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União Européia Educação

Em março, a União Europeia e a Turquia selaram um acordo: o país construiria campos para abrigar os refugiados que foram barrados na Europa e o bloco pagaria por eles — três bilhões de euros (cerca de R$ 12 bilhões) logo de cara, com outros três a seguir. Outras nações observaram o pacto de perto e agora estamos começando a ver as consequências.

No dia três de maio, Níger, país da África Ocidental, exigiu 1,1 bilhão de euros (aproximadamente R$ 4,37 bilhões) da União Europeia para impedir que seus imigrantes seguissem para a Líbia e, de lá, para o Mediterrâneo. Na semana passada, o governo do Quênia anunciou que planeja fechar o maior campo de refugiados do mundo, Dadaab. O país usa o exemplo europeu de rejeitar os sírios como base para justificar o plano de retornar quase 600 mil somalis à sua nação de origem.

Karanja Kibicho, membro do governo queniano responsável por contraterrorismo, declarou, explicitamente, a um jornal britânico:

— Não podemos mais permitir que nosso povo arque com o peso da falta de comprometimento da comunidade internacional para com os refugiados — disse, antes de citar também uma queda na ajuda internacional voluntária aos campos quenianos em favor do aumento do orçamento no Hemisfério Norte, para os refugiados que seguiram para o Ocidente.

Os campos de refugiados sofrem de uma falta de verba crônica, mas a proposta do Quênia não diz respeito às necessidades de quem os habita; parece mais uma exigência de pagamento de resgate. Seu governo já ameaçou fechar os acampamentos duas vezes, alegando questões de segurança depois dos ataques terroristas ao shopping center Westgate, em Nairóbi, em 2013, e à Universidade Garissa, em 2015. A resposta do Secretário de Estado John Kerry foi prometer US$ 45 milhões (R$ 157 milhões) em ajuda extra – ajuda essa que provavelmente não chegará nem perto dos campos, bancados integralmente pelas Nações Unidas.

Por ter feito ameaças antes, o país tem que se esforçar muito mais para conseguir atenção da comunidade internacional; para provar que fala sério, na semana passada desativou o Departamento de Questões dos Refugiados e revogou o status automático para os somalis que pediram asilo. Isso significa que quem chegar nas próximas levas não terá documentos garantidos e corre o risco de deportação imediata. O Quênia também culpa constantemente os refugiados pelo terrorismo, mesmo sem provas que liguem os campos aos ataques.

A verdade é ainda mais cínica: descobriu-se, no ano passado, que as forças quenianas que invadiram a Somália para combater o Shabab, grupo extremista afiliado à Al-Qaeda, estava colaborando com o próprio grupo para contrabandear carvão e açúcar, garantindo um faturamento de até US$ 400 milhões. Em resposta, o governo somali aprovou uma moção pedindo a retirada das tropas quenianas de seu território. Partir para a ofensiva contra os refugiados significa que a energia internacional se concentrará em convencer o Quênia a não fechar os campos em vez de exigir uma mudança de comportamento na Somália.

Considerando-se o cenário do acordo turco, os refugiados dão muito poder de barganha para as nações: represtentam proteção contra a crítica estrangeira, são fáceis de se acusar pelos problemas domésticos, e são também moeda de troca para favores especiais no exterior. Em sua tentativa baixa de se esquivar das obrigações internacionais, a União Europeia começou uma guerra de lances e exigências.

Isso é perigoso. Oitenta por cento dos desalojados do mundo são abrigados em países em desenvolvimento. O mundo está se encaminhando para uma situação na qual os direitos dos refugiados são enumerados não em leis e tratados internacionais, mas em dólares e euros. No início deste mês, a União Europeia decidiu mudar sua política de garantia de asilo, que assegurava aos Estados-membros o direito de recusa da cota de refugiados que lhe cabe, remanejada dos países a que chegam primeiro, como Grécia e Itália. A mudança foi ocorreu após uma "contribuição solidária" de 250 mil euros (cerca de R$ 992 mil) por cabeça aos países.

A decisão é insana por vários motivos, mas principalmente porque, ao não aceitar um refugiado, o país está se recusando a admitir um ser humano com capacidade de trabalho que vai, como mostra a grande maioria dos estudos econômicos, fazer uma contribuição positiva ao crescimento econômico em longo prazo. Essa foi, em parte, a base do argumento da chanceler alemã Angela Merkel para aceitar tamanho influxo de estrangeiros na Alemanha em 2015.

Na mesma linha, David Miliband, diretor do Comitê Internacional de Resgate e ex-Secretário de Relações Exteriores britânico, pediu, no sábado, a criação de uma iniciativa internacional para assentar os refugiados mais vulneráveis nos países ricos e aceitar os restantes como residentes produtivos com o direito de trabalhar nos países em que foram acolhidos.

É uma ideia sensata. Como aconteceu com os 400 mil moradores de Dadaab, os refugiados sempre constroem economias e comunidades. Apesar das tentativas do Quênia de manter o campo como local temporário, proibindo a implantação de estruturas permanentes, ruas, sistema de esgoto e eletricidade, ele se tornou uma cidade. Impedir sua permanência é desperdiçar verba internacional e abdicar da arrecadação fiscal e do potencial de talento: a ONU pagou para educar três gerações de pessoas que estão proibidas de trabalhar.

A escolha dos países acolhedores, portanto, é uma escolha entre economias formais e informais. Com um pouquinho mais de visão, os 25 anos de fundos humanitários aplicados em Dadaab poderiam ter sido gastos no investimento em uma cidade e uma população com potencial para, eventualmente, empregar refugiados e quenianos, contribuindo com milhões em impostos e abrindo um caminho para a Somália conquistar a paz e o desenvolvimento.

Apesar do bom senso óbvio da proposta de Miliband, a distância entre uma visão global generosa como essa e a dura realidade da política xenófoba que vai de Nairóbi a New Hampshire é imensa. Dadaab sobrevive como uma favela isolada justamente porque o Quênia não quer que o número de somalis chegue a um milhão, o equivalente a dois por cento de sua população.

A impressão é a de que a maioria dos países prefere deportar contribuintes em potencial e pagar multas pesadíssimas, negando-se a crescer economicamente. A Cúpula Humanitária Mundial, conferência patrocinada pela ONU que será realizada ainda este mês, em Istambul, é uma oportunidade para voltar a discussão mundial sobre refugiados para o potencial benefício de todos. Temo, porém, que a ocasião se transforme em um simples leilão.

oglobo.globo.com | 20-05-2016

ATENAS - O Parlamento grego se pronuncia neste domingo sobre uma polêmica reforma das aposentadorias exigida pelos credores da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional (FMI), em meio a protestos convocados pelos sindicatos e na véspera de uma reunião do Eurogrupo sobre a Grécia. Quinze mil pessoas protestaram de forma pacífica em Atenas e Tessalônica — segunda cidade grega no norte do país —, 14.000 delas simpatizantes da Frente de Luta dos Trabalhadores (PAME), próxima ao partido comunista KKE, segundo a polícia.

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“Vamos acabar com o desastre do sistema de aposentadorias, o desastre social e econômico”, afirmava um cartaz.

A mobilização foi, no entanto, muito menor que a registrada na última grande manifestação contra esta reforma, no dia 4 de fevereiro, quando 50.000 pessoas participaram dos protestos.

O sindicato público Adedy convocou uma manifestação diante do Parlamento, na noite de domingo, horas antes da votação prevista sobre a reforma, considerada um "saque" pelos sindicatos.

O projeto de lei para reformar o sistema de aposentadorias e aumentar os impostos, exigido pelos credores do país - a UE e o FMI - em troca de um novo plano de resgate assinado em julho, está sendo debatido no Parlamento desde sábado e será submetido a votação na noite deste domingo.

O governo de esquerda de Alexis Tsipras, que dispõe de uma maioria parlamentar mínima, com 153 deputados de 300, espera que, ao organizar a votação no fim de semana, em plenas férias de Páscoa, a reforma seja aprovada antes da reunião do Eurogrupo de segunda-feira. Isso pode ajudar os 19 ministros das Finanças da zona do euro a concluírem a primeira avaliação da implementação do plano de resgate e iniciarem o espinhoso debate sobre a dívida grega.

A reforma das aposentadorias prevê cortes das aposentadorias mais elevadas, a fusão de várias caixas, o aumento das cotações e a instauração de uma aposentadoria nacional de 384 euros para os que tiverem trabalhado 20 anos.

Durante a greve de 48 horas, convocada pelos sindicatos, a quarta desde a chegada ao governo de Tsipras, em janeiro de 2015, nenhum transporte público funcionou no país na sexta-feira e no sábado.

“Cansada e decepcionada”

Apenas os deputados da coalizão governamental - do Syriza e do partido soberanista Anel - estão dispostos a votar a favor deste projeto. Os partidos da oposição, entre eles a formação conservadora Nova Democracia, indicaram que votariam contra o projeto de lei.

“As pessoas estão cansadas e decepcionadas com o governo de esquerda no poder (...), as manifestações não tiveram a repercussão que esperávamos”, lamentou à AFP Maria K., que participou do protesto deste domingo.

Para o governo, esta reforma forma parte do acordo entre Atenas e os credores do verão passado em contrapartida ao empréstimo concedido ao país.

“Fazemos o que combinamos com nossos sócios europeus”, explicou na noite de sábado no Parlamento o ministro das Finanças, Eucleide Tsakalotos.

A reforma das aposentadorias é indispensável para "garantir a viabilidade do sistema para a segurança social" e bloquear o déficit dos planos de aposentadorias, indicou por sua vez o ministro do Trabalho, Georges Katrougalos, impulsionador desta tarefa.

Para Panayiotis Petrakis, professor de Economia na universidade de Atenas, as mobilizações não ameaçam a aprovação da lei: "A reforma será adotada e conseguir este voto antes do Eurogrupo é uma boa decisão", disse à AFP.

“Mas a distância entre Atenas e os credores, que exigem medidas adicionais de € 3,6 bilhões, continua sendo importante", advertiu.

oglobo.globo.com | 08-05-2016

RIO— Uma nova escola fundada em São Paulo irá permitir que seus alunos tenham um diploma da Inglaterra sem ter colocado os pés fora do país. A Escola Britânica de Artes Criativas (Ebac) foi inaugurada na última quinta-feira e pretende impulsionar a economia criativa no Brasil. O diploma de graduação concedido pela instituição é da Universidade de Hertfordshire, em Londres, e será válido em toda União Europeia e nos Estados Unidos.

— No Brasil os desafios são enormes e instigantes. Há muita oportunidade. Nossos investimentos não se justificam somente pelo crescimento de empregos criados pelos setores criativos ou pela contribuição da cultura e da criatividade no PIB, mas especialmente porque a cultura é o nosso primeiro recurso econômico. Este projeto é uma novidade no Brasil, mas em 10 anos o país descobrirá que não será mais necessário atravessar fronteiras para ter acesso a uma das melhores escolas de disciplinas criativas do mundo— disse Mauricio Tortosa, diretor-presidente da Ebac.

A Ebac pretende desenvolver competências criativas em seus estudantes. Dessa forma, além dos conteúdos técnicos tradicionais, a instituição pretende promover ensino de transdisciplinar, que envolva empreendedorismo, habilidades sociais e socioculturais, entre outras.

— Nos últimos dois anos, mais de 5,5 jovens saíram do Brasil para estudar no Reino Unido em busca de melhor qualidade de ensino. Nosso grande desafio é desenvolver e reter esses talentos aqui. A educação de qualidade mundial é um dos caminhos prioritários para levar o Brasil a um estágio de desenvolvimento mais avançado— argumenta Maurício.

A Ebac oferecerá também cursos técnicos como de Desenvolvimento de Aplicativos para Dispositivos Móveis, além de Degign Gráfico e Direção de Arte Digital. A universidade londrina, parceira da instituição brasileira, tem cerca de 25 mil alunos, vindos de diversos lugares do mundo e recebeu o prêmio “Universidade Empreendedora do Ano”, da Times Higher Education.

oglobo.globo.com | 03-05-2016

BRIXHAM, Inglaterra – Mike Walker, pescador aposentado na cidade, resume o que muita gente pensa a respeito da União Europeia nessa cidade portuária no sul da Inglaterra. A entrada do Reino Unido na União de 28 países encorajou a França, a Espanha, a Holanda “e o resto todo” a “violar nossas águas”, afirmou Walker.

Outras pessoas talvez escolham palavras menos extremas, mas a opinião de Walker é comum nessa cidade de 17 mil habitantes e sinaliza o desconforto generalizado do Reino Unido com a União Europeia, antes que o país vote no dia 23 de junho o referendo para decidir se deve continuar fazendo parte da união.

Não importa se as queixas envolvam peixes, imigrantes ou regras irracionais, muitos britânicos se incomodam com o que interpretam como a interferência de instituições europeias e burocratas de Bruxelas.

No caso de Brixham, o maior porto pesqueiro comercial da Inglaterra, muitos querem que o Reino Unido retome o controle das águas que fica a 322 quilômetros do litoral. Essa área é controlada por Bruxelas e se encontra repleta de navios com bandeira europeia, que jogam redes e muitas vezes exploram até o leito marinho.

No mundo todo, a maioria das nações soberanas, incluindo Estados Unidos e Canadá, tem domínio sobre os direitos de pesca dentro do limite de 322 quilômetros a partir do litoral. Os pescadores de Brixham argumentam que uma Inglaterra livre da supervisão europeia poderia banir as embarcações estrangeiras e devolver os empregos aos britânicos.

“É claro que eu quero que o país saia da união”, afirmou o pescador Michael Sharp, com os braços desafiadoramente cruzados. “Todas as guerras que travamos contra a França, a Alemanha – com todos eles desde só Deus sabe quando, desde que Jesus era menino – nós nunca vamos nos entender, não é?”

As pesquisas de opinião pública realizadas em todo o país indicam que a saída da união, apelidada de Brexit, corre grandes riscos de ocorrer. Mas mesmo no setor pesqueiro, a visão comum em Brixham sobre a Brexit não é compartilhada em todos os portos britânicos.

Ainda existe um forte apoio à União Europeia, por exemplo, em alguns dos portos escoceses, que tem altos lucros com a venda de salmão, mariscos e lagosta para outras partes da Europa. Caso o Reino Unido deixe a união, os pescadores escoceses podem ser afetados por impostos de exportação altíssimos.

Os pescadores de Brixham, por outro lado, contam com poucos incentivos de comércio internacional, já que vendem principalmente para o mercado interno. Em sua opinião, a Brexit representa menos concorrentes estrangeiros. Menos concorrência também pode ajudar a aumentar o faturamento dos pescadores locais, que atualmente varia entre US$43 mil e US$100 mil ao ano.

A motivação econômica de Brixham está em consonância com as tradições culturais deste lado do Canal da Mancha, que repete a narrativa histórica de uma Grã-Bretanha sob cerco constante do restante da Europa.

Os muros de um forte construído na região no século XV continuam cravejados de bolas de canhão francesas e, em 1588, Sir Francis Drake espantou uma Armada Espanhola dessas águas.

Um século depois, William de Orange, o príncipe holandês protestante, aportou em Brixham com 14 mil soldados para ajudar a derrubar o Rei Jaime II da Inglaterra, que era católico. Esse foi um dos poucos casos em que os habitantes da cidade receberam de braços abertos a intervenção estrangeira, que foi comemorada com uma estátua na cidade em homenagem ao Príncipe William.

Agora, para muita gente em Brixham, o inimigo não é um único invasor, mas a reunião de todos eles na União Europeia.

Os moradores do local se queixam de Bruxelas especialmente por sua Política Pesqueira Comum, que há décadas permite que toda a frota pesqueira europeia tenha acesso às águas da região. A política se mostrou desastrosa já que o volume de pesca permitido é alto demais, de acordo com Robin Churchill, professor de Direito Internacional na Universidade de Dundee, na Escócia, destacando que a população de bacalhau entrou em colapso no início dos anos 2000.

Outros especialistas argumentam que as águas britânicas já sofriam com a sobrepesca muito antes das políticas pesqueiras entrarem em vigor em 1983. Além disso, eles citam algumas medidas bem sucedidas de recuperação da população de peixes a partir de 2003, quando a União Europeia passou a exigir que os pescadores reduzissem o tamanho das frotas e limitassem o total de dias de pesca por ano. Os cientistas afirmam que o bacalhau do Mar do Norte está se recuperando vigorosamente e a pesca provavelmente será sustentável a partir do ano que vem.

Isso não teria acontecido sem que a União Europeia pressionasse o governo britânico, que era próximo demais do setor pesqueiro, afirmou Howard Wood, diretor do Fundo Fiduciário do Leito Marinho da Comunidade de Arran. O grupo visa proteger os habitat marinhos no entorno da Ilha de Arran, na costa ocidental da Escócia.

Caso a Brexit se confirme, afirmou Wood, “temos que torcer para que não voltemos aos velhos hábitos” de ignorar as regras e praticar a sobrepesca.

Brian Tollis, chefe do cais na cidade, está entre os habitantes de Brixham que preferem que o Reino Unido permaneça na União Europeia. “Se sairmos, teremos muitos problemas. Os outros países podem se juntar contra nós em termos de comércio internacional e nossa situação vai piorar.”

Até mesmo o suposto nacionalismo do setor pesqueiro de Brixham não é o que parece ser. Muitos pescadores, incluindo Sharp, empregam filipinos, que ajudam a completar as tripulações, já que muitos pessoas da cidade preferem trabalhar em outras áreas.

Pescadores de outras partes da Europa disputam as águas britânicas em função da abundância e grande quantidade de espécies de peixe. As Ilhas Britânicas se encontram sobre uma enorme plataforma continental que permite que a vida marinha sobreviva nas águas rasas onde a maioria dos peixes são pescados. O Oceano Atlântico no litoral de Portugal e Espanha, por outro lado, conta com populações menores de peixe, já que fica profundo muito rapidamente.

De acordo com as atuais regulamentações da União Europeia, as embarcações britânicas podem pescar mais nas águas do país do que os barcos estrangeiros. Contudo, muitos pescadores de outras partes tiraram proveito das leis europeias para abrir empresas na Inglaterra. Isso permite que eles comprem barcos com bandeira britânica, utilizados para pescar conforme a cota britânica. Uma iniciativa do governo inglês para combater essa prática foi impedida em 1992 pelo Tribunal de Justiça Europeu.

Mais de um terço da frota que opera na costa sudoeste da Inglaterra pertence a estrangeiros, afirmou Jim Portus, ex-regulador de pesca da Grã-Bretanha e atual executivo-chefe do grupo comercial South Western Fish Producer.

Uma vez que essas embarcações vendem os peixes no país de origem de seus donos, afirmou Portus, “eles navegam sob a bandeira britânica, mas não trazem qualquer benefício para o Reino Unido”.

Naturalmente, os pescadores britânicos também têm o direito de pescar na costa de outros países da União Europeia. Mas “essas águas não têm nada que a gente queira”, afirmou Ian Perkes, comprador que trabalha todos os dias no mercado de peixe de Brixham.

Richard Barnes, professor da Faculdade de Direito da Universidade de Hull especializado em leis ambientais marinhas, destaca que caso a Grã-Bretanha saia da União Europeia, o país ainda terá oportunidade de cooperar com cada membro do bloco separadamente, ou de fazer a gestão das populações de peixes em águas transnacionais.

Mas caso o Reino Unido deseje manter um relacionamento de livre comércio com o bloco, afirmou Barnes, isso ainda permitira que os países europeus tivessem acesso às águas britânicas.

Walker, o pescador aposentado de Brixham, se referiu à longa disputa do bacalhau, que só terminou em 1976, quando o Reino Unido concordou em não pescar mais nas águas da Islândia, que não faz parte da União Europeia.

“Costumávamos ir até lá e violar as águas da Islândia. Mas eles chutaram nosso traseiro, e tinham toda razão. Agora eles cuidam dos próprios peixes e vende a produção para nós”, afirmou Walker, cerrando os punhos enormes.

Walker afirmou que gostaria que a Inglaterra recobrasse a mesma autonomia. “Temos as melhores águas da Europa, mas não podemos fazer nada a respeito.”

oglobo.globo.com | 29-04-2016

AGADEZ, Níger – É segunda-feira e isso significa dia de mudança em Agadez, um cruzamento ao norte do deserto do Níger e a principal plataforma de onde saem os imigrantes da África Ocidental. Fugindo da agricultura devastada, superpopulação e falta de emprego, os imigrantes de uma dezena de países se reúnem em caravanas todas as segundas-feiras à noite e iniciam uma corrida louca pelo deserto do Saara em direção à Líbia, na esperança de eventualmente cruzar o Mediterrâneo até a Europa. refugiados

A montagem dessa caravana é uma cena a ser testemunhada. Embora seja noite, ainda faz 40 graus e há apenas uma lua crescente para iluminar a escuridão. Então, de repente, o deserto acorda.

Usando o aplicativo de mensagens WhatsApp de seus celulares, os traficantes locais, vinculados a redes de contrabandistas que se estendem por toda a África Ocidental, começam a coordenar o carregamento clandestino de migrantes que estão em abrigos e porões por toda a cidade. Eles vêm se reunindo há semanas, vindos do Senegal, Serra Leoa, Nigéria, Costa do Marfim, Libéria, Chade, Guiné, Camarões, Mali e outras cidades de Níger.

Com 15 a 20 homens – não há mulheres – amontoados na parte de trás de pick-ups Toyota, seus braços e pernas pendurados para fora, os veículos surgem de becos e ruelas e seguem os carros que partiram na frente para garantir que não haverá policiais, oficiais ou guardas de fronteiras desagradáveis à espreita que ainda não foram pagos. É como assistir a uma sinfonia, mas ninguém tem ideia de quem é o maestro. Eventualmente, todos convergem para um ponto de encontro no norte da cidade, formando uma caravana gigante de 100 ou 200 veículos – a grande quantidade é necessária para afastar os bandidos do deserto.

Pobre Níger. Agadez, que tem casas com paredes de barro ornamentadas, é um notável Patrimônio Mundial da Unesco, mas a cidade foi abandonada pelos turistas depois que locais próximos foram atacados pelo Boko Haram e outros jihadistas. Por isso, como explica um traficante, os carros e os ônibus da indústria do turismo estão sendo reaproveitados na indústria da migração. Há agora por toda a África Ocidental recrutadores, ligados aos traficantes, que trabalham por conta própria e pedem às mães dos meninos US$400 ou US$500 para mandá-los procurar empregos na Líbia ou na Europa. Poucos conseguem, mas outros continuam chegando.

Estou na estação de controle da rodovia de Agadez vendo esse desfile de carros. À medida que os veículos Toyota passam por mim, levantando poeira, pintam a estrada do deserto com incríveis silhuetas de jovens banhados de luar, em silêncio, de pé na carroceria das pick-ups. Pensar que sua Terra Prometida é a Líbia devastada pela guerra mostra o quanto as condições que estão deixando para trás são desesperadoras. Entre nove mil e dez mil homens fazem essa jornada todos os meses.

Poucos concordam em conversar – nervosamente. Um grupo de homens muito jovens de outro lugar de Níger me conta que estão, na verdade, indo se unir à corrida para encontrar ouro em Djado, mais ao norte de Níger. Mais típicos são cinco jovens que, com um francês com sotaque senegalês, contam uma história familiar: não havia emprego em sua vila, foram para a cidade, não acharam trabalho lá, estão indo para o norte.

A revolução na Síria foi provocada, em parte, pela pior seca de quatro anos da história moderna do país – além da superpopulação, tensões climáticas e a internet – e o mesmo acontece com a onda de migração dos africanos. É por isso que estou aqui filmando um episódio da série “Years of Living Dangerously” (Os Anos em que Vivemos Perigosamente) sobre as mudanças climáticas no planeta, que aparecerá no canal da National Geographic no próximo outono. Estou viajando com Monique Barbut, chefe da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação, e Adamou Chaifou, ministro do Meio Ambiente de Níger.

Chaifou explica que a África Ocidental passou por duas décadas de secas não contínuas. Os períodos secos levam as pessoas desesperadas a desmatar as encostas para retirar madeira para cozinhar ou vender, mas agora são seguidos de chuvas cada vez mais violentas, que facilmente lavam o solo estéril, já sem árvores. Enquanto isso, a população explode – as mães de Níger têm uma média de sete crianças –, os pais continuam a ter muitos filhos por causa do seguro social, e a cada ano mais terras férteis viram desertos.

— Hoje perdemos anualmente para a desertificação 100 mil hectares de terras aráveis. E perdemos entre 60 mil e 80 mil hectares de florestas todos os anos — afirma Chaifou.

O normal, segundo ele, é que a estação das chuvas começasse em junho e durasse até outubro.

— Agora temos mais chuvas fortes em abril, e você precisa plantar logo depois que chove — diz ele.

Então, fica seco novamente por um mês ou dois, depois as chuvas voltam muito mais fortes do que antes e causam inundações que levam as colheitas embora. Isso é uma consequência das mudanças climáticas – causadas, diz ele, principalmente pelas emissões do norte, não de Níger e de seus vizinhos.

— A desertificação age como o gatilho. E as mudanças climáticas são o amplificador dos desafios políticos que estamos vendo hoje: migrantes econômicos, conflitos entre etnias e extremismo — explica Monique Barbut. Ela mostra três mapas da África com um esboço oblongo em torno de vários pontos agrupados no meio do continente. O mapa 1 mostra as regiões mais vulneráveis de desertificação na África em 2008. O mapa 2, os conflitos e brigas por comida na África em 2007 e 2008. E o mapa 3, os ataques terroristas na África em 2012.

As três linhas cobrem o mesmo território.

Recentemente, a União Europeia fez um acordo com a Turquia para aumentar muito a ajuda da União Europeia para que Ancara lide com os refugiados e migrantes que chegarem ao país e restrinja seu fluxo para a Europa.

— Se investíssemos uma fração dessa quantia para ajudar as nações africanas a combater o desmatamento, melhorar a saúde e a educação e sustentar a agricultura de pequena escala, que é o meio de sustento de 80 por cento das populações na África, elas poderiam ficar na terra. Seria muito melhor para elas e para o planeta — explicou Michele.

Todo mundo quer construir muros nos dias de hoje, afirmou ela, mas o muro que mais precisamos é um “muro verde”, de reflorestamento que seguraria o deserto e se estenderia de Mali no oeste à Etiópia no leste.

— É uma ideia que os próprios africanos tiveram — contou ela. E faz muito sentido.

Porque, no final, nenhum muro vai segurar essa onda de migrantes. Tudo que você vê por aqui são gritos de que, a não ser que haja uma maneira de estabilizar a pequena agricultura da África, de alguma maneira ou de outra, eles vão tentar chegar à Europa. Os que não podem, com certeza vão gravitar para um grupo extremista que os pague. Muitos hoje sabem pelos meios de comunicação que há uma vida melhor além-mar e acreditam que seus governos são muito frágeis para poder ajudá-los a melhorar.

