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União Européia Educação

TEXAS - A morte de um homem de 35 anos em São Paulo virou motivo de estudo de pesquisadores da Universidade do Texas. Após análises em laboratório eles confirmaram uma nova superbactéria - aquelas resistentes a antibióticos - no Brasil. A equipe de pesquisa alerta que o microrganismo não é restrito à hospitais e que pode representar um problema de saúde pública, uma vez que não responde a vancomicina, um dos antibióticos mais comuns e baratos utilizados nesse tipo de tratamento, e também a meticilina, que pertence ao grupo das penicilinas

A nova superbactéria pertence a uma classe conhecida como SARM, Staphylococcus aureus resistente à meticilina, que vem preocupando especialista por ser cada vez mais frequente e ameaçar os medicamentos utilizados para combater a infecção hospitalar, o que poderia tornar qualquer procedimento médico altamente perigoso para a saúde. Somente na União Europeia, as superbactérias matam cerca de 20 mil por ano.

Os pesquisadores afirmam que a cepa original da superbactéria encontrada no Brasil é disseminada largamente entre a população, e é uma das causas mais comuns de infecções de pele e mucosas em pacientes de todas as idades. A infecção pode ser fatal, apesar de até o momento responder bem ao tratamento com vancomicina.

“É diferente de tudo que já vimos, e essa mutação em específico está causando infecções na comunidade e não nos hospitais” - alertou Cesar Arias, líder da equipe de pesquisa do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Texas, em Houston, em artigo publicado na revista “The England Journal of Medicine”.

De acordo com o estudo, o paciente em questão apresentava uma micose fungoide - o tipo mais frequente de linfoma cutâneo de células T -, era diabético e viciado em cocaína. Ele deu entrada em um hospital psiquiátrico por “depressão e pensamentos suicidas” e começou a apresentar muitas infecções na pele e depois no sangue.

- Os diferentes tratamentos com antibióticos talvez tenham proporcionado tempo suficiente para a bactéria se tornar resistente - afirmou Arias.

A nova superbactéria preocupa, mas como ela não infectou outros pacientes, os cientistas afirmam que não representa risco imediato. No entanto, segundo Barbara Murray, outra autora do estudo e presidente da Sociedade de Doenças Infecciosas da União Europeia, é preciso ficar alerta.

- Essa descoberta nos indica que no futuro teremos que aumentar a vigilância na América do Sul e no resto do mundo - disse Barbara ao “El Mundo”. - Isso reforça a ideia de que é importante não usar mais antibióticos do que o necessário para evitar a resistência.

O estudo aponta, ainda, para a necessidade de a indústria farmacêutica começar a desenvolver novos antibióticos.

- Perder a vancomicina, um remédio tão econômico, por culpa da resistência bacteriana, supõe uma carga econômica considerável para o sistema de saúde de qualquer lugar - afirmou David Weber, professor de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da Universidade da Carolina do Norte.

oglobo.globo.com | 22-04-2014

BERLIM — Sahra Wagenknecht, atual vice-presidente do partido alemão A Esquerda e figura mais mediática e polêmica de sua organização, tinha apenas 20 anos quando viveu o pior momento de sua vida. Na noite de 9 de novembro de 1989, soube pelo rádio que o Muro de Berlim estava sendo derrubado. Em vez de sair às ruas e se deixar levar pela multidão que começava a cruzar a fronteira, como fez Angela Merkel, trancou-se em seu quarto invadida por uma profunda tristeza, e começou a ler “Crítica da razão pura”, obra essencial de Kant.

— Não havia nada que comemorar. Eu queria uma RDA diferente, melhor. Minha esperança foi destruída naquela noite — revelou anos mais tarde, quando sua combativa dialética comunista a tinha ajudado a sair do anonimato e se transformar em figura proeminente no antigo Partido do Socialismo Democrático, que surgiu das cinzas do velho partido comunista.

Não foi a única frase polêmica pronunciada por Sahra Wagenknecht durante sua exitosa carreira política que a transformou agora em dirigente do partido A Esquerda e participante assídua nas tertúlias políticas da televisão alemã. É certo: a deputada de 44 anos está a caminho de se tornar um novo ícone da esquerda alemã, uma moderna Rosa Luxemburgo que nada contra a corrente e que não tem medo, devido a sua determinação por defender as causas menos defendidas que se multiplicam no planeta.

Qual político alemão, por exemplo, teria se atrevido a defender a atitude assumida por Vladimir Putin na perigosa crise que afeta a Ucrânia e a Crimeia e que levou o Ocidente à beira de um ataque de nervos? Alguém teria se atrevido, por exemplo, a denunciar que a poderosa chanceler federal alemã abençoou a chegada ao poder em Kiev de um governo golpista integrado por grupos fascistas e antissemitas?

Ninguém, exceto Wagenknecht, que o fez com uma veemência que provocou profundo mal-estar inclusive entre colegas do próprio partido. A dirigente defendeu a anexação da Crimeia à Rússia e denunciou “a política externa hipócrita” do governo alemão, ao defender o “governo fascista” de Kiev. E lembrou que os principais violadores do direito internacional eram Estados Unidos e seus aliados mais próximos, como a Alemanha.

Suas afirmações polêmicas provocaram reações amargas do presidente do Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD), o superministro Sigmar Gabriel, quem a acusou de nostalgia das velhas práticas que imperavam em Moscou quando ainda existia a União Soviética. Pior ainda, o SPD congelou uma aproximação estratégica com A Esquerda para formar uma grande aliança de centro-esquerda que lhe permita subir ao poder em 2017.

Meta mais ambiciosa

Wagenknecht continua impassível. Que outra atitude poderia tomar uma mulher que sempre foi uma rebelde com causa e que teve a coragem de se rebelar para não vestir uniforme militar na escola? A ansiedade lhe impedia de comer quando era obrigada a participar dos acampamentos de defesa civil, uma atitude que foi tachada como greve de fome pelos inspetores do regime.

Sob a perigosa suspeita de ser uma dissidente, ela foi proibida de estudar na universidade. Apesar do castigo, alistou-se no partido e se trancou no quarto para educar-se a si mesma. Só depois da queda do muro conseguiu entrar na universidade, e quando terminou os estudos, em 1996, decidiu buscar uma nova vida na política com um discurso que parecia ter desaparecido na noite mágica de 9 de novembro de 1989. A jovem se transformou na última defensora do comunismo num país onde Lenin, Marx e Stalin eram detestados, e onde seus antigos compatriotas sonhavam com o bem-estar capitalista oferecido por Bonn.

— A RDA foi a comunidade mais pacífica e humanitária que existiu em toda a história alemã — disse em um de seus primeiros discursos.

Mas a vida dá muitas voltas, e a jovem que deixou de defender o regime que governou em seu país durante 40 anos se propôs uma meta mais ambiciosa, quando a praga da crise mundial atacou os países capitalistas.

Sahra Wagenknecht, uma autodidata em muitas áreas do saber humano, decidiu escrever um livro que a catapultou à fama e a transformou numa estrela da televisão. “Liberdade em vez de capitalismo” foi o título do livro publicado por ela em maio de 2011, uma análise fria onde se atreveu a apontar que o marco constitucional alemão permite superar o capitalismo e instaurar um sistema socialista que impeça que as grandes empresas com ações na Bolsa de Frankfurt continuem impondo suas regras.

A crise da dívida na zona do euro foi outra frente de batalha.

— A União Europeia é uma democracia de fachada que só defende os interesses das grandes empresas e bancos. É um poder antidemocrático, neoliberal e militarista — disse.

Sem se deixar impressionar pelas críticas nem pelos elogios, ela tem apenas uma meta pela frente: acabar com o capitalismo que impera em seu país e recuperar os princípios do socialismo para criar uma sociedade mais justa. A meta é quase uma utopia, mas a deputada continua conquistando admiradores por meio da televisão e fóruns políticos.

oglobo.globo.com | 20-04-2014

PARIS — Para o presidente russo, Vladimir Putin, a Ucrânia é povoada por russos e fascistas. Esse maniqueísmo contrasta de forma paradoxal com a atitude de Moscou, que nos últimos meses se transformou na meca da extrema-direita europeia.

Desde que os manifestantes pró-União Europeia derrubaram o governo de Viktor Yanukovich — aliado de Putin —, na Ucrânia, a propaganda oficial russa se pôs em marcha.

— Os europeus são colaboradores dos nazistas, a Rússia passou a ser um novo escudo contra o fascismo mundial — disse Arkadi Mamotov, um dos principais apresentadores do canal estatal Rossiya 2.

Apesar disso, a última a receber uma acolhida triunfal na Rússia foi a francesa Marine Le Pen, líder da Frente Nacional (FN), de extrema-direita. No sábado, ela foi recebida com honras por Serguei Naryshkin, presidente da Duma (Câmara baixa do Parlamento), que ressaltou as “coincidências” entre Marine e o governo russo sobre como resolver a crise na Ucrânia. Ela, por sua vez, definiu a situação como uma “guerra fria declarada contra a Rússia”. Foi a segunda visita da francesa à Rússia em um ano, com direito a passagens pelo interior da Rússia e a Crimeia.

Em comum, ódio aos EUA

Em março, o conselheiro diplomático do partido, Aymeric Chauprade, esteve na Rússia para fiscalizar o referendo na Crimeia, como integrante de uma delegação do Observatório Eurasiático para a Democracia e Eleições, organização dirigida pelo militante belga de extrema-direita Luc Michel. Esta delegação, aliás, contava com o austríaco Ewald Stadler (ex-membro do FPO, o partido neonazista de Jörg Haider); o húngaro Béla Kovács, do partido antissemita Jobbik; o nacionalista sérvio-americano Srda Trifkovic; e Pavel Chernev, ex-braço direito do líder do partido de extrema-direita búlgaro Ataka.

Outro frequente hóspede do Kremlin é o húngaro Gabor Vona, líder do Jobbik, que também foi recebido na Duma e na célebre Universidade de Moscou.

Alguns desses partidos, como o Ataka e seu carismático líder, Volem Siderov, receberiam financiamento do Kremlin. A denúncia surgiu de telegramas diplomáticos americanos revelados pelo WikiLeaks e o site búlgaro Bivol.

Mas o que une o atual governo russo à extrema-direita europeia? Em que coincidem?

— No ódio aos EUA — responde o historiador e escritor francês Benoit Rayski. — Um ódio tão profundo que, para eles, esse país representa o demônio: o dinheiro, Wall Street, a potência destruidora da americanização de consciências.

oglobo.globo.com | 18-04-2014
A chegada da democracia a Portugal teve impacto no sistema de educação. O país diminuiu a iliteracia, mas mesmo assim o abandono escolar em Portugal é ainda um dos mais altos da União Europeia.
www.rtp.pt | 16-04-2014

MADRI — Quase 27 milhões de crianças estão em risco de pobreza ou de exclusão social na Europa, de acordo com a Pesquisa de Qualidade de Vida da União Europeia de 2012, com dados compilados no relatório Pobreza Infantil na Europa da organização Save the Children, apresentado nesta terça-feira. É um milhão a mais do que em 2008, quando a crise começou, apesar de metade deste aumento ter ocorrido em apenas um ano, entre 2011 e 2012.

O crescimento afasta a UE do cumprimento da “Estratégia Europa 2020 para um crescimento inteligente, sustentável e inclusivo”, que visa a tirar 20 milhões de pessoas do risco de exclusão social, com base no indicador Arope (que leva em conta o nível de renda, privações materiais graves das crianças ou que vivam em uma casa onde os adultos estejam desempregados ou tenham empregos muito precários).

De acordo com esses critérios, 20,8% da população com menos de 18 anos da União Europeia vivem abaixo da linha da pobreza. Na Espanha, esse número é muito maior, com 29,9% das crianças nessa situação — a maior taxa da Europa, atrás apenas da Romênia. Em toda a UE, 9% das crianças vivem em famílias com pouco emprego e 11,8% sofrem de privação material. No total, 28% das crianças estão em risco de pobreza e de exclusão com base no Arope. A Espanha está de volta ao topo, com 33,8% das crianças afetadas por uma (ou mais) dessas suposições.

A Save the Children alerta também que apenas metade dos países cumpriram o compromisso assumido em 2002, para facilitar a assistência a, pelo menos, um terço de todas as crianças com menos de 3 anos de idade.

“Igualdade no acesso aos cuidados à criança a preços acessíveis e a uma educação gratuita e de alta qualidade é essencial para garantir a igualdade de oportunidades”, afirmou a ONG.

Em toda a Europa, 13% das crianças abandonam a escola após o primeiro ano do ensino secundário e não estão em programas de treinamento. Mais uma vez, a Espanha lidera a lista com 24,9% de abandono escolar precoce. Andres Conde, diretor da Save the Children, acredita que a situação em Espanha “é inaceitável”. E pediu “medidas urgentes” do governo, durante a apresentação do documento.

“Pobreza não tem passaporte”

Os dados nacionais e globais estão intimamente relacionados ao investimento e ao compromisso com programas específicos para a proteção infantil. A Save the Children diz que os países que realizam mais gastos neste campo são os com menores taxas de pobreza infantil. São os casos de nações nórdicas, como Áustria, Eslovênia e Holanda. Não é o que acontece com Espanha, Itália, Grécia e Portugal, onde “os níveis de gastos mais baixos e associados à falta de estratégias” levam a uma elevada porcentagem de crianças em risco.

Além disso, as políticas sociais de redistribuição de renda do Estado são tão fracas em alguns países que produzem pouco impacto na redução da pobreza infantil. Grécia e Espanha têm os piores dados nesse campo. Na Grécia, o apoio público às famílias se traduz em um declínio na pobreza infantil de apenas 2,9%; na Espanha, de 6,9%.

São pequenas melhorias em comparação com a Alemanha, que tira do abismo 15,6% das crianças que, sem o auxílio ou subsídios, cairiam em situações precárias.

No entanto, “a pobreza na Europa não tem passaporte”, afirma o relatório da Save the Children. Assim, países com PIB elevado, como Itália ou França, tem um quinto e um terço de suas crianças em situação de risco, cita o documento. A educação e a ajuda direta não são os únicos assuntos pendentes. A organização acredita que um índice alarmante de 17% das crianças europeias vivem em casas com telhado com vazamentos, umidade no solo ou janelas podres.

E também enfatiza que “a pobreza infantil significa não só o descumprimento das necessidades básicas das crianças, tais como alimentação, vestuário e habitação, como também que eles não podem participar de atividades esportivas, culturais e de lazer”.

oglobo.globo.com | 15-04-2014

PARIS - Marine Le Pen, filha de cofundador da Frente Nacional de Jean-Marie Le Pen, levou o partido a ganhos históricos nas eleições francesas no mês ao imprimir uma marca de nacionalismo mais moderado. Ela agora está tentando construir uma nova aliança de nacionalistas no Parlamento Europeu para as eleições de maio.

Em que medida o seu partido é realmente diferente hoje de quando o seu pai o formou na década de 1970?

Bem, é claro que tem que ser diferente, porque um partido não é o mesmo quando tem 10% e quando atinge 25% dos votos. A Frente Nacional tem, acima de tudo que ficar mais madura. São mais de 40 anos de idade. A Frente Nacional costumava ser um partido de oposição, um partido que iria questionar e criticar o sistema, agora é um partido que está pronto para governar.

O Partido é descrito como um partido reformado, mas é você que é mais moderada que seu próprio partido?

Eu acredito que a política é uma questão de pessoa. Especificamente na Quinta República francesa. Em um sistema político saudável, um partido político deve se parecer com o seu líder. Esta é a razão pela qual há uma crise política em curso na França, porque este não é o caso em outras partes. Por exemplo, os problemas e os desejos da base eleitoral do UMP (União de centro-direita para um Movimento Popular) são muito diferentes das dos líderes da UMP, e é isso que gera essa crise política hoje na França.

Existe ainda uma casa para o pensamento de extrema-direita em sua festa?

Eu sempre fui muito claro a este respeito: a Frente Nacional não é um partido de extrema-direita. O partido foi chamado disso pelos nossos adversários para nos desacreditar. Qualquer movimento patriótico que busca se opor as escolhas políticas feitas pelos que lideram o país são chamados dessa maneira, de modo a desacreditá-los. Uma vez eu estava dando uma entrevista a um jornalista japonês que me olhou de uma forma sincera e disse: "Eu não entendo por que eles chamam de seu partido de extrema-direita, não vejo nenhuma proposta em seu programa a partir da extrema-direita".

Se você tiver sucesso na formação de um bloco nas eleições europeias, o que você faria no Parlamento?

Faço qualquer coisa que eu puder fazer para impedir a integração europeia e recuperar o máximo de poder possível da UE para dar esse poder de volta aos Estados. Tenho quatro prioridades. Devolva aos franceses sua soberania sobre o território francês, a sua soberania sobre a moeda e sua soberania sobre a economia e a lei.

Então você quer sair da União Europeia?

A Frente Nacional quer organizar um referendo para perguntar aos franceses se querem permanecer na UE ou não. A opinião dos franceses foi traída em 2005. Quando eles disseram "não" ao Tratado de Lisboa, os líderes políticos disseram "sim" e esfaquearam os eleitores franceses nas costas. Antes do referendo, eu irei para a UE dizer que eu quero que eles nos deem de volta s plena soberania sobre as questões mencionadas anteriormente. Se a UE se recusa, então vou pedir os franceses para sair da UE.

Quão perto você está de alcançar uma coalizão de partidos europeus?

Estou convencido de que vamos ter um grupo. Até agora, nossa busca está indo bem, eu acho que nós vamos ter o partido austríaco Liberdade, os Democratas Suecos, Fratelli d'Italia e/ou a Liga do Norte da Itália, o partido de Geert Wilders, na Holanda, e outros com os quais estamos atualmente em discussão.

Por exemplo, para Jobbik e Aurora Dourada. . . você disse que não queria eles como parte de sua coligação, por que isso? E, se não eles, com quem mais iria trabalhar?

Aurora Dourada é um grupo neonazista, então não há nenhuma maneira que nós vamos trabalhar com eles. Quanto aos outros movimentos, eles não defendem os princípios necessários para pertencer ao grupo.

Você foi citada por dizer que a escola não deve ser um lugar para a expressão religiosa. É verdade que você vai parar de oferecer refeições sem carne de porco nas cidades onde o partido ganhou prefeituras? Que outras mudanças podemos esperar nessas cidades geridas pela Frente Nacional?

O que eu disse é que há escolas na França hoje onde a carne de porco é proibida. Sou a favor de proibir a proibição da carne de porco. Agora, há sempre uma escolha nas escolas francesas, e isso é uma coisa boa. No entanto, eu não vejo por que na França a carne de porco deve ser proibida só porque uma minoria qualquer não come e priva os outros do direito de comer carne de porco.

O que isso significa na prática no chão embora?

Existe sempre uma alternativa. Se você ceder a grupos religiosos em pequenas coisas, eles sempre pedem mais. Por exemplo no ano passado em Le Havre, 8000 mousses de chocolate foram jogados fora simplesmente porque continham geleia de porco. Temos que colocar um fim nisso.

Que outras mudanças que você está propondo nessas cidades?

Reduzir impostos. Suspender o financiamento das cidades para associações relacionadas com associações de comunidades minoritárias. Implementar políticas a favor das pequenas empresas e lojas contra cadeias de supermercados que estão matando eles. E, finalmente, implementar uma política de tolerância zero em matéria de segurança.

O que seu pai acha sobre sua mensagem atualizada?

Sinceramente, acho que Jean-Marie Le Pen está feliz em ver que a Frente Nacional está transformando-se em um partido que é capaz de governar. Ele não tem gosto por esforço inútil. Assim, ele está bem ciente de que, para alcançar isso o FN deve chegar a mais de 50% dos franceses. Por esta razão, é natural que a FN deve apelar para os patriotas de esquerda e direita.

Você já repudiou os comentários que seu pai fez sobre o Holocausto? E quais são as suas próprias opiniões sobre o Holocausto?

Eu nunca tentei ter um julgamento contra meu próprio pai, porque considero que em nossa cultura europeia uma pessoa não julga seus pais. Agora eu expressei minhas discordâncias com o meu pai sobre determinados pontos, discordâncias relacionadas com a forma como se deve expressar as coisas, algo que tem também a ver com a diferença de gerações. Eu gostaria de dizer que a Frente Nacional nunca foi antissemita. Não só não sou antissemita, mas eu expliquei aos meus compatriotas judeus que o movimento que é mais capaz de protegê-los é a Frente Nacional. O maior perigo hoje é o surgimento de um antissemitismo nos subúrbios, decorrente de fundamentalistas muçulmanos.

Outra crítica contra a FN é que ela está enraizada na islamofobia. Qual é a sua política de imigração na França, especificamente quando se trata de países muçulmanos?

É interessante ver como esta palavra "islamofobia", que foi criado pela República Islâmica do Irã, penetrou progressivamente nas mais altas esferas do poder político e da mídia. Nossas posições são muito claras e estão completamente em linha com os da República. É É possível tornar-se um cidadão francês... apenas se os franceses aceitarem. É preciso responder a um certo número de critérios. A partir de hoje nós somos a favor da interrupção da imigração, porque a França tem tido que enfrentar a imigração maciça e anárquica dos últimos 30 anos, e isso causa problemas significativos na economia e na nossa sociedade. Isso no final impede a assimilação de imigrantes com a população local. E esta uma fonte de conflitos.

