos quando viveu o pior momento de sua vida. Na noite de 9 de novembro de 1989, soube pelo rádio que o Muro de Berlim estava sendo derrubado. Em vez de sair às ruas e se deixar levar pela multidão que começava a cruzar a fronteira, como fez Angela Merkel, trancou-se em seu quarto invadida por uma profunda tristeza, e começou a ler “Crítica da razão pura”, obra essencial de Kant.

— Não havia nada que comemorar. Eu queria uma RDA diferente, melhor. Minha esperança foi destruída naquela noite — revelou anos mais tarde, quando sua combativa dialética comunista a tinha ajudado a sair do anonimato e se transformar em figura proeminente no antigo Partido do Socialismo Democrático, que surgiu das cinzas do velho partido comunista.

Não foi a única frase polêmica pronunciada por Sahra Wagenknecht durante sua exitosa carreira política que a transformou agora em dirigente do partido A Esquerda e participante assídua nas tertúlias políticas da televisão alemã. É certo: a deputada de 44 anos está a caminho de se tornar um novo ícone da esquerda alemã, uma moderna Rosa Luxemburgo que nada contra a corrente e que não tem medo, devido a sua determinação por defender as causas menos defendidas que se multiplicam no planeta.

Qual político alemão, por exemplo, teria se atrevido a defender a atitude assumida por Vladimir Putin na perigosa crise que afeta a Ucrânia e a Crimeia e que levou o Ocidente à beira de um ataque de nervos? Alguém teria se atrevido, por exemplo, a denunciar que a poderosa chanceler federal alemã abençoou a chegada ao poder em Kiev de um governo golpista integrado por grupos fascistas e antissemitas?

Ninguém, exceto Wagenknecht, que o fez com uma veemência que provocou profundo mal-estar inclusive entre colegas do próprio partido. A dirigente defendeu a anexação da Crimeia à Rússia e denunciou “a política externa hipócrita” do governo alemão, ao defender o “governo fascista” de Kiev. E lembrou que os principais violadores do direito internacional eram Estados Unidos e seus aliados mais próximos, como a Alemanha.

Suas afirmações polêmicas provocaram reações amargas do presidente do Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD), o superministro Sigmar Gabriel, quem a acusou de nostalgia das velhas práticas que imperavam em Moscou quando ainda existia a União Soviética. Pior ainda, o SPD congelou uma aproximação estratégica com A Esquerda para formar uma grande aliança de centro-esquerda que lhe permita subir ao poder em 2017.

Meta mais ambiciosa

Wagenknecht continua impassível. Que outra atitude poderia tomar uma mulher que sempre foi uma rebelde com causa e que teve a coragem de se rebelar para não vestir uniforme militar na escola? A ansiedade lhe impedia de comer quando era obrigada a participar dos acampamentos de defesa civil, uma atitude que foi tachada como greve de fome pelos inspetores do regime.

Sob a perigosa suspeita de ser uma dissidente, ela foi proibida de estudar na universidade. Apesar do castigo, alistou-se no partido e se trancou no quarto para educar-se a si mesma. Só depois da queda do muro conseguiu entrar na universidade, e quando terminou os estudos, em 1996, decidiu buscar uma nova vida na política com um discurso que parecia ter desaparecido na noite mágica de 9 de novembro de 1989. A jovem se transformou na última defensora do comunismo num país onde Lenin, Marx e Stalin eram detestados, e onde seus antigos compatriotas sonhavam com o bem-estar capitalista oferecido por Bonn.

— A RDA foi a comunidade mais pacífica e humanitária que existiu em toda a história alemã — disse em um de seus primeiros discursos.

Mas a vida dá muitas voltas, e a jovem que deixou de defender o regime que governou em seu país durante 40 anos se propôs uma meta mais ambiciosa, quando a praga da crise mundial atacou os países capitalistas.

Sahra Wagenknecht, uma autodidata em muitas áreas do saber humano, decidiu escrever um livro que a catapultou à fama e a transformou numa estrela da televisão. “Liberdade em vez de capitalismo” foi o título do livro publicado por ela em maio de 2011, uma análise fria onde se atreveu a apontar que o marco constitucional alemão permite superar o capitalismo e instaurar um sistema socialista que impeça que as grandes empresas com ações na Bolsa de Frankfurt continuem impondo suas regras.

A crise da dívida na zona do euro foi outra frente de batalha.

— A União Europeia é uma democracia de fachada que só defende os interesses das grandes empresas e bancos. É um poder antidemocrático, neoliberal e militarista — disse.

Sem se deixar impressionar pelas críticas nem pelos elogios, ela tem apenas uma meta pela frente: acabar com o capitalismo que impera em seu país e recuperar os princípios do socialismo para criar uma sociedade mais justa. A meta é quase uma utopia, mas a deputada continua conquistando admiradores por meio da televisão e fóruns políticos.

oglobo.globo.com | 20-04-2014

PARIS — Para o presidente russo, Vladimir Putin, a Ucrânia é povoada por russos e fascistas. Esse maniqueísmo contrasta de forma paradoxal com a atitude de Moscou, que nos últimos meses se transformou na meca da extrema-direita europeia.

Desde que os manifestantes pró-União Europeia derrubaram o governo de Viktor Yanukovich — aliado de Putin —, na Ucrânia, a propaganda oficial russa se pôs em marcha.

— Os europeus são colaboradores dos nazistas, a Rússia passou a ser um novo escudo contra o fascismo mundial — disse Arkadi Mamotov, um dos principais apresentadores do canal estatal Rossiya 2.

Apesar disso, a última a receber uma acolhida triunfal na Rússia foi a francesa Marine Le Pen, líder da Frente Nacional (FN), de extrema-direita. No sábado, ela foi recebida com honras por Serguei Naryshkin, presidente da Duma (Câmara baixa do Parlamento), que ressaltou as “coincidências” entre Marine e o governo russo sobre como resolver a crise na Ucrânia. Ela, por sua vez, definiu a situação como uma “guerra fria declarada contra a Rússia”. Foi a segunda visita da francesa à Rússia em um ano, com direito a passagens pelo interior da Rússia e a Crimeia.

Em comum, ódio aos EUA

Em março, o conselheiro diplomático do partido, Aymeric Chauprade, esteve na Rússia para fiscalizar o referendo na Crimeia, como integrante de uma delegação do Observatório Eurasiático para a Democracia e Eleições, organização dirigida pelo militante belga de extrema-direita Luc Michel. Esta delegação, aliás, contava com o austríaco Ewald Stadler (ex-membro do FPO, o partido neonazista de Jörg Haider); o húngaro Béla Kovács, do partido antissemita Jobbik; o nacionalista sérvio-americano Srda Trifkovic; e Pavel Chernev, ex-braço direito do líder do partido de extrema-direita búlgaro Ataka.

Outro frequente hóspede do Kremlin é o húngaro Gabor Vona, líder do Jobbik, que também foi recebido na Duma e na célebre Universidade de Moscou.

Alguns desses partidos, como o Ataka e seu carismático líder, Volem Siderov, receberiam financiamento do Kremlin. A denúncia surgiu de telegramas diplomáticos americanos revelados pelo WikiLeaks e o site búlgaro Bivol.

Mas o que une o atual governo russo à extrema-direita europeia? Em que coincidem?