Entrevistei 20 homens de pelo menos dez países africanos no centro de apoio Organização Internacional para a Migração em Agadez – todos haviam ido para Líbia, tentaram e não conseguiram chegar à Europa e voltaram, mas não tinham dinheiro nem meios de retornar para suas vilas. Perguntei a eles:

— Quantos de vocês e de seus amigos deixariam a África e iriam para a Europa se pudessem entrar legalmente?

— Tout le monde — eles praticamente gritaram, enquanto levantavam as mãos.

Não sei muito francês, mas acho que significa “todo mundo”.

oglobo.globo.com | 28-04-2016

O candidato do partido de direita da Áustria foi o vencedor o primeiro turno das eleições presidenciais neste domingo, reunindo mais de 35% dos votos, melhor resultado da história do partido, e deixando os outros cinco candidatos para trás. Entre os perdedores estão os candidatos da coalizão do governo, refletindo a rejeição dos eleitores e as incertezas no cenário político.

O triunfo de Norbert Hofer ofusca o melhor desempenho obtido anteriormente pelo seu Partido da Liberdade - mais de 27% de apoio nas eleições que definiram a adesão da Áustria à União Europeia. Com a sua vontade declarada de desafiar a coalizão governista pelo partido Social Democrata, de centro-esquerda, e o Partido Popular, de centro, Hofer pode pressionar por novas eleições, caso ele vença a disputa marcada para 22 de maio, na esperança de que seu Partido da Liberdade pode triunfar nas urnas.

Com 98% dos votos apurados, Hofer estava muito à frente de Alexander Van der Bellen, do Partido Verde, que correu como um candidato independente. Ele conquistou pouco mais de 21% de apoio, e vai desafiar Hofer no segundo turno.

Irmgard Griss, também independente, ficou em terceiro lugar. Com pouco menos de 20% dos votos, ela ainda ficou à frente do candidato do Partido Popular, Andreas Khol, e do Social Democrata Rudolf Hundstorfer, ambos com cerca de 10%. O candidato Richard Lugner, que não é do meio político ficou com pouco mais de 2% dos votos.

O chefe do Partido da Liberdade, Heinz-Christian Strache, saudou o "evento histórico" que, segundo ele, reflete a enorme "insatisfação dos eleitores" com a paisagem política tradicional. Ainda assim, Van der Bellen ainda permanece na disputa no segundo turno, e deve ter o apoio de grande parte dos eleitores que votaram nos outros candidatos, na esperança de brecar o avanço do partido de Hofer.

O triunfo de Hofer foi significativo, no entanto, e confirmam pesquisas recentes que mostram a popularidade do Partido da Liberdade. Impulsionado por preocupações sobre a crise de migrantes da Europa, o apoio a seu partido subiu para 32%, em comparação com o pouco mais de 20% para cada um dos partidos do governo.

Os eleitores já estavam descontentes com os social-democratas e o Partido Popular mesmo antes da crise migrante no ano passado, que forçou o governo de coalizão a mudar de uma política de fronteiras abertas para duras restrições de asilo aos refugiados. As polêmicas sobre outras questões importantes, como a política fiscal, previdenciária e reforma da educação, aumentaram a percepção de estagnação política do país.

Uma eventual vitória de Hofer no segundo turno poderia aproximar a Áustria das nações da União Europeia que são contra a entrada de imigrantes, o que complicaria ainda mais a resolução desta e de outras crises no continente.

Van der Bellen prometeu não nomear qualquer político do Partido da Liberdade como chanceler da Áustria, caso ele vença a eleição. A próxima eleição nacional deve ser realizada dentro de dois anos. O presidente tem um mandato de seis anos. Isso deve resultar em possíveis confrontos entre o Partido Liberdade e Van der Bellen, caso ele triunfe. Fonte: Associated Press

GAZIANTEP, Turquia — Em meio aos esforços para aliviar as tensões provocadas pela crise migratória europeia, a chanceler alemã Angela Merkel chegou à Turquia neste sábado para se encontrar com o primeiro-ministro do país, Ahmet Davutoglu. A líder política visitou refugiados ao lado do premier e conversou com as crianças em uma escola. Junto com várias autoridades europeias, a viagem vem como mais uma defesa do acordo migratório em um momento de tensão pelas pressões contrárias ao pacto. refugiadoss2304

Após uma visita a um campo de refugiados na cidade de Nizip, Merkel segue para uma discussão sobre a crise migratória com o presidente do Conselho da União Europeia (UE), Donald Tusk, e o vice-presidente da Comissão Europeia, Frans Timmermans. Aberto em 2013, o local abriga em suas casas pré-fabricadas quase 5 mil refugiados sírios, incluindo 1,9 mil crianças, de acordo com o governo turco.

"Esta visita serve para mostrar como a Turquia e a UE colocam seus esforços em conjunto para enfrentar a crise dos refugiados sírios", afirmou a Comissão Europeia ao indicar que até o momento gastou 77 milhões de euros em vários projetos na Turquia, aos quais devem ser adicionados outros 110 milhões.

A passagem de Merkel pelo campo de refugiados, no entanto, foi criticada por grupos defensores dos direitos humanos, em um pedido para que a Europa olha para as dezenas de milhares de refugiados sírios que permanecem retidos na tentativa de chegar à Turquia.

A visita acontece três semanas depois da entrada em vigor do polêmico acordo entre Bruxelas e Ancara, que pretende dissuadir as viagens marítimas clandestinas de imigrantes e refugiados para a Europa — que enfrenta sua maior crise migratória em 70 anos.

Merkel pediu que líderes europeus apoiassem o acordo para devolver milhares de imigrantes das ilhas gregas à Turquia. Mas as dúvidas sobre a eficácia, a viabilidade a longo prazo e a legalidade da proposta têm crescido. Agora, políticos europeus são pressionados a rever o acordo firmado entre a UE e o governo turco.

Inicialmente, o acordo e o fechamento das fronteiras europeias para impedir que contrabandistas garantissem a passagem de refugiados aos estados do Norte da Europa surtiram efeito. O número de imigrantes recém-chegados à Grécia diminuiu bruscamente. No entanto, a chegada barcos transportando centenas de pessoas por dia indicou que a eficácia da política já tinha expirado.

Na sexta-feira, Merkel defendeu o acordo com a Turquia, afirmando que esta é uma medida correta e importante para ajudar a proteger a fronteira do espaço Schengen junto com os vizinhos europeus.

A agência de refugiados da ONU (Acnur) e legisladores europeus questionam as implicações morais e legais da expulsão de pessoas da Grécia de volta à Turquia. O país é considerado, para muitos, precário em termos de segurança e de direitos humanos.

Merkel afirmou que a visita a Gaziantep permitirá fazer um balanço sobre a aplicação do acordo e decidir ações futuras para ajudar os 2,7 milhões de sírios refugiados na Turquia.

A ONG Anistia Internacional afirma que a Turquia não é um país seguro para os refugiados e acusa Ancara de ter devolvido dezenas de pessoas à Síria, onde a guerra provocou mais de 270 mil mortes em cinco anos.

Os líderes europeus também terão que lidar com a questão da liberdade de expressão e de imprensa na Turquia. Na sexta-feira, teve início o julgamento de quatro professores universitários acusados de propaganda terrorista e de dois jornalistas famosos acusados de espionagem.

oglobo.globo.com | 23-04-2016

RIO - Ministros de países da OCDE reúnem-se nesta segunda-feira, em Bruxelas, com o objetivo de discutir soluções para o excesso de capacidade da indústria siderúrgica mundial. São 700 milhões de toneladas de aço, que acabam jogando os preços para baixo e inviabilizando muitas usinas. A expectativa das siderúrgicas brasileiras, que sofrem com a queda da demanda interna devido à recessão no país, é que sejam acordados no encontro os primeiros passos de um plano de reestruturação do setor em nível internacional, de modo a enxugar esse excesso de aço. Isso poderia abrir portas para as exportações brasileiras, apontadas como a saída para compensar a queda nas vendas domésticas.

Marco Polo, presidente-executivo do Instituto Aço Brasil, que reúne as empresas do setor, participará de um simpósio organizado pela OCDE que acontecerá paralelamente ao encontro de ministros. Ele defende que seja criado um plano de reestruturação que contemple o fechamento de usinas obsoletas, com apoio de programas de auxílio para desempregados, a exemplo do que foi feito na década de 70, o chamado Plano Davignon.

— Temos que retirar a capacidade das usinas obsoletas. A discussão hoje está no que é obsoleto e o que é o estado da arte. As usinas brasileiras têm tecnologia avançada e podem ser beneficiadas por medidas como essa — disse Marco Polo.

O Plano Davignon, lançado pela Comunidade Econômica Europeia — embrião da União Europeia — nos anos 70 consistia em uma série de medidas para reativar a indústria siderúrgica europeia, abalada com a queda das encomendas. O plano previa preços mínimos para os produtos siderúrgicos, cotas de importação e apoio financeiro do Estado para fechamento de unidades e estímulo a demissões e aposentadorias. Etienne Davignon, , idealizador do plano nos anos 70, participará do simpósio em Bruxelas.

MEDIDAS DE DEFESA COMERCIAL

A grande responsável pela oferta excessiva de aço no mundo hoje a China. Desde 2013, quando atingiu o pico do consumo de aço, o país passou a inundar o mercado global com produtos siderúrgicos baratos que não encontravam compradores em casa. Naquele ano, a economia chinesa dava sinais de desaceleração. Mas, apesar da queda do consumo de aço, a produção foi mantida, principalmente devido a dívidas das usinas com bancos locais e à responsabilidade social dessas siderúrgicas — controladas pelo Estado — para manutenção do emprego, escreveu em recente relatório analistas do banco de investimentos Morgan Stanley.

— As siderúrgicas chinesas não tem compromisso com legislação trabalhista nem com resultado (financeiro). Por isso, continuam produzindo e exportando — diz Germano Mendes de Paula, professor de economia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU)

Ano passado, a China exportou 112 milhões de toneladas. A previsão do Morgan Stanley para 2016 é de uma leve queda, para 102 milhões de toneladas. Mas ainda assim o volume é gigantesco, três vezes maior que o da produção brasileira de 2015.

Não à toa, a China é o principal alvo da onda protecionista que tomou conta do setor no mundo todo. Segundo levantamento feito por Germano Mendes, da UFU, das 147 medidas de defesa comercial iniciadas ou que tiveram alguma decisão entre 2014 e 2015, o país é alvo de 116. Em seguida vêm países asiáticos: Coreia do Sul (48), Taiwan (29), Japão (25) e Vietnã (23). Cada medida pode ter mais de um país como alvo e contempla ações antidumping, salvaguardas e pedidos de direito compensatório.

Marco Polo lembra que, caso a China seja reconhecida como economia de mercado, a chance de vitória dos países que abriram os processos contra ela diminui. Hoje, os dados que embasam tais processos têm como referência outros mercados. Com status de economia de mercado, os dados oficiais chineses passam a ser a referência e estes não são considerados confiáveis.

O Brasil é alvo de 9 medidas de defesa comercial no biênio 2014-2015, entre elas a denúncia do governo americano de que empresas brasileiras que exportam laminados a frio para o país estariam praticando antidumping. A conclusão do processo aberto pelos EUA está prevista para julho, mas, segundo decisão preliminar, as empresas serão tributadas em 39,93%. Usiminas e CSN, que produzem esse tipo de aço, serão prejudicadas.

Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, há três investigações de dumping em curso relacionadas a produto siderúrgicos, duas delas contra a China e uma contra a Turquia. Das 11 medidas de defesa comercial que já estão em vigor, seis são direcionadas à China.

oglobo.globo.com | 18-04-2016

BERLIM - O sociólogo Armin Nassehi, da Universidade de Munique, diz que a falta de competência dos governos e da União Europeia na abordagem da crise dos refugiados terminou favorecendo as posições extremistas. migra 1404

Como o senhor explica o fenômeno dos “caçadores” de imigrantes nas fronteiras do Leste Europeu?

No ano passado, predominava a disposição à ajuda aos refugiados. Muitos continuam ajudando, mas desde que os políticos e a União Europeia se mostraram divididos e incapazes de encontrar soluções, aumentou a tendência aos extremos.

Há risco de expansão da extrema-direita como reação à crise dos refugiados?

A extrema-direita está instrumentalizando o tema dos refugiados para conseguir mais adeptos. E realmente está ficando mais forte, como na França ou na Alemanha, porque os governos não têm mostrado competência na solução da crise. A rota dos Bálcãs foi fechada, mas o problema não foi solucionado.

Esse comportamento é manifestação de medo dos aspectos econômicos da imigração ou do terrorismo ou é pura xenofobia?

É xenofobia e, como todo tipo de preconceito contra o estranho, resulta de uma visão estereotipada dos refugiados. Há uma tendência aos extremos porque as pessoas têm dificuldade em entender o momento atual. Na falta de explicações, buscam interpretações simples. Mas se o fenômeno será passageiro ou se ficará como uma ameaça aos direitos humanos na Europa, vai depender do sucesso ou não das políticas de integração nos países.

Por que o tema divide tanto os europeus?

Desde a queda da Cortina de Ferro, um assunto não empolgou tanto os europeus quanto os refugiados. É um momento histórico. Esse fluxo em massa poderá mudar a Europa, que tem de se organizar como região de imigração. Construir cercas e muros só vai ajudar a agravar a crise e aumentar as chances eleitorais dos extremistas.

oglobo.globo.com | 14-04-2016


O curitibano Alexandre Fontana Beltrão, ex-diretor-executivo da Organização Internacional do Café (OIC), com sede em Londres, foi o diretor mais longevo da OIC, ocupando o cargo por 26 anos, de 1º de abril de 1968 a 30 de setembro de 1994. A organização considera o brasileiro um dos mais influentes e inovadores diretores-executivos da entidade, tendo a liderado em “tempos de grandes mudanças”. A OIC, que por muitos anos regulou o comércio internacional de café, é uma organização destinada a gerenciar a produção e consumo deste grão, reunindo os maiores produtores e consumidores mundiais.
Beltrão nasceu em 28 de abril de 1924 em Curitiba (PR) e foi casado com Anna Emilia Beltrão. Ele estudou na Universidade de São Paulo e na Escola Nacional de Engenharia no Rio de Janeiro. Iniciou a carreira em 1948 como assistente de engenharia no departamento de Mecânica de Solo do Instituto de Pesquisas Tecnológicas.
Segundo a OIC, Beltrão foi um ávido defensor de iniciativas de promoção de consumo de café, contribuiu para o lançamento do Grupo de Desenvolvimento de Café nos EUA durante os anos 1980, e ajudou a Associação Americana de Cafés Especiais, fundada em 1982, em seus primeiros anos de atividade. Ocupou, ainda, o cargo de CEO do Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar), entre 1995 e 1998, modernizando o instituto e ajudando a transformá-lo em um importante centro de ciência e tecnologia.
O paranaense também foi assessor especial do presidente do Instituto Brasileiro do Café (IBC), em 1964, e presidiu o escritório da entidade brasileira em Nova York. Beltrão é autor de livros e estudos sobre o setor cafeeiro e recebeu a Ordem de Rio Branco do Ministério de Relações Exteriores do Brasil.
Jorio Dauster, que presidiu o IBC de 1987 a 1990, foi presidente da Vale de 1999 a 2001 e embaixador junto à União Européia de 1991 a 1999, considera que o maior legado deixado por Beltrão ao setor é a confiança de que a busca da qualidade garantiria ao Brasil a sua primazia nas vendas mundiais de café. Dauster ressaltou, ainda, que como diretor-executivo da OIC na sua fase de consolidação, Beltrão trouxe ao cargo "toda a força de sua inteligência e tato diplomático".
"Sem nunca perder sua condição de grande brasileiro, angariou o respeito de dezenas de países produtores e consumidores por sua isenção, virtude excepcional dos melhores funcionários internacionais", complementou Dauster.
Ele faleceu no último dia 4, no Rio, aos 92 anos. A causa da morte não foi informada. Em memória ao ex-diretor, a OIC publicou em sua página na internet o último discurso feito por Beltrão no comando da entidade, em 30 de setembro de 1994, durante a 65ª Sessão do Conselho Internacional do Café em Londres.

oglobo.globo.com | 13-04-2016

PARIS — Quando me mudei para a Europa, há doze anos, minha maior preocupação era saber se falaria um francês decente algum dia. Praticamente todos os norte-americanos que eu conhecia vieram me visitar, muitos dizendo que também sonhavam em morar ali. Não me preocupava muito com os partidos políticos de extrema direita ou com a União Europeia. Certamente não temia o terrorismo. belgica2803

Parece que foi há séculos.

Um dos fatos mais perturbadores sobre os ataques em Bruxelas, na terça-feira passada, foi a pouca surpresa que causaram. Um dia antes, o ministro do Interior da Bélgica tinha ido a uma rádio nacional para avisar que seu país enfrentava uma ameaça palpável e iminente.

No dia seguinte, membros do Estado Islâmico detonaram bombas em um dos saguões de partida do Aeroporto de Bruxelas e em uma das principais linhas do metrô da cidade. Juntas, mataram pelo menos trinta pessoas e deixaram 300 feridos.

Uma mulher de 47 anos contou ao jornal francês “Libération” que, depois de ver a explosão no metrô, fechou os olhos e disse a si mesma: “Então é isso. Estou no atentado de que estamos falando há meses.”

Uma amiga belga comentou que, no jantar daquela noite, a filha de 14 anos explicou:

— Na escola a gente sabia que Bruxelas seria o próximo alvo. Os terroristas só esperaram a gente baixar a guarda.

A foto mais simbólica da violência mostrava os sobreviventes caminhando em um túnel, às escuras, pelos trilhos do metrô. A imagem representa bem o atual pesadelo europeu: você está lá, fazendo compras, indo para o trabalho, fazendo o check-in no aeroporto – e, de repente, não está mais.

É difícil se ajustar a essa nova realidade. Um médico de pronto socorro me confessou que, antes dos ataques em Paris, em novembro passado – quando diversos grupos usaram coletes suicidas e Kalashnikovs para atirar nos clientes de vários cafés e em uma casa de shows –, muitos de seus colegas nunca tinham visto ferimentos a balas. E os poucos casos que tinham atendido geralmente eram casos de suicídio com fuzis de caça.

Para os europeus, Bruxelas era um lugar sem graça em que ninguém pensava muito — a não ser que tivesse que fazer uma conexão ali. Havia até uma brincadeira no qual o maior desafio era dar o nome de dez belgas famosos.

“Bruxelas, a capital antifanatismo atacada por fanáticos”, dizia a edição de quarta-feira do “Libération”. “Bruxelas é aquela prima que, para todo mundo, basta saber que continua existindo”.

Logo após um atentado, é fácil dizer que tudo parece diferente. As pessoas estão horrorizadas. Os pais deixam os filhos em casa, com medo de mandá-los para a escola. Nos jornais, as manchetes dizem "A Europa em Guerra". Começa a busca tristemente familiar por um bordão. Desta vez, preferi as batatas fritas belgas arrumadas para parecer a mão de alguém mostrando o dedo do meio e, logo abaixo, a frase: "Je suis cansado de toda essa...", concluída com um palavrão.

Em breve, porém, para a maioria, a vida volta ao normal. Inauguraram algumas lanchonetes especializadas em sucos no meu bairro; a loja de departamentos Le Bon Marché está fazendo uma exibição com o ícone norte-americano da moda, a excêntrica Iris Apfel. A Europa ainda tem várias belas capitais cortadas por rios.

Os franceses, em especial, estão decididos a agir como se nada tivesse mudado muito. No fim de 2015, assustada pelas notícias que diziam que as escolas poderiam ser alvos dos próximos ataques, mandei um e-mail para o comitê de pais e mestres do colégio dos meus filhos, sugerindo que, dada a ameaça, deveríamos nos reunir para discutir como melhorar a segurança.

Quando quase ninguém respondeu, fiquei pensando se não estava tendo uma reação exagerada tipicamente norte-americana. Um pai me explicou, na calçada mesmo, que as escolas devem ser lugares abertos. O próprio diretor falou que, a princípio, não via razão para mudanças. Poucos meses depois, um grupo de pais se organizou para lidar com um tipo de crise bem diferente: a garotada do segundo ano ainda não tinha aprendido a conjugar o verbo "être" (ser/estar em francês).

A verdade é que a Europa parece, sim, um lugar diferente do que era há um ano. E não é só por causa da ameaça de bombas em malas: tem também a crise que vem atingindo o continente todo de uma vez. Mais de um milhão de imigrantes e refugiados chegaram aqui nos últimos quinze meses, a grande maioria da Síria, Afeganistão e Iraque – e não importa que essas pessoas estejam fugindo de uma violência muito pior do que a estamos vendo na Europa, também perpetrada pelo Estado Islâmico. Os partidos de extrema direita estão se fortalecendo cada vez mais por demonizá-los.

PROVA DE FOGO

Tudo isso serve de teste para saber se a União Europeia – que a maior parte das pessoas aqui já chegou a ignorar – vai se manter unida. Em junho, os britânicos decidem se continuam no bloco. Em pesquisa recente, a maioria dos franceses manifestou o desejo de fazer a mesma coisa.

Embora os governos anunciem novos – e preocupantes – poderes para frear o terrorismo, não conseguem entrar em um acordo para compartilhar informações vitais, não sabem como os membros das células terroristas franco-belgas se comunicam entre si e não concordam em como transliterar os nomes estrangeiros para rastrear os suspeitos de uma fronteira a outra. Salah Abdeslam, que ajudou a orquestrar os ataques de Paris, conseguiu sair do país logo em seguida. Quatro meses depois foi encontrado escondido em Molenbeek, bairro onde foi criado, em Bruxelas.

Esse é um dos fatos mais difíceis de aceitar: europeus atacando suas próprias pátrias. Cerca de 5 mil cidadãos da União Europeia lutam na Síria, a maioria originária de basicamente quatro países: França, Alemanha, Reino Unido e Bélgica, onde levava uma vida comum. Abdeslam, aparentemente, só foi pego porque a polícia reparou em um pedido de entrega de pizza excepcionalmente grande. O plano dos três homens que perpetraram o atentado no Aeroporto de Bruxelas se atrasou um pouco porque a empresa de táxi mandou o carro errado para levá-los até lá.

Até as motivações são reconhecíveis: segundo o ProPublica, um militante belga que estava treinando na Síria ligou para a mãe para perguntar o que o pessoal de Molenbeek andava falando sobre o amigo de vinte anos que se explodiu no Stade de France:

— O que estão falando dele? Estão elogiando? Dizendo que foi corajoso?

Os europeus estão mais vigilantes. Um amigo em Berlim contou que, em uma viagem recente que fez para Dusseldorf, tanto os passageiros como os funcionários ficaram nervosos quando ninguém apareceu para pegar uma mala deixada perto de uma das portas do trem. Um esquadrão antibomba aguardava na parada seguinte e informou aos passageiros que todos seriam levados para uma área de segurança. Foi então que o velhinho turco, dono da mala, acordou e a abriu para revelar uma pilha de roupas.

Apesar de tantos alarmes falsos, é difícil não se manter vigilante. Toda hora eu me pego fazendo os cálculos existenciais mais triviais: vale a pena se arriscar indo ao cinema? Devo deixar as crianças pegarem o metrô para ir à escolinha de futebol? O dia a dia adquiriu tons contraditórios: em um minuto você está no ônibus, apreciando a vista do rio; no outro, já está de olho no cara que leva uma mochila exageradamente grande.

Com isso, a vida dos europeus de pele escura, na casa dos vinte e poucos anos, ficou difícil. A discriminação já era problema antes do terrorismo; agora, os atos grotescos de um punhado de pessoas pioraram a vida de milhões. Ouvi a história de um passageiro do metrô de Paris que, exasperado pelos olhares desconfiados que recebia no metrô, começou lentamente a esvaziar a bolsa que levava só para garantir aos outros passageiros que não tinha bomba nenhuma.

Conforme a "fantasia europeia" se desfaz, quase não recebo mais visitas de estrangeiros. Uma prima que veio de Nova York outro dia disse que sua viagem a Paris era um ato solidário. Minha mãe quer que eu deixe a França de vez.

Os franceses estão aprendendo a viver com mais segurança. Há guardas fazendo revista – ou pelo menos dando uma boa olhada – na entrada de teatros, cinemas e lojas de departamentos. Os alunos do ensino médio podem fumar no pátio da escola porque é arriscado demais deixá-los sair. Há uma grande polêmica em relação à proposta do governo – que, aliás, parece pouco poder fazer para acabar com os ataques – de tirar dos terroristas condenados à nacionalidade francesa.

Desde o atentando em Bruxelas, os europeus começaram a exigir medidas mais práticas. Já estão consultando especialistas em segurança israelenses. E se discute um compartilhamento maior de informações entre os governos. A manchete de capa de quinta-feira do “Le Parisien” foi: "O que precisa mudar agora" – mas a verdade é que, para todo mundo aqui, muita coisa já mudou.

oglobo.globo.com | 29-03-2016

BERLIM - Começou na Europa uma longa era de um tipo de terror antes conhecido apenas no Oriente Médio: o terrorismo suicida, afirma o cientista político Ferhard Ibrahim Seyder, da Universidade Livre de Berlim. O professor, de 65 anos e nascido na Síria, afirma que a União Europeia descuidou da sua segurança nos últimos anos. “A Europa precisa levar muito a sério essa guerra, mesmo que não a chame de guerra”, alerta ele, sob pena de enfrentar consequências desastrosas se não o fizer.

O terrorismo suicida, que antes era conhecido mais no Oriente Médio, vai virar rotina na Europa?

Pelo menos em proporção igual à que acontece em Israel. Isso foi possível porque a União Europeia descuidou da sua segurança nos últimos anos. Embora o risco já fosse conhecido, as fronteiras abertas não foram acompanhadas por medidas eficientes de segurança, e isso tornou possível a formação de perigosas células terroristas, dispostas a tudo para causar a maior destruição possível. bruxelas

Muitos terroristas divulgaram até no Facebook fotos do treinamento que tiveram do Estado Islâmico (EI) na Síria. Como conseguem se esconder depois de voltarem à Europa?

Há na França e na Bélgica, mas também na Alemanha, bairros onde o Estado perdeu o controle. Nesses bairros, onde a maioria da população é contra o Estado, os jihadistas conseguem se esconder sem precisar deixar o país. Foi assim que Salah Abdeslam (procurado pelos ataques em Paris, em novembro) conseguiu se esconder na Bélgica por tanto tempo, embora fosse procurado pela polícia.

Como os terroristas são recrutados?

Na mesquita ou através de amigos. Há casos de pessoas bem-sucedidas que aderem, mas a maioria é de jovens que se sentem discriminados e excluídos da sociedade. Eles sofrem uma lavagem cerebral que faz com que estejam dispostos a virar um homem-bomba. Entre 2004 e 2010, lecionei na Universidade da Jordânia, em Amã. E fiquei mais do que surpreso quando alguns estudantes me perguntaram se havia algo na vida mais importante do que a religião. Eu respondi, “claro que sim, a vida, o humanismo”, etc. Mas eles tentaram argumentar que a religião era mais importante do que qualquer outra coisa.