Você espera ser a presidente da França, um dia? Se você fosse, com o que a França pareceria após seu primeiro mandato?

Sim, eu considero ser presidente um dia. A razão para isso é porque eu não vejo ninguém na política francesa de hoje, que seja corajoso o suficiente para implementar medidas para ajudar a França voltar em seus pés. Só então a França parecerá com a França novamente. A França não tem parecido a França há um tempo muito longo.

oglobo.globo.com | 15-04-2014

GENEBRA - Marcada pelo Holocausto e praticamente enterrada depois da Segunda Guerra Mundial, a extrema-direita na Europa ressurgiu das cinzas na década de 1980 em várias linhagens. Mas, até recentemente, sua força era limitada. Não mais: de roupa nova - isto é, com um discurso bem mais sofisticado do que o de fascistas e nazistas -, ela está colhendo os frutos. Da França à Hungria, extremistas estão em alta, surfando na crise de identidade da Europa e na queda em desgraça da classe política tradicional.

- Há uma progressão real e incontestável da extrema-direita na Europa, como mostram os casos francês, suíço, norueguês, húngaro e grego. Mas é uma progressão desigual e não é uma consequência da crise econômica - constata Jean-Yves Camus, pesquisador do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicos (IRIS), em Paris.

Na França, segunda maior democracia europeia, o partido de extrema-direita de Marine Le Pen - a Frente Nacional (FN) - conquistou 11 cidades nas eleições municipais de março - um sucesso histórico. Na Áustria, o Partido da Liberdade (FPÖ) tem hoje apoio de 28% da população, segundo pesquisas - o que o coloca acima do partido governante, o Social-Democrata, e do conservador Partido do Povo. Na Suíça - que não é parte da UE - instigada por um partido extremista, a União Democrática do Centro (UDC), a população aprovou num referendo uma iniciativa para "parar com a imigração em massa". Como consequência, desmoronaram todos os acordos firmados entre a Suíça e a UE para livre circulação de pessoas e produtos.

No último domingo, o Jobbik, da Hungria, selou sua posição como o maior partido de extrema-direita do Leste Europeu ao conquistar 20,5% do eleitorado nas eleições parlamentares, contra 15,8 % em 2010. Seu líder, Gábor Vona, conhecido pela retórica contra judeus e ciganos, agora quer exportar sua ideologia para a região. Numa reunião recente com grupos extremistas da Polônia, ele desafiou:

- O caminho para a vitória envolve milhões de passos. Aceitem o desafio: participem das eleições europeias!

As eleições para o Parlamento Europeu, entre 22 e 25 de maio, vão ser, para muitos analistas, a próxima grande conquista dos extremistas de direita. Os chamados eurocéticos - um complicado bolo de correntes políticas do qual fazem parte partidos de extrema-direita, mas também populistas de todo tipo - poderão se tornar a terceira maior força política do Parlamento.

- A extrema direita vai ter provavelmente uma votação muito boa, até mesmo maior que o Partido Verde - prevê o cientista político Piero Ignazi, professor da Universidade de Bolonha, na Itália.

Sob o comando da francesa Marine Le Pen, seis partidos de extrema-direita selaram uma aliança. São eles: a Frente Nacional (FN) da França, o Partido pela Liberdade (PPV) da Holanda, a Liga Norte na Itália, o Vlaams Belang da Bélgica, os Democratas Suecos e o Partido Nacional da Eslováquia (SNS).

Um dos objetivos é formar um bloco no Parlamento, o que lhes daria direito a receber quase 1 milhão de euros de financiamento da UE, sem contar com ajuda para montar equipe de colaboradores, escritórios, um secretariado, e tempo de discurso proporcional ao tamanho. Para isso, pelas regras da UE, precisam eleger 25 deputados em 7 países. Ignazio e Camus avaliam que não vai ser fácil montar este grupo. Por uma razão simples: os extremistas estão longe de ter a mesma voz e discurso.

O alvo destes partidos é a própria União Europeia (UE). Ultranacionalista, a extrema-direita europeia vê o projeto de integração da UE como uma ameaça à soberania dos países e uma porta aberta à imigração. Quem vota nela recusa a ideia de que existe um "cidadão europeu", no lugar de um francês ou húngaro.

- Estes partidos vão explorar o fato de que uma fração importante da população europeia não gosta da forma como a UE está se construindo. Muitos aqui não se sentem cidadãos europeus: permanecem amarrados à ideia de pertencer a seu Estado-nação, às suas nacionalidades - explica Jean-Yves Camus.

Especialistas apostam em proteção institucional

O mundo dos extremistas de hoje não tem mais nada a ver com o mundo dos extremistas dos anos 1930, concordam Jean-Yves Camus, pesquisador do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicos (Iris), em Paris, e Piero Ignazi, cientista político da Universidade de Bolonha.

A Europa de hoje tem leis para combater o racismo, o antissemitismo e a negação do Holocausto. Se quiserem sobreviver, os grupos de extrema-direita têm que trabalhar no quadro de uma democracia parlamentar e se apresentar às eleições. Além disso, enfrentam um contrapoder, sobretudo da mídia - o que não existia nos anos 1930. Praticamente só resta um ponto em comum: o nacionalismo.

- Por conta do passado, a extrema-direita foi obrigada a mudar de roupa - constata Camus.

- E são roupas muito mais sofisticadas - acrescenta Ignazi.

O perfil do eleitorado e os problemas que os preocupam também mudaram.

- A extrema-direita contemporânea tem que lidar com ansiedades e problemas que emergiram nos anos 1980. E estes problemas são imigração e insegurança, perda de sentido das pessoas, que não sabem mais quem são. As transformações socioeconômicas dos anos 80 foram de tal ordem que a classe trabalhadora e as pessoas subempregadas não têm mais ideia do papel que desempenham na sociedade - explica Ignazi.

Não é a crise econômica, mas sim a crise de identidade e o medo da imigração estrangeira que explicam o sucesso dos partidos de extrema-direita na Europa, dizem os dois especialistas. A prova é que a extrema-direita progride a grandes passos na rica Suíça - onde não há crise - mas é praticamente inexistente em três países duramente castigados pela recessão, como Irlanda, Portugal e Espanha.

Reação da direita tradicional

Os dois especialistas rejeitam a ideia de que a Europa esteja em risco.

- Há uma onda (da extrema-direita), mas isso não é novo. Para mim, este fenômeno continua a ser limitado. As grandes democracias não estão em perigo - frisa Ignazi.

- O fogo do extremismo da direita não se propaga por toda a Europa - sustenta Camus, lembrando que extremistas estão em plena regressão em vários países do ex-bloco soviético no Leste Europeu, como República Tcheca, Romênia, Eslovênia, Eslováquia e Polônia.

Mas Ignazi vê um perigo: partidos da direita tradicional incorporando valores dos extremistas de direita.

- Este é o verdadeiro perigo: que o discurso deles (extremistas) penetre na sociedade em geral e nos partidos conservadores. E que, no futuro, conservadores façam alianças com eles - alerta.

oglobo.globo.com | 13-04-2014

LONDRES — A persistência da crise na Ucrânia — com a intensificação dos movimentos separatistas nas regiões com presença maciça de populações de língua russa — pode azedar de vez o clima entre Vladimir Putin e o Ocidente. Espera-se, agora, evitar que os focos de insurgência contra a capital, Kiev, terminem como a Crimeia. Caso contrário, Estados Unidos e União Europeia, que chegaram a anunciar sanções localizadas e consideradas quase leves contra os russos, terão de mostrar firmeza suficiente para não perder credibilidade. Especialistas afirmam que o Kremlin deixou claro ser capaz de traçar, no mapa, os limites da chamada Europa do Leste que os países ocidentais não podem ultrapassar.

— A pergunta fundamental agora é: se a Rússia insistir em apoiar essas regiões da Ucrânia, o Ocidente vai aceitar o traçado da nova fronteira europeia? — pergunta o diretor do Instituto de Rússia da Universidade King’s College, Sam Greene.

Para o especialista, que viveu em Moscou, Putin não deve repetir em Donetsk e nas outras regiões do Leste ucraniano a mesma solução dada à Crimeia. Por mais que tenham sido importantes centros industriais da União Soviética, essas áreas não seriam tão estratégicas para o Kremlin. Nos últimos dias, porém, diante do agravamento da tensão em outras áreas da Ucrânia, ele parece ser uma voz cada vez mais dissonante do resto.

Segundo Greene, a anexação da península do Mar Negro teve três explicações. Putin queria mostrar ao público interno que a Rússia ainda tem iniciativas políticas grandiosas, o que lhe conferiu mais alguns pontos de aprovação doméstica. Em segundo lugar, o Kremlin queria que Kiev entendesse de uma vez por todas que a Ucrânia não era totalmente autônoma. Por fim, a demonstração de ousadia e força nas barbas dos governos ocidentais teve por objetivo provar que a Rússia ainda detém o poder de “traçar” o risco no mapa dos limites que julga intransponíveis.

Para o especialista russo do Centro Carnegie de Moscou, Dmitri Trenin, os episódios recentes permitiram que Moscou saísse da passividade e, pela primeira vez desde 1989, se mostrasse novamente uma potência ativa. Outros dizem que se trataria de indícios de uma potência acuada. Trenin defende a ideia de que a geopolítica da nova Europa do Leste vai mudar fundamentalmente daqui por diante — assim como o papel de organismos internacionais criados depois da Segunda Guerra Mundial, tão importantes durante o período da Guerra Fria e cujos formatos vinham sendo considerados ultrapassados nos anos recentes. A relevância e o novo fôlego dessas instituições viria do fato de que ficou mais fácil identificar o adversário no horizonte.

“A relação entre a Rússia e a Otan terá uma natureza mais familiar, de adversários. Um impasse militar na Europa não será tão relevante quanto durante a Guerra Fria, mas haverá mais certezas do que nos anos recentes sobre quem é o adversário em potencial”, escreveu Trenin na revista “Foreign Policy”.

— A Rússia deu um novo significado à Otan. O formato pós-Guerra Fria envolvia a Rússia como um parceiro para a cooperação. Não se sabe se continuará assim depois de tudo o que aconteceu. A Otan terá de repensar a questão da segurança e reforçá-la de maneira mais concreta, com um foco mais voltado à Europa — afirmou Greene.

Para ele, a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) também ganha importância estratégica no novo cenário. Ao mesmo tempo, espera-se que a Rússia se isole. Se hoje tem assento em quase todos os foros internacionais, é bem possível que se dedique mais às relações bilaterais com a China, que deve se tornar um parceiro próximo e alternativo.

oglobo.globo.com | 09-04-2014
É uma denúncia da FNE. O acordo comercial que está a ser negociado entre a União Europeia e os EUA pode transformar as políticas de educação na Europa.
www.rtp.pt | 08-04-2014

RIO - A partir desta terça-feira, a obra completa de Sergio Paulo Rouanet, um dos maiores intelectuais do país, entrará em debate. O ciclo de conferências de três dias que começa hoje no Museu de Arte do Rio (MAR), e se estende para a Universidade Cândido Mendes, na quarta-feira, e para a Academia Brasileira de Letras (ABL), na quinta-feira, vai tratar das principais preocupações teóricas de Rouanet, que passeiam por campos do conhecimento como a ciência política, a filosofia, a psicanálise e a literatura. O Simpósio Sergio Rouanet — 80 anos é uma comemoração pelo aniversário do pensador, celebrado em 23 de fevereiro, e vai reunir intelectuais brasileiros e estrangeiros.

As comemorações começam às 18h de hoje, no MAR, com um encontro entre Rouanet e um velho amigo: o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que entrevistará o homenageado. O evento é fechado para convidados, mas será transmitido pela internet (www.simposi osergiorouanet.com).

— Ele topou participar mais por ser meu amigo do que por precisar de diálogo intelectual — brinca Rouanet, que tem 14 livros publicados e no momento organiza o quinto volume das cartas de Machado de Assis, editadas pela ABL.

Uma das dimensões da obra do intelectual, imortal da ABL desde 1992, é a ciência política, área de seu doutorado na Universidade de São Paulo. Por isso, o primeiro tema do segundo dia de debates, na Cândido Mendes, será a democracia. A experiência de Rouanet com a política ocorreu em instituições públicas, como o Itamaraty, onde ele chegou a embaixador, e o Ministério da Cultura, no qual participou da criação da Lei Rouanet.

A conferência, que reunirá o também imortal da ABL Celso Lafer, o embaixador Marcílio Marques Moreira e Thomas Trebat, da Universidade de Columbia, entre outros, propõe uma pergunta: as democracias nacionais podem existir sem uma democracia mundial?

— Temos que caminhar nesse sentido. Ninguém jamais supôs que a União Europeia surgiria com a abrangência que surgiu — afirma Rouanet. — A gente tem que superar a patologia das intervenções, as guerras unilaterais, e caminhar no sentido de uma universalização maior.

O intelectual acredita que o debate, que também tratará do conceito de modernidade, passe ainda pelo tema da democracia representativa, em pauta desde as manifestações de 2013.

— As manifestações pelo mundo surgiram porque os canais habituais de representação por partidos não davam mais conta da insatisfação das pessoas — diz Rouanet. — Mas é preciso diferenciar dois tipos de indignação. Há os que não se sentem representados pelo Congresso, mas querem que ele exista. E há os anarquistas, que incendeiam pneus na rua. São dois grupos de diferentes tradições.

Síntese de Freud e Marx

Em um de seus livros mais conhecidos, “Teoria crítica e psicanálise”, Rouanet analisa a relação entre a teoria de Freud e pensadores que buscaram uma síntese entre a psicanálise e o marxismo, como Erich Fromm e Wilhelm Reich. O terceiro dia de debates, na ABL, vai questionar se essa síntese ainda é possível.

— Acho que Freud ficaria horrorizado com a criação de uma utopia freudiana-marxista — diz Rouanet, defendendo, porém, que a psicanálise deve ser usada para estudar a ordem social.

Ao final, o simpósio discutirá se ainda faz sentido falar em literaturas nacionais, considerando-se que, desde o romantismo, a literatura brasileira se empenhou em criar uma identidade de nação.

— Goethe dizia que a divisão em literaturas nacionais era uma forma errada de exprimir a vitalidade da literatura. Hoje o Brasil é um país plenamente desenvolvido, os autores podem se permitir um gesto desnacionalizante — afirma Rouanet.

oglobo.globo.com | 08-04-2014

BUDAPESTE - Muito antes dos resultados das urnas, não havia dúvidas de que o Fidesz, partido populista de direita do primeiro-ministro Viktor Orban, sairia vitorioso das eleições legislativas húngaras deste domingo. Conhecido por suas políticas conservadoras, o partido teve vitória confirmada pelos resultados provisórios fornecidos pela televisão local. Até à noite de segunda-feira, ele tinha conquistado 44,8% dos 70% dos votos.

A União, coalizão de esquerda que conta com cinco partidos (sendo o socialista o maior), foi prejudicada por sua fragmentação interna, e pelo escândalo de corrupção que estourou durante a campanha. Mesmo assim, conseguiu manter-se como segunda maior força política do país, conquistando 25, 2% dos votos, de acordo com a mesma pesquisa. Já o Jobbik, da extrema-direita, consolidou seu nicho e até melhorou seus índices em relação às últimas eleições. Depois de moderar seu discurso racista para focar na crise econômica e em seu perfil antissistema, passou dos 16,7% de 2010 para 21,3%.

O eleitor comum húngaro mostrou que não está interessado por questões como a União Europeia. Diversas organizações internacionais alertaram sobre a virada autoritária que a Hungria tomou com Orban desde 2010. Pouco preocupado em debater ideias, programas ou a própria erosão da democracia, Orban ganhou esta eleição apostando no nacionalismo e no populismo. Apresentou-se como um defensor da independência húngara face aos “tecnocratas europeus” e promoveu reduções nas contas de energia para as famílias. Desde janeiro de 2013, as contas de luz e gás enviadas vêm junto com a informação de quanto os usuários ganharam de desconto. Orban poderá agora continuar o trabalho que começou em 2010, quando ganhou com uma enorme maioria dos dois terços no Parlamento, um domínio que resultou em 800 leis em quatro anos e uma nova constituição, que acabou sendo alterada cinco vezes. O governo tentou estender seu controle nos meios de comunicação, no sistema eleitoral, nas comunidades religiosas e até mesmo no sistema de justiça. Seu estilo de governo tem poucos limites. No ano passado, por exemplo, reduziu os poderes do Tribunal Constitucional e também decidiu ignorá-lo. Apesar das queixas internacionais, Budapeste mudou sua carta magna para incluir em uma série de leis que os juízes haviam rejeitado.

Outras reformas, no entanto, tiveram um impacto silencioso. A atmosfera dos tribunais é muito diferente desde que o Fidesz chegou ao poder. O Governo deu a uma única pessoa o poder para nomear os presidentes de cada tribunal. A mudança das leis também afetaram a economia, estabilizada mas também congelada. Para limitar as contas de gás e luz das famílias, o governo obrigou as empresas a pagarem as diferenças. Impôs taxas especiais a bancos e, para reduzir o déficit e deixá-lo nos 3% exigidos por Bruxelas, nacionalizou os fundos privados de pensão. Orban gosta de fazer declarações sensatas (como “A carga da crise não podem recair nas pessoas”, por exemplo), mas aplicou cortes na saúde e na educação.

oglobo.globo.com | 07-04-2014

KIEV — A cantora ucraniana Mariya Yaremchuk, de 21 anos, tem uma difícil responsabilidade pela frente. Selecionada para participar do Festival Eurovision de Televisão, ela defenderá seu país, imerso em uma crise política com a Rússia.

A 58ª edição do Eurovision está marcada para o dia 10 de maio na capital dinamarquesa, Copenhague. O concurso de música é transmitido ao vivo pela televisão anualmente para todo o continente europeu.

Mariya foi escolhida para o festival em dezembro passado, na segunda tentativa de chegar ao festival continental — na primeira vez ficou em quinto lugar. No mesmo mês em que foi classificada, os ucranianos tomavam a Praça da Independência em protesto contra a decisão do então presidente — posteriormente deposto — Viktor Yanukovich de aceitar um acordo econômico com a Rússia em vez de escolher pela União Europeia.

“É difícil pensar no Eurovision quando a situação no país está tão delicada. É muito difícil se concentrar com tanta tristeza e protestos”, declarou já eleita, e com as manifestações em andamento.

Ao jornal russo “Komsomolskaya Pravda”, a cantora comentou a situação em que se encontra frente ao cenário político do seu país de origem. Ela foi eleita com a canção “Tick-Tock” que, segundo ela, não condiz com o atual momento.

“Tentei mudar a canção, porque quero cantar sobre coisas sérias, e é difícil defender uma atuação alegre e graciosa quando existe essa situação em meu país. Não foi possível (trocar a música), porque as regras impediram.”

Mariya nasceu na cidade de Chernivtsi, Sul da Ucrânia. A música na vida dela tem raízes dentro da própria casa: o pai, Nazar Yaremchuk, era um cantor popular do país e morreu quando a filha tinha 2 anos. Quatro anos após a morte de Yaremchuk, Mariya se matriculou na escola de música. Desde cedo tinha o sonho de chegar um dia ao festival e, para tanto, frequentou muitos concursos do gênero na Ucrânia.

oglobo.globo.com | 29-03-2014

Os Estados Unidos caem novamente em contradição lógica. Como o que aconteceu com a ameaça de ação militar contra a Síria, o governo Obama na questão da Rússia e da Ucrânia vai além do que o país está disposto e é capaz de impor.

No começo do mês, o Presidente Barack Obama alertou que os EUA "isolariam a Rússia" caso ela tomasse mais territórios, e esta semana indicou a possibilidade de mais sanções. De igual modo, o secretário de Estado, John Kerry, declarou que o G7 estava "preparado para fazer de tudo" para isolar a Rússia.

Mas o discurso de Washington é perigosamente excessivo, por três razões principais: a Ucrânia é bem mais importante para Vladimir Putin do que para os EUA; será difícil para os Estados Unidos e a Europa cumprirem as suas ameaças de sanções severas; e outros países podem, no final das contas, enfraquecê-los.

Em primeiro lugar, os Estados Unidos precisam enxergar a crise da Ucrânia sob o ponto de vista russo. As ameaças dos EUA e da Europa nunca serão o fator determinante na tomada de decisão de Putin. A Ucrânia é a única questão de segurança nacional da Rússia além das suas fronteiras, e as políticas de Putin, inclusive se vão ou não anexar mais territórios da Ucrânia, serão formadas preponderantemente pelos interesses da segurança nacional, e não pela economia de curto prazo.

Além disso, a Rússia já deu cerca de US$ 200 bilhões a US$ 300 bilhões à Ucrânia em subsídios para o gás natural desde 1991. No caso de um governo ucraniano que não seja pró-Rússia, é provável que Moscou interrompa esses subsídios, eliminando uma carga econômica enorme justo quando o Ocidente tenta pressioná-la financeiramente.

Em segundo lugar, se a Rússia empreender novas incursões na Ucrânia, a tentativa dos EUA de sanções mais rígidas semelhantes às do Irã, coordenadas com os aliados, fracassarão no final. De fato, se Putin insistir em uma campanha militar mais abrangente, é improvável que haja uma reação semelhantemente robusta por parte tanto dos EUA quanto da Europa.

