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União Européia Educação

RIO E ROMA - Da noite para o dia, a Itália se viu mergulhada, mais uma vez, na incerteza sobre seu futuro político. Num simbólico vácuo de poder, o anúncio da renúncia do primeiro-ministro Matteo Renzi — após ter sido duramente derrotado no referendo sobre a reforma constitucional proposta por ele, no domingo — provoca receios de forte instabilidade em Roma e se coloca como um novo teste à União Europeia (UE). Com quase 60% dos votos contra o projeto do premier, o resultado foi considerado uma vitória da oposição populista italiana e brindado por polêmicos líderes antissistema dos vizinhos europeus. E, enquanto começam a surgir os nomes para ocupar a cadeira de Renzi, os eurocéticos italianos já se dispõem a assumir as rédeas de um governo fragilizado e, possivelmente, pressionar por um novo referendo sobre o abandono do euro. RENZI 0612

O premier postergou a renúncia até, pelo menos, sexta-feira. Após o Conselho de Ministros chegar a um consenso pela saída de Renzi, ele foi na segunda-feira ao Palácio do Quirinal, sede da Presidência, para comunicar ao presidente Sergio Mattarella que deixará o cargo, mas esperará a votação da Lei Orçamentária, nesta semana.

— Faço isso por senso de responsabilidade e para evitar o exercício provisório do cargo — disse Renzi após a reunião derradeira com seus ministros, citado pelo “La Repubblica”.

Mattarella disse que o clima político é de “serenidade e respeito recíproco”. A meta do presidente, segundo fontes, era evitar trazer mais instabilidade ao país no contexto da atual crise na zona do euro. De acordo com analistas, a derrota de Renzi, do Partido Democrático (PD), de centro-esquerda, é um sinal de que os italianos não estão satisfeitos com as atuais governanças do bloco europeu. E, embora não queiram chegar ao extremo de deixar a UE, pedem uma profunda transformação: mudanças no sistema de proteção social, mais atenção às políticas de trabalho e menos mecanismos de defesa para os bancos e especuladores financeiros. Hoje, a Itália se vê diante de altos índices de desemprego, que incentivam os clamores de revolta contra a política tradicional, vindos, sobretudo, do jovem Movimento Cinco Estrelas (M5S), a segunda maior força no Parlamento.

O professor Mattia Guidi, cientista político da Universidade LUISS, em Roma, explica que, pelas pesquisas, o resultado do referendo não foi uma surpresa. Mas o que surpreendeu foi a sua proporção, muito acima das intenções de voto. O índice de rejeição a Renzi acabou por surpreender até mesmo o premier, que disse aos seus aliados que não acreditava ser “tão odiado assim”.

— Ninguém previa uma diferença tão grande e isso provavelmente aconteceu por causa do grande comparecimento às urnas. O referendo foi visto pela população como um grande plebiscito sobre Renzi — explica Guidi.

DESAFIOS À EUROPA

É neste mesmo clima de insatisfação que ecoam os discursos populistas em diversas nações europeias, incluindo, muitas vezes, retóricas xenófobas da extrema-direita nos países mais afetados pela crise migratória. Não foi à toa que, rapidamente, a líder da francesa Frente Nacional, Marine Le Pen, comemorou o resultado das urnas no referendo italiano e o atribuiu ao seu colega da Liga Norte, Matteo Salvini. As duas legendas são, atualmente, aliadas no Parlamento Europeu e dividem fortes discursos anti-imigração. “Os italianos repudiaram a UE e Renzi. É necessário escutar essa sede de liberdade das nações e de autodefesa!”, escreveu Le Pen nas redes sociais. “Parabéns ao meu amigo Matteo Salvini por esta vitória do Não.”

Os parabéns também vieram do líder do xenófobo Partido da Liberdade, Geert Wilders, da Holanda. E o próprio Salvini fez uma comemoração bastante expressiva: “Viva Trump, viva Putin, viva Le Pen e viva a Liga!”, em referência à recente vitória do republicano Donald Trump nas eleições americanas de novembro.

O professor Ennio Triggiani, diretor do Departamento de Ciências Políticas da Universidade de Bari, explica que, embora o voto dos italianos tenha sido movido por questões internas, o referendo afetará a posição de Roma na política europeia. Mas não acredita numa crise para a zona do euro:

— Hoje, se abre um problema na Europa: o avanço dos populismos e nacionalismos. Com eleições em França, Alemanha e Holanda no ano que vem, seria preferível um governo italiano forte e estável, que daria ao país um papel maior no contexto europeu. É um efeito negativo do referendo para a Itália.

Dentre as especulações sobre o que o presidente Mattarella definirá, a hipótese mais provável é a formação de um governo tecnocrático, com um novo líder apoiado pela maioria de centro-esquerda do Parlamento. Dentre os nomes mais cotados, estão o Presidente do Senado, Pietro Grasso, e o ministro das Finanças, Pier Carlo Padoan.

Info referendo Itália

oglobo.globo.com | 06-12-2016

BERLIM — A vitória do político verde Alexander van der Bellen nas eleições presidenciais austríacas, realizadas no domingo, freou temporariamente as ambições do populismo anti-establishment na Europa. Depois de uma mobilização nacional, Bellen derrotou Norbert Hofer, do Partido da Liberdade, de extrema-direita, contrário à União Europeia e que defendia a construção de muros nas fronteiras para evitar a entrada de refugiados no país.

— Eu lutei desde o início por uma Áustria pró-Europa e por valores como liberdade, fraternidade e tolerância — afirmou o presidente eleito, de 72 anos, que nasceu no Tirol em uma família de refugiados do Leste Europeu.

Bellen assumirá a presidência da Áustria, um cargo mais cerimonial, no fim de janeiro com a missão de superar a divisão interna causada pela longa campanha eleitoral, a mais agressiva no país desde o final da Segunda Guerra Mundial. Hofer, aceitou a derrota e afirmou em seu perfil no Facebook que está “infinitamente triste” com o resultado. Ao mesmo tempo, seus adeptos usavam as redes sociais para especular sobre o perigo de “transformação da Áustria em um Estado muçulmano”.

Mas a festa da extrema-direita europeia pode ter sido apenas adiada, como afirma a cientista política brasileira Júlia Mourão Permoser, professora da Universidade de Viena:

— A mobilização nacional contra a extrema-direita surtiu efeito. No final, muitos potenciais eleitores de Norbert Hofer tiveram medo de uma política agressiva e da imagem negativa que a escolha de um presidente da extrema-direita significaria para a Áustria. Em maio do próximo ano, entretanto, Marine Le Pen tem grandes chances de ser eleita presidente da França.

A vitória de Alexander van der Bellen marcou o fim de um drama eleitoral nunca visto pelos austríacos. Em maio último, ele venceu o segundo turno da eleição presidencial com apenas 30 mil votos de diferença. A votação, porém, foi anulada sob a suspeita de irregularidades, o que fez a TV alemã ZDF chamar a Áustria de “república de bananas”. Em outubro, a repetição do segundo turno foi adiada para dezembro, depois de ter sido constatado que a cola usada para fechar os envelopes de voto por carta, importada da Alemanha, não colava direito. Durante os nove meses de campanha eleitoral, o discurso dos dois candidatos tornou-se mais agressivo, com acusações mútuas de “mentiroso descarado” ou “nazista simpatizante de Hitler”.

Para Julia Mourão Permoser, o resultado de ontem é mais um sinal de que apenas parte dos eleitores dos partidos populistas têm mesmo uma ideologia de extrema-direita.

— Alguns votam na direita como uma forma de protesto ao ver que os partidos até então no poder — no caso da Áustria, os social-democratas (SPÖ) e o Partido do Povo (ÖVP) — têm se mostrado incapazes de resolver os problemas registrados pela população — analisa a professora.

IMPACTO NA ALEMANHA

A vitória de Alexander van der Bellen poderá ter um efeito positivo na campanha da chanceler alemã Angela Merkel, que se candidatará pela quarta vez nas eleições parlamentares de setembro do próximo ano. O presidente eleito da Áustria elogiou a política para os refugiados da chefe do governo da Alemanha. Merkel foi alvo de críticas quando decidiu abrir as fronteiras do país e tem o seu futuro político ameaçado pelo crescimento do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), de extrema-direita, que tem tomado votos da União Democrata Cristã (CDU), partido da chanceler.