Qual é o papel do Islã, então?

O terrorismo da jihad está diretamente ligado à religião. Muitos trechos do Alcorão dizem que os não crentes devem ser aterrorizados. Mas é interessante observar também que um outro fator pouco abordado tem sua parcela de influência. O livro “Os condenados da Terra”, de Frantz Fanon, um filósofo francês da Martinica, obra dos anos 1960 que havia caído no esquecimento e foi redescoberta, é também uma espécie de Bíblia dos jihadistas, por pregar a violência como um instrumento contra a violência colonial da qual se julgam vítimas.

Que medidas a Europa vai tomar para combater o terrorismo?

A Europa precisa levar muito a sério essa guerra, mesmo que não a chame de guerra. Não é preciso muita fantasia para se imaginar o que os terroristas já cogitam: atacar usinas de energia atômica.

oglobo.globo.com | 25-03-2016

BERLIM – Pressionada pela crise dos fugitivos, a União Europeia resolveu ignorar valores básicos como democracia e liberdade de imprensa. É o que sustenta o cientista político Hüseyin Bagci, da Universidade de Ancara, que alega que o governo turco está em posição vantajosa para negociar, mesmo com a ocupação do jornal “Zaman” e os ataques contra curdos — porque a UE depende da sua ajuda para resolver a crise.

“A Turquia vai continuar a aumentar o seu preço e planeja exigir, depois dos seis bilhões já negociados, três bilhões de euros por ano para resolver a crise dos refugiados para a União Européia”, disse Bagci em entrevista ao GLOBO. Turquia

Houve até agora algum tipo de pressão da União Europeia contra a Turquia em reação à intervenção no jornal "Zaman"?

Não. Até agora a UE poupou a Turquia de críticas. O assunto foi mencionado apenas superficialmente. A UE parece ter esquecido os seus valores básicos como democracia e liberdade de imprensa em consequência da crise dos refugiados. O presidente Recep Tayyip Erdogan fez da Turquia um estado autoritário, com perseguição de jornalistas críticos. O "Zaman" não é um caso isolado. Já no ano passado o jornal “Bugun”, que fazia críticas ao governo, passou a ser controlado pelo Estado. O "Zaman" era porta voz do movimento “Hizmet”, fundado pelo pregador Fethullah Gülen, que foi até há dois anos aliado de Erdogan. Depois, Gülen e o "Zaman" mudaram de posição e passaram a ser o que mais criticava o governo. O conflito entre os dois foi escalando nos últimos anos. Os jornalistas do "Zaman" já receavam o pior. Alguns fugiram para o estrangeiro para evitar uma prisão.

Os turcos ficaram surpreendidos com o novo status da Turquia na UE?

Antes da crise dos refugiados, a UE exigia mais da Turquia dos que o fez no caso de alguns países do Leste Europeu que já são membros do bloco. Mesmo a chanceler Angela Merkel, que até há pouco tempo defendia uma “parceria privilegiada” entre a Turquia e a UE, para evitar o ingresso do nosso país no bloco, passou a defender uma aceleração das negociações. Em um aspecto o povo turco tem opinião idêntica a do governo. O preço cobrado pelos turcos deve ser alto. E a Turquia vai continuar aumentando o seu preço. Depois dos 6 bilhões de euros já definidos, Ancara quer aumentar de novo o seu preço, passando a exigir 3 bilhões por ano, enquanto a crise durar.

Em troca do dinheiro e de outras facilidades, como o fim da exigência do visto para turcos na UE, a Turquia vai segurar os refugiados, evitando que eles continuem viagem para a Grécia?

Evitar a viagem para a Grécia não vai ser possível, porque é muito difícil um controle no mar. Mas alem das medidas já anunciadas, que preveem que a Turquia receba de volta refugiados que já estão na Grécia, a Ancara já começou a reduzir dramaticamente o número de fugitivos vindos da Síria. Ao longo da fronteira de 822 km, só podem passar idosos, doentes e crianças. Os outros não são mais aceitos.

A crise dos refugiados será resolvida, pelo menos para a UE?

O número de refugiados que vem para a UE vai praticamente zerar. Mas a crise não pode ser considerada resolvida. Ainda ontem morreram 18 pessoas, afogadas ao tentar atingir o território grego, da UE, através do Mar Egeu. E o motivo da fuga, que é a guerra, ainda não acabou.

É verdade que a Turquia forneceu armas para o Estado Islâmico?

No início, muitos forneceram armas para os islamistas porque os julgavam oposição à ditadura de Assad. Depois a Turquia reconheceu que foi um erro, mas evita admitir isso publicamente, embora todo mundo saiba que o fluxo de fornecimento de armas para o EI ocorria através da Turquia. Setenta por cento dos turcos são contra um possivel envolvimento, mesmo indireto, da Tuquia na luta contra Assad.

Depois dos últimos atentados há o receio de que alguns dos conflitos da Síria e do Iraque sejam importados?

Os atentados causaram uma grande apreensão. As pessoas têm medo de que ocorram novos atentados. Mas apesar do tema minorias curdas da Síria e do Iraque, que querem autonomia, o conflito não será importado. O Iraque e a Síria são estados que fracassaram. Já a Turquia, apesar de todos os seus problemas, da falta de liberdade de imprensa, é muito mais estável. E é, além disso, país membro da Otan e candidato à UE.

oglobo.globo.com | 08-03-2016

Os líderes do G-20 devem tratar de grandes temas, como distribuição de renda e a estrutura de nosso sistema financeiro, para combater as causas profundas da fraca demanda global.

As políticas macroeconômicas foram importantes para estabilizar a economia global, mas já não são suficientes para enfrentar a fragilidade e o baixo crescimento do atual ambiente econômico. Em especial, elas não conseguem resolver a persistente debilidade da demanda, menos ainda estimular um novo aumento da produtividade.

Tais políticas possuem uma munição bem mais limitada hoje do que há oito anos, quando eclodiu a crise global. A política monetária em várias nações desenvolvidas está em torno de zero, e as taxas de juros dificilmente podem ser reduzidas ainda mais. As políticas fiscais em alguns países estão mais contidas hoje do que estavam antes da crise.

De fato, a dívida soberana em economias desenvolvidas cresceu de 70% para mais de 100% do PIB. Enquanto alguns países, como a Alemanha, podem usar a política fiscal para estimular o investimento público na infraestrutura necessária e assim promover o crescimento, para muitas nações esta política não é uma opção devido ao limitado espaço fiscal.

É hora de olhar para as causas mais profundas que subjazem ao enfraquecimento da demanda global, à desaceleração do comércio e do crescimento econômico em geral.

A primeira questão é a distribuição de renda. A parcela da renda nacional que vai para o trabalho vem declinando globalmente, o que significa que o crescimento da produtividade não resulta em aumentos de renda para os trabalhadores, mas sim para os donos do capital.

A participação do trabalho no setor corporativo nos EUA, por exemplo, caiu de mais de 65% nos anos 1970, para menos de 60% há alguns anos, e declínios similares são verificados em Japão, China e Alemanha. Além disso, boa parte do crescimento do PIB está fluindo para a parcela 5% mais rica da população.

Estas são mudanças estruturais muito profundas em nossas economias. Sem dúvida, elas merecem atenção do G-20 quanto às suas causas subjacentes e suas consequências econômicas.

Há explicações distintas sobre as razões desse fenômeno, variando de mudanças técnicas e o uso de robôs para aumentar a integração global à transição do poder político. Mas, independentemente das causas da mudança na distribuição de renda, ela tem implicações para a demanda agregada e o futuro do Estado de bem-estar social. Ela também vai afetar a cooperação internacional sobre a taxação de capital e a estabilidade e prosperidade de nossas economias em geral.

A segunda questão tem a ver com a estrutura de nossos sistemas financeiros. Pesquisa recente mostra que os sistemas financeiros com uma grande estrutura bancária relativa aos mercados de ações e de títulos estão associados a mais riscos sistêmicos e menor crescimento, sobretudo durante crises no setor imobiliário.

Prover as condições estruturais corretas para o desenvolvimento de mercados de capital, e regular de forma adequada o sistema financeiro como um todo é, portanto, essencial para a estabilidade e o crescimento, particularmente na União Europeia e na China.

Embora alguns argumentem que as reformas estruturais correm o risco de se tornarem deflacionárias em um ambiente de baixa inflação, as medidas corretas podem ter um impacto positivo.

De fato, algumas reformas podem estimular o investimento quase imediatamente. O estabelecimento de um registro de terra adequado na Grécia, a liberalização do transporte rodoviário, o melhoramento da eficiência do sistema judiciário, a melhoria das instalações de educação e a integração e o aprofundamento dos mercados poderiam ter consequências benéficas para a inflação e a demanda. Aplicar reformas que permitam o aumento da produtividade devem induzir o investimento.

Muitas reformas são específicas em nível nacional, mas essas grandes questões de reformas estruturais são relevantes para todos os países do G-20. Há espaço para iniciativas conjuntas em todo o bloco, assim como o aprendizado de experiências bem-sucedidas e o estabelecimento de padrões.

Numa época de fraca demanda, os países do G-20 devem realizar reformas que disparem rapidamente investimentos, e as políticas macroeconômicas de apoio devem complementar estas reformas. Mudar a distribuição de renda e fortalecer a resistência e a diversidade de nosso sistema financeiro deveriam estar no âmago da agenda de reforma estrutural que a China rapidamente identificou como prioridade crucial de sua presidência.

Guntram B. Wolff é diretor do Instituto Bruegel, de Bruxelas

oglobo.globo.com | 08-03-2016

RIOPara António Costa, analista político e professor da Universidade de Lisboa, a vitória do conservador Marcelo Rebelo de Sousa nas eleições presidenciais de Portugal vai equilibrar as forças políticas e levará confiança aos mercados e à União Europeia (UE). Segundo Costa, o novo presidente de centro-direita deverá ter uma postura conciliadora com o governo liderado pelos socialistas. Portugal

Professor de Direito Constitucional e famoso comentarista de televisão, Sousa foi eleito no primeiro turno com 52% dos votos, uma ampla vantagem em relação a seu oponente mais próximo, o independente de esquerda António Sampaio da Novoa, com 22,01%.

A vitória de Marcelo Rebelo de Sousa colocaria em risco o governo socialista?

Ele é o mais centrista da centro-direita e não colocou o governo socialista em xeque. Disse que não seria inimigo e que queria unir os portugueses que ficaram muito divididos com a formação de um governo de esquerda. Fez uma campanha muito conciliadora entre esquerda e direita.

Como o resultado mexe nas forças políticas?

Temos um governo do Partido Socialista com a novidade de ser apoiado por legendas mais à sua esquerda e, agora, com um presidente de centro-direita, o sistema fica mais equilibrado. Marcelo fez uma campanha eleitoral muito ao centro, independente dos partidos, focada nele e em sua popularidade. Isso significa que ele pode ter muita autonomia. Para ganhar mais de 50% dos votos, Marcelo teve que buscar mais apoio do que o obtido pela coligação de centro-direita nas últimas eleições.

Sua popularidade foi determinante para a vitória?

Sousa ganhou sobretudo por causa de sua presença midiática nos últimos 20 anos e não necessariamente pelo apoio dos partidos de centro-direita. Ele é professor de Direito, foi deputado e secretário-geral do Partido Social Democrata (PSD), do ex-presidente Pedro Passos Coelho. Nos últimos anos, todos os domingos, tem participado de um programa de TV como analista político. É muito conhecido no país.

A continuidade de um presidente de centro-direita acalma o mercado e a União Europeia?

Haverá mais confiança. Ele é partidário do euro, da estabilidade e das relações com a UE. Apesar de ter dito que não dissolverá o Parlamento, acredito que ele não hesitaria em convocar eleições e derrubar o governo se houver problemas.

Então o presidente deve pressionar os socialistas?

No semipresidencialismo português, um presidente não governa, mas tem poderes informais. E o seu poder é sempre maior quando o governo é minoritário. Neste ano, a principal ameaça não vem do presidente de centro-direita, mas principalmente da dificuldade financeira para se cumprir os acordos firmados com os partidos da coligação de esquerda. Tendo que manter a meta de déficit da UE, o governo socialista pode não ter condições de cumprir o aumento do salário mínimo, por exemplo. Em dezembro, o governo foi obrigado a salvar um banco sem apoio da esquerda.

A existência de dez candidatos neste pleito demonstra uma falta de liderança nos partidos?

Vários políticos da esquerda se postularam para tentar forçar um segundo turno com o candidato de centro-direita. Na esquerda, também há cada vez mais mulheres dirigentes políticas. As três principais dirigentes do Bloco de Esquerda são mulheres. E, com o passar dos anos, a conquista de sete mil assinaturas para se candidatar tornou-se algo fácil. (C.J.)

oglobo.globo.com | 25-01-2016

RIO — Em eleições presidenciais marcadas pelo número recorde de candidatos e pela alta taxa de abstenção, o veterano de centro-direita e comentarista político Marcelo Rebelo de Sousa foi eleito neste domingo com folga no primeiro turno, com um discurso conciliador e a promessa de colaborar com o governo socialista. Sem apoio político e econômico de seu partido, tampouco de empresários, o conservador e estrela de TV obteve 52% dos votos, desbancando o independente António Sampaio da Nóvoa, ex-reitor da Universidade de Lisboa, que somou apenas 22,74%%.

Em seu discurso de vitória, na noite de ontem, Sousa disse que vai trabalhar para promover o consenso e reparar divisões criadas após as eleições de outubro, quando a esquerda derrubou um governo de centro-direita que impôs duras regras de austeridade no país. Ele já havia se mostrado favorável a um governo de “coabitação” — termo usado para se referir a um presidente eleito por uma maioria diferente da parlamentar.

— Esta eleição termina um processo eleitoral muito longo que enervou o país e dividiu uma sociedade já ferida por anos de crise. É hora de virar a página, acabar com o trauma e iniciar uma pacificação econômica, social e política — afirmou Sousa, professor de Direito Constitucional e membro do Partido Social-Democrata (PSD), diante de dezenas de simpatizantes na Universidade de Lisboa.

Conhecido como “professor Marcelo”, ele se mostrou bastante conciliador com o governo de esquerda liderado por António Costa, seu ex-aluno na Faculdade de Direito de Lisboa.

— Não serei o presidente de nenhum partido — prometeu, declarando que deseja ser “um árbitro acima das confusões”.

Para o analista político Tiago Fernandes, da Universidade Nova de Lisboa, o novo presidente deve cumprir sua promessa e estabelecer uma relação de cooperação com os socialistas. Dois meses após sua turbulenta formação, o governo se divide entre as pressões da União Europeia (UE) para o cumprimento do déficit e as expectativas de seus aliados de esquerda, que exigem um alívio na política de austeridade.

— Pelo menos no primeiro momento, Marcelo terá boa uma relação com o governo de esquerda e o ajudará a ter estabilidade — avaliou Fernandes, em entrevista ao GLOBO, de Lisboa.

Apesar de ter funções fundamentalmente honorárias, o presidente tem em mãos uma prerrogativa considerada uma “bomba atômica”: o poder de dissolver o Parlamento. Fernandes, no entanto, considera algo improvável.

— Marcelo não tem razões para destituir o Parlamento. Só se houver algo realmente muito forte. O governo socialista está no início e tem apoio eleitoral e dos parlamentares — disse o especialista.

Mais de 9,7 milhões de eleitores em Portugal e no exterior foram convocados às urnas para eleger o novo presidente para os próximos cinco anos, após uma década em que o também social democrata Aníbal Cavaco Silva ocupou o Palácio de Belém.

A liderança clara de Sousa nas pesquisas e o papel principalmente cerimonial da figura de presidente no país não conseguiram chamar a atenção do público. A taxa de abstenção ficou em 51,16%, depois de um recorde de 53,48% na disputa presidencial de 2011.

DUAS MULHERES NO PÁREO

No total, dez candidatos participaram da disputa, um número recorde para eleições presidenciais em Portugal. Foi a primeira vez em 30 anos que uma mulher participou da disputa.

Marisa Matias, a candidata do Bloco de Esquerda, próximo ao grego Syriza e ao espanhol Podemos, surpreendeu ao ficar em terceiro lugar, com 10,14% dos votos, à frente da ex-ministra socialista Maria de Belém Roseira (4,26%).

A cerimônia de posse do novo presidente está marcada para 9 de março. De acordo com a Constituição, ele poderá usar sua prerrogativa de dissolução do Parlamento somente a partir de abril, quando se completam seis meses das eleições legislativas de outubro.

oglobo.globo.com | 24-01-2016

WASHINGTON — Além da questão humanitária, o recebimento de refugiados pela Europa pode, no fim das contas, ser uma vantagem econômica para os países receptores. O estudo “Onda de refugiados na Europa — desafios econômicos”, publicado na manhã desta quarta-feira pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) afirma, contudo, que os benefícios somente serão sentidos se os refugiados forem rapidamente integrados à sociedade e ao mercado de trabalho. refugiados

O estudo indica que, em 2015, o fluxo de refugiados deve ter acrescentado 0,15% da população europeia. Nos doze meses encerrados em outubro, o total de pedidos de asilos tinha sido de 995 mil, um novo recorde, superando os 670 mil de 1992, após a queda do Muro de Berlim e da desintegração da Iugoslávia. Para o FMI, no curto prazo, o efeito é pequeno no crescimento da economia, nas mesmo assim tende a ser maior que o aumento de gastos públicos.

“Despesas dos requerentes de asilo nos países da União Europeia poderiam crescer de 0,05 a 0,1 ponto percentual do PIB em 2015 e 2016”, afirma o texto, lembrando que os dados são experimentais. Em alguns países, o impacto poderá ser bem maior, como na Suécia (de 0,2 a 0,7 ponto percentual do PIB) e da Alemanha (de 0,12 a 0,27 ponto percentual do PIB).

“Já o PIB deverá crescer cerca de 0,05% (2015), 0,09% (2016) e 0,13% (2017)”. Novamente, o impacto será diferenciado e a Áustria pode ver seu PIB 0,5% maior, a Suécia um incremento de 0,4% e da Alemanha de 0,3% nestes anos. Mas, no longo prazo, os impactos tendem a ser positivos, se estas populações forem bem integradas. “Em 2020, o nível do PIB ficaria 0,25% maior na União Europeia como um todo, e o incremento pode ser de 0,5% a 1,1% nos três países que mais recebem refugiados (Áustria, Alemanha, Suécia)”, diz o documento.

Além do impacto na demanda de produtos e serviços, como habitação, a chegada dos imigrantes pode rejuvenescer a força de trabalho de diversos países e trazer novas criatividades para as nações europeias. Um estudo recente mostrou que 21% dos sírios que estão migrando para a Alemanha possuem curso superior completo, percentual próximo ao dos alemães (23%). A integração social, laboral e de educação é apontado como fundamental pelo estudo de 50 página.

O levantamento do FMI leva em conta que alguns países, como a Suécia, já contam com 14,8 refugiados para cada grupo de 1.000 habitantes. Nos países vizinhos à Síria, contudo, o número é muito maior: 323 por mil no Líbano e 87 por mil na Jordânia.

O FMI alerta ainda que a crise dos refugiados deve aumentar. O fundo contabilizou que em 2014 60 milhões de pessoas foram deslocadas à força em todo o mundo, sendo o maior número desde a Segunda Guerra Mundial. Destes, 14,4 milhões eram refugiados. Além do problema sírio, conflitos na África devem continuar ampliando a onda migratória. O estudo indica, contudo, que o continente mais pobre do mundo foi o que mais recebeu pedidos de refugiados -- sobretudo de fugidos de países vizinhos: 39% em 2014. Na sequência, aparecem a Europa (32%), a Ásia (14%), a América do Norte (11%), a América Latina (2%) e a Oceania (1%).

oglobo.globo.com | 20-01-2016

VALE HEFER, Israel – O novo branco fresco, ácido e mineral de uma vinícola de qualidade de Israel envelheceu oito meses – ou, dependendo de como você prefira olhar para o fato, pelo menos 1.800 anos. O vinho, chamado marawi e lançado em outubro pela Recanati Winery, é o primeiro produzido comercialmente pela crescente e moderna indústria israelense com uvas locais. Ele nasceu de um projeto inovador da Universidade Ariel na Cisjordânia ocupada que tem como foco usar testes de DNA para identificar – e recriar – vinhos antigos bebidos por gente como o rei Davi e Jesus Cristo.

Eliyashiv Drori, enólogo da Ariel que liderou a pesquisa, seguiu o marawi – também chamado de hamdani – e as uvas jandali até o ano 220 a.C., baseado em uma referência no Talmude da Babilônia.

"As nossas escrituras estão cheias de vinhos e uvas – antes dos franceses começarem a pensar em fazer vinhos, estávamos exportando a bebida. Temos uma identidade muito antiga e, para mim, reconstruí-la é importante. É uma questão de orgulho nacional."

O redesenvolvimento de castas locais, no entanto – como tantas coisas nessa terra contestada – não está livre de fricção política. Ela vem junto com as novas diretrizes de rotulagem polêmicas lançadas pela União Europeia, que exigem que os vinhos da Cisjordânia e das Colinas de Golã tenham uma etiqueta dizendo que foram feitos em assentamentos israelenses. E os palestinos têm suas próprias reivindicações de propriedade sobre essas uvas.

Para os produtores de vinho de Israel, a busca por castas novas/velhas é uma oportunidade de distinguir seus produtos em um mercado global competitivo em que eles têm poucas esperanças de ser melhores, por exemplo, do que um chardonnay francês. Os arqueólogos e geneticistas estão testando novos métodos para analisar velhas sementes queimadas. Na luta sem fim entre israelenses e palestinos, é uma busca para reafirmar as raízes judaicas na terra santa.

Mas a Recanati não é a primeira a vender vinho dessas uvas. A Cremisan, uma pequena vinícola perto de Belém, onde os palestinos são sócios de monges italianos, vem usando hamdani, jandali e outras frutas locais desde 2008.

"Como sempre acontece com os israelenses, eles declaram que o falafel, o tahini, o tabule, o homus e agora as uvas jandali são produtos de Israel", reclama Amer Kardosh, diretor de exportação da Cremisan, em um e-mail. "Gostaria de informá-lo que esses tipos de uva são totalmente palestinos e crescem em vinhedos palestinos."

Sim, mas as fazendas palestinas que venderam as uvas para a Recanati insistiram em continuar anônimas, por medo da reação de trabalhar com os israelenses, ou apenas de ajudar a fazer vinho, que geralmente é proibido no islamismo. A Recanati, por seu lado, abraçou a herança, usando a língua árabe no rótulo do marawi e contratando um cantor árabe-israelense para cantar no lançamento, em outubro, para 50 sommeliers selecionados.

O viticultor, Ido Lewinsohn, diz que seu produto é "limpo e puro de qualquer influência política", e afirma que as uvas: "Não são israelenses; não são palestinas. Pertencem à região – e isso é algo bonito".

Foram descobertos lagares em Israel – e na Cisjordânia – que datam de tempos bíblicos. Mas a produção do vinho se tornou ilegal depois que os muçulmanos conquistaram a terra santa no século VII. Quando o barão Edmond de Rothschild, sionista de primeira hora e descendente da famosa vinícola de Bordeaux, ajudou a recomeçar a produção local em 1880, trouxe os frutos da França.

Hoje, as 350 vinícolas de Israel produzem 65 milhões de garrafas por ano. Há tempos o viscoso e doce Manischewitz foi ofuscado por chardonnays, cabernets, merlots, syrahs, carignans e outros de alta qualidade. Mas não há muito para onde ir com as uvas importadas.

"Ainda não conseguimos criar um DNA para os vinhos israelenses", lamenta Haim Gan, dono da Grape Man, uma empresa que defende a cultura vinícola de Israel.

Drori, que é doutor em Agricultura, começou em 2005 uma vinícola boutique, a Gvaot, perto de sua casa na Cisjordânia. Ali, ele percebeu um vinhedo abandonado com uvas brancas pequenas e muito doces que pensou que poderiam resultar em vinhos saborosos.

Com um orçamento de cerca de US$750 mil, a maior parte do Fundo Nacional Judeu – uma organização sionista de um século que ajuda a transformar o cenário da agricultura de Israel – Drori e uma dezena de colegas identificaram, desde 2011, 120 variedades únicas de uvas cujos perfis de DNA são distintos de todas as importadas. Cerca de 50 foram domesticadas, conta Drori, e 20 delas são "adequadas para a produção de vinho".

Separadamente, pesquisadores identificaram 70 variedades distintas usando DNA e um escaneamento tridimensional, que nunca havia sido utilizado antes dessa forma e com sucesso, de sementes queimadas e secas descobertas em escavações arqueológicas. A ideia é comparar essas sementes antigas com as uvas vivas, ou algum dia talvez recriar a fruta como foi feito no filme "Jurassic Park".

Dadas as dificuldades de conseguir as uvas de fazendeiros palestinos, a Recanati produziu apenas 2.480 garrafas de marawi 2014, que estão disponíveis em cerca de dez restaurantes de Tel Aviv. A vinícola tem perto de quatro mil garrafas de marawi 2015 envelhecendo e espera em breve plantar seu próprio vinhedo para expandir e refinar a marca.

Itay Gleitman, que escreve sobre vinhos para a Haaretz, chamou o marawi de "o vinho israelense mais importante do ano", por sua procedência, se não pelo gosto. Ele diz que é "agradável e fácil de beber" e que "abre um pouco no copo com aromas suaves de maçã e pêssego". E, se a uva for cultivada especialmente para a vinicultura, tem potencial que "estimula a imaginação".

O próximo é o dabouki, também branco, que o conhecido viticultor israelense Avi Feldstein planeja lançar junto com sua nova vinícola em alguns meses. Dabouki pode ser umas das castas locais mais antigas, um bom candidato para o vinho que encheu o copo de Jesus (que Drori acredita que bebia brancos e tintos).

Feldstein diz que tem cerca de 800 garrafas de cada safra de dabouki 2014 e 2015, uma "com gosto de castanha" e a outra "um pouco tropical".

"Se você é um viticultor de verdade, quer expressar um lugar. Sem a região e a diversificação que ela traz, o vinho fica reduzido à uma Coca-Cola alcoólica", diz Feldstein.

oglobo.globo.com | 24-12-2015

ESKISEHIR, TURQUIA — Uma nova linha férrea de alta velocidade, entregue em 2014, agora liga a cidade de Eskisehir a Istambul, no Oeste do país, e Ancara, no Leste. Um rio estreito serpenteia pelo Centro da cidade, pontilhado por belas pontes azuis em praticamente todos os quarteirões, atraindo turistas do mundo todo. As fábricas da cidade produzem de tudo, de bolos e biscoitos a caminhões Ford e peças para aviões.

Ainda assim, apesar da aparência de prosperidade, a economia de Eskisehir sentiu a crise que se abateu sobre o país, à medida que as exportações para a China e o Oriente Médio perderam a força. Além disso, a Rússia interrompeu boa parte do turismo para a Turquia e ameaçou interromper a importação de alimentos do país depois que jatos F-16 turcos abateram um avião de combate russo na fronteira com a Síria em novembro, tornando ainda mais delicada a situação econômica.