As exportações de energia da Rússia, o seu poder comercial e o seu tamanho tornam os custos do seu isolamento proibitivamente altos para a Europa. Apesar da recente exclusão da Rússia do G7, os europeus não querem chegar a extremos. O embaixador da Ucrânia para a União Europeia chamou as atuais sanções de uma "picada de mosquito"; e mesmo essas ações modestas deixaram muitos governos europeus ariscos. O Reino Unido e a França têm agido com muita cautela, os austríacos e os cipriotas mais ainda. (A Áustria compra mais da metade do seu gás natural da Rússia; Chipre tem grande envolvimento bancário com a Rússia.)

E finalmente, mesmo que os EUA tentem sanções severas, outras nações irão ignorá-las e compensarão qualquer dano causado. A Índia se recusa totalmente a tratar a Rússia como vilã. E o mais importante, a China não observará essas sanções.

O problema básico é que o governo Obama não quer assumir os custos envolvidos com uma política externa ativa. Isso é compreensível. Uma pesquisa feita pela Pew em dezembro revelou o menor nível de apoio da opinião pública a uma política externa ativa nos EUA desde 1964.

Essa pressão interna é evidente na Síria. O erro de Obama não foi recuar de uma ação militar e aceitar a proposta russa para eliminar as armas químicas da Síria. O erro foi impor limites cuja manutenção seria mais onerosa do que os EUA estavam dispostos a tolerar. Os EUA perderam a credibilidade internacionalmente por não cumprirem a ameaça.

Infelizmente, o governo está repetindo o mesmo erro na Ucrânia.

Quando a Rússia prosseguiu com a anexação da Crimeia, os Estados Unidos e a Europa reagiram com medidas severas que tiveram certo impacto econômico. Porém, eles de maneira alguma "fizeram de tudo". Em vez disso, os americanos e europeus estabeleceram um limite maior na questão ao fazer ameaças vãs de sanções abrangentes caso a Rússia tentasse tomar mais territórios da Ucrânia.

Tal retórica incisiva do Ocidente poderia forçar Putin a ser ainda mais agressivo. Isso porque ele não acredita que o Ocidente irá tratar a Rússia como trata o Irã, e que instituirá sanções severas que isolariam do Ocidente grandes áreas da economia russa. Como Putin explicou recentemente, em um mundo globalizado "é possível prejudicar o outro — mas isso haveria dano recíproco".

"Isolar a Rússia" como se ela fosse o Irã ou a Coreia do Norte não é uma ameaça que os EUA podem cumprir de forma viável. Só porque Putin está agindo como líder de um Estado vilão, o seu país não pode ser considerado vilão. A Rússia possui a oitava maior economia do mundo. Considerando a vulnerabilidade das corporações americanas em relação à Rússia, haveria sérios retrocessos no setor privado caso Obama tente atribuir a ela a posição de Estado vilão. O governo Obama precisa pregar o que de fato irá fazer. Do contrário, a credibilidade dos EUA pode diminuir ainda mais quando o país volta atrás em suas palavras.

Uma reação mais linha dura não é a solução. Obama estava certo em rejeitar a alternativa militar; a diplomacia é o único caminho viável para os EUA.

Contudo, Washington precisa antecipar uma resposta do ponto de vista russo. Em um grande discurso na quarta-feira, Obama sugeriu que mais medidas seriam criadas caso a Rússia mantenha o curso atual. Isso é um erro. A Rússia não vai voltar a trás, e tal conversa só aumentará as tensões.

O governo americano deveria se concentrar no apoio a Kiev, em vez de na punição de Moscou. Isso significa usar a sua influência na Europa para garantir que esse apoio dê certo, e que o novo governo da Ucrânia não faça nada que provoque uma resposta extrema. Isso exigirá um reconhecimento dos interesses centrais da Rússia e das limitações dos EUA — e um fim às ameaças vazias.

* Ian Bremmer é presidente do Grupo Eurásia e professor de pesquisa global da Universidade de Nova York.

oglobo.globo.com | 29-03-2014

SÃO PAULO — Na última semana, uma lista com mais de 5.200 sobrenomes — dentre eles alguns comuns no Brasil como Oliveira ou Silva — tomou as redes sociais com a promessa de que, quem aparecesse por lá, teria o direito a cidadania espanhola. A base do rumor é verdadeira: um projeto de lei do governo espanhol que promete conceder a nacionalidade a quem demonstre suas raízes sefarditas (descendentes de judeus originários de Portugal e Espanha). Mas o projeto de lei ainda precisa passar por vários trâmites e nada tem a ver com uma distribuição indiscriminada de passaportes. E, mesmo desmentida pelo Ministério da Justiça espanhola, a lista continua circulando.

A iniciativa, sujeita ainda a possíveis mudanças, promete a nacionalidade àqueles que consigam “certificar sua condição de sefardita por meio de uma série de provas e indícios, além da sua vinculação com a Espanha ou com a cultura espanhola, no seu sentido mais amplo”. Em entrevista ao jornal “El País”, o rabino Samy Pinto, da Sinagoga Ohel Yaacov em São Paulo, confirma ter recebido quase 100 famílias em busca de suas raízes e a documentação necessária para certificá-las.

— O que as traz até aqui é um passo puramente emocional. Na psicologia do sefardita a memória não se apagou. Ele é extremamente nostálgico. Adora lembrar o passado através das músicas, dos grandes pensadores, da liturgia. Existe una relação de amor entre os judeus sefarditas e os seus países de origem que se manifesta claramente neste episódio — diz.

O religioso, porém, lamenta que 25% das suas visitas não são tão motivadas por saudade, mas pela ambição de possuir um documento europeu que lhe permita circular e trabalhar livremente no continente.

— Me empolgo menos com essa possibilidade, mas existe sim uma corrida para obter o passaporte.

O enorme interesse pela iniciativa no Brasil, onde a comunidade judaica conta com cerca de 110 mil fieis, é explicada por Antón Castro Míguez, professor do Centro de Educação e Ciências Humanas.

— Está muito enraizada a ideia de que há, no Brasil, um grande número de pessoas que descendem de cristãos-novos portugueses (judeus que se converteram ao cristianismo por conta da perseguição da Inquisição, mas que mantiveram sua fé). Isso gera a sensação de que somos todos descendentes desses judeus. Há muitos estudos de genealogia que comprovam a ascendência judaica de pessoas ilustres, como Chico Buarque, por exemplo — explica o professor ao jornal espanhol.

O presidente executivo da Federação Israelita do Estado de São Paulo, Ricardo Berkiensztat confirma a repercussão da notícia — a verdadeira e a falsa — no seu entorno.

— Dentro da comunidade judaica se tornou um tema importante e com a velocidade do Facebook fez com que muitas pessoas tivessem acesso a essa informação e procurassem ainda mais. Mas esta não é uma iniciativa exclusiva da Espanha. Já (em 2008) houve uma corrida ao consulado da Polônia (na União Europeia desde 2004) para requisitar a cidadania polonesa pelo mesmo motivo — afirma Berkiensztat.

Há anos, a Espanha estuda um modo de conceder a nacionalidade aos descendentes dos judeus sefarditas que foram expulsos da Península Ibérica em 1492. Trata-se de um compromisso pessoal do rei da Espanha manifestado em múltiplas ocasiões. Os representantes da comunidade judaica no Brasil, influente, porém, não mais numerosa que em outros países como a Venezuela, sabem há dois anos e por boca do embaixador espanhol no Brasil que o projeto estava em marcha. Foi o Príncipe Felipe quem confirmou pessoalmente, na sua última visita ao país há duas semanas, a disponibilidade da Espanha para “reparar um erro histórico”.

oglobo.globo.com | 26-03-2014

LONDRES - O ar imprescindível para a vida do homem é, também, uma das maiores causas de sua morte. Segundo um novo relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS), um em cada oito óbitos no mundo - o equivalente a 7 milhões de casos - é causado pela poluição atmosférica. O levantamento levou em conta dados coletados em 2012. Quatro anos antes, foram constatadas 3,2 milhões de mortes devido à poluição do ar.

Grandes cidades tentam driblar a baixa qualidade do ar com máscaras - como ocorre nas metrópoles chinesas - e com rodízio de carros - medida adotada na semana passada por Paris. A OMS, no entanto, acredita que os “problemas básicos” sobrevivem a estas iniciativas.

- O poder público precisa definir a poluição do ar como um problema prioritário e que vai ser respondido por medidas específicas e em um tempo determinado - ressalta Carlos Dora, coordenador do Departamento de Saúde Pública e Determinantes Sociais e Ambientais da OMS. - As empresas particulares perceberão que um novo mercado foi criado, e investirão em soluções.

A OMS investigou a ligação entre a poluição e estudos epidemiológicos. Os principais males causados pelo ar poluído são doença cardíaca isquêmica, infecção respiratória, derrame e câncer de pulmão.

- Além de contarmos com estudos sobre epidemias, que nunca havíamos considerado em nossos relatórios, conseguimos associá-los a outros fatores de risco, como tabaco, pressão arterial e dieta - explica Dora.

Nos próximos meses, a OMS divulgará a lista das cidades com pior qualidade de ar do planeta.

Embora o número de óbitos tenha mais do que duplicado entre os relatórios, o pneumologista Hermano Castro, diretor da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), acredita que a conta ainda não reflete a realidade.

- Vários países não têm estatísticas confiáveis. Os pacientes morrem sem diagnóstico, então não sabemos quantos casos podemos atribuir a doenças que podem estar ligadas à poluição do ar, como pneumonia e infecções respiratórias - lembra.

Países do Sudeste Asiático e de regiões do Pacífico Ocidental registraram a maior quantidade de óbitos relacionados à qualidade do ar - somados, ambas regiões respondem por mais dos 3,3 milhões de casos. Em seguida vieram África, a região do Mediterrâneo Ocidental, Europa e Américas. Das 7 milhões de mortes, apenas 19 mil foram em nações de alta renda.

As mulheres experimentem níveis mais elevados de exposição pessoal à poluição - e, por isso, correm mais risco de desenvolver efeitos adversos à saúde -, mas os homens respondem pela maior parte dos óbitos, devido à combinação da baixa qualidade do ar com outras doenças.

Cerca de 4,3 milhões de óbitos são atribuídos à poluição de origem doméstica, enquanto 3,7 milhões derivam da exposição à poluição externa. Além dos índices mapeados nas pesquisas anteriores, a OMS fez inventários de emissões por satélite e observou o deslocamento dos poluentes na atmosfera. O novo método, destaca Dora, aumentou a visualização de áreas rurais, onde vive metade da população mundial.

O campo, porém, não era a única região que fugia da lupa da OMS. Diversos poluentes da cidade, como o uso de energia em edifícios e as emissões dos meios de transporte e da construção civil, eram subestimados.

oglobo.globo.com | 26-03-2014

MADRI - A manifestação que levou milhares de pessoas às ruas de Madri para protestar contra as medidas de austeridade econômica na Espanha acabou em violência. Segundo informações da agência Reuters, o ato, chamado de Marcha da Dignidade, era predominantemente pacífico, mas foi marcado pelo atrito entre manifestantes e policiais. A marcha foi convocada para denunciar a "urgência social" no país e protestar contra as políticas da chamada Troika, organização formada por União Europeia (UE), Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Central Europeu (BCE).

Ainda de acordo com agências internacionais, o conflito começou quando alguns manifestantes jogaram pedras e garrafas em policiais que acompanhavam a passeata. A polícia, então, respondeu com balas de borracha. Segundo o governo espanhol, 19 manifestantes foram presos e 50 policiais ficaram feridos, um deles de forma grave. Não havia informações sobre manifestantes feridos.

Alguns dos manifestantes caminharam de outros estados, como Andaluzia, ao Sul, e Catalunha, no Nordeste, até Madri. Os primeiros a chegar passaram a noite na entrada da capital. O ponto de encontro foi marcado na estação de metrê Atocha, para as 15h, horário local. Mais cedo, a previsão era qie os manifestantes seguissem até uma das grandes avenidas da capital espanhola, empunhando cartazes com lemas como "Não ao pagamento da dívida", "Nenhum corte mais", "Fora os governos da Troika" e "Pão, trabalho e teto para todos e todas".

Os organizadores anunciaram que foram mobilizados centenas de ônibus e ao menos quatro trens para trazer os manifestantes à capital. As autoridades madrilenhas mobilizaram cerca de 1,7 mil policiais para garantir a segurança, em meio a temores de incidentes pela possível presença de grupos contrários ao governo.

A austeridade sem precedentes aplicada pelo governo conservador desde o final de 2011 para reduzir o déficit e a dívida do país já resultou em duas greves gerais em 2012, que levaram milhares de pessoas às ruas. No entanto, a mobilização logo perdeu força, ainda que estivesse sustentada principalmente pelos setores de educação e saúde, severamente afetados por cortes de 150 milhões de euros ao longo de três anos.

oglobo.globo.com | 22-03-2014

NÁPOLES - Muralhas, templos e afrescos de Pompeia resistiram à ira de um vulcão e a quase dois mil anos de estudos científicos e visitas turísticas. Agora, no entanto, o Patrimônio Mundial da Unesco ameaça ceder. Tempestades põem a resistência das antigas paredes à prova. Furtos e cortes de afrescos mostram ao mundo a vulnerabilidade do tesouro arqueológico. A reputação italiana desmorona diante de promessas não cumpridas de investimentos. Não há câmeras de vigilância mirando obras preciosas, imunes a saques como o divulgado na semana passada.

Ladrões ainda não identificados invadiram uma área fechada das ruínas, furtando o retrato de uma divindade grega. O crime — descoberto por um guarda, durante uma ronda — foi “a remoção de parte de um afresco da Casa de Netuno”, onde uma representação da deusa Ártemis havia sido retirada com um objeto metálico, segundo um comunicado divulgado na terça-feira pela curadoria do sítio arqueológico romano.

A polícia abriu uma investigação para encontrar o fragmento, de cerca de 20 centímetros de comprimento, roubado de uma área fechada ao público, deixando uma marca branca no afresco cor de rosa, onde o deus Apolo posa tristemente solitário.

O crime provocou indignação na Itália. O jornal “Il Messaggero” descreveu o episódio como “uma vergonha para o país” — e é ainda mais constrangedor porque houve recentemente a troca do superintendente do sítio.

Comissária europeia de Educação, Juventude e Cultura, Androulla Vassiliou afirmou estar “verdadeiramente triste” com o crime. À agência de notícias italiana Ansa, ela declarou que os ladrões “levaram um patrimônio sem preço, que pertence a todos os cidadãos, italianos e europeus, e a gerações futuras”.

O arqueólogo Umberto Pappalardo, da Universidade Suor Orsola Benincasa, acredita que ladrões comuns estejam por trás do furto, em vez de criminosos especialistas em roubo de obras de arte, que poderiam levar a peça ao mercado internacional.

— Vender um afresco roubado de um sítio arqueológico tão conhecido como Pompeia seria uma encomenda muito, muito especial — avaliou. — Certamente não há um mercado para isso na Itália.

Em janeiro, o fragmento de um afresco levado de outra localidade do sítio arqueológico foi entregue à curadoria em um pacote anônimo.

O novo superintendente de Pompeia, Massimo Osanna, declarou à imprensa italiana que “tudo está sendo feito” para recuperar a pintura de Ártemis. Segundo ele, o reforço da segurança é uma de suas prioridades.

Os curadores revelaram que a polícia analisará imagens das câmeras de vigilância no perímetro do sítio arqueológico. No entanto, segundo eles, nenhum equipamento registrou movimentação dentro das ruínas.

Os recorrentes furtos e o colapso das ruínas têm atraído a preocupação internacional. Para os arqueólogos, um dos mais famosos patrimônios da Humanidade está sendo negligenciado pelo governo de Nápoles.

O Templo de Vênus e paredes de um túmulo foram danificados este mês devido a uma série de tempestades, levando a União Europeia a exortar a Itália a “cuidar de Pompeia, porque ela é emblemática não só para a Europa, como também para o mundo”. A Unesco afirmou que “tudo entrará em colapso se não forem tomadas medidas urgentes”. Como resposta, o governo italiano prometeu destinar cerca de US$ 2,8 milhões em iniciativas já em andamento para revitalizar a região.

O primeiro-ministro Matteo Renzi também apelou para que investidores privados contribuam com a restauração das ruínas.

Presidente do Observatório do Patrimônio Cultural, Antonio Irlando destacou como os roubos afetam a imagem do país no exterior.

— O desaparecimento do afresco da Casa de Netuno pode ser classificado como outro “colapso de Pompeia” — lamentou. — No entanto, o que desmoronou desta vez não foram paredes, mas a preciosa reputação da Itália.

No ano passado, a União Europeia anunciou o financiamento de projetos de revitalização de Pompeia, que destinariam US$ 136 milhões ao sítio arqueológico. Mas, de acordo com o jornal “Corriere della Sera”, apenas US$ 764 mil — cerca de 0,5% — foram desembolsados.

O programa é considerado crucial para a sobrevivência do sítio de 44 hectares à sombra do Monte Vesúvio, o vulcão que destruiu a cidade no ano 79 d.C..

oglobo.globo.com | 22-03-2014

PEQUIM — Desde que Xi Jinping assumiu a Presidência da China há exatamente um ano, boa parte do “sonho chinês” tem sido reforçar o peso do país na arena internacional com base nos valores universais. A China deveria dar impulso à democratização das relações internacionais e buscar uma ordem mundial mais justa e tolerante.

Ante à crise da Crimeia, no entanto, a China mergulhou no silêncio. Pensava-se que o veto do país sobre a Síria em aliança com Moscou começaria a ser um contrapeso ao Ocidente. Mas com a resolução das Nações Unidas para declarar ilegal o referendo da Crimeia, a China se absteve de votar. A atitude não favoreceu nem a Rússia, nem a contraparte formada por Estados Unidos, França e o Reino Unido.

A razão é que esse conflito tem implicações para as relações bilaterais e, potencialmente, na condução internacional de seus próprios assuntos domésticos.

— A China respeita a soberania, a independência e a integridade territorial de todos os países. Nossas sugestões se concentram em estabelecer um mecanismo de cooperação internacional em que todas as partes encontrem uma solução política para atenuar a crise ucraniana — disse Qin Ganh, porta-voz da Chancelaria chinesa, a respeito da abstenção do país.

A China sabe que, ao assumir uma posição, afetaria a relação com alguma das partes.

— A posição da China é muito complicada. A abstenção era a única saída, mas acaba favorecendo aos Estados Unidos — sinaliza um especialista em relações internacionais do centro Carnegie-Tsinghua, em Pequim, em condição de anonimato. — Ainda precisamos de tempo para ver como se desenrola a situação. Mas, no momento, parece que (a abstenção) terá uma impacto negativo nas relações bilaterais com a Rússia.

Outros analistas oferecem um ponto de vista diferente. É o caso de Wu Nanlin, professor da Universidade de Tecnologia de Harbin, especializado em economia russa.

— China protegeu seus próprios interesses ao abster-se, sem prejudicar os da Rússia e nem os dos Estados Unidos. A relação com Moscou seguirá igual, já que sempre estiveram apoiados um no outro, em equilíbrio.

A Rússia — e antes a União Soviética — é uma parceira estratégica da China em assunto de política e economia. Ambos os países, sem ser aliados formais, sustentam vínculos comerciais estreitos. Em 2013, firmaram 21 tratados comerciais, entre os quais incluem um acordo que proporcionará 100 milhões de toneladas de petróleo à empresa estatal chinesa Sinopec. Esse acordo converteu a China no maior comprador de petróleo russo.

Nem tudo é economia, contudo. A afinidade política e ideológica entre os dois países vem de anos atrás. É comum que se apoiem entre si nas votações do Conselho de Segurança, quase sempre alinhadas ao princípio de não intervenção e respeito à soberania. No entanto, apesar desses vínculos, a China considera difícil e até prejudicial para seus interesses e à sua coesão territorial apoiar as ações de Moscou sobre a Ucrânia.

A posição frente ao referendo da Crimeia coloca o país em uma situação sem saída. Por um lado, a decisão é um paralelo do que poderia se passar com regiões como Xinjiang e o Tibete, de etnias diferentes da maioria e que estariam prestes a se tornar independentes, ou de uma potencial separação definitiva de territórios que a China considera seus, como Taiwan e até mesmo Hong Kong.

Emitir uma crítica ou se opor às sanções russas seria recebido como uma intervenção nos assuntos internos de outros países, algo que a China tradicionalmente se opõe para se proteger da ingerência de terceiros. Tampouco é viável se aliar aos Estados Unidos nesta situação, porque daria base ao Ocidente a uma eventual interferência em seus assuntos internos. Além disso, opor-se às sanções econômicas é uma mostra de boa vontade para Moscou.

Existem, inclusive, os interesses na Ucrânia, um aliado em termos econômicos e militares. As transações comerciais de mais de US$ 5 milhões e a cooperação tecnológica entre Pequim e Kiev são fatores para que Washington e Moscou entendem a posição chinesa.

oglobo.globo.com | 21-03-2014

WASHINGTON — O presidente dos Estados Unidos Barack Obama aprovou na última quinta-feira sanções econômicas contra a Rússia e ameaçou com um “isolamento político” se as tropas do presidente Vladimir Putin continuarem a se apropriar do controle da península da Crimeia, na Ucrânia. Durante as últimas duas semanas, a União Europeia hesitou em impor sanções ao regime do ex-presidente ucraniano Victor Yanukovich. E, ao mesmo tempo, o bloco abria a porta a uma nova via de relações bilaterais com Cuba. Há uma mudança na política de embargos? Essas medidas atingem seus fins? Quem é prejudicado pelas sanções?