— No ódio aos EUA — responde o historiador e escritor francês Benoit Rayski. — Um ódio tão profundo que, para eles, esse país representa o demônio: o dinheiro, Wall Street, a potência destruidora da americanização de consciências.

oglobo.globo.com | 18-04-2014
A chegada da democracia a Portugal teve impacto no sistema de educação. O país diminuiu a iliteracia, mas mesmo assim o abandono escolar em Portugal é ainda um dos mais altos da União Europeia.
www.rtp.pt | 16-04-2014

MADRI — Quase 27 milhões de crianças estão em risco de pobreza ou de exclusão social na Europa, de acordo com a Pesquisa de Qualidade de Vida da União Europeia de 2012, com dados compilados no relatório Pobreza Infantil na Europa da organização Save the Children, apresentado nesta terça-feira. É um milhão a mais do que em 2008, quando a crise começou, apesar de metade deste aumento ter ocorrido em apenas um ano, entre 2011 e 2012.

O crescimento afasta a UE do cumprimento da “Estratégia Europa 2020 para um crescimento inteligente, sustentável e inclusivo”, que visa a tirar 20 milhões de pessoas do risco de exclusão social, com base no indicador Arope (que leva em conta o nível de renda, privações materiais graves das crianças ou que vivam em uma casa onde os adultos estejam desempregados ou tenham empregos muito precários).

De acordo com esses critérios, 20,8% da população com menos de 18 anos da União Europeia vivem abaixo da linha da pobreza. Na Espanha, esse número é muito maior, com 29,9% das crianças nessa situação — a maior taxa da Europa, atrás apenas da Romênia. Em toda a UE, 9% das crianças vivem em famílias com pouco emprego e 11,8% sofrem de privação material. No total, 28% das crianças estão em risco de pobreza e de exclusão com base no Arope. A Espanha está de volta ao topo, com 33,8% das crianças afetadas por uma (ou mais) dessas suposições.

A Save the Children alerta também que apenas metade dos países cumpriram o compromisso assumido em 2002, para facilitar a assistência a, pelo menos, um terço de todas as crianças com menos de 3 anos de idade.

“Igualdade no acesso aos cuidados à criança a preços acessíveis e a uma educação gratuita e de alta qualidade é essencial para garantir a igualdade de oportunidades”, afirmou a ONG.

Em toda a Europa, 13% das crianças abandonam a escola após o primeiro ano do ensino secundário e não estão em programas de treinamento. Mais uma vez, a Espanha lidera a lista com 24,9% de abandono escolar precoce. Andres Conde, diretor da Save the Children, acredita que a situação em Espanha “é inaceitável”. E pediu “medidas urgentes” do governo, durante a apresentação do documento.

“Pobreza não tem passaporte”

Os dados nacionais e globais estão intimamente relacionados ao investimento e ao compromisso com programas específicos para a proteção infantil. A Save the Children diz que os países que realizam mais gastos neste campo são os com menores taxas de pobreza infantil. São os casos de nações nórdicas, como Áustria, Eslovênia e Holanda. Não é o que acontece com Espanha, Itália, Grécia e Portugal, onde “os níveis de gastos mais baixos e associados à falta de estratégias” levam a uma elevada porcentagem de crianças em risco.

Além disso, as políticas sociais de redistribuição de renda do Estado são tão fracas em alguns países que produzem pouco impacto na redução da pobreza infantil. Grécia e Espanha têm os piores dados nesse campo. Na Grécia, o apoio público às famílias se traduz em um declínio na pobreza infantil de apenas 2,9%; na Espanha, de 6,9%.

São pequenas melhorias em comparação com a Alemanha, que tira do abismo 15,6% das crianças que, sem o auxílio ou subsídios, cairiam em situações precárias.

No entanto, “a pobreza na Europa não tem passaporte”, afirma o relatório da Save the Children. Assim, países com PIB elevado, como Itália ou França, tem um quinto e um terço de suas crianças em situação de risco, cita o documento. A educação e a ajuda direta não são os únicos assuntos pendentes. A organização acredita que um índice alarmante de 17% das crianças europeias vivem em casas com telhado com vazamentos, umidade no solo ou janelas podres.

E também enfatiza que “a pobreza infantil significa não só o descumprimento das necessidades básicas das crianças, tais como alimentação, vestuário e habitação, como também que eles não podem participar de atividades esportivas, culturais e de lazer”.

oglobo.globo.com | 15-04-2014

PARIS - Marine Le Pen, filha de cofundador da Frente Nacional de Jean-Marie Le Pen, levou o partido a ganhos históricos nas eleições francesas no mês ao imprimir uma marca de nacionalismo mais moderado. Ela agora está tentando construir uma nova aliança de nacionalistas no Parlamento Europeu para as eleições de maio.

Em que medida o seu partido é realmente diferente hoje de quando o seu pai o formou na década de 1970?

Bem, é claro que tem que ser diferente, porque um partido não é o mesmo quando tem 10% e quando atinge 25% dos votos. A Frente Nacional tem, acima de tudo que ficar mais madura. São mais de 40 anos de idade. A Frente Nacional costumava ser um partido de oposição, um partido que iria questionar e criticar o sistema, agora é um partido que está pronto para governar.

O Partido é descrito como um partido reformado, mas é você que é mais moderada que seu próprio partido?

Eu acredito que a política é uma questão de pessoa. Especificamente na Quinta República francesa. Em um sistema político saudável, um partido político deve se parecer com o seu líder. Esta é a razão pela qual há uma crise política em curso na França, porque este não é o caso em outras partes. Por exemplo, os problemas e os desejos da base eleitoral do UMP (União de centro-direita para um Movimento Popular) são muito diferentes das dos líderes da UMP, e é isso que gera essa crise política hoje na França.

Existe ainda uma casa para o pensamento de extrema-direita em sua festa?

Eu sempre fui muito claro a este respeito: a Frente Nacional não é um partido de extrema-direita. O partido foi chamado disso pelos nossos adversários para nos desacreditar. Qualquer movimento patriótico que busca se opor as escolhas políticas feitas pelos que lideram o país são chamados dessa maneira, de modo a desacreditá-los. Uma vez eu estava dando uma entrevista a um jornalista japonês que me olhou de uma forma sincera e disse: "Eu não entendo por que eles chamam de seu partido de extrema-direita, não vejo nenhuma proposta em seu programa a partir da extrema-direita".

Se você tiver sucesso na formação de um bloco nas eleições europeias, o que você faria no Parlamento?

Faço qualquer coisa que eu puder fazer para impedir a integração europeia e recuperar o máximo de poder possível da UE para dar esse poder de volta aos Estados. Tenho quatro prioridades. Devolva aos franceses sua soberania sobre o território francês, a sua soberania sobre a moeda e sua soberania sobre a economia e a lei.

Então você quer sair da União Europeia?

A Frente Nacional quer organizar um referendo para perguntar aos franceses se querem permanecer na UE ou não. A opinião dos franceses foi traída em 2005. Quando eles disseram "não" ao Tratado de Lisboa, os líderes políticos disseram "sim" e esfaquearam os eleitores franceses nas costas. Antes do referendo, eu irei para a UE dizer que eu quero que eles nos deem de volta s plena soberania sobre as questões mencionadas anteriormente. Se a UE se recusa, então vou pedir os franceses para sair da UE.

Quão perto você está de alcançar uma coalizão de partidos europeus?

Estou convencido de que vamos ter um grupo. Até agora, nossa busca está indo bem, eu acho que nós vamos ter o partido austríaco Liberdade, os Democratas Suecos, Fratelli d'Italia e/ou a Liga do Norte da Itália, o partido de Geert Wilders, na Holanda, e outros com os quais estamos atualmente em discussão.

Por exemplo, para Jobbik e Aurora Dourada. . . você disse que não queria eles como parte de sua coligação, por que isso? E, se não eles, com quem mais iria trabalhar?

Aurora Dourada é um grupo neonazista, então não há nenhuma maneira que nós vamos trabalhar com eles. Quanto aos outros movimentos, eles não defendem os princípios necessários para pertencer ao grupo.