— Com a taxa de desemprego crescendo a cada dia, nossa economia perdeu a força — afirma o prefeito de Eskisehir, Yilmaz Buyukersen.

A Rússia é um dos maiores mercados exportadores da Turquia, atrás apenas da Alemanha. A cidade de Eskisehir tem uma grade refinaria que produz açúcar com as beterrabas colhidas nos campos da região e exporta mais de US$ 30 milhões (R$ 116,7) em biscoitos, bolos, bolachas e outros alimentos para a Rússia, de acordo com a câmara de comércio local.

A Turquia estava aumentando o volume de alimentos exportados para a Rússia nos últimos meses, quando os conflitos políticos entre os russos e os países ocidentais levaram à redução das importações de alimentos da União Europeia (UE).

Os russos também estavam entre os principais turistas na Turquia até 2014, quando uma queda no valor do rublo e as sanções do Ocidente geradas pelo apoio aos insurgentes ucranianos levaram a uma queda brusca no número de pessoas capazes de realizar viagens internacionais. A queda no turismo já preocupava os economistas turcos antes mesmo da queda do jato da Rússia.

— O déficit comercial está fora de controle. As exportações não são suficientes para compensar as importações, então o faturamento do turismo é fundamental para manter nossas contas equilibradas — explica o diretor da Faculdade de Economia da Universidade de Bilkent, Erinc Yeldan, nos arredores de Ancara.

Ainda assim, vice-diretor-geral de assuntos econômicos gerais e bilaterais do Ministério do Exterior turco, Cengiz Kamil Firat, observa que a economia do país está em melhor forma do que pode parecer. A decisão russa de desencorajar o turismo, por exemplo, ocorreu justamente no início da baixa temporada turca. O país é basicamente um destino de verão e não espera um grande número de turistas antes do mês de junho.

— Os problemas provavelmente vão ser resolvidos muito antes da estação — aposta Firat.

As exportações turcas para a Rússia corresponderam a 0,8% da produção econômica do país em 2014. Mas Yeldan afirma que, mais importante que o valor do dólar ou as sanções comerciais, é que a Rússia não leve o mercado internacional a deixar de trazer os investimentos necessários para equilibrar o déficit crônico da balança comercial turca.

As dificuldades econômicas da Turquia são preocupantes para o Ocidente. A UE e os Estados Unidos têm buscado ajuda turca para limitar o número de europeus que usam o país como porta de entrada ou saída de áreas na Síria e no Iraque controladas pelo Estado Islâmico.

A crise da economia de Eskisehir, e da Turquia como um todo, vai muito além de lidar com imigrantes indesejados ou com uma possível queda no número de turistas. Muitos mercados emergentes têm enfrentado problemas com a desaceleração do comércio internacional.

A Turquia depende há muito tempo da exportação de produtos manufaturados para a Europa e o Oriente Médio, duas regiões onde a demanda está em baixa nos últimos tempos. Isso se deve em parte à geopolítica e em parte à sobreprodução industrial chinesa, que leva à exportação de produtos com custo baixíssimo para os mercados outrora cativos da Turquia no Oriente Média, na Europa e na África.

Tradicionalmente, o Iraque costumava ser o segundo maior mercado de exportação da Turquia, atrás apenas da Alemanha, mas os anos de guerra afetaram drasticamente as vendas. A Síria, outro importante mercado para a Turquia, está em plena guerra civil e o transporte de produtos através das rodovias que passam pela Síria ou pelo Iraque em direção ao Golfo Pérsico se tornou difícil e perigoso.

— As rotas não estão fechadas. Ainda há muito contrabando e as pessoas precisam disso para viver na Síria — explica Savas M. Ozaydemir, poderoso industrial de Eskisehir ligado à fabricação de telhas, materiais elétricos e ao setor imobiliário. — Mas a queda nas vendas foi de mais de 70%.

Ainda assim, a indústria Turca teve alguns bons momentos e a previsão é de que a economia do país continue a crescer em torno de 3% ao ano pelos próximos anos — menos do que os 5% aos quais a economia turca se habituou nas épocas de vacas gordas, mais ainda assim mais do que a maioria dos países.

Uma das áreas mais fortes é a construção de casas. Temendo instabilidades no mundo árabe, famílias de todo o Oriente Médio estão comprando apartamentos na Turquia. Juntamente com as baixas taxas de juros, isso gerou um boom imobiliário em Ancara e Istambul.

Em Eskisehir, a nova linha de trem de alta velocidade e a transformação de um velho distrito industrial no Centro em um bairro de apartamentos luxuosos levou a um aumento no número de projetos de construção. Mas, por enquanto, muitos proprietários estão preocupados.

— Vivo em Eskisehir há 15 anos e nunca vi a economia tão devagar quanto agora — afirmou Sinan Atinar, dono de uma lanchonete no Centro.

oglobo.globo.com | 23-12-2015

MADRI — O cenário de incertezas, resultado das eleições gerais de domingo, no qual o Partido Popular (PP) saiu vencedor perdendo 62 deputados, deverá durar até o final de março ou início de abril. É estreita a margem de manobra para conseguir a reeleição de Mariano Rajoy como presidente do Executivo espanhol, e, no caso de tomar posse, são igualmente reduzidas as expectativas de um governo estável, que aguente os quatro anos de mandato. Espanha

— Destas eleições não saíram dois blocos, um de esquerda e outro de direita, que competem entre si. Dentro da própria esquerda, com PSOE e Podemos, há disputa pela hegemonia, assim como dentro da própria direita, com PP e Cidadãos. Entrar em acordos minimamente estáveis será muito difícil — disse ao GLOBO o analista político Julián Santamaría Ossorio, ex-presidente do Centro de Investigações Sociológicas.

Na noite eleitoral, Rajoy, diante de seus correligionários, na varanda da sede do PP em Madri, disse que “a Espanha necessita de estabilidade”. Para conseguir formar um governo, são necessários, numa primeira sessão, pelo menos 176 votos a favor. A votação deve acontecer na segunda quinzena de janeiro, no máximo 20 dias depois da posse do novo Parlamento, no dia 13. Se não houver maioria absoluta, 48 horas depois ocorre uma segunda votação, que, nesse caso, se resolve com maioria simples — ou seja, mais votos a favor do que contra. Se o ‘não’ volta a prevalecer, ocorrem novas sessões. Dois meses depois da primeira votação, se não houver uma definição, o Parlamento é dissolvido e são convocadas novas eleições.

‘Oposição pode golpear PP até nocauteá-lo’

O partido de Pedro Sánchez, líder dos socialistas, anunciou ontem que não se absterá: votará contra Rajoy. Isso não significa, no entanto, que esta atitude tenha que se manter em todas as sessões, segundo analistas políticos. Não é improvável que os socialistas demonstrem sua posição política votando contra na primeira sessão, mas negociando sua abstenção na segunda.

— O PSOE pode estar mais interessado eleitoralmente em aparecer como um salvador da governabilidade — opina Josep María Reniu, autor do livro “Formação de governos minoritários na Espanha”.

Por um lado, pode haver pressões por parte da União Europeia, alegando que o panorama atual de crise na Espanha não pode permitir tal situação de indefinição. Por outro, pode ser mais interessante para o PSOE assistir ao desgaste de seu principal rival, num governo fraco, do que apostar na convocação de novas eleições, das quais poderia sair ainda mais debilitado.

— Sem maioria absoluta, a aprovação do Orçamento, a principal lei de um sistema parlamentar, é muito difícil. Sem ela, é impossível levar adiante políticas públicas. Portanto, desta maneira, a oposição iria golpeando o PP até que ele fosse nocauteado. Os socialistas poderiam, então, apresentar uma moção de censura, para acabar com o mandato (do PP). É uma maneira de esperar que a fruta madura caia da árvore — explica Reniu.

Este contexto de tolerância do PSOE a um novo governo conservador se daria, segundo os analistas, na segunda conjuntura mais provável, caso uma grande coalizão com os socialistas seja completamente descartada: uma união do PP com o Cidadãos, que juntos têm 163 deputados.

— O Cidadãos está obrigado a agir. Se não se mexer, será criticado por não usar os votos recebidos, e se aceitar uma coalizão, será igualmente criticado. (O líder Albert) Rivera está numa situação muito complicada — afirma Reniu, que é professor de Ciências Políticas da Universidade de Barcelona.

A terceira hipótese (muito pouco provável, segundo os analistas políticos) seria a formação de um bloco de esquerda dos socialistas, com Podemos e Esquerda Unida. No suposto contexto de que o Podemos estivesse aberto para esta negociação, os socialistas teriam que abdicar de boa parte de seu programa eleitoral e teriam que seduzir nacionalistas catalães para engordar esta maioria.

— Pelo discurso de Pablo Iglesias, interpreto que o líder de Podemos se inclina pela convocatória de novas eleições, apostando que sairá ainda mais reforçado — opina Santamaría Ossorio.

oglobo.globo.com | 22-12-2015

CARACAS — O chefe da campanha chavista para as eleições legislativas venezuelanas, Jorge Rodríguez, chamou de “desempregados” o grupo de ex-presidentes convocados pela oposição para observar o pleito de domingo.

“Facemos uma convocação ao reconhecimento dos resultados em paz, distantes de declarações polêmicas como as que vimos deste grupo de ex-presidentes desempregados”, afirmou Rodríguez em um coletiva.

Rodríguez se referia aos ex-presidentes da Bolívia, Horacio Quiroga; da Colômbia, Andrés Pastrana; da Costa Rica, Laura Chinchilla e Miguel Ángel Rodríguez; do Panamá, Mireya Moscoso, e do Uruguai, Luis Lacalle, e criticou o “triste legado” deixado pelos políticos, e rachaçou o que classificou como “uma tentativa de dar lições e emitir julgamentos sobre a democracia venezuelana”.

Na sexta-feira, os ex-presidentes, convidados pela coalizão opositora Mesa de Unidade Democrática (MUD), exigiram transparência nas eleições legislativas, denunciando um cenário de vantagens ilícitas para os candidatos do governo.

— Esperamos eleições tranquilas, democráticas, transparentes, em que as pessoas possam votar tranquilamente — afirmou Pastrana, um duro crítico do presidente Nicolás Maduro, e que observou que os seis ex-presidentes mantêm sua “preocupação com o contexto em que as eleições serão realizadas”.

Ex-chefe do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), Rodríguez defendeu a confiabilidade do sistema eleitoral venezuelano — automatizado — e disse que está entre os mais seguros do mundo.

— Quantos mortos estão na memória e nas costas de alguns desses presidentes, quantos camponeses mortos em massacres, quanta violação do Estado de direito, dos direitos humanos! — afirmou Rodríguez, que também é prefeito do município de Libertador.

O CNE convidou como uma missão da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e líderes como o ex-presidente do governo espanhol, José Luis Rodriguez Zapatero como observadores internacionais das eleições.

O órgão eleitoral se recusou a permitir uma observação da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da União Europeia, tal como exigido pela MUD, que pode obter uma maioria na Assembleia pela primeira vez após 16 anos de chavismo, de acordo com pesquisas.

Tiros em seções eleitorais

Um dia antes das eleições que podem tirar do governo chavista o controle sobre a Assembleia Nacional, duas zonas eleitorais foram palco de violência. Em Sucre, um sargento da Polícia Militar foi assassinado por homens bêbados que tentaram entrar em um centro de votação. Em Aragua, oito membros de uma gangue conhecida como “El Manota”, renderam três soldados da Força Aérea na Escola Nacional Nueva Venezuela, que funcionará como centro de votação,e roubaram suas armas. Posteriormente foram cercados pela polícia que recuperou as armas e matou o líder da gangue, Yohan Enriques Reyes Tocar.

oglobo.globo.com | 06-12-2015

BRASÍLIA - Em momento de crise, a América Latina não terá outro caminho a não ser investir em inovação e conhecimento tecnológico para crescer e, com isso, evitar que os programas sociais desenvolvidos com êxito na região sejam ameaçados. O Brasil não é uma exceção. O diagnóstico é de Rebeca Grynspan, ex-vice-presidente da Costa Rica, ex-ministra da Economia do país nos anos 1980 e titular da Secretaria-Geral Ibero-americana. Em visita ao Brasil, ela teve, em Brasília, uma série de encontros com técnicos de vários ministérios, entre os quais da Educação e das Relações Exteriores, e, hoje, participará, no Rio, do encerramento do Laboratório Ibero-Americano de Inovação Cidadã.

A senhora prega que a recessão na América Latina ameaça as conquistas sociais. É uma visão generalizada?

É uma percepção generalizada, porque as taxas de crescimento vão ser baixas em todos os países, em torno de 2,5%. Esse crescimento é pouco para a expansão do emprego, fundamental para queda da pobreza e da desigualdade na região.

Qual a solução para os problemas econômicos enfrentados pela América Latina?

Na região não há mais alternativa, a não ser o caminho do conhecimento e da inovação. Esse também é o pensamento de organismos como a OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) e a Cepal (Comissão Econômica para a América Latina). A melhora da competitividade vai depender da produtividade, dos investimentos em ciência e tecnologia e da capacidade de inovar.

Países como o Brasil estão em uma encruzilhada: ou cortam gastos, inclusive sociais, ou aumentam impostos. O que dizer sobre isso?

Estive no Ministério da Fazenda de meu país. E digo que sempre há uma combinação que é preciso usar. Se apenas um instrumento é adotado, então é usado em excesso, e isso não é bom para a economia. Nada em excesso é bom. A combinação de instrumentos que se complementam sempre é o melhor caminho a seguir.

A vitória do empresário e político de centro-direita Maurício Macri na Argentina deve representar uma mudança no panorama político da América do Sul. Como seria esse cenário?

Quando há democracia, sempre há mudanças. Democracia implica alternância de poder.

Macri disse que vai pedir ao Mercosul a suspensão da Venezuela do bloco.

O mais importante que se passa neste momento são as eleições parlamentares na Venezuela. Não sei o que pensa a Unasul (Unidade Sul-Americana de Nações), mas, pela minha cabeça, a solução do processo venezuelano tem de vir através das eleições.

Qual a sua opinião sobre a Parceria Transpacífico (TPP)?

Creio que o fracasso da Rodada de Doha na Organização Mundial do Comércio (OMC) fragmentou o comércio no mundo. Inicialmente, surgiu uma microfragmentação, com um número incontável de acordos bilaterais, formando o que chamamos de tigela de espaguete. Agora vemos uma tendência diferente, uma macrofragmentação. Os acordos são muito grandes, mas não contemplam todo mundo. Alguns latinos estão na TPP e outros não. Todos preferiríamos um acordo na OMC, seria o ideal.

E quanto às negociações entre Mercosul e União Europeia para a criação de uma zona de livre comércio?

É muito importante que Mercosul e União Europeia retomem as conversas. Não devemos nos esquecer de que está em negociação um acordo no Atlântico Norte, formado por Estados Unidos e União Europeia.

Qual a responsabilidade dos EUA e da China nas economias latino-americanas?

A desaceleração da China afeta toda a região, mas especialmente a América do Sul. Já o crescimento dos EUA beneficia, fundamentalmente, a parte Norte da América Latina: América Central e México. A China afeta muito a economia do Sul de duas maneiras: pelos preços das matérias-primas e pelo volume de comércio. A demanda está baixando.

O aumento dos juros nos EUA não vai piorar o endividamento dos países latino-americanos?

O aumento das taxas de juros nos EUA foi antecipado para o mercado. Por isso, não espero um impacto muito grande na dívida dos países. A dúvida é como vai ficar o setor privado.

Há quem compare a situação atual à crise dos anos 1980, por causa da política monetária americana.

Não é verdade. Na época, os governos latino-americanos estavam muito endividados. Estamos em outro momento; os países estão mais bem preparados. A comparação com os anos 1980 é totalmente equivocada. Há 30 anos, não tínhamos instrumentos flexíveis. Os tipos de câmbio eram fixos e, por isso, não era possível se ajustar para internalizar o problema. Estamos em um momento de maior resistência na América Latina para enfrentar o mau tempo.

oglobo.globo.com | 29-11-2015

WASHINGTON - O franco-americano Maxime Larive é diretor do Centro União Europeia na Universidade de Illinois e publicou, em 2014, o livro “Debatendo a Política de Defesa Europeia de Segurança e Compreendendo sua Complexidade”. Estudioso sobre terrorismo, afirma que é preciso uma visão estratégica e evitar retrocessos, do contrário, a França e o Ocidente estarão entrando na armadilha armada pelo Estado Islâmico.

Esta nova fase do Estado Islâmico de ataques no exterior tende a ser intensificada?

É importante para o Ocidente e para a Rússia olharem para o Estado Islâmico além da ameaça que representa para os seus respectivos países e terem uma visão abrangente da ameaça que representa para a maioria dos países vizinhos. Os atentados na Turquia e em Beirute foram horrendos e ainda não receberam tanta atenção das principais capitais ocidentais. O debate nas nações ocidentais está se deslocando em direção a tons xenófobos e mudanças políticas extremas, que podem violar seus princípios democráticos. O Ocidente, e especialmente a França, pode estar caindo na armadilha do Estado Islâmico.

Como o senhor vê a atuação do presidente François Hollande após os ataques?

O presidente francês deu uma mensagem muito forte nos dias seguintes aos atentados, afirmando que a França está em guerra. A mensagem e a atuação dele me lembram muito o que foi feito por George W. Bush após os ataques de 11 de setembro de 2001. O Ocidente e a Rússia estão em um momento crítico e certamente devem agir com precauções. Os erros cometidos pelos Estados Unidos depois de 2001 parecem estar ressurgindo na França, que era altamente crítica à política externa dos EUA sob o presidente Bush. Isso é esquecer a sua própria História apenas 14 anos depois.

O que a morte do líder dos ataques na França pode significar?

A morte de Abdelhamid Abaaoud, suposto autor intelectual dos ataques em Paris, levanta mais perguntas do que respostas. Como ele entrou na Europa? Como poderia se mover tão livremente por toda a Europa? Como foi capaz de orquestrar sofisticados ataques sem alertar as autoridades francesas e europeias? Estas questões são importantes, a fim de impedir futuros ataques.

Como estes ataques podem mudar a Europa?

Os europeus têm desenvolvido uma política complexa e bem sucedida de uma Europa sem fronteiras com o acordo de Schengen. Uma região sem fronteiras não deve ser sinônimo de ilegalidade, e agora há a necessidade de uma maior cooperação entre as polícias e os serviços de inteligência. Em certa medida, as nações europeias estão em uma encruzilhada: ou projeto europeu se aprofunda com mais integração, ou morre.

A França deve fechar nesta semana um acordo com EUA e Rússia. Por que isso é importante?

Conforme anunciado pelo presidente François Hollande, a França está em guerra. A Rússia, um aliado histórico da França, é muito importante, considerando a necessidade de reforçar a cooperação entre UE e Rússia. A maior parte oriental da UE e os países bálticos veem a Rússia como a principal ameaça à sua segurança. Então, se envolver com a Rússia, a fim de lutar contra o EI em solo e encontrar uma solução para Bashar al-Assad é muito importante. Já Barack Obama está demonstrando sua aversão a compromissos militares mais profundos além dos bombardeios aéreos e dos consultores na região. A política externa americana tem sido baseada em contenção em vez de intervenção.

EUA e Rússia podem chegar a um acordo sobre Assad?

Moscou certamente quer ver Assad sobrevivendo à guerra, mas Washington tem sido bastante claro de que não aceitaria um futuro com Assad no comando da Síria. As negociações de Viena, que incluíram o Irã, abriram um caminho para a busca de uma solução política para a Síria. Mas as questões estão abertas e a maioria dos especialistas é incapaz de fornecer uma resposta sobre esta questão complexa.

oglobo.globo.com | 24-11-2015

LONDRES - Sob enorme pressão diante da ameaça de novos ataques terroristas, após a carnificina em Paris, a União Europeia (UE) decidiu apertar os controles de passaportes — nacionais, inclusive — em suas fronteiras com o resto do mundo e admitiu rever o Tratado de Schengen até o fim do ano. O acordo permite que os cidadãos dos 26 países europeus que o assinaram circulem livremente, como se não houvesse fronteiras entre eles. Ainda não está certo em que medida as regras serão alteradas ou se haverá mudanças definitivas.

O fato é que 30 anos após a criação do tratado que, para consolidar a união da Europa, acabou com as fronteiras entre essas nações, o bloco se vê no dilema de fechar os canais de circulação entre terroristas ou preservar um dos seus princípios fundamentais: a livre circulação de pessoas.

Agora, além da identidade dos que cruzam as divisas, as informações sobre cada pessoa serão consultadas numa base de dados europeia comum. A UE deve aprovar em breve a criação do registro de nomes de passageiros aéreos, o PNR europeu (na sigla em inglês). A medida vinha sendo discutida desde 2011, defendida fervorosamente pelos britânicos, mas era bloqueada pelo Parlamento Europeu, que queria preservar a privacidade dos seus cidadãos.

O entendimento dos ministros do Interior e da Justiça, que se trancaram durante algumas horas na sede da UE, em Bruxelas, ontem, é de que o bloco “já perdeu muito tempo” e precisa agir depressa com medidas antiterrorismo urgentes. Em princípio, todos tiveram o cuidado de reafirmar que seriam controles mais rigorosos para fora da área de Schengen, para que a liberdade dentro dela fosse preservada no longo prazo. Mas não se descarta de todo a suspensão temporária do tratado, com o restabelecimento do controle de fronteira para alguns casos.

— Nós desejamos que a Europa, que já perdeu muito tempo sobre um certo número de questões que exigem urgência, tome as decisões que se impõem — sustentou o ministro do Interior da França, Bernard Cazeneuve. — Terroristas estão cruzando as fronteiras da União Europeia.

‘Europeização’ de controles

Para o professor do Instituto de Europa da London School of Economics (LSE), Iain Begg, a UE tem um grande desafio pela frente. Mesmo assim, acredita que, como a livre circulação é um elemento crucial para a construção do bloco, será importante “separar as medidas imediatas de gerenciamento da crise — que poderiam justificar a suspensão temporária de Schengen — dos compromissos de longo prazo e da manutenção da liberdade fundamental que eles preveem”.

Dependendo da calibragem adotada, pode ser que, daqui por diante, a Europa venha a se unir ainda mais num futuro próximo, caso a segurança das fronteiras passe a ser coordenada em conjunto e não apenas em caráter nacional. Begg vê uma aproximação a partir de uma ação conjunta da UE a partir da “europeização” dos controles. Ou seja, haveria um compartilhamento maior do peso da responsabilidade de proteger as fronteiras externas, hoje muito mais a cargo dos países onde elas se mantêm.

Na mesma linha, está em discussão a possibilidade de se criar um espécie de FBI europeu. Mas esta é uma ideia com a qual, segundo ele, não deve se contar no curto prazo.

— É cada vez maior a demanda por um serviço de Inteligência compartilhado sobre terrorismo, o que deve também aumentar a demanda por mais coordenação entre as agências de terrorismo nacionais.

Para o especialista em Europa da Universidade de Glasgow, Thomas Lundberg, os eventos recentes devem mudar a UE, mas é difícil que o bloco abra mão dos seus princípios mais básicos.

— Estamos falando do fim temporário das fronteiras e menos mudanças mais definitivas ou restritivas ao tratado.

A ideia de rever o tratado já vinha sendo ventilada dentro do bloco desde o recrudescimento da crise de refugiados. Mas sempre houve uma resistência muito grande em fechar os canais que permitiam a livre circulação, um dos maiores obstáculos nas negociações. E além de político, o desafio é também técnico. A maioria dos países não tem a tecnologia para comparar os dados dos passageiros com bases policiais de maneira rápida e eficaz.

Nos últimos dias, o governo da Holanda teria chegado a propor informalmente a ideia de uma espécie de mini-Schengen, ou a fronteira dentro da fronteira, para delimitar uma zona que incluiria Holanda, Bélgica, Luxemburgo, Alemanha e Áustria. A livre circulação também é um dos temas mais delicados nas negociações entre a UE e o Reino Unido, que ameaça deixar o bloco. O país não está na área de Schengen e faz o controle das próprias fronteiras para fora da Europa. Mas é obrigado a aceitar visitantes e trabalhadores europeus sem quaisquer restrições. Para coibir a entrada de dezenas de milhares de imigrantes de dentro da própria Europa no país, os britânicos defendem restrições ao trânsito entre os nacionais.

Outra das propostas discutidas passa pelo reforço da capacidade de ação da Frontex, a agência europeia responsável pelo controle das fronteiras.

Na Rússia, parlamentares discutiram ontem a adoção de penas mais severas para delitos ligados ao terrorismo, além da introdução de uma série de medidas de segurança — dentre elas a pena de morte para terroristas. A iniciativa acontece dias depois da confirmação de que uma bomba derrubou um avião russo que sobrevoava o território egípcio, causando a morte de 224 pessoas a bordo, no mês passado. O país também aumentou para 69 o número de aviões nas operações na Síria. Mais de 600 rebeldes foram mortos na província de Deir ez-Zor, segundo o Kremlin.

oglobo.globo.com | 21-11-2015

BRASÍLIA - O embaixador espanhol no Brasil, Manuel de la Cámara, acredita que os atentados ocorridos na última sexta-feira em Paris, deixando pelo menos 132 mortos, vão levar os países europeus a adotarem controles mais rígidos para a entrada de refugiados sírios. Existe a suspeita de que terroristas tenham se infiltrado entre os refugiados para conseguir chegar à Europa.

— Naturalmente, o que aconteceu em Paris é uma das provas de que esta atividade do Daesh (Estado Islâmico) tem como objetivo criar terror na Europa. E naturalmente isso prejudica muito os refugiados sírios que estão fugindo da guerra na Síria. Naturalmente, a questão fundamental não são refugiados, mas acredito que vai ser importante que seja um pouco mais ordenada a ida dos refugiados aos países europeus. Porque não é possível acolher massivamente como estamos fazendo agora. Vai ser muito mais controlado. Naturalmente é importantíssimo a colaboração de todos os países da União Europeia para coordenar as políticas de acolhimento e de controle — disse o embaixador.

Segundo ele, o número de refugiados não vai diminuir, mas a entrada deles na Europa ocorrerá de forma mais gradual. De acordo com o embaixador, na divisão feita entre os países da União Europeia para receber refugiados sírios, coube a Espanha acolher 16 mil.

— Acredito que não redução, mas que vá mais devagar, menos massivamente. De qualquer forma, a maioria dos refugiados sírios vai ficar na região, na Turquia, na Jordânia. A Europa não é capaz, não pode acolher tantas dezenas de milhares — avaliou o diplomata espanhol.

As declarações do embaixador foram feitas antes de entrevista da Diretora Geral de Trânsito do Ministério do Interior da Espanha, María Seguí, que está em Brasília para participar de uma conferência sobre segurança no trânsito.

