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União Européia Educação

Em 1942, o escritor russo-americano Isaac Asimov, autor de clássicos como “Eu, robô”, descreveu as “Leis da Robótica”, uma tríade de regras para regular a relação entre homens e máquinas — então, puramente no campo da ficção. Ele talvez não soubesse, mas lançava ali as bases para uma discussão que hoje é bastante real: a quem atribuir a responsabilidade no caso de acidentes envolvendo, por exemplo, os incipientes carros sem motorista ou os exoesqueletos que ajudam pessoas com deficiência a se locomover. Enquanto as máquinas que nos cercavam — aspiradores de pó, cortadores de grama, liquidificadores — tinham limitada autonomia, as leis atuais davam conta da culpabilidade em caso de falhas. Mas, com o grau cada vez maior de “independência” dos aparelhos, acidentes e até mortes podem ter sua “autoria” difícil de determinar.

Por isso, cresce a pressão em muitos países para uma revisão dos códigos penais. Afinal, se uma pessoa é atropelada por um carro autônomo, a culpa é do seu dono, do fabricante, da empresa responsável pelo sistema de mapas? A União Europeia saiu na frente, criando o consórcio RoboLaw, que, no fim do mês passado, apresentou os resultados de um estudo sobre o tema ao Parlamento Europeu.

— Novas aplicações e tecnologias chegarão em poucos anos. Queremos resolver as questões jurídicas de antemão para não criar gargalos éticos ou legais — explica o gerente do projeto RoboLaw, Pericle Salvini, pesquisador do Instituto de Biorrobótica da Scuola Superiore Sant’Anna, na Itália.

Segundo estimativas do consórcio, a aplicação de robôs nas áreas de saúde, produção e serviços vai gerar impacto de US$ 1,7 trilhão a US$ 4,5 trilhões por ano a partir de 2025, sendo que até US$ 2,6 trilhões serão destinados a melhorar e estender a vida das pessoas, em particular pelo uso de próteses e exoesqueletos. Graças a essas tecnologias, diz o ultraotimista estudo europeu, mais de 50 milhões de pessoas vão recuperar a mobilidade; técnicas cirúrgicas com robôs diminuirão o tempo de recuperação dos pacientes e os gastos com internações; e os carros autônomos salvarão mais de 150 mil vidas.

O estudo foi apresentado no dia 24 de setembro, mas não existe prazo para que leis sejam criadas. Como as aplicações são variadas, o grupo recomenda que cada caso seja tratado de forma isolada. Para os carros autônomos, por exemplo, a recomendação é que exigências técnicas sejam rígidas e constantemente atualizadas e que, em caso de acidentes, os custos sejam arcados pelo seguro tradicional ou por um fundo, bancado por taxa compulsória cobrada dos donos desses veículos.

LEGISLAÇÃO DEVE SER REVISTA PERIODICAMENTE

Como a legislação dificilmente consegue acompanhar a velocidade dos avanços tecnológicos, Salvini explica que, se criadas, essas regulações não serão fixas, com exigência de revisões. Outro ponto sensível é o balanço da regulação para que ela não prejudique a inovação.

— A regulação limita a liberdade, mas diz até onde você pode ir — diz o pesquisador.

Salvini deu exemplos de aplicações que devem ou não ser liberadas ao mercado. Os exoesqueletos, apesar de ainda não serem 100% seguros, dão capacidades motoras a pessoas com deficiência. Para o pesquisador, trata-se de um “grande valor social, a liberdade”, e, por isso, a lei deve tratar o quanto antes do tema. Já os carros sem motorista...

— Se eles forem mais seguros que o melhor dos motoristas humanos, podem ser um ganho, mas a tecnologia ainda não alcançou esse ponto. O interesse econômico é maior que os benefícios éticos e sociais — acredita.

No lado dos desenvolvedores, a falta de regulação é tida como o principal “gargalo”. O pesquisador da Universidade de São Paulo, Patrick Shinzato trabalha há cinco anos no projeto do carro autônomo CaRINA e, apesar de considerar a tecnologia incipiente dados o alto custo e o ainda engatinhante sistema de atualização de mapas, acredita que o maior impasse é a parte legal. Atualmente, universidades, empresas de tecnologia e montadoras conseguem, com muito custo, apenas licenças especiais para testes em vias públicas.

— O que falta ser definido é a legislação — diz Shinzato.

Para o advogado Paulo Perrotti, especialista em Direito digital, a criação de leis para o setor da robótica é uma necessidade. Atualmente, os EUA discutem regras pontuais para os carros autônomos e uso de drones, o Japão tem regulações para o uso de robôs em linhas de produção, e a Organização Internacional para Padronização (ISO, na sigla em inglês) elaborou recomendações para “robôs e aparelhos robóticos” (ISO 13842). A Constituição brasileira faz uma breve menção ao garantir ao trabalhador “proteção em face da automação”, mas o artigo não foi regulamentado.

— O mundo precisa começar a pensar até onde a robótica pode ir, os valores éticos que ela envolve em cada sociedade — avalia Perrotti.

O professor da Universidade Federal da Bahia Marco Aurélio de Castro Júnior, autor do livro “Direito e pós-humanidade”, pensa além e projeta o futuro com robôs que superam os seres humanos em capacidade intelectual, a chamada singularidade tecnológica. Caso a previsão se realize, o Direito deverá acompanhar as mudanças.

— Segundo os teóricos da singularidade, não antes de 2030 e não depois de 2050 uma máquina vai superar o ser humano em inteligência — diz.

Para Salvini, do RoboLaw, o mundo não precisa se preocupar com esse cenário:

— Não vamos desenvolver outro ser humano. Se for necessário colocar decisões éticas na programação de uma máquina, será a hora de dar um passo atrás.

oglobo.globo.com | 12-10-2014

O Facebook já sabe quem são os seus amigos e o tipo de coisas que chamam a sua atenção. Em breve, ele também poderá saber o seu estado de saúde.

Na esteira de empresas como Apple e Google, o Facebook está planejando os seus primeiros passos no campo fértil do cuidado com a saúde, de acordo com três fontes familiares ao tema. Os informantes pediram para não serem identificados, já que os planos ainda estariam em desenvolvimento.

A rede social estaria explorando a criação de comunidades on-line "de apoio" para conectar os usuários do Facebook que sofrem das mesmas enfermidades. Uma pequena equipe também está considerando novas aplicações "preventivas" que ajudariam os usuários a melhorarem o seu estilo de vida.

Nos últimos meses, a empresa de Mark Zuckerberg estaria realizando reuniões com especialistas da indústria médica e empreendedores, e está montando uma unidade de pesquisa e desenvolvimento para testar novos aplicativos de saúde. No entanto, o Facebook, ainda estaria na etapa da coleta de ideias para esses projetos.

Saúde tem sido historicamente uma área de interesse do Facebook, mas que ficou relegada a um segundo plano frente a produtos mais urgentes. Recentemente, executivos do Facebook perceberam que o cuidado com a saúde pode funcionar como uma ferramenta para aumentar o engajamento com o site.

Um catalisador para a rede social sobre isso: o sucesso inesperado da iniciativa "status de doador de órgãos", introduzido em 2012. No dia em que o Facebook alterou as páginas de perfis para permitir que membros especifiquem se são doares de órgãos, 13.054 pessoas se registraram on-line para doar órgãos, um aumento de 21 vezes em relação à média diária de 616 inscritos de acordo com um estudo de 2013 de junho publicado no American Journal of Transplantation.

Separadamente, as equipes de produto do Facebook notaram que pessoas com doenças crônicas, como diabetes, procuram a rede social para orientações. Além disso, a proliferação de redes de pacientes, com a PatientsLikeMe, mostram que as pessoas estão cada vez mais confortáveis em compartilhar on-line as suas experiências relacionadas a sintomas e tratamentos.

O diretor executivo da rede social, Mark Zuckerberg, pode ter um envolvimento pessoal com o desenvolvimento de ferramentas voltadas à saúde pela empresa. Ele e a sua mulher, Priscilla Chan, uma pediatra residente na Universidade da Califórnia, em São Francisco, recentemente doara US$ 5 milhões ao Ravenswood Health Center, em East Palo Alto.

No entanto, qualquer propaganda criada para as iniciativas de saúde não seriam como aquelas vinculadas na TV ou em outras mídias. As companhias farmacêuticas, por exemplo, são proibidas de usar o Facebook para promover a venda de medicamentos, em parte por causa de preocupações em torno de divulgações.

PREOCUPAÇÕES COM PRIVACIDADE

Privacidade, uma área em que a empresa tem enfrentado críticas fortes nos últimos anos, será possivelmente um desafio à nova empreitada. Essa semana a empresa se desculpou por ter manipulado o feed de notícias dos usuários, sem avisá-los, para um experimento interno.

No entanto, o Facebook pode já ter algumas ideias para aliviar as preocupações sobre privacidade relativas a possíveis ferramentas de saúde. A empresa estaria considerando lançar o seu primeiro aplicativo do tipo de forma reservada, sob um nome diferente, já que uma pesquisa de mercado comissionada pelo Facebook indicou que muitos dos seus usuários não sabem que a rede social de fotos Instagram é sua.

Recentemente, o Facebook aliviou a sua política de exigir que os usuários usem seus nomes reais na rede, o que pode indicar os planos de saúde do site. Pessoas com doenças crônicas podem preferir usar um pseudônimo quando compartilham experiências relacionadas à saúde.

— Eu poderia ver o Facebook se dando bem com aplicações de estilo de vida e saúde, mas pacientes com doenças como câncer não estão brincando — afirmou Frank Williams, diretor executivo da Evolent Health, uma empresa que fornece software e serviços para médicos e sistemas de saúde.

As pessoas precisam do anonimato e da garantia de que seus dados e comentários não serão compartilhados com seus contatos on-line, anunciantes ou empresas farmacêuticas, disse Williams.

Questionado sobre o assunto, o Facebook se recusou a comentar os seus planos sobre serviços de saúde.

oglobo.globo.com | 03-10-2014

GALWAY - Na costa oeste da Irlanda está Galway, distantes 208 quilômetros de Dublin, praticamente em linha reta. Com uma importante universidade, Galway parece uma miniatura da capital irlandesa. Tem 75 mil habitantes, enquanto Dublin tem pouco mais de 500 mil. E, se no Trinity College estudam 17 mil alunos, com 2.700 alunos estrangeiros, a Universidade Nacional da Irlanda, em Galway, reúne o mesmo número de estudantes, e quantidade similar de alunos estrangeiros. Pelas ruas predomina o espírito jovem e o ambiente universitário.

À noite, nas ruas próximas ao Kennedy Park e à Eyre Square, a praça principal com as bandeiras das 14 tribos de mercadores que moldaram a cidade na Idade Média, não faltam pubs, nem músicos tocando nas calçadas, para acolher tanta gente em busca de diversão. O mais famoso é The Kings Head (High St., thekingshead.ie), onde morou Peter Stubbers que, segundo versões da História, teria sido o carrasco do Rei James I, em 1649.

A estátua de Oscar Wilde na William Street, ao lado da estátua do escritor estoniano Edward Wilde, é uma parada divertida. Nenhum dos dois, embora contemporâneos, têm nada a ver com Galway. Mas o monumento foi presenteado à cidade pelo governo da Estônia, quando aderiu à União Europeia ,e a Irlanda celebrou em Galway as boas-vindas à Estônia ao bloco, em 2004. Já Bram Stoker, o autor de “Drácula”, nasceu em Galway, e se mudou para Dublin para estudar no Trinity College.

De dia, as ruas que formam o Latin Quarter (equivalente ao Temple Bar de Dublin, guardadas as devidas proporções) abrem as portas do comércio para atender aos turistas (um milhão por ano) e moradores, com lojas fofas como a de brinquedos artesanais Wooden Heart (woo denheart.com, 3 Quay St.), outra de instrumentos musicais, e o delicioso e simpático restaurante Malt House.

Galway tem outras curiosidades. Como resquício da Idade Média, ainda guarda algumas ruínas de sua antiga muralha, erguida no século XIII. Mas a muralha foi parar dentro de um shopping, porque os moradores não permitiram que fosse derrubada para ceder lugar à galeria de lojas do Eyre Square Center. Então, entre vitrines e tetos envidraçados, estão lá os muros de pedras centenários.

Atravessando o Latin Quarter, chega-se ao Spanish Arch, que já foi uma extensão da muralha. O local às margens do antigo porto no encontro do Rio Corrib com o mar, teria sido onde Cristóvão Colombo aportou, em 1477. Ao lado do Spanish Arch, o mural de Joe Caslin feito para o Galway Film Fleadh, realizado em julho, adorna a fachada do Galway City Museum. Do outro lado do rio, fica Claddagh, vila de pescadores de uma das tribos que deram origem à cidade de Galway. E que deu origem também ao tradicional anel Claddagh, que tem um coração com uma coroa no topo e envolto por duas mãos, representando, amor lealdade e amizade. Suvenir que se encontra à venda na Thomas Dilon’s, no Latin Quarter.

DESTILARIA NO MEIO DO CAMINHO

No meio do caminho entre Dublin e Galway, seguindo pela autoestrada M6, às margens do Rio Brosna, a destilaria Kilbeggan (kilbeggan distillery.com), fundada em 1757 é um das mais antigas destilarias licenciadas da Irlanda, aberta a visitação. Na visita é possível ver como eram os processos de produção artesanal da bebida, já que o prédio ainda mantém os antigos equipamentos desde a fundação da destilaria, como alambiques que datam de 180 anos, o moinho de água, e processos artesanais de triturar e fermentar o malte. A visita guiada Gold Medal com degustação ao final (quatro tipos de uísques) custa € 25. A visita autoguiada, disponível em diversos idiomas (como inglês e espanhol, mas não em português), custa € 8. O Pantry Restaurant, que funciona na destilaria, serve pratos tradicionais como cottage pie (bolo de batata com carne), acompanhado de batatas fritas, e salada de repolho com maionese (cole slaw). Para visitar outras destilarias há um roteiro autoguiado. Outras informações em ireland whiskeytrail.com.

SERVIÇO

Onde ficar

Park House: Diárias a € 109, com café da manhã. Forster St. Eyre Square. Parkhousehotel.ie

Connemara Coast Hotel: Resort perto de Galway. Diárias a € 79. connemaracoasthotel.ie

Cristina Massari viajou a convite do Escritório de Turismo da Irlanda.

oglobo.globo.com | 02-10-2014
Rato com a medula óssea partida caminha com a ajuda de máquina e impulsos elétricos - El País / Reprodução

RIO - Um rato paraplégico foi capaz de caminhar quase que normalmente em uma esteira rolante e até saltar obstáculos. O animal andou por 25 minutos e deu mais de mil passos sobre as patas trazeiras, com a ajuda de uma máquina que colocou a cobaia ereta. O rato caminhou sem nenhum tropeço, apesar de ter a medula — o “cabo” que liga o cérebro às pernas — partida em dois.

Os movimentos do roedor, no entanto, não são voluntários. As cinco cobaias do experimento se movem como fantoches, controladas por fios invisíveis que são, na verdade, dois eletrodos flexíveis que transmitem impulsos elétricos para a medula espinhal. Por trás desses fios invisíveis está o neuroengenheiro espanhol Moraud Eduardo Martin e sua equipe da Escola Politécnica Federal de Lausanne, na Suíça.

O cientista explica em entrevista por telefone ao jornal espanhol “El País” que os pesquisadores colocaram eletrodos no circuito neural da medula, logo abaixo da lesão, para substituir os impulsos elétricos que precisam chegar ao cérebro.

A técnica, conhecida como estimulação elétrica epidural, não é nova. Em 2009, o neurocientista americano Reggie Edgerton também demonstrou com experimentos que ratos paraplégicos poderiam dar passos mais ou menos coordenados depois de receber impulsos elétricos em uma lesão medular.

Também este ano, graças à equipe de Edgerton, quatro homens paraplégicos conseguiram mover voluntariamente os quadris, tornozelos e dedos dos pés devido à estimulação elétrica na medula espinhal. Os quatro jovens têm rompimento parcial da medula, típica sequela de acidentes de trânsito, mas, graças à eletricidade, suas medulas reativaram os circuitos neurais que as conectavam com seus cérebros e os rapazes puderam voltar a mexer alguns de seus músculos voluntariamente.

Mas o novo estudo na Suíça vai além. Graças a uma rede de câmeras e a um algoritmo matemático sofisticado que monitora os movimentos dos ratos, o sistema se automodula e otimiza os impulsos elétricos recebidos pelos roedores, por isso, seus passos e saltos são perfeitos.

"Não só é reativado medula espinhal, mas pode ser modulada em tempo real", diz Martin. Como a freqüência de pulsos elétricos, as pernas são levantadas mais. O sistema utiliza esse recurso para ajustar em tempo real o andamento dos ratos para os obstáculos em seu caminho, sem intervenção humana é necessária. "Os ratos têm andado na perfeição por 25 minutos para uma esteira que jogamos sem nada", rebitada o cientista espanhol, um engenheiro de telecomunicações, que estudaram 30 anos na Universidade Politécnica de Madrid, mas tem investigado desde o início fora da Espanha .

Não só a medula óssea é reativada, como também pode ser controlada em tempo real, tornando os movimentos mais precisos. Ao aumentar a frequência dos estímulos, por exemplo, as patas do animais se elevam mais. O sistema então pode adaptar a caminhada dos rodedores aos obstáculos em tempo real, sem que seja necessária uma intervenção humana.

Os autores do estudo, publicado hoje na revista “Science Translational Medicine”, acreditam que esta estratégia poderia ser usada no futuro para melhorar os programas de reabilitação para pessoas com lesões na medula, evitando a perda de massa muscular e facilitando a recuperação da locomoção.

Segundo o chefe do novo estudo, o neurocientista francês Grégoire Courtine, a técnica começará a ser testada em voluntários humanos a partir de meados do ano que vem, quando as autoridades suíças já terão aprovado os testes clínicos. As instalações para realizar os ensaios estão prontas, em uma sala de 100 metros quadrados no Hospital Universitário de Lausanne. O projeto conta com incentivo de nove mihlões de euros da União Europeia.

oglobo.globo.com | 01-10-2014

BRUXELAS — O novo voto de confiança dado nesta sexta-feira pelos escoceses ao Reino Unido pode reforçar os argumentos para que o país permaneça na União Europeia. Mais simpáticos à união — numa posição consistente com o "não" desta sexta-feira — do que os ingleses, podem pesar numa decisão final, caso se confirme o plebiscito proposto pelo primeiro-ministro David Cameron para 2017. Isso se seu Partido Conservador for reeleito nas eleições gerais do ano que vem. Para a UE, a vitória também acalma os ânimos.

— Confesso: o resultado me alivia — admitiu hoje o presidente do Parlamento europeu, Martin Schulz.

Mesmo sentimento expressado pelo presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, que saudou a rejeição à independência na Escócia, destacando a importância de uma "Europa unida e mais forte". Mas a própria realização do referendo proposto pelos conservadores para 2017 pode ser um novo foco de divisão dentro do Reino Unido. Os ingleses são conhecidamente mais refratários à UE. Por toda a Inglaterra, o discurso eurocético — sobretudo do líder de ultradireita do Ukip, Nigel Farage — vem fazendo sucesso com o eleitorado.

Mais tolerantes em relação ao bloco, os escoceses podem votar por ficar na UE, ao contrários dos ingleses. Se, por um lado, isso poderia pender a favor do bloco, caso a margem seja apertada na Inglaterra, por outro, segundo o professor Michael Keating, catedrático em Política Escocesa na Universidade de Aberdeen, poderia ser usado como desculpa para um novo referendo na Escócia num futuro próximo.

— Pode ser que a Inglaterra vote para sair, e a Escócia para ficar. Aí, teria de haver um outro plebiscito para saber se ficamos.

Nas discussões do referendo, nacionalistas defendiam a permanência escocesa no bloco sem descartar o euro.

oglobo.globo.com | 20-09-2014

LONDRES — Como se não bastassem todas as consequências dramáticas que a eventual independência da Escócia pode provocar no Reino Unido, há também o potencial de encrencas espinhosas na vida político-partidária no curto prazo. Como a independência propriamente dita só passa a valer a partir de março de 2016, os escoceses - ainda parte do Reino Unido - votarão na próxima eleição geral prevista para maio de 2015.

Isso significa que influenciarão na escolha de um governo que, uma vez empossado, vai deparar com a efetiva secessão da Escócia menos de um ano depois de assumir. Por esta razão, já há quem diga que a eleição do ano que vem poderia ser adiada - pela primeira vez desde 1940, quando o país estava sob bombardeios aéreos da Alemanha nazista.

O fato complicador está no perfil do eleitorado escocês. Se acontecer, a independência da Escócia vai alterar o cálculo na política britânica como um todo. No Reino Unido, parlamentarista por excelência, quem determina o governo o país é o partido que tem a maioria dos assentos na Câmara dos Comuns, equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil, composta por 650 parlamentares.

O Partido Trabalhista hoje tem 41 membros do Parlamento de Westminster nos 59 assentos escoceses. Os conservadores têm apenas um. É improvável que nas eleições de maio de 2015 o quadro vá ser muito diferente. Com esses parlamentares fora da equação, as chances dos trabalhistas na próximas eleições podem estar seriamente comprometidas. Ou seja, a campanha de Ed Miliband para primeiro-ministro poderia estar sepultada antes mesmo de ser lançada.

Foi essa diferença que garantiu aos trabalhistas vitórias e evitou que os conservadores obtivessem maioria na casa em 2010, por exemplo. Só conseguiram governar fazendo uma pouco habitual coalizão com um partido menor, os liberal-democratas.

Se isso dá clara vantagem aos conservadores, a vitória da independência pode custar o cargo do primeiro-ministro David Cameron, que pode entrar para a história como o premier que perdeu a Escócia. Nos seus últimos discursos, pediu que os eleitores escoceses não votassem com raiva dos conservadores.

- Eu não vou ficar aqui para sempre. Nem o meu partido - insistiu.

O primeiro-ministro teria uma dupla perda, porque foi decisão sua não dar aos eleitores escoceses uma terceira opção na cédula amanhã, que era a de oferecer a manutenção da união com mais poderes. Ele decidiu partir para o tudo ou nada, certo que o "não" seria o grande vitorioso.

No caso da vitória do "não", o imbróglio político é menos complexo, mas ainda assim há um problema à vista. Os três maiores partidos já se comprometeram a transferir mais poderes aos escoceses. No entanto, os deputados da Escócia manteriam a sua importância no Parlamento britânico. Ou seja, teriam mais autonomia para se governar, mas continuariam votando em questões internas inglesas cruciais, como educação e saúde.

Vale lembrar que quem está em Londres não tem direito a se pronunciar nas questões internas escoceses, que já foram devolvidas ao Parlamento em Edimburgo.

Esta situação deu origem à chamada "questão West Lothian", que é o fato de parlamentares de Escócia, do País de Gales e da Irlanda do Norte poderem votar, por vezes de forma decisiva, em projetos de lei que afetarão apenas a Inglaterra.

Esse emaranhado seria mais facilmente resolvido, não fosse o fato de que, no Reino Unido, vigora a chamada common law, escola do Direito em que, entre outras peculiaridades, não existe Constituição escrita.

A discussão na Escócia é que, após a vitória do "sim", a ideia é discutir uma Constituição para o país. O governo atual já teria uma espécie de rascunho da nova Carta. A iniciativa romperia com a tradição britânica.

- Todos os 71 países da Commonwealth e da União Europeia têm a sua constituição para proteger os direitos e liberdades da suas população. Precisamos de uma Constituição moderna - destacou Salmond a algumas centenas de escoceses em um dos seis comícios que vem realizando por dia no último mês.

oglobo.globo.com | 18-09-2014
Pró-UE. O presidente Petro Poroshenko mostra acordo de associação com europeus - Mykola Lazarenko / AP

KIEV — Epicentro de uma “nova Guerra Fria” entre a Rússia e o Ocidente, a Ucrânia fez nesta terça-feira acenos aos dois lados na tentativa de pôr fim à guerra civil que toma o Leste do país há meses, mas sem abrir mão da aproximação com a Europa. No mesmo dia, o Parlamento ratificou um acordo de aproximação política e comercial com a União Europeia e aprovou um projeto concedendo anistia e autonomia para os separatistas pró-Rússia do Leste. O acordo com o bloco europeu entrará em vigor em 2016, e o “status especial” de territórios rebeldes tem validade de três anos.

Em novembro passado, ucranianos pró-Ocidente e pró-Rússia iniciaram uma tensa disputa pelo poder após o presidente Viktor Yanukovich adiar um acordo de aproximação com a Europa. Protestos forçaram a renúncia de Yanukovich, em fevereiro, e a tomada de poder por políticos pró-Europa estimulou a causa separatista no Leste, que em abril se transformou em uma guerra civil. A disputa por influência na Ucrânia levou as relações entre Rússia e Ocidente ao seu pior nível desde a Guerra Fria, com demonstrações de força militar e punições econômicas mútuas.

A lei que estabelece três anos de autonomia às áreas sob controle dos rebeldes nas regiões de Donetsk e Luhansk foi aprovada a portas fechadas por 277 parlamentares, de um total de 450, e só engloba um terço do território das duas regiões separatistas que fazem fronteira com a Rússia.