Você foi citada por dizer que a escola não deve ser um lugar para a expressão religiosa. É verdade que você vai parar de oferecer refeições sem carne de porco nas cidades onde o partido ganhou prefeituras? Que outras mudanças podemos esperar nessas cidades geridas pela Frente Nacional?

O que eu disse é que há escolas na França hoje onde a carne de porco é proibida. Sou a favor de proibir a proibição da carne de porco. Agora, há sempre uma escolha nas escolas francesas, e isso é uma coisa boa. No entanto, eu não vejo por que na França a carne de porco deve ser proibida só porque uma minoria qualquer não come e priva os outros do direito de comer carne de porco.

O que isso significa na prática no chão embora?

Existe sempre uma alternativa. Se você ceder a grupos religiosos em pequenas coisas, eles sempre pedem mais. Por exemplo no ano passado em Le Havre, 8000 mousses de chocolate foram jogados fora simplesmente porque continham geleia de porco. Temos que colocar um fim nisso.

Que outras mudanças que você está propondo nessas cidades?

Reduzir impostos. Suspender o financiamento das cidades para associações relacionadas com associações de comunidades minoritárias. Implementar políticas a favor das pequenas empresas e lojas contra cadeias de supermercados que estão matando eles. E, finalmente, implementar uma política de tolerância zero em matéria de segurança.

O que seu pai acha sobre sua mensagem atualizada?

Sinceramente, acho que Jean-Marie Le Pen está feliz em ver que a Frente Nacional está transformando-se em um partido que é capaz de governar. Ele não tem gosto por esforço inútil. Assim, ele está bem ciente de que, para alcançar isso o FN deve chegar a mais de 50% dos franceses. Por esta razão, é natural que a FN deve apelar para os patriotas de esquerda e direita.

Você já repudiou os comentários que seu pai fez sobre o Holocausto? E quais são as suas próprias opiniões sobre o Holocausto?

Eu nunca tentei ter um julgamento contra meu próprio pai, porque considero que em nossa cultura europeia uma pessoa não julga seus pais. Agora eu expressei minhas discordâncias com o meu pai sobre determinados pontos, discordâncias relacionadas com a forma como se deve expressar as coisas, algo que tem também a ver com a diferença de gerações. Eu gostaria de dizer que a Frente Nacional nunca foi antissemita. Não só não sou antissemita, mas eu expliquei aos meus compatriotas judeus que o movimento que é mais capaz de protegê-los é a Frente Nacional. O maior perigo hoje é o surgimento de um antissemitismo nos subúrbios, decorrente de fundamentalistas muçulmanos.

Outra crítica contra a FN é que ela está enraizada na islamofobia. Qual é a sua política de imigração na França, especificamente quando se trata de países muçulmanos?

É interessante ver como esta palavra "islamofobia", que foi criado pela República Islâmica do Irã, penetrou progressivamente nas mais altas esferas do poder político e da mídia. Nossas posições são muito claras e estão completamente em linha com os da República. É É possível tornar-se um cidadão francês... apenas se os franceses aceitarem. É preciso responder a um certo número de critérios. A partir de hoje nós somos a favor da interrupção da imigração, porque a França tem tido que enfrentar a imigração maciça e anárquica dos últimos 30 anos, e isso causa problemas significativos na economia e na nossa sociedade. Isso no final impede a assimilação de imigrantes com a população local. E esta uma fonte de conflitos.

Você espera ser a presidente da França, um dia? Se você fosse, com o que a França pareceria após seu primeiro mandato?

Sim, eu considero ser presidente um dia. A razão para isso é porque eu não vejo ninguém na política francesa de hoje, que seja corajoso o suficiente para implementar medidas para ajudar a França voltar em seus pés. Só então a França parecerá com a França novamente. A França não tem parecido a França há um tempo muito longo.

oglobo.globo.com | 15-04-2014

GENEBRA - Marcada pelo Holocausto e praticamente enterrada depois da Segunda Guerra Mundial, a extrema-direita na Europa ressurgiu das cinzas na década de 1980 em várias linhagens. Mas, até recentemente, sua força era limitada. Não mais: de roupa nova - isto é, com um discurso bem mais sofisticado do que o de fascistas e nazistas -, ela está colhendo os frutos. Da França à Hungria, extremistas estão em alta, surfando na crise de identidade da Europa e na queda em desgraça da classe política tradicional.

- Há uma progressão real e incontestável da extrema-direita na Europa, como mostram os casos francês, suíço, norueguês, húngaro e grego. Mas é uma progressão desigual e não é uma consequência da crise econômica - constata Jean-Yves Camus, pesquisador do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicos (IRIS), em Paris.

Na França, segunda maior democracia europeia, o partido de extrema-direita de Marine Le Pen - a Frente Nacional (FN) - conquistou 11 cidades nas eleições municipais de março - um sucesso histórico. Na Áustria, o Partido da Liberdade (FPÖ) tem hoje apoio de 28% da população, segundo pesquisas - o que o coloca acima do partido governante, o Social-Democrata, e do conservador Partido do Povo. Na Suíça - que não é parte da UE - instigada por um partido extremista, a União Democrática do Centro (UDC), a população aprovou num referendo uma iniciativa para "parar com a imigração em massa". Como consequência, desmoronaram todos os acordos firmados entre a Suíça e a UE para livre circulação de pessoas e produtos.

No último domingo, o Jobbik, da Hungria, selou sua posição como o maior partido de extrema-direita do Leste Europeu ao conquistar 20,5% do eleitorado nas eleições parlamentares, contra 15,8 % em 2010. Seu líder, Gábor Vona, conhecido pela retórica contra judeus e ciganos, agora quer exportar sua ideologia para a região. Numa reunião recente com grupos extremistas da Polônia, ele desafiou:

- O caminho para a vitória envolve milhões de passos. Aceitem o desafio: participem das eleições europeias!

As eleições para o Parlamento Europeu, entre 22 e 25 de maio, vão ser, para muitos analistas, a próxima grande conquista dos extremistas de direita. Os chamados eurocéticos - um complicado bolo de correntes políticas do qual fazem parte partidos de extrema-direita, mas também populistas de todo tipo - poderão se tornar a terceira maior força política do Parlamento.

- A extrema direita vai ter provavelmente uma votação muito boa, até mesmo maior que o Partido Verde - prevê o cientista político Piero Ignazi, professor da Universidade de Bolonha, na Itália.

Sob o comando da francesa Marine Le Pen, seis partidos de extrema-direita selaram uma aliança. São eles: a Frente Nacional (FN) da França, o Partido pela Liberdade (PPV) da Holanda, a Liga Norte na Itália, o Vlaams Belang da Bélgica, os Democratas Suecos e o Partido Nacional da Eslováquia (SNS).

Um dos objetivos é formar um bloco no Parlamento, o que lhes daria direito a receber quase 1 milhão de euros de financiamento da UE, sem contar com ajuda para montar equipe de colaboradores, escritórios, um secretariado, e tempo de discurso proporcional ao tamanho. Para isso, pelas regras da UE, precisam eleger 25 deputados em 7 países. Ignazio e Camus avaliam que não vai ser fácil montar este grupo. Por uma razão simples: os extremistas estão longe de ter a mesma voz e discurso.

O alvo destes partidos é a própria União Europeia (UE). Ultranacionalista, a extrema-direita europeia vê o projeto de integração da UE como uma ameaça à soberania dos países e uma porta aberta à imigração. Quem vota nela recusa a ideia de que existe um "cidadão europeu", no lugar de um francês ou húngaro.

- Estes partidos vão explorar o fato de que uma fração importante da população europeia não gosta da forma como a UE está se construindo. Muitos aqui não se sentem cidadãos europeus: permanecem amarrados à ideia de pertencer a seu Estado-nação, às suas nacionalidades - explica Jean-Yves Camus.