Entre 2003 e 2013, a taxa de mortos por milhão de habitantes na Espanha passou de 128 para 36. No Brasil, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), esse índice ficou em 234 em 2013. Ela destacou quatro fatores para o sucesso espanhol: a integração com os países da União Europeia, a informatização de dados sobre acidentes de trânsito, a melhoria das estradas, e campanhas de educação no trânsito.

oglobo.globo.com | 16-11-2015

RIO - Após derrubar o governo de centro-direita do conservador Pedro Passos Coelho, o Partido Socialista (PS) enfrenta a difícil tarefa de agradar, ao mesmo tempo, a seus aliados da esquerda radical, ao mercado financeiro e à União Europeia (UE), provando ser possível romper com a política de austeridade sem pôr em risco a frágil recuperação econômica do país.

Liderados por António Costa, os socialistas se uniram ao Partido Comunista (PCP) e ao Bloco de Esquerda (BE) e, pela primeira vez em mais de 40 anos, conseguiram derrubar no Parlamento um governo de centro-direita recém-eleito. A coalizão de esquerda espera que o presidente Aníbal Cavaco Silva lhe dê o aval para a formação de um novo Executivo em breve, embora o conservador não tenha prazo determinado para fazê-lo.

Se Costa assumir como primeiro-ministro, ele terá rapidamente que apresentar o Orçamento de 2016 a Bruxelas, depois de Portugal perder o prazo no mês passado. Apesar de a aliança de esquerda prometer honrar os compromissos orçamentários assumidos com a UE, os investidores reagiram com desconfiança à queda de Passos Coelho - nesta quarta-feira, a agência de classificação de risco Fitch admitiu que poderia rebaixar a nota do país, citando a "instabilidade política".

O programa que põe fim à rota da austeridade será um teste para Portugal, que saiu somente no ano passado da crise da dívida e do programa de resgate internacional, após quatro anos de profundos cortes nos gastos públicos. Entre as prioridades dos socialistas estão reajustar totalmente os salários do setor público - que foram cortados durante a crise - aumentar as pensões públicas mais baixas, reintroduzir quatro feriados e aumentar o salário mínimo.

Em uma medida que reafirma o compromisso com os comunistas de travar as privatizações, o PS moveu-se para tentar reverter a venda da companhia aérea TAP - prevista para ser concluída em 12 de novembro - afirmando que a ação "seria contrária à posição da maioria do Parlamento".

A aliança entre os três partidos de esquerda demandou concessões que, segundo o analista político Pedro Magalhães, da Universidade de Lisboa, resultaram num acordo mais sólido que o esperado, apesar das diferenças ideológicas. A coalizão, no entanto, ficaria potencialmente ameaçada se os objetivos econômicos não forem alcançados, de acordo com o especialista.

— Do ponto de vista político, os partidos fizeram um acordo firme, sem esbarrar em assuntos que são incompatíveis para as legendas, como a continuação no euro. Mas o principal risco é que, se o governo não conseguir alcançar o crescimento esperado, poderia ser forçado a aumentar os impostos, e dificilmente contaria com o apoio do PC e do Bloco de Esquerda, gerando um impasse — afirmou Magalhães ao GLOBO.

Boaventura Sousa Santos, professor da Universidade de Coimbra, destacou a proposta socialista como a ruptura de uma política de cortes "extremamente violenta, que nos últimos quatro anos destruiu a classe média". Ele chamou atenção, ainda, para uma mudança de perspectiva do próprio bloco europeu sobre o tema.

— A UE está passando por uma transformação no sentido de aliviar a política de austeridade — ressaltou Santos.

Para viabilizar um programa que visa, basicamente, a gastar mais sem prejudicar as finanças, o PS desistiu, por exemplo, de diminuir as contribuições para seguridade social, segundo Magalhães. O partido sustenta que medidas como o aumento do salário terão impacto nas receitas fiscais e no PIB.

Resistente à nomeação de um governo de esquerda, Cavaco Silva poderia exigir garantias adicionais aos dirigentes socialistas. Outra possibilidade é manter a coalizão de centro-direita no comando, limitada a um governo de gestão, até que novas eleições sejam convocadas. A realização de um pleito antecipado caberá ao próximo presidente, cuja eleição está prevista para janeiro.

Segundo a analista política Filipa Raimundo, o presidente pode dificultar a tomada de posse exigindo um acordo mais sólido e convincente.

— Cavaco pode se recusar a empossar o novo Executivo enquanto os elementos fundamentais do programa de governo não derem resposta às suas preocupações que são essencialmente de natureza econômico-financeira — disse ao GLOBO.

Em referência velada à rasteira contra Passos Coelho - que amargou o governo mais curto da História do país, mas ainda não renunciou oficialmente - Cavaco Silva afirmou durante uma premiação que "no espírito científico, as disputas não são resolvidas pela força, mas pelo diálogo".

oglobo.globo.com | 12-11-2015

LISBOA - Foi o governo mais curto da História de Portugal. Apenas 11 dias após o primeiro-ministro conservador Pedro Passos Coelho tomar posse para o seu segundo mandato, uma aliança inédita da esquerda derrubou o governo minoritário de centro-direita, abrindo caminho para o fim da política de austeridade. Por 123 votos a favor e 107 contra, o Parlamento aprovou na terça-feira uma moção rejeitando o programa do premier, o que causou sua demissão imediata — a primeira derrubada de um governo por moção desde a redemocratização em 1974. A queda do governo de Passos Coelho colocou Portugal de volta num cenário de incertezas, levantando temores sobre a possibilidade de o país seguir o caminho da Grécia. A formação de um governo de esquerda, no entanto, precisa ainda do sinal verde do presidente conservador Aníbal Cavaco Silva, que já se mostrou contrário a uma alternativa liderada pelos socialistas.

Num desdobramento inesperado e colocando de lado profundas divergências ideológicas, o Partido Socialista (PS) se uniu ao Partido Comunista (PCP) e ao Bloco de Esquerda (BE) para obter maioria parlamentar e apresentar uma alternativa à centro-direita. Após a aprovação da moção, o líder do PS, António Costa, destacou que o Parlamento expressou a vontade da maioria.

— O tabu terminou, o muro foi quebrado — afirmou Costa, que arquitetou a ação para derrubar a centro-direita e pode se tornar o novo premier. — Esse é um novo quadro político, a velha maioria não pode fingir ser o que deixou de ser.

O texto apresentado pelos socialistas ao Parlamento faz duras críticas às tesouradas nos gastos públicos.

“O corte nos rendimentos de trabalhadores e pensionistas, a degradação dos serviços públicos, o desinvestimento na educação e na saúde públicas, os cortes na ciência, a desvalorização salarial, a promoção do trabalho precário e o ataque à segurança social tiveram como principal objetivo não a sustentabilidade das contas públicas, mas sim a alteração da relação de forças em Portugal contra os interesses dos trabalhadores, das famílias, das classes médias e dos mais pobres”, criticou o PS no documento.

Centenas de simpatizantes do governo de centro-direita se reuniram em frente ao Parlamento, cantaram o Hino Nacional e frases de apoio a Passos Coelho, enquanto outro grupo manifestava apoio à coalizão de esquerda, comemorando as chances de corte de impostos e proteção dos benefícios sociais.

A perspectiva de um governo apoiado pelos comunistas e pelo Bloco de Esquerda preocupou investidores, provocando temores de que uma recuperação econômica frágil possa descarrilar, num país que acabou de sair de um programa de resgate internacional no ano passado. O governo de Passos Coelho alertou que recuar com a austeridade poderia colocar Portugal numa rota similar à da Grécia.

— Não precisamos imaginar as consequências. Basta olhar para a experiência recente da Grécia e o custo das suas tentativas de terminar com a austeridade. Mais recessão, mais pobreza, mais desemprego e maior dependência de empréstimos europeus e do FMI — advertiu ao Parlamento a ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, acrescentando que a confiança dos investidores já estava diminuindo.

Diante da pressão e do receio do mercado — a Bolsa de Lisboa caiu 4% anteontem e 0,3% ontem — os socialistas insistem que irão respeitar as regras orçamentárias da União Europeia (UE) e que voltar a conceder maiores rendimentos às famílias deverá impulsionar a economia.

‘PRESIDENTE DEVE CEDER À ESQUERDA’

Após a queda do governo, o presidente Cavaco Silva iniciará um período de consultas com líderes políticos e outras personalidades do país para decidir quem será indicado ao governo. Analistas traçam três cenários possíveis: ou o presidente acaba cedendo e convida o líder do PS para formar um governo de esquerda ou mantém a coalizão de centro-direita no poder — limitada a um governo de gestão — até que novas eleições sejam convocadas.

— Cavaco Silva não tem prazo para tomar sua decisão, mas acredito que ele deve se pronunciar nos próximos 15 dias. A maioria dos analistas prevê que o presidente vai aceitar o governo de esquerda se o Partido Socialista apresentar estabilidade governista e um acordo sólido. Os partidos de centro-direita, por sua vez, poderiam fazer campanha para pedir eleições antecipadas — afirmou o analista António Costa Pinto, da Universidade de Lisboa, em entrevista ao GLOBO.

Caminhando para o fim de seu mandato, porém, Cavaco Silva não tem mais o poder de convocar novas eleições. A antecipação do pleito ficaria, então, a cargo de seu sucessor, com novas votações sendo previstas somente a partir de junho do próximo ano.

O principal desafio do governo socialista, na avaliação de Costa Pinto, será conseguir cumprir o programa de recuperação salarial e, ao mesmo tempo, manter os compromissos orçamentários com a UE.

— O acordo com os partidos à esquerda é muito moderado, não tem críticas ao euro, mas é difícil cumprir. Prometem o fim da austeridade, mas também o cumprimento dos pactos com a UE: de manter o crescimento, a estabilidade e o deficit abaixo dos 3%. Uma das propostas é aumento do salário-mínimo em quatro anos e o fim dos cortes nas pensões para os aposentados — explicou.

O analista político Tiago Fernandes, da Universidade Nova de Lisboa, alertou para uma crise institucional caso o presidente não aprove o governo de esquerda.

— Se Cavaco Silva não aceitar, poderia criar um confronto que seria ruim para a democracia, além de polarizar a sociedade — advertiu.

A coalizão de Passos Coelho venceu com uma vantagem discreta de 38% as eleições de 4 de outubro — consideradas um referendo sobre a política de austeridade. Mantendo a convenção política, ele foi reconduzido ao posto na semana passada pelo presidente. Juntos, os partidos de esquerda obtiveram 50% do apoio do eleitorado.

oglobo.globo.com | 11-11-2015

LISBOA - Os partidos de esquerda de Portugal, que se uniram para garantir maioria parlamentar, aprovaram nesta terça-feira a moção, apresentada ao Parlamento pelo Partido Socialista, que rejeita o programa de direita do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, causando sua demissão, após votação no plenário.

Segundo o jornal português “Diário de Notícias”, a moção foi aprovada com 123 votos a favor e 107 contra, sem abstenções. O Partido Socialista, em uma aliança inédita com a esquerda antiliberal, aspira formar o próximo governo e acabar com as medidas de austeridade fiscal que integram a política adotada pelo governo de direita desde 2011.

— O tabu terminou, o muro foi quebrado — disse o líder socialista, António Costa, secretário-geral do Partido Socialista. — Esse é um novo quadro político, a velha maioria não pode fingir ser o que deixou de ser.

No texto apresentado ao Parlamento nesta terça-feira, o PS afirma que a implementação de cortes na economia não tinham como objetivo ajustar as contas públicas do país, mas foi uma "consciente e deliberada opção ideológica".

"O corte nos rendimentos de trabalhadores e pensionistas, a degradação dos serviços públicos, o desinvestimento na Educação e Saúde públicas, os cortes na ciência, a desvalorização salarial, a promoção do trabalho precário e o ataque à Segurança Social tiveram como principal objetivo, não a sustentabilidade das contas públicas, mas sim a alteração da relação de forças em Portugal, contra os interesses dos trabalhadores, das famílias, das classes medias e dos mais pobres", defende o PS no documento.

EXPERIÊNCIA GREGA

O governo minoritário alertou que recuar com a austeridade pode colocar Portugal numa rota similar à da Grécia, enquanto que a esquerda comemorava a chance de aumentar rendimentos afetados durante a crise financeira, cortar impostos e proteger benefícios sociais.

A ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, alertou o Parlamento que a confiança dos investidores já estava diminuindo, enquanto que a perspectiva de não cortar o déficit orçamentário, de acordo com os compromissos firmados com a União Europeia, poderia levar a uma nova crise da dívida e tornar necessário outro socorro.

"Não precisamos imaginar as consequências. Basta olhar para a experiência recente da Grécia e o custo das suas tentativas de terminar com a austeridade. Mais recessão, mais pobreza, mais falta de empregos e maior dependência de empréstimos europeus e do FMI", disse a ministra.

Centenas de simpatizantes do governo se juntaram em frente ao Parlamento, cantaram o hino nacional e frases de apoio ao primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, enquanto outro grupo aliado a um sindicato apoiava a esquerda. No debate anterior à votação, Costa afirmou o país precisa de um novo governo.

— O programa deste governo não traz respostas à vontade de mudança expressada pelos portugueses. Portugal precisa de um novo governo — declarou Antonio Costa, segundo a AFP.

Nas últimas semanas, o PS, junto ao Partido Comunista de Portugal e o Bloco de Esquerda negociaram um acordo para apresentar uma alternativa ao governo, liderada pelos socialistas.

Passos Coelho ganhou a última eleição em 4 de outubro, mas perdeu a maioria no Parlamento, o que levou à formação de um governo frágil. A oposição se baseia em um artigo da Constituição, ao afirmar que “a rejeição do programa de governo implica na demissão do Executivo”.

oglobo.globo.com | 10-11-2015

BARCELONA — “Já não há pontes, nem terceiras vias entre Catalunha e Espanha. Todas se foram”, sentencia Ferran Requejo, catedrático de Ciências Políticas da Universidade Pompeu Fabra e ideólogo de peso do independentismo catalão. Membro do Conselho Assessor para a Transição Nacional, órgão encarregado de desenhar um futuro Estado independente, Requejo explicita uma tese direcionada e blindada contra o que parece considerar o canto da sereia do constitucionalismo espanhol.

— O que não se vai fazer é entrar na lógica espanhola de uma reforma constitucional e um novo estatuto. Essa é uma etapa superada — assegura o acadêmico.

Estes são, segundo ele, os seguintes passos para o governo da Catalunha em sua marcha até a independência:

— A maioria parlamentar aprovará uma declaração para iniciar a independência. E esta resolução será comunicada formalmente aos governos e organismos internacionais. O governo catalão proporá ao governo espanhol um referendo: sim ou não à independência. Se não atenderem ao nosso requerimento, faremos como se a Catalunha tivesse votado sim e seguiremos nosso caminho, elaborando a futura Constituição catalã e estudando as medidas a adotar no caminho até a independência. É previsível que a tensão vá aumentando. Algumas leis vão ser descumpridas, mas não se vai aprovar leis ilegais. Vai ser um jogo de gato e rato. O Ministério do Interior pode colocar a polícia da Catalunha sob sua obediência e suspender a autonomia. Isso poderia resultar em uma boa confusão.

Mas será que é um panorama viável? Não pode haver distúrbios ou violência?

— Haverá mais tensão e lógicas cada vez mais díspares entre Catalunha e Espanha, mas é viável. Vai durar toda a legislatura. Não vejo que vá haver violência da nossa parte — afirma Requejo, explicando ainda o que será feito caso um referendo não opte pela independência: — Então, terá que se adequar à lógica espanhola da reforma.

Ferran Requejo não espera nada da reforma constitucional porque julga impossível que “o acordo máximo que possam alcançar os partidos espanhóis aproximem-se do mínimo fixado pela maioria parlamentar catalã”, que se assenta sobre três pilares:

— Primeiro: reconhecimento de que a Catalunha é uma realidade nacional diferenciada dentro de una Espanha plurinacional. Segundo: exclusividade na educação, política linguística, saúde, política social e na representação simbólica: bandeiras e hinos, além de participar na política econômica e estar presente na delegação espanhola diante da União Europeia e na diplomacia internacional. Terceiro: aplicar o princípio da “ordinalidade” fiscal e limitar pagamentos ao resto da Espanha a 3% ou 4% do PIB, no máximo.

Nos fóruns secessionistas, vem sendo lugar-comum afirmar que a sociedade espanhola é refratária à cultura do diálogo e da negociação, e que, por isso mesmo, será mais fácil se tornar independente da Espanha do que esperar que o país se reforme. É uma assertiva compartilhada plenamente por Enoch Alberti, outro dos juristas integrados ao gabinete da Presidência do governo catalão que prepara a transição à independência.

— Deixei de ser federalista porque a Espanha não é federalista. A mim e muitos outros nos tiraram da Constituição quando o Tribunal Constitucional, aplicando uma concepção excludente, quebrou o Estatuto de Autonomia de 2006, que teria dado estabilidade política para duas gerações de catalães — afirma Alberti. — Estamos em um momento histórico e não se trata de o PP e do PSOE oferecerem uma proposta, mas de colocarem em andamento um grande consenso constitucional que contemple a opção do referendo. Eu sei que é muito difícil, mas esta é a saída inteligente.

Na outra extremidade interna da Catalunha, a ocupada pelos cidadãos que não renunciam a sua dupla identidade, Argelia Queralt, doutora em Direito e diretora editorial do jornal digital de análise e reflexão “Agenda Pública”, compartilha a ideia de que só um referendo pode frear já a dinâmica secessionista.

— Eleição após eleição, cada vez há mais pessoas que cruzam a linha da desconexão com a Espanha. Aqui, na Catalunha, as pessoas estão rindo de nós, os federalistas, e na Espanha, não nos levam a sério quando dizemos que queremos seguir juntos, ainda que não desta maneira. Os partidos espanhóis fariam bem em lançar uma proposta de referendo durante a campanha eleitoral, porque é muito bom o projeto de alterar a Constituição e chegar logo a um novo estatuto catalão. Estendam uma mão para os catalães, pois queremos ficar na Espanha e manter a ponte.

Embora sem apoios e esgotada, a via federalista catalã luta para se manter à tona. Josep María Castellà, professor de Direito Constitucional da Universidade de Barcelona, se mantém mais cético sobre a suposta vantagem esclarecedora da consulta ao público. Ele acredita que, do ponto de vista técnico-jurídico, a reforma política e o problema territorial poderiam ser resolvidos sem a necessidade de alterar a Constituição, que reconhece ser obsoleta, mas dá grande valor ao impulso político para a criação de um federalismo cooperativo. Do separatismo militante, espera pouco.

— Eles não estão renovando consensos políticos, nem sociais. A ala que pede por soberania não acredita nisso. Eles querem negociar a saída, não a permanência. A possibilidade de alterar a Constituição é para melhorar a Espanha, para conseguir uma maior integração, não somente territorial, mas também política, social, econômica e cultural — ressalta Castellà.

As pesquisas mais exigentes detectam uma acusada falta de correspondência entre o sentimento cidadão de pertencimento exclusivo à Catalunha e a porcentagem de voto pelas opções independentistas, próxima a 50%. Os analistas deduzem destes dados que uma porcentagem importante dos eleitores não buscam, na verdade, a ruptura com a Espanha, senão um acordo que lhes permitam dispor de um maior autogoverno. Segundo esses estudos, os secessionistas convictos não aumentaram de forma significativa nos últimos anos.

oglobo.globo.com | 10-11-2015

MADRI - Em mais um ato de pressão contra o governo central em Madri, o Parlamento da Catalunha regional aprovou, ontem, com 72 votos contra 63, o “início da criação de um Estado catalão independente em forma de república”. As consequências desta moção, cujo caráter é mais retórico do que real, segundo analistas políticos, ainda vão se configurar. Mas o presidente do governo espanhol, Mariano Rajoy, não demorou a agir, iniciando os trâmites para que o processo de secessão seja barrado pelo Tribunal Constitucional (TC).

Dirigida ao novo governo catalão, a resolução foi apresentada pelos partidos independentistas Junts pel Sí (Juntos Pelo Sim) e pela Candidatura de Unidade Popular (CUP). Ainda não há um consenso para a formação do novo governo regional — o presidente Artur Mas precisa de dois votos da CUP para assumir seu terceiro mandato, mas o partido não parece disposto a apoiá-lo. Com isso, Mas advertiu ontem que, se não for reeleito, o processo independentista “encalhará”.

Se o cenário não mudar, o mais provável será a convocação de novas eleições na Catalunha, possivelmente em março. No pleito de 27 de setembro, Juntos Pelo Sim, coligação de Mas, conseguiu 62 deputados, mas para alcançar a maioria absoluta depende da CUP, que obteve dez cadeiras, mas sempre se opôs a um novo governo liderado por Mas. Haverá votação hoje e na quinta-feira para tentar formar um novo governo.

Enquanto isso, Madri se prepara para apresentar, amanhã, um recurso ao TC para suspender a moção que, por sua vez, já contempla que não estará sujeita às decisões do tribunal. Se a corte aceitar o recurso, os movimentos em direção ao processo de ruptura se configurariam uma desobediência ao Estado espanhol. As sanções prováveis neste caso, por parte do TC, seriam a destituição, por exemplo, do presidente catalão ou da presidente do Parlamento regional.

— Teremos, mais uma vez, um enfrentamento entre uma proposta política e uma resposta jurídica — opina o analista político Josep María Reniu, professor da Universidade de Barcelona, que não acredita que esta pressão se traduza em negociações. — Madri sempre reage com silêncio, rechaço ou respostas jurídicas.

As opiniões sobre o hermetismo de Rajoy e sua passividade sobre as reivindicações catalãs — diz-se que o presidente foi o grande responsável pelo crescimento do movimento independentista — são praticamente unânimes. Mas o foco do debate sobre este “choque de trens” — como tem sido chamado o enfrentamento entre o independentismo e a legalidade — está na legitimidade, ou na falta dela, das ações do Parlamento.

— Na teoria e na prática é uma rebelião. Há uma ausência total de legitimidade do Parlamento catalão neste processo ilegal. Mas também falta legitimidade popular: 47,8% dos votantes estariam a favor da independência — pondera Fernando Vallespín, professor de Ciências Políticas da Universidade Autônoma de Madri.

De qualquer forma, será difícil que, antes das eleições gerais do dia 20 de dezembro, haja sanções. O problema político mais grave que a Espanha democrática teve desde a tentativa de golpe de Estado de 23 de fevereiro de 1981 terá que esperar as urnas, cujo resultado da distribuição dos votos na Catalunha será analisado com lupa.

Na semana passada, Rajoy declarou que enquanto for presidente do governo ninguém romperá a unidade da Espanha. Mas analistas políticos como Vallespín acreditam que o tão reivindicado referendo sobre a independência catalã será convocado mais cedo ou mais tarde:

— Vejo viável uma reforma constitucional para a realização de um referendo. Seria optar por integrar a Catalunha, com mais autogoverno, dentro do Estado, ou pela independência.

A independência unilateral da Catalunha desperta pouca ou nenhuma credibilidade entre os especialistas. É inconstitucional e ilegal, do ponto de vista jurídico, segundo Xavier Arbós, professor de Direito Constitucional da Universidade de Barcelona. Além disso, explica o especialista, para que houvesse uma república independente, seria preciso o reconhecimento de outros Estados.

— A Catalunha não tem, em princípio, sequer o poder para controlar seu território. Não poderia, por exemplo, se impor contra as Forças Armadas e de segurança da Espanha, e sequer dispõe da base de dados que permitiria arrecadar seus impostos e pagar as pensões da Previdência Social — explica Arbós.

LEI PREVÊ INTERVENÇÃO ADMINISTRATIVA

Mas a queda de braço entre o independentismo e o governo central vai adiante. Rajoy poderia, embora seja improvável, usar três cartas guardadas na manga. Lançar mão do Artigo 155, nunca usado, para que o governo em Madri possa intervir em certas competências catalãs seria uma delas. Iniciar ações penais (por exemplo, mobilizar os serviços jurídicos do Estado para detectar se houve atos preparatórios de um delito de sedição, previsto no Código Penal) seria a segunda. A última seria aplicar a Lei de Segurança Nacional, que permitiria, em casos de crise de segurança nacional, que o presidente do Governo tomasse medidas administrativas de intervir na Catalunha.

O QUE SE PERDE

- ESPANHA:

Economia: Perde um dos territórios mais dinâmicos economicamente, responsável por 19% do PIB espanhol.

PIB per capita anual: No curto prazo, nos primeiros anos da separação, um espanhol perderia cerca de 5 mil euros (R$ 20,4 mil) por ano.

Impostos: O governo central de Madri não receberia mais impostos arrecadados pela Catalunha.

- CATALUNHA:

Economia: A Catalunha também perde porque a maioria de suas relações econômicas é com a Espanha ou dentro do marco da União Europeia (UE), da qual estaria fora com uma hipotética independência.

PIB per capita anual: A curto prazo, nos primeiros anos do divórcio, um catalão perderia cerca de 7.800 euros (R$ 31,8 mil) anuais.

Gastos: Para a Catalunha, embora fosse arrecadar impostos que não seriam mais repassados ao governo central, teria gastos que sempre foram assumidos pela Espanha.

Fora da União Europeia: Os independentistas afirmam que a Catalunha seria o 12º país mais importante da Europa. No entanto, com a independência, estaria fora da UE.

Segurança: A Catalunha perderia toda a colaboração em matéria de segurança que se realiza com países-membros da UE, a proteção das Forças Armadas espanholas e da Otan. Teria que enfrentar o impacto de criar seu próprio Exército e, com a independência, estaria também fora da ONU.

Turismo: A ruptura com o Acordo de Schengen (que acabou com os controles internos dos membros da UE) é outra previsível consequência da independência. Afetaria não só os catalães como os turistas que queiram visitar a Catalunha. Cerca de 13% da população catalã trabalham com turismo, o que, com uma diminuição na quantidade de visitas, poderia representar uma queda no PIB.

oglobo.globo.com | 10-11-2015

YANGON e NAYPYIDAW, Mianmar — Os resultados finais não devem ser revelados até a tarde de terça-feira, mas a festa nas ruas e na sede do partido não deixavam dúvidas. A Liga Nacional pela Democracia (LND), liderada pela ativista Aang San Suu Kyi, deve sair como grande vencedora das primeiras eleições livres de Mianmar em 25 anos, o que poderia se traduzir numa expressiva maioria parlamentar, capaz de garantir a Presidência e um papel “acima do presidente” para a ativista, impedida pela Constituição de ocupar o cargo.

O partido projeta vitórias esmagadoras nas principais zonas eleitorais de diversas regiões do país, como Mandalay, Magwe, Napyidaw e Yangon. A LND também espera uma vitória expressiva en Kayah, região considerada campo eleitoral do Partido da União da Solidariedade e do Desenvolvimento (Pusd), legenda do presidente Thein Sein.

O pleito teve uma participação eleitoral de 80%, um recorde na História do país. Em Yangon, eleitores formaram longas filas nos centros de votação antes mesmo do nascer do Sol.

— Não é correto que as pessoas tenham que esperar por mais de uma hora na fila para votar — afirmou Aung Kyaw San, observador do Congresso Nacional da Juventude, uma organização da sociedade civil.