As áreas, que terão um “status especial”, poderão realizar eleições locais em 7 de dezembro para eleger seus representantes em Kiev. O documento também permite o uso livre da língua russa, inclusive na educação, que havia tido seu status rebaixado pelo Parlamento pró-Europa em fevereiro.

A anistia está prevista apenas para rebeldes que não tenham cometido crimes graves e que não tenham obstruído a investigação da derrubada do voo MH17 da Malaysia Airlines. Os separatistas ficam obrigados a entregar as armas dentro de um mês, libertar todos os reféns e desocupar os edifícios públicos.

O líder da autoproclamada República Popular de Donetsk, Alexander Zakharchenko, disse que a proposta receberá apoio dos separatistas se significar a independência da região.

ACESSO PRIVILEGIADO À UE

Apesar de um cessar-fogo acordado entre representantes separatistas e ucranianos em 5 de setembro, três pessoas morreram e cinco ficaram feridas ontem em novos ataques em Donetsk, no Leste da Ucrânia. No domingo, seis civis foram mortos em bombardeios, no dia mais sangrento desde o início da trégua.

Enquanto as concessões aos rebeldes foram feitas a portas fechadas, a votação de associação política e comercial com a União Europeia foi transmitida pela internet e aprovada ao mesmo tempo pelo Parlamento Europeu, em Estrasburgo, na França.

Ao comemorar a aprovação do acordo, o presidente ucraniano, Petro Poroshenko, lamentou as mortes causadas pela guerra.

— Nenhuma nação jamais pagou um preço tão alto para se tornar europeia.

O acordo reduz as tarifas comerciais entre a UE e a Ucrânia, obriga produtos ucranianos a se adequarem a padrões regulatórios europeus e força o governo ucraniano a empreender reformas políticas e econômicas.

oglobo.globo.com | 17-09-2014
Líder dos Social Democratas, Stefan Lofven, vota em Estocolmo. Coalizão de centro-esquerda é apontada como vencedora das eleições, mas não deve conseguir maioria no Parlamento - TT NEWS AGENCY / REUTERS

ESTOCOLMO — As primeiras projeções das eleições suecas apontam uma vitória da oposição de centro-esquerda que, apesar do triunfo, não deve conseguir a maioria parlamentar. Somados, três partidos da oposição conquistaram 43,7% dos votos, contra 39,1% do governo de coalizão do primeiro-ministro Fredrik Reinfeldt. Na prática, isso significa que a oposição deve formar um governo de minoria, com capacidade limitadas para aprovar novas leis.

Os Democratas Suecos, partido anti-imigração conseguiu 13% dos votos e se tornou o terceiro maior partido no Parlamento, mas ainda tem de vencer a rejeição de outros partidos que se recusam a trabalhar em conjunto com eles. Se as projeções se confirmarem nos resultados oficiais, as negociações de formação do governo devem ser difíceis e demoradas. Embora os Social Democratas sejam o maior partido da Suécia, esse pode ser um de seus piores resultados eleitorais em toda a História. Outro golpe para a oposição foi a baixa votação da Iniciativa Feminista, que conseguiu 3,2% dos votos, abaixo do limite mínimo para cadeiras parlamentares.

Uma vitória da centro-esquerda num governo de minoria parlamentar poderia ser outra derrota na luta por reformas nos Países Nórdicos, já que os governos de Noruega, Finlândia e Dinamarca estão adiando cortes nos enormes gastos dos serviços públicos.

Uma derrota do primeiro-ministro Fredrik Reinfeldt deixaria Alemanha e Reino Unido sem uma voz de apoio por mais prudência fiscal e reformas na União Europeia. O ex-soldador e líder sindical Stefan Lovren, que deve assumir o posto de primeiro-ministro defende aumentos no crescimento, investimento e impostos mais altos sobre companhias e cidadãos mais ricos na União Europeia.

Muitos suecos acreditam que as reformas de Reinfeldt foram longe demais, enfraquecendo a saúde pública, permitindo que negócios lucrem com escolas de acordo com resultados escolares e dividindo uma nação que se orgulhava de sua igualdade em ricos e pobres. Eleitores ficaram chocados com escândalos em serviços públicos comandados por instituições privadas e a falência de escolas particulares.

— Precisamos reencontrar nossos valores, aqueles que afirmam que devemos cuidar uns dos outros, que não se trata de oferecer o melhor somente aos ricos — afirmou Sofia Bolinder, eleitora do subúrbio de Skarpnack, no sul de Estocolmo, que afirma ter votado “em um partido de esquerda”.

Alto desemprego é maior desafio

Admirada por sua economia, estabilidade de governo e atitude liberal em relação à imigração, a Suécia ainda assim tem grande desafio a serem enfrentados, que podem se transformar em problemas para um governo sem força no Parlamento.

O desemprego chegou a 8%, atingindo especialmente jovens e imigrantes, e uma potencial bolha imobiliária ameaça a estabilidade econômica. Protestos e distúrbios nos subúrbios pobres de Estocolmo no ano passado trouxeram à tona o crescimento de uma classe baixa na Suécia, que tem o maior crescimento da desigualdade entre as nações da Organização para Coordenação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

O crescimento da extrema-direita aponta para uma sociedade que começa a questionar seu papel como que Reinfeldt chama de “superpotência humanitária”. O número de refugiados pedindo asilo político de países como a Síria deve chegar a 80 mil em 2014, e até mesmo o primeiro-ministro afirmou que as finanças do governo enfrentarão dificuldades graças aos novos imigrantes.

Os Social Democratas planejam gastar cerca de 40 bilhões de coroas (R$ 13 bilhões) para melhorar a educação, criar empregos e fortalecer os serviços públicos aumentando impostos sobre restaurantes, bancos e cidadãos ricos.

O Partido da Esquerda — antigo Partido Comunista Sueco — quer aumentar impostos sobre a renda e sobre as corporações, e excluir fins lucrativos de escolas e serviços públicos. As medidas são rejeitadas pelos Social Democratas e os membros do Partido Verde.

Os partidos Liberal e do Centro, os dois menores do atual governo, rejeitaram o pedido de Lofven para integrar a futura coalizão de governo, aumentando a possibilidade um impasse após a eleição, ou, no pior dos cenários, de uma nova eleição na Suécia.

oglobo.globo.com | 14-09-2014

A Escócia foi independente até 1707. Desde então, faz parte do Reino Unido. Na próxima quinta-feira, um referendo lhe dará a chance de se tornar independente de novo. Em 1997, Tony Blair iniciou um processo de descentralização do Reino Unido, que permitiu a reabertura do Parlamento em Edimburgo, em 1999, e a formação do governo da Escócia. O atual premier, David Cameron, firmou com os escoceses acordo para a realização de um referendo dia 18 próximo.

As pesquisas indicavam vantagem dos que preferem permanecer unidos à Inglaterra, País de Gales e Irlanda do Norte. Mas um rápido crescimento dos independentistas pôs as autoridades britânicas em pânico. Tudo indica que Londres pode ter acordado tarde para o avanço dos que desejam a independência. Apressadamente, o governo e o Parlamento britânicos passaram a acenar com a transferência de mais poderes para Edimburgo. O premier Cameron, o vice Clegg e o líder da oposição, Miliband, foram para a Escócia nos últimos dias fazer campanha pelo “não”. O esforço reanimou o eleitorado pró permanência no Reino Unido.

As consequências de uma eventual independência escocesa são pesadas para o Reino Unido. Ele perderia um terço do território; a imagem de potência sairia arranhada, entrando em declínio acelerado. Em termos mais imediatos, a vitória do “sim” poderá levar o premier Cameron à renúncia. Os trabalhistas, na oposição, também sofreriam um golpe, pois os escoceses votam maciçamente nos candidatos do partido.

Partidários da independência alegam que a Escócia será beneficiada porque seu eleitorado, mais esquerdista, poderá abandonar as políticas de austeridade do governo conservador britânico e investir mais em Educação, Saúde, no bem-estar social. Acreditam, também, que a riqueza do país, de 5,3 milhões de habitantes, poderá ser mais bem distribuída. A nação responde por 84% das reservas de petróleo do Mar do Norte e por 9% do PIB britânico.

A Escócia tem sido firme defensora da União Europeia e sua saída do Reino Unido poderá reforçar os a posição dos eurocéticos britânicos. A permanência do RU na UE também será objeto de futuro referendo. O eventual processo de separação da Escócia (a rainha Elizabeth continuaria sendo a chefe de Estado) terá a duração de 18 meses, um período de incerteza para o Reino Unido e a libra. A moeda é um problema caso a Escócia se torne independente. A criação de uma nova é uma operação complicada. Já a manutenção da libra engessará a política cambial do novo país, dificultando correções de rumo, como advertiu o economista americano Prêmio Nobel Paul Krugman. “Poderá ser uma Espanha sem sol”, comparou.

A crise do euro deu impulso ao separatismo. O referendo escocês anima outros, como a Catalunha, onde uma consulta está marcada para 9 de novembro, à revelia de Madri.

oglobo.globo.com | 14-09-2014

STEENOKKERZEEL (Bélgica) - Para Kurt Ryon, prefeito de Steenokkerzeel, um vilarejo a 16 quilômetros no Nordeste de Bruxelas, assistir a campanha da independência da Escócia na reta final antes do referendo, é como assistir a um bom jogo de futebol.

— Eles estavam perdendo no primeiro tempo e na metade do segundo — diz Ryon acrescentando. — Mas agora eles estão no 85º minutos e podem ganhar.

Ryon, um nativo flamengo que deseja que a sua região, os Flanders, se separe da Bélgica, está torcendo para que a Escócia faça o mesmo com o Reino Unido. E como qualquer fanático por futebol, ele tem até camiseta da pró-independência da Escócia, uma coleção de broches com o "sim" na sua jaqueta jeans, e grandes quantidades de uma cerveja especialmente fabricada por nacionalistas flamengos para expressar sua solidariedade. O rótulo diz: "Ja" ao lado de uma bandeira escocesa, flamengos para o sim.

Da Catalunha ao Curdistão, passando por Quebec, movimentos nacionalistas e separatistas na Europa observam o referendo de independência da Escócia de perto, as vezes mais dos que os próprios britânicos, que parecem ter acordado só agora para a possibilidade da Escócia votar na próxima quinta-feira e por fim a 307 anos de união.

No país Basco, uma comunidade autônoma no Norte da Espanha, o líder do partido nacionalista ficou conhecido por usar kilt (vestimenta típica dos homens escoceses) e brincar que os bascos preferiam ser parte de uma Escócia independente do que continuar a fazer parte da Espanha, que descartou a possibilidade de qualquer tipo de votação. Em Veneto, uma região do Norte da Itália, os nacionalistas realizaram um referendo on-line nos moldes do escocês, e agora afirmam que nove em cada 10 habitantes querem a autonomia.

Catalães, corsos, bretões e “finlandeses - suecos“, estão indo para a Escócia para acompanhar a votação. Até a Bavária (que se autodenomina a 7ª maior economia da Europa) está mandando uma delegação.

— Isso pode criar um precedente importante — diz Naif Bezwan da Mardin Artuklu Universidade no Curdistão da Turquia. Do outro lado da fronteira com o Iraque ("a fronteira curda-curda", como Mr. Bezwan se refere), uma confluência de guerra, disputas de petróleo e turbulência política renovou o debate sobre a secessão.

— Todos aqui estão de olho — diz Hemin Lihony, gerente de web da Rudaw, a maior empresa de mídia curda, baseada em Erbil, no Iraque.

DIVÓRCIO CONSENSUAL ENTRE NAÇÕES É RARO

A História oferece alguns exemplos de nações que se separam consensualmente. O divórcio entre os tchecos e os eslováquios em 1993 é um exemplo. O referendo de independência da Noruega da Suécia em 1905 outro. Mas, a maioria da nações fazem guerras para defender fronteiras.

Os Estados Unidos enfrentou uma guerra civil para defender a união do país. A Turquia brigou com os curdos nacionalistas por décadas. Kosovo declarou a independência da Sérvia só depois da guerra, em 1990.

O presidente Vladimir Putin da Rússia — que anexou a Crimeia depois de uma invasão e referendo não reconhecido pela comunidade internacional, e tem sido acusado de ajudar os rebeldes separatistas no Leste da Ucrânia — está apoiando a independência escocesa. Mas seu apego à causa é seletivo, já que nas repúblicas russas da Chechênia e do Daguestão, ele usou força selvagem para esmagar os separatistas muçulmanos.

Em alguns casos, o referendo escocês é combustível de novas esperanças, ainda que improvável, entre grupos marginais separatistas. Quando o presidente do Texas Movimento Nacionalista, Daniel Miller, foi convidado pela Universidade de Stirling, na Escócia, este ano, ele disse que os escoceses estavam abrindo o caminho para a independência do Texas. Em outras palavras, o voto está gerando debates com considerável importância geopolítica.

Em Taiwan, que a China reivindica como parte de seu território, mesmo que Taiwan seja efetivamente independente, com a sua própria moeda, militares e um governo democraticamente eleito, alguma esperança de um voto "sim" escocês poderia levar a uma deliberação mais cuidadosa sobre o futuro da ilha.

Mas é na Europa que se a Escócia votar “sim” provavelmente criará mais reações.

Seria a primeira vez que um Estado membro da União Europeia enfrentaria a secessão de uma região ansiosa para se tornar um membro de pleno direito. Se a Escócia conseguir negociar a sua própria participação no bloco, isso faria parecer a perspectiva da independência mais segura e atraente no resto da Europa, disse George Robertson, ex-secretário-geral da Otan.

— "Há um sério risco de efeito dominó — segundo Robertson, ele mesmo escocês e adversário da independência.

No escritório de Bruxelas da Aliança Livre Europeia, que agrupa 40 partidos que representam na Europa "nações sem Estado," um mapa mostra como a Europa seria se todos eles se tornassem independentes. François Alfonsi, o presidente da Aliança e um orgulhoso corso, admite que seria confuso, mas "a democracia é confusa e democracia é o que a Europa precisa.

Mark Demesmaeker, um flamengo membro do Parlamento Europeu, que decorou seu escritório com uma bandeira escocesa e mantém uma cópia do Livro Branco sobre a independência escocesa em sua mesa, fala que "Estados-nação falharam."

Na sua opinião, o Reino Unido deixou de dar aos escoceses e galeses uma representação adequada no Parlamento, e a Espanha falha ao não permitir que catalães e bascos tenham o seu próprio referendo.

Movimentos nacionais pró-europeus, como o seu próprio, a Nova Aliança Flamenga - agora o maior partido não apenas no Flandres, mas em toda a Bélgica - são o melhor antídoto contra a extrema-direita.

— Se Escócia votar “sim”, abrirá os olhos de muitas pessoas na rua — disse Demesmaeker acrescentando. A maioria das pessoas acha que é o nosso destino fazer parte da Bélgica. Mas Flanders poderia ser uma nação próspera. É uma evolução democrática que está acontecendo em diferentes países da União Europeia. Eventualmente nós queremos Flanders para tomar o seu lugar na União Europeia.

O referendo escocês ocorre poucos dias antes da confirmação do governo regional da Catalunha que está decidindo se fará uma votação para a sua própria independência no dia 9 de novembro, que há objeções jurídicas e políticas de Madri.

Alfred Bosch, um parlamentar catalão, disse que os seus homólogos na Escócia mostraram pouco interesse em ser associados aos eventos da Catalunha.

— Os escoceses provavelmente querem se distanciar de tudo o que eles veem como não tão maduro quanto o seu próprio processo. Eles não querem criar qualquer hostilidade com a Espanha ou outros países que também pode ter movimentos pró-independência, até porque os governos terão de reconhecer uma Escócia independente, e considerar a possibilidade de fazer parte da União Europeia — disse Bosh.

Seja qual for o resultado do referendo, muitos nacionalistas dizem que a Escócia já ganhou.

— Eles têm a oportunidade de decidir o seu próprio futuro", disse Andoni Ortuzar, o presidente do governante Partido Nacionalista Basco, que usava um kilt no carnaval de 2012 para comemorar o anúncio do referendo escocês naquele ano.

— Isso é o que a autodeterminação nacional é. Isso é tudo o que pedimos.

oglobo.globo.com | 12-09-2014
Primeiro-ministro britânico David Cameron, ao lado de líder do Partido Trabalhista, Ed Miliband, e do vice-primeiro-ministro, Nick Clegg. Crescimento do apoio à independência escocesa gerou preocupação entre líderes políticos do Reino Unido - Dan Kitwood / AFP

LONDRES — Uma força-tarefa dos três maiores partidos do Parlamento britânico sairá em campo nos próximos sete dias com um arsenal de peso para tentar evitar que a Escócia deixe o Reino Unido. No dia em que mais uma pesquisa de opinião (TNS) mostrou empate técnico entre o “sim” (38%) e o “não” (39%) — com 23% de indecisos — no plebiscito do próximo dia 18 (apenas dois dias depois de outro instituto apontar pela primeira vez a vitória dos separatistas), governo e oposição se uniram em Londres. Num comunicado conjunto, o premier David Cameron e o líder da oposição, Ed Miliband, anunciaram que não comparecerão à tradicional sessão de perguntas e respostas de hoje no Parlamento britânico justamente para irem à Escócia fazer campanha pela permanência da união. O vice-premier britânico, Nick Clegg, líder do terceiro maior partido, o Liberal-Democrata, também viajará. Cameron disse que fará “tudo o que puder” para convencer os escoceses a votarem contra a separação.

Além da viagem, o porta-voz do governo anunciou que a bandeira escocesa seria hasteada na residência oficial do premier até o dia do plebiscito. Miliband pediu a todos os britânicos que façam o mesmo. Os três partidos encarregaram ainda o ex-premier Gordon Brown — escocês e defensor ferrenho do “não” — de fazer um discurso prometendo à Escócia novas concessões, que começariam a ser aplicadas no dia seguinte de uma vitória do “não”.

— O que as pessoas querem é um calendário concreto e um mecanismo para terem claro o que ocorrerá depois da votação. O que não vale é o status quo. A escolha deve ser entre uma separação irreversível ou um Parlamento mais forte — disse Brown, ao destacar que a ideia seja caminhar para uma espécie de federalismo, com a Escócia assumindo atribuições como administrar a arrecadação de impostos no seu território e ter sua própria política de bem-estar social.

‘Sim’ reduziria bancada trabalhista

A mobilização política em Londres aconteceu porque ambos os partidos estão ameaçados pela independência escocesa. Se o “sim” vencer, os trabalhistas perdem os 59 deputados escoceses que têm no Parlamento britânico (que garantiram vitórias e evitaram que os conservadores obtivessem maioria na casa em 2010) e as chances de levar a eleição geral de 2015 por falta de apoio ao seu candidato Ed Miliband.

Se isso dá certa vantagem aos conservadores, a vitória da independência pode custar a Cameron a perda do emprego, e ao partido, a perda da confiança do eleitorado, que já vem demonstrando descrença nas políticas conservadoras com apoio crescente ao partido de ultradireita Ukip. O premier teria uma dupla perda, porque foi escolha sua não dar aos eleitores escoceses uma terceira opção na cédula no dia 18, que era oferecer a manutenção da união com mais poderes. Ele decidiu partir para o tudo ou nada, certo que o “não” sairia vitorioso.

Na Escócia, o que se diz é que os conservadores estão fazendo uma campanha pensando com a cabeça de Londres, ignorando as particularidades da população e os seus desejos. Essa é a avaliação feita ao GLOBO pelo especialista em Política Peter Lynch, da Universidade de Sterling.

— Além disso, a campanha do “não” passou o tempo todo dizendo as mesmas coisas, sem desenvolver muitas alternativas — afirmou.

Esse é um dos argumentos do premier nacionalista escocês, Alex Salmond. Ele disse ontem que não há “nada de novo” nas propostas de Londres, que chamou de “não plano”. Segundo ele, a campanha antisseparatista “descarrilou” e “está usando velhas ideias”.

As contradições da campanha do “não” na Escócia podem estar por trás de boa parte do avanço acelerado dos nacionalistas escoceses na reta final. Para um observador europeu, os partidos unionistas, comandando a partir de Londres, não souberam conduzir uma campanha positiva.

— A grande falha foi apostar numa suposta inferioridade dos escoceses. Dizer que eles que não conseguiriam andar com as próprias pernas, ter a sua moeda, manejar as políticas públicas e obter receitas — disse.

O silêncio do governo conservador de Cameron nos últimos meses abriu caminho para a campanha muito mais agressiva do “sim” encabeçada por Salmond. Até ontem de manhã, estava previsto que um único representante do Partido Conservador sairia em campanha pela Escócia, o ex-secretário de Relações Exteriores William Hague.

Contradições dos conservadores

Se nos últimos meses, o silêncio da equipe de Cameron era conveniente, enquanto o “não” se mantinha em franca liderança, ele passou a incomodar os defensores da união e promover a perda de votos. Na segunda-feira, numa tentativa desesperada, os trabalhistas alçaram o ex-premier Gordon Brown como emissário da união, propondo um cronograma amarrado para negociar novas competências para a Escócia.

Os conservadores, por sua vez, vinham evitando entrar de sola na campanha em território escocês, reduto conhecido dos trabalhistas. Há apenas um deputado conservador escocês no Parlamento em Londres. Outra contradição na campanha de Cameron está no fato de usar como argumento para a união os mesmos elementos que aponta contra a permanência do Reino Unido na União Europeia.

oglobo.globo.com | 10-09-2014

NOVA YORK — O progresso do conflito no Leste da Ucrânia é totalmente previsível. Desde que a rebelião começou com o apoio da Rússia, há cinco meses, era óbvio que o Kremlin não permitiria que os rebeldes fossem esmagados pela força. O presidente Vladimir Putin investiu tão profundamente em sua estratégia ucraniana, e na imagem da força russa, que para garantir uma vitória militar ucraniana ameaçaria a estabilidade e até mesmo a existência de seu próprio regime.

Como muitos observadores têm escrito desde o início do conflito, nunca houve uma chance de que o governo ucraniano ganhasse militarmente. A Rússia tem demonstrado uma capacidade de enviar, de qualquer maneira levemente disfarçada, todas as forças que forem necessárias para levar o Exército ucraniano a uma completa paralisação. Para o Ocidente, encorajar Kiev a buscar uma vitória militar — como seus governos parecem estar fazendo — só poderia levar a uma derrota inevitável. Se for confirmado, os relatados movimentos ucranianos em direção a um acordo com Moscou sobre um cessar-fogo com os rebeldes são um passo lógico.

Até porque, mesmo que o Ocidente fornecesse ajuda militar suficiente a Kiev para dar uma chance real de esmagar os rebeldes, também criaria uma chance real de uma invasão russa em larga escala. Tal invasão só poderia ser interrompida pela introdução de um Exército ocidental — algo que não é simplesmente uma possibilidade. A invasão russa seria um desastre tanto para a Ucrânia quanto para a Rússia — e uma humilhação desastroso para a Otan e o Ocidente.

A dureza da posição da Rússia não é resultado somente de cálculos de Putin. Também deve-se ao fato de que um grande número de russos comuns, incluindo aqueles que são, basicamente, pró-Ocidente e anti-Putin, consideram o apoio americano para a derrubada de um governo democraticamente eleito (ainda que repugnante) no inverno passado como absolutamente ultrajante e uma ameaça para os interesses russos vitais. A popularidade de Putin subiu como resultado de sua posição em relação à Ucrânia, e não mostra sinais de declínio. Como Thomas Graham da Kissinger Associates tem escrito, a Rússia se preocupa com o que acontece na Ucrânia muito mais do que o Ocidente faz — por razões que devem ser óbvias para quem já passou 10 minutos estudando a história da Rússia e da Ucrânia.

Ao mesmo tempo, o Kremlin continua a ser relativamente cauteloso — se não fosse assim, o Exército russo estaria em Kharkiv e Odessa agora. Moscou não fez nada depois da repressão aos manifestantes pró-russos em outras partes do Leste e Sul da Ucrânia (incluindo a morte de mais de 40 em Odessa) e aceitou o controle dessas áreas por Kiev.

Moscou também aceita como legítima a eleição de Petro Poroshenko como presidente, abandonando o seu apoio ao ex-presidente Viktor Yanukovich. Deve-se reconhecer, portanto, que na busca de controle da Crimeia e na influência informal decisiva sobre a região de Donetsk, o Kremlin tem escalado drasticamente suas esperanças de onde estavam há um ano, quando Moscou queria trazer toda a Ucrânia para um bloco dominado pela Rússia, e até mesmo de sua primeira resposta à revolta em Kiev. Isso permite a possibilidade de uma solução política, o que só pode ser constituída por um estatuto de autonomia especial para a região de Donetsk dentro Ucrânia.

O Ocidente deve aproveitar todos os esforços de cessar-fogo para elaborar e fortemente defender esta solução, e deve, então, negociar os termos precisos com Kiev e Moscou. Legal e moralmente, não pode haver objeção ocidental para isso. Em outro ex-território soviético, Nagorno-Karabakh, o Ocidente foi mais longe e propôs a forma de confederação com o Azerbaijão. Esta solução corresponde à história e realidade local; Donetsk é de fato uma região com a sua própria cultura e tradições.