Especialistas apostam em proteção institucional

O mundo dos extremistas de hoje não tem mais nada a ver com o mundo dos extremistas dos anos 1930, concordam Jean-Yves Camus, pesquisador do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicos (Iris), em Paris, e Piero Ignazi, cientista político da Universidade de Bolonha.

A Europa de hoje tem leis para combater o racismo, o antissemitismo e a negação do Holocausto. Se quiserem sobreviver, os grupos de extrema-direita têm que trabalhar no quadro de uma democracia parlamentar e se apresentar às eleições. Além disso, enfrentam um contrapoder, sobretudo da mídia - o que não existia nos anos 1930. Praticamente só resta um ponto em comum: o nacionalismo.

- Por conta do passado, a extrema-direita foi obrigada a mudar de roupa - constata Camus.

- E são roupas muito mais sofisticadas - acrescenta Ignazi.

O perfil do eleitorado e os problemas que os preocupam também mudaram.

- A extrema-direita contemporânea tem que lidar com ansiedades e problemas que emergiram nos anos 1980. E estes problemas são imigração e insegurança, perda de sentido das pessoas, que não sabem mais quem são. As transformações socioeconômicas dos anos 80 foram de tal ordem que a classe trabalhadora e as pessoas subempregadas não têm mais ideia do papel que desempenham na sociedade - explica Ignazi.

Não é a crise econômica, mas sim a crise de identidade e o medo da imigração estrangeira que explicam o sucesso dos partidos de extrema-direita na Europa, dizem os dois especialistas. A prova é que a extrema-direita progride a grandes passos na rica Suíça - onde não há crise - mas é praticamente inexistente em três países duramente castigados pela recessão, como Irlanda, Portugal e Espanha.

Reação da direita tradicional

Os dois especialistas rejeitam a ideia de que a Europa esteja em risco.

- Há uma onda (da extrema-direita), mas isso não é novo. Para mim, este fenômeno continua a ser limitado. As grandes democracias não estão em perigo - frisa Ignazi.

- O fogo do extremismo da direita não se propaga por toda a Europa - sustenta Camus, lembrando que extremistas estão em plena regressão em vários países do ex-bloco soviético no Leste Europeu, como República Tcheca, Romênia, Eslovênia, Eslováquia e Polônia.

Mas Ignazi vê um perigo: partidos da direita tradicional incorporando valores dos extremistas de direita.

- Este é o verdadeiro perigo: que o discurso deles (extremistas) penetre na sociedade em geral e nos partidos conservadores. E que, no futuro, conservadores façam alianças com eles - alerta.

oglobo.globo.com | 13-04-2014

LONDRES — A persistência da crise na Ucrânia — com a intensificação dos movimentos separatistas nas regiões com presença maciça de populações de língua russa — pode azedar de vez o clima entre Vladimir Putin e o Ocidente. Espera-se, agora, evitar que os focos de insurgência contra a capital, Kiev, terminem como a Crimeia. Caso contrário, Estados Unidos e União Europeia, que chegaram a anunciar sanções localizadas e consideradas quase leves contra os russos, terão de mostrar firmeza suficiente para não perder credibilidade. Especialistas afirmam que o Kremlin deixou claro ser capaz de traçar, no mapa, os limites da chamada Europa do Leste que os países ocidentais não podem ultrapassar.

— A pergunta fundamental agora é: se a Rússia insistir em apoiar essas regiões da Ucrânia, o Ocidente vai aceitar o traçado da nova fronteira europeia? — pergunta o diretor do Instituto de Rússia da Universidade King’s College, Sam Greene.

Para o especialista, que viveu em Moscou, Putin não deve repetir em Donetsk e nas outras regiões do Leste ucraniano a mesma solução dada à Crimeia. Por mais que tenham sido importantes centros industriais da União Soviética, essas áreas não seriam tão estratégicas para o Kremlin. Nos últimos dias, porém, diante do agravamento da tensão em outras áreas da Ucrânia, ele parece ser uma voz cada vez mais dissonante do resto.

Segundo Greene, a anexação da península do Mar Negro teve três explicações. Putin queria mostrar ao público interno que a Rússia ainda tem iniciativas políticas grandiosas, o que lhe conferiu mais alguns pontos de aprovação doméstica. Em segundo lugar, o Kremlin queria que Kiev entendesse de uma vez por todas que a Ucrânia não era totalmente autônoma. Por fim, a demonstração de ousadia e força nas barbas dos governos ocidentais teve por objetivo provar que a Rússia ainda detém o poder de “traçar” o risco no mapa dos limites que julga intransponíveis.

Para o especialista russo do Centro Carnegie de Moscou, Dmitri Trenin, os episódios recentes permitiram que Moscou saísse da passividade e, pela primeira vez desde 1989, se mostrasse novamente uma potência ativa. Outros dizem que se trataria de indícios de uma potência acuada. Trenin defende a ideia de que a geopolítica da nova Europa do Leste vai mudar fundamentalmente daqui por diante — assim como o papel de organismos internacionais criados depois da Segunda Guerra Mundial, tão importantes durante o período da Guerra Fria e cujos formatos vinham sendo considerados ultrapassados nos anos recentes. A relevância e o novo fôlego dessas instituições viria do fato de que ficou mais fácil identificar o adversário no horizonte.

“A relação entre a Rússia e a Otan terá uma natureza mais familiar, de adversários. Um impasse militar na Europa não será tão relevante quanto durante a Guerra Fria, mas haverá mais certezas do que nos anos recentes sobre quem é o adversário em potencial”, escreveu Trenin na revista “Foreign Policy”.

— A Rússia deu um novo significado à Otan. O formato pós-Guerra Fria envolvia a Rússia como um parceiro para a cooperação. Não se sabe se continuará assim depois de tudo o que aconteceu. A Otan terá de repensar a questão da segurança e reforçá-la de maneira mais concreta, com um foco mais voltado à Europa — afirmou Greene.

Para ele, a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) também ganha importância estratégica no novo cenário. Ao mesmo tempo, espera-se que a Rússia se isole. Se hoje tem assento em quase todos os foros internacionais, é bem possível que se dedique mais às relações bilaterais com a China, que deve se tornar um parceiro próximo e alternativo.

oglobo.globo.com | 09-04-2014
É uma denúncia da FNE. O acordo comercial que está a ser negociado entre a União Europeia e os EUA pode transformar as políticas de educação na Europa.
www.rtp.pt | 08-04-2014

RIO - A partir desta terça-feira, a obra completa de Sergio Paulo Rouanet, um dos maiores intelectuais do país, entrará em debate. O ciclo de conferências de três dias que começa hoje no Museu de Arte do Rio (MAR), e se estende para a Universidade Cândido Mendes, na quarta-feira, e para a Academia Brasileira de Letras (ABL), na quinta-feira, vai tratar das principais preocupações teóricas de Rouanet, que passeiam por campos do conhecimento como a ciência política, a filosofia, a psicanálise e a literatura. O Simpósio Sergio Rouanet — 80 anos é uma comemoração pelo aniversário do pensador, celebrado em 23 de fevereiro, e vai reunir intelectuais brasileiros e estrangeiros.

As comemorações começam às 18h de hoje, no MAR, com um encontro entre Rouanet e um velho amigo: o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que entrevistará o homenageado. O evento é fechado para convidados, mas será transmitido pela internet (www.simposi osergiorouanet.com).

— Ele topou participar mais por ser meu amigo do que por precisar de diálogo intelectual — brinca Rouanet, que tem 14 livros publicados e no momento organiza o quinto volume das cartas de Machado de Assis, editadas pela ABL.