— A Europa tirou um peso do seu coração. A vitória (de Van der Bellen) foi uma vitória da razão — disse Sigmar Gabriel, presidente do Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD), que espera que o resultado austríaco fortaleça a mobilização contra a extrema-direita também em outros países onde há a ameaça dos populistas chegarem ao poder.

oglobo.globo.com | 05-12-2016

RIO e ROMA — Depois de apostar o seu cargo em uma ousada reforma legislativa, o primeiro-ministro da Itália, Matteo Renzi, se depara frente a uma perigosa encruzilhada política. Neste domingo, os italianos vão às urnas para decidir se o país reduzirá ou não os poderes do Senado — uma proposta que, segundo o premier, é necessária para aumentar a governança e reduzir os custos do Estado. No entanto, após meses de uma dramática campanha entre governo e oposição, em que Renzi prometeu renunciar caso sua reforma fosse derrotada, a verdade é que a disputa virou um grande julgamento popular do seu governo de centro-esquerda. E, agora, com as pesquisas apertadas, uma dividida Itália se vê diante da incerteza sobre o seu futuro, em que podem entrar em jogo o avanço de discursos populistas, a convocação de eleições antecipadas e até mesmo a sua saída da zona do euro. italia

A duas semanas do referendo, uma pesquisa do Instituto Demopolis marcava 52% das intenções de voto para o “Não”, que rechaça a reforma, e 48% para o “Sim”. No entanto, o diretor da organização, Pietro Vento, explica que o cenário era bastante diferente em abril, quando 58% dos eleitores indicavam endossar a proposta do premier. Mas a campanha de Renzi entrou em queda livre e, em apenas quatro meses, perdeu dez pontos — justamente porque o primeiro-ministro personalizou a votação e prometeu renunciar em caso de derrota. Tudo isso enquanto muitos italianos estão frustrados pelos altos índices de desemprego e pela crise migratória.

— Muitos começaram a pensar não tanto na reforma, mas em decidir se ainda queriam ou não o governo de Renzi, o que reduziu o percentual do “Sim” — explica o analista político. — Cerca de 56% dos italianos votarão para fazer um julgamento positivo ou negativo do seu governo.

GOVERNO SOB JULGAMENTO

Ao longo da campanha, o premier passou a evitar falar em renúncia. Mas, diante de um cerco cada vez mais apertado, ele agora diz que honrará sua palavra e não permanecerá em um governo enfraquecido. Já o vice-secretário da sua legenda, Lorenzo Guerini, sugeriu que, se o “Não” vencesse, o partido pressionaria por eleições antecipadas — sem esclarecer se o premier continuaria no Palácio Chigi, garantiu que ele ainda seria o líder do maior partido do Parlamento.

Entretanto, o que mais surpreende é o alto número de indecisos: na mesma pesquisa, eram 7 milhões de italianos que não sabiam que lado escolheriam. E outros 5 milhões que nem mesmo haviam decidido se sairiam de casa para comparecer às urnas. Vento atribui o clima de dúvida, sobretudo, à distância entre uma reforma tão complexa e a população, que nem sempre compreende os efeitos práticos de reduzir uma das duas Casas do país — o Senado e a Câmara de Deputados, hoje, têm o mesmo nível de poder e juntas reúnem quase mil legisladores. E, também, cita uma tendência recente dos cidadãos menos informados de escolher o voto na última hora, aumentando os desafios das pesquisas em acertar suas previsões — um fenômeno já registrado no referendo pela saída do Reino Unido da União Europeia (UE) e nas eleições presidenciais dos EUA.

— Há um movimento de voto muito mais forte hoje, e isso aconteceu muito nos últimos anos também na Itália. Quando a opinião pública está rachada praticamente ao meio, com este número tão alto de indecisos, que é de um italiano em quatro, tudo pode acontecer — avalia Vento.

Renzi, no entanto, pediu repetidamente na reta final da campanha que os eleitores saíssem hoje para votar. Enquanto crescia a pressão sobre os seus ombros por um sinal de vitória, uma das apostas do premier era a ampla comunidade italiana no exterior — que compõe cerca de 8% do eleitorado e, segundo analistas, pode ser decisiva para o referendo. E também apelava a uma suposta maioria silenciosa a seu favor, em contraposição aos eleitores que clamavam em alto e bom som em protestos nas ruas que votariam contra a reforma.

POSSÍVEL ABANDONO DO EURO

O pacote de Renzi parece não ter convencido, sobretudo, os desempregados e a juventude. Com sensação de abandono, em tempos de altos níveis de desocupação, muitos desconfiam das legendas tradicionais, incluindo o governista Partido Democrático. Na contramão, se veem atraídos pelo discurso antissistema do Movimento Cinco Estrelas (M5S). A retórica populista do grupo, liderado pelo temperamental comediante Beppe Grillo, conquista eleitores com críticas à tradicional elite política italiana. Enquanto a centro-direita não encontrou ainda um líder depois do ex-premier Silvio Berlusconi, o movimento é hoje a segunda força política da Itália.

O M5S fez uma fervorosa campanha pelo “Não”, na esperança de ver crescer sua potência política em eventuais eleições antecipadas. Dentre as suas propostas, a mais preocupante para os mercados e vizinhos europeus é um novo referendo: desta vez para votar a saída italiana da zona do euro. Ao lado do Italexit, como já é apelidada a potencial polêmica, os temores do rechaço à reforma incluem consequências semelhantes ao que vive hoje o Reino Unido pós-Brexit: troca repentina de governo, instabilidade na política e forte turbulência para a economia.

Renzi, por outro lado, tem ao seu lado investidores, a imprensa italiana e fortes líderes da comunidade internacional. Inclusive, é pressionado a não deixar o governo, se derrotado, para conter uma terceira revolta eleitoral antissistema no Ocidente, após os resultados em Reino Unido e EUA. O presidente Barack Obama disse que o italiano não deveria sair de cena. E em editorial, o “New York Times” pediu que Renzi amenize os efeitos da sua própria derrota.

— Renzi deu um sentido publicitário para a consulta e, assim, desencadeou um mecanismo de dramatização. Agora, a Europa, os grandes bancos e as organizações internacionais nos pedem que ele não saia — diz Fulco Lanchester, professor de Ciências Políticas da Universidade La Sapienza, em Roma.

oglobo.globo.com | 04-12-2016

BERLIM - Tratado durante mais de 70 anos como um filho renegado, Adolf Hitler está de volta à sua pátria, pelo menos como um dos principais temas da campanha para a eleição de amanhã, que terminou com troca de acusações mútuas sobre o ditador entre os candidatos Nobert Hofer, do Partido Liberal Democrata (FPÖ), e Alexander van der Bellen, do Partido Verde. Cartazes e outdoors mostrando Hofer com o famoso bigodinho de Hitler fizeram parte da paisagem urbana das cidades nos últimos meses.

Em resposta, seus aliados publicaram no Facebook uma foto usada na campanha do verde Alexander van der Bellen em uma pose parecida com a documentada em duas fotos de Hitler — na mesma paisagem montanhosa dos Alpes, com o seu pastor alemão. “Nós não queremos acusar, mas a escolha dos temas da foto, Alpes, cachorro e cerca, foi pelo menos infeliz”, escreveu um aliado de Norbert Hofer.

No último duelo na TV, na quinta feira à noite, Van der Bellen, de 72 anos, mostrou o que classificou como a “face real de Hofer” exibindo a foto do candidato beijando a mão da sua colega francesa Marine Le Pen. O populismo vem crescendo no continente como uma onda antiglobalização, manifestação da população mais pobre, que se vê como perdedora por conta da União Europeia (UE) e da imigração. Para o historiador Oliver Rathkolb, nem na campanha de 1986, quando Kurt Waldheim foi eleito, o nome de Hitler foi usado com tanta frequência.

— Não nos deixem brincar com o fogo — advertiu o candidato verde, alertando para o perigo de uma vitória do adversário.