Para separar a região desta forma, enquanto preserva o princípio da integridade territorial da Ucrânia, é preciso permitir que o Ocidente ajude no desenvolvimento e consolidação do resto da Ucrânia, sem constantes perturbações no Oriente. Isso abriria a possibilidade da Ucrânia aderir à União Europeia; e se as pessoas da região nesse ponto escolhessem se separar e perder os benefícios da adesão à União Europeia, bem, pior para eles.

Uma objeção levantada a esta solução tem sido a de que, a curto prazo, daria à região de Donetsk um veto sobre a adesão à Otan da Ucrânia. Mas como a Otan, obviamente, não tem qualquer intenção de lutar para defender a Ucrânia, oferecer a adesão na aliança seria moralmente e geopoliticamente criminal.

A escolha de hoje não é entre a Ucrânia unida totalmente no campo ocidental, ou a Ucrânia que perdeu parte do seu território para a Rússia. Como recentes desenvolvimentos militares têm demonstrado, o primeiro resultado simplesmente não vai acontecer. A escolha é entre a Ucrânia com uma região autônoma, Donetsk, juntamente com uma chance real de desenvolvimento da democracia e da economia do país em uma direção ocidental, ou a Ucrânia que será mergulhada em um conflito que irá minar todas as esperanças de progresso. O caminho para sair deste desastre é óbvio, se os governos ocidentais tiveram o coragem para tomá-lo.

Anatol Lieven é professor de Relações Exteriores do Qatar na Universidade de Georgetown do Qatar, e autor de “Ucrânia e Rússia.: A Rivalidade Fraterna”.

oglobo.globo.com | 04-09-2014
Líder da Iniciativa Feminista, Gudrun Schyman, em discurso na Praça Sergel, em Estocolmo, durante a campanha para as eleições do Parlamento Europeu - Frankie Fouganthin / Wikimedia Commons

ESTOCOLMO — Apoiado por Benny Anderson, um dos nomes do lendário grupo pop sueco ABBA, um partido feminista sueco pode fazer história, e se tornar o primeiro grupo político a entrar no Parlamento com o objetivo primário de abolir o sexismo na sociedade sueca.

A Iniciativa Feminista, comandada por Gudrun Schyman, quer uma nova definição do PIB que inclua o trabalho não remunerado que as mulheres fazem em casa. O grupo também busca um aumento nos impostos para compensar as diferenças nos pagamentos para homens e mulheres, um jornada de trabalho de seis horas e uma divisão igualitária nas licenças trabalhistas concedidas aos pais.

— Trata-se de uma alternativa clara para os eleitores de esquerda — afirmou Lena Waengnerud, professora da Universidade de Gotemburgo. — Ainda que a Suécia, se comparada com vários outros países, tenha avançado bastante na questão da igualdade sexual, o processo ainda não acabou, e teve poucos progressos nos últimos anos.

De acordo com o Relatório Global de Igualdade Sexual do Fórum Mundial Econômico, a Suécia, que em 2006 foi eleita o país mais igualitário do mundo, agora ocupa a quarta posição, atrás de Islândia, Finlândia e Noruega. Esses números tiveram efeito sobre os eleitores médios na maior economia dos Países Nórdicos. Uma pesquisa divulgada neste mês mostrou que 47% dos suecos se consideram feministas. Em 2010 esse número era de 33%.

— Há esse mito na Suécia de que, por termos conseguido avançar tanto, não precisamos mais tocar no assunto — afirmou Schyman em junho. — É bastante óbvio que há um contrato social com relação aos gêneros, que em muitos casos coloca as mulheres como figuras inferiores.

As garotas com tatuagens de dragões

A Iniciativa Feminista teve 5,5% dos votos suecos nas eleições de maio para o Parlamento Europeu, e chegou a 4% nas pesquisas para as eleições de 14 de setembro. De acordo com Waengnerud, os apoiadores do partido são principalmente jovens mulheres nas cidades grandes. Em partes do distrito Soeder de Estocolmo — lar de Lisbeth Salander, heroína da trilogia “Millenium”, do escritor Stieg Larsson — o partido chegou a ter mais de 20% dos votos para o Parlamento Europeu.

Anjaerika, uma atriz e compositora, se juntou à Iniciativa Feminista há cerca de um ano, e fez parte de um grupo de artistas que gravaram um álbum beneficente para o partido.

— Não quero viver num patriarcado. Vivi com isso a vida toda, então isso se tornou minha vida normal, mas há muito tempo sinto essa injustiça — afirmou Anjaerika. — Sinto que não sou tratada com um ser humano da mesma que os homens em questões grandes e pequenas da vida.

O principal nome apoiando a Iniciativa é Andersson, responsável por inúmeros sucessos do Abba, que doou cerca de um milhão de coroas suecas (R$ 325 mil) e publicou um comunicado na página do grupo na internet, afirmando que “ser um feminista é ser consciente das injustiças estruturais que existem entre os sexos”.

“É bom saber que existe um partido dedicado a fazer da igualdade uma prioridade. Vocês sabem de quem estou falando. Não desperdicem seus votos”, diz o comunicado de Andersson.

Queimando dinheiro

Schyman, famosa na Suécia desde sua passagem pela liderança do Partida da Esquerda, sabe chamar atenção. Em 2010, ela queimou 100 mil coroas (R$ 32 mil) em dinheiro para atrair atenção para as diferenças salariais entre homens e mulheres. Órgãos do governo sueco calculam que as mulheres têm salários inferiores numa média de 5,8%. A queima de dinheiro foi financiada pela agência de publicidade Studio Total, que ganhou atenção internacional ao espalhar centenas de ursos de pelúcia na Bielorrússia para promover a democracia na última ditadura europeia.

Políticos tradicionais se apressaram em garantir que a Iniciativa não tire seus votos. O ministro das Finanças, Anders Borg, se declarou um feminista, e o líder social-democrata, Stefan Loefven, favorito para ocupar o posto de primeiro-ministro após as eleições participou da conferência do Fórum Nórdico sobre a Igualdade Sexual, em Malmö, em junho. A Academia Sueca adicionará em 2015 o pronome neutro “hen” aos dicionários para livrar o idioma local de formas ocultas de sexismo.

Exemplos de feminismo se espalharam pelo debate político. tanto o governo quanto a oposição ameaçaram companhias com leis a menos que mais mulheres passassem a integrar seus conselhos corporativos.

— Políticos suecos têm discutido o feminismo e a igualdade numa escala muito maior nessas eleições — afirma Magnus Hagevi, professor da Universidade Linnaeus, em Vaexjoe. — Há também uma esquerda organizada e estabelecida, à esquerda dos Sociais Democratas, que acolhe esse tipo de política.

A Suécia tem mais mulheres no mercado de trabalho que qualquer outro país da União Europeia, e cerca de 45% dos cargos eletivos são ocupados por mulheres. Ainda assim, nos conselhos corporativos a presença feminina é de apenas 25%.

Além de redefinir o PIB, a Iniciativa Feminista quer impor taxas sobre transações financeiras, aumentar impostos corporativos, além de taxas relativas às emissões de carbono, à riqueza e aumentar os custos da produção de carne. Segundo o partido, essas medidas serão financiadas, em parte, por cortes nos gastos com a defesa nacional.

O resultado será aplicado em melhorias nas creches e na educação infantil, além de transporte público gratuito e aumentos salariais para os professores. O partido também planeja aumentar benefícios para desempregados e o auxílio a ausências trabalhistas decorrentes de enfermidades. As políticas da Iniciativa também pretendem facilitar a condenação de estupradores e ampliar os direitos de gays e transexuais.

O primeiro-ministro Fredrik Reinfeldt, que teve um comício interrompido no mês passado por mulheres de topless que exigiam que ele se declarasse feminista se tornou a primeira figura no cargo a participar da Parada do Orgulho Gay de Estocolmo. Loefven, um social-democrata, também participou.

A Iniciativa Feminista pode se mostrar crucial para que a oposição governe de maneira eficiente, já que muitas pesquisas mostram que o bloco não conseguirá uma maioria significativa sem a ajuda do partido.

— Apoiaremos a eleição do novo governo — afirma Schyman. — Não acho que o governo atual mostrou progressos na luta pela igualdade.

oglobo.globo.com | 01-09-2014

LONDRES - A rede britânica de supermercado Sainsbury’s removeu produtos kosher das prateleiras para evitar manifestações anti Israel. O teatro Tricycle, no norte de Londres, depois de sediar um festival de cinema judaico durante oito anos, pediu para vetar o conteúdo de qualquer filme feito com financiamento do governo israelense. George Galloway, um membro do Parlamento conhecido por suas críticas veementes a Israel declarou Bradford, na Inglaterra, uma "Israel-free zone."

Galloway, que está sendo investigado pela polícia depois dos seus comentários, disse:

— Nós não queremos quaisquer produtos israelenses; não queremos quaisquer serviços israelenses; nós não queremos nenhum acadêmico israelense nas universidades; não queremos nenhum turista israelense vindo para Bradford.

A guerra em Gaza e suas consequências tem influenciado a opinião na Europa e, especialistas dizem, que houve um aumento no movimento de boicote e desinvestimento a Israel, conhecido como BDS.

— Nós entramos neste guerra em Gaza com a percepção de que o governo de Israel não está interessado em alcançar a paz com os palestinos — disse Meir Javedanfar, analista israelense do Centro Interdisciplinar Herzliya, uma universidade privada. — Agora, depois das vítimas e da destruição, estou muito preocupado com o impacto sobre Israel e a campanha BDS poderia isolar o país e ocasionar mais boicotes.

Gilead Sher e Einav Yogev, em um artigo para o Instituto de Estudos de Segurança Nacional em Tel Aviv, advertiram que Gaza poderia significar para Israel "um preço muito alto a pagar em opinião pública e na erosão do apoio nas negociações com os palestinos."

De acordo com o artigo junto com os "ataques contra os judeus, o movimento para boicotar Israel está se expandindo.”

Daniel Levy do Conselho Europeu de Relações Exteriores aponta o debate para as exportações de armas para Israel, que foi dado um novo impulso no Reino Unido e na Espanha, pela assimetria da guerra de Gaza.

— Você está começando a ver a tradução de simpatia do público em algo politicamente significativo — disse Levy. Notei duas linhas, uma governamental, que faz a distinção entre Israel e os territórios ocupados, e a social de boicotes acadêmicos, comerciais e artísticos.

Mas apesar de toda a nova atenção em torno do movimento BDS, o impacto econômico tem sido pequeno, dizem os especialistas. A União Europeia, que tem acompanhado o assunto, não suporta a ideia.

Em vez disso, os europeus estão fazendo uma distinção entre as fronteiras de 1967 de Israel e assentamentos. Bruxelas considera todos os israelenses que vivem além das fronteiras de 1967, incluindo em Jerusalém Oriental, como colonos que vivem em situação ilegal, cujas comunidades podem ser regularizadas apenas por meio de um acordo de paz negociado com os palestinos.

Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu, disse que antes do conflito de Gaza, não havia boicote de Israel por parte da União Europeia, citando o comércio e a cooperação científica.

— A União Europeia defende o direito de existência de Israel por todos os meios — disse ele acrescentando. — A visão de que os europeus são contra Israel é errada.

— Nossa estreita relação com Israel é uma das melhores informações que temos na região, mas somente com Israel em suas fronteiras de 1967 haverá um acordo de paz — disse um alto funcionário da União Europeia, que falou sob condição de anonimato. — Estamos claro, no entanto, que o que ficou sob o controle de Israel em 1967 não é parte de Israel, de modo que os assentamentos são ilegais sob a lei internacional e não ajuda no processo de paz.

A União Europeia sempre foi mais longe do que os Estados Unidos, declarando que assentamentos israelenses ao longo da Linha Verde são "ilegais" pelo direito internacional; já os Estados Unidos simplesmente chamam de "ilegítimo" e "obstáculo à paz."

Israel diz que sua atividade de assentamento é consistente com o direito internacional, embora admita que alguns assentamentos são construídos ilegalmente em terras palestinas de propriedade privada, e diz que tudo será resolvido como parte de um acordo final com os palestinos.

oglobo.globo.com | 30-08-2014

LONDRES — A guerra entre Israel e Faixa de Gaza e suas consequências têm influenciado a opinião na Europa, com especialistas dizem que houve um aumento no movimento de boicote e desinvestimento a Israel, conhecido como BDS.

— Nós entramos nesta guerra em Gaza com a percepção de que o governo de Israel não está interessado em alcançar a paz com os palestinos — disse Meir Javedanfar, analista israelense do Centro Interdisciplinar Herzliya, uma universidade privada. — Agora, depois das vítimas e da destruição, estou muito preocupado com o impacto sobre Israel e a campanha BDS poderia isolar o país e ocasionar mais boicotes.

A rede britânica de supermercado Sainsbury’s chegou a remover produtos kosher das prateleiras, mas acabou voltando atrás. De acordo com o jornal “The Guardian“, o gerente de uma das lojas em Londres decidiu esvaziar a seção de comida kosher temendo a violência de manifestantes que estavam reunidos em frente ao supermercado pedindo um boicote conltra produtos israelenses. Logo depois, a empresa, que se disse uma “organização não-política”, pediu desculpas pelo incidente.

“Gostaríamos de pedir desculpas por qualquer inconveniente ou ofensa causada”, disse a empresa em seu site, segundo o jornal israelense “Haaretz”, explicando que os produtos foram retirados em apenas uma loja por um curto período “como medida de precaução durante uma manifestação próxima”.

Reação parecida foi protagonizada pelo teatro Tricycle, no norte de Londres, que vetara sediar um festival de cinema judaico financiado pelo governo israelense, mas também voltou atrás.

— Após longas discussões, o Tricycle retirou agora a sua oposição e convidou o UKJFF (Festival de Cinema Judaico no Reino Unido) nos mesmos termos como nos anos anteriores, não havendo restrições ao financiamento da embaixada de Israel em Londres.

George Galloway, um membro do Parlamento conhecido por suas críticas veementes a Israel, declarou Bradford, na Inglaterra, uma “Israel-free zone”. Galloway, que está sendo investigado pela polícia depois dos seus comentários, disse:

— Nós não queremos quaisquer produtos israelenses; não queremos quaisquer serviços israelenses; nós não queremos nenhum acadêmico israelense nas universidades; não queremos nenhum turista israelense vindo para Bradford.

Gilead Sher e Einav Yogev, em um artigo para o Instituto de Estudos de Segurança Nacional em Tel Aviv, advertiram que Gaza poderia significar para Israel “um preço muito alto a pagar em opinião pública e na erosão do apoio nas negociações com os palestinos”. De acordo com o artigo, junto com os “ataques contra os judeus, o movimento para boicotar Israel está se expandindo.”

Daniel Levy do Conselho Europeu de Relações Exteriores aponta o debate para as exportações de armas para Israel, que foi dado um novo impulso no Reino Unido e na Espanha, pela assimetria da guerra de Gaza.

— Você está começando a ver a tradução de simpatia do público em algo politicamente significativo — disse Levy. Notei duas linhas, uma governamental, que faz a distinção entre Israel e os territórios ocupados, e a social de boicotes acadêmicos, comerciais e artísticos.

Mas apesar de toda a nova atenção em torno do movimento BDS, o impacto econômico tem sido pequeno, dizem os especialistas. A União Europeia, que tem acompanhado o assunto, não suporta a ideia.

Em vez disso, os europeus estão fazendo uma distinção entre as fronteiras de 1967 de Israel e assentamentos. Bruxelas considera todos os israelenses que vivem além das fronteiras de 1967, incluindo em Jerusalém Oriental, como colonos que vivem em situação ilegal, cujas comunidades podem ser regularizadas apenas por meio de um acordo de paz negociado com os palestinos.

Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu, disse que antes do conflito de Gaza, não havia boicote de Israel por parte da União Europeia, citando o comércio e a cooperação científica.

— A União Europeia defende o direito de existência de Israel por todos os meios — disse ele acrescentando. — A visão de que os europeus são contra Israel é errada.

— Nossa estreita relação com Israel é uma das melhores informações que temos na região, mas somente com Israel em suas fronteiras de 1967 haverá um acordo de paz — disse um alto funcionário da União Europeia, que falou sob condição de anonimato. — Estamos claro, no entanto, que o que ficou sob o controle de Israel em 1967 não é parte de Israel, de modo que os assentamentos são ilegais sob a lei internacional e não ajuda no processo de paz.

A União Europeia sempre foi mais longe do que os Estados Unidos, declarando que assentamentos israelenses ao longo da Linha Verde são “ilegais” pelo direito internacional; já os Estados Unidos simplesmente chamam de “ilegítimo” e “obstáculo à paz”.

Israel diz que sua atividade de assentamento é consistente com o direito internacional, embora admita que alguns assentamentos são construídos ilegalmente em terras palestinas de propriedade privada, e diz que tudo será resolvido como parte de um acordo final com os palestinos. (Com agências internacionais)

oglobo.globo.com | 30-08-2014
Marina Silva e Beto Albuquerque posam ao lado de modelos de um estande em feira de agronegócios em Sertâozinho (SP): elogio a usineiros - Edson Silva/Folhapress

SÃO PAULO — Caso seja eleita, a candidata do PSB à Presidência, Marina Silva, planeja reduzir a importância da exploração do petróleo da camada do pré-sal na produção de combustíveis. Também pretende voltar a impulsionar o etanol no país e considera criar incentivos tributários para o setor.

Para a energia elétrica, Marina prevê um sistema chamado “multimodal”, com a adoção de diferentes maneiras de obtenção de energia. Hidrelétricas em construção na Bacia Amazônica serão terminadas, mas novas obras passarão por análise criteriosa antes de serem aprovadas.

O uso de termelétricas deverá ser reduzido gradativamente. Já as energias eólica e solar serão prioridade. E a importância dada ao Mercosul dará lugar ao esforço para a assinatura de acordos comerciais bilaterais.

Essas são algumas medidas do plano de governo de Marina, um calhamaço de 250 páginas, a ser lançado hoje em São Paulo. Os principais líderes do PSB e da Rede participarão do evento. O texto tem poucas alterações em relação à última versão lida por Eduardo Campos, candidato que morreu em acidente aéreo dia 13. Foi escrito com a colaboração de intelectuais e coordenado pela representante da Rede, Neca Setubal, e do PSB, Maurício Rands.

PREVISÃO DE U$ 112 BI EM DEZ ANOS

No governo Dilma Rousseff estima-se que, em dez anos, serão extraídos das águas profundas das bacias marítimas brasileiras o equivalente a US$ 112,25 bilhões em recursos para a Educação e Saúde. Marina, porém, defende o uso de recursos renováveis e um futuro menos dependente de combustível fóssil.

— Costumo dizer que o petróleo ainda é um mal necessário. Temos que sair da idade do petróleo. Não é porque falte petróleo. É porque encontraremos e já estamos encontrando outras fontes de suprimento de energia — afirmou ontem a candidata, em visita à Feira Internacional de Tecnologia Sucroenergética (Fenasucro), em Sertãozinho, no interior de São Paulo.

A presença dela entre produtores do etanol não foi coincidência. Ao desacelerar o pré-sal, Marina pretende revigorar o álcool. Para torná-lo competitivo, quer dar incentivos fiscais para o setor, além de mudar a política de controle artificial do preço da gasolina adotado por Dilma. São planos já expostos pelo economista da campanha, Eduardo Gianetti. Para provar o acerto de sua decisão, Marina pretende criar um grupo de especialistas para avaliar os riscos envolvidos na exploração do pré-sal e expor os resultados à sociedade.

Na energia elétrica, a ordem é diversificar fontes. O uso de termelétricas deverá diminuir gradualmente. Os formuladores de Marina dizem que, além de suja, a energia produzida por essas usinas é cara, endivida o governo e dificulta o investimento em formas menos poluentes e renováveis de eletricidade. Outra ideia é trocar óleo e carvão mineral por biomassa em termelétricas.

Já a energia solar e a eólica serão impulsionadas por ações de um eventual governo Marina, assim como a produção de eletricidade a partir do processamento da cana-de-açúcar. A ideia é que as cidades do litoral brasileiro contem com hélices de mais de 80 metros de altura e placas solares para produzir sua própria energia, o que dispensaria a construção de linhas de transmissão. Já as hidrelétricas continuarão em operação. Aquelas que ainda estão em obras, na Bacia Amazônica, serão concluídas. Mas novas obras hidrelétricas na região dependeriam de rigorosos estudos de impacto ambiental e, dificilmente, seriam feitas em rios que possuem usinas.

CRÍTICAS À ATUAL POLÍTICA EXTERNA

Outro mudança proposta no programa de Marina é na relação do Brasil com o Mercosul. A candidata planeja estabelecer relações comerciais bilaterais com países que não pertencem ao bloco. União Europeia e Estados Unidos fazem pressão por isso há tempos. Essa também é uma demanda dos empresários do agronegócio brasileiro:

— As relações exteriores hoje são pautadas pela ideologia, com muito peso para países como Venezuela e Cuba. O que ela propõe é tratar a negociação internacional de modo mais eficiente, como fez o Chile. Diminuir o grau ideológico, reforçar a posição brasileira em negociações multilaterais e bilaterais do agronegócio, entrar para a briga em disputas na Organização Mundial do Comércio — afirmou o empresário Roberto Waack, do setor de manejo florestal, que contribuiu com o programa.

Outras propostas do plano de governo são: comprometimento com a autonomia do Banco Central, com a implantação das escolas em tempo integral, com a perseguição do tripé macroeconômico, construção de quatro milhões de moradias populares e investimento de 10% da receita da União na Saúde.

oglobo.globo.com | 29-08-2014
Ativistas pedem que Fiat adote metas de eficiência da UE para carros fabricados no Brasil - Divulgação

SÃO PAULO. Ativistas do Greenpeace fizeram na manhã desta quinta-feira uma manifestação bem-humorada na sede da Fiat, em Betim (MG), para lembrar a montadora na necessidade de produzir veículos com motores mais eficientes no Brasil. Eles escalaram um dos portões e penduraram uma faixa que diz "‘Não mate a Mama de desgosto’. Os ativistas levaram ainda faixas com mensagens “Carro moderno é carro eficiente” e um rolo de massa gigante para pedir que a eficiência dos motores "não acabe em pizza".

O Greenpeace começou em abril uma campanha por mais eficiência veicular, pedindo às três montadoras líderes de venda no Brasil - Fiat, Chevrolet (GM) e Volkswagen – que adotem tecnologias mais modernas e que permitam reduzir o consumo de combustível, emitindo também menos gases de efeito estufa.

Em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro, a ONG fez um estudo sobre “Eficiência Energética e Emissões de Gases de Efeito Estufa” e propõe que as montadoras se comprometam a adotar as metas de eficiência energética da União Europeia, de redução gradual até 2021. De acordo com o Greenpeace, o Brasil precisaria aumentar em 41% a eficiência dos veículos brasileiros, se tomarmos como base as taxas de 2011.

Mesmo que a frota dobre até 2030, o Brasil chegaria lá emitindo menos gases de efeito estufa do que hoje e os brasileiros gastariam cerca de R$ 287 bilhões a menos com combustível. De 1990 a 2012, segundo o Observatório do Clima, as emissões com transportes aumentaram 143%.

O Greenpeace afirma que não basta produzir carros flex, que usam álcool, uma vez que a produção de cana e biocombustíveis no Brasil também geram impacto ambiental e social, uma vez que o modelo é o de monocultura em grandes extensões de terra.

- A tecnologia existe e deve ser exigida nos veículos brasileiros. Vamos pressionar para que isso aconteça - disse Iran Magno, coordenador da campanha de Clima e Energia do Greenpeace Brasil.

oglobo.globo.com | 28-08-2014
German Chancellor Angela Merkel (3rdR) welcomes international Nobel Laureates before the opening ceremony of the 5th Lindau Nobel Laureate Meetings on Economic Sciences, in Lindau at lake Bodensee August 20, 2014. REUTERS/Michaela Rehle (GERMANY - Tags: POLITICS) - MICHAELA REHLE / REUTERS

BERLIM — Desde a queda do muro de Berlim, há quase 25 anos, o perigo de uma guerra na Europa nunca foi tão grande quanto atualmente. A conclusão é de 17 prêmios Nobel de economia, que estiveram reunidos esta semana em Lindau, no sul da Alemanha, para o seu encontro anual, mas também de Volker Rühe, ex-ministro da defesa da Alemanha Em uma pesquisa de opinião feita pelo jornal “Die Welt”, os gênios da economia afirmaram que já existe uma nova Guerra Fria, o que poderia contribuir para a decadência da Europa também do ponto de vista econômico.

No tradicional encontro de Lindau, iniciado em 1951 como uma iniciativa europeia de reconciliação do continente dividido pela Segunda Guerra Mundial, os 17 economistas apontaram sobretudo o conflito entre a Rússia e a Ucrânia como um dos mais graves no sentido de ter a “capacidade de modificar duradouramente a Europa”, como registrou Edward Prescott, americano de Minneapolis que foi premiado em 2004, juntamente com o seu colega Finn Kydland, pelo seu trabalho sobre macroeconomia.

Segundo ele, acionismo, como a anexação da Crimeia pela Rússia, e toda a tendência expansionista do presidente Vladimir Putin, que representaria de novo, como a liderança soviética durante a guerra fria, também um modelo econômico diferente do que tem o bloco ocidental. O mundo estaria de novo dividido entre dois blocos, sendo que com os graves conflitos existentes no resto do mundo tornariam a situação ainda mais complexa e explosiva.