Uma das dimensões da obra do intelectual, imortal da ABL desde 1992, é a ciência política, área de seu doutorado na Universidade de São Paulo. Por isso, o primeiro tema do segundo dia de debates, na Cândido Mendes, será a democracia. A experiência de Rouanet com a política ocorreu em instituições públicas, como o Itamaraty, onde ele chegou a embaixador, e o Ministério da Cultura, no qual participou da criação da Lei Rouanet.

A conferência, que reunirá o também imortal da ABL Celso Lafer, o embaixador Marcílio Marques Moreira e Thomas Trebat, da Universidade de Columbia, entre outros, propõe uma pergunta: as democracias nacionais podem existir sem uma democracia mundial?

— Temos que caminhar nesse sentido. Ninguém jamais supôs que a União Europeia surgiria com a abrangência que surgiu — afirma Rouanet. — A gente tem que superar a patologia das intervenções, as guerras unilaterais, e caminhar no sentido de uma universalização maior.

O intelectual acredita que o debate, que também tratará do conceito de modernidade, passe ainda pelo tema da democracia representativa, em pauta desde as manifestações de 2013.

— As manifestações pelo mundo surgiram porque os canais habituais de representação por partidos não davam mais conta da insatisfação das pessoas — diz Rouanet. — Mas é preciso diferenciar dois tipos de indignação. Há os que não se sentem representados pelo Congresso, mas querem que ele exista. E há os anarquistas, que incendeiam pneus na rua. São dois grupos de diferentes tradições.

Síntese de Freud e Marx

Em um de seus livros mais conhecidos, “Teoria crítica e psicanálise”, Rouanet analisa a relação entre a teoria de Freud e pensadores que buscaram uma síntese entre a psicanálise e o marxismo, como Erich Fromm e Wilhelm Reich. O terceiro dia de debates, na ABL, vai questionar se essa síntese ainda é possível.

— Acho que Freud ficaria horrorizado com a criação de uma utopia freudiana-marxista — diz Rouanet, defendendo, porém, que a psicanálise deve ser usada para estudar a ordem social.

Ao final, o simpósio discutirá se ainda faz sentido falar em literaturas nacionais, considerando-se que, desde o romantismo, a literatura brasileira se empenhou em criar uma identidade de nação.

— Goethe dizia que a divisão em literaturas nacionais era uma forma errada de exprimir a vitalidade da literatura. Hoje o Brasil é um país plenamente desenvolvido, os autores podem se permitir um gesto desnacionalizante — afirma Rouanet.

oglobo.globo.com | 08-04-2014

BUDAPESTE - Muito antes dos resultados das urnas, não havia dúvidas de que o Fidesz, partido populista de direita do primeiro-ministro Viktor Orban, sairia vitorioso das eleições legislativas húngaras deste domingo. Conhecido por suas políticas conservadoras, o partido teve vitória confirmada pelos resultados provisórios fornecidos pela televisão local. Até à noite de segunda-feira, ele tinha conquistado 44,8% dos 70% dos votos.

A União, coalizão de esquerda que conta com cinco partidos (sendo o socialista o maior), foi prejudicada por sua fragmentação interna, e pelo escândalo de corrupção que estourou durante a campanha. Mesmo assim, conseguiu manter-se como segunda maior força política do país, conquistando 25, 2% dos votos, de acordo com a mesma pesquisa. Já o Jobbik, da extrema-direita, consolidou seu nicho e até melhorou seus índices em relação às últimas eleições. Depois de moderar seu discurso racista para focar na crise econômica e em seu perfil antissistema, passou dos 16,7% de 2010 para 21,3%.

O eleitor comum húngaro mostrou que não está interessado por questões como a União Europeia. Diversas organizações internacionais alertaram sobre a virada autoritária que a Hungria tomou com Orban desde 2010. Pouco preocupado em debater ideias, programas ou a própria erosão da democracia, Orban ganhou esta eleição apostando no nacionalismo e no populismo. Apresentou-se como um defensor da independência húngara face aos “tecnocratas europeus” e promoveu reduções nas contas de energia para as famílias. Desde janeiro de 2013, as contas de luz e gás enviadas vêm junto com a informação de quanto os usuários ganharam de desconto. Orban poderá agora continuar o trabalho que começou em 2010, quando ganhou com uma enorme maioria dos dois terços no Parlamento, um domínio que resultou em 800 leis em quatro anos e uma nova constituição, que acabou sendo alterada cinco vezes. O governo tentou estender seu controle nos meios de comunicação, no sistema eleitoral, nas comunidades religiosas e até mesmo no sistema de justiça. Seu estilo de governo tem poucos limites. No ano passado, por exemplo, reduziu os poderes do Tribunal Constitucional e também decidiu ignorá-lo. Apesar das queixas internacionais, Budapeste mudou sua carta magna para incluir em uma série de leis que os juízes haviam rejeitado.

Outras reformas, no entanto, tiveram um impacto silencioso. A atmosfera dos tribunais é muito diferente desde que o Fidesz chegou ao poder. O Governo deu a uma única pessoa o poder para nomear os presidentes de cada tribunal. A mudança das leis também afetaram a economia, estabilizada mas também congelada. Para limitar as contas de gás e luz das famílias, o governo obrigou as empresas a pagarem as diferenças. Impôs taxas especiais a bancos e, para reduzir o déficit e deixá-lo nos 3% exigidos por Bruxelas, nacionalizou os fundos privados de pensão. Orban gosta de fazer declarações sensatas (como “A carga da crise não podem recair nas pessoas”, por exemplo), mas aplicou cortes na saúde e na educação.

oglobo.globo.com | 07-04-2014

KIEV — A cantora ucraniana Mariya Yaremchuk, de 21 anos, tem uma difícil responsabilidade pela frente. Selecionada para participar do Festival Eurovision de Televisão, ela defenderá seu país, imerso em uma crise política com a Rússia.

A 58ª edição do Eurovision está marcada para o dia 10 de maio na capital dinamarquesa, Copenhague. O concurso de música é transmitido ao vivo pela televisão anualmente para todo o continente europeu.

Mariya foi escolhida para o festival em dezembro passado, na segunda tentativa de chegar ao festival continental — na primeira vez ficou em quinto lugar. No mesmo mês em que foi classificada, os ucranianos tomavam a Praça da Independência em protesto contra a decisão do então presidente — posteriormente deposto — Viktor Yanukovich de aceitar um acordo econômico com a Rússia em vez de escolher pela União Europeia.

“É difícil pensar no Eurovision quando a situação no país está tão delicada. É muito difícil se concentrar com tanta tristeza e protestos”, declarou já eleita, e com as manifestações em andamento.

Ao jornal russo “Komsomolskaya Pravda”, a cantora comentou a situação em que se encontra frente ao cenário político do seu país de origem. Ela foi eleita com a canção “Tick-Tock” que, segundo ela, não condiz com o atual momento.

“Tentei mudar a canção, porque quero cantar sobre coisas sérias, e é difícil defender uma atuação alegre e graciosa quando existe essa situação em meu país. Não foi possível (trocar a música), porque as regras impediram.”

Mariya nasceu na cidade de Chernivtsi, Sul da Ucrânia. A música na vida dela tem raízes dentro da própria casa: o pai, Nazar Yaremchuk, era um cantor popular do país e morreu quando a filha tinha 2 anos. Quatro anos após a morte de Yaremchuk, Mariya se matriculou na escola de música. Desde cedo tinha o sonho de chegar um dia ao festival e, para tanto, frequentou muitos concursos do gênero na Ucrânia.

oglobo.globo.com | 29-03-2014

Os Estados Unidos caem novamente em contradição lógica. Como o que aconteceu com a ameaça de ação militar contra a Síria, o governo Obama na questão da Rússia e da Ucrânia vai além do que o país está disposto e é capaz de impor.