Ameaça de populismo global

Os olhos dos políticos defensores do liberalismo ocidental estão voltados para a “república alpina”. A possibilidade de uma vitória de Hofer é vista como uma catástrofe para a Europa e poderia dar novo impulso aos populistas da França, Holanda e Alemanha, aumentando o avanço da extrema-direita no continente. Analistas já falam sobre o perigo de um populismo global, reação em cadeia de um fenômeno que começou com o Brexit, no Reino Unido, e culminou com a eleição de Donald Trump, nos EUA.

Para a cientista política Sarah de Lange, o fenômeno é semelhante em toda a Europa. Os eleitores votam em uma pessoa carismática e não mais em um programa partidário, como era a tradição antigamente.

— O programa é ser contra a UE, o euro e os imigrantes.

Caso Hofer vença e assuma o suntuoso palácio presidencial Hofburg, o presidente russo, Vladimir Putin, e o nacionalista sérvio, Tomislav Nikoli, terão um novo amigo na UE. Em termos de política externa, suas primeiras medidas seriam o fim das sanções contra a Rússia e a suspensão do reconhecimento da Áustria ao Kosovo, que seria visto como parte da Sérvia. Ele ainda prometeu o apoio aos sérvios que habitam parte da Bósnia-Herzegovina e almejam uma reunificação.

Manfred Welan, autor de um livro sobre a Constituição austríaca, adverte que Hofer poderia revolucionar a Presidência ao usar poderes que foram ignorados desde a Segunda Guerra Mundial — ele já anunciou que, se necessário, vai usar isso para demitir o Gabinete. Foi o modelo de Constituição da República de Weimar que tornou possível a chegada de Hitler ao poder.

Culpa transferida

Quando a Áustria foi reunificada com o grande império alemão, em 1938, 700 mil austríacos tinham a carteira do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. A transferência de toda a culpa pelo Holocausto para a Alemanha seria, segundo o historiador Rathkolb, um alicerce da identidade austríaca de hoje, compartilhada pela direita e pela esquerda.

— A Áustria sempre teve uma relação complicada com Hitler — diz Rathkolb, que é professor da Universidade de Viena.

Um exemplo da dificuldade na abordagem do passado é a postura complicada que teve até agora com a casa de Hitler, em Braunau. Apenas 71 anos após a morte, o governo tomou a primeira decisão importante sobre o imóvel. O “berço do mal”, como a casa de três andares é chamada, deverá passar por uma reforma para evitar que se transforme em um “santuário dos neonazistas”.

— Braunau foi apenas o lugar de origem de Hitler. Os acontecimentos começaram em outro lugar, na Alemanha — afirmou o prefeito da cidade, Johannes Waidbacher.

Há poucos dias, Christian Kern, presidente do Partido Social Democrata (SPÖ), foi anfitrião de uma reunião de partidários no continente, na tentativa de frear o crescimento populista. No encontro, foi divulgado um pacto que seria a principal arma do contra-ataque social democrata contra a extrema-direita.

— Estamos diante de um abismo — disse, sobre a expansão do populismo de direita.

oglobo.globo.com | 03-12-2016

HAVANA — A morte de Fidel Castro consolida no poder seu irmão, Raúl Castro, que formou um governo com a velha guarda comunista e chefes militares veteranos. Conheça alguns nomes de peso no governo cubano:

Miguel Díaz-Canel — Engenheiro elétrico, nascido em 20 de abril de 1960. Desde fevereiro de 2013 designado sucessor de Raúl Castro na condição de primeiro vice-presidente dos Conselhos de Estado e de Ministros. Ex-chefe do Partido Comunista em Villa Clara e Holguín e ex-ministro de Educação Superior.

José Ramón Machado Ventura — Médico e dirigente histórico, nascido em 26 de outubro de 1930. Segundo secretário do Partido Comunista e um dos vice-presidentes dos Conselhos de Estado e de Ministros. Conhecido por ser linha dura.

Ramiro Valdés — Comandante da Revolução, nascido em 28 de abril de 1932. Membro do bureau político e vice-presidente dos Conselhos de Estado e de Ministros.

Bruno Rodríguez — Membro do bureau político e chanceler que efetivou o restabelecimento das relações com os EUA. Também promoveu a aproximação com a União Europeia. Nasceu em 22 de janeiro de 1958.

Esteban Lazo — Economista, nascido em 26 de fevereito de 1944. Membro do bureau político e do secretariado do Partido Comunista, onde estava a cargo do departamento ideológico. Vice-presidente do Conselho de Estado.

Leopoldo Cintra — Dirigente histórico, nascido em 17 de julho de 1941. Ocupa o cargo de Ministro da Defesa e general do Corpo de Exército. Membro do bureau político e do Conselho de Estado.

Marino Murillo — Economista, nascido em 19 de fevereiro de 1961. Ocupa o Ministério da Economia e é membro do bureau político e do Conselho de Estado, além de vice-presidente do Conselho de Ministros e supervisor geral das reformas econômicas.

oglobo.globo.com | 27-11-2016

O primeiro turno das primárias presidenciais da coalizão de centro-direita francesa sugere que o ex-primeiro-ministro François Fillon será o candidato a enfrentar a candidata da extrema-direita pela Frente Nacional, Marine Le Pen. Fillon derrotou Alain Juppé, também ex-primeiro-ministro, por 44,1% a 28,5%. O ex-presidente Nicolas Sarkozy, com 20,6% dos votos, ficou em terceiro lugar, fora, portanto, da disputa. Ele prometeu apoio a Fillon.

Além do Partido dos Republicanos, dos três pré-candidatos, participaram das primárias o Centro Nacional dos Independentes e Camponeses e o Partido Cristão-Democrata, com um comparecimento de mais de quatro milhões de eleitores. Fillon e Juppé ainda se enfrentam no próximo domingo, no segundo turno das primárias. Segundo pesquisas, o primeiro deve derrotar o segundo e vencer Marine Le Pen, nas eleições presidenciais de 2017, que serão realizadas em dois turnos: 23 de abril e 7 de maio.

Apoiado pelo movimento católico conservador “La manif pour tous” (“A manifestação para todos”) fundado em 2012, Fillon defende a revogação da lei que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo, e tem uma visão conservadora da vida civil. Sua vitória no primeiro turno das primárias surpreendeu e reforçou a tendência global de guinada à direita. De acordo com o jornal “Le Monde”, Fillon tem a admiração de líderes de extrema-direita e é visto como um candidato mais difícil para Marine Le Pen, pois muitas de suas propostas seguem na mesma direção da candidata da Frente Nacional.

Como o presidente recém-eleito dos EUA, Donald Trump, Fillon, por exemplo, também demonstra admiração pelo presidente Vladimir Putin, sugerindo que a França se aproxime da Rússia e tenha uma posição mais independente em relação à União Europeia (UE). Também defende o controle do fluxo de imigração para o país.

A relativa proximidade ideológica entre Fillon e Marine Le Pen sugere que o candidato de centro-direita dos Republicanos poderá roubar votos da líder da Frente Nacional.

Mas Fillon, que não esconde sua admiração por Margaret Thatcher, não vai tão longe quanto Marine Le Pen, que apoia abertamente a saída da França da UE, como fez o Reino Unido (o chamado Brexit); nem propõe retirar o país de acordos de livre comércio; e barrar completamente a entrada de estrangeiros na França.

O Partido Socialista, por sua vez, fará suas primárias em janeiro de 2017, com o presidente Hollande amargando a menor popularidade já registrada — 8%. Dificilmente o partido conseguirá obter apoio a uma candidatura própria com chances de vitória. O cientista político Remi Lefebvre, da Universidade de Lille, disse à Bloomberg que “a direita sairá das primárias unida e pacificada, ao passo que (Marine) Le Pen está correndo alto. Não há espaço para a esquerda.” Resta saber como votarão seus eleitores.

oglobo.globo.com | 25-11-2016

Como resumir um ano de tantas notícias surpreendentes em uma só palavra? O que têm em comum a saída da Inglaterra da União Europeia, a eleição de Trump, as guerras no Oriente e as nossas escolhas políticas? Alguma coisa pode conectar tudo isto — além, do aquecimento global que nos torra os miolos? Pois o Dicionário de Oxford acaba de nos dar uma valiosa contribuição para entender o mundo em que vivemos. Escolheu como palavra do ano uma expressão pouco conhecida: pós-verdade.