Por outro lado, os economistas veem o efeito da crise geopolítica no leste da Ucrânia como perigo de agravamento da crise econômica ainda existente no continente europeu. Depois de criticar a política do euro da Alemanha e do Banco Central Europeu – que faz os consumidores europeus ainda mais inseguros em momentos de crises políticas, os economistas concluíram:

— O perigo de uma agressão aberta da Rússia no leste da Ucrânia pode ter efeitos sombrios para a economia do continente, os investimentos seriam retirados e o resultado pode ser visto na crise de crescimento.

O diagnóstico dos economistas acontece pouco depois de o ex-ministro da defesa da Alemanha, Volker Rühe, que fez parte da cúpula da União Democrata Cristã (CDU), o partido da chanceler Angela Merkel, advertir com veemência para o perigo de uma nova guerra na Europa desencadeada pela crise da Ucrânia.

— Há o perigo de uma guerra por equívoco — afirmou Rühe, lembrando a aproximação perigosa recente de um avião de combate russo com um navio de guerra americano, no Mar Negro, marcada pelo clima de nervosismo quase explosivo, e a situação extremamente instável na região.

Se os economistas apontam a Rússia como o grande responsável pela crise atual e possível “nova guerra fria”, Rühe preferiu criticar os dois lados.

— Também o ocidente falhou pela falta de diálogo e de consideração para com as “sensibilidades russas” — disse, referindo-se à tentativa da União Europeia de abrir espaço para a Ucrânia no bloco, sem procurar incluir a Rússia no dialogo entre os dois.

Segundo Rühe, que é especialista de politica do leste europeu da CDU, durante a guerra fria o perigo parecia maior mas era na verdade atenuado pelo dialogo constante entre os envolvidos, Estados Unidos e União Soviética.

— Esse diálogo não existe mais hoje — criticou.

Para Joseph Stiglitz, a estrela dos economistas premiados, a Europa está hoje cheia de riscos. Além do perigo de uma reedição da guerra fria, o continente estaria ameaçado de depressão, o que poder terminar agravando a situação política.

— Há o perigo de uma grande depressão na Europa, como a que aconteceu no Japão.

Esse risco seria ainda maior para o continente do do que o guerra fria. Para o professor da Universidade de Colômbia, premiado em 2001, é a política de austeridade fiscal da Alemanha na zona do euro que faz com que a situação não melhore

— A zona do euro sofre de uma política fatal — disse o economista, lembrando que a crise de 2008, que não foi superada, somada à queda radical dos juros fazem com que a Europa esteja a um passo da depressão.

Já a chanceler Angela Merkel, que abriu oficialmente o encontro, na última quarta, reagiu às alfinetadas que tinha recebido nas conversas preliminares dos premiados, apontando as teorias “fora da realidade” dos gênios da economia, como um dos fatores causadores da crise econômica mundial.

A crise, que começou nos Estados Unidos, em 2008, espalhou-se pelo mundo inteiro, é ainda hoje motivo de dores de cabeça para os europeus, sobretudo os da zona do euro, os mais afetados pela crise.

oglobo.globo.com | 27-08-2014
Uma figura próxima de Hollande, Emmanuel Macron serviu como conselheiro e agora assume o Ministério da Economia - Alain Jocard / AP

PARIS — O governo francês anunciou nesta terça-feira que o ex-banqueiro Emmanuel Macron assumirá o Ministério da Economia, no lugar de Arnaud Montebourg, que criticara no fim de semana a política de austeridade do presidente François Hollande. Macron, de 36 anos, foi banqueiro do Rotschilde e até junho era secretário-geral adjunto da Presidência. Outros dois ministros rebeldes também deixaram seus cargos: Benoît Hamon, da Educação, e Aurélie Filipetti, de Cultura.

O novo ministro defende uma linha mais liberal e não é membro do Partido Socialista, o que o coloca em oposição aos defensores de uma política que leve mais em conta a situação social na França, atualmente com uma alta taxa de desemprego.

Emmanuel Macron foi responsável pela elaboração do programa eleitoral de Hollande, ao lado do ministro das Finanças, Michel Sapin, e ajudou o presidente nos contatos com empresários franceses. Ele também foi secretário-geral adjunto da Presidência e conselheiro da equipe de Hollande na preparação para as Cúpulas do G8, G20 e de reuniões de alto nível sobre questões econômicas, orçamentais e industriais.

Pessoas próximas a Hollande afirmam que o novo ministro “conhece muito bem as empresas e a indústria. É jovem e, acima de tudo, conta com a total confiança do presidente.” Antes, Macron foi membro da Comissão para a Liberação do Crescimento Econômico, criada durante o governo de Nicolas Sarkozy.

Novo gabinete francês mantém a paridade com oito homens e oito mulheres - AFP

Benoit Hamon, da pasta da Educação, também emitiu dúvidas sobre a política econômica e será substituído por Najat Vallaud-Belkacem. O terceiro ministro crítico que vai deixar o governo é Aurélie Filippetti, da Cultura. Fleur Pellerin, até agora secretário de Estado do Turismo, ficará no cargo.

O novo gabinete, dirigido pelo primeiro-ministro Manuel Valls, tem poucas mudanças e mantém a paridade com oito homens e oito mulheres. O ministro das Relações Exteriores e número dois do governo, Laurent Fabius, o ministro da Defesa, Yves Le Drian, e da Justiça, Christiane Taubira, permanecem no cargo. A estreia da equipe deve ocorrer em apenas algumas semanas, antes das duras negociações sobre o orçamento de 2015 da União Europeia.

SEGUNDA-FEIRA DE DEMISSÕES

Valls entregou as cartas de demissões do gabinete do governo na segunda-feira, após o presidente François Hollande ter decidido que o ministro da Economia, Arnaud Montebourg, havia ido longe demais ao atacar suas políticas econômicas e a “obsessão” alemã pela austeridade. Diante da crise, Hollande pediu ao primeiro-ministro, Manuel Valls, que o novo governo francês fosse “coerente e unido”, ou seja, sem vozes discordantes que expressem em público ideias contrárias às principais linhas políticas do Executivo.

oglobo.globo.com | 26-08-2014
Viktor Orban. Primeiro-ministro húngaro defende que União Europeia treine cerca de dez milhões de ciganos europeus para trabalhos de baixa qualificação - ATTILA KISBENEDEK / AFP

BUDAPESTE — Conhecido pela radical postura anti-imigração, o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orban, defendeu ontem que a União Europeia deve treinar os cerca de dez milhões de ciganos europeus — na imensa maioria desempregados — para que ocupem as vagas de trabalho de baixa qualificação que, hoje, são frequentemente preenchidas por imigrantes. Na Hungria, 10% do total da população de dez milhões de habitantes são ciganos: o que corresponde a um milhão de pessoas desta etnia, frequentemente marginalizados. O premier afirmou, ainda, ser contrário a qualquer tentativa de flexibilização e liberalização de políticas e leis de imigração.

Discursando no encontro anual de embaixadores húngaros, em Budapeste, o primeiro-ministro classificou como “irresponsável” empregar trabalhadores estrangeiros em funções que, segundo ele, podem ser dadas aos ciganos. Neste intuito, Orban enfatizou que a União Europeia deveria investir em educação e qualificação profissional nas comunidades ciganas locais.

— Devemos lutar para manter esse assunto sob jurisdição nacional. Não faço segredo disto: vamos continuar com uma robusta política para não encorajar absolutamente a imigração — discursou o premier. — A Europa deve ter regras gerais que afetem a todos nós que pensamos diferentemente sobre os vários aspectos desta questão.

Em vez de permitir um grande número de imigrantes, Orban afirmou que a Europa necessita aumentar os fundos para programas de desenvolvimento nos países de origem da migração, para que, então, as pessoas possam encontrar trabalhos “onde o Bom Senhor decidiu que elas iriam nascer”. O premier acrescentou ainda que é “linha-dura” e favorável a políticas anti-imigração “sólidas como uma rocha” e que iria se opor a qualquer tentativa de a União Europeia estabelecer regras imigratórias liberais e centralizadas, o que pode colocá-lo numa posição de estranhamento com Bruxelas.

Em rota de colisão com a UE

O Fidesz, partido de direita húngaro de Orban, venceu as eleições legislativas realizadas em abril deste ano apostando no nacionalismo e no populismo, mantendo o primeiro-ministro conservador por mais quatro anos no poder em Budapeste.

Além de bater pé firme contra a imigração, o governo de Orban também tentou estender o controle sobre os meios de comunicação, ao sistema eleitoral, às comunidades religiosas e até mesmo ao Poder Judiciário. Em 2013, por exemplo, o premier reduziu os poderes do Tribunal Constitucional, para, pouco depois, ignorá-lo completamente.

Apesar das queixas internacionais, Budapeste mudou a Carta Magna para incluir uma série de leis que os juízes haviam rejeitado. Orban tem sido acusado por amplos setores na União Europeia de acumular muito poder e rejeitar pesos e contrapesos democráticos, o que ele nega.

oglobo.globo.com | 26-08-2014

SÃO PAULO E RIO - Seis anos após a crise de 2008, cruzar fronteiras se tornou uma tarefa mais árdua para imigrantes pobres. Os ricos, porém, são bem-vindos. Pressionados pela necessidade de capital para estimular suas economias, países em dificuldade passaram a “vender” a estrangeiros autorizações de residência em seu território e, em alguns casos, a própria cidadania. No mapa da Europa, multiplicam-se as modalidades de vistos especiais para investidores em países como Portugal, Espanha, Irlanda, Grécia, Malta, entre outros. Nos Estados Unidos, um programa criado na década de 1990, sem maior alarde, registra aumento significativo no número de interessados, principalmente chineses.

O polêmico mercado — que, na avaliação de críticos, transforma a cidadania em um bem comercializável — começa, aos poucos, a atrair a atenção de brasileiros endinheirados, em busca de vida nova no exterior ou dos benefícios de um passaporte europeu ou americano.

Em Portugal, 39 brasileiros já receberam autorização especial de residência, com investimentos de € 37 milhões, a maioria deles no mercado imobiliário. O Brasil é a terceira nacionalidade em número de autorizações, atrás de China e Rússia, e a segunda em capital transferido, segundo dados do Consulado Geral de Portugal em São Paulo.

Com o programa criado em outubro de 2012, Portugal já recebeu € 842 milhões em investimentos. Para obter a autorização, é necessário comprar um imóvel de ao menos € 500 mil (R$ 1,5 milhão, equivalente ao preço médio de um apartamento de três quartos em Botafogo, Zona Sul do Rio) ou investir € 1 milhão (R$ 3 milhões) no mercado financeiro ou abrir um negócio que gere a contratação de ao menos dez funcionários. Após cinco anos, é possível solicitar uma autorização permanente de residência e, a partir do sexto ano, a cidadania. Não é preciso nem mesmo morar de fato no país. No primeiro ano de residência, basta comprovar estadia de sete dias. O benefício pode ser estendido ao marido ou esposa e aos filhos, em determinadas condições, após o pagamento de uma taxa.

Portugal: após 6 anos, cidadão europeu

Segundo Pedro Osório Cordeiro, gerente da imobiliária portuguesa House & Home, a maioria dos mais de 1.100 chineses que receberam autorização de residência comprou imóveis e, em seguida, os colocou para alugar. Já os brasileiros escolhem propriedades no Centro de Lisboa ou em condomínios de Cascais para usar como segunda casa ou para férias. É o caso de um cliente paulista que pediu para não ser identificado. Desiludido com o Brasil, comprou um imóvel de 200 metros quadrados em Cascais. A meta é deixar de lado a preocupação com segurança — no Brasil, ele circula em carro blindado — e dividir o tempo entre São Paulo e Lisboa. Um dos pontos decisivos para escolher o investimento foi o passaporte europeu. Com o programa, é possível circular munido só de um cartão de identificação no chamado espaço Schengen, que abrange 25 países europeus.

— Muitos desses esquemas exigem que ao menos parte do investimento seja feito em imóveis. Isso representa uma tentativa de reanimar mercados imobiliários fortemente atingidos pela crise. Em outros países, como Chipre, o investimento pode incluir depósitos num banco local. Essas instituições estiveram perto de quebrar há pouco tempo. Para mim, esses esquemas podem ser vistos como uma pequena parte, embora de valor simbólico significativo, de uma tentativa mais ampla de reanimar um modelo econômico que sob muitos aspectos fracassou — afirma Owen Parker, professor do Departamento de Política da Universidade de Sheffield, no Reino Unido, que prepara um livro sobre os programas de visto para investidores.

Mas mesmo com um benefício à economia local, a proliferação desse tipo de programa na Europa não é isenta de polêmica. Em Malta, a cidadania era concedida logo após a realização do investimento. Após críticas da vice-presidente da Comissão Europeia, Viviane Reding, que fez um discurso intitulado “A cidadania não pode ser posta à venda” no Parlamento Europeu, em janeiro, a legislação foi alterada e, agora, determina que o interessado precisa mostrar vínculos com o país. É preciso esperar um ano antes de pedir cidadania, embora não seja necessário morar no país durante os 365 dias.

Jelena Dzankic, pesquisadora do Instituto Universitário Europeu, na Itália, ressalta que as regras de cada país para conceder vistos a investidores refletem a extensão dos danos causados pela crise em cada economia. Embora cada membro da União Europeia tenha o direito de determinar suas regras de cidadania, a distribuição de vistos sem exigências de integração com a comunidade, como o aprendizado do idioma local ou um prazo mínimo de moradia, mais comum em países periféricos, muda as regras do jogo.

— Os passaportes desses países se tornaram mais valiosos em virtude de sua associação com a cidadania europeia. Já a cidadania, que significa mais do que um passaporte, foi desvalorizada — diz Jelena.

Nos EUA, o programa de vistos E-B5 abre um caminho para quem quer obter a autorização permanente para morar e trabalhar, mais conhecido como Green Card, ou até mesmo a cidadania americana. É necessária uma aplicação mínima de US$ 500 mil (R$ 1,12 milhão) na abertura de um negócio ou num empreendimento em curso em áreas de taxa elevada de desemprego, que resultem na criação de ao menos dez postos de trabalho. Segundo dados do Departamento de Serviços de Imigração e Cidadania dos EUA, desde 2009, 97 brasileiros obtiveram o visto. Os investidores têm direito a um visto de moradia e trabalho, por dois anos, e que após esse prazo pode ser transformado em autorização permanente. Em cinco anos, já é possível dar entrada ao pedido de cidadania.

Segundo Renata Castro, consultora da Exclusive Visas, que dá suporte a investidores que buscam um segundo passaporte, nos últimos anos mudou o perfil dos interessados brasileiros:

— De três anos para cá, aumentou a procura de pessoas de classe média alta. Na maior parte dos casos, vítima ou com medo de sofrer violência — afirmou, lembrando que antes a demanda estava restrita a milionários.

Muitos já chegam ao país planejando oportunidades de trabalho. Foi o caso da pedagoga Katia Franhani. Ela e o marido decidiram, no ano passado, conquistar o E-B5. Venderam o apartamento em Perdizes, Zona Oeste da capital paulista, e usaram todas as economias para investir no sonho americano, que inclui, além do Green Card, uma casa num condomínio em Winter Garden, cidade ao lado de Orlando. É lá que o casal espera que os filhos de 7 e 14 anos tenham acesso a uma melhor educação. Na empreitada, ela também convenceu os pais a realizarem o mesmo investimento — a ampliação de um hospital no estado do Alabama.

— Não vamos ter que lidar tão cotidianamente com a falta de segurança que sentíamos em São Paulo — disse a pedagoga, que planeja abrir um negócio na área de saúde ou educação para atender os brasileiros que vivem na região.

Quem já esteve em situação parecida foi o empresário Flávio Augusto da Silva, ex-dono da Wise Up e que, entre 2009 e 2012, morou nos EUA com a mulher e optou pelo visto EB-5. Na época, o investimento foi feito em uma estação de esqui no estado de Vermont:

— Queria ir para os EUA com visto de residência, mas num primeiro momento fui só para morar. Só depois comecei a abrir unidades da Wise Up por lá.

Brasileiros miram educação dos filhos

De investidor em um EB-5, Silva pode ficar em breve na outra ponta. No ano passado, após vender a escola de inglês para a Abril Educação, comprou um time de futebol, o Orlando City — equipe que é dona do passe do jogador brasileiro Kaká. O desafio é construir um estádio de 25 mil lugares para o time, obra avaliada em US$ 110 milhões. Parte será bancada pelo governo da Flórida e outra, por investidores privados (sendo ele mesmo um deles). Silva não descarta que parte dos recursos venha de investidores em busca do EB-5.

Roger Bernstein, advogado americano especializado em imigração, diz que os chineses dominam os pedidos por visto de permanência nos Estados Unidos. Foram mais de 6 mil emissões para chineses de um total de 8.543 vistos desse tipo concedidos no ano passado. Entre os brasileiros, um dos pontos de destaque é o interesse em colocar os filhos em universidades americanas. Como residentes permanentes, o valor das mensalidades cai:

— O Brasil está entre os três países do continente que mais solicitam esse tipo de visto, atrás de México e Venezuela.

O vice-presidente da Westchester Financial Group, Octavio Cardoso, afirma que um projeto deste tipo requer folga no orçamento, já que o dinheiro investido terá baixo rendimento, não pode ser sacado antes do prazo e há o risco de não recuperar todo o montante investido:

— Recomendamos que a família tenha ao menos US$ 2 milhões de patrimônio.

Outro empecilho é o lado fiscal. Segundo ele, muitos desistem quando descobrem que a incidência de impostos pode ser grande. Isso acontece quando a pessoa opta por deixar parte do patrimônio ou renda no Brasil e outra parcela nos Estados Unidos. Quando isso ocorre, há risco de bitributação, já que o governo americano não aceita fazer compensação de certas taxas.

oglobo.globo.com | 24-08-2014
O diretor do Instituto de Estudos Árabes e Islâmicos da Universidade de Lisboa, António Dias Farinha, considera que as grandes potências – como Estados Unidos e União Europeia – devem tomar medidas concretas para mediar o conflito em Gaza.
www.rtp.pt | 20-08-2014
Universidade inglesa abriu candidaturas até 29 de agosto, mas apenas para cidadãos na União Europeia.
feeds.dn.pt | 17-08-2014

LONDRES - Até 29 de agosto os candidatos interessados em um dos melhores empregos do mundo podem procurar a Universidade de Cambridge. A posição? Doutor em chocolate.

O Departamento de Engenharia Química e Biotecnologia está em busca de um pesquisador do tema para integrar seus quadros em 2015.

Totalmente financiado, o curso de três anos e meio colocará o candidato escolhido em estreita colaboração com supervisores que têm “uma vasta experiência no estudo de sólidos macios, incluindo alimentos”.

O projeto experimental desafiará o pesquisador a encontrar formas em que o chocolate, que tem um ponto de fusão próxima à do corpo humano, possa permanecer sólido e reter qualidades em climas quentes. Mas não é só. O candidato também precisa ter boas habilidades matemáticas e uma graduação em que tenha estudado física, química, ciência ou engenharia de materiais por pelo menos quatro anos.

Se por um lado o doutorado multidisciplinar em chocolate pode muito bem ter apelo mundial, por outro os regulamentos de financiamento restringem a vaga aos cidadãos da União Europeia.

oglobo.globo.com | 17-08-2014

Estudantes brasileiros que estão entrando agora na universidade terão uma oportunidade a mais de estudar no exterior nos próximos anos. Na abertura do III Encontro de Reitores Universia, evento que começou ontem no Rio e termina hoje, a Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI) anunciou que pretende facilitar a concessão de até 200 mil bolsas de intercâmbio a estudantes da América Latina e da Península Ibérica.

BENEFÍCIOS DE € 4 MIL

Pelos planos, os benefícios valerão também para professores e pesquisadores. De 2015 a 2016, seriam cerca 25 mil alunos contemplados, número que subiria depois em progressão aritmética até alcançar o total de 200 mil em 2020. As bolsas valeriam para um semestre acadêmico, com cifras girando em torno de € 4 mil.

No entanto, tudo isso ainda depende da aprovação por parte dos países da OEI, que se reunirão em dezembro em Vera Cruz, no México. De acordo com a secretária da entidade, Rebecca Grynspan, o maior entrave ainda seria a questão financeira:

— Ainda falta dinheiro para o projeto sair do papel, mas não acredito que isso vai nos atrapalhar muito — disse Grynspan.

De concreto já há o programa de intercâmbio Paulo Freire da OEI, que deverá conceder 1,5 mil bolsas anuais de 2015 a 2020 a estudantes de Pedagogia e professores. O projeto será anunciado no final de agosto, durante encontro de ministros da Educação dos países ibero-americanos também no México.

— Nesse encontro ainda faremos esforços junto aos países-membros para realizar o projeto maior das 200 mil bolsas — garante Grynspan.

Não por acaso, os dois programas foram batizados de Erasmus Iberoamericano, em referência ao programa da União Europeia de bolsas de intercâmbio e mobilidade estudantil, que abrange três milhões de estudantes do continente. De 2015 a 2020, a UE pretende lançar o Erasmus Plus a fim de estreitar laços educacionais com suas ex-colônias. Ainda não se conhece o total de estudantes a serem beneficiados, mas, de acordo com Mar Duque, responsável por gerir o programa na Espanha, boa parte deles virá da América Latina:

— É uma região com a qual temos fortes laços culturais. Esperamos receber boa quantidade de brasileiros no Erasmus Plus — diz Duque.

EUA: PLANOS PARA FIM DE VISTO

No encontro, a conselheira especial para a Educação do Departamento de Estado dos EUA, Kathleen Kennedy Townsend, afirmou que defende dentro do governo americano o fim da exigência de visto para estudantes brasileiros. Os EUA são o país que mais recebe alunos pelo programa Ciência Sem Fronteiras. Segundo ela, já existem conversações internas nesse sentido no governo de Barack Obama.1

oglobo.globo.com | 29-07-2014

RIO - Estudantes brasileiros que estão entrando agora na universidade terão uma oportunidade a mais de estudar no exterior nos próximos anos. Na abertura do III Encontro de Reitores Universia, evento que começou ontem no Rio e termina hoje, a Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI) anunciou que pretende facilitar a concessão de até 200 mil bolsas de intercâmbio a estudantes da América Latina e da Península Ibérica.

Pelos planos, os benefícios valerão também para professores e pesquisadores. De 2015 a 2016, seriam cerca 25 mil alunos contemplados, número que subiria depois em progressão aritmética até alcançar o total de 200 mil em 2020. As bolsas valeriam para um semestre acadêmico, com cifras girando em torno de € 4 mil.

No entanto, tudo isso ainda depende da aprovação por parte dos países da OEI, que se reunirão em dezembro em Vera Cruz, no México. De acordo com a secretária da entidade, Rebecca Grynspan, o maior entrave ainda seria a questão financeira:

— Ainda falta dinheiro para o projeto sair do papel, mas não acredito que isso vai nos atrapalhar muito — disse Grynspan.

De concreto já há o programa de intercâmbio Paulo Freire da OEI, que deverá conceder 1,5 mil bolsas anuais de 2015 a 2020 a estudantes de Pedagogia e professores. O projeto será anunciado no final de agosto, durante encontro de ministros da Educação dos países ibero-americanos também no México.

— Nesse encontro ainda faremos esforços junto aos países-membros para realizar o projeto maior das 200 mil bolsas — garante Grynspan.

Não por acaso, os dois programas foram batizados de Erasmus Iberoamericano, em referência ao programa da União Europeia de bolsas de intercâmbio e mobilidade estudantil, que abrange três milhões de estudantes do continente. De 2015 a 2020, a UE pretende lançar o Erasmus Plus a fim de estreitar laços educacionais com suas ex-colônias. Ainda não se conhece o total de estudantes a serem beneficiados, mas, de acordo com Mar Duque, responsável por gerir o programa na Espanha, boa parte deles virá da América Latina:

— É uma região com a qual temos fortes laços culturais. Esperamos receber boa quantidade de brasileiros no Erasmus Plus — diz Duque.

EUA: PLANOS PARA FIM DE VISTO

No encontro, a conselheira especial para a Educação do Departamento de Estado dos EUA, Kathleen Kennedy Townsend, afirmou que defende dentro do governo americano o fim da exigência de visto para estudantes brasileiros. Os EUA são o país que mais recebe alunos pelo programa Ciência Sem Fronteiras. Segundo ela, já existem conversações internas nesse sentido no governo de Barack Obama.1

oglobo.globo.com | 29-07-2014

LONDRES Uma das historiadoras mais respeitadas, a canadense Margaret MacMillan vê semelhanças quase aflitivas — para quem a ouve — entre o mundo atual e aquele de 100 anos atrás, quando o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando por terroristas em Sarajevo desencadeou a primeira grande guerra mundial. Os Bálcãs de antes poderiam perfeitamente ser o Oriente Médio ou os mares do Sul da China de hoje, segundo ela. Cercada por livros em seu gabinete na Universidade de Oxford, onde passa a maior parte do tempo, disse ao GLOBO que os riscos não podem ser descartados. Mas não está completamente pessimista. Para ela, o mundo de hoje tem instituições internacionais mais fortes e um sentimento de Humanidade compartilhado que podem evitar uma nova grande guerra. “Então, vamos tentar ter confiança nisso...”, disse, sorridente, a autora do livro “A guerra que acabou com a paz: como a Europa trocou a paz pela primeira guera mundial”.