O objetivo dos embargos internacionais econômicos é “mudar o comportamento dos regimes autoritários para melhorar a situação do país”, segundo a UE. Mas os pesquisadores e as ONGs de direitos humanos consultadas — Human Rights Watch e Anistia Internacional — concordam que, com exceção da África do Sul, onde as sanções de 1987 contribuíram para terminar com o regime racista do apartheid, essas medidas não são só a causa de um “impacto fatal” na população, como também não são eficazes para alcançar seus objetivos.

Desde 2008, no entanto, esses isolamentos foram aperfeiçoados e ficaram conhecidos como “sanções inteligentes”, afetando apenas determinados cidadãos e empresas. Dessa forma, pretende-se evitar o sofrimento indiscriminado da população. Atualmente são 22 os países alvos de sanções inteligentes por parte da ONU, segundo o Sanctionsapp, um aplicativo desenvolvido por uma equipe da Universidade de Brown, nos Estados Unidos, e do Graduate Institute, Suíça.

— Ninguém se beneficia com as sanções internacionais — afirma Daniel Keohane, diretor de Pequisa do Fride, um centro de pesquisa europeu sobre política externa.

Ele sustenta, convencido, que “a outra opção é a guerra”, tese compartilhada por quase todos os especialistas consultados:

— A única razão para a imposição de sanções é evitar uma intervenção militar no país.

As sanções econômicas existem desde o ano 433 a.C, quando Péricles, pouco antes de começar a primeira guerra do Peloponeso, impôs o decreto de Megara pelo qual os mercadores foram excluídos do comércio de Atenas. O motivo: os megareses supostamente haviam ocupado terras sagradas para serem cultivadas. A economia foi colapsada.

Mas somente 25 séculos depois, a partir de 1960, esse ato de “violência econômica” se tornou popular, segundo Carlos Espósito, catedrático de direito internacional público da Universidade Autônoma de Madri. Os Estados Unidos, para punir o regime comunista de Fidel Castro por expropriar terras e bens de cidadãos americanos na ilha, impôs de forma unilateral um embargo econômico ao país caribenho que dura até hoje. Em Cuba, a escassez de equipes médicas em hospitais e medicamentos segue afetando os habitantes que sofrem os efeitos “desastrosos” das sanções, de acordo com a Human Rights Watch. Já somam-se 54 anos de castigo, e o regime castrista perdura.

— As sanções podem ajudar a flexibilizar alguma política, como o enriquecimento de urânio do Irã ou interromper o programa de armas químicas que o já falecido Muamar Kadafi desenvolvia na Líbia. Mas, para promover a democracia, tem sido um completo fracasso. A população é que sofre todas as consequências — comenta Richard Younghs, ex-diretor da Fride.

Mas as sanções econômicas não acabaram com o regime castrista em Cuba, nem com Muamar Kadafi na Líbia.

No último dia 20 de janeiro, a política externa do Irã experimentou um dos maiores pontos de inflexão. Os Estados Unidos e a UE fizeram uma declaração de intenções e anunciaram o início da retirada de algumas das sanções econômicas que pesavam sobre o regime desde a Revolução Islâmica, em 1979. A decisão foi uma compensação ao avanço das negociações sobre a suspensão do programa nuclear do presidente iraniano Hassan Rouhani.

O Vietnã é a outra face da moeda. O país asiático sofreu um bloqueio americano durante três décadas (1964-1994). Mas a decisão do ex-presidente Bill Clinton em propor o fim dos embargos significou a decolagem do país que, anos mais tarde, se converteu em uma economia competitiva.

— Os embargos não têm sido eficazes para derrotar os regimes e ditadores — argumenta o pesquisador do Peterson Institute Gary Hufbauer e também autor de Economic Sanctions Reconsidered (Sanções Econômicas Reconsideradeas, em tradução livre).

Em um país embargado, os cidadãos se veem desprovidos dos instrumentos mais básicos para a sobrevivência: medicamentos, acesso à água potável, material de construção, alimentos, eletricidade. É o caso da Faixa de Gaza, que sofre um duro bloqueio israelense desde 2006.

— Além do mais, os produtos encarecem e os mais vulneráveis (doentes, idosos e desempregados) não podem enfrentar (a situação) — explica Reinhard Lamfuss, da Anistia Internacional.

Mas alguns pesquisadores como Keohane, o consolo é que “ao menos não estão em guerra”. Trata-se, ele defende, de a “menos ruim” das opções.

Sussane Gratius, especialista em América Latina, acredita que as sanções econômicas “não são um instrumento que sirvam para promover a democracia”. O governo, contra o qual as medidas se destinam, com poucas margens de manobra, atribui a opressão de seus cidadãos aos embargos.

oglobo.globo.com | 17-03-2014

MADRI - A Finlândia acumula dois anos em recessão e corre o risco de sair do exclusivo clube de países com triplo “A”, atribuído pelas agências de classificação de risco e integrado também por Alemanha e Luxemburgo. A economia nórdica parecia ter lidado bem com a crise mundial desatada com a quebra do banco americano Lehman Brothers, em setembro de 2008, mas os alarmes já soaram, especialmente devido ao enfraquecimento da Nokia e a problemas nos setores de papel, metalurgia e naval.

A Finlândia fechou 2013 com uma queda de 1,4% em seu PIB, num momento em que a maioria das economias da zona do euro começa a se recuperar. E as previsões são ruins. É inegável que a deterioração da economia finlandesa coincida com a abrupta queda de sua empresa símbolo, a Nokia.

— O êxito da Nokia e da indústria eletrônica tornou possível longo período de crescimento econômico. Os superávits orçamentários foram consideráveis e o desemprego caía. Tudo isso criou ambiente em que os salários aumentaram, assim como o gasto público. Agora, está claro que não era o adequado para um desenvolvimento sustentável — diz Sixten Korkman, professor de Economia da Universidade Aalto.

Plano de austeridade

O país também foi afetado pela deterioração da indústria de papel, outro pilar da economia local, com queda na produção de 28% entre 2007 e 2013. A indústria metalúrgica e o setor de naval, duas peças importantes na estrutura econômica do país, passam por dificuldades.

— Isso se reflete em uma rápida deterioração da produção industrial e na perda da competitividade. Não há caminho fácil ou veloz para crescer. Precisamos de política econômica sólida — afirma Korkman.

O amplo governo de coalizão, liderado pelo primeiro-ministro Jyrki Katainen, trabalha para adotar um plano de austeridade e cortar € 3 bilhões do orçamento. Hoje, o déficit público chega a € 10 bilhões. Já a dívida soberana cresceu dois pontos percentuais em 2013, para 56,9% do PIB. Analistas concordam que, nesse ritmo, a dívida da Finlândia vai superar 60% do PIB, limite estabelecido pela União Europeia.

— O problema é que dependemos de umas poucas empresas. O caso mais claro é o da Nokia, uma empresa global que chegou a representar mais de 4% do PIB. Por outro lado, temos instituições fortes e saneadas, como nosso sistema educacional, uma governança local livre de corrupção, além de um valioso capital humano. Precisamos introduzir algumas reformas e estaremos de volta na rota do crescimento. Do contrário, talvez, no segundo semestre, a Finlândia já não pertença ao clube da triplo “A” — explica Markus Lahtinen, economista-chefe do Instituto de Estudos Econômicos Pellervo.

oglobo.globo.com | 17-03-2014

BRASÍLIA - Mesmo em crise, as entidades sociais do país movimentam 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB) e empregam 2,1 milhões de pessoas. O faturamento anual dessas instituições; que incluem ONGs, institutos, fundações e entidades filantrópicas como as Santas Casas; é de R$ 121 bilhões, sendo que R$ 57 bilhões é o valor gerado em riquezas. Os dados colocam as chamadas organizações da sociedade civil (OSCs) em sexto lugar no ranking da produção do país, perdendo para as indústrias e distribuidores de petróleo e energia, a construção civil e o setor de alimentos.

A pesquisa foi apresentada pela Fundação Grupo Esquel Brasil, durante os dois dias do seminário “Imprensa e Organizações da Sociedade Civil”, encerrado nesta sexta-feira em Brasília. De acordo com Silvio Sant’Ana, que preside a fundação e é um dos integrantes da Plataforma por um Novo Marco Regulatório para as OSCs, a pesquisa traz o cruzamento de dados do IBGE, com o cálculo feito sobre cerca de 291 mil entidades instaladas no país. De acordo com ele, entre 70% e 80% dessas entidades, no entanto, têm um orçamento anual inferior a R$ 100 mil.

Segundo Sant’Ana, os recursos públicos das três esferas de governo correspondem a cerca de 20% desse total. Ele afirmou que, em 2013, o governo federal repassou R$ 9 bilhões às entidades. O pesquisador aponta que esses valores englobam todos os recursos repassados para organizações desde ONGs da sociedade civil até os institutos de pesquisas das universidades e outros órgãos ligados ao governo. Ainda de acordo com Sant’Anna, cerca de 8 mil OSCs são criadas anualmente.

Crise após denúncias

Reunidos em Brasília com a presença dos ministros Gilberto Carvalho (Secretaria Geral da Presidência), Jorge Hage (Controladoria Geral da União) e Maria do Rosário (Direitos Humanos), dirigentes das principais entidades sociais do país cobraram rapidez na aprovação de um marco regulatório para o setor. O projeto de lei 3877-2004, que dispõe sobre o tema, está sob análise da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados.

Nos últimos anos, tem ocorrido uma série de denúncias sobre convênios firmados entre o governo e as OSCs. Em 2011, a presidente Dilma Rousseff chegou a suspender todos os pagamentos a entidades para promover uma devassa nos contratos. A medida foi uma resposta à série de irregularidades encontradas em acordos firmados com ministérios como Trabalho, Educação e Turismo.

As entidades apontam que o seguimento sofre uma crise de imagem e de credibilidade e vive em um ambiente de insegurança jurídica na relação com o poder público porque as regras de convênios não são claras. Uma legislação que regule esse tipo de contrato ajudaria, segundo o governo e as entidades, a “separar o joio do trigo”, como disse Hage. Segundo o controlador geral da União, a maioria dos convênios firmados entre as entidades e o governo atende a todos os requisitos de regularidade. A CGU, em 2011, comandou o "pente fino" nos convênios. No seminário, o ouvidor geral da União, José Eduardo Romão, também defendeu as entidades sociais, mas propôs que elas se adiantem a uma regulação, buscando mais transparência nos resultados de seus projetos e em sua prestação de contas.

Outra pesquisa realizada pela Andi Comunicação e Direitos tratou da imagem das organizações sociais perante a imprensa. Foram pesquisados 40 jornais diários do país e quatro revistas semanais entre 2007 e 2012, somando cerca de 2,7 mil reportagens. Segundo Veet Vivarta, diretor-executivo da Andi, desse total, 10,1% dos textos trazia notícias sobre corrupção. Ao todo o noticiário negativo sobre as OSCs atingiu 17,6% das matérias publicadas.

Durante os debates, os participantes apontaram que o país vive uma crise em sua democracia. A embaixadora Ana Paula Zacarias, da União Europeia, afirmou que a crise que as instituições e a democracia vivem hoje no Brasil é a mesma em toda a Europa. Para além de um marco regulatório, o diretor-geral do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase),Cândido Grzybowski, defendeu a “radicalização” da democracia.

Vera Masagão, diretora-executiva da Associação Brasileira de Organizações Não-Governamentais (Abong) afirmou que é um “mito” a ideia de que as ONGs sobrevivem de dinheiro público no país. Segundo um levantamento da Abong, 10% das entidades têm nos cofres federais sua principal fonte de recursos, 13% nos municipais e 12% nos estaduais. Ela disse que a credibilidade das entidades está em xeque no país e citou um estudo internacional que aponta que, apenas no Brasil (entre os países do Norte e os emergentes), as ONGs não estão em primeiro lugar no ranking de confiança da população, mas em terceiro (em primeiro a mídia, seguida das empresas).

_ Por falta de um debate público e de uma legislação mais adequada, estamos criando uma desconfiança da sociedade em sua própria capacidade de se auto-organizar. Isso é lamentável também para o governo, que faz parte da esfera pública. E, quando a gente debilita a confiança da sociedade na esfera pública, é a democracia que está em jogo.

* A repórter viajou a convite da Andi Comunicação e Direitos

oglobo.globo.com | 15-03-2014

KIEV - A União Europeia congelou os ativos do presidente deposto da Ucrânia, Víktor Yanukóvych, de seus filhos Aleksander e Victor, do ex- primeiro-ministro Mykola Azarov e de outros 14 dirigentes suspeitos de desvio de fundos do Estado.

A lista dos altos funcionários, publicada no jornal oficial da UE, inclui também o ex-chefe do Serviço de Segurança da Ucrânia, os ex-ministros do Interior, Vitaliy Zajarchenko, de Justiça, Olena Lukash, da Saúde, Raisa Bogatyrova, e da Educação e da Ciência, Dimitro Volodimirovich. Também figuram o filho de Mikola Azarov, Oleksi, assim como o ex-procurador-geral do país,Victor Pavlovich, e seu filho Artem.

O bloco europeu também pretende congelar bens dos responsáveis ​​por violar os direitos humanos durante as manifestações na Ucrânia, as mais violentas da História contemporânea do país, mas o texto ainda não foi finalizado pelo Comitê Político e de Segurança da União Europeia (COPS), de acordo com fontes do grupo.

Em 28 de fevereiro, a Suíça determinou congelar os bens de 20 pessoas de nacionalidade ucraniana, entre elas Yanukovych, seu filho Aleksander e outras pessoas de seu entorno político.

oglobo.globo.com | 06-03-2014
O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, declarou nesta terça-feira (4) que as razões apresentadas por seu colega russo, Vladimir Putin, para justificar sua incursão militar na Crimeia "não enganam a ninguém" e que a ingerência russa na Ucrânia contribuirá para o isolamento de Moscou.

Em visita a uma escola de Washington, o presidente americano afirmou que a União Europeia e aliados como Canadá e Japão acreditam que a Rússia violou o direito internacional.

"Acho que todo o mundo reconhece que, embora a Rússia tenha interesses legítimos no qu

WASHINGTON - O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, declarou nesta terça-feira que as razões apresentadas por seu colega russo, Vladimir Putin, para justificar sua incursão militar na Crimeia não enganam ninguém e que a ingerência russa na Ucrânia contribuirá para o isolamento de Moscou. Em um encontro com jornalistas em sua residência nos arredores da capital russa, Putin defendeu que a Ucrânia sofreu “um golpe de Estado” e “uma tomada de poder pelas armas”. Ele declarou que o único presidente legítimo do país é Viktor Yanukovych e não descartou o uso da força contra a Ucrânia como “último recurso”.

Obama, no entanto, também fez referência a informações de que Putin, que havia dado uma coletiva de imprensa pouco antes, fez uma pausa para refletir sobre as alternativas à crise ucraniana.

O presidente americano afirmou que a União Europeia e aliados como Canadá e Japão acreditam que a Rússia violou o direito internacional.

- O presidente Putin parece ter outra equipe de advogados, talvez outro conjunto de interpretações. Mas eu não acredito que esteja enganando ninguém - declarou Obama em uma escola de Washington DC.

Acusado pela oposição republicana de não exercer uma liderança firme na crise, Obama contesta a ideia de que o envio por Putin de milhares de soldados russos à Crimeia, parte da Ucrânia, constitua um sinal de força de Moscou.

Afirmou, pelo contrário, que a iniciativa era um “reflexo de que os países vizinhos da Rússia têm grandes preocupações e suspeitas em relação a este tipo de ingerência”.

Se eles conseguirão algo” com este tipo de iniciativa, será “isolar ainda mais a Rússia”, completou.

Otan intensificará avaliação

Os aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) permaneceram unidos frente à crise na Ucrânia e intensificarão a sua avaliação sobre como isso afeta a segurança da aliança, disse o secretário-geral da Otan, Anders Fogh Rasmussen, na terça-feira.

Falando após uma reunião de embaixadores da Otan, convocada a pedido da Polônia, Rasmussen disse que a Rússia também continuou a violar os seus compromissos internacionais em relação à Ucrânia, apesar dos apelos para Moscou diminuir a ação.

- Os aliados da Otan estão juntos no forte espírito de unidade nesta grave crise. Comprometemo-nos a intensificar a nossa avaliação rigorosa das implicações desta crise, para a segurança da nossa aliança - disse Rasmussen a repórteres.

oglobo.globo.com | 04-03-2014
O Programa Erasmus é considerado um dos maiores sucessos da União Europeia. O programa de intercâmbio de estudantes passou a chamar-se Erasmus Mais e engloba todos os programas de mobilidade na área da educação em vários pontos do mundo.
www.rtp.pt | 01-03-2014

LONDRES - A cotação do preço do ouro definida em Londres, referência usada por mineradoras, joalherias e bancos centrais para cotar o metal, pode ter sido manipulada desde uma década atrás pelos bancos responsáveis por sua definição, acusam dois pesquisadores. Operações suspeitas — realizadas por volta das 15h em Londres, quando a chamada “cotação da tarde” é definida em uma conference call com os cinco maiores operadores de ouro — são um sinal de comportamento suspeito e deveriam ser investigadas, defendem em um artigo acadêmico a professora Rosa Abrantes-Metz, da Stern School of Business, da Universidade de Nova York, e Albert Metz, diretor-gerente da Moody’s Investors Service.

“A estrutura da cotação referência certamente conduz à colusão e à manipulação, e os dados empíricos são consistentes com a artificialidade dos preços”, afirmam os dois no documento, que ainda não foi publicado. “É provável que haja cooperação entre os participantes.”

O artigo é o primeiro a considerar a possibilidade de que os cinco bancos que supervisionam a taxa centenária — Barclays, Deutsche Bank, Bank of Nova Scotia, HSBC e Société Générale — podem ter trabalhado ativamente juntos para manipular a cotação. E também aumenta a pressão para que essas firmas reavaliem a forma como a cotação é calculada. Autoridades em todo o mundo, que já investigam a manipulação de outras taxas referências, como as de câmbio e juros, apuram sinais de má conduta no mercado de ouro, que movimenta US$ 20 trilhões.

O artigo “não é um relatório de pesquisa da Moody’s”, disse Michael Adler, porta-voz da agência de classificação de riscos. “O coautor do documento escreveu independentemente de sua posição na Moody’s e está apresentando suas próprias conclusões de pesquisa e ponto de vista.”

Diretores da London Gold Market Fixing, a firma que pertence aos bancos que administram a cotação, encaminhou os pedidos de comentário ao Société Générale, no comando da presidência rotativa do grupo. Executivos de Barclays, Deutsche Bank, HSBC e Société Générale não quiseram comentar o artigo ou o futuro da cotação. Joe Konecny, porta-voz do Bank of Nova Scotia, não respondeu aos pedidos de entrevista.

Rosa Abrantes-Metz assessora a União Europeia (UE) e a Organização Internacional de Comissões de Securitizações sobre cotações padrões financeiras. Seu artigo de 2008 intitulado “Manipulação da Libor?” ajudou a desvendar o esquema de manipulação da taxa interbancária de Londres, referência internacional do mercado. O processo rendeu às firmas envolvidas, inclusive o Barclays e o UBS, multas de US$ 6 bilhões no total. Ela é uma especialista convocada por advogados, e que produz análise econômica em litígios. Já Metz chefia a pesquisa de política de crédito na Moody’s.

oglobo.globo.com | 28-02-2014

WASHINGTON — A Ucrânia pode muito bem ser o prêmio geopolítico que ninguém pode se dar ao luxo de ganhar. Conforme a Ucrânia começa sua delicada saída do caos, Estados Unidos e União Europeia deram uma olhada nas contas do país. Trata-se de um quadro difícil que testa a vontade política e a capacidade financeira de seus benfeitores.

— A verdadeira questão agora é o quanto o fardo de lidar com a Ucrânia vai ser europeu e o quanto será do contribuinte americano — disse Wayne Merry, um estudioso do Conselho de Política Externa Americana.

Nesse momento, ele diz, a Ucrânia está bem embaixo na lista de prioridades americanas, com problemas na Síria, no conflito Israel-Palestina e nas negociações nucleares com o Irã.

O ministro das finança provisório, Yuri Kobolov, afirma que o país precisa de US$ 35 bilhões para este ano e o próximo. Ele espera que UE e EUA possam ajudar nas próximas duas semanas.

Jonathan Adelman, professor de relações internacionais na Universidade de Denver, disse ver poucas chances de ajuda de Washington dadas as dificuldades orçamentárias do país, evidenciadas nesta semana após o secretário de Defesa Chuck Hagel propor diminuir o Exército ao seu menor tamanho desde a década de 1940.

— Não haverá entusiamos aqui para desenhas de bilhões de dólares necessários para a Ucrânia - Adelman said.

A Ucrânia tem importantes dívidas com vencimento em junho e analistas dizem que ela terá dificuldade de quitá-las sem ajuda. Um resgate com novos empréstimos não pode ser negociado sem que haja um novo governo. A expectativa é que o Parlamento vote um novo gabinete na quinta-feira.