O serviço da Universidade de Oxford tem autoridade para tanto. O dicionário começou a ser concebido em 1857. A tarefa foi entregue ao professor James Murray, em 1879. Cinco anos depois, ainda não tinham saído da letra “a”. Somente em 1884 os primeiros volumes foram lançados. O alfabeto só seria coberto em 1928, com 400 mil palavras. Essas referências ajudam a entender que não se trata de um dicionário comum. Ele tenta registrar as palavras desde a sua origem até seu uso corrente nas ruas, como elas ganham novos significados e se incorporam às nossas vidas.

Post-truth. É um adjetivo. Não chega a ser novo. Tem uma década, pelo menos. Mas os estudiosos de Oxford perceberam que nos últimos tempos seu uso passou a ser mais frequente: em artigos acadêmicos, por escritores, nos jornais e, finalmente, nas ruas. Como em 2015, quando os “emojis” dominaram o mundo.

Pela definição do dicionário, pós-verdade quer dizer “algo que denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência para definir a opinião pública do que o apelo à emoção ou crenças pessoais”. Em outros termos: a verdade perdeu o valor. Não nos guiamos mais pelos fatos. Mas pelo que escolhemos ou queremos acreditar que é a verdade.

A palavra se tornou recorrente depois da surpresa do Brexit e da eleição “sangrenta” nos Estados Unidos. Mas pode perfeitamente ser aplicada ao nosso momento político. Para o jornalismo, é uma má notícia. Embora seja quase folclórico em nossas redações citar algum dono de jornal (e os nomes variam) que teria por vício repetir diante de alguma noticia que não queria saber dos fatos, mas da versão que o jornal iria publicar.

O terreno da internet tem se revelado fértil para a propagação de mentiras — sempre interessadas —, trincheira dos haters. Levamos tanto tempo para estabelecer uma visão “científica” dos fatos, construir a isenção do jornalista, a independência editorial e, de repente, vemos que o debate político se dá entre “socos e pontapés”. A pós-verdade arrasta a política, o jornalismo, a justiça, a economia, a nossa vida pessoal...

Seria prudente resgatarmos o território da verdade. Substantivo feminino. Simples assim. Expressão dos fatos, e fatos podem ser verificados. Esse é o papel do jornalismo. Ou torcermos para que no ano que a palavra escolhida pelo Dicionário de Oxford não seja parecida com desastre.

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PS: A história do dicionário de Oxford está bem contada no livro “O professor e o louco”, de Simon Winchester, que relata o trabalho de um dos colaboradores do professor James Murray, William Chester Minor, o louco do título. Durante todos os anos que contribuiu para o dicionário selecionando citações para ilustrar o uso das palavras, ele esteve internado numa clínica para doenças mentais.

Luiz Cláudio Latgé é jornalista

oglobo.globo.com | 23-11-2016

BERLIM — Karamba Diaby, nascido no Senegal há 56 anos, gosta de enfrentar desafios. Ele não só vive há 30 anos no Leste alemão, onde a extrema-direita tem crescido vertiginosamente nos últimos tempos, como conseguiu ser eleito há três anos: é o primeiro deputado federal de origem africana. Mesmo o status político não o poupa do racismo cotidiano, das agressões verbais e das cartas com ameaças que recebe em Halle, na antiga Alemanha Oriental, ou da discriminação sutil no próprio Parlamento. Na autobiografia “Mit Karamba in den den Bundestag: mein weg vom Senegal ins Deutsche Parlament” (Com Karamba no Bundestag: o meu caminho do Senegal para o Parlamento alemão), que escreveu em parceria com a jornalista Eva Sudholt, Diaby revela os detalhes do racismo com o qual é obrigado a conviver. Mas o doutor em Química pela Universidade de Halle não guarda rancor. Pelo contrário, como deputado federal por Halle, ele trabalha na defesa dos interesses do Leste alemão, onde vive com a esposa, a alemã Ute, e os dois filhos. Em entrevista ao GLOBO, Diaby lembra, porém, que o racismo não é um problema só da Alemanha porque existe em toda a Europa.

Quais foram as suas experiências mais graves com atos racistas na Alemanha?

O pior acontece no dia a dia. Eu recebo regularmente ameaças e mensagens de ódio de pessoas que me odeiam só por causa da cor da minha pele. Uma vez um motorista de táxi se recusou a me levar dando como motivo o fato de eu ser negro. Mas o racismo acontece também onde não se espera. Depois de eleito deputado, fui pela primeira vez à cantina do Parlamento. A mulher do caixa olhou para mim e disse: “O senhor não!” Mais tarde, contei que era parlamentar e mostrei a carteira de deputado. Esses episódios são acontecimentos que marcam. Há alguns meses, recebi um cartão postal de um pequeno partido de direita, “O Terceiro Caminho”, que mandava eu ir embora para a África.

Há mais racismo na Alemanha do que em outros países europeus?

O racismo não é um problema só do Leste ou mesmo da Alemanha. Em toda a Europa, as forças de extrema-direita estão crescendo. Vejo como grave também a situação na França, no Reino Unido e na Polônia. Muitas pessoas parecem não ter aprendido com o passado, sobre como o racismo pode levar a uma catástrofe como a causada pelos nazistas. Os governos europeus precisam trabalhar para combater o racismo.

Muitos estrangeiros evitam o Leste da Alemanha com medo de agressão. O senhor os aconselharia a não visitar essa região?

Não. Eu sei que muitos imigrantes evitam o Leste chocados com as notícias de um comportamento xenófobo agressivo. Mas não devemos criar clichês como se isso fosse algo generalizado. É verdade que lá acontecem coisas horríveis, mas eu faço questão de afirmar que racismo e extremismo de direita não são um fenômeno típico da antiga RDA (República Democrática Alemã, a antiga Alemanha Oriental). O Leste tem se desenvolvido, e a maioria vê os imigrantes de forma positiva.

É verdade que muitos moradores do Leste preferiam a volta do regime comunista?

São os insatisfeitos porque nunca conseguiram se integrar ao mercado de trabalho depois da reunificação alemã. Muitos alemães do Leste sofreram com a mudança porque precisaram começar tudo de novo. Sobretudo os mais velhos, que passaram do desemprego para a aposentadoria, sem conseguir melhorar de vida, são atacados pela “ostalgia” (nostalgia do Leste). Eu também tive problemas para conseguir emprego, apesar do título de doutor em Química. Mas tive sorte porque consegui trabalhar como intérprete.

O senhor vê o Pegida (movimento de extrema-direita) como algo novo ou essas tendências já existiam em Dresden no passado?

As tendências de xenofobia que levaram ao surgimento do Pegida já existiam, certamente. Mas houve uma escalada na situação quando aumentou o fluxo de refugiados para o país.

Como o senhor veio para a Alemanha?

Os estudos sempre foram algo muito importante para mim, a ponto de eu não medir esforços para conseguir o meu diploma na Alemanha. Durante o meu estudo universitário, em Dacar, candidatei-me a uma bolsa de estudos internacional. No formulário de candidatura, precisava escrever no lado esquerdo os meus países preferidos, enquanto no lado direito a especialidade que queria. Eu escrevi eletrotécnica, e como países para onde queria ir indiquei a União Soviética, Tchecoslováquia, Alemanha Oriental e Bulgária. Terminei sendo escolhido para a RDA, onde comecei o programa com um curso de alemão de nove meses.

Como deputado do Partido Social Democrata (SPD), o senhor é responsável pelo tema refugiados. Na sua opinião, a Europa vai conseguir no futuro barrar os refugiados construindo cercas nas suas fronteiras?

Barrar os refugiados na fronteira não é uma solução. Trata-se de um dever humanitário da União Europeia acolher os fugitivos, que vêm para a Europa fugindo da violência e da morte nos seus países de origem. Ao mesmo tempo, a Europa precisa combater os motivos dessa fuga, quer dizer, apoiar as nações para o fim de conflitos e para que se recuperem economicamente. A União Europeia não vai conseguir permanecer como uma ilha da fartura enquanto ao seu redor predominam a miséria, a guerra e a fome. Enquanto houver essa discrepância, as pessoas que sofrem com a guerra e a pobreza farão tudo para alcançar a Europa.

oglobo.globo.com | 20-11-2016

Grande parte do mundo ficou chocada e assustada com o sucesso eleitoral de Donald Trump, mas há aqueles que se deleitaram. “Foi uma vitória para as forças que se opõem à globalização, estão lutando contra a migração ilegal e são a favor de Estados étnicos limpos”, declarou um porta-voz do Aurora Dourada, o partido de extrema-direita da Grécia, muitas vezes caracterizado como neonazista.