A senhora diz o mundo está parecido com o do pré-I Guerra. Quais as semelhanças?

Ambos são muito globalizados. O período de 1914 já era, com a disseminação das comunicações, dos telégrafos, das ferrovias, o movimento de povos pelo planeta, com os europeus partindo para o novo mundo. Os eventos em uma parte do mundo afetavam as outras. Havia uma expansão da prosperidade, mas a divisão era muito desigual. Havia também os movimentos de trabalhadores, os movimentos revolucionários. Havia ainda um medo exagerado, talvez como agora, do poder dos terroristas, de ataques. O nacionalismo também se repete: nos Bálcãs, ou na Escócia, logo ali, querendo deixar o Reino Unido, e em partes da Ásia, no Japão. E uma força de partidos de direita, como o Tea Party ou o Ukip aqui no Reino Unido. Não se trata mais de partidos de direita tradicionais, mas antielite, novas organizações política. Os protestos eram mais organizados em 1914 do que agora. Os sindicatos estavam em ascensão e agora estão em queda. Mas há greves na China. Há problemas que se repetem, embora não necessariamente nas mesmas partes do mundo. As pessoas também estão pensando de maneira mais internacional.

As semelhanças indicam riscos similares de uma guerra hoje?

Seríamos bobos se não tivéssemos cautela, ou não pensássemos em riscos. Temos que estar preocupados. Há o risco da corrida armamentista, da mudança do clima, das grandes epidemias, vírus. Uma nova guerra mundial não é provável, porque tivemos duas e sabemos o que pode acontecer, ainda mais agora que as armas têm uma capacidade de destruição muito maior. Poderia ser o fim de tudo. Uma semelhança interessante são as partes do mundo em que há problemas e disputas locais que ameaçam envolver países (poderes) de fora. Antes de 1914 eram os Bálcãs; hoje poderiam ser, por exemplo, o Oriente Médio ou os mares do Sul e do Leste da China.

Conflitos como o da Ucrânia não significam que a tensão pode estar no ar?

Os países do Ocidente não souberam lidar com a Rússia corretamente desde o fim da Guerra Fria. É um país orgulhoso. O discurso de Putin por conta da anexação da Crimeia mostra que há muito ressentimento e orgulho ferido. Ele menciona o Kosovo, em que o Ocidente agiu exatamente da mesma maneira. Tudo isso importa. E agora quer desestabilizar a região. Uma das coisas que mais me assustam hoje são as estatísticas. Há 51 milhões de refugiados no mundo, muito mais do que em qualquer momento de guerra.

Como a senhora mesma diz: não aprendemos com a I Guerra?

O aprendizado aconteceu de maneira diversa no mundo. A Europa aprendeu, prova disso é a importância da União Europeia. Mas isso é algo que as gerações mais jovens, que não viveram a guerra diretamente, já não sabem valorizar.

A senhora compara as turbulências nos Bálcãs, que acabaram por desencadear a Primeira Guerra, ao Oriente Médio. Há riscos semelhantes?

O perigo sempre depende de como os poderes de fora lidam com a situação, disso depende o risco. Cada um tinha os seus interesses nos Bálcãs, daí a importância que ganhou. O Oriente Médio é parte problemática do mundo, com países que podem levar suas forças para lá. Há interesses na Síria, no Iraque. Qualquer lugar pode oferecer risco. A China, com a militarização e os problemas no mar do Sul e do Leste, é um exemplo. O Japão também vem se movimentando com investimentos militares. Os Estados Unidos têm um acordo de defesa com o Japão, se a China e o Japão se desentendem…

Mas o mundo já não está dividido nas mãos de algumas potências como cem anos atrás...

O mundo está mais multipolar do que naquela época. Acho que podemos ver agrupamentos mais regionais, com potências regionais. A China pode, ou não, tornar-se a potência hegemônica no lugar dos Estados Unidos. Mas pode não querer sê-lo, ou não ser capaz.

Se no mundo globalizado de 1914 já havia tantos riscos, hoje, com a internet, usada para promover protestos pacíficos e a propaganda jihadista, eles não são potencializados?

A internet é neutra. Mas ajuda a pôr em contato pessoas do mal. Pode, sim, servir de combustível para ações do mal. Mas também pode ser usada para o bem, para caridade. Os governos já perceberam a importância e o poder da rede, e estão tentando usá-la a seu favor. Sabem que as pessoas usam a internet para atrair uma audiência cada vez maior.

Há uma corrida armamentista no mundo. E não é só em países como Irã, ou Síria. EUA e o Reino Unido gastam bilhões. Não é uma ameaça?

No caso britânico, é mais uma ressaca imperial. Tem valor simbólico. Para que precisa disso tudo? Os EUA também continuam se armando. Israel não diz ter armas nucleares, mas todos sabem que sim. Tem o Paquistão, uma ameaça no Irã. A Ucrânia desistiu em troca de integridade territorial quando se tornou independente da URSS. A proliferação de armamentos de massa é um grande risco.

A senhora diz que a Primeira Guerra aconteceu por um conjunto de acidentes e decisões tomadas pelos líderes da época. Que acidentes podem acontecer hoje?

Os chineses com seus navios de guerra, por exemplo, podem esbarrar em uma embarcação filipina ou num barco pesqueiro japonês. Tudo isso por engano. A Coreia do Norte agir de maneira imprudente, o que não é impossível. Se o Isis resolver atacar o Irã… Não podemos descartar nada. O assassinato de Francisco Ferdinando foi um acidente. Os terroristas acharam que, matando o arquiduque, as coisas automaticamente se resolveriam. Não previram os desdobramentos. Nunca pensaram numa guerra global. Faz parte da natureza humana ter problemas. Sempre os teremos de uma maneira ou de outra.

oglobo.globo.com | 28-07-2014

O Palácio do Planalto jura que não inspirou a dura nota de repúdio à ação de Israel em Gaza e nem a decisão de chamar o embaixador brasileiro de volta. “Foi o ministro Figueiredo mas estou solidário”, diz o assessor especial da Presidência, Marco Aurélio Garcia. Achou deselegante, claro, a reposta do porta-voz da Chancelaria israelense mas garante que a política externa brasileira não usou dois pesos e duas medidas, ao condenar Israel, acolher sem críticas o presidente russo e manter-se discreto sobre as mortes na Sória. “Estou disposto a ouvir todos os desaforos para parar a matança.”

A ação do governo brasileiro de crítica a Israel é uma mudança de política externa?

Não é uma mudança de política. Foi uma decisão do Itamaraty, em função da própria evolução dos acontecimentos. Dia 17, o Itamaraty reagiu ã situação do Oriente Médio, fazendo a crítica aos dois lados. O que se colocou agora foi que não se tratava mais de uma apreciação sobre o conflito geral, mas um agravamento da situação na Faixa de Gaza. Já se fala em 800 mortos, uma parte dos quais crianças velhos e mulheres, que não se pode dizer que estão incorporados às forças do Hamas,

Israel acusa o Hamas de botar crianças na zona de tiro, esconder armas em escola.. O que o senhor acha?

Eu não estou lá, mas bombardear para denunciar o Hamas não é uma boa tática para um país que se constituiu a partir do horror que foi o Holocausto. O Brasil foi parte do movimento de defesa da criação de um Estado para abrigar pessoas vítimas de uma perseguição tão cruel. Não me parece que seja um argumento adequado para um Estado justificar as mortes assim. Os relatos que veijo, da BBC, da CNN, da TV5, a opinião das pessoas não é essa. Não sei por que tenho de me ater a um lado ou outro. A população não tem vocação suicida

Uma corrente da diplomacia que diz ser mais efetivo agir nos bastidores do que fazer uma repreensão pública...

O governo americano tentou um conjunto de iniciativas, de caráter diplomático e discreto, com caráter inócuo. A diplomacia silenciosa e discreta funciona as vezes, nós inclusive a praticamos e somos cobrados, há a exigência de sermos mais incisivos.

Mas a posição agora foi diferente da tomada na Síria, mais discreta ou tímida.

Não apoiamos ativamente todas as missões que tentaram corrigir aquelas distorções que estavam havendo no país. Se você fizer um recorrido na época, você vê que tinha 100 mortos num dia, 60 no outro... Não vamos esperar um ano em Israel para o número de mortos igualar o da Síria. Nós apoiamos as missões multilaterais, mas fracassaram. A evolução foi inesperada com a ocupação dos radicais. Não estamos com uma política de dois pesos e duas medidas.

E em relação a Putin e a Xi Jinping, o país não foi muito acolhedor para dois chefes de Estado com um histórico de abusos de direitos humanos?

Não é uma contradição. Se você quiser, pega os países por ordem alfabética e fazemos uma análise de direitos humanos de A a Z, todos terão problemas.

Mas o Putin está fomentando a violência no país alheio.

Isso é um tema que temos discutido, houve uma decisão multilateral, dos cinco países do Brics que encontraram um ponto de convergência numa declaração específica. Nas nações com outros países, nós não discutimos questões internas. Ontem, a União Europeia condenou a Polônia por causa das prisões secretas. Nós não opinamos sobre isso. Nós não somos uma agência de certificação de direitos humanos. Tomamos nota e elevamos em consideração isso nas nossas relações, mas não nos sentimos obrigados nem qualificados para ficar distribuindo certificados de boa ou má conduta. Até por que o país que faz isso não tem se mostrado muito idôneo nesta qualificação.

Israel já pediu desculpas ou mandou emissários pela reação desastrada do porta-voz à nota brasileira?

Não, acho que não, ainda vai levar algum tempo...Foi uma reação deselegante que eu nunca teria, mesmo com um país com o qual eu tivesse divergências muito grandes. O que menos nos interessa nessa história é o bom ou mau comportamento diplomático, boa ou má educação. Estou disposto a ouvir todos os desaforos para parar a matança. Parando a matança é o melhor pedido desculpas.

A nota sobre Israel e a decisão de chamar o embaixador foram decisões da presidente e do senhor ou foi do Itamaraty ?

Eu não tive nenhuma interferência nesse assunto. Nem a presidente. Não sei quais foram os mecanismos de consultas, foi uma decisão do ministro Figueiredo e estou absolutamente solidário com essa decisão.

Recebeu uma montanha de reclamações? O senhor chamou a guerra de genocídio, foi um exagero de linguagem?

Recebi uma montanha de reclamações e de elogios. Muitos judeus disseram que essa decisão foi correta. Quando morre um número relevante de pessoas, do mesmo grupo étnico e social, esta expressão de genocídio pode ser usada. Eu estou disposto a abandoná-la se a matança parar.

Que saída o senhor vê? O Brasil vai agir na ONU?

Estou pessismista, há um radicalismo muito grande, os organismos multilaterais são incapazes de exercer pressão. Eu espero que uma reflexão maior, uma sanção moral, possa ter um efeito positivo. Nós não estamos no Conselho de Segurança nem como membros provisórios mas vamos continuar nos expressando. Nós também queremos fortemente que cesse o lançamento de mísseis do Hamas, até por que tem servido como álibi ou pretexto para os ataques.

oglobo.globo.com | 26-07-2014
Uma equipa de investigadores da Universidade de Aveiro detetou a presença de metais pesados, como Zinco ou Cobre, em algumas hortas e pastagens urbanas da zona do Grande Porto. Em alguns casos, os valores estão ligeiramente acima do permitido pela União Europeia mas isso não justifica qualquer alarme.
www.rtp.pt | 23-07-2014

WASHINGTON E RIO - O comércio é, setenta anos depois, a vertente mais capenga da Conferência de Bretton Woods. Com o foco principal da reformulação global na reativação dos mecanismos financeiros e monetário e na necessidade urgente de reconstruir uma Europa arrasada, a organização do tabuleiro comercial internacional foi postergada e, quando finalmente saiu, imperou – como ainda hoje é o caso – a proteção de interesses nacionais.

O Acordo Geral de Tarifas do Comércio (Gatt) – embrião da Organização Mundial do Comércio (OMC) – foi assinado em 1947, três anos depois de Bretton Woods, com escopo limitado. Em novembro daquele ano, os países aliados se reuniram em Havana, capital de Cuba, para detalhar a proposta de regulação. O delegado brasileiro na cúpula foi o economista Roberto Campos.

Os EUA, que detinham 50% do PIB global e era de longe a maior potência mundial, não aceitaram a camisa-de-força de um acordo amplo, com a estrutura trazida pela OMC, a partir de 1995.

— Só alcançou-se um simples acordo de tarifas de manufaturados. Ficaram três espaços vazios: agricultura, serviços e compras governamentais. O sistema ficou torto até os anos 1990, quando houve as rodadas de Tóquio e a do Uruguai, que incluíram serviços, propriedade intelectual, comércio de telecomunicações e compras governamentais no GATT, mas o acordo geral já não conseguia mais abraçar tantos temas diversos, não tinha órgão de solução de controvérsias. Isso fez com que se perdesse o timing de estruturação do comércio global e a gente vê isso refletido até hoje — explica o economista Marcos Troyjo, diretor do Bric-Lab da Universidade de Columbia.

Antes da formação da OMC, também houve a adoção de mecanismos bilaterais que minaram o crescimento mais igualitário do comércio internacional. Por exemplo, diz Troyjo, países como os EUA fizeram amplo uso da cláusula da nação mais favorecida, pela qual uma nação concedia a um parceiro eleito a possibilidade de exportar sem tarifas uma quantidade grande de produtos. A China, afirma o economista, foi uma das principais beneficiárias.

Outro problema é que as decisões da OMC são tomadas por unanimidade, ou seja, os interesses de um único país podem travar negociações inteiras. E as nações continuam muito presas a atender suas necessidades internas, por exemplo protegendo setores ineficientes mas que fazem grande barulho político.

A crise global de 2008 só tornou estas barreiras mais rígidas. Para se defender dos efeitos colaterais, as nações adotaram medidas protecionistas e se retiraram da arena multilateral, deixando a OMC, com seus mais de 140 países, esvaziada. A preferência, especialmente de EUA e União Europeia, tem sido pela costura de acordos regionais, como as alianças Transpacífica e Transtlântica, nos quais os interesses são mais claro e as agendas, mais fáceis de serem defendidas.

— Isso contribui para tornar a OMC menos relevante. O que vemos hoje é que EUA e UE estão relegando à OMC apenas a agenda de contenciosos. A UE está negociando um acordo de livre comércio com o Mercosul, mas abriu uma série de disputas na OMC com o Brasil — diz Troyjo.

BRASIL: SEM ACORDOS EM 16 ANOS

Para o diretor do Bric-Lab, é impossível antecipar qual será o incentivo que surgirá para que o aspecto multilateral do comércio se reanime. Por isso, a saída para países com menos poder de fogo, como o Brasil, é “fazer de tudo um pouco”: buscar parcerias comerciais regionais sem se retirar da OMC.

— É idealismo achar que os Estados vão se comportar com benevolência e passar por cima dos interesses nacionais, das disputas internas. Em algum momento, a reforma atualizadora do sistema econômico vai desencantar. Nem que seja porque a frustração cria a necessidade.

Carlos Langoni, diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getulio Vargas e ex-presidente do Banco Central do Brasil, destaca porém que a OMC é eficaz na solução de controvérsias, já que é o único organismo multilateral que tem força de lei, obrigando países a cumprirem decisões.

— O mais curioso é que a OMC é presidida por um brasileiro e é onde o Brasil menos evoluiu nos últimos 16 anos, sem firmar um único acordo comercial — disse.

* Colaborou Henrique Gomes Batista

oglobo.globo.com | 20-07-2014

WASHINGTON - A reestruturação da arquitetura financeira global passa, necessariamente, pela reforma dos organismos multilaterais, dizem os especialistas. O Banco Mundial (Bird) precisa de mais capital e foco redobrado na expansão do crescimento dos sócios. Mas, pela natureza das mudanças pelas quais o mundo passou, o trabalho concentra-se no Fundo Monetário Internacional (FMI) – que, apesar das críticas em diversas intervenções aos longo das décadas, tem tido papel central nas respostas globais às crises.

As organizações de Bretton Woods nasceram desempenhando papel tímido. O Bird foi ofuscado pelo Plano Marshall, de reconstrução da Europa com dinheiro americano. Já o Fundo apagava incêndios, basicamente europeus, e tinha até o fim dos anos 60 o Reino Unido como principal cliente.

Foi apenas em 1982, com a primeira crise da dívida do México, que o FMI assumiu sua função global, com a noção de risco sistêmico de um eventual calote mexicano. Esse papel foi reforçado com as crises dos anos 1990 e 2000, diz o economista James Boughton, ex-historiador do Fundo. No mesmo período, ficou claro que o FMI precisava refletir melhor a nova ordem mundial, com a ascensão da China e demais emergentes como o Brasil.

A estrutura de poder no FMI está ultrapassada, afirmam os especialistas. Com 19,2% do PIB mundial, os EUA mantêm 16,8% dos votos no Fundo, única nação com poder de veto sobre as decisões. A Europa está super-representada, ao passo que a China, com 16,1% da economia global, tem apenas 3,8% dos votos. No Brics, apenas Rússia e África do Sul têm seu peso econômico ajustado ao poder de voto. O Brasil, com 2,8% do PIB mundial, tem 1,7% dos votos e a Índia, que representa 6%, tem 2,3% das cotas.

— O papel do FMI está consolidado. Agora é preciso que o Congresso americano ratifique o pacote de mudanças, que dará mais recursos ao Fundo e redistribuirá votos, dando poder maior aos emergentes e consolidando a presença da União Europeia como voz unificada. O FMI terá assim mais legitimidade. Mas, junto, é preciso que se repense a relação do G-20 (grupo das 20 maiores economias do mundo), que representa um universo poderoso mas restrito — afirma Boughton.

Marcos Troyjo, diretor do Bric-Lab da Universidade de Columbia, concorda.

— Não basta apenas pensar em representação. Após 2008, há uma tensão entre ação, coordenação e delegação. Os EUA precisam revitalizar sua economia, enchem o mercado de recursos, mas não levam a política dos outros em consideração. O FMI precisa poder implementar as medidas necessárias e falar para os EUA que é hora de ajustar, falar para a China ajustar, como fala para os demais emergentes e nações pobres. O Fundo precisa de um novo mandato.

Kenneth Rogoff, ex-economista-chefe do FMI e professor de Havard, afirma que “será ridículo se o diretor-gerente que substituir Christine Lagarde (francesa) não for de um país emergente”, rompendo a tradição pela qual os EUA indicam o presidente do Bird e a Europa, o dirigente do FMI. Ele adiciona outro ponto para reforma: a dos instrumentos utilizados nos programas de assistência do Fundo. Ele vê com bons olhos a discussão sobre o re-profiling, mecanismo que permitiria a reprogramação do pagamento de dívida privada pelos governos, uma espécie de perdão temporário.

— Esta seria uma grande mudança de paradigma e era claramente a solução para a Europa periférica após 2008, que tinha dívidas altíssimas e, para saná-las, teve que segurar o crescimento, com consequências desastrosas — diz Rogoff.

Para James Boughton, o fortalecimento do FMI é uma peça-chave na nova arquitetura global, diante das dificuldades políticas de se criarem novas instituições e órgãos reguladores internacionais:

— Eu acho irrealizável um novo Bretton Woods, temos que trabalhar dentro do sistema que existe. Dentro do FMI, já temos estruturas tratando dos temas prementes, já temos o board de regulação financeira, temos muito trabalho sendo feito sobre capitais. Os países estão trabalhando regulações nacionais e, com os anos, elas ficarão prontas e as melhores práticas vão se sobressair. É preciso continuar nesta direção e o Fundo pode conectar essas pontas. Se não fortalecermos o FMI, haverá uma nova crise. Esta é a verdade a se encarar. É melhor fazermos as coisas sem precisarmos de nova crise para nos incentivar.

oglobo.globo.com | 20-07-2014

BRASÍLIA - Mercosul e União Europeia farão um esforço para trocar suas respectivas ofertas para um acordo de livre comércio até o fim deste ano. Foi o que disse ao GLOBO o ministro das Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo, após um almoço, nesta sexta-feira, com o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso.

- Estamos preparados para isso e esperamos que a troca de ofertas saia antes do fim do ano - afirmou Figueiredo.

Durão Barroso foi recebido nesta manhã, no Palácio da Alvorada, pela presidente Dilma Rousseff. Em seguida, dirigiu-se ao Itamaraty, onde almoçou com Figueiredo e outras autoridades brasileiras.

Na noite anterior, durante uma recepção em Brasília, o português afirmou estranhar a demora na confecção de uma zona de livre comércio com o Mercosul. Ele destacou que, de forma geral, esse processo costuma ser mais rápido com outros parceiros internacionais. Com isso, deu a entender que, para os europeus, ainda não há acordo por causa da demora do bloco sul-americano.

Nos bastidores, contudo, o que se fala em ambos os lados é que dificilmente haverá a troca de ofertas este ano, o que leva a crer que um entendimento seria um futuro remoto. As negociações começaram na década de 90 e até o momento houve poucos avanços.

No momento atual, há troca de comissários na UE. O próprio Barroso está deixando o cargo e será substituído por Jean-Claude Juncker, de Luxemburgo.

Momentos antes do almoço com Figueiredo, Durão Barroso disse que também acredita ser possível a troca de oferta ainda este ano. Depois de proferir uma palestra na Universidade de Brasília, ele defendeu que é preciso avançar nas negociações e revelou que essa foi a "conclusão implícita" da conversa que teve nesta manhã com a presidente Dilma Rousseff.

- Em relação ao Mercosul, ambos concordamos na necessidade de avançar com o processo e de fazer troca de ofertas - declarou o português, a respeito da reunião que teve pela manhã com Dilma Rousseff.

Perguntado sobre quando a troca de ofertas acontecerá, o presidente da Comissão Europeia disse acreditar que é possível que isso ocorra ainda este ano, mas enfatizou:

- Não há data ainda. Ficou expresso de ambos os lados o desejo de ser o mais rapidamente possível. Realisticamente, agora na Europa entra-se em férias no mês de agosto, não poderá ser antes do próximo outono.

Sobre até onde cada lado pode ceder, Durão Barroso lembrou que "há algumas sensibilidades, porque há interesses diferentes, também, entre os países do Mercosul, como existem entre os países da UE". Em sua opinião, o mais provável é que haja um movimento de redução das tarifas a nível global.

- Eu sei que aqui no Brasil interessa especialmente a área agrícola e é uma das áreas onde a Europa também tem que fazer aberturas. Ao mesmo tempo que no Brasil é importante avançar-se em relação às tarifas para produtos industriais e para serviços - afirmou.

Do lado europeu também. A comissão europeia pode vir com essa oferta...De qualquer maneira, a comissão europeia quer certificar-se se há o apoio entre todos os países europeus para essa oferta.

oglobo.globo.com | 18-07-2014

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, levou a cabo uma profunda restruturação do seu Governo no dia 15 de Julho, após a demissão do ministro dos Negócios Estrangeiros, William Hague. Hague foi substituído pelo ministro da Defesa, Philip Hammond, “um ministro que declarou que votaria na saída do Reino Unido da União Europeia caso não fossem implementadas reformas”, escreveu o Financial Times, e cuja missão será “preparar uma renegociação da adesão do Reino Unido à UE”. Entre outros, o secretário da Educação, Michael Gove, foi substituído pelo antigo ministro das Finanças, Nicky Morgan. Cameron também nomeou Jonathan Hill, o líder conservador da Câmara dos Lordes, como o próximo comissário europeu do Reino Unido.

Segundo o diário britânico, embora Cameron tenha dado ao seu Governo um “toque eurocético”,

os seus colaboradores insistem no facto de que Hammond vai abordar a renegociação com a UE com um espírito positivo e de que está determinado a realizar reformas que irão convencer o país a votar “sim” no referendo previsto para 2017.

www.voxeurop.eu | 17-07-2014
A principal saída é a do ministro da Educação, Michael Gove, muito contestado no país, em especial pelo professores. Ministério dos Negócios Estrangeiros recebe um líder que vai reforçar o cepticismo em relação à União Europeia.
www.publico.pt | 15-07-2014

RIO - Uma pesquisa da Universidade de Newcastle publicada no "British Journal of Nutrition" concluiu que os alimentos orgânicos têm um nível de antioxidantes “substancialmente maior” e apresentam menores níveis de metais tóxicos e de pesticidas que os cultivados em métodos convencionais, usando fertilizantes químicos.

Elaborado a partir de 343 análises e trabalhos prévios, o estudo rebate parcialmente uma investigação da Universidade de Stanford realizada há dois anos, que chegou à conclusão de que os produtos orgânicos não eram necessariamente mais nutritivos ou benéficos para a saúde.

Para a equipe internacional da Universidade de Newcastle, no entanto, há “diferenças estatisticamente significativas” a favor dos produtos orgânicos, que contêm de 19% a 69% a mais de antioxidantes que as verduras e frutas convencionais. A presença de antioxidantes em verduras como brócolis e couve, ou em frutas como as uvas, contribuem notavelmente para a prevenção de doenças degenerativas e cardiovasculares.