A crise na Ucrânia explodiu quando o presidente Viktor Yanukovich, decidiu no último minuto dar para trás em um acordo com a União Europeia em troca de um socorro financeiro de US$ 15 bilhões da Rússia. Isso deixou os ucranianos de regiões ocidentais furiosos.

O pacote russo está suspenso desde que o Parlamento votou pela remoção de Yanukovich, que fugiu da capital. O país recebeu US$ 3 bilhões desse dinheiro.

A chefe de política externa da União Europeia, Catherine Ashton, disse na terça-feira que o bloco e seus membros estão prontos para ajudar a Ucrânia com seus termos de financiamento de curto prazo e enquanto o novo governo negocia um pacote de assistência no Fundo Monetário Internacional. Ela disse que também seria importante que a Rússia ajudasse.

Mas James Collins, ex-embaixador de Moscou dos EUA em Moscou e diplomata residente no Carnegie Endowment for International Peace, disse que o mais provável é que o presidente russo Vladimir Putin recue e deixe a situação na Ucrânia se desenrolar por um tempo.

oglobo.globo.com | 27-02-2014

NOVA YORK - Com a Rússia em fúria pela queda de seu aliado na Ucrânia e ainda protegendo um assassino na Síria, muito se fala que estamos voltando à Guerra Fria — e que o governo de Obama não tem condições de defender nossos interesses ou amigos. Discordo. Não acho que a Guerra Fria voltou; a geopolítica de hoje é muito mais interessante do que isso. E tampouco acho que a precaução de Obama seja totalmente equivocada.

A Guerra Fria foi um evento único que opôs duas ideologias, duas superpotências mundiais, com arsenais nucleares e grandes alianças. Foi um jogo de soma zero, em que cada vitória para a União Soviética e seus aliados foi uma derrota para o Ocidente e a Otan, e vice-versa.

Esse jogo acabou. Vencemos. Temos agora uma mistura entre o jogo antigo e um novo. A divisão geopolítica “é entre os países que querem que seus Estados sejam poderosos e os que querem que seu povo seja próspero”, argumenta Michael Mandelbaum, professor de política externa na Universidade John Hopkins.

A Rússia está na primeira categoria, assim como o Irã e a Coreia do Norte, cujos líderes estão focados na construção de sua autoridade, dignidade e influência através de Estados poderosos. E como os dois primeiros têm petróleo, e o último armas nucleares, seus líderes podem desafiar o sistema global e sobreviver, senão prosperar.

A segunda categoria inclui todos os países do Nafta, a União Europeia, o Mercosul e a Asean, na Ásia. Esses países entendem que a tendência atual não é uma nova Guerra Fria, mas a incorporação da globalização e da revolução da tecnologia da informação. Estão focados em colocar em prática escolas, infraestrutura e gestão econômica para que mais pessoas prosperem num mundo que exige cada vez mais habilidades.

Mas há também uma terceira e crescente categoria de países consumidos por lutas internas sobre questões primordiais: Quem somos nós? Quais são os nossos limites? É o caso de Síria, Líbia, Iraque, Sudão, Somália, Congo e outros. A Ucrânia atravessa as três tendências.

Então, o que fazemos? O mundo está aprendendo que o limite para uma intervenção dos EUA no exterior é muito mais amplo hoje. Críticos dizem que Obama deveria fazer algo sobre a Síria. Entendo que o caos de lá poderia refletir-se aqui.

Mas deveríamos ter aprendido algumas lições de nossa experiência recente no Oriente Médio. Primeiro, o quão pouco sabemos sobre as complexidades sociais e políticas daqueles países. Segundo, que podemos — a um custo considerável — frear situações negativas nesses países, mas não podemos, por nossa conta, tornar possíveis situações positivas. E terceiro, quando tentamos fazer com que coisas boas aconteçam corremos o risco de assumir a responsabilidade de resolver seus problemas, e essa é uma responsabilidade que cabe a eles.

Thomas L. Friedman é articulista do “New York Times”

oglobo.globo.com | 27-02-2014

RIO — Faces mais visíveis da oposição ucraniana, o ex-boxeador Vitali Klitschko, o economista e ex-chanceler Arseny Yatsenyuk e o ex-médico Oleg Tyagnibok — todos os três deputados e líderes de bancada no Parlamento — são também os interlocutores habituais do presidente Viktor Yanukovich. Desde novembro, são eles que encarnam a expectativa de mudança de uma parte significativa dos ucranianos — sobretudo dos 45% do eleitorado que votaram na candidata derrotada Yulia Tymoshenko nas eleições de 2010 — rumo a uma maior integração com a Europa. No entanto, as dezenas de mortes nos enfrentamentos entre manifestantes opositores e as forças de segurança na Praça da Independência, em Kiev, e seus arredores nos últimos dias mostram um cenário diferente. Os três líderes, críticos exacerbados de Yanukovich que a todo instante pedem a saída do presidente, estão longe de controlar a fúria popular nas ruas, cada vez mais radicalizadas.

Nas barricadas da Praça da Independência, vários grupos coexistem com diferentes agendas, muitas vezes bem divergentes entre si e das intenções da ala parlamentar. Indicação disso é que a trégua acertada entre Yanukovich e os líderes oposicionistas na noite de quarta-feira foi atropelada na manhã de quinta-feira por grupos que, segundo relatos de jornalistas, avançaram contra as posições das forças de segurança, fazendo-as recuar 200 metros em meio a um banho de sangue.

— A oposição só está unida em seu desejo de derrubar Yanukovich. Há um grupo extremista responsável por grande parte da violência nas ruas, mas não há como unificar as demandas da extrema-direita com as dos progressistas — disse ao GLOBO, do Canadá, o cientista político Randall Hansen, do Programa para Estudos da Ucrânia da Universidade de Toronto.

A questão, apontam analistas, é que ao tomarem a frente das manifestações, como tropa de choque da oposição, e se exporem ao maior impacto da repressão, esses grupos de militantes ganham força para influenciar a agenda anti-Yanukovich como um todo. Um dos mais ativos é o Pravy Sektor (Setor de Direita), um agrupamento de organizações ultranacionalistas que resolveram se unir dois meses atrás, após a violenta repressão aos manifestantes ordenada pelo presidente. Estimativas indicam que eles contam com cerca de 500 aguerridos militantes treinados e equipados com capacetes, máscaras de gás e porretes.

condenação branda

Com o assalto a várias bases das forças de segurança ao redor do país — o governo alertou que 1.500 armas de fogo e cem mil cartuchos foram roubados — é praticamente certo que parte desse arsenal também tenha caído nas mãos deles e de outros extremistas da Praça da Independência.

Ciente das divisões na oposição, Yanukovich tem exigido que os líderes moderados se afastem dos radicais, provavelmente com o objetivo de criar um fosso entre seus oponentes, enfraquecendo-os. Klitschko e seus companheiros moderados procuram distanciar-se da violência, mas têm o cuidado de não bater de frente com a parte mais aguerrida da oposição. Num comunicado conjunto após o banho de sangue de terça-feira, quando 26 pessoas morreram nos enfrentamentos em Kiev, eles negaram qualquer responsabilidade pela violência nas ruas. “Nunca convocamos nem nunca convocaremos o povo a pegar em armas. Esta é a nossa principal posição. A morte de qualquer pessoa é uma tragédia pessoal para cada um de nós”, dizia o texto.

Sem apontar dedos acusadores, a oposição moderada tenta, assim, manter o casamento de conveniência com os radicais, apostando numa frente unida contra Yanukovich que deságue num desfecho favorável à sua luta.

— A chance de sucesso da oposição está nas sanções e na pressão externas — apostou o professor Hansen. — Se congelarem bens de autoridades ucranianas e capital do país, ela pode ter êxito.

oglobo.globo.com | 21-02-2014

BRASÍLIA - Enquanto o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Luiz Alberto Figueiredo, evita palavras fortes para comentar a situação da Venezuela, onde protestos populares vêm sendo reprimidos pelo governo, seu colega britânico, William Hague, é mais direto. Hague diz que o Reino Unido está preocupado com a situação na Venezuela, em especial com os relatos de que o governo venezuelano vem prendendo ativistas e oposicionistas. Figueiredo e Hague se encontraram nesta terça-feira em Brasília.

— O Reino Unido está muito preocupado com a violência na Venezuela. Estamos especialmente preocupados com relatos de que o governo da Venezuela está procurando suprimir protestos pacíficos, prendendo ativistas, líderes oposicionistas. Liberdade de expressão, liberdade de se reunir pacificamente são essenciais. São direitos universais e devem ser respeitados. Então os venezuelanos devem ser livres para tomar suas próprias decisões, políticas e futuro — disse o chanceler britânico.

Figueiredo foi mais comedido.

— A situação da Venezuela estamos acompanhando com atenção, evidentemente, como acompanharíamos com atenção em qualquer país vizinho nosso. Nós temos a expectativa, como se pronunciou já o Mercosul, a própria Unasul, de que haja uma convergência dentro de um respeito à institucionalidade, à democracia e, portanto, que não haja o tipo de distúrbios que nós vimos na semana passada, em que vidas humanas foram perdidas, e nós lamentamos isso, e que propriedade foi destruída. Portanto, como eu disse, estamos seguindo com atenção. Eu sei que hoje haverá novas manifestações marcadas para Caracas. Estamos atentos — afirmou o ministro brasileiro.

No encontro, os dois também conversaram sobre a reunião que haverá em abril em São Paulo para discutir a governança na internet. O debate foi provocado pelas denúncias de espionagens praticadas pelos Estados Unidos contra governos e cidadãos de vários países.

— Manifestei ao meu colega William Hague o repúdio brasileiro a todo esse tema conhecido da espionagem contra a presidenta Dilma, membros do governo, empresas privadas brasileiras, e todas as medidas que temos tomado no âmbito das Nações Unidas para lidar com essa questão. E reiterei o convite que tínhamos feito ao Reino Unido de participar ativamente da conferência que teremos em São Paulo sobre a governança na internet — disse Figueiredo.

Hague disse que é importante trabalhar para assegurar que a internet permaneça livre, mas demostrou ceticismo quanto à ação de governos e organizações internacionais para alcançar esse objetivo. O Reino Unido é um dos maiores aliados dos Estados Unidos.

— Nós estamos naturalmente céticos em relação a um maior controle sobre a internet por Estados ou organizações internacionais, porque é importante que o dinamismo da internet, a habilidade de trazer inovação e a liberdade de expressão continuem no futuro — disse Hague.

No encontro, também foram abordados outros temas, como a cooperação nas áreas de educação, ciência e tecnologia. Segundo Figueiredo, cerca 6.500 brasileiros já foram estudar no Reino Unido graças a bolsas do programa Ciências sem Fronteiras. Também conversaram sobre as negociações entre União Europeia e o Mercosul para um acordo comercial, a guerra civil na Síria, a entrada do Brasil no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), as negociações sobre o programa nuclear iraniano, investimentos e a troca de experiências em eventos esportivos. Londres foi a sede das últimas Olimpíadas, em 2012. O Rio de Janeiro receberá os próximos jogos, em 2016.

oglobo.globo.com | 18-02-2014

MADRI - A dívida pública da Espanha caminha para superar o patamar de € 1 trilhão, praticamente o mesmo valor do seu Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos no país) e quase o triplo em relação ao nível em que estava antes do início da crise da zona do euro. O fechamento de 2013 revela como o passivo espanhol alcançou um patamar recorde, somando € 961,555 bilhões, o equivalente a 93,7% do PIB previsto pelo Ministério da Fazenda para o ano de 2013. O resultado representa um avanço de dez pontos percentuais em relação à dívida reconhecida de 2012, embora, após ajustes da conta nacional, a dívida tenha se fixado em 86%, reduzindo o salto a oito pontos percentuais.

A dívida espanhola cresceu a um ritmo de € 210 milhões por dia, representando € 20.629 por cidadão. A economia espanhola continua, assim, em seu maior nível de endividamento do último século porque, de acordo com a série histórica atualizada do Fundo Monetário Internacional (FMI), no início do século XX chegou a alcançar 123% do PIB. A previsão do governo era que ela terminasse 2013 em 90,5%, embora em setembro, considerando-se a evolução dos três primeiros trimestres do ano, tenha crescido para 94,2%.

O financiamento do déficit — ou seja, o dinheiro para cobrir a diferença entre o que arrecada e o que gasta o Estado —, a fatura dos bancos e o custo público dos gastos sociais da crise, como as prestações de seguro-desemprego, foram engordando o endividamento. Há ainda o agravante de que a economia espanhola, recém-saída da mais longa recessão da fase democrática do país, ainda terá pela frente anos de baixo crescimento, o que dificulta a redução da dívida. Ao mesmo tempo, as medidas de austeridade para controlar o déficit fiscal, os gastos públicos e o endividamento acabam por frear o avanço econômico, alimentando, dessa forma, um círculo vicioso.

Dívida vai superar 100% do PIB em 2015

Se em 2007, o peso da dívida pública em relação ao PIB se situava em 36%, praticamente a metade da média europeia, no terceiro trimestre do ano passado superou pela primeira vez essa média, ao alcançar 93,4%, de acordo com a Eurostat (a agência oficial de estatísticas da União Europeia), quando a média europeia era de 92,2%. Além disso, o endividamento público do conjunto da zona do euro havia sido reduzido de um trimestre para outro pela primeira vez desde 2007. Na contramão, a Espanha protagonizou o terceiro maior incremento anual, perdendo apenas para Chipre e Grécia.

Embora o ritmo de endividamento tenha sido reduzido à metade (em 2012, crescera € 146 bilhões, o dobro em relação ao ano passado), o crescimento da dívida continua maior do que a maior parte dos parceiros da zona do euro. Em dois anos de governo de Mariano Rajoy, ele subiu 23 pontos do PIB.

— Passamos o momento mais crítico: quando o PIB nominal caía e a dívida crescia a um ritmo muito mais rápido, com o resgate bancário e o Fundo de Liquidez Automático, agora o momento é menos dramático, mas necessitamos reduzir o endividamento não apenas porque assim o exige Bruxelas, mas porque nos torna muito mais frágeis — afirma Santiago Lago, catedrático de Economia Aplicada da Universidade de Vigo.

O plano de estabilidade do governo previa que a dívida batesse no teto em 2016, situando-se próximo a 100% do PIB (99,8%), e, a partir daí, começasse a baixar. Mas, no Orçamento para 2014, admitiu que em 2015, o endividamento público vai superar pela primeira vez o limite de 100% do PIB.

Essa previsão coincide com estudo elaborado pelo banco BBVA, que advertiu que “ainda resta um longo caminho de controle do saldo público” se a intenção for reconduzir o caminho da dívida para abaixo de 60%. Para isso, “é preciso não apenas começar a registrar superávits primários nas contas públicas, mas é igualmente necessário que o crescimento nominal da economia seja superior à taxa de juros implícita da dívida pública”, apontam os especialistas do BBVA.

oglobo.globo.com | 17-02-2014
Bruxelas suspendeu a participação da Suíça em programas de educação e pesquisa da União Europeia após o governo suíço cancelar um acordo para abrir o






www.estadao.com.br | 17-02-2014
Bruxelas suspendeu a participação da Suíça em programas de educação e pesquisa da União Europeia após o governo suíço cancelar um acordo para abrir o mercado de trabalho à Croácia.
atarde.uol.com.br | 17-02-2014

CARACAS - As autoridades venezuelanas abriram processos contra dez manifestantes detidos pelos episódios de violência ocorridos esta semana em Caracas. Mas, segundo organizações de direitos humanos, há suspeitas de que ao menos, das dezenas de jovens presos, tenha sido foi torturado.

A Procuradoria-Geral os acusa de participarem de ataques violentos contra escritórios da polícia na quarta-feira em Caracas. Dois deles são menores de idade.

Os dez estudantes vão responder em liberdade por incitação ao crime, danos violentos, associação para o crime e incitação de adolescentes para o crime, disse o Ministério Público em comunicado.

A procuradora-geral, Luisa Ortega Díaz disse na quinta-feira as autoridades possuíam fotos e filmes sobre os violentos incidentes da semana passada, quando a sede de procuradoria-geral foi atacada.

Ortega Díaz afirmou que grupos de “infiltrados e encapuzados” são os responsáveis pelos incidentes violentos que deixaram três mortos, 66 feridos e dezenas de detidos.

Alvo dos protestos, que pedem por sua saída, o governo de Nicolás Maduro está sob pressão internacional para resolver a crise política através do diálogo.

Nicarágua, Equador, Uruguai, Costa Rica, União Europeia e Estados Unidos pediram que as forças políticas do país dialoguem e defenderam o direito de manifestação.

Nicarágua e Equador, entretanto, demonstraram seu apoio ao governo Maduro.

Um representante da ONG Programa Venezuelano de Educação e Ação em Direitos Humanos, Marino Alvarado, denunciou ao Defensoria Pública que sofreu um sequestro relâmpago de um grupo de encapuzados que se identificaram como membros da polícia política. Inti Rodríguez, outro coordenador, também afirmou sofreu um sequestro do tipo na quarta-feira. Segundo ele, os sequestradores se identificaram como integrantes do Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (Sebin).

- Se identificaram como do Sebin, mas nunca mostraram o rosto nem as credenciais - disse.

oglobo.globo.com | 14-02-2014

MANAUS - Um grupo de 30 manifestantes protestou contra as obras da Copa durante a visita da presidente Dilma Rousseff à Arena da Amazônia, em Manaus, nesta sexta-feira. O estádio vai receber quatro jogos da Copa do Mundo de Futebol. Com cartazes questionando os valores do investimento, eles cobravam mais recursos para educação, saúde e, principalmente, mobilidade urbana.

Com capacidade para 44 mil torcedores, o estádio, que vai receber quatro jogos na competição, tem custo estimado em R$ 669,5 milhões, segundo o último balanço divulgado pelo Ministério do Esporte.

O estudante de enfermagem Jardel Dantas, 28, disse que o Brasil não precisa de Copa do Mundo. Segundo ele, as prioridades da população não se refletem no trabalho dos governantes.

— Nosso país clama por saúde e por educação. Nossa cidade (Manaus) precisa de mobilidade urbana, de mais escolas. Não aceitamos o dinheiro público ser investido em construção de estádios — afirmou.

Leandro Xavier, 18, estudante do ensino médio, também participava do protesto. Para ele, a Copa do Mundo deixará um legado de gastos.

— Não acreditamos em legado da Copa. O único legado que teremos será dos gastos e dívidas. A presidente Dilma precisa ouvir o clamor das ruas e entender que as manifestações são o reflexo da insatisfação do povo — disse.

Os manifestantes questionavam ainda pelo fato de as principais obras de infraestrutura que trariam melhorias para a mobilidade urbana de Manaus não terem sido realizadas. O monotrilho, por exemplo, foi substituída pelas plataformas do sistema BRS (Bus Rapid System).

Sem comentários sobre desistências no Mais Médicos

Mais cedo, a presidente Dilma Rousseff disse que o Brasil não podia esperar pela formação dos profissionais de saúde e que o programa Mais Médicos foi a melhor solução do governo para a área. Dilma não comentou, entretanto, sobre a desistência de cubanos do programa.

— O programa Mais Médicos é uma questão de perceber que o Brasil não pode esperar. Nós estamos num processo de formar mais médicos. Ampliamos o número tanto de universidade quanto de faculdades que formam médicos como também demos todo o incentivo. Mas não podemos esperar, as pessoas precisam de atendimento médico — disse.

Segundo ela, o problema da saúde hoje pode ser percebido pelo questionamento da população que reclama da falta de médicos e do atendimento não humanizado.

— O Mais Médicos foi uma solução que nós construímos para este fato fundamental: que as pessoas precisam de atendimento de saúde, de qualidade, e respeitoso.

Para Dilma, a região mais beneficiada com o Mais Médicos é a Norte. Ela avalia que o programa está sendo um sucesso em todo o país, apenas com “um problema aqui e outro ali”.

— O Mais Médicos, para mim, está sendo um sucesso pelo fato de estar resolvendo uma série de problemas. Ele resolve não só o atendimento no posto de saúde, mas também diminui as filas nos hospitais. A fila é reduzida porque se você tem um bom atendimento no posto não vai precisar ir ao hospital, caso não seja uma doença grave ressalta.

Ela destacou ainda que o foco do programa tem sido a população.

— Esse é um programa que coloca as pessoas no centro da questão. Que percebe que um País tem de dar conta do bem estar da pessoa. Tem que saber que uma pessoa que está fragilizada, quando tem um problema de saúde, tem que ter um atendimento humano — destacou, ressaltando que o programa tem cumprido o seu papel.

A presidente também falou sobre os entraves para as conclusões das obras da BR-319, que liga Manaus a Porto Velho. Para ela, os licenciamentos ambientes são os principais gargalos da obra.

— Eu de fato participei e venho participando desse esforço para sair essa ligação do Amazonas para o resto do Brasil. Todos sabem que é uma obra complexa e que envolve licenciamento ambiental. O grande gargalo é o licenciamento. Temos que colocar o dedo onde está o problema. E o problema é o licenciamento. E temos que licenciar diante do mais rigoroso princípio de respeito as leis ambientais.

Dilma garantiu ainda que a obra será resolvida no seu governo.

— Eu entendo a necessidade dessa obra. Não te daria um prazo, mas é um compromisso. Eu acredito na necessidade da obra para a população, mas também respeito o princípio das necessidades de respeito ao meio ambiente.