Trump - Gabinete - 19.11

Viktor Orbán, o primeiro-ministro húngaro que afirmou querer construir um “Estado iliberal” em seu país, chamou o resultado de “uma grande notícia”. O vice-líder da Frente Nacional, legenda de direita da França historicamente considerada ultranacionalista e antissemita, também ficou exultante.

Ninguém pode ser julgado por aqueles que aprovam suas ações, mas vale a pena tentar entender o que os admiradores de Trump estão comemorando. Em alguns casos, seu apelo é que ele está contra o politicamente correto. Beppe Grillo, o ex-comediante que agora lidera o Movimento Cinco Estrelas, na Itália, observou que, como Trump, seu partido tinha sido rotulado de sexista e populista, mas que as pessoas não se importavam com isso.

Para outros, é o sentimento de parentesco entre homens fortes que não se preocupam com direitos humanos. O ditador sírio Bashar al-Assad chamou Trump de “aliado natural”. Rodrigo Duterte, líder autoritário das Filipinas, disse: “Nós dois somos iguais”. Robert Mugabe, no poder no Zimbábue por 36 anos, se mostrou esperançoso e teria descrito Trump como “um amigo”.

O que unifica os admiradores internacionais de Trump é a ideia de que a ordem global existente é podre e deve ser demolida. Todos os partidos europeus que aplaudem sua vitória buscam a destruição da União Europeia e, de forma mais geral, da comunidade ocidental fortemente unida centrada em valores e interesses partilhados. Eles são quase todos pró-russos porque veem na Rússia de Vladimir Putin um país que busca ativamente minar o atual sistema internacional.

Onda nacionalista ganha força na Europa

Muitos destes grupos têm o apoio secreto ou explícito da Rússia e se beneficiam da guerra cibernética do Kremlin. “Todos precisamos usar (a eleição de Trump) para remodelar o relacionamento transatlântico e acabar com os grandes conflitos na Ucrânia e na Síria, juntamente com a Rússia”, disse a alemã Frauke Petry, líder do partido ultranacionalista Alternativa para a Alemanha.

Mas o que é esse globalismo ao qual essas pessoas tanto se opõem? Depois de 1945, após a Grande Depressão e duas guerras mundiais, as nações ocidentais estabeleceram um sistema internacional caracterizado por regras que honraram a soberania nacional, permitiram o florescimento do comércio global e encorajaram o respeito pelos direitos humanos e liberdades.

Esta ordem resultou no mais longo período de paz entre as maiores potências do mundo, marcado por um crescimento econômico que criou grandes classes médias no Ocidente, garantiu o renascimento da Europa, o crescimento nos países pobres e a propagação da liberdade em todo o mundo.

O papel dos EUA em tudo isso foi fundamental. Ele estabeleceu a agenda e proporcionou segurança, que era mais do que apenas dissuadir a União Soviética e outras potências agressivas. Radek Sikorski, ex-ministro das Relações Exteriores da Polônia, disse: “A influência dos EUA e seus compromissos têm sido nosso cobertor de segurança. Permitiram que as rivalidades nacionais da Europa permanecessem dormentes. Se tirarmos essas garantias, a Europa poderia ficar muito instável”. E vale lembrar que a União Europeia é o maior mercado do mundo e o maior parceiro comercial dos EUA.

Os retratos de Trump por cartunistas

Para os EUA, o “globalismo” produziu enormes vantagens. Com 5% da população mundial, o país domina a economia global, em tecnologia, educação, finanças e energia limpa. Um em cada cinco empregos no país é resultado do comércio, e esse número cresce rapidamente. Os EUA ainda mantêm a moeda de reserva do mundo, o que lhes dá uma enorme vantagem econômica.

Os benefícios do crescimento e da globalização não foram compartilhados igualmente, e o ritmo da mudança causa a ansiedade em toda parte. Mas essas são razões para investir em pessoas e integrar melhor as comunidades. Não são motivo para destruir o sistema internacional mais pacífico e produtivo jamais concebido na história da Humanidade.

*Fareed Zakaria é colunista do Washington Post

oglobo.globo.com | 19-11-2016

LONDRES - Três meses depois de ser eleita para liderar o mais complexo processo político e econômico já enfrentado pelo Reino Unido no pós-guerra — a saída da União Europeia (UE) — a primeira-ministra Theresa May vê seu poder ser desafiado por pressões internas e externas que dificultam ainda mais o caminho do Brexit.

Reino Unido - 16.11

Ela prometeu ativar em março do ano que vem o Artigo 50 do Tratado de Lisboa, que dá início à retirada do bloco europeu, prevista para durar dois anos, mas divisões internas no Partido Conservador e a impaciência crescente do Parlamento e dos vizinhos europeus, além das evidências de que o governo estava totalmente despreparado para colocar o Brexit em prática, complicam os planos da premier. O governo italiano definiu a estratégia de May como caótica, enquanto a oposição falou em “desordem total”, dando o tom das críticas à confusa condução do rompimento com a UE.

Questionada pelo líder trabalhista Jeremy Corbyn, que mencionou o vazamento de um relatório apontando divisões internas no Gabinete e a falta de direção política clara sobre o processo, a primeira-ministra garantiu, em sessão no Parlamento, que o governo está unido e pronto para negociar a saída do bloco europeu. Membros da UE, no entanto, afirmam que a equipe de May está perdida.

O ministro do Desenvolvimento Econômico da Itália, Carlo Calenda, afirmou que até agora os europeus não entenderam o que o Reino Unido pretende. Já o holandês Jeroen Dijsselbloem, presidente do Eurogrupo (que reúne os ministros das Finanças da UE), rejeitou a intenção britânica de deixar o bloco sem perder as vantagens econômicas dos países-membros.

Embora o chanceler britânico, Boris Johnson, tenha afirmado que isso seria possível, Dijsselbloem foi taxativo: não existe acesso ao mercado único sem a livre circulação de cidadãos. O controle da imigração é um dos pontos principais do Brexit, reflexo da onda nacionalista que vem reforçando a influência da extrema-direita na Europa.

— Ele (Johnson) está dizendo coisas que são intelectualmente impossíveis e politicamente inviáveis. Ele não está oferecendo ao povo britânico uma visão realista sobre as opções disponíveis e o que pode ser alcançado — reclamou Dijsselbloem, acrescentando que as negociações serão extremamente complexas e devem durar muito mais do que dois anos.

DECISÃO NÃO DEVE SER REVISTA

No início do mês, a Alta Corte do Reino Unido decidiu que o país não poderá acionar o Artigo 50 sem a aprovação do Parlamento. O anúncio foi uma derrota para May. Ela apelou à Suprema Corte, que deve dar seu veredicto em dezembro, mas a única mulher a integrar o corpo de 12 membros da mais alta instância judicial do país, Brenda Hale, sinalizou que o Executivo terá dificuldades para derrubar a decisão. Em visita à Malásia, a juíza admitiu a possibilidade de o tribunal complicar ainda mais os planos do governo, exigindo que o Brexit seja precedido de uma revisão mais abrangente da lei de 1972 que permitiu a própria adesão britânica à UE.

Apesar dos obstáculos, analistas acreditam que May manterá a promessa que fez ao substituir David Cameron, em julho: “Brexit significa Brexit”. Ou seja, é pouco provável que a decisão seja revista.

Revertérios do Brexit

— O mais provável é que o Brexit aconteça, mesmo que tenha que passar pelo Parlamento. É improvável que os conservadores votem contra a decisão. A posição do Partido Trabalhista é não se opor, embora alguns deputados do partido e oito do grupo liberal-democrata prometam votar contra. Eles veem a votação no Parlamento mais como uma maneira de forçar o governo a esboçar um plano para a UE — disse Robert Ladrech, professor de Política Europeia da Universidade de Keele.