O resultado do estudo apontou que trocar verduras convencionais por outras cultivadas com métodos ecológicos equivaleria a adicionar uma ou duas porções em cinco recomendadas por dia pelos nutricionistas para se ter uma dieta saudável.

Vários cientistas têm questionado as conclusões da pesquisa por ela ter sido financiada pela ONG Sheepdorve Trust (voltada à apoiar iniciativas que aumentem a sustentabilidade, a biodiversidade e a agricultura orgânica) e pela União Europeia, além de ter sido dirigida pelo professor de Agricultura Ecológica, Carlo Leifert.

Após a crise econômica e as consequências dos estudos de opinião pública sobre a agricultura biológica, os resultados da pesquisa são positivos para o consumo de produtos orgânicos no Reino Unido.

De acordo com Helen Browning, diretora executiva da Soil Association, referência mundial em agricultura orgânica, estamos diante “uma investigação crucial que rebato o mito de que os métodos de cultivos não afetam a qualidade dos alimentos que comemos”.

A Soil Association levantou ainda que 55% dos consumidores britânicos compram orgânico por razões de saúde, frente a 53% que querem evitar produtos químicos, 44% que expressam sua preocupação pelo meio ambiente, 35% que afirmam que "sabem melhor" e 31% que o fazem pensando no "bom trato aos animais".

oglobo.globo.com | 14-07-2014

RIO - Um polêmico pesticida que se tornou um dos mais utilizados no mundo foi, pela primeira vez, associado diretamente à redução do número de aves em áreas agrícolas. Cientistas mostraram que a população de 15 espécies que se alimentam de insetos, como andorinhas e estorninhos, têm diminuído significativamente na Holanda, ao longo dos últimos 20 anos, com o aumento do uso de pesticidas neonicotinoides, ou neônicos, que começaram a ser utilizados nos anos 1990.

Segundo os pesquisadores, os resultados sugerem que os neonicotinoides, que também são associados à diminuição do número de abelhas e outros insetos polinizadores, pode ter impactos ainda mais negativos sobre o meio ambiente, em relação ao que já se acreditava.

O estudo é o primeiro a encontrar uma correlação direta entre o produto, fabricado pela empresa alemã Bayer Cropscience, e o declínio de aves. A expectativa é que os resultados aumentem a pressão sobre o governo do Reino Unido para mudar sua postura tolerante em relação a neonicotinoides, considerados, até então, seguros para o meio ambiente.

Ecologista da Universidade de Radboud, na Holanda, Caspar Hallmann disse que havia uma ligação forte e estatisticamente significativa entre os níveis de concentrações de uma substância química chamada imidacloprida, encontrada em águas de superfície, e o registro de diminuição de diversas espécies de aves, como a toutinegra, cotovias e tordos, compilado anualmente por ornitólogos.

- Em locais onde a concentração de imidacloprida na água passa de 20 nanogramas por litro, as populações de aves tendem a diminuir em 3,5%, em média, a cada ano. Isto significa que, dentro de dez anos, 30% da população dessas aves estaria em declínio - disse ele. - Esta não é, definitivamente, a prova de que o produto causa as mortes. No entanto, há uma linha de evidência sendo construída para explicar o que está acontecendo. Sabemos que o número de insetos também caiu nestas áreas e que os mesmos são um alimento importante para estas aves.

No mês passado, um grupo de pesquisadores analisou centenas de estudos publicados sobre neonicotinoides e descobriu que estavam ligados ao declínio de uma grande variedade de vida selvagem - de abelhas a minhocas e borboletas - que não são as pragas-alvo dos inseticidas.

O estudo mais recente, publicado na revista Nature, procurou analisar as variações das populações de uma grande variedade de espécies de aves em diferentes zonas da Holanda, antes e depois da introdução do imidacloprida em 1995.

- Também levamos em consideração outros fatores que possam estar relacionados ao declínio destas aves. Mas nossa análise mostra que o imidacloprida foi de longe o melhor fator explicativo para as diferentes tendências registradas nas áreas - disse o professor Hans de Kroon of Sovon, do Centro Holandês para Campo Ornitologia, que supervisionou a pesquisa.

- Os neonicotinóides sempre foram considerados toxinas seletivas. Mas nossos resultados sugerem que eles podem afetar todo o ecossistema. Este estudo mostra o quão importante é ter bons dados de campo, e analisá-los com rigor - disse o professor de Kroon.

Os pesquisadores não conseguiram encontrar um declínio comparável em aves antes da introdução do imidacloprida e não foram capazes de vincular os declínios em aves a mudanças nos métodos de cultivo ou uso da terra. Eles acreditam que a explicação mais provável é que os neonicotinóides estão causando escassez de alimentos para as aves que comem insetos, especialmente quando estão alimentando seus filhotes.

A União Europeia introduziu uma moratória de dois anos sobre determinados usos de neonicotinóides. No entanto, estes pesticidas são amplamente utilizados no tratamento de sementes para cultivos aráveis. Eles são criados para serem absorvidos pela muda em crescimento e são tóxicos para o sistema nervoso central de pestes que prejudicam o plantio.

Ao comentar o assunto, representantes da Bayer disseram que a pesquisa não apresenta argumentos aceitáveis.

oglobo.globo.com | 10-07-2014

SÃO PAULO - Para tentar reconquistar a confiança do empresariado nacional e internacional no governo Dilma Rousseff, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva recorreu nesta semana a uma enxurrada de números e indicadores para sustentar a continuidade das conquistas sociais e econômicas de seu governo na gestão de sua sucessora.

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Uma análise feita pelo GLOBO do discurso que ele fez num evento da Câmara de Comércio França-Brasil mostra, no entanto, que o ex-presidente cometeu vários deslizes em sua fala. Indicadores como investimento externo direto, dívida bruta e corrente de comércio, citados por Lula como “êxitos dos últimos 12 anos”, na verdade pioraram durante o governo Dilma.

O ex-presidente se enganou ainda ao citar dados sobre reajuste salarial, informações sobre exportação de alimentos e também a posição do PIB do Brasil no mundo, em especial na comparação com outras nações emergentes.

A assessoria do Instituto Lula informou que o ex-presidente não adota a paridade monetária para falar sobre o PIB, apesar de esta ser considerada pelo Banco Mundial a medida mais adequada para comparar economias. O instituto admitiu que Lula se equivocou sobre dados relativos à exportação de alimentos e diz haver diferentes dados sobre os índices de reajuste salarial do Dieese.

É ISSO MESMO

- "Em 2013, o Brasil se tornou o segundo maior investidor externo na União Europeia"- Os dados consideram principalmente o investimento de empresas brasileiras em Portugal e Espanha.

Investidores externos da UE (em euros):

EUA - 313 bilhões / Brasil - 21 bilhões/ Suíça - 18 bilhões

- "O salário mínimo, em 12 anos, aumentou 72%" - Segundo o Dieese, este é o índice de ganho, descontada a inflação.

Evolução do salário:

2002: R$ 200/ 2006: R$ 350/ 2010: R$ 510/ 2014: R$ 724

- "Saímos de 70 milhões de brasileiros com contas bancárias para 120 milhões" - Contas poupança, segundo a Febraban:

2010: 97 milhões/ 2011: 98 milhões/ 2012: 112 milhões/ 2013: 125 milhões

- "Com o ProUni, colocamos 1,5 milhões de jovens de periferia para fazer universidade" - De acordo com o MEC, 31,1% dos estudantes de ensino superior estão no ProUni.

- "Há 12 anos, tínhamos 37 milhões de passageiros em aeroportos. Ano passado, foram 113 milhões" - Lula acertou, mas com pequena diferença.

Passageiros transportados no Brasil, segundo Abear:

2002: 36 milhões/ 2006: 49 milhões/ 2010: 79 milhões /2013: 111 milhões

- "Aumentou produção de automóvel de 1,8 milhão para 3,7 milhões" -Produção brasileira de veículos, segundo a Anfavea:

2002: 1,6 milhão/ 2006: 2,4 milhões/ 2010: 3,3 milhões/ 2013: 3,7 milhões

NÃO É BEM ASSIM

- "A ONU adota o bolsa família como o mais importante programa de transferência de renda do mundo" - Embora o programa seja citado como exemplo para a erradicação da pobreza, a ONU também cita o programa Oportunidades, do México, como iniciativa no mesmo patamar.

- "94% dos acordos salariais em 12 anos foram feitos com aumentos salariais reais, acima da inflação" - Segundo o Dieese, apenas em 2012 o índice citado foi alcançado; nos outros anos, não.

Balanço de reajustes acima da inflação (%):

2009- 79,9/ 2010- 88,8/ 2011- 87,5/2012- 95,1/ 2013- 86,9

- "O BNDES é o único banco brasileiro com inadimplência zero, é o único que só empresta para quem pode pagar" - A "inadimplência zero” é obtida graças à rolagem constante das dívidas, peculiares de um banco público de fomento. Foi assim em relação às dívidas das empresas de Eike Batista, por exemplo.

- "Entre 2008 e 2013 o país produziu superavit primário médio de 2,58%" -Para alcançar a média, o governo usou artifícios, como o uso de ações da Petrobras compradas pelo BNDES em 2012 e a contabilização do parcelamento de dívidas de empresas, realizado contra a vontade da Receita Federal.

- "O Brasil tem hoje o sétimo PIB da economia mundial, o segundo maior entre os grandes países emergentes, depois da China" - Segundo o Banco Mundial, o Brasil está em quarto colocado entre os emergentes. O cálculo por paridade de poder de compra é a melhor maneira de comparar o tamanho de diferentes economias.

Maiores economias:

1- EUA/ 2- China/ 3- Índia/ 4- Japão/ 5- Alemanha/ 6- Rússia/ 7 Brasil

- "O Brasil é o segundo maior exportador de alimentos" - Na verdade, é o quarto.

Exportação de alimentos no mundo, segundo a OMC (em dólares):

EUA: 138 bilhões/ Holanda: 84,3 bilhões/ Alemanha: 78,4 bilhões Brasil: 77,2 bilhões

- "Estamos ampliando o investimento público em educação há 12 anos" - Nos três primeiros anos do governo Lula, o investimento em relação ao PIB foi menor que no último ano de FH. Subiu apenas a partir de 2006.

Investimento em educação (% do PIB):

2002: 4,8%/ 2003: 4,6%/ 2004: 4,5%/ 2005: 4,5%/ 2006: 5%/ 2012: 6,4%

NOS ANOS DILMA, FOI PIOR

- "O PIB per capita passou de 2,8 mil dólares para 11,1 mil dólares" - No primeiro ano de Dilma, o PIB cresceu até 12,5 mil dólares, mas caiu e não voltou ao mesmo patamar, segundo o Banco Mundial.

PIB per capita (em dólares):

2010- 10,9 mil/ 2011- 12,5 mil/ 2012- 11,3 mil/ 2013- 11,7 mil

- "Há 10 anos consecutivos a inflação se mantém dentro das metas estabelecidas pelo governo" - Para o mercado, ao comemorar índices que ficaram distantes do centro da meta, o governo passa a mensagem que a meta real não corresponde ao centro, como aponta o discurso oficial. Para manter dentro da margem, o governo segura preços, como da energia elétrica, gasolina e diesel.

- "A reserva de 380 bilhões (de dólares) corresponde a 18 meses de importações" - Para não perder reservas, o governo atua no mercado futuro de câmbio. Até o fim do ano, deverá manter uma posição vendida de cerca de 100 bilhões, o que equivale a quase um quarto das reservas.

- "Saímos de fluxo de balança comercial de 107 bilhões de dólares em 2007 para fluxo de 482 bilhões em 2013. Não é pouca coisa" - O crescimento dos anos Lula não se repetiu e o fluxo ficou estagnado.

Corrente de comércio, segundo o MDIC (em bilhões US$):

2010: 383,7/ 2011: 482,3/2012: 465,7/2013: 481,8

- "Há três anos o Brasil está entre os cinco maiores destinos de investimento externo direto do mundo. Em 2013 foram 64 bilhões, um bilhão a menos que em 2012" - Segundo a ONU, o Brasil caiu da quinta para a sétima posição no ranking de investimento direito em 2013, quando recebeu 4% a menos de investimento. No fluxo mundial o aumento foi de 11%. Entre os emergentes, de 6%.

- "A dívida pública bruta está estabilizada em torno de 57% do PIB" - A dívida pública cresceu no governo Dilma.

Dívida pública bruta, segundo o BC:

dez/2010: 53,3%/ dez/2011: 54,1%/ dez/2012: 58,8%/ abr/2014: 57,7%

oglobo.globo.com | 28-06-2014

LONDRES - Foi na madrugada de 11 de junho de 1903, em Belgrado, que teria começado a contagem regressiva para o conflito que arrastou 65 milhões de soldados aos campos de batalha, derrubou três impérios, matou 20 milhões e feriu outros 21 milhões de pessoas. Rebeldes invadiram o palácio real, cortaram a eletricidade em uma explosão e, depois de uma longa perseguição à luz de velas pelos corredores e cômodos do castelo, finalmente encontraram e mataram o rei Alexandre I e a mulher, escondidos em um vestíbulo. É com este episódio que o professor de História da Universidade de Cambridge Christopher Clark dá início à narrativa eletrizante e minuciosa (a camisa de seda vermelha que o rei vestiu às pressas para não ser descoberto sem roupas é um dos detalhes) de “Os sonâmbulos — Como eclodiu a Primeira Guerra Mundial”, que se tornou um best-seller na Europa no ano passado e está sendo lançado no Brasil pela Companhia das Letras.

A semente da Primeira Guerra mundial — o confronto que, segundo Clark, está por trás de todos os horrores do século XX — havia sido plantada em 1903 pela rede terrorista Mão Negra, até então secreta. O mesmo grupo foi o responsável, anos depois, pelo assassinato do Arquiduque Francisco Ferdinando em Sarajevo, em 28 de junho de 1914, episódio considerado o estopim da guerra. O que aconteceu entre a morte do arquiduque e o primeiro disparo nas trincheiras, porém, não foi como muitos aprenderam nas escolas, de acordo com Clark. Diferentemente do que a literatura destes últimos 100 anos ensina, ele afirma que a Alemanha não foi a única responsável pela escalada da tensão. Outros tiveram a sua parcela de culpa: Império Austro-Húngaro, França, Rússia, Grã-Bretanha e Itália, que, embora de fato não quisessem uma guerra, deixaram-se levar para o conflito como sonâmbulos.

— Todos contribuíram. Não adianta apenas apontar o dedo para os alemães. Os “mocinhos” também tiveram a sua parcela de responsabilidade nos conflitos — diz o historiador ao GLOBO.

Soldados franceses caminham por rua bombardeada na cidade de Verdun, leste da França, em 1917 - AFP/ Frantz Adam/ 1-10-1917

A reação à análise de Christopher Clark deixou-o em uma posição desconfortável. Foi acusado por especialistas de eximir a Alemanha da culpa pela Primeira Guerra e aclamado por alguns grupos — sobretudo alemães — justamente por tê-lo feito. Antes mesmo de ser perguntado sobre o assunto, Clark garante que as críticas não o incomodam e são saudáveis para o debate:

— Não estou tirando a responsabilidade da Alemanha sobre o que aconteceu. Até porque os alemães têm uma substancial parcela de culpa — diz Clark, ressaltando que as origens da guerra devem ser estudadas à luz do cenário europeu de então, considerando-se os vários filtros da época. — Depois da guerra com armas nos campos de batalha, veio a guerra dos documentos — diz.

Não bastasse a quantidade maciça de informações sobre a guerra, com mais de 25 mil volumes e artigos, a maioria dos documentos oficiais produzidos pelas nações à época trazia diferentes visões dos fatos. Os 57 volumes do “Die Grosse Politik”, por exemplo, com os 15.889 documentos divididos por 300 assuntos, encarregou-se de tirar dos ombros alemães o ônus da culpa refletida no Tratado de Versalhes.

RISCO DE MANIPULAÇÃO E DESTRUIÇÃO DE DOCUMENTOS

Outros países também deram destaque ao que queriam que ficasse para a posteridade. É como se qualquer ponto de vista pudesse ser comprovado “a partir de uma seleção de documentos”, diz. Na Rússia, boa parte dos registros se perderam durante a guerra civil que levou os bolcheviques ao poder. E a União Soviética nunca teria compilado documentos de maneira sistemática para rivalizar com as edições inglesas, francesas, alemães ou austríacas.

— Não estou menosprezando esses documentos. Eles são importantíssimos. Não são manipulados, mas têm omissões — afirma Clark. — O problema de 1914 não é que sabemos pouco, pelo contrário, sabemos demais. Há uma oferta oceânica de informações. Mas existe o risco de destruição das fontes, o que significa que algumas informações podem não chegar a público

Historiador britânico Christopher Clark, autor de "Sonâmbulos" - Nina Lübbren/Divulgação

Tendo como pano de fundo uma Europa em crise, onde não havia transparência nem confiança, os líderes da época tomaram as suas decisões com base nas informações de que dispunham, em estereótipos dos inimigos e nas interpretações que eram capazes de fazer dos fatos. Para Clark, contribuíram para este cenário cinzento o medo que as elites no poder tinham da ascensão do proletariado e dos partidos socialistas, e uma espécie de “crise de masculinidade”, a partir da qual os homens que estavam no comando da situação tentavam se afirmar.

— É claro que não queriam a guerra, mas correram o risco. Eram muitos atores, dos Bálcãs até Romênia, Bulgária e Itália. Todos eram independentes e tomavam decisões autônomas. Por isso, considero este o evento mais complexo do século XX.

Em uma crítica elogiosa ao livro, a revista “Foreign Affairs” afirma que a interpretação de Clark “não apenas captura as tendências na historiografia moderna da Primeira Guerra, mas também destaca as semelhanças (e algumas diferenças) no processo de decisão dos conflitos contemporâneos”.

Enquanto escrevia a conclusão do livro, em plena crise financeira na zona do euro, Clark destacou que os homens de 1914 são “nossos contemporâneos”. Segundo ele, as diferenças são tão relevantes quanto as semelhanças. “Pelo menos os ministros encarregados de lidar com a crise na zona do euro concordaram em linhas gerais sobre o que era o problema — em 1914, por outro lado, um abismo de perspectivas éticas e políticas minou o consenso e acabou com a confiança”, afirma. E termina: “Mas se a crise financeira global recente teve como pano de fundo a difusão de poderes e responsabilidades sob um único sistema político-financeiro, a complexidade de 1914 está justamente no fato de terem sido interações rápidas entre centros de poder autônomos fortemente armados confrontando diferentes tipos de ameaças em condições de alto risco e pouca confiança e transparência”.

'O MUNDO DE HOJE NÃO É TRANSPARENTE', DIZ CLARK

Clark observa que a crise na Ucrânia foi mais um episódio que fez lembrar o momento histórico de 1914. Já não se trata da disputa de poder entre dois blocos, como acontecia durante a Guerra Fria. Há outras potências em questão, e a China é uma delas, além da Turquia e o Irã:

— O mundo de hoje não é transparente e os níveis de confiança são baixos — diz ele, fazendo uma comparação com a Primeira Guerra. — Naquela época, duas potências centrais enfrentavam um trio de impérios mundiais nas periferias leste e oeste da Europa. Hoje, uma coalizão ampla de estados da Europa Ocidental e Central se uniu contra as intervenções da Rússia na Ucrânia. Mas o incansável e ambicioso reino do Kaiser de 1914 pouco se parece com a União Europeia, uma ordem internacional em que a paz é garantida por diferentes atores estatais, uma espécie de balanço de poder, que não consegue projetar poder nem formular política externa.

Recentemente,Clark voltou a ser acusado de deixar de lado os “mocinhos” e tomar partido dos “bandidos” ao afirmar que a crise na Ucrânia, que começou com protestos nas ruas no final do ano passado e culminou na derrubada do poder local e a anexação da Crimeia pela Rússia em fevereiro, não foi provocada apenas pelo presidente russo, Vladimir Putin. Os países do Ocidente, segundo ele, também têm a sua parcela de culpa ao interferir nos problemas domésticos de Kiev e apoiar a derrubada do presidente democraticamente eleito.

Perguntado sobre que lições o mundo poderia tirar do conflito de 100 anos atrás, ele é taxativo:

— Não é lição. 1914 é um oráculo, um alerta importante sobre como os custos podem ser terríveis quando a política falha, o diálogo acaba e o compromisso se torna impossível.

oglobo.globo.com | 14-06-2014

ABUJA — As manifestações de apoio às cerca de 200 estudantes sequestradas pelo grupo radical islâmico armado Boko Haram foram proibidas na capital federal nigeriana Abuja, anunciou nesta segunda-feira a polícia, que alega risco de atentados.

O anúncio da polícia surpreendeu as pessoas que protestam com o lema "Bring Back our Girls" (Tragam nossas meninas de volta) em Abuja e em outras cidades do país desde o sequestro, no dia 14 de abril em Chibok (nordeste). Essa decisão foi tomada "por motivos de segurança", disse o porta-voz da polícia para o território da capital federal, Altine Daniel, que não deu maiores detalhes.

As organizadoras dos protestos contestaram a legitimidade da medida, questionando uma eventual motivação política. Mas o chefe da polícia local, Joseph Mbu, afirmou que a proibição foi motivada pela ameaça de infiltração de "elementos perigosos" que podiam cometer atentados.

No Twitter, uma das responsáveis pelas manifestações, Oby Ezekwesili, afirmou que não há base alguma para "proibir manifestações pacíficas" em Abuja."Esta decisão é louca", reagiu o advogado das organizadoras, Femi Falana, afirmando que a decisão deve ser contestada na justiça "o mais rápido possível". Uma nova manifestação deve ser realizada terça na capital federal, segundo uma porta-voz.

O destino das jovens sequestradas em sua escola no estado de Borno, epicentro da insurreição islamita, suscitou uma imensa mobilização internacional, principalmente nas redes sociais com a hashtag #bringbackourgirls. O anúncio da proibição foi feito no dia seguinte a um atentado no nordeste, que ainda não foi reivindicado. As autoridades acusam o Boko Haram.

Uma bomba explodiu domingo em um campo de futebol na cidade de Mubi, estado de Adamawa, um dos três em estado de emergência há mais de um ano, desde o início da ofensiva das forças de segurança para combater os islamitas armados.Fontes de segurança e dos serviços de saúde indicaram pelo menos 40 mortos no atentado, ocorrido por volta das 18h30 (14h30 de Brasília).Após uma decisão tomada há duas semanas pela ONU, a União Europeia incluiu o Boko Haram em sua lista de organizações terroristas.

oglobo.globo.com | 03-06-2014

TEL AVIV — Eles sequer foram empossados e já se depararam com o primeiro obstáculo. Três futuros ministros palestinos foram impedidos por Israel de deixar a Faixa de Gaza e viajar para Ramallah, na Cisjordânia — onde o novo governo da Autoridade Nacional Palestina (ANP) será empossado nesta segunda-feira. O trio deverá fazer por videoconferência o juramento de lealdade ao governo de união nacional que reunirá lado a lado, pela primeira vez, o partido secular Fatah e o religioso Hamas após uma cisão violenta que se estendeu por sete anos. E a decisão israelense de não autorizar o deslocamento dos novos ministros apenas reforçou a reprovação do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu à reconciliação palestina. No domingo, o premier pediu que líderes mundiais não reconheçam o gabinete de 17 ministros costurado pelo presidente da ANP, Mahmoud Abbas. Para Netanyahu, a união entre o Fatah e o Hamas significa o fortalecimento do terrorismo.

— Apelo a todos os responsáveis da comunidade internacional para que não se apressem a reconhecer o governo palestino do qual o Hamas é parte. É uma organização terrorista que prega a destruição de Israel, e a comunidade internacional não deve aceitá-la — disse, na reunião semanal de gabinete.

Abbas alega que a administração temporária, até a realização de eleições gerais, em seis meses, contará apenas com ministros tecnocratas liderados pelo atual premier, Rami Hamdallah, e que continuará honrando os acordos com Israel e rejeitando a violência. Mas Israel já planeja anunciar retaliações à ANP tão logo o governo Hamas-Fatah seja empossado. No passado, o governo reagiu com pressão financeira, ao suspender o repasse dos US$ 100 milhões que arrecada mensalmente em impostos e taxas em nome da ANP. Desta vez, porém, fontes do governo acreditam que Netanyahu possa esperar alguns dias até perceber a reação internacional.

EUA E EUROPA DÃO CHANCE A ABBAS

Preocupado, o secretário de Estado americano, John Kerry, telefonou no domingo para o presidente da ANP e recebeu a garantia de que os palestinos continuarão a renunciar à violência. Segundo o jornal jordaniano “al-Arab al-Yawn”, Kerry e Abbas se encontrarão em Amã na quarta-feira. Se o gesto não significa um apoio formal dos Estados Unidos, dá a entender que os americanos pretendem dar uma chance à nova administração palestina — assim como a União Europeia.

— Se Netanyahu cumprir com as ameaças veladas, os palestinos realmente enfrentarão muitas dificuldades. Mas acho difícil que Israel consiga influenciar na formação do novo governo, tanto entre os próprios palestinos quanto internacionalmente — acredita o professor Uri Rosset, especialista em Hamas da Faculdade Sapir, no Sul de Israel.