Zona Franca de Manaus

A presidente Dilma também foi indagada sobre a prorrogação da Zona Franca de Manaus e reclamou das declarações recentes da União Europeia, que questionou o modelo de sistema tributário adotado pelo Polo Industrial de Manaus.

— Recentemente houve, por parte da União Europeia, uma atitude que eu considero extremamente contraditória com o discurso que a mesma adota sobre o meio ambiente, que é questionar a Zona Franca de Manaus e o sistema tributário que dá sustentação a essa zona. Se eu sou a favor da preservação, da redução dos gases do efeito estufa, da redução do desmatamento, como então sustentar um questionamento do sistema tributário dessa área de comércio? — questionou Dilma.

Dilma defende a prorrogação da Zona Fraca até 2073, mas a emenda enviada ao Congresso em 2009 ainda não foi votada.

Visita a Manaus

Dilma chegou a Manaus na noite de quinta-feira, acompanhada do líder do governo no Senado, senador Eduardo Braga (PMDB), da senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB) e do senador Alfredo Nascimento (PR). O Governador do Amazonas, Omar Aziz (PSD), o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio (PSDB), e o ministro das Cidades, Agnaldo Ribeiro, acompanharam a presidente na primeira agenda do dia.

Ela inaugurou na manhã da quinta-feira o maior conjunto habitacional do programa Minha Casa Minha Vida. São 5.384 moradias, entre casas e apartamentos, que somados a outras 3.511 da primeira etapa, entregues em dezembro de 2012, totalizam 8.895 unidades habitacionais.

Localizado nas imediações do bairro Santa Etelvina, zona Norte, o residencial foi construído por meio da parceria entre os governos Federal e Estadual, sendo R$ 469.025.257,00 financiados pela Caixa e R$ 81.785.198,20 de contrapartida do Governo do Amazonas. Coube ao Governo do Estado também investir em vias de acesso ao local e nos aparelhos comunitários, a exemplo de uma escola-padrão, já concluída, e um Centro de Educação de Tempo Integral (Ceti), em construção, bem como a doação do terreno.

Dilma visita ainda hoje as obras da Arena da Amazônia, que será um dos palcos da Copa do Mundo. A preocupação da assessoria da presidente é com possíveis protestos que possam ocorrer por conta dos gastos públicos com o evento. Nas redes sociais, alguns grupos prometeram protestar em frente à Arena da Amazônia. A segurança no local foi reforçada.

oglobo.globo.com | 14-02-2014

A realização do 6° Congresso Nacional do MST, esta semana, em Brasília, coincide com a celebração dos 30 anos de luta e resistência do movimento.

Nessas três décadas, através da luta organizada, mais de 350 mil famílias conquistaram o direito de plantar e produzir alimentos. Temos orgulho de ter alfabetizado mais de 50 mil pessoas, juntamente com a defesa intransigente para a permanência das escolas do campo. Transformando o campo em um lugar digno, acreditamos que contribuímos para transformar também a desigual sociedade brasileira, combatendo a fome e a miséria.

Porém, novos desafios se colocam para a agricultura brasileira. A hegemonia de empresas transnacionais, associadas ao capital financeiro, não apenas tem desnacionalizado a propriedade da terra e das empresas agrícolas, como altera significativamente a configuração do meio rural.

A perversidade deste modelo chamado de “agronegócio” está no abandono da produção de alimentos, utilizando os bens da natureza para a produção de combustíveis e celulose. De 1990 para 2011, por exemplo, as áreas plantadas com alimentos como o arroz, feijão, mandioca e trigo declinaram, respectivamente, 31%, 26%, 11% e 35%. Já as áreas plantadas de cana e soja, aumentaram 122% e 107%. O impacto disso se reflete no aumento da importação de alimentos — nossos feijão e arroz vêm da China.

O agronegócio traz ainda enormes contradições e consequências à sociedade brasileira: a produção em monocultura e em larga escala destrói a biodiversidade e a vegetação local, pois sua matriz produtiva se baseia no uso intensivo de agrotóxico. O Brasil é hoje o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, tendo duas dezenas de produtos proibidos na União Europeia.

Com isso, muda-se também a luta pela terra. Se a produção de alimentos não é a prioridade da agricultura, perde-se a perspectiva da reforma agrária clássica, que consistia na democratização da terra, com a criação de um mercado interno, e na redução do custo de vida nas cidades, estimulando o desenvolvimento industrial.

Por isso, nosso 6º Congresso apresentará para a sociedade brasileira um Programa Agrário, defendendo a realização de uma Reforma Agrária Popular. Um programa não apenas para os camponeses, mas como uma alternativa aos problemas estruturais do campo e de toda a sociedade brasileira, visando a transformar a agricultura e colocá-la a serviço de toda população.

A Reforma Agrária Popular consiste na democratização da terra, prioriza a produção de alimentos saudáveis, através da agroecologia, procura desenvolver sistemas de agroindústrias no campo e sob o controle dos camponeses. Isso possibilita agregar valor aos produtos, gerando mais renda e novos postos de trabalho, sobretudo à juventude. Ainda, busca garantir condições e direitos básicos, como saúde, educação, acesso a tecnologias, cultura e lazer a toda a população do campo.

Para isso, conclamamos toda sociedade brasileira para lutar, construir a reforma agrária popular.

oglobo.globo.com | 11-02-2014

BRUXELAS - Por uma margem pequena de votos, os suíços mostraram, em um referendo realizado neste domingo, que apoiam a proposta que pretende impor cotas à entrada de europeus e acabar assim com a livre mobilidade de pessoas entre ambos territórios que ocorre desde 2002. Segundo os resultados finais, 50,3% votaram a favor.

O referendo deve causar uma reviravolta na relação da União Europeia com o país. Com o resultado favorável a uma maior restrição da imigração, Suíça e Bélgica terão que renegociar alguns acordos de integração que afetam o movimento de trabalhadores, as relações comerciais, a pesquisa agrícola, entre outros âmbitos. As restrições de fronteiras aos cidadãos podem abrir uma grave crise política entre ambos os territórios.

A rede de TV BBC em diz que o resultado expôs divisões entre a população suíça, com áreas de língua francesa votando contra as cotas, as regiões de língua alemã divididas, e o cantão de língua italiana de Ticino fortemente a favor.

Em um comunicado, a Comissão Europeia afirmou que lamenta que uma “iniciativa para a introdução de limites quantitativos à imigração tenha sido aprovada por esta votação”.

“Isso vai contra o princípio da livre circulação de pessoas entre a UE e a Suíça. A UE analisará as implicações desta iniciativa sobre as relações UE-Suíça como um todo. Neste contexto, a posição do Conselho Federal sobre o resultado também será levado em conta”.

Os suíços foram convocados para votar, neste domingo, “contra a imigração em massa”, por uma iniciativa popular apresentada pela União Democrática de Centro, um partido de direita de cunho populista. O texto é breve e muito específico. Propõe reintroduzir um sistema de cotas primeiramente no país, que seriam fixadas pelo governo federal, e a possibilidade de limitar o direito ao reagrupamento familiar dos estrangeiros europeus. Conscientes de que esta proposta anula o sistema de livre intercâmbio que existe agora entre a Suíça e seu principal mercado, a UE, o texto pede renegociação, no prazo de três anos, dos acordos que vinculam Bruxelas a Berna. A Suíça possui 23% de imigrantes, um percentual superior ao de qualquer país europeu. Boa parte deles se localizam em setores de alta qualificação.

“É uma votação voltada para as emoções da gente, não para argumentos econômicos; todos os estudos demonstram que a livre circulação de pessoas foi benéfica para a Suíça”, explica em conversa telefônica Yves Flückiger, vice-reitor da Universidade de Genebra e especialista nas consequências econômicas da livre circulação.

Efetivamente, todos os indicadores ratificam esses benefícios: desde que se abriram as portas aos europeus, a taxa de desemprego do país permaneceu praticamente estável, ao redor de 3% da população ativa (2% entre os suíços de origem), o que supõe uma situação de pleno emprego e de dificuldades em alguns setores qualificados para encontrar mão-de-obra adequada. Os salários cresceram em média 0,6%, uma taxa superior ao período anterior. E o crescimento econômico do país supera o da UE (em 1% em 2012).

Os defensores da iniciativa não questionam esses dados. Suas objeções são outras.

“Há uma concentração demográfica muito forte na Suíça. Poderiam construir edifícios mais altos ou transformar terrenos agrícolas em habitação para aliviar, mas muita gente se opõe. Além disso, temos uma rede de transportes que está muito pressionada e isso se deve ao efeito migratório”, argumenta Fabienne Despot, presidente do partido do Canton de Vaud, um dos 26 que formam o país.

Em seus documentos oficiais, o governo federal admite problemas de acesso à moradia, mas atrela essa questão a várias causas – entre elas a livre circulação - e assegura que diferentes medidas paliativas já estão sendo tomadas.

Oficialmente, Bruxelas não quis se pronunciar nestes dias sobre as possíveis consequências que um sim terá para as relações que mantém com seu vizinho suíço, situado próximo ao centro geográfico da Europa e rodeado de países membros da UE. Seus porta-vozes expressaram o máximo respeito pelo procedimento democrático e decidiram esperar os resultados. Mas fontes comunitárias admitem que estão revisando todos os possíveis efeitos que terá nos acordos bilaterais.

O caso suíço demonstra que o temor à imigração e a caminhada rumo ao âmbito nacional se impõem apesar de as cifras não justificarem esses medos. As pesquisa sobre a intenção de voto foram ficando cada vez mais apertadas (últimas projeções apontam 50% contra a iniciativa e 43% a favor), ainda que entre os poderes públicos domine a rejeição à introdução de cotas aos vizinhos comunitários. O governo recomendou que se vote contra, os empresários alertaram das graves consequências que teria para a economia do país e os sindicatos advertiram também que trabalhadores suíços não seriam beneficiados. Mas a desconfiança que percorre toda a Europa chegou também aos ricos suíços e lhes levou a olhar com medo para os estrangeiros europeus. Embora esses estrangeiros sejam, em boa medida, alemães e franceses, afastados do estereótipo do imigrante comunitário do sul da Europa.

Com a aprovação popular da iniciativa, as autoridades têm pouca margem para resistir. A Suíça possui uma democracia que concede aos cidadãos a capacidade de submeter a referendo uma iniciativa popular (com um requisito quantitativo de assinaturas que a apoiem) para mudar legislações consideras prejudiciais. Como a proposta obteve a maioria do número de cidadãos, o Parlamento deve legislar de acordo com a decisão.

oglobo.globo.com | 09-02-2014
Os desafios da União Europeia voltam a ser discutidos na 7.ª edição da iniciativa, que se assume alheia ao facto de este ser ano de eleições para o Parlamento Europeu.
feedproxy.google.com | 07-02-2014
Os desafios da União Europeia voltam a ser discutidos na 7.ª edição da iniciativa, que se assume alheia ao facto de este ser ano de eleições para o Parlamento Europeu.
feedproxy.google.com | 07-02-2014

RIO – O vertiginoso crescimento da economia chinesa nos últimos anos foi acompanhado por uma alta considerável na produção científica do país, que acaba de alcançar a terceira posição mundial de acordo com indicador da Fundação Nacional de Ciência dos EUA (NSF, na sigla em inglês). Segundo a edição 2014 do levantamento anual feito pela NSF, o número de artigos produzidos por cientistas chinesas e publicados em periódicos cresceu em média 15% ao ano entre 2001 e 2011, fazendo a China sair de 3% da produção científica global para 11% em uma década, atrás apenas dos EUA e do bloco de 28 países da União Europeia.

Ainda de acordo com o relatório de 600 páginas da NSF, a China e outros países asiáticos responderam por mais de um terço dos US$ 1,435 trilhão investidos em pesquisa e desenvolvimento em 2011. E em 2012 a China gastou uma fatia um pouco maior do seu Produto Interno Bruto em ciência do que a União Europeia, apontou estatística divulgada no mês passado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

O forte crescimento da produção científica chinesa ameaça a liderança dos EUA em ciência em tecnologia, disse Mark Boroush, estatístico da NSF e um dos autores do relatório, ao site da revista “Nature”. Segundo ele, porém, isso não quer dizer que a capacidade americana está diminuindo, e sim que outras partes do mundo estão correndo atrás do prejuízo.

Já Denis Simon, especialista em ciência chinesa da Universidade do Arizona, destacou ao mesmo site que não há indicações de que os artigos publicados por cientistas chineses são consistentemente inovadores. Tanto que a fatia de artigos científicos chineses citados por cientistas de fora do país caiu nas últimas duas décadas, o que sugere que a maior produção científica está sendo usada principalmente dentro das fronteiras do país.

oglobo.globo.com | 07-02-2014

BRUXELAS - O maior partido da Bélgica chega à próxima eleição com uma proposta radical: construir um país sem um primeiro-ministro, sem serviço diplomático e sem previdência social. A proposta é inovadora, mas não é de ruptura. O nacionalista flamengo N-VA estacionou sua defesa da independência para dedicar-se a batalhas mais práticas. Consciente de que a população não apoiaria essa mudança e com medo da incerteza que geraria em relação à União Europeia, a legenda busca maximizar os poderes dentro de uma Bélgica federativa.

Faltam pouco mais de três meses para o que os belgas chamam de mãe de todas as eleições: regional, federal e europeia, no mesmo dia, 25 de maio. A Bélgica é em grande parte uma construção pragmática de duas comunidades muito diferentes, flamengos e valões, com Bruxelas como o objeto de desejo das duas partes. O principal partido nacionalista evoluiu de um enfoque pró-independência para outro econômico.

- A nossa grande linha estratégica é: não vamos para uma revolução, mas para uma evolução. Sabemos que aqui há uma maioria pró-independência. E com uma Europa que não sabemos como vai evoluir, optamos pelo confederalismo, por dois Estados que trabalham em conjunto, com Bruxelas como sua capital - explica Eric Defoort, um dos fundadores do grande partido nacionalista flamengo.

O partido, criado em 2001 para defender certos interesses que antes estavam apenas nas mãos da extrema-direita, estava fora do governo federal porque foi incapaz de chegar a acordos com outras forças políticas. Com as próximas eleições em mente, seus líderes estão agora muito mais interessados em dialogar.

- O N-VA conseguiu tirar o componente emocional do nacionalismo flamengo. Eles costumavam defender uma ideia emocional de Flandres e agora há um conceito mais racional, com argumentos mais socioeconômicos. Mas os líderes ainda acreditam na ideia de Flandres como um Estado - diz Bruno de Wever, historiador político e professor da Universidade de Ghent.

De Wever sabe do que fala. Seu irmão é Bart de Wever, o popular presidente do N-VA e prefeito de Antuérpia que revolucionou a política belga com medidas populistas. As explicações sugerem que Bruno de Wever não compartilha os princípios de seu irmão, um claro exemplo da diversidade que caracteriza a Bélgica e das dificuldades de criar barreiras entre dois territórios com muitos interesses comuns.

Em vez da independência, tanto os nacionalistas como os liberais e democratas-cristãos flamengos se apegam a um conceito vago (e de significado diferente para cada um deles): o confederalismo, entendida como um passo em frente no federalismo atual. Este quadro permite-lhes manter-se longe da incerteza que nacionalistas flamengos não querem lidar: a adesão à UE.

- No N-VA somos realistas e partidários da União Europeia, um dos grandes avanços do século passado - afirma Eric Defoort.

De Wever acrescenta que o partido usa o pertencimento à Europa para questionar a necessidade de a Bélgica existir, com a lei e a representação europeias sendo suficientes.

- Mas se isso é válido para se opor à existência da Bélgica, por que não vale também com reflexão sobre a existência de Flandres? - desafia o historiador.

Um dos mais interessados no debate sobre a eventual saída da Europa caso Flandres se torne independente é o Partido Socialista Flamengo. Segundo a eurodeputada Kathleen Van Brempt, as reformas de descentralização com as quais o país já se comprometeu permitem que cada região pode exercer as suas competências, sem alterar o quadro regulamentar novamente. Esse excesso interminável de reformas do Estado é outra das razões para a mudança do discurso dos nacionalistas flamengos.

- A situação econômica deve estar à frente de uma nova reforma do Estado - admitiu recentemente um deputado proeminente do N-VA, Siegfried Bracke.

Há outro elemento fundamental que funciona como cola em um país fraturado. Bruxelas constitui-se como uma região autônoma, sem envolvimento direto com Flandres e Valônia, e nenhum dos dois quer abrir mão da capital. A proposta dos nacionalistas flamengos é incômoda: criar uma previdência social flamenga, outra valã, e pedir aos cidadãos de Bruxelas que decidam por uma ou outra identidade. A ideia recebeu uma avalanche de críticas.

oglobo.globo.com | 07-02-2014

BERLIM - Defensora da política de austeridade na União Europeia, sobretudo para aqueles atingidos pela crise do euro, a conservadora chanceler federal alemã, Angela Merkel, decidiu seguir o caminho inverso em seu país. Após selar uma aliança com o Partido Social-Democrata (SPD), ela reduziu a idade de aposentadoria de 67 para 63 anos — uma manobra simbólica, que ilustra bem como os conservadores estão dando uma guinada à esquerda.

- Merkel tornou a União Democrática Cristã (CDU) mais social-democrata do que o próprio SPD - ironiza a cientista política Gertrud Höhler, biógrafa da chanceler.

Merkel parece ter introduzido um novo aspecto na política alemã: o desligamento de todos os dogmas partidários. Mesmo entre os aliados que não concordam com a sua política, ela costuma ser chamada de “Mutti” (mamãe), por causa do estilo maternal, da maneira de falar direta e pouco politizada. Para o historiador Herfried Münkler, da Universidade Humboldt, a origem da chefe de Estado explica sua conduta:

- Por ser da extinta Alemanha Oriental, Merkel não é bloqueada por ligações ideológicas e lealdade partidária.

É assim que a dama forte da Europa muda constantemente de opinião sem irritar simpatizantes. No início do segundo mandato, em 2009, anulou a decisão do governo Schröder de acabar com a energia nuclear. Mas, logo depois da catástrofe japonesa de Fukushima, voltou atrás e articulou às pressas um projeto de mudança energética para eliminar as usinas atômicas e ampliar a produção de energia renovável.

O especialista Peter Grotian, da Universidade Livre de Berlim, aponta a recente criação do salário-mínimo como outra mudança brusca. A medida era uma exigência do SPD — e fora condenada com veemência por Merkel e os conservadores na campanha eleitoral no ano passado. O argumento era o de que o salário-mínimo nacional, € 8,50 por hora, poderia resultar no aumento do desemprego nas regiões pobres do Leste, onde as empresas são pouco competitivas. Agora, Merkel é favorável ao salário-mínimo, seguindo a máxima de que as palavras de ontem não interessam mais hoje.

- A principal característica da política de Merkel é tomar os temas dos adversários - diz Höhler.

A generosidade, porém, tem outro lado. As novas medidas seriam financiadas pelas crianças de hoje, porque teriam o efeito de aumentar a dívida pública. Mesmo a Alemanha, país mais rico da zona do euro, tem dívidas de € 2 trilhões — mais ou menos como a Itália, com a diferença que tem um PIB maior e paga juros de financiamento da dívida muito baixos por causa do alto grau de credibilidade.

Segundo Frank Baasner, do Instituto de Pesquisa das Relações entre França e Alemanha de Ludwigsburg, o relacionamento entre Merkel e o presidente francês, François Hollande, começou frio. Mas Berlim recebeu com entusiasmo as últimas medidas anunciadas em Paris. O risco de um agravamento da crise do euro através da França, possibilidade identificada por analistas, um fantasma assustador.

- Até agora, os governos de ambos países não conseguiam encontrar soluções comuns para a crise do euro - avalia Baasner.

oglobo.globo.com | 03-02-2014

BERLIM - Inteiramente desamparados, os fugitivos da Bulgária e da Romênia conseguem sobreviver com a ajuda de ativistas. Entre as pessoas que vão diariamente ao prédio na Rua Reichenberger, em Berlim, estão a brasileira Kira Stein e suas colegas da ONG International Women Space.

O GLOBO - É verdade que o Estado alemão recusa ajuda aos imigrantes da Bulgária e da Romênia?

KIRA STEIN - Oficialmente, eles deveriam receber ajuda. Mas o Estado cria obstáculos ao introduzir regras como a de que só recebe ajuda quem já trabalhou na Alemanha. Esses pobres que vivem aqui não têm chance nenhuma de superar os obstáculos intransponíveis impostos pelo Estado alemão.

Como uma brasileira vem parar em Berlim para ajudar os invasores de uma escola abandonada?

Sempre me interessei pela ajuda social aos pobres. Estou em Berlim há três anos. No Brasil, são os pobres que vivem em favelas. Aqui são os imigrantes que vivem em campos ou prisões de deportação. No fundo é a mesma coisa, são os excluídos.

Os imigrantes da escola são apenas romenos e búlgaros?