Corbyn exigiu que a primeira-ministra esclareça quantos funcionários públicos serão necessários para colocar o Brexit em prática, e disse que os ministros estão desorientados. Documento de consultoria publicado pela imprensa britânica falou em 30 mil pessoas e pelo menos 500 projetos sendo tocados ao mesmo tempo.

— Revelar todos os detalhes das negociações com os outros 27 membros da UE seria a melhor maneira possível de conseguir o pior de todos os resultados para nosso país. É por isso que não vamos fazer isso — reagiu May, numa troca acalorada de acusações no Parlamento.

BUSCA POR SAÍDA MENOS TRAUMÁTICA

Johnson, grande estrela da campanha pelo Brexit, tem percorrido as capitais da UE para negociar uma saída menos traumática, mas não se sabe ainda como o governo pretende se relacionar com o bloco. As discussões se dividem entre uma retirada suave — conhecida como “soft Brexit” — e uma mais radical — a “hard Brexit”. A primeira opção significaria deixar a UE, mas continuar se beneficiando da isenção tarifária. Para isso, no entanto, Londres precisaria respeitar o princípio básico do bloco: livre movimentação de capital, bens, serviços e pessoas.

Já uma ruptura total, com controle da entrada de imigrantes e independência de Bruxelas, deixaria os britânicos sem acesso ao mercado único, o que poderia provocar uma recessão. Pesquisa divulgada ontem indicou que 90% dos britânicos defendem o livre comércio com a UE, enquanto 74% apoiam o controle da imigração. A combinação das duas coisas não será aceita por Bruxelas.

— Não entendo como seria um Brexit suave. Ou você está dentro da UE, usufruindo dos benefícios e aceitando as responsabilidades, incluindo as que não agradam, ou você está fora do bloco. Uma posição pela metade é implausível — avalia Nick Witney, analista do Conselho Europeu para Relações Internacionais.

Os esforços diplomáticos de Johnson têm sido desastrosos. Em visita à Itália, ele deu declarações ofensivas, insinuando que os italianos “venderão menos prosecco” se abrirem mão dos negócios com o Reino Unido. A vitória do protecionista Donald Trump nos EUA ameaça também as relações bilaterais entre os dois parceiros históricos.

oglobo.globo.com | 17-11-2016

BERLIM — Em uma primeira tentativa de terapia contra o trauma que causou a eleição de Donald Trump para a Presidência dos EUA, os ministros das Relações Exteriores da União Europeia (UE) reuniram-se nesta segunda-feira, em Bruxelas, para definir o futuro das relações transatlânticas. A vitória do republicano e suas críticas à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) deixaram a Europa em uma encruzilhada, colocando a chanceler alemã, Angela Merkel, em uma posição praticamente isolada na defesa da aliança.

EUA - Obama, Trump, Putin

Para acalmar os ânimos, o presidente americano, Barack Obama, indicou, nesta segunda-feira, que a troca de comando não representará grande mudança em questões internacionais, afirmando que Trump está comprometido com a organização.

— Um fato ótimo sobre os EUA é que em temas mundiais nossa influência é resultado não apenas do presidente, mas de múltiplas interações que envolvem diversos atores. Isso é o que nos torna uma nação indispensável para manter a ordem no mundo. Trump manifestou intenção em manter esse papel na conversa que tivemos, ele está comprometido com a Otan. Eu farei com que eles (líderes mundiais) saibam que não há um enfraquecimento nesse papel — declarou Obama, em sua primeira entrevista coletiva desde o resultado das eleições americanas e antes de embarcar para a Europa.

A UE ficou ainda mais dividida sobre o futuro da aliança após Trump ter antecipado que o seu governo teria pouco interesse em financiá-la e sugerido que iria redefinir as relações com a Rússia. Ontem, os países da UE concordaram em um plano para aumentar o papel de defesa e segurança da organização. No entanto, Federica Mogherini, chefe da Política Externa da UE, salientou que o bloco não pretendia competir com a Otan ou criar um Exército europeu.

‘TRUMPS DA EUROPA’

Pressionada pelo fenômeno do “Trumpusconi” — um termo que mistura Trump e Berlusconi, usado pelos analistas para se referir à onda de populismo de extrema-direita dos dois lados do Atlântico — Merkel tem poucos argumentos para convencer os outros líderes europeus, incapazes de chegar a um acordo para garantir o futuro da Otan. Fundada depois da Segunda Guerra Mundial como uma resposta do Ocidente ao poderio soviético, a aliança é tida como uma das últimas defensoras de um sistema liberal ocidental.

Onda nacionalista ganha força na Europa

— Com o aumento da participação dos partidos populistas de direita nos governos europeus, a UE e a Otan estão condenadas a uma grande perda de importância, e isso resulta no aumento do espaço de poder deixado à Rússia — avaliou o cientista político Nikolas Kessels, do Instituto John-F.Kennedy da Universidade Livre de Berlim.

A Europa também tem os seus Trumps. O processo de “fim do mundo como nós o conhecemos”, como descreveu a revista alemã “Der Spiegel”, terá um novo capítulo já no próximo mês, quando Norbert Hofer, do Partido Liberal Democrata (FPÖ) será, provavelmente, eleito no segundo turno das eleições presidenciais austríacas. Hofer é a favor de muros e cercas e contra o ingresso de imigrantes, assim como o republicano.

Mas o que está sendo visto como a maior ameaça para a Europa é uma possível eleição de Marine Le Pen, da Frente Nacional, em maio próximo, como a primeira mulher presidente da França.

— Uma presidente Le Pen seria um choque que a Europa dificilmente superaria — lembrou Kessels.

POPULISTAS CRESCEM NA ALEMANHA

Na Alemanha, os populistas do Alternativa para a Alemanha (AfD) poderão conquistar no fim do próximo ano cerca de 20% dos votos, com chances de impedir a maioria de governo da União Democrata Cristã (CDU), de Merkel.

As manchetes dos jornais alemães desta segunda-feira mostram como os europeus estão perplexos com possíveis mudanças na política externa americana. No último fim de semana, Trump se reuniu em Nova York com Nigel Farage, um dos líderes da campanha pelo Brexit (saída do Reino Unido da UE), numa situação embaraçosa para a premier britânica, Theresa May.

Tudo isso contribui para aumentar o abismo em uma Europa que já está fortemente dividida entre apoio e repulsa a Trump. Enquanto Berlim reage com aversão, o chanceler britânico, Boris Johnson, e o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, esbanjam elogios ao presidente americano eleito.

— Trump é um especialista em chegar a acordos e penso que (sua eleição) pode ser uma grande oportunidade para a Europa — disse Johnson, enquanto Orbán afirmou que o republicano seria o melhor para a Europa.

RÚSSIA GANHA NOVOS ALIADOS

Para Volker Perthes, diretor da Fundação de Ciências Políticas de Berlim, ainda é cedo para antecipar um atestado de óbito para a Aliança Atlântica.

— Os problemas do mundo não deixaram de existir, e Trump vai acabar entendendo a importância da UE e da Otan.

Motivo especial de preocupação dos europeus é a possível nova autoconfiança da Rússia para consolidar os seus interesses geopolíticos.

— Os dois machos Trump e Putin falam a mesma linguagem apesar dos idiomas diferentes — define Kessels.

No Leste Europeu, os Países Bálticos são os que mais receiam a sede de poder de Moscou. Com a crise econômica, Putin investe no patriotismo. Para isso, tem novos aliados: Bulgária e Moldávia acabam de eleger líderes pró-Rússia.

oglobo.globo.com | 15-11-2016

LONDRES — A frase mais ouvida por quem consulta especialistas em relações internacionais nos últimos dias é: “Honestamente, eu não sei.” A retórica isolacionista e protecionista de Donald Trump indica que os EUA mudarão a direção de sua política externa, mas não há dados suficientes para afirmar que caminho seu governo deverá tomar. Há, porém, um consenso entre os analistas: o presidente russo, Vladimir Putin, não tem razões para reclamar do presidente eleito. Cada vez mais afastado do Ocidente, o Kremlin se vê agora diante de um líder americano sem experiência política ou militar, e que já deixou clara sua admiração pelo homem que controla o arsenal nuclear russo com ares de czar. Trump pode tornar a vida de Putin mais fácil, complicando em contrapartida a situação dos vizinhos que temem a ameaça de Moscou. EUA-13-11

Durante a campanha, Trump deu declarações que soaram como música para os ouvidos do presidente russo. Prometeu reduzir as tensões com o Kremlin, que só fizeram crescer nos últimos anos; menosprezou a importância da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e não descartou a possibilidade de aceitar a anexação da Crimeia pelos russos, manobra que espalhou insegurança por todo o Leste da Europa. Assim como o futuro ocupante da Casa Branca, Putin também explora a desilusão dos eleitores que não se identificam com os valores liberais, é um narcisista assumido e recorre a uma linguagem vulgar para atacar inimigos. Ainda é cedo para afirmar se será possível uma parceria entre os dois homens, mas a humilhação dos democratas nas urnas favorece, a princípio, o governo de Putin.