Para especialistas, no entanto, Netanyahu não tem realmente a intenção de evitar a união Hamas-Fatah. Essa seria apenas o pretexto para alcançar seu objetivo — distanciar-se das moribundas negociações de paz mediadas pelos EUA, permitindo que mantenha a seu lado seus aliados da extrema-direita, contrários à criação da Palestina.

— O interesse político dele é muito claro: sobreviver como primeiro-ministro e manter a atual coalizão de governo. Ele não acredita em nenhum avanço com os palestinos — opina Yoram Meital, da Universidade Ben Gurion, em Beer Sheva.

A disputa entre Hamas e Fatah dividiu os palestinos em dois campos desde 2007, quando o Hamas tomou o controle da Faixa de Gaza, expulsando do território costeiro representantes do grupo rival. Desde então, Gaza e Cisjordânia se tornaram duas regiões virtualmente autônomas — mais um obstáculo à demanda palestina de criar um Estado nacional com base na Cisjordânia, na Faixa de Gaza e na disputada Jerusalém Oriental.

Apesar da determinação, os dois partidos ainda divergem quanto a pastas-chave, como os ministérios do Exterior e de Prisioneiros. A reconciliação, porém, parece a única alternativa viável ao futuro.

— O Hamas está fazendo tudo isso por estar num momento delicado. Perdeu o apoio do Egito, onde a situação dele é pior do que na era Mubarak, da Síria e do Irã. Está claro que o Hamas falhou enquanto governo em Gaza e que a população da região nunca viveu tão mal — diz o professor Uri Rosset.

No caso do Fatah, o fracasso das negociações de paz com Israel, em abril, fez com que Abbas apostasse na paz interna entre os palestinos e tirasse da gaveta seu “Plano B”: voltar ao plenário da ONU em busca do reconhecimento da Palestina também pelo Conselho de Segurança. Em 2011, Abbas conseguiu a elevação de status da Palestina como “Estado não membro” apenas pela Assembleia Geral. Agora, quer um reconhecimento mais “sério”.

oglobo.globo.com | 02-06-2014

ROMA — A Europa registrou nos últimos meses um aumento significativo do número de imigrantes, de acordo com dados da Agência de Fronteiras da União Europeia — Frontex. Ao menos 60 mil tentaram entrar no continente europeu de janeiro a abril, incluindo rotas menos usadas, informou a BBC. Pelo menos um terço das últimas chegadas são de sírios, que fogem da guerra civil no país. Outro número significante é de imigrantes provenientes do Afeganistão e da Eritreia. A agência alerta que o fluxo pode subir ainda mais com a chegada do verão e mares mais calmos.

O número registrado no primeiros quatro meses de 2014 é próximo ao total de 2013 e superior ao mesmo período de 2011, ano da Primavera Árabe, quando chegaram 140 mil imigrantes ilegais na Europa.

“Olhando para frente, tudo aponta para uma probabilidade elevada de um grande número de travessias ilegais para a União Europeia e o aumento do número de imigrantes que necessitam de assistência de operações de busca e salvamento e também em termos de prestação de proteção internacional”, diz o relatório da Frontex.

A agência informou ainda que o número de pessoas que tentou a perigosa travessia marítima do Norte da África para a Itália subiu consideravelmente. De janeiro para abril, 42 mil pessoas fizeram a rota, sendo que 25.650 partiram da Líbia.

— A principal via através da Líbia foi fechada por tanto tempo que as pessoas em países da África Subsariana ficaram à espera por muitos anos — explicou à BBC Franck Duvell, professor associado do Centro para a Imigração, Política e Sociedade da Universidade de Oxford. — Assim, os números têm subido. As pessoas estavam à espera da primeira oportunidade de se mover.

Em 2013, o número de pessoas que tentaram entrar nos 28 países da União Europeia ilegalmente subiu para 107 mil contra 75 mil em 2012, segundo o relatório.

Além da rota do Mediterrâneo Central, onde os imigrantes arriscam suas vidas em embarcações superlotadas para chegar à Itália e Malta, também houve um forte aumento do outro lado da fronteira entre a Hungria, que é membro da UE, e a Sérvia , o que não pertence ao grupo.

Em Calais, onde as autoridades francesas desmantelaram nesta semana dois principais acampamentos, foram identificados imigrantes de uma série de países, da África Ocidental a Bangladesh, com grandes grupos do Irã e de áreas tribais do Paquistão.

oglobo.globo.com | 30-05-2014
Com sua tradicional gravata borboleta,  o polonês Janusz Korwin-Mikke, 72, novo membro do Parlamento Europeu, defendeu todo seu conservadorismo e um discurso anti-União Europeia. Disse, por exemplo, ser contra o voto feminino e propagou a educação à base de chicotes. Na quinta (29), fui ... Leia post completo no blog Leia mais (05/30/2014 - 05h13)
redir.folha.com.br | 30-05-2014

RIO — A crise econômica insiste em abalar os mercados, dar fôlego a partidos ultranacionalistas e fazer crescer o bloco dos chamados "eurocéticos" — os descrentes na União Europeia. Nesse cenário conturbado, o atentado contra o Museu Judaico de Bruxelas, no último fim de semana, fez com que as comunidades judaicas da Europa se vissem, mais uma vez, diante da ameaça do antissemitismo. Equilibrando-se entre um medo concreto e as sombrias lembranças da primeira metade do século XX,

metade dos judeus europeus garante estar mais insegura, segundo a pesquisa anual do Centro Kantor para Estudos do Judaísmo Europeu, da Universidade de Tel Aviv. Ainda assim, há uma contradição: o número de ataques antissemitas violentos no mundo caiu 19% no ano passado: foram 554, contra os 686 registrados em 2012. Mas os episódios se mantêm em curva ascendente nos últimos dez anos e têm sido cada vez mais violentos.

— O ano de 2013 foi especialmente difícil. Apesar da queda do número de ataques registrados, vimos a expansão de ações antissemitas a países onde não antes isso não era percebido, como Dinamarca, Suécia e Bélgica. A violência desses ataques também aumentou, de agressões físicas nas ruas, às vezes com o uso de armas de fogo, a insultos verbais. Há registros de trotes telefônicos, cartas anônimas e atéassédio em locais de trabalho, trata-se de uma violência quase diária — afirmou a historiadora Dina Porat, diretora do Centro Kantor.

A violência contra o indivíduo chamou a atenção dos pesquisadores. Se há alguns anos atos de vandalismo como pichações a cemitérios, escolas e sinagogas eram as formas mais comuns de antissemitismo, dos 554 incidentes registrados em 2013, 185 foram direcionados diretamente a pessoas. Na França, por exemplo, pouco depois do atentado belga, dois jovens judeus foram agredidos na rua por desconhecidos no sábado passado, perto de uma sinagoga em Créteil, que fica a 70 quilômetros de Paris. Pesquisas locais indicam que três em cada quatro judeus franceses desejam emigrar. E números coletados por órgãos como a Agência de Direitos Fundamentais da União Europeia (FRA, na sigla em inglês) mostram que 55% dos judeus europeus não se sentem seguros. Ao menos 25% evitam usar artefatos que os identifiquem como judeus nas ruas.

Para a psiquiatra Mônica Waitzfelder, que é judia e mora em Paris desde 1985, judeus que usam símbolos religiosos podem sofrer mais com possíveis ataques, sejam verbais ou violentos:

— Eu não me sinto insegura, mas também não fica claro para todo mundo que me vê que sou judia, pois não sou religiosa. Ainda assim, houve o caso do Ilan Halimi, em 2006, que foi sequestrado e morto por antissemitas em Paris, mas não usava símbolos religiosos também. O antissemitismo nunca deixou de existir na França, e na Europa como um todo. Prova disso é a Hungria. Mas não podemos deixar de lembrar que, na França, o presidente François Hollande sempre foi extremamente claro em sua posição de defesa aos judeus. Acredito que o antissemitismo hoje, aqui e em qualquer parte do mundo, se confunde muito também com a questão israelense-palestina. Coisas que as pessoas teriam medo de dizer contra os judeus apenas dez anos depois da Segunda Guerra, quando o antissemitismo era extremamente vergonhoso, hoje são faladas em meio a críticas que são feitas contra Israel. Daí a complexidade dessa questão.

A França continua sendo o país com o maior registro de atos antissemitas: foram 116 no ano passado. Na Polônia, um estudo da Universidade de Varsóvia, concluído em janeiro passado, indicou que 63% dos poloneses acreditam haver uma "conspiração judaica para controlar o sistema bancário internacional e a mídia"; 90% disseram nunca ter visto um judeu.

As ondas de antissemitismo na Europa vão e vêm. E costumam, frequentemente, estar atreladas às crises políticas de Israel. Para os especialistas, uma falsa crença de que os judeus europeus são mais fiéis ao Estado israelense que ao seu próprio incentiva ações antissemitas que, na verdade, são antissionistas. Ou anti-israelenses.

Basta um período de crise no conflito israelense-palestino para que extremistas transformem em antissemitismo suas condenações pela política de ocupação israelense dos territórios palestinos. O ano de 2009 registrou o maior número de atos antissemitas desde a Segunda Guerra Mundial, a maioria no primeiro semestre — nos meses que se seguiram à Operação Chumbo Fundido, entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009, quando uma ofensiva israelense contra o grupo islâmico Hamas matou mais de 1.200 palestinos na Faixa de Gaza.

O antissemitismo atual, porém, seria diferente desse que está atrelado ao conflito em Israel. Segundo o presidente do Congresso Judaico Europeu, Moshe Kantor, trata-se de antissemitismo clássico, fruto de uma mistura de insatisfação com a crise econômica iniciada em 2008, da xenofobia e do fortalecimento de partidos ultranacionalistas, através das urnas, ao cenário político. E alerta para brechas sociais que permitem o comportamento agressivo.

— Isso ocorre num clima geral de deslegitimação dos judeus e do Estado de Israel, onde o discurso racista fica mais normalizado e os extremistas violentos acham que têm carta branca para agir. Vejo o nascimento de um "antissemitismo democrático", como aconteceu durante o período nazista. Por exemplo, somente dez anos depois do fenômeno Dieudonné M'bala M'bala, o governo francês decidiu ir à Justiça e bani-lo completamente. O antissemitismo passa por uma politização, e isso é muito perigoso — disse Kantor, lembrando o caso do humorista franco-camaronês banido dos palcos por suas "piadas" antissemitas e seu apego ao "quenelle", um gesto que remete à saudação nazista usada por Adolf Hitler.

O atual cenário político é uma fonte primária de angústia para as comunidades judaicas locais. As recentes eleições para o Parlamento Europeu deram impulso ao euroceticismo e ao nacionalismo exacerbado de partidos como a Frente Nacional, de Marine Le Pen, na França, e o Partido da Independência do Reino Unido (Ukip), de Nigel Farage, no Reino Unido — todos interessados em formar alianças com os novos eurodeputados ultradireitistas nórdicos do Partido do Povo (o mais votado na Dinamarca), dos Democratas Suecos e Verdadeiros Finlandeses. Nesse novo Legislativo, talvez uma das presenças mais incômodas seja a do partido húngaro Jobbik, que elegeu três eurodeputados com 14,7% dos votos e já é a terceira maior força política da Hungria.

A legenda é motivo de polêmica: seria inspirada no nazismo e alguns de seus integrantes já professaram abertamente seu ódio a ciganos e judeus. No fim de 2012, um de seus deputados, Marton Gyongyosi, sugeriu listar e investigar os deputados judeus do Parlamento para determinar se eram "uma ameaça à segurança nacional". Protestos forçaram-no a pedir desculpas. Mas, para muitos húngaros, a atitude pode ter sido interpretada como um exemplo de que aceitar pensamentos antissemitas publicamente é algo aceitável.

— No quesito segurança, a vida é normal. Nunca penso duas vezes antes de sair à rua à noite, ir ou vir, o que é ótimo — contou recentemente à revista "Forward" o rabino Baruch Oberlander, um filho de húngaros sobreviventes do Holocausto. -- Por outro lado, a retórica antissemita é um problema. O Jobbik nunca perde a chance de fazer uma provocação ou criar manchetes nos jornais.

Dar a dimensão exata à ameaça antissemita, com segurança e sem alarmismo, é o desafio da comunidades judaicas europeias.

— Nosso papel é garantir que não vamos nos dobrar ao terror. Não devemos dar uma vitória aos racistas ao esconder nossa identidade. Devemos garantir a proteção de nossas comunidades, dedicando os recursos necessários à segurança e à coleta de informações, respeitando e aplicando as leis adequadas contra crimes de ódio e terrorismo. Acima de tudo, é preciso educar os jovens sobre os valores da tolerância e da democracia, o que é da responsabilidade dos governos. Continuaremos a insistir que junto aos governos no nível nacional e pan-europeu a viver de acordo com essas responsabilidades — resumiu Moshe Kantor.

Este texto foi publicado na edição vespertina O GLOBO A MAIS

oglobo.globo.com | 29-05-2014

MADRI — As eleições ao Parlamento Europeu significaram um antes e um depois para a tradicional divisão do poder na Espanha. O bipartidarismo foi nocauteado, já que os governistas do Partido Popular e a oposição socialista, pela primeira vez na História da democracia do país, não reuniram nem a metade dos votos — dos cerca de 74% em 2009, despencaram para 49%. Um golpe que fez com que perdessem 17 eurodeputados (oito populares e nove socialistas). Ainda não se sabe, no entanto, se o panorama será mantido nas próximas eleições, em 2015, pintando um novo quadro em uma Espanha que, nos últimos 40 anos, sempre contou com maiorias estáveis, prescindindo de governos de coalizão.

O cenário é de grande desalento com a classe política, muita desinformação sobre a importância das eleições europeias — a participação provavelmente seria superior aos 45% de domingo em eleições nacionais —, e de descrença nas instituições (entre 67% e 75% dos espanhóis não confiam no Parlamento Europeu, na União Europeia e na Comissão Europeia). Neste contexto, ninguém duvida de que o bipartidarismo esteja seriamente ferido, mas especialistas ainda acham cedo para falar em morte.

— Temos um sistema eleitoral que favorece enormemente os grandes partidos. Se o Partido Popular (PP) se recuperar, a hegemonia será mantida. E isso é possível, já que a grande abstenção marcou, principalmente, os redutos eleitorais do PP — explica o cientista político Fernando Vallespín, da Universidade Autônoma de Madri.

O que significa que não houve tanta migração do voto conservador como houve do de esquerda. Embora alguns eleitores do Partido Popular tenham apostado, desta vez, pelo União, Progresso e Democracia (UPyD), de centro — que passou de um a quatro eurodeputados —, quem realmente sofreu com o voto de castigo foram os socialistas.

Três meses, cinco cadeiras

O eleitorado indignado com o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) acabou atomizando a esquerda, triplicando a presença da Esquerda Unida no Parlamento Europeu e, para surpresa generalizada, dando cinco cadeiras a um recém-nascido Podemos — registrado há três meses — que, principalmente através das redes sociais, soube captar o voto de protesto (quase 8%).

— É um grupo alternativo que critica “a casta política”, como dizem, mas que não sabe claramente qual é sua própria mensagem. O grego Syriza, que o Podemos apoia, quer outra política econômica europeia mas sem romper com o sistema. Mas não sabemos o que o Podemos quer. Retoricamente deseja romper com tudo, mas não apresenta um plano. É uma incógnita, que soube captar o voto antissistema — opina Vallespín.

A fragmentação da esquerda e a preocupante perda de votos fizeram que o líder socialista Alfredo Pérez Rubalcaba anunciasse sua saída como secretário-geral do partido. Seu sucessor terá que renovar profundamente o partido, reconquistar a credibilidade perdida nestes últimos cinco anos e evitar que, de fato, o bipartidarismo seja enterrado.

oglobo.globo.com | 27-05-2014

RIO - O futuro da tecnologia está sendo escrito a lápis. Descoberto a partir do grafite, o grafeno, material de flexibilidade, leveza e condutividade extremas tem o potencial de dar à luz aparelhos eletrônicos, baterias e outras soluções high tech que só existem hoje nos sonhos dos consumidores.

Com espessura de um único átomo de carbono, equivalente à milionésima parte de um fio de cabelo, não há nada mais fino que o grafeno. Se o grafite fosse um livro, ele seria uma folha. Mas essa finura se mostra inversamente proporcional a seu poder de fogo: é 300 vezes mais duro que o aço e chega a ser mais resistente que o diamante. Tem ainda a maior condutividade já registrada em temperatura ambiente, e os elétrons passam através dele até 200 vezes mais rápido do que pelo silício dos chips de computador.

Flexível, o material pode ser usado na criação de smartphones, tablets e até televisores que dobraremos e guardaremos no bolso. Por ser finíssimo, também é transparente, abrindo espaço para o desenvolvimento de telas maleáveis sensíveis ao toque, com a vantagem de serem resistentes à água.

O grafeno pesa quase nada, sendo possível cobrir a área de um campo de futebol com apenas um grama do material. Por causa disso, ele poderia ser integrado a outras superfícies sem prejuízo de sua portabilidade, transformando qualquer objeto em um equipamento eletrônico. Isso permitiria um salto na concepção dos chamados eletrônicos vestíveis, abrangendo de roupas conectadas a lentes de contato com visão noturna.

Os mais ambiciosos veem o grafeno penetrando mais fundo, graças às dimensões nanométricas e à capacidade de adaptação do material: sensores de grafeno que se comunicam com tecidos humanos, por exemplo. Já a Fundação Bill e Melinda Gates doou US$ 100 mil à Universidade de Manchester para o desenvolvimento de uma camisinha de grafeno que manteria intacto o prazer sexual e seria à prova de estouro.

Uma rede mais rápida

Com tantas qualidades, imaginou-se logo que o grafeno seria, enfim, um substituto à altura para o silício nos chips de computador. O material que dá nome à região onde nasceram empresas como Apple e Intel se aproxima do seu limite como matéria-prima de processadores, uma vez que seus transistores já são quase do menor tamanho permitido pela física. Mas não é bem assim.

— A ideia não é substituir o silício. Isso até pode acontecer daqui a 30 anos, mas o que queremos hoje é usar o grafeno onde o silício não atua bem, como em superfícies flexíveis, transparentes e integradas ao corpo, em baterias e supercapacitores — disse Andrea Ferrari, diretor do Centro do Grafeno da Universidade de Cambridge.

Claudius Feger, diretor da divisão de Dispositivos Inteligentes da IBM no Brasil, admite que o silício sempre baterá o grafeno em uma das tarefas básicas dentro dos chips. A verdade é que o grafeno é tão condutivo que, uma vez que os elétrons começam a passar através dele, é muito difícil pará-los. Só que a interrupção controlada da corrente é justamente o que torna possível armazenar os dados expressos pelos dígitos “1” e “0” em chips. Por isso o especialista prevê que o grafeno exercerá papel mais importante por sua capacidade óptica, via fotodetectores e receptores de radiofrequência que tornariam mais rápida a transmissão de dados nos equipamentos de silício.

— O grafeno poderia melhorar o desempenho dos equipamentos feitos de sílica, que é a base da fibra óptica. Assim, o acesso dos aparelhos à internet poderia ser mais veloz, por exemplo — observa o físico Fernando Lázaro, da PUC-Rio.

Mas nada disso existirá se não surgir um método eficiente para produção de grafeno em larga escala, e é sobre isso que se debruçam cientistas de todo o mundo agora. O método tradicional de obtenção do grafeno é conhecido como esfoliação mecânica. É útil às pesquisas, mas não atende às necessidades industriais, pois proporciona folhas de grafeno com apenas alguns milímetros.

— Para obter placas com um metro quadrado, por exemplo, a alternativa é a chamada deposição química, em que se espalha um vapor de metano sobre cobre ou níquel. Depois se mergulha isso em uma solução que corrói o metal, e o que sobra é grafeno. Mas esse processo tem o revés de “sujar” o material, reduzindo algumas de suas propriedades — diz o físico Eunézio Antônio de Souza, responsável na Universidade Presbiteriana Mackenzie pelo MackGrafe, primeiro centro de pesquisas dedicado ao grafeno no Brasil.

Reduzir as falhas da deposição química é justamente um dos objetivos hoje daGraphene Flagship, a maior iniciativa de pesquisa sobre grafeno no mundo. O consórcio foi estabelecido pela União Europeia (UE), envolve 17 países e tem orçamento de € 1 bilhão. Gigantes da tecnologia como a Samsung também vêm se debruçando sobre o problema.

oglobo.globo.com | 26-05-2014

RIO - O futuro da tecnologia está sendo escrito a lápis. Descoberto a partir do grafite, o grafeno, material de flexibilidade, leveza e condutividade extremas tem o potencial de dar à luz aparelhos eletrônicos, baterias e outras soluções high tech que só existem hoje nos sonhos dos consumidores.

Com espessura de um único átomo de carbono, equivalente à milionésima parte de um fio de cabelo, não há nada mais fino que o grafeno. Se o grafite fosse um livro, ele seria uma folha. Mas essa finura se mostra inversamente proporcional a seu poder de fogo: é 300 vezes mais duro que o aço e chega a ser mais resistente que o diamante. Tem ainda a maior condutividade já registrada em temperatura ambiente, e os elétrons passam através dele até 200 vezes mais rápido do que pelo silício dos chips de computador.

Flexível, o material pode ser usado na criação de smartphones, tablets e até televisores que dobraremos e guardaremos no bolso. Por ser finíssimo, também é transparente, abrindo espaço para o desenvolvimento de telas maleáveis sensíveis ao toque, com a vantagem de serem resistentes à água.

O grafeno pesa quase nada, sendo possível cobrir a área de um campo de futebol com apenas um grama do material. Por causa disso, ele poderia ser integrado a outras superfícies sem prejuízo de sua portabilidade, transformando qualquer objeto em um equipamento eletrônico. Isso permitiria um salto na concepção dos chamados eletrônicos vestíveis, abrangendo de roupas conectadas a lentes de contato com visão noturna.

Os mais ambiciosos veem o grafeno penetrando mais fundo, graças às dimensões nanométricas e à capacidade de adaptação do material: sensores de grafeno que se comunicam com tecidos humanos, por exemplo. Já a Fundação Bill e Melinda Gates doou US$ 100 mil à Universidade de Manchester para o desenvolvimento de uma camisinha de grafeno que manteria intacto o prazer sexual e seria à prova de estouro.

Uma rede mais rápida

Com tantas qualidades, imaginou-se logo que o grafeno seria, enfim, um substituto à altura para o silício nos chips de computador. O material que dá nome à região onde nasceram empresas como Apple e Intel se aproxima do seu limite como matéria-prima de processadores, uma vez que seus transistores já são quase do menor tamanho permitido pela física. Mas não é bem assim.

— A ideia não é substituir o silício. Isso até pode acontecer daqui a 30 anos, mas o que queremos hoje é usar o grafeno onde o silício não atua bem, como em superfícies flexíveis, transparentes e integradas ao corpo, em baterias e supercapacitores — disse Andrea Ferrari, diretor do Centro do Grafeno da Universidade de Cambridge.

Claudius Feger, diretor da divisão de Dispositivos Inteligentes da IBM no Brasil, admite que o silício sempre baterá o grafeno em uma das tarefas básicas dentro dos chips. A verdade é que o grafeno é tão condutivo que, uma vez que os elétrons começam a passar através dele, é muito difícil pará-los. Só que a interrupção controlada da corrente é justamente o que torna possível armazenar os dados expressos pelos dígitos “1” e “0” em chips. Por isso o especialista prevê que o grafeno exercerá papel mais importante por sua capacidade óptica, via fotodetectores e receptores de radiofrequência que tornariam mais rápida a transmissão de dados nos equipamentos de silício.

— O grafeno poderia melhorar o desempenho dos equipamentos feitos de sílica, que é a base da fibra óptica. Assim, o acesso dos aparelhos à internet poderia ser mais veloz, por exemplo — observa o físico Fernando Lázaro, da PUC-Rio.

Mas nada disso existirá se não surgir um método eficiente para produção de grafeno em larga escala, e é sobre isso que se debruçam cientistas de todo o mundo agora. O método tradicional de obtenção do grafeno é conhecido como esfoliação mecânica. É útil às pesquisas, mas não atende às necessidades industriais, pois proporciona folhas de grafeno com apenas alguns milímetros.

— Para obter placas com um metro quadrado, por exemplo, a alternativa é a chamada deposição química, em que se espalha um vapor de metano sobre cobre ou níquel. Depois se mergulha isso em uma solução que corrói o metal, e o que sobra é grafeno. Mas esse processo tem o revés de “sujar” o material, reduzindo algumas de suas propriedades — diz o físico Eunézio Antônio de Souza, responsável na Universidade Presbiteriana Mackenzie pelo MackGrafe, primeiro centro de pesquisas dedicado ao grafeno no Brasil.

Reduzir as falhas da deposição química é justamente um dos objetivos hoje daGraphene Flagship, a maior iniciativa de pesquisa sobre grafeno no mundo. O consórcio foi estabelecido pela União Europeia (UE), envolve 17 países e tem orçamento de € 1 bilhão. Gigantes da tecnologia como a Samsung também vêm se debruçando sobre o problema.

oglobo.globo.com | 26-05-2014

BRUXELAS — O ataque deste sábado ao Museu Judaico de Bruxelas, que deixou três mortos e um ferido na capital belga provocou comoção entre a comunidade judaica do país — às vésperas de eleições locais e continentais — e entre líderes de países europeus e de Israel.