Temos também muitos africanos que enfrentam problemas ainda maiores. Os romenos e búlgaros sofrem das adversidades mas como cidadãos de um país da UE não podem ser expulsos daqui. Já os africanos são confrontados muitas vezes com a deportação.

oglobo.globo.com | 02-02-2014

LONDRES E BERLIM - No pequeno anúncio que colocou em uma das páginas da internet voltadas para a comunidade romena na Inglaterra, Nicolae P., de 42 anos, diz que precisa de trabalho urgente e topa qualquer tipo de serviço com baixa qualificação: de pedreiro a pintor de parede, passando por vigia. Apesar dos flagrantes erros de inglês no texto, garante fluência no idioma local. Desde o início do ano, ele e outros tantos romenos ganharam o direito de entrar no Reino Unido para viver e trabalhar como qualquer outro cidadão da União Europeia (UE). E é justamente o perfil deste homem que tanto preocupa o governo e a mídia britânicos, que alardearam os riscos de uma invasão romena e búlgara (a Bulgária também passou a ter livre trânsito no país), que resultaria na explosão de gastos com benefícios sociais e na sobrecarga dos hospitais e habitações de baixa renda.

Por enquanto, porém, a maior consequência da abertura das fronteiras e todo o estardalhaço em torno das novas hordas de trabalhadores do Leste Europeu que viriam dispostos a tomar o emprego de britânicos foi o ressentimento e o preconceito.

No final do ano passado, a dentista romena Gina Marinescu, que mora em Londres desde 2008, foi insultada por um paciente agressivo que gritava dentro do centro odontológico que “os romenos deveriam trabalhar nas fazendas e não como dentistas e que ela não deveria ter permissão para trabalhar no Reino Unido”. Grávida, ela chegou a passar mal após a briga, e deu queixa na polícia. Semanas depois, foi demitida.

Hoje, segundo as estatísticas oficiais, 94 mil romenos e 47 mil búlgaros vivem no Reino Unido. Muitos deles ocupam postos de trabalho qualificados, pagam seus impostos, como qualquer cidadão. Para Emil Rusanov, editor do jornal búlgaro “Budilnik”, publicado no Reino Unido, a comunidade está chocada com a campanha negativa que se fez.

- Os búlgaros que vivem no Reino Unido não esperavam ser tratados assim em um grande país como este. Ataques xenófobos como estes são uma grande vergonha e inaceitáveis. O resultado da campanha que se fez contra os búlgaros é que sentimos que a percepção e atitude dos britânicos em relação a nós mudou. Algumas pessoas passaram a ter problemas nos seus ambientes de trabalho. Estamos nos sentindo europeus de segunda linha - disse o jornalista. - Nossa crença de que no Reino Unido todo mundo é tratado de maneira igual já não existe mais. A história da grande invasão búlgara foi uma grande mentira para tirar a atenção do público de outros grandes problemas do país. Fomos usados, discriminados, humilhados e esperamos um pedido de desculpas.

Para Petro Fassoulas, presidente da EuroMove, ONG que defende o livre trânsito dos cidadãos europeus, somente os tributos pagos pelos europeus que se mudam para o Reino Unido chegam a cerca de 25 bilhões de libras (quase R$ 100 bilhões) por ano.

- A histeria não se comprovou. Há que se lembrar dos benefícios do livre trânsito, que são inegáveis - disse Fassoulas.

No início do ano passado, nos bastidores do governo conservador considerou-se promover uma espécie de antipropaganda do país. A ideia, no mínimo curiosa, tinha como alvo específico os búlgaros e os romenos. A campanha alertaria para a falta de empregos no Reino Unido e o conhecido tempo chuvoso. A despeito dos números, o Partido Conservador insiste em mudanças na lei de imigração, que está voltado à Casa dos Comuns, por temer que a tal invasão aconteça no longo prazo. A ideia é dificultar a entrada dos imigrantes com regras mais duras para a transição dos controles para futuros países membros da UE.

Vida de refugiados em berlim

O Reino Unido não foi o único a abrir as fronteiras para os nacionais destes dois países que ingressaram na União Europeia (UE) ainda em 2004. Áustria, Bélgica, França, Alemanha, Luxemburgo, Malta, Holanda e Espanha também o fizeram. Os outros 19 países do bloco, ou já não impunham restrições ou acabam com elas antes do tempo regulamentar previsto. O período de sete anos para que pudessem transitar livremente dentro dos 28 países do bloco, desde o seu ingresso, já foi um recorde para as regras europeias.

Na Alemanha, os poucos romenos e búlgaros que ousam fazer valer sua condição de cidadãos europeus também não contam com uma recepção calorosa. Em Berlim, uma escola abandonada no bairro de Kreuzberg serve de casa para cerca de 300 refugiados, da Romênia e da Bulgária, que aguardam em vão por amparo do Estado alemão.

Na falta de lugar para morar, os refugiados, que não podem ser expulsos da Alemanha porque têm passaporte da UE, invadiram o prédio da escola, na Rua Reichenberger, 131, um endereço que é sinônimo para os problemas da Europa de hoje. Em outro edifício no mesmo terreno, foi instalado há dois anos o “bar da heroína”, onde os viciados consomem noite e dia a droga, injetada através de ampolas financiadas com a ajuda municipal.

A ideia de criar os filhos pequenos a poucos metros de um centro de viciados, que poderia significar um horror para muitos pais, deixa Maria Marian, de 27 anos, mãe de quatro filhos entre 8 meses e nove anos de idade, indiferente.

Maria faz parte do grupo de romenos que vivem no prédio da escola, uma construção em estado péssimo, sem calefação e com péssimas instalações sanitárias. Ela e os outros romenos do grupo vieram para a Alemanha há três meses, iludidos por um empresário que vive do transporte de migrantes pobres para as regiões ricas da Europa.

- Nós pagamos tudo o que tínhamos e fomos simplesmente abandonados quando chegamos aqui - diz ela.

Mesmo indo contra as leis da União Europeia, que exige igualdade de tratamento para os imigrantes de outro país do bloco, as cidades alemãs se recusam a conceder ajuda social aos romenos e búlgaros, o que segundo a lei é um direito básico de todo alemão, receber do Estado o mínimo necessário para a sobrevivência.

Maria, que é analfabeta mas fala um pouco de português - que aprendeu assistindo na TV romena novelas brasileiras não dubladas - conta que na falta absoluta de perspectivas o seu grupo passa o dia pedindo esmolas nas ruas berlinenses. Crianças e adultos, todos ajudam na tarefa. Por pessoa cada um consegue uma média de seis euros por dia. Apenas alguns ativistas visitam os refugiados, ajudam na limpeza e trazem leite e fraldas para as crianças.

O governador do estado rico da Baviera, Horst Seehofer, entrou com uma petição no Parlamento para contornar a lei de livre trânsito. Seehofer quer evitar qualquer tipo de ajuda do estado, e de preferência, ter o direito de mandar embora os chamados “turistas do sistema social”.

A discussão ajuda a aumentar a aversão da população para com esses europeus. Conseguir um trabalho, mesmo algo tão simples como na limpeza, tornou-se impossível para os imigrantes. Eles são vistos pela população local como possíveis criminosos.

- Ninguém nos dá a chance de conseguir um emprego. Eu não tenho medo de trabalhar e já em Alexandra, na Romênia, trabalhava como faxineira - diz a romena.

oglobo.globo.com | 02-02-2014

RIO E BRASÍLIA - Num momento em que se disseminam os benefícios de uma alimentação saudável, com frutas, verduras e legumes, especialistas alertam para os riscos dessa opção. Isso porque, o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, mas a fiscalização é falha. De 2002 a 2012, o mercado brasileiro de agrotóxicos cresceu 190%. O setor movimentou US$ 10,5 bilhões, em 2013, ano de ouro para a agropecuária, que teve supersafra e preços de commodities em alta. A análise dos alimentos que vão à mesa do consumidor, porém, é bem restrita. No último relatório da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), de 2012, foram analisadas 3.293 amostras de apenas 13 alimentos - 5% do que é avaliado por EUA e Europa. Desses, o resultado de apenas sete foram publicados até agora.

Nos EUA, a Food and Drug Administration (FDA), e na Europa, a European Food Safety Authority (EFSA), analisam cerca de 300 tipos de alimentos por ano, inclusive industrializados. No Brasil, produtos como carnes, leite, ovos e industrializados não são sequer pesquisados, apesar de especialistas alertarem que eles podem estar contaminados por agrotóxico.

A Anvisa confirmou que, em 2012, só 13 alimentos foram monitorados, mas informou que a tendência é de expansão do número de culturas. O enfoque do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos, explicou, são os itens mais consumidos pela população e importantes na cesta básica. Segundo a Anvisa, o milho está sendo monitorado desde 2012 na forma de fubá, e o trigo passou a ser monitorado na forma de farinha desde 2013, mas o resultado ainda não foi divulgado.

Registro não tem prazo de validade

A falta de fiscalização de agrotóxicos faz parte da série “No país do faz de conta”, iniciada no domingo pelo GLOBO. Hoje, 434 ingredientes ativos e 2.400 formulações de agrotóxicos estão registrados nos ministérios da Saúde, da Agricultura (Mapa) e do Meio Ambiente e são permitidos. Dos 50 mais utilizados nas lavouras, 22 são proibidos na União Europeia. Mato Grosso é o maior consumidor, com quase 20%, segundo a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco). O contrabando, sobretudo via Paraguai e Uruguai, de produtos de origem chinesa, sem controle dos aditivos, representa outro problema. E o uso ilegal de agrotóxicos preocupa. O DTT, proibido em todo o mundo, foi achado em 2013 na Amazônia, usado por empresas, segundo o Ibama, para acelerar a devastação de áreas.

Sobre os 22 defensivos proibidos, os técnicos da Anvisa explicam que, no país, o registro de agrotóxico não tem prazo de validade. Uma vez concedido, só pode ser retirado ou alterado após reavaliação que mostre mudança no perfil de segurança do produto. A agência iniciou processo de reavaliação em 2008 que resultou, até agora, no banimento de quatro produtos e no reenquadramento de dois.

O custo dos agrotóxicos à saúde é grande. Segundo o professor Fernando Carneiro, da Universidade Brasília, a cada US$ 1 gasto em agrotóxico, há um custo de US$ 1,28 em atendimento ao intoxicado.

- A intoxicação aguda afeta o trabalhador rural e o da fábrica. A crônica atinge o consumidor, que fica mais exposto a doenças como câncer e alterações metabólicas. O Mapa e as secretarias de agricultura têm dinheiro para monitorar e vigiar gado por causa da exportação. Quando se fala em agrotóxicos, não há estrutura nem fiscais.

Para a professora Karen Friedrich, do Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde, da Fiocruz, a fiscalização na carne que chega aos lares deveria ser iniciada o quanto antes:

- A contaminação deve ocorrer em industrializados, como molho de tomate e suco em caixa.

Karen diz que é preciso que os municípios e estados atuem onde ocorre a contaminação e que falta investimento para ampliar a análise, embora a Anvisa “faça milagre com o que dispõe".

Para os trabalhadores rurais, o cenário de fiscalização também é de restrições. Cerca de um quarto das fazendas recenseadas no país em 2006, ou 1.376.217, declaravam usar agrotóxicos. Segundo a Secretaria de Agricultura do Estado do Rio, no ano passado foram autuadas 420 das 680 propriedades rurais fluminenses por irregularidades envolvendo agrotóxicos. Joel Naegele, vice-presidente da Sociedade Nacional de Agricultura, critica:

- Num país onde o clima favorece parasitas e pragas danosas, não há fiscalização. Há 60 anos acompanho a agricultura e é tudo muito mal feito, papo-furado, ilusões. Se dependermos da ação do governo, estamos num mato sem cachorro.

Para governo, lei é rígida e moderna

O coordenador geral de agrotóxicos e afins do Mapa, Júlio Sérgio Brito, assegura que o sistema de controle é tão avançado quanto os dos principais países do mundo. Segundo Brito, a legislação é "rígida, moderna e profunda". Para ser aprovado para uso agrícola, explica, o produto é avaliado sob os pontos de vista agronômico, de saúde e ambiental.

Eloisa Dutra Caldas, professora de Toxicologia da UnB, diz que o problema está no fato de haver resíduos de agrotóxicos em produtos para os quais seu uso não está autorizado:

- Cerca de 50% das mais de 14 mil amostras analisadas por Anvisa e Mapa até 2010 continham resíduos de pesticidas. Este percentual não é muito diferente do encontrado no resto do mundo.

Henrique Mazotini, presidente da Associação dos Distribuidores de Insumos Agropecuários (Andav), no entanto, reconhece que há desvios:

- Aqui falta gente e infraestrutura. Além disso, o Brasil sucateou sua extensão rural e falta orientação técnica aos produtores.

Frequentadores da feira livre da Praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, se mostram preocupados. O aposentado José Barbosa gostaria de saber quais agrotóxicos incidem sobre os alimentos:

- Deveria haver mais informações sobre a produção. Principalmente no caso do morango, que é uma fruta mais sensível, com uma casquinha fina, que absorve muita coisa.

A indústria de defensivos rebate o argumento de que há risco à saúde. O agrônomo Guilherme Guimarães, da Associação Nacional de Defesa Vegetal, diz que a segurança alimentar do consumidor é testada pelos órgãos que liberam os produtos. Quanto ao fato de que o Brasil ainda tem agrotóxicos já banidos no exterior, ele diz que isso se deve ao clima e a adversidades.

O Ibama diz que aplicou R$ 14,5 milhões em multa em 2013, a maior parte na apreensão de produtos ilegais importados. Colaborou Daiane Costa

oglobo.globo.com | 30-01-2014

TEERÃ - Em uma noite no ano passado, uma clínica de fertilidade privada no sul da cidade iraniana de Shiraz estava tão cheia que a recepcionista lutava para acomodar todas as mulheres que procuram seus serviços. Uma fatwa de aiatolá Ali Khamenei permitindo doações de esperma e óvulos repousava na parede - colocada lá , talvez, para tranquilizar as mulheres que elas tinham a aprovação do Líder Supremo para o que elas estavam prestes a fazer. Muitas viajaram longas distâncias de cidades menores para chegar à clínica, e a área de espera esta completamente embalada pelas conversas das mulheres sobre o tratamento, remédios e suas histórias pessoais para ter um filho.

- Há cinco anos eu não poderia pagar isso, mas tenho guardado dinheiro até agora e estou pronta para tentar - disse uma mulher de 30 anos de idade sentada na sala de espera.

Enquanto a atenção do mundo está voltada para o programa nuclear do Irã, o país vem trabalhando silenciosamente em um tipo diferente estratégia. A República Islâmica - governada por rigorosos mulás que já conseguiram estragar o progresso em áreas que vão da indústria nacional a construção de um aeroporto - transformou-se de forma inesperada em uma capital do tratamento de fertilidade do Oriente Médio muçulmano.

O Irã tem agora mais de 70 clínicas em todo o país, que atraem casais sem filhos, sunitas e xiitas, de toda a região. Esta iniciativa tem suscitado desafios para as visões tradicionais de paternidade e casamento e ajudou a derrubar tabus sobre a saúde sexual - ainda que tenha deixado alguns dos vizinhos sunitas conservadores horrorizados com o Irã.

- Os médicos do Golfo estão horrorizados com a forma como os iranianos têm permitido isso - diz Soraya Tremayne, uma professora da Universidade de Oxford e especialista em fertilidade no Irã. - Eles dizem: 'Nós nunca permitiríamos isso entre nós’.

Por gerações, a infertilidade era um trauma para o casamento. O problema foi imortalizado em filmes como "Leila ", de Dariush Mehrjui, em que uma mãe intimida seu filho a ter uma segunda esposa quando a primeira não consegue conceber. A primeira mulher, envergonhada de sua infertilidade e ainda amando seu marido, entra no plano, mas a tensão emocional destrói seu casamento e o marido finalmente consegue uma criança, mas amargamente sozinho. O filme foi exibido apenas alguns anos antes da fatwa de 1999 de Khamenei e foi um grande sucesso.

O Irã, como outros países do Oriente Médio, tem uma altíssima taxa de infertilidade. Mais de 20% dos casais iranianos não podem ter filhos, de acordo com um estudo realizado por uma das principais clínicas de fertilidade do país. A taxa global varia entre 8% e 12%. Especialistas acreditam que isso se deve à predominância de casamentos consanguíneos, como os entre primos.

A infertilidade masculina é "a história oculta do Oriente Médio ", diz Marcia Inhorn, antropóloga da Universidade de Yale e especialista em reprodução assistida na região. Junte a isso um chocante declínio no número médio de filhos por mulher nas últimas décadas e o tratamento de fertilidade no Irã é mais necessário do que nunca.

Ainda assim, a pressão sobre um casal - e, particularmente, sobre a mulher - para ter filhos continua forte.

- Nós vivemos em uma sociedade oriental, e ter filhos continua a ser uma coisa muito importante na nossa cultura - diz Sara Fallahi, um médico em uma das três clínicas de fertilidade de Shiraz. - Um filho é o desejo da maioria, mesmo nessa geração que casa mais tarde e quer famílias menores.

A primeira clínica de fertilização in vitro do Irã (FIV) abriu em Yazd, uma cidade do deserto no centro do Irã, há mais de 20 anos. Ela imediatamente foi inundada com clientes. Em meados da década de 2000 era tão popular que as filas continuavam para fora da porta. Havia casais que, vindos de distantes áreas rurais, acampavam do lado de fora na esperança de conseguir atendimento. Mais clínicas logo abriram em Teerã e em todo o país.

Adaptação para vários métodos

O método de FIV rapidamente ganhou aceitação em outras partes do Oriente Médio, embora médicos tenham enfrentado restrições religiosas que proíbem formas mais avançadas de tratamento.

A fertilização in vitro padrão envolve fertilizar um óvulo com o esperma em um laboratório e, em seguida, retornar o embrião ao útero, um processo que requer que tanto o óvulo quanto o espermatozoide dos respectivos parceiros sejam viáveis - o que nem sempre é o caso. O próximo passo no tratamento da infertilidade requer um terceiro - ou seja, uma doação de esperma ou óvulo de fora do casal. No Islã, a ética de tal tratamento é obscura: os pacientes temiam estar cometendo adultério ou que as crianças nascidas de tais uniões seriam ilegítimas.

Mas os casais sem filhos continuaram a exigir uma maneira de conceber e os buscavam conselhos com mulás ( clérigos qualificados para ler e interpretar o Alcorão ) mais progressistas. A tradição xiita de reinterpretar a lei islâmica foi fundamental para a disposição dos clérigos - em contraste com o foco da jurisprudência sunita no consenso acadêmico e nas leituras literais do Alcorão.

Embora, para os ocidentais, os clérigos xiitas do Irã pareçam reacionários, eles são revolucionários quando se trata de bioética. Nos últimos anos, eles lançaram fatwas permitindo tudo, desde a pesquisa de células-tronco até a clonagem.

Seus decretos, entretanto, exigiram algumas contorções do Alcorão. As soluções religiosamente aceitáveis ​​oferecidas num primeiro momento, como o casamento temporário entre uma doadora de óvulos ou do parceiro masculino fértil, mostraram-se muito complicadas, exigindo que um doador casado estivesse sempre se divorciando e casando novamente.

Alguns clérigos que discordam da fatwa de Khamenei ainda defendem o casamento temporário como uma forma de evitar as implicações adúlteras de doações de terceiros. Mas essa abordagem é mais fácil para os maridos, que podem contrair um casamento temporário com uma doadora do óvulo feminino, sem a necessidade de se divorciar da esposa infértil. No caso da esposa, ela precisa esperar três meses para se casar novamente.

A disposição dos clérigos iranianos para emitir decisões religiosas inovadoras coincidiu com um clima político e demográfico de mudança que também estimulou tratamentos de fertilidade. Na esteira da revolução de 1979 o país embarcou em uma busca para aumentar a população, mas no final dos anos 1980 e início dos anos 1990, com o Irã se esforçando para se reconstruir após a devastadora guerra com o Iraque e com muitos nascimento de bebês, muitos questionaram se a economia do país, as escolas e as cidades poderiam lidar com o crescimento da população. Assim, as autoridades mudaram de rumo e implementaram um conjunto de políticas que gentilmente persuadiu os iranianos tradicionais a terem menos filhos.

Segundo Tremayne, de Oxford, as autoridades evitaram cuidadosamente palavras como "redução " e "controle" e optaram por "regulação da família", enfatizando que a política foi destinada não só para reduzir o tamanho da família, mas também para permitir que os casais inférteis tivessem famílias.

A barganha funcionou, com os tradicionalistas abraçando políticas anti-natalidade e os centros de tratamento de fertilidade do Irã se multiplicando. Ao promover a contracepção e as vasectomias, entre outras estratégias, como a retirada de subsídios estatais após o segundo filho, o Irã conseguiu reduzir a sua taxa de crescimento populacional de 3,8% em 1986 para 1,5% em 1996. Mas pode ter funcionado bem de mais: hoje, o Irã encontra-se abaixo da taxa de 2,1 filhos por mulher - o que garantiria uma população estável.

Em 1999, Khamenei emitiu sua fatwa permitindo a doação de esperma de óvulos permitido. “Tanto a doadora do óvulo quanto a mãe infértil devem respeitar os códigos religiosos sobre paternidade", o aiatolá decretou, estabelecendo as várias condições que tornaram o ato permissível diante de Deus. Através de decreto de Khamenei, a República Islâmica tinha deixado claro no mais alto nível que o Estado estava pronto para sancionar os esforços iranianos para fazer bebês - independente do que fosse preciso.