Uma das principais dúvidas em meio às muitas incertezas que tomaram conta da geopolítica mundial é como o novo presidente dos EUA vai se posicionar em relação à crise na Ucrânia. Suas declarações como candidato dão a entender que poderia negociar um não envolvimento americano no Leste da Europa em troca de relações mais amigáveis com Moscou. Durante a campanha, o general Keith Kellogg, um dos conselheiros do republicano, afirmou que Trump “preferia deixar suas opções para a Ucrânia em aberto”, o que foi interpretado como uma possibilidade de reconhecimento da ocupação da Crimeia. Quando perguntado sobre o assunto, o então candidato à Casa Branca disse acreditar que a população da península estava mais satisfeita sob domínio russo do que ucraniano. Sua posição em relação à Otan também é motivo de preocupação na Europa. Ele ressaltou que só estaria disposto a defender os países que contribuem com o orçamento da aliança militar.

— Estamos diante do imprevisível. Trump é perfeitamente capaz de negociar com qualquer pessoa. Ele promete aplicar os princípios do mundo dos negócios na política externa, o que o leva para o caminho do pragmatismo, podendo fazer acordos cínicos e deixando os outros países desamparados — diz Andrew Wilson, especialista em Ucrânia do Conselho Europeu para Relações Internacionais.

Para Wilson, a Ucrânia e os países bálticos têm motivos suficientes para estarem preocupados.

Putin, por outro lado, vai apostar no fim das sanções econômicas aprovadas pelos EUA e pela União Europeia (UE) após a anexação da Crimeia, em 2014. Além disso, já que Trump ainda não esclareceu qual será sua política para a Síria, a Rússia espera que as pressões para derrubar o ditador Bashar al-Assad, que conta com apoio do Exército russo, sejam aliviadas.

Durante toda a campanha presidencial nos EUA, a mídia russa, sob controle do Kremlin, criticou o sistema democrático americano. Com a vitória de Trump, o tom mudou. Um símbolo do otimismo no círculo de Putin veio de um post no Twitter de Margarita Simonyan, editora-chefe do canal RT, porta-voz do governo russo: “Hoje gostaria de dirigir por Moscou com uma bandeira americana na janela. Se eu puder achar uma”, escreveu ela quando a derrota democrata foi confirmada.

A partir de janeiro, no entanto, Trump poderá perceber que o peso do Salão Oval o obrigará a levar mais a sério a relação com os aliados que pautou a ordem global no pós-guerra:

— Os aliados ocidentais dos EUA veem a Rússia como séria ameaça à segurança global. Os supostos crimes de guerra cometidos na Ucrânia e na Síria são os exemplos mais óbvios. Trump teria que restabelecer relações diplomáticas com a Rússia sem afastar seus aliados tradicionais ou refazer completamente a dinâmica da atual ordem mundial. Não vejo como ele poderia reconhecer a anexação da Crimeia porque as repercussões diplomáticas seriam devastadoras — diz Clive Webb, professor de História Americana Moderna da Universidade de Sussex.

Nigel Sheinwald, ex-embaixador britânico nos EUA e na UE, concorda:

— Trump aprenderá cedo que presidentes americanos não gostam de ser vistos como fracos. Se enfrentar um desafio internacional, sofrerá pressão para responder. Não poderá virar as costas e dizer que não é problema dele — disse o diplomata em debate na London School of Economics.

Desde o resultado que fez o mundo enxergar sua superpotência como uma incógnita, observadores apontam as semelhanças entre Trump e Putin. Wilson, no entanto, ressalta as diferenças:

— Putin veio da KGB e sua definição de negócios envolve acordos corruptos com seus defensores. Trump será o primeiro presidente americano que nunca ocupou cargo público ou militar. Seu estilo é típico do capitalismo americano. E ele é muito bom em mídias sociais, enquanto Putin não cuida disso pessoalmente.

oglobo.globo.com | 13-11-2016

RIO - A globalização foi a vilã apontada pelo presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, para atrair a classe média de regiões que já foram potências industriais. A vitória de Trump, amparada nesse discurso, intensificou o debate sobre os efeitos da ampla abertura comercial a partir dos anos 1990 sobre a vida dos cidadãos em diferentes partes do planeta.

trumpNo mundo, as nações pobres e ricas se aproximaram com a globalização, e a desigualdade diminuiu. Mas, dentro de cada país, a renda ficou mais concentrada, dizem especialistas. Esse fenômeno afetou não só os EUA, como também a China — alvo preferencial do discurso protecionista de Trump.

E os que menos ganharam com a globalização foram os 20% mais ricos no mundo, ou seja, a classe média e média baixa das economias avançadas, afirma a economista Monica de Bolle, pesquisadora do Peterson Institute e professora da Universidade Johns Hopkins, em Washington:

— O Brexit (a saída do Reino Unido da União Europeia) e a eleição de Trump têm vários matizes, além da distribuição de renda. Essas pessoas se sentiram deixadas para trás. Outros melhoraram muito mais do que eles. O que importa é sua posição relativa. A economia comportamental explica isso. As pessoas preferem ganhar R$ 50 enquanto todo mundo ganha R$ 20, do que ganhar R$ 100, se todo mundo estiver ganhando R$ 200. O sentimento de estar acima dos outros é preponderante.

A mudança da estrutura produtiva, o avanço tecnológico e até os valores culturais de cada canto do planeta são a outra parte da história para entender os motivos de parte da população na Europa e nos EUA querer fechar seus mercados e suas fronteiras. Nessa equação, a desigualdade é uma explicação comum. No caso dos EUA, o país, que já era o mais desigual entre seus pares de economia avançada, a disparidade de renda hoje já é tão grande como no Brasil.

Entre os americanos, o 1% mais rico da população concentra 22% da renda, parcela semelhante à apropriada no Brasil pelo topo da pirâmide. Há menos de uma década, os mais ricos americanos concentravam cerca de 12% dos ganhos do país.

CRISE DE 2008 EXPÔS A DIVISÃO

Marcelo Medeiros, sociólogo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e da UnB, especialista em desigualdade e pobreza, diz que a classe média fabril americana viu a renda estagnar e perdeu a estabilidade com a transferência da produção para a Ásia. Contra esses efeitos, nenhuma medida foi tomada. Ao contrário, políticas públicas aprofundaram a crise:

— A estrutura sindical foi destruída, as regras trabalhistas foram flexibilizadas, tornando o trabalho mais inseguro, e não se preparou esses trabalhadores para a economia 3.0. O topo da distribuição de renda, os trabalhadores qualificados, a economia digital e, principalmente, o setor financeiro aumentaram sua renda. Não se mudou a estrutura tributária para redistribuir os ganhos gigantescos dessa parte da população.

Segundo Medeiros, o processo de globalização transformou a China numa potência industrial:

— A produção industrial menos sofisticada da Europa, dos EUA e até da América Latina migrou para a China. Não dá para atribuir todas as mudanças à globalização. Mas a Ásia virar a grande potência industrial só foi possível no mundo globalizado — afirma Medeiros.

A globalização beneficiou os pobres dos países subdesenvolvidos e prejudicou os pobres dos países desenvolvidos, afirma José Márcio Camargo, professor da PUC.

— Se, por um lado, houve o empobrecimento dessas pessoas no mundo ocidental, esse processo de globalização reduziu a pobreza no mundo de forma espetacular. Desde 1995, o preço internacional da TV caiu 96%, e o do brinquedo, 67%, o que significou um aumento monumental de renda real das pessoas. Já os preços dos serviços subiram: os médicos, 100%; matrícula escolar, 197%. Quem estava no setor de educação teve ganho de renda, mas o produtor de TV, não.