No começo do mês, o Presidente Barack Obama alertou que os EUA "isolariam a Rússia" caso ela tomasse mais territórios, e esta semana indicou a possibilidade de mais sanções. De igual modo, o secretário de Estado, John Kerry, declarou que o G7 estava "preparado para fazer de tudo" para isolar a Rússia.

Mas o discurso de Washington é perigosamente excessivo, por três razões principais: a Ucrânia é bem mais importante para Vladimir Putin do que para os EUA; será difícil para os Estados Unidos e a Europa cumprirem as suas ameaças de sanções severas; e outros países podem, no final das contas, enfraquecê-los.

Em primeiro lugar, os Estados Unidos precisam enxergar a crise da Ucrânia sob o ponto de vista russo. As ameaças dos EUA e da Europa nunca serão o fator determinante na tomada de decisão de Putin. A Ucrânia é a única questão de segurança nacional da Rússia além das suas fronteiras, e as políticas de Putin, inclusive se vão ou não anexar mais territórios da Ucrânia, serão formadas preponderantemente pelos interesses da segurança nacional, e não pela economia de curto prazo.

Além disso, a Rússia já deu cerca de US$ 200 bilhões a US$ 300 bilhões à Ucrânia em subsídios para o gás natural desde 1991. No caso de um governo ucraniano que não seja pró-Rússia, é provável que Moscou interrompa esses subsídios, eliminando uma carga econômica enorme justo quando o Ocidente tenta pressioná-la financeiramente.

Em segundo lugar, se a Rússia empreender novas incursões na Ucrânia, a tentativa dos EUA de sanções mais rígidas semelhantes às do Irã, coordenadas com os aliados, fracassarão no final. De fato, se Putin insistir em uma campanha militar mais abrangente, é improvável que haja uma reação semelhantemente robusta por parte tanto dos EUA quanto da Europa.

As exportações de energia da Rússia, o seu poder comercial e o seu tamanho tornam os custos do seu isolamento proibitivamente altos para a Europa. Apesar da recente exclusão da Rússia do G7, os europeus não querem chegar a extremos. O embaixador da Ucrânia para a União Europeia chamou as atuais sanções de uma "picada de mosquito"; e mesmo essas ações modestas deixaram muitos governos europeus ariscos. O Reino Unido e a França têm agido com muita cautela, os austríacos e os cipriotas mais ainda. (A Áustria compra mais da metade do seu gás natural da Rússia; Chipre tem grande envolvimento bancário com a Rússia.)

E finalmente, mesmo que os EUA tentem sanções severas, outras nações irão ignorá-las e compensarão qualquer dano causado. A Índia se recusa totalmente a tratar a Rússia como vilã. E o mais importante, a China não observará essas sanções.

O problema básico é que o governo Obama não quer assumir os custos envolvidos com uma política externa ativa. Isso é compreensível. Uma pesquisa feita pela Pew em dezembro revelou o menor nível de apoio da opinião pública a uma política externa ativa nos EUA desde 1964.

Essa pressão interna é evidente na Síria. O erro de Obama não foi recuar de uma ação militar e aceitar a proposta russa para eliminar as armas químicas da Síria. O erro foi impor limites cuja manutenção seria mais onerosa do que os EUA estavam dispostos a tolerar. Os EUA perderam a credibilidade internacionalmente por não cumprirem a ameaça.

Infelizmente, o governo está repetindo o mesmo erro na Ucrânia.

Quando a Rússia prosseguiu com a anexação da Crimeia, os Estados Unidos e a Europa reagiram com medidas severas que tiveram certo impacto econômico. Porém, eles de maneira alguma "fizeram de tudo". Em vez disso, os americanos e europeus estabeleceram um limite maior na questão ao fazer ameaças vãs de sanções abrangentes caso a Rússia tentasse tomar mais territórios da Ucrânia.

Tal retórica incisiva do Ocidente poderia forçar Putin a ser ainda mais agressivo. Isso porque ele não acredita que o Ocidente irá tratar a Rússia como trata o Irã, e que instituirá sanções severas que isolariam do Ocidente grandes áreas da economia russa. Como Putin explicou recentemente, em um mundo globalizado "é possível prejudicar o outro — mas isso haveria dano recíproco".

"Isolar a Rússia" como se ela fosse o Irã ou a Coreia do Norte não é uma ameaça que os EUA podem cumprir de forma viável. Só porque Putin está agindo como líder de um Estado vilão, o seu país não pode ser considerado vilão. A Rússia possui a oitava maior economia do mundo. Considerando a vulnerabilidade das corporações americanas em relação à Rússia, haveria sérios retrocessos no setor privado caso Obama tente atribuir a ela a posição de Estado vilão. O governo Obama precisa pregar o que de fato irá fazer. Do contrário, a credibilidade dos EUA pode diminuir ainda mais quando o país volta atrás em suas palavras.

Uma reação mais linha dura não é a solução. Obama estava certo em rejeitar a alternativa militar; a diplomacia é o único caminho viável para os EUA.

Contudo, Washington precisa antecipar uma resposta do ponto de vista russo. Em um grande discurso na quarta-feira, Obama sugeriu que mais medidas seriam criadas caso a Rússia mantenha o curso atual. Isso é um erro. A Rússia não vai voltar a trás, e tal conversa só aumentará as tensões.

O governo americano deveria se concentrar no apoio a Kiev, em vez de na punição de Moscou. Isso significa usar a sua influência na Europa para garantir que esse apoio dê certo, e que o novo governo da Ucrânia não faça nada que provoque uma resposta extrema. Isso exigirá um reconhecimento dos interesses centrais da Rússia e das limitações dos EUA — e um fim às ameaças vazias.

* Ian Bremmer é presidente do Grupo Eurásia e professor de pesquisa global da Universidade de Nova York.

oglobo.globo.com | 29-03-2014

SÃO PAULO — Na última semana, uma lista com mais de 5.200 sobrenomes — dentre eles alguns comuns no Brasil como Oliveira ou Silva — tomou as redes sociais com a promessa de que, quem aparecesse por lá, teria o direito a cidadania espanhola. A base do rumor é verdadeira: um projeto de lei do governo espanhol que promete conceder a nacionalidade a quem demonstre suas raízes sefarditas (descendentes de judeus originários de Portugal e Espanha). Mas o projeto de lei ainda precisa passar por vários trâmites e nada tem a ver com uma distribuição indiscriminada de passaportes. E, mesmo desmentida pelo Ministério da Justiça espanhola, a lista continua circulando.

A iniciativa, sujeita ainda a possíveis mudanças, promete a nacionalidade àqueles que consigam “certificar sua condição de sefardita por meio de uma série de provas e indícios, além da sua vinculação com a Espanha ou com a cultura espanhola, no seu sentido mais amplo”. Em entrevista ao jornal “El País”, o rabino Samy Pinto, da Sinagoga Ohel Yaacov em São Paulo, confirma ter recebido quase 100 famílias em busca de suas raízes e a documentação necessária para certificá-las.

— O que as traz até aqui é um passo puramente emocional. Na psicologia do sefardita a memória não se apagou. Ele é extremamente nostálgico. Adora lembrar o passado através das músicas, dos grandes pensadores, da liturgia. Existe una relação de amor entre os judeus sefarditas e os seus países de origem que se manifesta claramente neste episódio — diz.

O religioso, porém, lamenta que 25% das suas visitas não são tão motivadas por saudade, mas pela ambição de possuir um documento europeu que lhe permita circular e trabalhar livremente no continente.

— Me empolgo menos com essa possibilidade, mas existe sim uma corrida para obter o passaporte.

O enorme interesse pela iniciativa no Brasil, onde a comunidade judaica conta com cerca de 110 mil fieis, é explicada por Antón Castro Míguez, professor do Centro de Educação e Ciências Humanas.