Já o vendedor Hlaing Myint ficou na fila durante cinco horas, mas não parecia incomodado com a espera.

— Essa é a única maneira de mudar as coisas — afirmou, destacando que o novo governo deve se concentrar na melhoria da saúde e da educação, e no crescimento econômico. — Precisamos de lei e ordem.

O diário “Myanmar Times” dividiu os eleitores birmaneses em dez grupos, apontando as principais tendências eleitorais. O principal deles, a população rural, que representa mais de 63% dos eleitores, estaria, inicialmente, dividida entre o Pusd e a LND, que não mediram esforços para conquistar votos de fazendeiros durante a campanha. Funcionários públicos, burocratas e famílias de militares estariam alinhados com o Pusd, enquanto a elite, as celebridades e as famílias da classe média estariam, em sua maioria, mais próximos da LND.

Trabalhadores domésticos não teriam escolhido partidos. No entanto, representam uma parcela muito pequena do eleitorado, que compareceu em massa às urnas. Por fim, minorias étnicas, que representam cerca de 5% da população, devem dividir seus votos entre os mais de 50 partidos menores que têm a defesa de seus interesses como principal bandeira.

Há 25 anos, a LND obteve uma vitória eleitoral impressionante, com quase 60% dos votos. No entanto, a junta militar que comandava o país não aceitou o resultado, e se manteve no poder até 2011. Desta vez, após o presidente e ex-general Thein Sein afirmar que respeitará os resultados das eleições, o atual comandante das Forças Armadas, Min Aung Hlaing, que também busca a Presidência, garantiu que o cenário não se repetirá.

— Se o povo escolher a LND, não há razão pela qual não aceitaríamos esse resultado — afirmou o general.

O presidente de Mianmar é escolhido em eleição indireta, pelos parlamentares. Um quarto do Parlamento é nomeado pelas Forças Armadas, o que faz com que a LND precise formar alianças com partidos menores ou conquistar pelo menos 332 cadeiras para garantir uma vitória que lhe dê o comando do governo. Um artigo elaborado pela junta militar proíbe que parlamentares que tenham filhos com nacionalidades estrangeiras ocupem a Presidência. O artifício — classificado por Suu Kyi como “muito bobo” — é considerado uma manobra para manter a ativista, mãe de dois britânicos, fora do cargo, mas isso não parece ter diminuído o apoio dos eleitores à vencedora do Prêmio Nobel da Paz.

Apesar da festa nas ruas, a líder da LND tratou de ser cautelosa em sua mensagem aos eleitores.

— Esperem pelos resultados em suas casas, e os aceitem com tranquilidade — pediu Suu Kyi, chamada de “Mãe Suu” por vários birmaneses, em uma mensagem lida na sede do partido.

Temor de fraudes ainda persiste no país

Durante a campanha, irregularidades foram denunciadas pela LND, e, mesmo com a presença de 10 mil observadores, entre eles 150 profissionais europeus, a desconfiança não desapareceu.

— Não estou preocupado com a região de Yangon, mas sim com as áreas mais remotas — afirmou o ativista e candidato do partido Nay Phone Latt. — É nessas regiões que a imprensa e os observadores devem prestar atenção.

O nível de transparência das eleições no país divide opiniões.

— Há mais pessoas votando hoje do que em 2010 — diz Daw Thein Thein Tun, membro da Comissão Eleitoral, em referência às eleições boicotadas pela LND. — Há mais regulação, mais abertura e mais transparência. Mostraremos que as eleições são livres e justas.

Já no governo americano, o ceticismo quanto às eleições permanece. Em condição de anonimato, um funcionário da Casa Branca afirmou à rede CNN que “o processo será fraudulento, e beneficiará a elite que está no poder”.

O chefe da missão de observação eleitoral da União Europeia, Alexander Lambsdorff, reconheceu que as eleições birmanesas transcorreram sem incidentes de tensão ou violência. Ele disse não ter visto sinais de fraude, mas frisou que o processo teve falhas.

— Nenhum país tem eleições perfeitas. Em um país em transição, é evidente que há trabalho a ser feito — afirmou Lambsdorff. — Essa foi a primeira vez que o governo de Mianmar convidou observadores internacionais, e acreditamos que é um passo inicial rumo a um aumento na transparência.

oglobo.globo.com | 09-11-2015

LISBOA - Desde 1974, quando Portugal alcançou a redemocratização após décadas de ditadura, nenhum governo eleito sem alcançar maioria no Parlamento conseguiu terminar seu mandato previsto. Agora, o país volta a sofrer com um cenário de incerteza que pode derrubar o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, dias após ele ser indicado pelo presidente Aníbal Cavaco Silva para formar um novo Executivo. Empossado após uma vitória pouco expressiva nas eleições — em que seu partido chegou na frente, mas em minoria — o líder de centro-direita é agora desafiado por uma coalizão inédita entre socialistas, comunistas e um terceiro partido de esquerda, que, em maioria, propõe derrubá-lo assim que seu governo for oficialmente formado.

Com apenas 107 assentos conquistados num Parlamento com 230 cadeiras, Passos Coelho, do Partido Social-Democrata (PSD), foi o escolhido de Cavaco Silva anteontem, num duro discurso focado no Partido Socialista (PS), criticado pelo presidente por não oferecer chances de formar uma coalizão ampla em torno de consensos básico na agenda política das legendas.

— Nos 40 anos de democracia, a responsabilidade de formar governo foi sempre atribuída a quem ganhou as eleições. Este é o pior momento para alterar radicalmente os fundamentos do nosso regime democrático, e sequer corresponde à vontade democrática expressa pelos portugueses — disse Cavaco, que avisou ainda ao PS que “não tolera um projeto que fragmente a unidade da União Europeia” e a austeridade.

Mas o tiro pode ter saído pela culatra: os partidos que antes timidamente apoiavam o PS passaram a defender abertamente uma moção de desconfiança apresentada pelos socialistas que poderia derrubar Passos Coelho assim que apresentar seu programa de governo, previsto para no máximo dez dias.

— Os socialistas, nenhuma lição têm a receber do presidente quanto aos fundamentos do nosso regime democrático — rebateu o líder do PS, António Costa. — A decisão incompreensível de dar posse a Passos Coelho, sabendo de antemão que não tem maioria no Parlamento, cria uma crise política inútil, que adia a entrada em funções de um governo maioritário que assegure estabilidade política.

As siglas que negociam com o PS focaram seus discursos no primeiro dia de sessões no Parlamento com críticas no mesmo tom. A líder do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, chamou Cavaco de “irresponsável”. Já o líder comunista, Jerónimo de Sousa, disse que Cavaco quer “impor soluções para favorecer os mercados financeiros”.

Se o PS planeja inviabilizar no Parlamento um novo governo de Passos Coelho, a iniciativa já começou a tomar formato ontem. O deputado socialista Eduardo Ferro Rodrigues desbancou Fernando Negrão, candidato do PSD, e foi eleito presidente da Assembleia da República. Já a vice-liderança será do Bloco de Esquerda, atual terceira força no xadrez político.

NOVAS ELEIÇÕES SÓ EM MEADOS DE 2016

Analistas apontam para a possibilidade de que, caso os adversários votem a moção de desconfiança contra Passos Coelho, inviabilizando seu governo, o presidente tampouco aprove uma coalizão da esquerda, deixando o país num limbo administrativo. Isso se daria porque Cavaco Silva está a três meses de deixar a Presidência e, com isso, constitucionalmente impedido de dissolver o Parlamento e convocar novas eleições. A tarefa ficaria para seu sucessor, em meados de 2016.

— É a primeira vez na história da democracia de Portugal que o PS se une a legendas mais à sua esquerda. Caso o presidente não aprove uma alternativa, mesmo de maioria, o governo (de Passos Coelho) se limitaria a ser de gestão, sem poder aprovar decisões estratégicas — disse ao GLOBO António Costa Pinto, da Universidade de Lisboa.

Ele acredita, por isso, que mesmo relutante, Cavaco Silva pode se ver forçado a aceitar um novo governo.

— Se o presidente rejeitar um governo de coalizão de esquerda estável, seria uma decisão muito ideológica, podendo acirrar a polarização política — teme Costa Pinto.

(Colaborou Carolina Jardim)

oglobo.globo.com | 24-10-2015

SÓFIA, Bulgária – Na Alemanha, a chegada de um milhão de imigrantes prevista para este ano está sendo alardeada aos cidadãos, muitas vezes desconfiados, como uma forma de injetar vigor em um país envelhecido cuja população deve diminuir oito por cento nas próximas décadas. Para as ex-repúblicas soviéticas da Europa Oriental, que estão encolhendo ainda mais rápido e têm economias problemáticas, o influxo de estrangeiros seria a solução ideal. Mas não é essa a opinião geral.

"Não, o pessoal daqui não se entusiasma nem um pouco com a perspectiva de receber mais imigrantes. A ideia é que há estrangeiros demais, e não de menos", afirma Ivailo Kalfin, vice-primeiro ministro da Bulgária para assuntos demográficos e sociais.

Esse é o paradoxo da crise na região: mesmo enfrentando a implosão demográfica mais grave do continente, é também a que tem mais dificuldade em aceitar os refugiados.

Por outro lado, se os imigrantes ali são vistos como uma séria "ameaça", a combinação persistente de economias falidas e governos corruptos faz desses países opções pouco atraentes para quem está chegando.

De fato, a Bulgária vem provando ser um desafio até mesmo para quem nasceu ali e que, como os imigrantes, está indo, aos montes, para as regiões mais prósperas da Europa.

De acordo com a Perspectiva da População Mundial da ONU, dos dez países que devem perder a fatia maior da população per capita entre hoje e 2050, todos estão na Europa Oriental e Central, com a Bulgária encabeçando a lista.

Mesmo assim, o sentimento anti-imigração é forte em uma região que teme que a onda de gente vinda do Oriente Médio, Afeganistão e outras paragens afogue a economia frágil e enfraqueça a cultura nacional.

"É realmente um argumento racional e pragmático esse de que os países poderiam aproveitar bem a chegada dos estrangeiros", diz Aleksander Smolar, presidente da Fundação Stefan Batory de Varsóvia, que promove a democracia e questões cívicas.

"Só que é preciso lembrar que, ao contrário do Ocidente, eles nunca tiveram que desenvolver políticas de imigração. A região da Europa Central e Ocidental não tem histórico de imigração, mas sim de emigração", prossegue.

E continua sendo assim, especialmente nos países como a Bulgária, que foram aceitos na União Europeia, o que permite a seus cidadãos viajar com mais liberdade.

"É raro encontrar alguém dessa região que não tenha pelo menos algum familiar mais próximo vivendo no exterior. Quanto menor for o país, maior o peso que a saída de cada um tem", afirma Sarah Garding, pesquisadora da Universidade de Oxford que estuda a imigração da Europa Oriental.

E o fato de a ameaça de uma queda populacional ocorrer durante um grande fluxo de imigrantes ilegais não passa despercebido às autoridades locais.

"Eu aceitaria refugiados na minha cidade com o maior prazer por uma razão prática: ela está se esvaziando. Como em muitas cidades de porte médio do país, o número de cidadãos é cada vez menor", revela Robert Biedron, prefeito de Slupsk, no norte da Polônia, uma das raras vozes pró-imigração da região.

Porém, alguns especialistas destacam vários fatores a impedir que os estrangeiros resolvam a crise demográfica e explicam a resistência da área em recebê-los de braços abertos.

Para começar, os líderes políticos afirmam não fazer sentido forçar os refugiados a se acomodar no Leste Europeu, problemático em termos financeiros, quando tudo o que querem é viver na Alemanha ou outros países mais prósperos.

"Eles simplesmente vão se mudar para o lugar em que pretendiam estar desde o início", diz Robert Fico, primeiro-ministro eslovaco.

Ao mesmo tempo, as populações das nações da Europa Oriental não se mostram muito dispostas a receber os imigrantes, principalmente os que têm religiões diferentes, em uma região cuja memória histórica inclui várias guerras para se livrar da ocupação muçulmana.

O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orban, retrata seu país como um baluarte entre a Europa cristã e o mundo islâmico.

Para completar, como os próprios imigrantes observam, a busca não é só por segurança e/ou perspectivas financeiras, mas também a vida em uma sociedade mais aberta e tolerante.

Ou seja, os mesmos motivos que levam milhares de europeus orientais a emigrar para o Ocidente estão levando os novos refugiados para a mesma direção.

"Eu te digo por que o povo está indo embora; porque está frustrado com a situação política. Não confia no sistema judiciário. Os líderes não têm nenhuma visão política. São pessoas que estão esperando uma mudança desde 1989, mas ela nunca acontece", desabafa Evgenia Peeva, 29 anos, que voltou à Bulgária, depois de se formar por Harvard, para criar a Teach for Bulgaria, uma ONG inspirada no modelo da Teach for America.

Magdalena Kostova, líder do Diretório de Estatística Social e Demografia da Bulgária, diz que entre os dois censos mais recentes, de 2001 e 2011, a população do país encolheu em 564 mil pessoas. Dois terços desse número se devem a uma taxa de natalidade muito baixa, mas o resto foi por causa da emigração.

Ruslan Stefanov, analista do Centro de Estudo da Democracia de Sofia, vai mais além: "Atualmente quase 80 por cento dos médicos vão embora assim que se formam. O pessoal sente que aqui a vida é muito imprevisível."

O buraco deixado pela partida de tantos jovens poderia ser preenchido pelos imigrantes – mas também sinaliza a constatação de que, para viverem nas sociedades abertas que desejam, os búlgaros terão que seguir o mesmo caminho dos emigrados.

"A Bulgária é a minha terra natal, eu queria viver aqui, mas a mudança teria que ser muito drástica para que isso acontecesse. Acho que é mais um sonho idealista, sabe", lamenta Stefaniya Boneva, estudante de Medicina de 25 anos que mora na Alemanha, sentada em um café perto do centro de Sofia.

E as famílias que ficam para trás – muitas das quais dependentes do dinheiro que os parentes mandam do exterior – não estão lá muito entusiasmadas para trocar os filhos que se foram por uma comunidade inteira de estranhos.

Segundo Smolar, é preciso uma discussão ponderada e menos oportunismo político para lidar com uma questão obviamente explosiva na região.

"A ideia de, de repente, se deparar com 'o outro', alguém que vem de uma cultura diferente, com outra religião, outra aparência física, naturalmente é motivo de medo, se não de pânico para muita gente aqui", afirma.

"Normalmente mudanças assim são precedidas por discussões nacionais cuidadosas, para permitir que a população se acostume ao fato de que terá que conviver com minorias étnicas".

"Em vez disso, porém, o que se vê é uma onda de líderes tentando levar a melhor."

"Tem muito político cínico que prefere manipular e tirar vantagem do medo das pessoas. Infelizmente, o alarmismo ainda ajuda a subir nas pesquisas", sentencia.

oglobo.globo.com | 16-10-2015

A condenação do líder da oposição democrática venezuelana Leopoldo López há duas semanas teve a reação esperada. A juíza Susana Barreiros sentenciou López a 13 anos e nove meses de prisão por incitar a violência política, baseando-se nas ridículas acusações do governo de que López usou mensagens subliminares para estimular seus seguidores a cometer atos de violência. O grupo Human Rights Watch denunciou a decisão, afirmando que representava “uma deterioração extrema do sistema de Justiça” e “um escárnio completo da Justiça”. A Anistia Internacional disse que era “uma absoluta falta de independência judicial”, e mais tarde considerou López um prisioneiro de consciência, designação para vítimas de repressão política.

Mas a resposta mais previsível foi a da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), que emitiu um comunicado reiterando “seu respeito pelas decisões adotadas pelas autoridades judiciais de seus estados membros”. Sim, é verdade. Os governos, inclusive alguns que tiveram seus líderes protegidos pelas mesmas organizações que criticaram a sentença da juíza Susana, afirmaram que não poderiam criticar decisões judiciais dos demais. E onde estariam esses líderes hoje se a Unasul não houvesse questionado as ações internas dos estados membros ou a falta de investigação dos desaparecimentos extrajudiciais por parte das autoridades há 30 anos? Mortos, no pior dos casos, e, no melhor, mortificados pela complacência da comunidade internacional ante sua difícil situação.

Há muitas coisas que a Unasul faz bem. A coordenação regional permitiu aos governos desafiar as companhias farmacêuticas do Norte para garantir preços mais baixos e melhor acesso a medicamentos. E a Unasul proporcionou um fórum importante para discutir temas de segurança regional, o que permite maior cooperação e intercâmbio de informação.

Mas, quanto a direitos humanos, democracia e mediação de conflitos, a Unasul fracassou em várias ocasiões, em grande parte por já estar predestinada ao revés nessas áreas. Conforme seu estatuto de fundação, a finalidade da Unasul é defender a soberania nacional de seus estados membros e fomentar a solidariedade regional. Isto pode ser contraponto às décadas de intervenção americana, mas debilita o sistema normativo internacional que se desenvolveu desde a Segunda Guerra para a proteção dos direitos humanos.

Após os horrores do Holocausto e o massacre de seus povos em nome da consolidação do sistema soviético de Josef Stalin, o mundo civilizado inscreveu os direitos humanos básicos em documentos internacionais. A ideia central era a de que, em casos de abuso flagrante dos direitos humanos básicos e, à medida que o sistema evoluiu, do devido processo legal, dos direitos democráticos básicos, como eleições livres e justas, a proteção dos direitos humanos e políticos deve prevalecer sobre as noções tradicionais de soberania nacional. Nestas instâncias, os governos externos e as organizações internacionais teriam a obrigação moral de se manifestarem em defesa desses direitos — e inclusive, em alguns casos, de organizar ações coletivas para proteger esses direitos e os cidadãos afetados.

Tais noções não foram inscritas nos documentos constitutivos da Unasul. Pelo contrário. Em lugar de defender o direito dos cidadãos a escolher livre e justamente seus líderes eleitos, a Unasul promete apoiar as ações das autoridades eleitorais dos estados membros sem ter em conta a independência e a imparcialidade das mesmas. A Unasul é uma união de estados independentes organizados para defender sua soberania nacional individual, o oposto de uma organização multilateral moderna, comprometida com normas progressistas.

E é assim que a Unasul tem funcionado. Nas eleições presidenciais de 2013 na Venezuela, em meio a dúvidas quanto ao acesso igualitário aos meios de comunicação e a uma campanha claramente respaldada pelo Estado a favor de seus candidatos, a Unasul ratificou a vitória do atual presidente, Nicolás Maduro, pela mais mínima das margens, 1,5%, ante o candidato opositor Henrique Capriles. Muito convenientemente, o governo venezuelano não convidou observadores eleitorais da Organização dos Estados Americanos (OEA), da União Europeia ou organizações não governamentais dos EUA. E há o risco de que ocorra o mesmo nas próximas eleições legislativas de dezembro.

Frente aos protestos generalizados que levaram López ao cárcere, a Unasul tentou mostrar importância, enviando uma comissão liderada pelo ex-presidente da Colômbia Ernesto Samper, para mediar a crise. O problema, de novo, é que uma organização dedicada à defesa da soberania nacional dos estados membros não pode arbitrar objetivamente um conflito entre um governo e a sociedade. Os esforços tão elogiados da Unasul e de Samper resultaram em nada.

Tudo isso não teria tanta importância se se tratasse de um caso isolado de uma pessoa (Leopoldo López), apesar do elemento humano. Porém, o fracasso da Unasul vai além do caso López. Por um lado, mostra a vontade da organização regional de rechaçar o amplo consenso internacional sobre o que constitui o devido processo legal e o Estado de Direito e os grupos com legitimidade inatacável, como Anistia Internacional e Human Rights Watch. Em segundo lugar, a noção de que as organizações internacionais têm o direito de opinar sobre as decisões judiciais dos membros é componente essencial da defesa moderna das normas internacionais.

Afirmo isso como americano. Gostaria de pensar que, se o governo dos EUA estivesse encurralando manifestantes e os encarcerassem por 14 anos, as organizações multilaterais às quais o país pertence criticariam a decisão. Também gostaria de pensar que se um futuro presidente como Donald Trump aprovasse a deportação forçada de imigrantes ilegais, como prometeu, a comunidade regional denunciaria tão flagrante violação dos direitos humanos.

Os cidadãos dos países da América do Sul deveriam exigir o mesmo da Unasul. Evitar um retorno aos dias obscuros dos regimes autocráticos da década de 1970 depende disso.

Christopher Sabatini é professor-adjunto da Universidade de Columbia e editor do LatinAmericaGoesGlobal.org

oglobo.globo.com | 11-10-2015

RIO - Líderes empresariais, políticos e de organismos multilaterais de toda a América Latina se reúnem na próxima semana no Rio de Janeiro para discutir como construir uma “América sem Fronteiras”. Este será o tema da XXVI Assembleia Plenária do Conselho Empresarial da América Latina (Ceal), nos dias 15 e 16 de outubro. Com discussões que vão de democracia a investimentos, passando por educação, serviços, inovação e agronegócio, a conferência busca a integração da região.

— Este encontro tem o objetivo de promover o entendimento para buscar uma América Latina mais conjugada. A economia da América Latina corresponde a US$ 9 trilhões, enquanto Estados Unidos e União Europeia têm Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 18 trilhões, cada um, e a China, de US$ 16 trilhões. É um peso razoável no contexto internacional e que tende a subir — afirma o presidente internacional do Ceal, Ingo Plöger.

Ele destaca que, apesar da previsão do Fundo Monetário Internacional (FMI) de que a região de América Latina e Caribe terá recessão de 0,3% este ano, as potencialidades a médio prazo e a importância da região em questões como segurança alimentar e energética e investimentos em infraestrutura sugerem que este é o momento para avançar na integração.

TPP NA PAUTA

Um dos painéis do encontro vai discutir os grupos formados por diferentes países do continente, como a Aliança do Pacífico (Chile, Peru, Colômbia e México), o Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Venezuela) e a Aliança para a Prosperidade (El Salvador, Guatemala e Honduras). Também estará na pauta o novo Acordo de Parceria Transpacífica (TPP, na sigla em inglês), que reúne EUA, Japão e mais dez países, sendo três da América Latina: México, Peru e Chile. O TPP foi fechado na última segunda-feira.

— O TPP é uma movimentação do tabuleiro do comércio internacional. É muito cedo para falar em ganhos e perdas, mas certamente é um movimento forte e terá consequências grandes nos países envolvidos — diz Plöger.

O prefeito do Rio, Eduardo Paes, e o governador Luiz Fernando Pezão confirmaram participação no encontro.

oglobo.globo.com | 09-10-2015

A guerra está entrando em uma nova fase perigosa, com a participação mais intensiva da Rússia e do Irã no campo de batalha. Isso irá desencadear uma contrarreação do Estado Islâmico, assim como da Arábia Saudita, de Israel e dos países do Golfo. Devemos esperar uma escalada da violência em todos os lados, incluindo ataques terroristas na Rússia e, talvez, até mesmo no Irã. Haverá, naturalmente, mais pressão também sobre os EUA e sobre a União Europeia, para que se envolvam mais no conflito. Artigos Siria

O poder aéreo russo, juntamente com as forças terrestres iranianas, dá ao ditador sírio, Bashar al-Assad, uma proteção mais imediata, mas também o afasta ainda mais da população sunita. As poucas forças “moderadas” do país serão atacadas por ambos os lados e se tornarão mais radicalizadas. O que tende a aumentar o suporte para o Estado Islâmico e outros grupos radicais. A crise de refugiados vai ficar pior, muito pior: prevejo uma verdadeira tragédia antes de a situação começar a melhorar.

As diferenças entre russos e americanos sobre o futuro de Assad impedem qualquer acordo. Não pode haver paz nem estabilidade com Assad ainda no poder. O melhor cenário que podemos esperar é uma saída negociada, seguida de um novo governo menos violento, mas aceitável para a Rússia e para o Irã. Francamente, todo mundo está querendo um líder como o presidente egípcio, Abdel Fattah al-Sisi — estável, moderado, confiável, com apoio efetivo de vários grupos militarizados.

O melhor resultado possível será uma intensificação das negociações entre os EUA, a Rússia, o Irã e vários grupos sírios. Isso vai acontecer, mas só depois de mais violência e mais sofrimento. A situação vai piorar antes de melhorar. E levará algumas semanas para que o presidente russo, Vladimir Putin, veja que sua escalada está prejudicando seus objetivos. Ele, então, deverá procurar um caminho para salvar sua imagem e sua força externa, que recentemente voltou a ter por causa de seu posicionamento na Síria, acabando com o isolamento que o país vivia desde a crise com a Ucrânia.

*Professor da Universidade do Texas

oglobo.globo.com | 08-10-2015

LONDRES - O primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, prometeu que vai adotar uma postura mais rígida nas negociações com a União Europeia, acabar com o extremismo e tornar o país mais igualitário antes de renunciar. Em discurso na convenção anual do Partido Conservador nesta quarta-feira, o premier disse que vai criar uma “Grã-Bretanha maior” até sair do cargo antes das eleições nacionais de 2020.

Segundo o jornal “The New York Times”, Cameron prometeu realizar um referendo sobre a permanência na União Europeia até o fim de 2017. Ele sustenta que o país deve ficar se conseguir afrouxar os vínculos nas negociações. No entanto, muitos dentro do partido não veem benefícios na associação ao bloco europeu. Desde a intensificação do fluxo migratório e a chegada de milhares de refugiados, parte dos conservadores pressionam pelo Brexit (união das palavras “Britain”, Grã-Bretanha, e “exit”, saída).

Cameron afirmou que não mantém “ligação sentimental” com a UE e só está interessado em duas coisas: “a prosperidade da Grã-Bretanha e sua influência”.

— É por isso que lutarei duro nessa renegociação: para que tenhamos um acordo melhor e o melhor dos dois mundos — defendeu.

ATAQUE À OPOSIÇÃO

Em maio, o Partido Conservador saiu vitorioso nas eleições parlamentares e conquistou a maioria absoluta na Câmara dos Comuns. Pesquisas apontam que a aprovação do partido escalou aumentou ainda mais desde que o opositor Partido Trabalhista elegeu o esquerdista Jeremy Corbyn como líder no mês passado. Cameron foi ovacionado ao atacar o concorrente.

— Não podemos deixar esse homem impor sua ameaça à segurança, simpatia ao terrorismo, a ideologia de ódio à Grã-Bretanha no país que amamos — criticou.

O primeiro-ministro declarou que busca derrotar os opositores com uma visão conservadora de “nação única”, patriótica e progressista e pretende fazer mais para construir novas casas, reduzir a pobreza, reinserir presos e acabar com a discriminação de mulheres, homossexuais, minoriais étnicas e deficientes.

— Não se pode ter oportunidade de verdade sem igualdade — afirmou.

O “NYT” também informou que o governo acabaria com a “tolerância passiva” e o “extremismo em todas as suas formas, violentas ou não”. O premier prometeu implementar inspeções de instituições que oferecem educação religiosa, incluindo escolas cristãs, judaicas e islâmicas.