Hoje, o tempo em que a infertilidade era discutida em voz baixa está dando lugar a uma cultura viva de intervenção e de abertura. Mulheres conversam abertamente sobre a fertilização in vitro na televisão estatal, os casais recomendam especialistas e trocam histórias em fóruns da internet e os profissionais começaram a pressionar as companhias de seguros para cobrir o tratamento. O Estado subsidia as clínicas, fazendo o custo para o tratamento mais baixo do que em quase qualquer outro lugar do mundo: um tratamento completo de fertilização in vitro, incluindo drogas, custa o equivalente a apenas US$ 1.500, de acordo com Fallahi.

A fatwa revolucionária de Khamenei

A fatwa de Khamenei foi revolucionária para os muçulmanos xiitas em toda parte e abriu o caminho para muitas clínicas no Líbano, que tem uma população xiita significativa. Mas, de acordo com Inhorn, de Yale, os sunitas também estão respondendo à decisão, com alguns casais inférteis do mundo árabe indo para clínicas de Teerã que empregam intérpretes árabes. Em países sunitas como Egito, Turquia e os Emirados Árabes Unidos, a prática de fertilização in vitro clássica é amplamente aceita, mas não oferecem opções de tratamento para homens e mulheres que necessitam de assistência reprodutiva de terceiros para conceber.

- Alguns casais sunitas foram capazes de aceitar a doação de óvulos - diz Inhorn. - Eles podem dizer a si mesmos: bem, pelo menos há uma fatwa que diz que é OK. Algum ramo do Islã diz isso’. Isso os deixa mais à vontade.

Ainda assim, Fallahi, o médico, diz que os ansiosos clientes de sua clínica em Shiraz frequentemente levantam a questão da aprovação religiosa.

- Eles querem ter certeza de que o que eles estão fazendo não é haram - diz ela se referindo às proibições da lei islâmica. O Parlamento legalizou doação de embriões em 2003, fornecendo algum apoio legal à decisão religiosa do Líder Supremo.

Fallahi salienta, porém, que a fatwa de Khamenei é a opinião de um marja (ou fonte de emulação), e que nem todos os aiatolás concordam.

- Dizemos às pessoas que o Parlamento aprovou isso, mas que eles precisam verificar com o marja que eles seguem para ver se ele dá permissão.

De certa forma, o tratamento de fertilidade deve ser uma rara área onde o regime iraniano avançou antes da sociedade estar pronta. Embora os legisladores tenham aprovado a doação de embriões, eles anularam a doação de esperma permitida por Khamenei. Como resultado, a prática foi empurrada para debaixo dos panos, e essas clínicas que calmamente oferecem o tratamento são vulneráveis ​​a acusações.

Sara Bamdad, pesquisador em Shiraz que realizou uma pesquisa sobre as atitudes públicas sobre reprodução assistida, constatou que apenas 34% dos entrevistados aprovaram a doação de óvulos.

- Os legisladores devem estar pensando sobre o futuro e o que vai acontecer com essas crianças quando eles forem mais velhas - diz Bamdad. - Se uma sociedade não pode aceitar um filho que é nascido de reprodução assistida, isso pode gerar problemas para a criança no futuro.

No Irã, os filhos nascidos de reprodução assistida com doação de esperma ou de óvulos se enquadram na categoria de adotados ou enteados - que não tem direito à herança, por exemplo. Cabe aos casais assegurar os direitos desses filhos.

De qualquer forma, a busca pelos bebês lançou um processo que pode finalmente mudar o que significa ser casado, o que significa ser um pai e mesmo o que significa ser pai e mãe na República Islâmica. Como o Irã se esforça para manter a evolução dos valores de seu povo e os princípios da lei islâmica, o seu sucesso com o tratamento de fertilidade sugere que ele é capaz de conciliar essas pressões concorrentes. Mas é uma questão em aberto se isso será aceito pelos sunitas do Oriente Médio.

- O Irã está crescendo à frente, usando [ essas tecnologias ] em todas as suas formas. Indo para onde os países sunitas da região não podem segui-lo - diz Tremayne

oglobo.globo.com | 28-01-2014

WASHINGTON - Diretor do Instituto para Estudos Cubanos e Cubano-Americanos da Universidade de Miami, o historiador Jaime Suchlicki diz que o movimento europeu não deve alterar a temperatura das relações entre Havana e Washington. Para ele, enquanto o regime dos Castro não fizer uma concessão real aos EUA, como a liberação de um preso americano ou a abertura da internet, a Casa Branca manterá cautela, ainda que invista na diplomacia com a Ilha. “Cuba espera que os EUA mudem sua política. É difícil avançar assim”, diz o especialista.

A UE está reabrindo diálogo com Cuba. Qual a importância desta iniciativa para as relações diplomáticas de Cuba em geral e com os EUA em particular?

Antes de mais nada, a União Europeia não é importante para Cuba. Os países que têm importância econômica para a Ilha são Venezuela, Irã, China e Rússia. Esses são os principais parceiros comerciais dos cubanos. A UE não tem nada que Cuba queira. A importância da UE para Cuba é política, a pressão política que os europeus põem nos Estados Unidos, em outros países, é permitir o discurso: veja, a União Europeia está negociando conosco. Mas os europeus não vão fornecer petróleo, não providenciarão crédito farto, até porque nem têm dinheiro para isso, então não estamos falando de um esforço sério dos europeus. Cuba vai apenas tocar esta música por alguns meses para ver o que conseguem arrancar no tabuleiro internacional e dos EUA.

Qual o estado da relação com os EUA? Os diálogos recentes, por exemplo em drogas e serviço postal, revelam uma gradual aproximação?

Os EUA mantêm diálogo com Cuba há 50 anos. Falamos com Cuba nas Nações Unidas, nas representações diplomáticas em Havana e Washington, por intermédio da Guarda Costeira e de acordos sobre sequestro de aviões, tráfico de drogas, imigração. Há um sem número de diálogos e discussões. Mas a questão não é falar com Cuba, a questão é Cuba estar disposta a fazer concessões que mudem sua política. Até que haja disposição para respeitar direitos humanos, liberar a internet e abrir o processo político, os EUA continuarão se movendo de forma lenta e cautelosa nas suas relações com Havana.

O governo Obama relaxou a concessão de vistos e as viagens e não utiliza discurso agressivo contra os Castro. O senhor vê alguma diferença na política de Obama para Havana em relação aos governos Bush e Clinton?

A única coisa que vejo que este governo faz diferente dos anteriores, como também no caso do Irã, é a disposição à conversa e à diplomacia. Mas os EUA como Estado têm suas pré-condições e desejos em relação à Ilha, que estão incorporados à legislação americana (Lei Helms-Burton), que impõe a abertura de Cuba como condição para retomada de negociações e relações diplomáticas. Isso não muda de hora para outra, por vontade de um presidente.

O senhor observa alguma disposição do regime dos Castro de fazer concessões aos EUA, dentro do processo de mudanças implementadas por Raul desde que ele sucedeu Fidel no comando da Ilha?

A concessão mais simples que Havana poderia fazer seria libertar Alan Gross (americano preso desde 2009 em Cuba, e sentenciado a 15 anos de cadeia em 2011, acusado de espionagem). Mas se recusa. A posição de Cuba é: vamos esperar para ver o que conseguimos arrancar de concessões unilaterais dos EUA. Espera que os EUA mudem sua política. É difícil avançar assim.

O senhor vê alguma janela de oportunidade no futuro próximo para que a posição cubana mude e Havana faça um gesto a Washington? A aposentadoria de Raul Castro (em 2018) poderia ser este gancho?

Se os dois Castro estiverem fora do circuito, pode se abrir uma janela. Mas agora há outro Castro no horizonte, o filho de Raul (Alejandro Castro Espín), que é o chefe da Inteligência da Ilha. Ele ainda tem que virar general e entrar para o comitê político do Partido Comunista para estar na linha de sucessão. Mas é outro componente nebuloso, que não ajuda.

O senhor acredita que, com as dificuldades de Cuba e uma certa impaciência de setores crescentes da sociedade cubana, um terceiro Castro seria um caminho que o regime tomaria?

Os cubanos estão, sim, impacientes, divididos entre os desejos de mudança e de migração para os EUA. O problema é que as pessoas não estão organizadas, o sistema é muito repressivo, não há formas de se comunicar. Os cubanos, assim, estão esperando que as mudanças venham de cima (da cúpula do regime). E não há mudanças vindas do topo, o que chamamos de reforma na verdade são mudanças pontuais, não transformaram Cuba em uma economia de mercado.

O que pode mudar o cálculo de Havana em direção a concessões aos EUA para melhorar as relações diplomáticas?

Mesmo quando a União Soviética desmoronou e Cuba entrou no chamado período especial, a Ilha não mudou muito. Abriram algumas coisas, como o turismo, permitiram uma economia em dólar. Mas não se moveram do comunismo ou do regime totalitário. Talvez se a Venezuela interrompesse o fornecimento de petróleo, talvez houvesse uma reação em massa da população em Cuba e o regime fosse desafiado. Mas, tirando isso, sinceramente não vejo nada hoje que mudaria o regime de direção.

oglobo.globo.com | 21-01-2014

ATENAS - Kostas Tsiaktanis, de 40 anos, proprietário de um hotel no turístico bairro de Plaka, em Atenas, fica um tempo em silêncio, fazendo contas, e depois dispara: “Tenho 15 amigos desempregados.” Giorgios Mpitzilis, também de 40, que trabalha como maître num restaurante do bairro de Monastiraki, tem seis, mas comemora o fato de a mulher, após cinco anos sem trabalho, estar há oito meses empregada. Vai ajudar no orçamento doméstico e na criação dos filhos, de 4 e 6 anos. A motorista que nos leva ao aeroporto pegou naquele dia o táxi emprestado de um amigo, este sim taxista, para ganhar € 30, preço cobrado pela corrida. Diz que quer conhecer o Brasil, mas só depois que terminar de pagar o curso das duas filhas que estão na universidade. No rádio do táxi, toca “Take My Breath Away”, da banda Berlin, trilha do filme “Top Gun”.

A crise, que deixou os gregos 40% mais pobres, em média, do que eram em 2008, afetou cada um deles de um jeito. Tsiaktanis acumulou funções no hotel, passando a exercer o trabalho que era feito por outros dois gregos. Deixou, portanto, de abrir vagas no estabelecimento da família e aumentou a própria carga horária.

— Eu e meu pai trabalhamos de 7h às 21h, 14 horas por dia. Eu precisaria de dois funcionários, mas eles me custariam € 3 mil por mês. É impossível. Está todo mundo assim, você não contrata mais e o pior é que não há perspectiva. E eles continuam cobrando impostos. Isso não vai a lugar algum — diz.

Tsiaktanis diz “eles”, no plural, mas se refere a um sujeito bem singular: o governo. Na avaliação do empresário, é ele um dos grandes culpados pela crise, porque passou décadas, independentemente de quem estivesse no poder, gastando muito, sem limite. Diz também que o crédito era abundante, assim como o número de funcionários públicos, muitos deles empregados por serem amigos ou conhecidos de outros que também trabalhavam no governo. Mas com a mudança de vento trazida pela crise, vieram os ajustes:

— Até que o governo veio e disse: “me desculpe, mas acabou a festa”. Agora nós temos que fazer cortes, aumentar impostos. Com mais tributo para pagar, se o negócio não vai bem, acaba fechando — diz.

É por isso que Tsiaktanis diz ter muitos amigos sem trabalho. Com a quebra de negócios, muita gente foi para a rua. Na Grécia, a taxa média de desemprego está em 27,4% (último dado disponível), a maior da Europa. Segundo a Eurostat, a agência de estatísticas da região, é o dobro (54,8%) entre os jovens, e, entre as mulheres, de 31,4%.

É que a economia grega não cresce há seis anos. Em 2008, o Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos no país) encolheu 0,2%; em 2009, mais de 3%; em 2010, quase 5%; em 2011, 7%; em 2012, mais de 6%; e, no ano passado, deve ter registrado queda de 4%. Entre 2008 e 2013, período sombrio em que se chegou a discutir a possibilidade de o país deixar a zona do euro, a economia grega encolheu 25%.

Outro inimigo é a deflação. Em dezembro, quando os preços tiveram queda de 1,7%, a Grécia completou dez meses de deflação. Em novembro, tinham caído ainda mais, 2,9%. Em 2013, quase 1%, enquanto a inflação na zona do euro como um todo está abaixo da meta, o que preocupa, e deve continuar assim por um tempo.

— Dado que a Grécia não tinha como fazer os ajustes na economia via taxa de câmbio, por estar na zona do euro, uma maneira de fazer isso era via deflação. Mas é ruim para a economia. Trata-se de um mecanismo doloroso de ajuste dos desequilíbrios, é penoso para a população — diz Rodolfo Oliveira, economista da consultoria Tendências.

Inimiga do crescimento, a deflação é mais um obstáculo para a Grécia. O ciclo pode ser perverso: como os consumidores acham que os preços podem continuar caindo, o que parece bom, eles adiam as compras; as empresas vendem menos, reduzem a produção e o investimento, cortam salários, empregos, e o país não cresce. Mas a dívida pública em relação ao PIB pode aumentar.

A notícia que parece boa é que, após anos de sacrifícios, a Grécia pode, enfim, sair da recessão este ano, segundo previsões do banco central (BC) do país, da União Europeia (UE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI), que estimam crescimento de 0,5% e 0,6%. Outra novidade é que, desde o início de janeiro, o país assumiu, por seis meses, a presidência temporária da UE, que terá eleições em maio. Para a Grécia, é uma oportunidade de resgatar o prestígio perdido com a crise. Recentemente, o premier, Antonis Samaras, disse que a “Grécia quer voltar a ser um país como os outros”.

Enquanto atende um e outro hóspede que chega à recepção do hotel, Tsiaktanis diz que aquela era a melhor área do bairro, com lojas de roupas, sapatos, o “coração comercial”. Mas muitas fecharam as portas:

— No setor privado, estamos indo de mal a pior. No de roupas, por exemplo, só continuam as grandes redes, mas até essas estão sofrendo com a questão dos impostos e procurando outros lugares. Então, onde os gregos vão trabalhar?

O hotel de Tsiaktanis situa-se a duas quadras da simbólica praça Syntagma, palco de inúmeras manifestações e protestos nos anos de crise, em frente ao Parlamento. Por lá e em pontos turísticos de Atenas, há muitos vendendores ambulantes e artesões e artistas de rua, em busca de algum trocado.

Giorgios Mpitzilis, o maitre do restaurante de Monastiraki, diz que a situação, muito ruim desde 2010, melhorou um pouco em 2013. Segundo ele, há mais turistas visitando Atenas e não só as ilhas. Mas, na baixa temporada, ele costuma voltar para casa caminhando, para economizar a gasolina.

No cardápio do restaurante, as informações sobre o IVA (Imposto sobre Valor Agregado) ainda estão desatualizadas, mas Mpitzilis lembra que os impostos para restaurantes e hotéis, que chegaram a 23%, em 2010, baixaram para 13%. O governo fez isso em agosto do ano passado, com a esperança de retomar o consumo, aumentar o faturamento das empresas e a arrecadação de impostos. Resta ver se a medida terá o impacto positivo esperado.

oglobo.globo.com | 18-01-2014

RIO - O uso excessivo de antibióticos na agricultura e na criação de animais - também chamado de consumo não humano - inaugurou uma era de “crise de saúde global”, segundo um estudo publicado esta semana na revista “New England Journal of Medicine”. O economista Aidan Hollis, autor do artigo e professor da Universidade de Calgary (Canadá), alerta que as substâncias aumentaram o contingente de micro-organismos imunes aos medicamentos. Em contato com as “superbactérias”, o homem está sujeito a um novo leque de infecções ainda não conhecido pela indústria farmacêutica.

Estima-se que só nos EUA sejam consumidas cerca de 51 toneladas de antibióticos por dia, 80% deste total para o aumento da produção agropecuária. No resto do mundo, no entanto, esta proporção também seria alarmante - à exceção da União Europeia, onde o uso destes medicamentos no campo é proibido.

Os antibióticos são aplicados em árvores frutíferas e, principalmente, em animais. Sua injeção exagerada no meio ambiente permitiu a multiplicação de bactérias mais resistentes. O pesquisador lista evidências de patógenos imunes à enxurrada de medicamentos usados no campo.

- Vivemos atualmente uma crise de saúde global - avalia. - As bactérias resistentes a antibióticos causam cerca de 2 milhões de infecções anualmente nos EUA. E a imunidade destes micro-organismos está crescendo.

Além de nossa dieta, as bactérias imunes a antibióticos nos atingem por outras vias.

- Não é apenas a comida que consumimos - alerta o economista. - As “superbactérias” se espalham no ambiente e vão de uma pessoa para outra. Se você for infectado com uma bactéria resistente, os antibióticos não lhe darão um alívio.

Segundo Hollis, as indústrias farmacêuticas, embora reconheçam o valor dos antibióticos, ainda não se sentem estimuladas a produzir remédios contra as “superbactérias”:

- A medicina moderna se baseia em antibióticos para matar infecções bacterianas. Sem estes medicamentos, qualquer cirurgia seria extremamente arriscada e as terapias, menos eficientes - lembra o economista. - Mesmo assim, as companhias farmacêuticas ainda não investem no desenvolvimento de remédios contra as “superbactérias”. Enfrentamos uma escassez de produtos.

Sem a aplicação de antibióticos no campo, o desenvolvimento das “superbactérias” poderia ser interrompido. No artigo, Hollis sugere a criação de uma taxa contra o uso exagerado dos medicamentos, da mesma forma que petroleiras pagam royalties por sua atividade e empresas que cortam árvores bancam projetos de replantio.

Os empresários do setor agropecuário, no entanto, não abrem mão dos antibióticos, que diminuem os custos da produção.

- Os antibióticos são aplicados em pequenas doses, mas é o suficiente para reduzir a quantidade de grãos necessária para alimentar o gado, ou para que um filhote não fique doente quando estiver em condições insalubres - conta. - São métodos obviamente lucrativos para os fazendeiros, mas isso não significa que vão gerar grandes benefícios. É possível alimentar o mundo inteiro sem recorrer a estes medicamentos.

Tratado internacional

De acordo com o economista, a criação de um imposto forçaria o agropecuarista a investir em métodos de melhor manutenção de seus animais. Entre eles, o uso de vacinas, em vez de antibióticos, para tratar animais doentes.

Além de uma taxa para controle dos medicamentos, Hollis também sugere a instituição de um tratado internacional contra os antibióticos não humanos. O economista lembra que as “superbactérias” não respeitam fronteiras.

Devido à sua grande produção agropecuária, o Brasil deve ser “pressionado” a reduzir a aplicação destes medicamentos no campo.

- O Brasil é um país emergente com indústria agrícola. Deve ser pressionado a aderir a um acordo internacional - defende. - Este documento restringiria o consumo dos antibióticos. Proibir totalmente o seu uso seria muito mais difícil de monitorar.

Hollis avalia que o acordo teria grande adesão porque os governos veriam a imposição de multas como uma nova fonte de receitas.

A ONG Aliança para o Uso Prudente de Antibióticos (Apua, na sigla em inglês) comparou o efeito de antibióticos ingeridos propositalmente - por exemplo, pela automedicação - àqueles ingeridos em alimentos.

- De fato, existe o risco da ingestão desnecessária de antibióticos gerar resistência em bactérias patogênicas ao homem - diz o pesquisador Carlos Alberto Lopes, da Embrapa Hortaliças, que acompanhou as discussões da Apua. — Bactérias patogênicas adquirem facilmente a resistência a antibióticos pelo simples contato entre elas. Daí surgem as “superbactérias”.

Lopes, no entanto, destaca que o uso de antibióticos pulverizados em plantas é “desprezível” no Brasil. Os problemas de saúde são causados pelos medicamentos aplicados em animais ou pela própria automedicação.

- Por aqui, a ingestão indesejável de antibióticos por humanos era praticamente 100% de origem animal — assegura. - O cuidado maior deve ser com uso de antibióticos na criação de animais de abate.

Duas semanas atrás, a FDA, a agência americana que regula alimentos e remédios, anunciou limites voluntários para o uso de antibióticos em fazendas.

A agência lembrou que a grande maioria dos antibióticos usados na agricultura não é aplicada em medidas que trariam grande impacto - como remédio para animais doentes -, mas para promover a baixo custo o crescimento de espécies. A FDA sugere que as companhias farmacêuticas mudem as práticas de marketing para combater este problema. As metas, no entanto, foram consideradas “tímidas” pelos ambientalistas.

oglobo.globo.com | 27-12-2013

LONDRES - Cientistas desenvolveram um situã inteligente que se diz capaz de medir o humor da usuária e ajudá-la a evitar comer em excesso. M. C. Schraefel, professor de Ciência da Computação da Universidade de Southampton, no Reino Unido, ajudou a projetar o sutiã que é equipado com sensores de monitoramento da atividade cardíaca e da pele.

As informações do protótipo são então analisadas por um aplicativo de smartphone que pode avisar quando o consumo de comida por razões emocionais é mais propenso de ocorrer e oferece conselhos à usuária. Ele ainda dá sugestões tais como a realização de exercícios respiratórios para reduzir os níveis de estresse da pessoa.

- Os estados emocionais e alguns hábitos, como lanches em frente à TV, geralmente não são detectados por nós, mas eles têm efeitos reais na nossa qualidade de vida - comentou Schraefel. - Este trabalho nos ajuda a desenvover tanto um alerta sobre nosso estado e oferece opções de construir novas práticas para nosso bem-estar.

oglobo.globo.com | 19-12-2013
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