— Está muito enraizada a ideia de que há, no Brasil, um grande número de pessoas que descendem de cristãos-novos portugueses (judeus que se converteram ao cristianismo por conta da perseguição da Inquisição, mas que mantiveram sua fé). Isso gera a sensação de que somos todos descendentes desses judeus. Há muitos estudos de genealogia que comprovam a ascendência judaica de pessoas ilustres, como Chico Buarque, por exemplo — explica o professor ao jornal espanhol.

O presidente executivo da Federação Israelita do Estado de São Paulo, Ricardo Berkiensztat confirma a repercussão da notícia — a verdadeira e a falsa — no seu entorno.

— Dentro da comunidade judaica se tornou um tema importante e com a velocidade do Facebook fez com que muitas pessoas tivessem acesso a essa informação e procurassem ainda mais. Mas esta não é uma iniciativa exclusiva da Espanha. Já (em 2008) houve uma corrida ao consulado da Polônia (na União Europeia desde 2004) para requisitar a cidadania polonesa pelo mesmo motivo — afirma Berkiensztat.

Há anos, a Espanha estuda um modo de conceder a nacionalidade aos descendentes dos judeus sefarditas que foram expulsos da Península Ibérica em 1492. Trata-se de um compromisso pessoal do rei da Espanha manifestado em múltiplas ocasiões. Os representantes da comunidade judaica no Brasil, influente, porém, não mais numerosa que em outros países como a Venezuela, sabem há dois anos e por boca do embaixador espanhol no Brasil que o projeto estava em marcha. Foi o Príncipe Felipe quem confirmou pessoalmente, na sua última visita ao país há duas semanas, a disponibilidade da Espanha para “reparar um erro histórico”.

oglobo.globo.com | 26-03-2014

LONDRES - O ar imprescindível para a vida do homem é, também, uma das maiores causas de sua morte. Segundo um novo relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS), um em cada oito óbitos no mundo - o equivalente a 7 milhões de casos - é causado pela poluição atmosférica. O levantamento levou em conta dados coletados em 2012. Quatro anos antes, foram constatadas 3,2 milhões de mortes devido à poluição do ar.

Grandes cidades tentam driblar a baixa qualidade do ar com máscaras - como ocorre nas metrópoles chinesas - e com rodízio de carros - medida adotada na semana passada por Paris. A OMS, no entanto, acredita que os “problemas básicos” sobrevivem a estas iniciativas.

- O poder público precisa definir a poluição do ar como um problema prioritário e que vai ser respondido por medidas específicas e em um tempo determinado - ressalta Carlos Dora, coordenador do Departamento de Saúde Pública e Determinantes Sociais e Ambientais da OMS. - As empresas particulares perceberão que um novo mercado foi criado, e investirão em soluções.

A OMS investigou a ligação entre a poluição e estudos epidemiológicos. Os principais males causados pelo ar poluído são doença cardíaca isquêmica, infecção respiratória, derrame e câncer de pulmão.

- Além de contarmos com estudos sobre epidemias, que nunca havíamos considerado em nossos relatórios, conseguimos associá-los a outros fatores de risco, como tabaco, pressão arterial e dieta - explica Dora.

Nos próximos meses, a OMS divulgará a lista das cidades com pior qualidade de ar do planeta.

Embora o número de óbitos tenha mais do que duplicado entre os relatórios, o pneumologista Hermano Castro, diretor da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), acredita que a conta ainda não reflete a realidade.

- Vários países não têm estatísticas confiáveis. Os pacientes morrem sem diagnóstico, então não sabemos quantos casos podemos atribuir a doenças que podem estar ligadas à poluição do ar, como pneumonia e infecções respiratórias - lembra.

Países do Sudeste Asiático e de regiões do Pacífico Ocidental registraram a maior quantidade de óbitos relacionados à qualidade do ar - somados, ambas regiões respondem por mais dos 3,3 milhões de casos. Em seguida vieram África, a região do Mediterrâneo Ocidental, Europa e Américas. Das 7 milhões de mortes, apenas 19 mil foram em nações de alta renda.

As mulheres experimentem níveis mais elevados de exposição pessoal à poluição - e, por isso, correm mais risco de desenvolver efeitos adversos à saúde -, mas os homens respondem pela maior parte dos óbitos, devido à combinação da baixa qualidade do ar com outras doenças.

Cerca de 4,3 milhões de óbitos são atribuídos à poluição de origem doméstica, enquanto 3,7 milhões derivam da exposição à poluição externa. Além dos índices mapeados nas pesquisas anteriores, a OMS fez inventários de emissões por satélite e observou o deslocamento dos poluentes na atmosfera. O novo método, destaca Dora, aumentou a visualização de áreas rurais, onde vive metade da população mundial.

O campo, porém, não era a única região que fugia da lupa da OMS. Diversos poluentes da cidade, como o uso de energia em edifícios e as emissões dos meios de transporte e da construção civil, eram subestimados.

oglobo.globo.com | 26-03-2014

MADRI - A manifestação que levou milhares de pessoas às ruas de Madri para protestar contra as medidas de austeridade econômica na Espanha acabou em violência. Segundo informações da agência Reuters, o ato, chamado de Marcha da Dignidade, era predominantemente pacífico, mas foi marcado pelo atrito entre manifestantes e policiais. A marcha foi convocada para denunciar a "urgência social" no país e protestar contra as políticas da chamada Troika, organização formada por União Europeia (UE), Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Central Europeu (BCE).

Ainda de acordo com agências internacionais, o conflito começou quando alguns manifestantes jogaram pedras e garrafas em policiais que acompanhavam a passeata. A polícia, então, respondeu com balas de borracha. Segundo o governo espanhol, 19 manifestantes foram presos e 50 policiais ficaram feridos, um deles de forma grave. Não havia informações sobre manifestantes feridos.

Alguns dos manifestantes caminharam de outros estados, como Andaluzia, ao Sul, e Catalunha, no Nordeste, até Madri. Os primeiros a chegar passaram a noite na entrada da capital. O ponto de encontro foi marcado na estação de metrê Atocha, para as 15h, horário local. Mais cedo, a previsão era qie os manifestantes seguissem até uma das grandes avenidas da capital espanhola, empunhando cartazes com lemas como "Não ao pagamento da dívida", "Nenhum corte mais", "Fora os governos da Troika" e "Pão, trabalho e teto para todos e todas".

Os organizadores anunciaram que foram mobilizados centenas de ônibus e ao menos quatro trens para trazer os manifestantes à capital. As autoridades madrilenhas mobilizaram cerca de 1,7 mil policiais para garantir a segurança, em meio a temores de incidentes pela possível presença de grupos contrários ao governo.

A austeridade sem precedentes aplicada pelo governo conservador desde o final de 2011 para reduzir o déficit e a dívida do país já resultou em duas greves gerais em 2012, que levaram milhares de pessoas às ruas. No entanto, a mobilização logo perdeu força, ainda que estivesse sustentada principalmente pelos setores de educação e saúde, severamente afetados por cortes de 150 milhões de euros ao longo de três anos.

oglobo.globo.com | 22-03-2014

NÁPOLES - Muralhas, templos e afrescos de Pompeia resistiram à ira de um vulcão e a quase dois mil anos de estudos científicos e visitas turísticas. Agora, no entanto, o Patrimônio Mundial da Unesco ameaça ceder. Tempestades põem a resistência das antigas paredes à prova. Furtos e cortes de afrescos mostram ao mundo a vulnerabilidade do tesouro arqueológico. A reputação italiana desmorona diante de promessas não cumpridas de investimentos. Não há câmeras de vigilância mirando obras preciosas, imunes a saques como o divulgado na semana passada.