— Este assassinato é resultado da constante difamação contra os judeus e sua nação. Mentiras e calúnias contra o Estado de Israel continuam a ser ouvidas na Europa ao mesmo tempo em que crimes contra a humanidade perpetrados em nosso solo continuam a ser ignorados — afirmou o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. — Nossa resposta a essa hipocrisia é continuar dizendo a verdade, e nos fortalecer na nossa incansável luta contra o terrorismo.

Comentando o ataque, o ministro israelense das Relações Exteriores, Avigdor Lieberman, líder de um partido ultranacionalista, acusou o ativismo pró-palestino, “que, novamente, como nas épocas mais obscuras, convocou o boicote aos produtos judaicos e atua com agressividade contra a única democracia do Oriente Médio” de ser “puramente antissemita e nada além disso”.

Atentados motivados pelo antisemitismo não acontecem na Bélgica — que abriga uma população judaica superior a 40 mil pessoas — desde os anos 1980, mas o ódio e o preconceito contra os judeus têm sido opontados como principais motivos por trás do ataque, por figuras que vão da ministra do Interior, Joëlle Milquet, até o presidente do Congresso Mundial Judaico, Ronald S. Lauder, que comparou o atentado aos assassinatos cometidos em Toulouse, em 2012, no qual Mohamed Morah baleou quatro estudantes judeus em uma escola francesa.

— Trata-se de um ato terrorista. O assassino entrou deliberadamente em um museu judaico — afirmou o presidente da Liga Belga Contra o Antisemtismo (LBCA), Joël Rubinfeld. — Houve uma liberação do discurso antisemita. Essa é uma desgraça decorrente de um ambiente que destila o ódio.

Viviane Teitelbaum, uma deputada judia de Bruxelas, afirmou que ataques antisemitas tiveram seu auge nos anos 1980, mas diminuíram antes de uma recente ressurreição do antisemitismo belga.

O presidente francês, François Hollande, também condenou "a matança assustadora" no museu, manifestando aos belgas a "solidariedade" da França. Em nota divulgada no sábado à noite, Hollande "expressa sua grande comoção e condena fortemente a matança assustadora ocorrida no Museu Judaico de Bruxelas".

O chefe de Estado manifesta ainda "a total solidariedade da França ao povo belga nessa prova e envia suas profundas condolências às famílias das vítimas".

Também em nota divulgada este sábado, o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, denunciou o ataque cometido "contra os valores da Europa".

"A notícia do violento tiroteio que custou a vida de três pessoas inocentes esta tarde no centro de Bruxelas, na frente do Museu Judaico, chocou-me profundamente", declarou Durão Barroso."Condeno duramente o fato de que esse terrível tiroteio tenha sido dirigido contra um símbolo religioso no coração da capital europeia. Trata-se de um ataque contra os valores da Europa, o que não podemos tolerar".

A alta representante para Política Externa e Segurança da União Europeia, Catherine Ashton, foi outra autoridade que condenou o ataque.

Em nota, o rei Philippe, da Bélgica, enviou condolências às famílias das vítimas, e se disse “indignado com este ato violento que afeta a comunidade judaica”.

— Nosso país e todos os belgas, independentemente de seu idioma, sua origem ou seus credos, estão unidos em solidariedade, e condenam este detestável ataque a uma instituição cultural judaica — afirmou, durante uma coletiva de imprensa, o primeiro-ministro belga, Elio Di Rupo.

oglobo.globo.com | 25-05-2014

LONDRES — Quando os eleitores de toda a Europa forem às urnas nesta semana para eleger um novo parlamento, espera-se que os partidos de extrema-direita estejam entre os vencedores. Mas um dos maiores beneficiados pela eleição pode ser um homem cujo nome não está na cédula: Vladimir Putin.

Mesmo que os principais líderes europeus façam barulho ao condenar a agressão russa, os eleitores parecem estar prontos para recompensar aqueles partidos que não fazem nenhum segredo da admiração sobre a forma como o líder russo desafiou o Ocidente e desmembrou a Ucrânia.

O resultado poderia ser um novo golpe no esforço europeu — que está naufragando — de ter uma alinhamento firme e unido contra a Rússia. Durante meses, os líderes europeus têm refugado sobre como e quando dar sanções contra Moscou. Alguns dos pesos pesados do continente têm argumentado que as restrições são a melhor maneira de influenciar o comportamento russo, como que oferecendo a melhor chance de preservar os amplos laços econômicos entre a Rússia e a Europa.

Mas muitos dos partidos de extrema-direita — bem como um número menor de extrema-esquerda — têm aplaudido abertamente os movimentos da Rússia na Ucrânia, acusando a União Europeia e os Estados Unidos de provocarem uma crise em um continente há muito tempo acostumado à paz.

— A extrema-direita e a extrema-esquerda gostam do fato de que Putin está irritando o mainstream europeu — ressalta Simon Hix, especialista em política europeia da Escola de Economia e Ciência Política de Londres. — E gostam de toda esta situação, que ilustraria a hipocrisia das elites estabelecidas, que haviam bajulado Putin e, depois, disseram que seriam resistentes a ele, mas não são.

O aumento da representação da extrema-direita dentre os 751 membros do Parlamento Europeu não vai permitir tomar diretamente decisões sobre futuras sanções, que continuarão a ser feitas pelos governos nacionais, dominados pelos partidos tradicionais. E mesmo no Parlamento, onde os partidos de centro-direita e centro-esquerda quase que certamente vão prevalecer.

Mas as projeções mostram que a extrema-direita pode duplicar a quantidade de cadeiras e que, juntamente com a extrema-esquerda, poderia ocupar um terço do Parlamento, que tem sede em Estrasburgo, na França. Na guerra de relações públicas, que tem sido crucial na batalha da Ucrânia, esse resultado pode dar a Putin nova munição.

— Vai ser mais fácil para Putin tirar sarro dos europeus. ‘Quem você representa? Você nem mesmo representa seu próprio povo.’ Ele vai dar essa cartada — aposta Hix.

E, de fato, a mídia russa começou a fazer exatamente isso, dando destaque para os líderes da extrema-direita como os legítimos representantes da Europa. Esses líderes, por sua vez, abraçaram seu momento no centro das atenções russo.

Enquanto as forças pró-russas causaram estragos no leste da Ucrânia no mês passado, a líder da extrema-direita francesa, do partido Frente Nacional, estava em Moscou declarando a repórteres que “a Guerra Fria com a Rússia foi declarada na União Europeia”.

Marine Le Pen, cujo partido anti-imigração pode triunfar na porção francesa do voto europeu, usou sua visita a Moscou para reunir-se com o líder do Parlamento Russo, Sergei Naryshkin, que foi solapado pelas sanções da UE por ajudar a provocar os conflitos na Ucrânia.

O porta-voz de Le Pen, Ludovic de Danne , já havia dito à rádio “Voz da Rússia” que as sanções do Ocidente foram “injustificadas” e que a Crimeia pertencia à Rússia, porque o povo da Crimeia compartilha “alguma espécie de sonho de voltar à pátria-mãe”.

A Crimeia foi anexada pela Rússia em março, após um envio maciço de tropas russas e um referendo aprovado — de acordo com os resultados oficiais — por 95% dos eleitores. A votação foi condenada como uma farsa nas capitais ocidentais, mas foi endossada como livre e justa por numerosos políticos europeus de extrema-direita convidados para a península do Mar Negro como observadores da votação.

Werner Neubauer, membro do Partido da Liberdade, da Áustria, comemorou o referendo como um “trem da liberdade”, que estava em seu caminho para a Europa, e iria ajudar a libertar os países da UE. Seu colega de partido, Andreas Mölzer, disse que a UE é desfavorável ao Terceiro Reich e que a Europa corre perigo de tornar-se “um conglomerado de negros”, que não tem a ética de trabalho dos austríacos e alemães.

Nigel Farage, líder do Partido da Independência, do Reino Unido, e convidado frequente da rede de televisão RT, pró-Kremlin, citou Putin como o líder estrangeiro que mais admira e afirmou, em rede nacional, que os 28 membros da UE tem “sangue nas mãos” por manipularem a Ucrânia.

O partido extremista búlgaro Ataka foi tão longe que escolheu Moscou para lançar a própria campanha para as eleições europeias. Seu líder, Volen Siderov, disse que os Estados Unidos estão tentando provocar “uma terceira guerra mundial, através da qual a Rússia deveria ser trazida de joelhos”.

Enquanto os partidos de extrema-direita da Europa diferem em muitos aspectos, eles compartilham um desejo de enfraquecer a influência da União Europeia, sediada em Bruxelas, e “perseguir similarmente uma linha nacionalista e autoritária”, que seja abraçada por Putin, destaca Hajo Funke, analista político alemão e especialista em extremismo de direita.

De fato, em muitos aspectos, Putin é uma alma gêmea ideológica. Ele trilha contra a decadência ocidental e do liberalismo e fala em favor de um nacionalismo ortodoxo e conservador, que rejeita os direitos dos homossexuais e comanda a adesão aos valores tradicionais.

— Os partidos de extrema direita veem a Europa como estando em declínio por causa do cosmopolitismo e pró-americanismo – afirma Peter Kreko, diretor da firma de pesquisa e consultoria Capital Política, da Hungria. — Putin oferece um modelo alternativo: um líder que diz abertamente que apoia a visão cristã, que não pensa que direitos humanos são tão importantes e que acredita em comandar com mão de ferro.

Se os partidos de extrema-direita forem tão bem como se espera na votação desta semana, poderiam ter uma plataforma muito mais proeminente do que apenas promover esse tipo de visão para a Europa. Le Pen e seus aliados podem estar muito perto de ter apoio suficiente para formar seu próprio bloco no Parlamento, o que lhes daria acesso a financiamentos públicos e uma maior influência sobre a legislação.

— Se houver uma forte bancada anti-Europa no Parlamento, eles podem fazer muito para mudar o foco — analisa Kreko. — Não vão formar uma maioria, mas podem votar para apoiar os interesses e articular os ponto de vista russos.

Uma área que poderia ser particularmente afetada são as negociações sobre um extenso novo pacto comercial EUA-UE. A administração Obama considera o acordo uma prioridade, mas tanto a extrema-direita, quanto a extrema-esquerda europeias se opõem inflexivelmente, preferindo, em vez disso, laços econômicos mais estreitos com Moscou.

Embora os extremistas provavelmente não tenham os votos para afundar o negócio por conta própria, poderiam colocar pressão suficiente sobre pontos principais, tornando o acordo impossível.

— O populistas com seus forcados estarão se reunindo contra isso — ressalta Hix. — Eles não gostam da globalização, nem da elite urbana. Querem apoiar o “pequeno rapaz” (Vladimir Putin), o que vai tornar muito difícil para a centro-direita e a centro-esquerda conseguir o acordo. Vai ficar feio.

oglobo.globo.com | 23-05-2014

LONDRES — Quando os eleitores de toda a Europa forem às urnas nesta semana para eleger um novo parlamento, espera-se que os partidos de extrema-direita estejam entre os vencedores. Mas um dos maiores beneficiados pela eleição pode ser um homem cujo nome não está na cédula: Vladimir Putin.

Mesmo que os principais líderes europeus façam barulho ao condenar a agressão russa, os eleitores parecem estar prontos para recompensar aqueles partidos que não fazem nenhum segredo da admiração sobre a forma como o líder russo desafiou o Ocidente e desmembrou a Ucrânia.

O resultado poderia ser um novo golpe no esforço europeu — que está naufragando — de ter uma alinhamento firme e unido contra a Rússia. Durante meses, os líderes europeus têm refugado sobre como e quando dar sanções contra Moscou. Alguns dos pesos pesados do continente têm argumentado que as restrições são a melhor maneira de influenciar o comportamento russo, como que oferecendo a melhor chance de preservar os amplos laços econômicos entre a Rússia e a Europa.

Mas muitos dos partidos de extrema-direita — bem como um número menor de extrema-esquerda — têm aplaudido abertamente os movimentos da Rússia na Ucrânia, acusando a União Europeia e os Estados Unidos de provocarem uma crise em um continente há muito tempo acostumado à paz.

— A extrema-direita e a extrema-esquerda gostam do fato de que Putin está irritando o mainstream europeu — ressalta Simon Hix, especialista em política europeia da Escola de Economia e Ciência Política de Londres. — E gostam de toda esta situação, que ilustraria a hipocrisia das elites estabelecidas, que haviam bajulado Putin e, depois, disseram que seriam resistentes a ele, mas não são.

O aumento da representação da extrema-direita dentre os 751 membros do Parlamento Europeu não vai permitir tomar diretamente decisões sobre futuras sanções, que continuarão a ser feitas pelos governos nacionais, dominados pelos partidos tradicionais. E mesmo no Parlamento, onde os partidos de centro-direita e centro-esquerda quase que certamente vão prevalecer.

Mas as projeções mostram que a extrema-direita pode duplicar a quantidade de cadeiras e que, juntamente com a extrema-esquerda, poderia ocupar um terço do Parlamento, que tem sede em Estrasburgo, na França. Na guerra de relações públicas, que tem sido crucial na batalha da Ucrânia, esse resultado pode dar a Putin nova munição.

— Vai ser mais fácil para Putin tirar sarro dos europeus. ‘Quem você representa? Você nem mesmo representa seu próprio povo.’ Ele vai dar essa cartada — aposta Hix.

E, de fato, a mídia russa começou a fazer exatamente isso, dando destaque para os líderes da extrema-direita como os legítimos representantes da Europa. Esses líderes, por sua vez, abraçaram seu momento no centro das atenções russo.

Enquanto as forças pró-russas causaram estragos no leste da Ucrânia no mês passado, a líder da extrema-direita francesa, do partido Frente Nacional, estava em Moscou declarando a repórteres que “a Guerra Fria com a Rússia foi declarada na União Europeia”.

Marine Le Pen, cujo partido anti-imigração pode triunfar na porção francesa do voto europeu, usou sua visita a Moscou para reunir-se com o líder do Parlamento Russo, Sergei Naryshkin, que foi solapado pelas sanções da UE por ajudar a provocar os conflitos na Ucrânia.

O porta-voz de Le Pen, Ludovic de Danne , já havia dito à rádio “Voz da Rússia” que as sanções do Ocidente foram “injustificadas” e que a Crimeia pertencia à Rússia, porque o povo da Crimeia compartilha “alguma espécie de sonho de voltar à pátria-mãe”.

A Crimeia foi anexada pela Rússia em março, após um envio maciço de tropas russas e um referendo aprovado — de acordo com os resultados oficiais — por 95% dos eleitores. A votação foi condenada como uma farsa nas capitais ocidentais, mas foi endossada como livre e justa por numerosos políticos europeus de extrema-direita convidados para a península do Mar Negro como observadores da votação.

Werner Neubauer, membro do Partido da Liberdade, da Áustria, comemorou o referendo como um “trem da liberdade”, que estava em seu caminho para a Europa, e iria ajudar a libertar os países da UE. Seu colega de partido, Andreas Mölzer, disse que a UE é desfavorável ao Terceiro Reich e que a Europa corre perigo de tornar-se “um conglomerado de negros”, que não tem a ética de trabalho dos austríacos e alemães.

Nigel Farage, líder do Partido da Independência, do Reino Unido, e convidado frequente da rede de televisão RT, pró-Kremlin, citou Putin como o líder estrangeiro que mais admira e afirmou, em rede nacional, que os 28 membros da UE tem “sangue nas mãos” por manipularem a Ucrânia.

O partido extremista búlgaro Ataka foi tão longe que escolheu Moscou para lançar a própria campanha para as eleições europeias. Seu líder, Volen Siderov, disse que os Estados Unidos estão tentando provocar “uma terceira guerra mundial, através da qual a Rússia deveria ser trazida de joelhos”.

Enquanto os partidos de extrema-direita da Europa diferem em muitos aspectos, eles compartilham um desejo de enfraquecer a influência da União Europeia, sediada em Bruxelas, e “perseguir similarmente uma linha nacionalista e autoritária”, que seja abraçada por Putin, destaca Hajo Funke, analista político alemão e especialista em extremismo de direita.

De fato, em muitos aspectos, Putin é uma alma gêmea ideológica. Ele trilha contra a decadência ocidental e do liberalismo e fala em favor de um nacionalismo ortodoxo e conservador, que rejeita os direitos dos homossexuais e comanda a adesão aos valores tradicionais.

— Os partidos de extrema direita veem a Europa como estando em declínio por causa do cosmopolitismo e pró-americanismo – afirma Peter Kreko, diretor da firma de pesquisa e consultoria Capital Política, da Hungria. — Putin oferece um modelo alternativo: um líder que diz abertamente que apoia a visão cristã, que não pensa que direitos humanos são tão importantes e que acredita em comandar com mão de ferro.

Se os partidos de extrema-direita forem tão bem como se espera na votação desta semana, poderiam ter uma plataforma muito mais proeminente do que apenas promover esse tipo de visão para a Europa. Le Pen e seus aliados podem estar muito perto de ter apoio suficiente para formar seu próprio bloco no Parlamento, o que lhes daria acesso a financiamentos públicos e uma maior influência sobre a legislação.

— Se houver uma forte bancada anti-Europa no Parlamento, eles podem fazer muito para mudar o foco — analisa Kreko. — Não vão formar uma maioria, mas podem votar para apoiar os interesses e articular os ponto de vista russos.

Uma área que poderia ser particularmente afetada são as negociações sobre um extenso novo pacto comercial EUA-UE. A administração Obama considera o acordo uma prioridade, mas tanto a extrema-direita, quanto a extrema-esquerda europeias se opõem inflexivelmente, preferindo, em vez disso, laços econômicos mais estreitos com Moscou.

Embora os extremistas provavelmente não tenham os votos para afundar o negócio por conta própria, poderiam colocar pressão suficiente sobre pontos principais, tornando o acordo impossível.

— O populistas com seus forcados estarão se reunindo contra isso — ressalta Hix. — Eles não gostam da globalização, nem da elite urbana. Querem apoiar o “pequeno rapaz” (Vladimir Putin), o que vai tornar muito difícil para a centro-direita e a centro-esquerda conseguir o acordo. Vai ficar feio.

oglobo.globo.com | 22-05-2014

PARIS — Entre amanhã e domingo, cerca de 390 milhões de eleitores de 28 países serão chamados às urnas para escolher 751 deputados para um novo mandato do Parlamento Europeu. No rastro de sete anos de crise econômica, de alta do desemprego e em clima de desencanto com a política e com o sonho europeu, as pesquisas de opinião acenam com um importante crescimento dos partidos eurocéticos e com um acentuado índice de abstenção. A disputa pela cobiçada presidência da Comissão Europeia, que dependerá da nova composição do Parlamento, deverá ser decidida por consenso entre as duas frentes tradicionalmente majoritárias, o conservador Partido Popular Europeu (PPE) e os Socialistas e Democratas (S&D), de tendência esquerdista. Mas, se confirmadas as previsões das sondagens, a grande novidade do pleito será o aumento da influência dos eurodeputados nacionalistas e extremistas de direita em Estrasburgo, identificados pela eurofobia e a xenofobia.

Reforçada, a direita radical poderá criar um grupo parlamentar para legislar com maior poder de voz — para isso são necessários pelo menos 25 deputados de sete países —, em uma aliança costurada pelos franceses da Frente Nacional (FN) com o Partido da Liberdade austríaco (FPÖ), os belgas do Vlaams Belang, a Liga do Norte Italiana, os Democratas Suecos, os holandeses do Partido da Liberdade (PVV), o Partido Nacional eslovaco (SNS) e ainda, se eleitos, o Partido Popular romeno e União Democrática Croata (HDZ).

Os extremistas do Partido da Independência do Reino Unido (Ukip), de Nigel Farage, rejeitaram o convite da líder da FN, Marine Le Pen, para integrar o grupo ao evocar divergências ideológicas: os britânicos, arautos da bandeira anti-imigração como os franceses, acusam a FN de "manter o antissemitismo em seu DNA". No esforço de edulcorar sua imagem, associada a um discurso radical, Marine Le Pen evitou acordos com os "infrequentáveis" neonazistas húngaros do Jobbik ou os extremistas gregos da Aurora Dourada. A formação de um grupo no Parlamento não é algo anódino: garante recursos de financiamento — neste caso, estimados em mais de € 2 milhões —, assentos em comissões e maior tempo de palavra nos debates em plenário.

Na França, pela primeira vez a FN poderá alcançar a liderança em uma votação de nível nacional. Desempenho ainda melhor do que o segundo turno alcançado por Jean-Marie Le Pen, o fundador do partido, na eleição presidencial de 2002. Sua filha, Marine, mudou na aparência a imagem da sigla, inspirada na experiência do italiano Gianfranco Fini, que na década de 1990 transformou o partido fascista Movimento Social Italiano (MSI) em uma direita mais moderada, a Aliança Nacional.

A última pesquisa feita na França apontou a popularidade em alta do euroceticismo. Apenas 39% dos entrevistados qualificaram a União Europeia como uma "boa coisa", e 54% disseram que o euro traz "mais inconveniências do que vantagens". Mais: 65% defenderam a volta do controle nas fronteiras entre os Estados-membros, uma renúncia a um dos princípios básicos da construção europeia.

O veredicto das urnas europeias poderá ter reflexos nos tabuleiros políticos nacionais. Caso vença o pleito na França, a FN sinaliza com pressões para que o presidente François Hollande, em franca queda de popularidade, dissolva a Assembleia Nacional e convoque novas eleições legislativas — algo considerado improvável, mas avaliado por analistas como um ruído estratégico visando a eleição presidencial de 2017. Nesse contexto, Hollande se apresentaria em situação desconfortável na primeira reunião do Conselho Europeu pós-eleição, prevista para 26 e 27 de junho. O mesmo ocorreria com os líderes britânico, grego (ameaçado pela esquerda radical do Syriza) ou dinamarquês (face ao crescimento da extrema-direita populista), no caso de derrotas diante dos oposicionistas eurocéticos.

Na Espanha, segundo as pesquisas de opinião as duas principais siglas políticas do país — o Partido Popular (PP), do primeiro-ministro Mariano Rajoy, e o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) — devem perder cadeiras no Parlamento Europeu. Já pequenas agremiações, como a Esquerda Plural, o partido Podemos, criado a partir do movimento dos Indignados, ou centrista União Progresso e Democracia (UpyD) poderão, mesmo que modestamente, crescer na hora do voto.

Os italianos, de acordo com as sondagens, votarão em sua maioria no Partido Democrático (PD), do premier Matteo Renzi, mas o movimento eurocético de Beppe Grillo promete atrair eleitores descontentes com as crises política e econômica e os indecisos rumos de uma Europa cacofônica, a exemplo do que poderá ocorrer nos domínios da chanceler alemã Angela Merkel com o antieuropeu Alternativa para a Alemanha (AFD).

A rejeição ao projeto europeu poderá se manifestar também pela ausência de voto. Desde 1979, a participação do eleitorado está em declínio: de 63% para 43%, em 2009. Para estimular os eleitores a saírem de casa, o Parlamento Europeu lançou uma campanha sublinhando o caráter "inédito" do pleito deste ano. Com a mudança de regras, os eurodeputados devem aprovar por maioria absoluta o candidato proposto pelo Conselho à presidência da Comissão Europeia, para o qual concorrem como favoritos o ex-primeiro-ministro de Luxemburgo Jean-Claude Juncker (PPE) e o alemão Martin Schulz (S&D), atual presidente do Parlamento.

Órgão tem poder limitado para definir políticas

O Parlamento Europeu, órgão legislativo da União Europeia (UE), eleito pelo sufrágio universal desde 1979, representa cerca de 500 milhões de cidadãos do continente e legisla sobre 85 temas comuns aos 28 países-membros. Com poderes legislativos limitados (pode alterar, rejeitar ou votar leis propostas pela Comissão Europeia, órgão executivo responsável pela gestão cotidiana da UE) e partilhados com o Conselho de Ministros (formado por representantes do primeiro escalão dos governos nacionais de cada um dos países-membros), sua competência abrange questões sobre política externa, segurança, agricultura, meio ambiente, transporte, saúde, educação proteção ao consumidor ou liberdades civis.

Os eurodeputados podem receber queixas de cidadãos europeus e constituir comissões parlamentares de inquérito no caso de desrespeito às regras do direito comunitário, com a possibilidade de recorrer ao tribunal de justiça da UE. É o Parlamento também que define, em colaboração com o Conselho Europeu, o orçamento anual da UE.

Os 751 deputados — novo limite estabelecido desde a adesão da Croácia, em julho do ano passado — são eleitos proporcionalmente ao tamanho da população de cada país membro: Malta, por exemplo, elege apenas seis parlamentares, contra 96 para a Alemanha. Os eurodeputados eleitos neste domingo terão mandato de cinco anos, até 2019.

Cada país tem suas próprias regras para a eleição de eurodeputados, mas em muitos deles os assentos são divididos de maneira proporcional, sem um limite mínimo de votos para que um partido possa eleger deputados — o que faz que partidos fora dos Parlamentos nacionais consigam entrar no Parlamento Europeu.

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