— Se vocês ensinam a intolerância, nós vamos desligar vocês — sustentou Cameron.

Entre os possíveis sucessores de Cameron que a convenção anual dá espaço estão George Osborne, chefe do Tesouro, Theresa May, secretária de estado e Boris Johnson, prefeito de Londres.

Movimentos sociais e sindicalistas exercem forte oposição ao Partido Conservador, visto que são os segmentos que mais sofrem com os cortes governamentais. Cerca de 60 mil pessoas protestaram do lado de fora do evento no domingo, quando teve início a reunião.

oglobo.globo.com | 07-10-2015

RIO - Vitoriosa nas eleições com uma vantagem discreta, a coalizão de centro-direita do primeiro-ministro de Portugal, Pedro Passos Coelho, terá que formar um governo minoritário, cujo principal desafio é sobreviver por mais de dois anos, segundo especialistas ouvidos pelo GLOBO. Dividida em temas-chave como a manutenção do euro, a esquerda descartou fechar uma aliança, apesar de ter maioria dos assentos no Parlamento. Mesmo não representando uma ameaça inicial ao governo de Passos Coelho, a oposição poderia inverter o quadro futuramente, avaliam os analistas. Passos C

Enquanto a coligação do premier, formada pelo Partido Social Democrata (PSD) e pelo conservador CDS, obteve 104 cadeiras do Parlamento, o seu maior rival, o Partido Socialista (PS), ficou com 85. A terceira maior força foi o Bloco de Esquerda, coalizão que alcançou seu melhor resultado desde sua criação em 2000, com 19 assentos. Comunistas e Verdes ficaram com 17 assentos.

O analista político António Costa Pinto, da Universidade de Lisboa, fez uma projeção negativa para a sobrevivência da coalizão liderada pelo primeiro-ministro, que perdeu 800 mil votos e mais de 20 deputados na comparação com a disputa de 2011. Até hoje, nenhum governo formado sem maioria absoluta sobreviveu a um mandato inteiro desde a redemocratização do país, em 1974.

— Portugal está acostumado a ter governos minoritários, só que não duram quatro anos. Ao perder as eleições, o Partido Socialista passará por uma crise interna e não vai conseguir fazer uma oposição forte, permitindo que a coalizão de centro-direita governe por pelo menos um ano. Com uma oportunidade mínima, porém, a oposição pode tentar derrubar o governo — afirmou.

Parlamento à esquerda

Segundo Costa Pinto, o resultado das eleições, realizadas no domingo, mostra uma esquerda fragmentada.

— A maioria dos eleitores votou à esquerda, mas o voto ficou disperso em três partidos. Uns apoiam a permanência do euro, outros não. Eles têm a maioria no Parlamento, mas não são uma alternativa ao governo de direita.

Na avaliação do especialista José Adelino Maltez, fundador da Associação Portuguesa de Ciência Política, o primeiro-ministro Passos Coelho deve enfrentar resistência para aprovar o Orçamento de 2016 no Parlamento e nas ruas, o que pode gerar instabilidade.

— O governo vai ter que negociar com o Partido Socialista. E centrais sindicais e trabalhadores que são contra a austeridade vão protestar.

A disputa foi considerada um referendo pela manutenção ou rejeição à política de austeridade. Costa Pinto avalia que o premier “surfou” na onda de juros baixos da União Europeia, o que refletiu na economia e o ajudou a vencer.

— A coalizão recuperou os eleitores descontentes com uma mensagem eficaz: “Nós tivemos que adotar a austeridade porque os socialistas nos levaram à derrocada, agora que estamos recuperando, deem-nos a chance de continuar.”

oglobo.globo.com | 06-10-2015

MADRI - Entre as incógnitas do day after da vitória independentista nas eleições catalãs do domingo, realizadas como um pseudorreferendo, os conflitos são, por enquanto, a única certeza dos analistas políticos. A começar por desavenças entre os próprios secessionistas. Para formar, no Parlamento catalão, a maioria absoluta que Artur Mas, líder de Junts pel Sí (Juntos pelo Sim), precisa para cumprir sua promessa de levar adiante, em 18 meses, seu plano de criação de um novo Estado, seria fundamental uma aliança com a Candidatura de Unidade Popular (CUP). Esta formação independentista anticapitalista, que sempre se mostrou contrária a apoiar um governo encabeçado pelo liberal Mas, reiterou essa posição ontem, dificultando negociações se o presidente catalão insistir em permanecer no poder. E já deixou claro que, como não houve maioria absoluta de votos (conseguiram 47,8%), descarta uma declaração unilateral de independência.

— Não há certezas. O resultado é suficientemente complexo para não sabermos o que acontecerá. Provavelmente, (o presidente catalão) Mas será reeleito com maioria relativa. Governar, no entanto, vai ser muito difícil porque o campo independentista está muito dividido entre si: o Convergência, partido de Mas, é de centro-direita; Esquerda Republicana, como o nome já diz, é de esquerda; e CUP é um grupo antissistema. Seria uma aliança muito instável — explica o analista político José Juan Toharia, presidente do instituto de pesquisas Metroscopia.

Dança das cadeiras

Ainda não se pode dar nada por fechado na formação de consensos para o processo independentista, que não se sabe aonde vai dar e acaba de começar. A CUP (dez cadeiras) já fez um chamado para “desobedecer todas as leis espanholas”, por um lado, e, por outro, convocou uma negociação com Junts pel Sí (62 cadeiras) e Catalunya Sí que es Pot (Catalunha Sim que se Pode) — coligação que reúne federalistas e secessionistas contrários à declaração unilateral de independência, que ficou abaixo das expectativas, com apenas 11 cadeiras.

A coalizão que o Podemos — contra a independência e a favor do direito à autodeterminação — defende, segundo seu líder nacional, Pablo Iglesias, é uma aliança de esquerda, contrária a Artur Mas. Nela, entrariam CUP e Esquerda Republicana. É uma dança de siglas e, agora, quando a música começa a tocar, as posições ainda não são claras sequer dentro da própria coalizão Junts pel Sí.

A Esquerda Republicana, partido que, entre tapas e beijos, vem apoiando Artur Mas em seus planos, ainda não se pronunciou, embora tenha um compromisso firmado a respeito, sobre se respaldará ou não um terceiro mandato de do presidente do governo catalão, que se apresentou como o quarto da lista.

O resumo das eleições foi bem ilustrado com a manchete do jornal “El Mundo”, que dizia que Junts pel Sí ganhou as eleições, mas perdeu o plebiscito, já que foi a única força política que insistiu no caráter plebiscitário destas eleições. De qualquer forma, juntando todas as formações independentistas, nestas eleições nas quais houve uma histórica participação de 77,5%, os secessionistas perderam dois deputados em relação ao Parlamento formado em 2012.

— Será impossível Artur Mas cumprir seu plano independentista. Ele caiu na sua própria armadilha ao propor uma eleição plebiscitária — opina Toharia.

O presidente do governo espanhol, Mariano Rajoy, viu seu Partido Popular transformar-se numa sigla irrelevante dentro da Catalunha (20% do PIB nacional) perdendo, para o Ciutadans (Cidadãos), a primazia dentro da centro-direita não nacionalista. Ontem, mudou seu discurso e se disse aberto ao diálogo “a partir da lealdade e dentro da lei e do respeito institucional” com o governo catalão.

— Hoje sabemos que o que não era possível legalmente também não obteve apoio nas urnas — afirmou Rajoy, referindo-se ao caráter plebiscitário destas eleições regionais.

Fora da Espanha, o governo alemão foi o primeiro a se pronunciar. O porta-voz Steffen Seibert reforçou a importância de manter o cumprimento dos tratados da União Europeia e da Constituição espanhola. Insistiu, no entanto, que as eleições de domingo são um assunto interno espanhol.

O primeiro-ministro francês, o socialista Manuel Valls, no entanto, advogou por uma Espanha “unida e forte”.

— É impossível vender na Europa um triunfo independentista com estes resultados. Foram eleições pluripartidárias nas quais se distorciam resultados como se fossem um referendo. É uma maioria absoluta falsa resultado de uma fórmula matemática, sobre a qual o sistema eleitoral espanhol foi construído — alega o cientista político Cesareo Rodríguez Aguilera, da Universidade de Barcelona.

- Sobe e desce -

Ciutadans (/\)

Triplicou seus votos e se transformou no primeiro partido não nacionalista na Catalunha, tirando a primazia do PP dentro da centro-direita.

CUP e ER (/\)

Há dois anos, o movimento soberanista era dominado pela centro-direita, e agora a força está com a CUP e com a Esquerda Republicana.

PP (\/)

Se os independentistas se inclinam para a esquerda, os não independentistas vão para o centro. O resultado é a perda de oito deputados do Partido Popular.

Direita nacionalista (\/)

Ficou em segundo plano depois da separação, de última hora, da Convergência e União. A União não pôde captar o voto nacionalista moderado, que acabou ficando com a Convergência

oglobo.globo.com | 29-09-2015

BRASÍLIA - Diante da necessidade de cortes nos gastos, o governo vem protelando o lançamento do programa Banda Larga para Todos. Mesmo assim, alguns investimentos na expansão e melhoria da qualidade da banda larga no país foram mantidos, com foco na redução dos preços do serviço. O Ministério das Comunicações optou por preservar, sem cortes significativos, dois dos investimentos de larga escala tocados pela Telebras.

O primeiro é o Satélite Geostacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas (SGDC), que está em construção na França e será usado para levar banda larga aos lugares mais remotos do país. O equipamento está em construção na França. Até agora, o programa já consumiu R$ 1,4 bilhão e deverá custar R$ 2,2 bilhões, incluindo a infraestrutura em terra para receber os sinais do espaço.

O satélite permaneceu no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) mesmo após os cortes, com projeção de investimentos de cerca de R$ 400 milhões neste ano. A previsão agora é que seja lançado no fim de 2016 e comece a operar em 2017. O presidente da Telebras, Jorge Bittar, garante que os recursos estão assegurados:

Estatais 1909— O satélite vai permitir aplicações em novas em áreas como educação, saúde e acesso à banda larga a preços mais populares.

O segundo projeto de larga escala é a instalação de um cabo submarino de fibra óptica entre Fortaleza e Lisboa, que vai conectar, pela primeira vez, a América Latina à Europa. A União Europeia, grande interessada nessa conexão direta com os centros de pesquisa espacial no deserto do Atacama, reservou € 25 milhões ao projeto, orçado em US$185 milhões e com até três anos para ser implantado.

R$ 50 MILHÕES PARA O CABO

Encarregada de gerir o cabo, a Telebras formará uma joint-venture com a empresa espanhola Islalink, que deverá arrecadar mais recursos para o investimento, via emissão de títulos, explicou Bittar. Segundo o Ministério das Comunicações, o Orçamento deste ano prevê R$ 50 milhões para investimentos no cabo.

A Telebras argumenta que o cabo dará ao Brasil e demais países da América do Sul acesso direto aos maiores Pontos de Troca de Tráfego (PTTs) de dados do mundo, localizados nas cidades de Frankfurt, Amsterdã, Londres e Paris, ampliando a capacidade de tráfego internacional de dados e reduzindo custos.

Atualmente, o Brasil se conecta em banda larga com o mundo apenas por cabos que passam pelos EUA. Técnicos do governo defendem que, além de aumentar o nível de segurança nacional na transmissão de dados, a ligação com a Europa poderá melhorar a qualidade e reduzir o custo das conexões em cerca de US$ 600 milhões por ano.

oglobo.globo.com | 20-09-2015

SÃO PAULO. Diretores de duas ONGs que lidam com liberdade de expressão e direitos humanos na Venezuela estiveram esta semana em São Paulo conversando com entidades locais, com o objetivo de pressionar por eleições legislativas justas no país. Carlos Correa, da Espacio Publico, e Rafael Uzcategui, do Programa Venezuelano de Educação em Direitos Humanos (Provea), encontraram-se com colegas que lidam com a questão dos direitos humanos no Brasil. Tentaram, sem sucesso, audiência com integrantes do governo Dilma Rousseff.

— Eleições justas são eleições sem fraude. O objetivo da nossa viagem é que essas organizações nos ajudem a pressionar o governo de vocês para que observadores internacionais isentos possam viajar à Venezuela para avaliar as eleições de 6 de dezembro. Não acreditamos que a Unasul (única entidade que o governo Nicolás Maduro já autorizou a observar eleições) tenha experiência técnica para isso. Queríamos a presença da Organização dos Estados Americanos (OEA), ou mesmo da União Europeia — disse Uzcategui.

Segundo os dois, a situação na Venezuela deteriorou-se nos últimos meses e a oposição pode ter ganho mais força e união com a recente sentença contra o líder opositor Leopoldo López, condenado a quase 14 anos de prisão por incitar protestos contra o governo em 2014.

— Além disso, há grupos de chavistas descontentes com Maduro, que estão tentando concorrer nas eleições por partidos fora da MUD (Mesa de Unidade Democrática, que agrupa partidos de oposição) e do PSUV de Maduro. Isso tudo, aliado à escassez, à redução dos programas sociais, à violência, à crise com a Colômbia... As chances de Maduro ter menos votos, e por isso, de fraudes, aumentam — avalia Correa.

Os observadores internacionais, recomendam as ONGs, deveriam se reunir com todos esses grupos envolvidos na eleição.

Amanhã, dia 19, a oposição marcou uma manifestação nas ruas de Caracas contra a sentença dada a López. Correa salienta que os venezuelanos só puderam assistir ao julgamento do opositor, no último dia 11 de setembro, porque emissoras estrangeiras transmitiram.

— Não existe mais uma TV independente atuando no país. O governo Maduro prejudicou de vez a liberdade de expressão. O que queremos é que os vizinhos entendam que o que acontece na Venezuela afeta toda a região. Com a crise agora atingindo o Brasil, fica uma sensação de que não terminamos de aprender. Estamos regredindo a questões dos anos 70: inflação, instabilidade política — opinou.

oglobo.globo.com | 18-09-2015

BERLIM - Estilizada como a "mãe dos fugitivos", uma "Madre Teresa da Europa" já a caminho de ser indicada para o Nobel da Paz, a chanceler federal Angela Merkel deu no último domingo uma guinada de 180 graus, mandando restabelecer o controle de entrada de refugiados nas fronteiras que abrira nove dias antes, em resposta ao maior movimento de fugitivos para o país desde o fim da Segunda Guerra. A guinada não foi, porém, uma decisão voluntária, e sim consequência da maior derrota sofrida por Merkel em dez anos de governo. Refug europa

"Mudar bruscamente de opinião" é uma característica típica do estilo de governar da chanceler, como comparou o cientista político Eckart Jesse, mas desta vez ela precisou ceder depois de ser pressionada pelos próprios aliados e da ameaça de rompimento da coalizão do partido irmão União Social Cristã (CSU), que só existe no estado da Baviera.

O portão aberto para o país mais rico da União Europeia começou a ser fechado para os fugitivos com um SMS enviado à chanceler por volta do meio-dia de sábado por Horst Seehofer, presidente da CSU e governador da Baviera. A abertura da fronteira provocara uma grave crise nacional que ameaçava a estabilidade do governo, teria alertado Seehofer. Para completar, ele criticou abertamente a aliada em entrevistas, afirmando que a decisão de abrir as fronteiras aos fugitivos tinha sido um grave erro com "efeitos incalculáveis".

Munique, a capital da Baviera e principal porta de entrada na Alemanha dos refugiados que vinham da Hungria e da Áustria, vive momentos dramáticos com a chegada de mais de 60 mil pessoas nas duas últimas semanas - muito mais do que a cidade tem capacidade de abrigar.

— Perdemos inteiramente o controle da situação — disparou Hans-Peter Friedrich, ex-ministro do Interior, da CSU.

O clima de pânico no partido foi provocado também pelo receio de que a Oktoberfest - o maior evento anual na cidade, que começa no dia 19 - fosse atrapalhada pela massa de fugitivos. Um dos riscos de segurança apontados pelas autoridades seria um possível confronto entre os embriagados da festa, onde a cerveja é servida em canecas de um litro, e os fugitivos.

Para Eckart Jesse, da Universidade de Chemnitz, pela primeira vez Merkel deixou o seu estilo frio e racional, ao tomar "uma decisão emotiva, de efeitos perigosos e não controláveis" ao garantir o ingresso no país de todos os refugiados que viessem, mesmo sem controle de passaporte.

— Merkel sofreu uma grande derrota porque irritou os eleitores com o seu novo ziguezague, porque o movimento dos refugiados nas cidades alemãs superou qualquer previsão, e porque ela tomou a decisão sem consultar nem os aliados do próprio partido nos governos dos estados, que são os responsáveis pela infraestrutura de abrigo e integração dos refugiados — disse o cientista político.

Mas Martin Klausch, da Universidade Livre de Berlim, argumenta que Merkel voltou atrás também para corrigir a situação após ver a pressão migratória gigantesca e para pressionar a UE a adotar um sistema organizado de distribuição dos refugiados entre os países do bloco.

— A lenda de verão da Alemanha como um país aberto, disposto a receber todos os fugitivos, acabou com um freio de emergência porque a situação ficou fora de controle — indica Klausch.

oglobo.globo.com | 15-09-2015

MADRI, PARIS E BERLIM — Enquanto a União Europeia (UE) busca soluções para o drama humanitário em decorrência do aumento do fluxo de imigrantes no continente, as nações do outro lado do Atlântico também se ofereceram para ajudar no combate à crise migratória. A Venezuela se disse preparada para aceitar 20 mil imigrantes, enquanto a presidente chilena, Michelle Bachelet, afirmou estar trabalhando para abrigar “um grande número de refugiados”.

No Brasil, a presidente Dilma Rousseff afirmou que o país está “de braços abertos” para receber os imigrantes. Já a província canadense de Quebec afirmou que receberá 3.650 refugiados em 2015.

Segundo a ONU, em 2015 cerca de 400 mil pessoas chegarão à Europa pelo Mediterrâneo. Para 2016, a previsão é de 450 mil.

Nesta terça-feira, o vice-chanceler alemão, Sigmar Gabriel, afirmou que o país está em condições de receber 500 mil fugitivos por ano por um período indeterminado, e o ministro das finanças, Wolfgang Schäuble — que reservou € 6 bilhões para a construção de novos abrigos — lembrou que “a política de refugiados tem prioridade absoluta para o governo alemão”.

Já na Espanha, a vice-presidente do governo, Soraya Saenz de Santamaría, após afirmar que o país havia recebido a tarefa de abrigar mais refugiados do que poderia, voltou atrás e indicou a disposição da Espanha de acolher o número determinado pela Comissão Europeia. Embora ela não tenha discutido números, o plano de distribuição de 160 mil refugiados, que a Comissão Europeia deve apresentar nesta quarta-feira, prevê que o país receba mais de 19 mil imigrantes.

A decisão foi encarada como uma profunda mudança de posição por parte do governo, que rejeitou a proposta da Comissão em maio, alegando que o país enfrenta um cenário de 22% de desemprego, e que imigrantes chegam diretamente ao seu litoral. Originalmente, a Comissão propôs que a Espanha abrigasse seis mil refugiados entre os que já se encontravam no continente, mas o país só aceitou receber 2.749.

RESISTÊNCIA ÀS COTAS

Na Alemanha, a oferta de abrigo aos refugiados encontra respaldo também na parte conservadora da coalizão do governo da chanceler federal Angela Merkel. Mas a resistência ao sistema de cotas é grande, sobretudo nos países do antigo bloco comunista. O presidente polonês, Andrzej Duda, disse que o país estaria disposto a colaborar, mas somente na solução das causas da fuga.

— A Polônia não vai aceitar cotas — afirmou também a primeira-ministra Ewa Kopacz.

Também em Lituânia, Letônia, República Tcheca, Eslováquia e Hungria as posições são semelhantes. Segundo o cientista político Herfried Münkel, da Universidade Humboldt, de Berlim, os países do bloco oriental veem a UE como uma forma de tirar proveito material, e não como um ideal, que é compartilhado pelos países fundadores.

— Os países do Leste não têm a mesma tradição de asilo que tem a Alemanha — disse.

‘VITÓRIA DO ESTADO ISLÂMICO’

Na ilha grega de Lesbos, onde cerca de 20 mil refugiados aguardam a céu aberto a oportunidade de chegar a Atenas, o porto local se transformou em palco de confrontos entre a multidão de desabrigados e a polícia. As tensões também são altas na fronteira do país com a Macedônia, onde oito mil pessoas esperam a chance de seguir rumo à Europa Ocidental. Na Dinamarca, uma estrada foi fechada para evitar o avanço de um grupo de refugiados que se encaminhava para a fronteira com a Suécia.

Em Paris, após uma reunião com representantes de 60 países, o ministro das Relações Exteriores da França, Laurent Fabius, alertou que a absorção de todos os imigrantes da Síria e do Iraque seria “um erro”.

— Se todos os refugiados deixarem a região, o Estado Islâmico terá vencido — afirmou Fabius. — Nosso objetivo é que o Oriente Médio continue sendo o Oriente Médio, uma região que inclui minorias como cristãos e yazidis.

O ministro anunciou um pacote extra de € 25 milhões, que serão usados para livrar a cidade de Kobani de minas terrestres, e em projetos de habitação em Irbil, no Curdistão iraquiano. O pacote se soma aos € 100 milhões que Paris já oferecia, destinados principalmente aos campos de refugiados na região.

— A onda migratória não é um incidente isolado, mas o início de um verdadeiro êxodo em massa, o que significa que lidaremos com esse problema por muitos anos — afirmou o polonês Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu.

oglobo.globo.com | 09-09-2015

LONDRES - De uma das janelas dos 700 cômodos de Buckingham, Elizabeth II certamente terá perdido alguns instantes dos seus milhares de dias para contemplar a monumental imagem erguida em frente ao palácio em homenagem à rainha Vitória. Durante todos estes anos, o memorial esteve ali como um lembrete da monarca que mais tempo carregou a coroa britânica: 63 anos, sete meses e dois dias. Nesta quinta-feira, contudo, o título passa a ser de Elizabeth Alexandra Mary, ocupante do trono desde 6 de fevereiro de 1952. Elizabeth

Não haverá festa, nem pompa e circunstância para comemorar a data. Acredita-se que apenas uma cerimônia mais íntima entre os familiares. Dizem seus colaboradores que a rainha preferiu assim. Mas a partir do dia 9, quando baterá oficialmente o recorde da tataravó, os palácios de Buckingham e Windsor, na Inglaterra, e Holyroodhouse, na Escócia, marcarão os festejos com uma grande exposição de fotografias e vídeos emblemáticos do seu reinado, com direito a souvenires e louças de porcelana comemorativas da exibição "Longest reigning monarch" (A monarca do mais longo reinado, em tradução livre) para os entusiastas. Uma moeda comemorativa também está sendo lançada pela Royal Mint, a Casa da Moeda britânica.

Historiadores garantem que ainda é cedo para julgar as marcas do reinado de Elizabeth II, que Polly Toynbee, colunista do "Guardian", diz não serem muitas. Mas monarquistas e mesmo aqueles com pouca simpatia pela instituição concordam que a longevidade fez da rainha um símbolo da unidade e estabilidade do Reino Unido em um mundo novo, totalmente diferente de quando assumiu o trono.

A era de Elizabeth II marcou o fim do "Império onde sol nunca se põe" e tantas outras mudanças sociais e políticas pelas quais passou o país e o resto do planeta, e coincidiu com a era da informação. Por sinal, esta é uma das mudanças que tentam associar ao seu reinado. A rainha tem Twitter desde outubro do ano passado, quando enviou a primeira mensagem aos súditos de dentro do Museu de Ciências. Nos últimos dias, os seus mais de 1,2 milhão de seguidores têm recebido mensagens dos feitos da monarca.

Dos Beatles à grande crise econômica que fez do país "o homem doente da Europa", na década de 1970, passando pelo ingresso na União Europeia e o atentado terrorista que chocou o país há dez anos, ela sempre esteve lá. A nova versão da peça "The Audience", grande sucesso de Peter Morgan no West End, com Kristin Scott Thomas, no papel de Elizabeth II, relembra as reuniões semanais da rainha com os seus primeiros-ministros, de Winston Churchill a David Cameron, passando por Tony Blair - que é pouco mencionado no espetáculo, dizem as más línguas, por não estar entre os mais queridos da monarca.

— É um símbolo de estabilidade. É uma constante. Estava lá quando políticos foram e vieram, quando os partidos no comando do país mudaram. A coroa simboliza a união país — disse Matthew Glencross, historiador do King's College de Londres.

A monarquia britânica vem se mostrando capaz de adaptar-se aos novos tempos. Essa, segundo Glencross, é uma caraterística dos Windsor. E a política de manter a neutralidade e não manifestar posições públicas talvez tenham sido um dos principais fatores a preservar Elizabeth II. Nem mesmo quando a Escócia esteve prestes a deixar o Reino Unido, ela se posicionou oficialmente. Fez um breve comentário:

— Eu espero que as pessoas pensem com muito cuidado.

Para o especialista da Universidade de Glasgow, Murray Pittock, ainda que mantenha a neutralidade - desconfia-se de que esse não seja o ponto alto de Charles - a Casa Real terá muito mais dificuldades de se manter. Segundo ele, questões constitucionais e orçamentárias têm se imposto cada vez mais.

— Será muito difícil fazer perpetuar o modelo em pleno século XXI. O papel da monarquia será questionado.

O recorde de Elizabeth II faz do filho, Charles, o herdeiro que terá esperado mais tempo para assumir o trono. Aos 66 anos, o príncipe de Gales não tem a simpatia de todos os britânicos. Muitos acham que ele deveria abrir mão do trono em favor do primogênito, William. O que para Glencross, não irá acontecer. Pela idade já avançada certamente não terá um longo reinado. Mas será suficiente, segundo o professor, para que faça uma transição para William.

— Devem trabalhar em conjunto, da mesma maneira que a rainha tem trabalhado com ele, delegando ao filho atribuições.

Diferentemente de outros membros da realeza pela Europa, a monarca não dá sinais de que pretenda abdicar. De acordo com a biografia "Charles: the heart of a king" (Charles: o coração de um rei) da jornalista Catherine Mayer, há quem diga que a rainha tema por mudanças e acredite que possam não ser bem compreendidas. Segundo Mayer, Charles quer deixar uma marca pessoal e teme-se que, para isso, deixe de lado a neutralidade.

oglobo.globo.com | 06-09-2015

BERLIM - A maior crise de fugitivos na Europa desde o final da Segunda Guerra Mundial tornou-se uma crise da própria União Europeia (UE), depois que os países do bloco leste começaram a desrespeitar as leis que regulamentam o asilo — tanto internas como internacionais. A principal é o Protocolo de Dublin, assinado em 1999, que diz que o refugiado deve ficar no país onde teve acesso à UE. Segundo o cientista político Hajo Funke, da Universidade Livre de Berlim, a norma foi sepultada sem nenhum diálogo ou votação.

— Os países do Leste recusam-se a receber refugiados, desrespeitando a própria lei da UE — afirma Funke. Crise migr

O jurista Itziar Ruiz, da Anistia Internacional, assegura que a UE “viola obrigações do Direito Internacional de proteção de refugiados e de não devolução”.