Ladrões ainda não identificados invadiram uma área fechada das ruínas, furtando o retrato de uma divindade grega. O crime — descoberto por um guarda, durante uma ronda — foi “a remoção de parte de um afresco da Casa de Netuno”, onde uma representação da deusa Ártemis havia sido retirada com um objeto metálico, segundo um comunicado divulgado na terça-feira pela curadoria do sítio arqueológico romano.

A polícia abriu uma investigação para encontrar o fragmento, de cerca de 20 centímetros de comprimento, roubado de uma área fechada ao público, deixando uma marca branca no afresco cor de rosa, onde o deus Apolo posa tristemente solitário.

O crime provocou indignação na Itália. O jornal “Il Messaggero” descreveu o episódio como “uma vergonha para o país” — e é ainda mais constrangedor porque houve recentemente a troca do superintendente do sítio.

Comissária europeia de Educação, Juventude e Cultura, Androulla Vassiliou afirmou estar “verdadeiramente triste” com o crime. À agência de notícias italiana Ansa, ela declarou que os ladrões “levaram um patrimônio sem preço, que pertence a todos os cidadãos, italianos e europeus, e a gerações futuras”.

O arqueólogo Umberto Pappalardo, da Universidade Suor Orsola Benincasa, acredita que ladrões comuns estejam por trás do furto, em vez de criminosos especialistas em roubo de obras de arte, que poderiam levar a peça ao mercado internacional.

— Vender um afresco roubado de um sítio arqueológico tão conhecido como Pompeia seria uma encomenda muito, muito especial — avaliou. — Certamente não há um mercado para isso na Itália.

Em janeiro, o fragmento de um afresco levado de outra localidade do sítio arqueológico foi entregue à curadoria em um pacote anônimo.

O novo superintendente de Pompeia, Massimo Osanna, declarou à imprensa italiana que “tudo está sendo feito” para recuperar a pintura de Ártemis. Segundo ele, o reforço da segurança é uma de suas prioridades.

Os curadores revelaram que a polícia analisará imagens das câmeras de vigilância no perímetro do sítio arqueológico. No entanto, segundo eles, nenhum equipamento registrou movimentação dentro das ruínas.

Os recorrentes furtos e o colapso das ruínas têm atraído a preocupação internacional. Para os arqueólogos, um dos mais famosos patrimônios da Humanidade está sendo negligenciado pelo governo de Nápoles.

O Templo de Vênus e paredes de um túmulo foram danificados este mês devido a uma série de tempestades, levando a União Europeia a exortar a Itália a “cuidar de Pompeia, porque ela é emblemática não só para a Europa, como também para o mundo”. A Unesco afirmou que “tudo entrará em colapso se não forem tomadas medidas urgentes”. Como resposta, o governo italiano prometeu destinar cerca de US$ 2,8 milhões em iniciativas já em andamento para revitalizar a região.

O primeiro-ministro Matteo Renzi também apelou para que investidores privados contribuam com a restauração das ruínas.

Presidente do Observatório do Patrimônio Cultural, Antonio Irlando destacou como os roubos afetam a imagem do país no exterior.

— O desaparecimento do afresco da Casa de Netuno pode ser classificado como outro “colapso de Pompeia” — lamentou. — No entanto, o que desmoronou desta vez não foram paredes, mas a preciosa reputação da Itália.

No ano passado, a União Europeia anunciou o financiamento de projetos de revitalização de Pompeia, que destinariam US$ 136 milhões ao sítio arqueológico. Mas, de acordo com o jornal “Corriere della Sera”, apenas US$ 764 mil — cerca de 0,5% — foram desembolsados.

O programa é considerado crucial para a sobrevivência do sítio de 44 hectares à sombra do Monte Vesúvio, o vulcão que destruiu a cidade no ano 79 d.C..

oglobo.globo.com | 22-03-2014

PEQUIM — Desde que Xi Jinping assumiu a Presidência da China há exatamente um ano, boa parte do “sonho chinês” tem sido reforçar o peso do país na arena internacional com base nos valores universais. A China deveria dar impulso à democratização das relações internacionais e buscar uma ordem mundial mais justa e tolerante.

Ante à crise da Crimeia, no entanto, a China mergulhou no silêncio. Pensava-se que o veto do país sobre a Síria em aliança com Moscou começaria a ser um contrapeso ao Ocidente. Mas com a resolução das Nações Unidas para declarar ilegal o referendo da Crimeia, a China se absteve de votar. A atitude não favoreceu nem a Rússia, nem a contraparte formada por Estados Unidos, França e o Reino Unido.

A razão é que esse conflito tem implicações para as relações bilaterais e, potencialmente, na condução internacional de seus próprios assuntos domésticos.

— A China respeita a soberania, a independência e a integridade territorial de todos os países. Nossas sugestões se concentram em estabelecer um mecanismo de cooperação internacional em que todas as partes encontrem uma solução política para atenuar a crise ucraniana — disse Qin Ganh, porta-voz da Chancelaria chinesa, a respeito da abstenção do país.

A China sabe que, ao assumir uma posição, afetaria a relação com alguma das partes.

— A posição da China é muito complicada. A abstenção era a única saída, mas acaba favorecendo aos Estados Unidos — sinaliza um especialista em relações internacionais do centro Carnegie-Tsinghua, em Pequim, em condição de anonimato. — Ainda precisamos de tempo para ver como se desenrola a situação. Mas, no momento, parece que (a abstenção) terá uma impacto negativo nas relações bilaterais com a Rússia.

Outros analistas oferecem um ponto de vista diferente. É o caso de Wu Nanlin, professor da Universidade de Tecnologia de Harbin, especializado em economia russa.

— China protegeu seus próprios interesses ao abster-se, sem prejudicar os da Rússia e nem os dos Estados Unidos. A relação com Moscou seguirá igual, já que sempre estiveram apoiados um no outro, em equilíbrio.

A Rússia — e antes a União Soviética — é uma parceira estratégica da China em assunto de política e economia. Ambos os países, sem ser aliados formais, sustentam vínculos comerciais estreitos. Em 2013, firmaram 21 tratados comerciais, entre os quais incluem um acordo que proporcionará 100 milhões de toneladas de petróleo à empresa estatal chinesa Sinopec. Esse acordo converteu a China no maior comprador de petróleo russo.

Nem tudo é economia, contudo. A afinidade política e ideológica entre os dois países vem de anos atrás. É comum que se apoiem entre si nas votações do Conselho de Segurança, quase sempre alinhadas ao princípio de não intervenção e respeito à soberania. No entanto, apesar desses vínculos, a China considera difícil e até prejudicial para seus interesses e à sua coesão territorial apoiar as ações de Moscou sobre a Ucrânia.

A posição frente ao referendo da Crimeia coloca o país em uma situação sem saída. Por um lado, a decisão é um paralelo do que poderia se passar com regiões como Xinjiang e o Tibete, de etnias diferentes da maioria e que estariam prestes a se tornar independentes, ou de uma potencial separação definitiva de territórios que a China considera seus, como Taiwan e até mesmo Hong Kong.

Emitir uma crítica ou se opor às sanções russas seria recebido como uma intervenção nos assuntos internos de outros países, algo que a China tradicionalmente se opõe para se proteger da ingerência de terceiros. Tampouco é viável se aliar aos Estados Unidos nesta situação, porque daria base ao Ocidente a uma eventual interferência em seus assuntos internos. Além disso, opor-se às sanções econômicas é uma mostra de boa vontade para Moscou.

Existem, inclusive, os interesses na Ucrânia, um aliado em termos econômicos e militares. As transações comerciais de mais de US$ 5 milhões e a cooperação tecnológica entre Pequim e Kiev são fatores para que Washington e Moscou entendem a posição chinesa.

oglobo.globo.com | 21-03-2014
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