— Os Estados-membros, à exceção da Alemanha, mantêm posturas intoleráveis — criticou a também jurista Araceli Mangas, especialista em Direito Europeu da Universidade Complutense de Madri, em entrevista ao jornal “El Mundo”.

‘Maior catástrofe humanitária da UE’

Transformada em campo de refugiados, onde dois mil pessoas aguardam permissão para embarcar num trem em direção à Alemanha, a estacão ferroviária de Keleti, em Budapeste, é a imagem do caos que tomou conta da UE pelo fluxo de fugitivos. Ontem, com as mão dadas e erguidas, os imigrantes protestaram, gritando: “Liberdade! Liberdade!” Para Funke, os países estão se distanciando cada vez mais dos ideais do bloco.

— Trata-se da maior catástrofe humanitária da História da UE.

Pelo Protocolo de Dublin, Grécia e Itália deveriam processar a maior parte dos pedidos de asilo por serem os primeiros países da UE onde eles pisam, chegando por mar. Ou mesmo a Hungria, o primeiro país do bloco na rota dos Bálcãs, após os fugitivos deixarem a Grécia. Mas, eleito três vezes com plataformas conservadoras, o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban, considerou os fugitivos uma “explosão” e “ameaça de infecção”. Já o ex-presidente tcheco Václav Klaus definiu a política de refugiados da UE propagada pela chanceler federal alemã, Angela Merkel, de “suicídio”.

— Se a UE quer praticar o suicídio ao aceitar um número ilimitado de refugiados, pode fazer isso, mas sem a nossa aprovação — declarou Klaus.

Segundo o atual presidente tcheco, Milos Zeman, os fugitivos são uma “tsunami” e, para ele, os muçulmanos seriam especialmente perigosos. Já o premier eslovaco, Robert Fico, classificou a ideia de a UE receber todos os refugiados de guerras de “maluca”.

— Enquanto a Alemanha propõe a criação de cotas, para que os milhares de fugitivos sejam divididos entre os 28 países da UE, os países do Leste querem fechar suas fronteiras — ressalta o cientista político Hajo Funke.

Mas não só os países do antigo bloco comunista são contra o ingresso de refugiados. O Reino Unido chegou a interromper o tráfego do Eurotúnel para impedir a entrada de refugiados. Cerca de quatro mil pessoas estão acampadas em Calais, na França, aguardando a oportunidade de cruzar o Canal da Mancha.

Líderes de alguns países do antigo bloco comunista na UE — Hungria, República Tcheca, Eslováquia e Polônia — se encontram em Praga para uma conferência sobre a crise dos refugiados. Os quatro países, que fazem parte da UE desde 2004, desejam adotar uma posição comum para evitar a pressão da Alemanha, que quer resgatar a validade do Protocolo de Dublin.

Na quarta-feira, uma imagem tornou-se símbolo da atual crise migratória. Aylan Kurdi, de apenas 3 anos, foi encontrado morto em uma praia no balneário turístico de Bodrum, na Turquia. Ele se afogou, bem como outros 12 refugiados sírios, que tentavam alcançar de barco a ilha grega de Kos. Outras cinco crianças, entre elas o irmão dele, Galip, 5 anos, estavam entre os mortos.

A cena do corpo do menino, com o rosto enfiado na areia, tomou conta das redes sociais e também foi publicada em vários jornais. “Se essa imagem extraordinariamente poderosa de uma criança síria morta em uma praia não mudar a atitude da Europa com os refugiados, o que irá?”, questionava o título do britânico “The Independent”. Já o português “Público” justificou a publicação: “Vamos de forma paternalista proteger o leitor de quê? De ver uma criança morta à borda da água, com a cara na areia? Não sabemos se esta fotografia vai mudar mentalidades e ajudar a encontrar soluções. Mas hoje, no momento de decidir, acreditamos que sim.”

DIREITOS EM XEQUE

Declaração Universal dos Direitos Humanos - O artigo 14 da Declaração Universal dos Direitos Humanos prevê: “Em caso de perseguição, toda pessoa tem direito de buscar asilo, e a desfrutar dele, em qualquer país.” Países europeus têm infringido este direito ao fechar fronteiras ou criar cotas para migrantes fugindo de conflitos, extremismo e ditaduras nos países de origem. O Reino Unido se nega a aceitar qualquer refugiado.

Convenção de Genebra - Muitos países não estão cumprindo o Estatuto do Refugiado da Convenção de Genebra, de 1951, que estabelece “a proteção que um Estado oferece a pessoas que não são seus nacionais e cuja vida ou liberdade está em perigo por atos, ameaças e perseguições das autoridades de outro Estado”.

Carta de Direitos Fundamentais da UE - O artigo 9, “Direito ao asilo”, tem sido desrespeitado, bem como o artigo 6, que afirma a “obrigatoriedade de registrar todas as solicitações de proteção internacional que sejam apresentadas”.

Convênio Europeu de Direitos Humanos - Os artigos 3, 13 e o protocolo 4° têm sido violados com as atitudes de países europeus na atual crise migratória. É uma das tábuas de direitos mais descumpridas pela União Europeia (UE). Em 2014, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, em Estrasburgo, obrigou a Espanha a manter em território nacional 30 saarauís aos quais o país se recusou conceder asilo, em 2011.

oglobo.globo.com | 03-09-2015

BERLIM - A crise dos refugiados é o maior desafio do governo da chanceler federal Angela Merkel, há dez anos no poder. Criticada por ter silenciado no início da maior onda de fugitivos na Europa desde a Segunda Guerra Mundial, a chefe do governo alemão, em entrevista coletiva, classificou a crise como uma “tarefa nacional” e um dos maiores desafios da Alemanha desde a reunificação do país há 25 anos. E anunciou que vai propor um sistema de cotas na União Europeia para que o contingente de refugiados que chegam ao continente seja dividido entre todos os países do bloco. Merkel imigr

Enquanto uma minoria, sobretudo no Leste (antiga Alemanha Oriental), a região de origem de Merkel, recebe os refugiados que chegam — em grande parte da Síria, do Iraque, Afeganistão ou Eritreia — com arremessos de pedras e garrafas e gritos de “heil Hitler”, outra parte da população defende uma politica ainda mais generosa para com os fugitivos.

— A população tem um sentimento difuso de medo do estranho, quer dizer, do refugiado, porque o governo não adotou uma política mais transparente de mostrar ao povo a importância de recebê-los — diz o cientista político Herfred Münkler, da Universidade Humbold de Berlim.

Mas também a Europa está dividida. De um lado, Merkel e o presidente francês, François Hollande, defendem a criação de um sistema de cotas, segundo o qual o contingente de refugiados que chegam ao continente seria dividido entre todos os países do bloco. De outro, diversos países da Europa Central e Oriental, como Eslováquia, República Tcheca, Polônia e Hungria, são contra as cotas porque não querem a responsabilidade de receber um grande número de refugiados.

A Hungria está construindo uma cerca para dificultar a chegada de imigrantes ao país, embora os refugiados usem seu território apenas como trânsito, preferindo seguir viagem para a Europa Ocidental. Na segunda-feira, chegaram à Baviera dois trens de refugiados que foram detidos na Hungria, mas que depois receberam a permissão de viajar.

— Rejeitamos com veemência qualquer sistema de cotas. Se um mecanismo automático de redistribuição de imigrantes for adotado, acordaremos um dia com cem mil pessoas do mundo árabe aqui, e esse é um problema que eu não quero para a Eslováquia. — afirmou o premier eslovaco, Robert Fico, que criticou o apoio dos países ocidentais a grupos rebeldes na Síria e na Líbia.

O presidente tcheco, Milos Zeman, afirmou que o país aumentará a proteção em suas fronteiras, já que a União Europeia não está conseguindo conter o fluxo de imigrantes

— A República Tcheca deve proteger suas fronteiras sozinha e expulsar os imigrantes ilegais, usando o Exército caso seja necessário — afirmou Zeman.

O ministro francês das Relações Exteriores, Laurent Fabius, classificou a posição dos países da Europa Central como “escandalosa”. Para Merkel a cota é importante porque os países precisam dividir a responsabilidade de receber os refugiados.

— Se a Europa falhar na crise dos refugiados, corre o risco de danificar o seu relacionamento estreito com os direitos cívicos universais. Se não conseguirmos distribuí-los de maneira justa, é claro que teremos que questionar o Acordo de Schenegen — disse Merkel, criticando os países da União Europeia que lutam contra a cota. — Estamos diante de um enorme desafio nacional, não por apenas dias ou meses, mas por um longo período.

‘Lampedusa alemã’

Trens repletos de imigrantes partiram de Budapeste com destino à Áustria e à Alemanha, principal destino dos imigrantes, e algumas composições foram interceptadas pela polícia. Em Passau, principal ponto de entrada dos refugiados no território alemão, apelidado pela imprensa europeia de “Lampedusa alemã”, policiais entraram em trens e ajudaram a registrar imigrantes. Já na Áustria, cinco contrabandistas foram presos e centenas de imigrantes, detidos próximo à fronteira com a Hungria. O ministro do Interior, Konrad Kogler, afirmou que não se tratava de uma operação de controle de fronteiras, mas sim de garantir a segurança no tráfego.

A França anunciou que pretende construir um campo capaz de abrigar até 1.500 refugiados no porto de Calais, onde até cinco mil pessoas estão vivendo em acampamentos improvisados na esperança de cruzar o túnel que liga o país ao Reino Unido. Em visita à cidade, o vice-presidente da Comissão Europeia, Frans Timmerman, afirmou que o órgão doará € 5 milhões para o novo centro.

— É um belo gesto, mas muito pequeno — minimizou a prefeita de Calais, Natacha Bouchart. — Ainda faltarão € 25 milhões.

Há mais de dez anos, um enorme campo de refugiados, o Sangatte, foi fechado na cidade, durante o governo do presidente Nicolas Sarkozy. No entanto, Calais permanece um dos principais pontos de concentração de imigrantes ilegais na Europa. Os ministros do Interior se reunirão neste mês, e os líderes dos países-membros da UE, no dia 11 de novembro, para tentar encontrar uma resposta para a crise de imigração.

oglobo.globo.com | 01-09-2015

BRASÍLIA - Em meio a uma profunda crise de popularidade e o risco de ver o Brasil perder o grau de investimento, a presidente Dilma Rousseff não poderia estar mais contente com a visita da chanceler federal alemã, Angela Merkel. A presença de Merkel é considerada pelo governo como mais do que um gesto de confiança na política e na economia brasileira. A avaliação é que a vinda da chanceler, acompanhada de mais da metade de seu gabinete, é sinal de prestígio.

— A chanceler Angela Merkel dedicará dois dias em uma visita apenas ao Brasil, sem outros países sul-americanos como destinos, e em meio a uma rebelião do seu partido no Parlamento alemão, por causa do pacote de ajuda à Grécia. Isso é mais do que prestígio — comentou uma fonte ligada à Presidência da República.

Na manhã desta quinta-feira, Dilma e Merkel lançam um mecanismo de consulta de alto nível, usado pela Alemanha com alguns países: França, Espanha, Itália, Polônia, Holanda, Estados Unidos, China, Israel, Índia e — até antes das sanções aplicadas a Moscou, devido à questão da Ucrânia — Rússia. As reuniões bilaterais passarão a ocorrer a cada dois anos.

A expectativa é que Merkel em Brasília signifique mais investimentos no Programa de Infraestrutura em Logística (PIL), traga mais cooperação na produção de energia de fontes renováveis e ainda ajude a dar um empurrão na demorada negociação entre Mercosul e União Europeia para a criação de uma zona de livre comércio entre os dois blocos. Para a área diplomática do governo brasileiro, os negociadores europeus estão mais preocupados em fechar a negociação de um tratado semelhante com os EUA.

Além de um jantar de trabalho no Palácio do Alvorada, na noite desta quarta-feira, Merkel e Dilma vão se reunir hoje no Palácio do Planalto, a partir das 10h, já com cerca de 15 atos assinados em reuniões simultâneas, logo cedo, entre ministros alemães e brasileiros. Entre os documentos a serem firmados, estão declarações conjuntas sobre aquecimento global, energia, educação, ciência e tecnologia, defesa e saúde.

PARCEIRO COMERCIAL NA EUROPA

A Alemanha é o principal parceiro comercial do Brasil na Europa e o quarto no mundo, com fluxo em torno de US$ 20 bilhões por ano. Há cerca de 1.600 empresas alemãs no território brasileiro — o maior parque industrial fora daquele país — entre elas, BMW, Mercedes-Benz e Volkswagen.

Roberto Abdenur, ex-embaixador do Brasil na Alemanha, acredita que, além de temas econômicos, Merkel debaterá com Dilma sobre temas globais, como mudança climática e adoção de energias limpas, especialmente eólica e solar; e sobre a reforma do Conselho de Segurança da ONU. Brasil e Alemanha são candidatos a vagas permanentes no organismo.

oglobo.globo.com | 20-08-2015

RIO — Em 1968, a repercussão do livro “Revolução na Revolução”, do filósofo francês Régis Debray, acabou sendo um dos impulsos para o engajamento na luta armada contra a ditadura militar brasileira. O foquismo — teoria revolucionária inspirada por Che Guevara e desenvolvida por ele, que consistia, basicamente, em criar focos de revolução no mundo para enfraquecer o imperialismo — foi adotado, nos anos seguintes, por grupos armados da esquerda no país. Quase cinco décadas depois, Debray não se sente mais tão confortável com o motivo que lhe deu fama no Brasil, mas não nega seu passado — e nem a esquerda.

— Por um lado, me arrependo, sim, do foquismo, mas por outro não, porque era o espírito daquela época. Anos depois, redigi uma autocrítica, “Crítica das armas” — explica, durante sua passagem pelo Rio para receber o título de doutor Honoris Causa, pela Universidade Candido Mendes.

Para o filósofo e jornalista, foi justamente o desencanto com a política de maneira geral — e não só com o comunismo — que criou o terreno favorável para o crescimento do extremismo nos dias de hoje.

— Na década de 60, os comunistas tinham certeza que iriam colocar as religiões nos museus. Mas o que vemos nos anos 2000 é justamente o inverso: a religião colocou o comunismo nos museus. O distanciamento da política volta a trazer um sentimento de pertencimento étnico e religioso, que leva à sensação de proteção, autoestima e dignidade que antes era oferecida pelo sistema político. E quanto mais a política se corrói, mais os movimentos religiosos passam a assumir o seu papel — afirma, citando a desintegração dos partidos laicos em países como Iraque, Síria e Índia. — Os netos vão a mesquitas, templos e sinagogas. Os avós não estavam nem aí para isso. Quiseram estatizar o Islã, e agora o Islã está tomando o Estado.

GLOBALIZAÇÃO E JIHADISMO

Debray, que pertenceu ao Partido Socialista francês, do qual se distanciou por diferenças ideológicas com o ex-presidente François Mitterrand, defende que a despolitização deu-se principalmente pelo que ele chama de “ditadura dos economistas”.

— Votamos na França, mas as decisões são tomadas em Bruxelas, nos Estados Unidos, pelo Fundo Monetário Internacional. Então, para que votar? Será preciso fazer um esforço para se voltar à política.

A globalização, para ele, é outra das causas que explicam fenômenos como a ciberjihad, muito utilizada pelo grupo extremista Estado Islâmico, por exemplo, para recrutar soldados mundo afora. Segundo o francês, a fuga de jovens europeus para guerrear no Iraque e na Síria é um efeito colateral desse processo.

— No Irã, por exemplo, a globalização foi precipitada e acordou os xiitas. O que costuma ser agravado por uma ingerência externa, que força os ocupados a reencontrarem suas singularidades. Com o celular, a internet, o avião, uma comunidade religiosa pode se sentir em casa estando fora de casa. E eles vão buscar em outro lugar uma causa para se sacrificar. O extremista se defende para se distinguir. E não vejo uma solução a curto prazo que não seja a policial, a informática, o controle de passaportes e de movimentações.

CRESCIMENTO DA EXTREMA-DIREITA

Debray ressalta, ainda, um dos pontos marcantes do novo fundamentalismo religioso:

— Isso explica muito os budistas extremistas e os neoevangélicos. O drama do neofundamentalismo é que ele é a religião sem o conhecimento da própria religião. Os jihadistas mais fanáticos são os que menos conhecem sua própria religião.

A crise migratória, que toma conta da Europa com tragédias quase semanais, também foi lembrada pelo francês. Pessimista, Debray não acredita em uma solução simples e afirma que dificilmente a União Europeia sobreviverá como bloco.

— As imigrações e deslocamentos em massa constituem uma bomba de uma diáspora que cria atritos onde antes eles não existiam. As zonas de fronteira, ou seja, as linhas de contato, transformaram-se em fronts. E não existe um mito de identificação na Europa. Para a Europa, não haverá mais Europa, infelizmente. Sem uma memória e cultura identitárias esse coletivo não funciona — afirmou, lembrando que a imigração desenfreada dá munição à extrema-direita no continente, numa resposta ao que é visto como uma invasão. — A extrema-direita aproveitou a crise social e política para roubar os eleitores da extrema-esquerda.

CUBA E EUA: PROVEITO PARA OS DOIS LADOS

Amigo de Fidel Castro e de Che Guevara — nos anos 1960 acompanhou Che na guerrilha, especialmente na Bolívia, onde foi preso em 1967 junto com Irineu Guimarães — Debray vê de maneira positiva a aproximação recente de Cuba com os Estados Unidos. Sem, claro, deixar de lembrar que os dois lados têm objetivos completamente distintos com essa reaproximação.

— Há 50 anos, tudo isso seria impossível, era um momento de ruptura total. Há 20 anos, no entanto, comecei a perceber que a política entre os dois países era absurda e contraproducente para ambos. Cuba não poderia mais negar seu vínculo, difícil mas inegável, com os Estados Unidos, principalmente por questões geográficas e culturais. Os EUA, por sua vez, precisavam reincorporar Cuba à família latino-americana, até para sua própria sobrevivência no bloco. Agora, os dois lados irão tirar proveito desse momento. Os dois com objetivos completamente diferentes.

oglobo.globo.com | 15-08-2015

RIO – A poluição luminosa gerada pela iluminação artificial, em especial nas grandes cidades, “apaga” as estrelas e impede que seus moradores admirem a beleza do céu noturno, como fizeram nossos ancestrais durante milhares de anos, além de provocar diversos problemas para saúde humana e o meio ambiente. Mas medir sua intensidade e saber como ela produz fenômenos como o tênue brilho que envolve algumas das regiões mais populosas do planeta têm se mostrado um desafio para os cientistas.

Em geral, estas medições têm que ser feitas no próprio local, fornecendo apenas um ponto de dado e pequena cobertura espacial frente à imensidão da Terra. Agora, porém, um grupo de cientistas encontrou uma maneira de usar as milhares de fotos de alta resolução capturadas por astronautas na Estação Espacial Internacional (ISS) para calcular de forma confiável a poluição luminosa em uma escala global.

O estudo inédito, apresentado esta semana durante a Assembleia Geral da União Internacional de Astronomia, que acontece no Havaí, inclui não só fontes bem marcadas nas cidades, como seus postes de luz e grandes anúncios luminosos, como os efeitos deste tênue brilho em torno delas. Os primeiros resultados confirmam que esta luz difusa em torno das grandes cidades, vista com facilidade do espaço, é mesmo resultado do espalhamento dos raios emitidos pela iluminação pública e prédios e a principal razão da diminuição da visibilidade geral que faz as estrelas e a Via Láctea “sumirem” do céu.

Iniciado em julho do ano passado por pesquisadores da Universidade Complutense de Madri, na Espanha, e do Cégep de Sherbrooke, instituição de ensino técnico e pré-universitário do Canadá, o estudo demandou primeiro a catalogação e georreferenciamento de mais de 130 mil fotos feitas por astronautas na ISS ao longo de mais de uma década, trabalho que contou com a ajuda do público em geral no projeto “Cities at Night” (cidades à noite). As imagens também foram calibradas com base nas estrelas vistas ao fundo, assim como por medições da poluição luminosa in loco, inclusive de um amplo levantamento do brilho no céu na região da capital espanhola.

Somando estas informações a dados coletados por instrumentos do Programa de Satélites Meteorológicos de Defesa e do satélite Suomi-NPP, ambos dos EUA, os cientistas puderam então analisar a poluição luminosa em escala global e sua relação direta com o brilho difuso do céu em torno das grandes cidades, assim como estimar os gastos delas com iluminação pública. Segundo os pesquisadores, os países e cidades da Europa com maior dívida pública também são os que mais gastam energia para iluminar suas ruas, a um custo que chega a 6,3 bilhões de euros anuais apenas nos países da União Europeia.

Até agora, porém, apenas uma pequena parte das fotografias capturadas pelos astronautas na ISS já foi catalogada, calibrada e analisada, e por isso o estudo não traz informações sobre outras regiões do planeta. O objetivo dos pesquisadores, no entanto, é terminar por produzir o primeiro mapa global em cores da iluminação da Terra à noite. Além disso, as imagens feitas pelos astronautas são, por enquanto, a única fonte que permite estimar a prevalência dos diferentes tipos de tecnologia de iluminação usados nas cidades, dados que começam a ganhar maior relevância à medida que muitas substituem ou planejam substituir as tradicionais lâmpadas de sódio dos postes, por exemplo, por versões mais econômicas e direcionadas que ajudam a diminuir a própria poluição luminosa, como as lâmpadas de LED.

oglobo.globo.com | 12-08-2015

RIO - Um novo método de obtenção e construção de imagens anatômicas em três dimensões vai permitir aos cientistas estudar o cérebro em uma escala sem precedentes, e seus inventores acreditam que ele fará pela neurociência o que equipamentos poderosos como o telescópio espacial Hubble fizeram pela astronomia e a compreensão de nosso Universo. Desenvolvida por pesquisadores de diversas instituições americanas, a técnica é capaz de fornecer detalhes com dimensões de nanômetros (milionésimos de milímetros) do órgão. Assim, mais do que mostrar os neurônios e outras estruturas cerebrais em si, suas imagens exibem as próprias conexões entre as células nervosas e o ambiente em seu entorno. No futuro, eles esperam que isso possibilite, por exemplo, comparar os cérebros de pessoas saudáveis com os de vítimas de esquizofrenia ou os de crianças normais com os de autistas, trazendo revelações sobre estes e outros distúrbios.

Segundo os pesquisadores, no entanto, o novo método já deverá se provar fundamental para guiar ambiciosos projetos atuais que procuram desvendar o funcionamento do cérebro e da mente, como o europeu Projeto Cérebro Humano e a iniciativa americana BRAIN. O primeiro, lançado pela União Europeia no início de 2013, vai investir mais de 1 bilhão de euros (cerca de R$ 3,7 bilhões) ao longo de dez anos numa tentativa de criar uma simulação em supercomputador de todos os aspectos do órgão, da estruturação dos neurônios a sua genética, química e sinais elétricos. Já a segunda, anunciada pelo presidente Barack Obama poucos meses depois, prevê gastar recursos da ordem de US$ 100 milhões (cerca de R$ 340 milhões) anuais em estudos sobre o cérebro, numa “disputa” entre grupos dos dois lados do Atlântico que lembra a corrida espacial entre os EUA e a antiga União Soviética na segunda metade do século XX.

— Os dados anatômicos que poderemos produzir com este método serão muito importantes para orientar estes estudos — aposta Narayanan “Bobby” Kasthuri, professor da Escola de Medicina da Universidade de Boston e um dos desenvolvedores do método, apresentado em artigo publicado na edição desta semana da revista científica “Cell”. — Eles poderão identificar falhas nas suas premissas e incorporar os achados feitos com o método aos seus modelos.

E mesmo o experimento limitado da apresentação do novo método já produziu informações que deverão forçar algumas alterações nestas premissas. Nele, os cientistas decidiram investigar uma parte microscópica da região do córtex cerebral de camundongos responsável por processar as sensações transmitidas por seus bigodes, que os ajudam a se orientar e são mais sensíveis que as pontas de nossos dedos. Só neste volume — de 0,13 milímetro cúbico e cem vezes menor do que um grão de areia, cortado em fatias de 29 nanômetros de espessura (limite da tecnologia atual) e depois unidas nas imagens em 3D com a ajuda de um software especial —, eles contaram 1,6 mil neurônios interagindo por meio de 1,7 mil sinapses, além de vários outros tipos de estruturas e células cerebrais e sanguíneas. Mais do que isso, no entanto, os cientistas verificaram que estas conexões entre neurônios não obedecem a chamada “Lei de Peter”, segundo a qual a proximidade física entre os neurônios é suficiente para presumir sua conectividade. No emaranhado do cérebro dos camundongos, os pesquisadores viram que neurônios que estão lado a lado podem muito bem não se comunicarem, enviando seus sinais para outros bem mais distantes.

— A complexidade do cérebro é muito maior do que jamais imaginamos — diz Kasthuri. — Tínhamos esta ideia clara de como deveria haver uma bela ordem na forma como os neurônios se conectam uns aos outros, mas se de fato observarmos o material não é nada disso. As conexões são tão bagunçadas que é difícil imaginar que elas obedeçam a um plano, mas verificamos e parece haver um claro padrão que não pode ser explicado pelo acaso.

E é justamente na busca deste padrão que o novo método pode se provar de enorme valia nos estudos que procuram montar o chamado conectoma, um mapa completo dos circuitos cerebrais e parte fundamental dos projetos para desvendar os segredos do funcionamento do cérebro e da mente, destaca Kasthuri:

— Uma das coisas que estão faltando nos estudos do cérebro é encontrar um tipo de padrão para o modo como suas células se conectam, e com dados anatômicos com este nível de detalhamento talvez possamos finalmente ver este padrão. E temos que lembrar que os padrões são uma maneira essencial para a ciência e os cientistas dissecarem como algo funciona.

Mas uma imagem 3D completa de um cérebro humano, com a análise de suas sinapses, nesta escala dos nanômetros ainda vai demorar pelo menos mais uma década para ser produzida, devido principalmente às limitações atuais nas capacidades de armazenamento e processamento de dados por computadores. Para se ter uma ideia do poder computacional que o novo método demanda, o mapeamento de um volume cerebral de apenas 1 milímetro cúbico produziria 2 milhões de gigabytes de dados ou mais e mesmo com o sistema automatizado de análise criado pelos pesquisadores, o trabalho levaria pelo menos dois anos. Como o cérebro humano tem, em média, um volume de 1,2 milhão de milímetros cúbicos, os dados gerados bateriam na casa dos yotabytes, ou 1 milhão de vezes o tráfego anual da internet hoje.

— É um número tão grande que não consigo nem imaginar — conta Kasthuri. — Por sorte, diversos campos de pesquisa, governos e empresas estão trabalhando com a mineração de enormes quantidades de dados e esperamos que a solução para este empecilho saia de alguns deles, além do contínuo desenvolvimento da tecnologia da informação que vimos nas últimas décadas.

oglobo.globo.com | 31-07-2015
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