Tudo ia bem enquanto o mundo crescia 6%, 7% ao ano, lembra Camargo. Com a crise de 2008, a insatisfação com a desigualdade aflorou, porque “quando se chega perto da estagnação, acaba a expectativa de melhora, e a única solução é se revoltar”, diz o economista.

— A crise torna pior o quadro preexistente, com estagnação de renda, desemprego. Os que mais sofreram com a crise foram os mesmos que já estavam sofrendo com a globalização. Os trabalhadores de Pensilvânia, Ohio, Michigan, da indústria tradicional, antes tinham um bom salário. Hoje, não conseguem o mesmo nível nem de perto, porque a indústria tradicional acabou, e não foi só pela globalização. Toda a transformação tecnológica e a mudança da estrutura produtiva acabaram com o emprego desses pessoas — complementa Monica.

Sergei Soares, do Ipea, que atualmente é pesquisador visitante do Centro Global de Desenvolvimento, em Washington, diz que a saída dos trabalhadores da indústria para o setor de serviços se estreitou:

— O caminho seria se deslocar para os serviços, mas neles há uma concorrência forte dos imigrantes. Estão presos, sem saída. E as políticas sociais foram esvaziadas, até mesmo por pressão dessa mesma população. Hoje, só contam com food stamps.

Os especialistas temem uma onda protecionista, mesmo achando improvável estabelecer tarifas de importação muito altas, pois as grandes empresas americanas trabalham em cadeias globais de produção. O último movimento protecionista desse tipo aconteceu na Grande Depressão dos anos 1930.

— Trump é um empresário, vive no meio deles. Mas é muito difícil agora saber o que vai acontecer — afirma Monica.

Segundo Sergei, se os EUA ficarem mais protecionistas, vão sofrer retaliação de outros países, e o mundo se fecha:

— Esse é um jogo de perde-perde. Mas se Trump não oferecer uma resposta a essa população que o elegeu, vai embora em quatro anos.

oglobo.globo.com | 13-11-2016

CIDADE DO MÉXICO E BERLIM - O discurso do medo e da incerteza se espalhou em todo o mundo após o choque da vitória de Donald Trump. A maior comoção se deu no México, país que esteve no centro da campanha presidencial americana, com a proposta do candidato republicano de construção de um muro na fronteira e a aplicação de uma alíquota de 35% sobre as importações mexicanas, além das acusações de que os imigrantes ilegais mexicanos seriam estupradores.eua1011

O estudante Samuel Sanchéz, de 20 anos, estava de férias na Riviera Maya, de férias, e conferia a cada cinco minutos as notícias sobre a apuração das eleições. De origem mexicana, ele nasceu em Los Angeles, onde mora com a família. Enviou seu voto, em Hillary, por correio.

— Se Trump ganhar, não me deixam entrar de volta — brincou, com ar incrédulo.

Horas depois, o desdém de Samuel virou coisa séria e, para ele e milhares de compatriotas. É o principal assunto nas ruas mexicanas, onde autoritarismo e racismo são os maiores receios.

— Não foi só a Hillary que perdeu. Os mexicanos também perderam — diz Carmen Díaz, comerciante da península de Yucatán, no Sudeste mexicano, que tem dois irmãos trabalhando nos EUA.

O México viveu as eleições americanas com a ânsia de quem tem no vizinho seu maior parceiro econômico e fonte de ingresso para muitas famílias que dependem das remessas enviadas por mexicanos imigrantes nos EUA.

— Caiu como um balde de água fria. Todas as forças políticas se voltavam para a Hillary, pois ela se transformou numa “defensora” do México diante das agressões do Trump — diz ao GLOBO Raul Benitez-Manaut, especialista da Universidade Nacional Autônoma do México (Unam). — Pode haver a volta do sentimento anti-EUA. Trump o despertou. E serão tempos diplomáticos difíceis daqui pra frente.

Apesar do medo, os mexicanos também demonstram esperança de que as ameaças de Trump durante a campanha não se mostrem efetivas. Ontem, o presidente Enrique Peña Nieto usou o Twitter para comentar o resultado: “México e EUA são amigos e aliados, e devem trabalhar juntos para o desenvolvimento da América do Norte. Confio que o México e os Estados Unidos sigam estreitando seus laços de cooperação e respeito mútuo”, escreveu.

A apreensão com a vitória de Trump também foi sentida em Cuba e no Irã. Poucas horas após o anúncio oficial, o jornal oficial cubano “Granma” informou que o país daria início a cinco dias de exercícios militares para se preparar para possíveis ações inimigas, embora não tenha feito referências ao presidente eleito. No Irã, o presidente Hassan Rohani afirmou que Trump não poderá reverter o acordo nuclear de 2015 entre o Irã e as grandes potências, já que foi ratificado pela Organização das Nações Unidas (ONU).

‘NADA VAI FICAR MAIS FÁCIL’

Na União Europeia, a chanceler alemã Angela Merkel, que chegou a ser algumas vezes ofendida por Trump durante a campanha, reagiu diplomaticamente, oferecendo a continuação da cooperação “com base nos valores básicos ocidentais”. Já o ministro das relações exteriores, Frank-Walter Steinmeier, que há poucos dias havia chamado o ainda candidato Trump de “pregador do ódio”, preferiu não parabenizar o americano, como é praxe.

— Nada vai ficar mais fácil (com Trump). Algumas coisas ficarão bem mais difíceis — comentou.

O presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, classificou o momento como muito difícil, mas disse que respeitaria a decisão:

— Não será fácil (a relação) porque durante a campanha ouvimos alguns elementos de protecionismo e palavras preocupantes sobre mulheres e minorias. Mas minha experiência é de que campanhas são diferentes da política real.

Já os presidentes do Conselho Europeu, Donald Tusk, e da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, escreveram uma carta conjunta a Trump em que pedem que o republicano se comprometa com o fortalecimento das relações entre Estados Unidos e União Europeia, incluindo as ações da Rússia na Ucrânia e o futuro do Acordo Transpacífico (TPP, na sigla em inglês).Eleitores reagem a apuração dos votos nos EUA

oglobo.globo.com | 10-11-2016

BRASÍLIA - O ministro das Relações Exteriores, José Serra, afirmou que o Brasil prepara um plano de contingência para abrir um canal de comunicação com o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump. Serra, que durante a campanha chegou a declarar que a vitória do republicano seria um pesadelo, disse que Trump não deve cumprir tudo o que prometeu durante a disputa presidencial. Reações

— Treino é treino, jogo é jogo. Treino é campanha – ponderou o chanceler.

José Serra ressaltou que, nos Estados Unidos, cargos importantes do primeiro escalão como os da equipe econômica têm de ser aprovados pelo Senado. Esses nomes que serão responsáveis pelas políticas econômica e comercial. Como o parlamento tem um controle maior, várias propostas feitas na campanha podem não ser implementadas. Para o ministro, por exemplo, a vitória de Trump não deve significar um aumento do protecionismo do país.

— Eu espero que não aconteça. De verdade. Nunca o treino é igual ao jogo.

PESADELO DE SERRA

Questionado sobre a frase dita durante a campanha, ele disse que não teve sonho ruim na noite passada porque passou o tempo inteiro acordado em contato com o embaixador brasileiro em Washington, Sérgio Amaral.

— Não (tive pesadelo), porque eu estive acordado. A gente só tem pesadelo dormindo – esquivou-se o ministro.

Ele disse ainda que Amaral abrirá canais de interlocução com a equipe de transição de Donald Trump. Ele disse que acredita que prevalecerá a determinação de reforçar a relação de Brasil e Estados Unidos. Lembrou que o governo brasileiro não fez parte da campanha. Por isso, não deve ter problema de relacionamento.

— No ponto de vista de pós eleição é positivo.

O ministro afirmou que é importante fazer uma reflexão sobre os rumos da política mundial. Lembrou do resultado do plebiscito no Reino Unido, em que a população decidiu por uma saída da União Europeia. Na ocasião, foi fortalecido o discurso de evitar a livre circulação de pessoas. Inglaterra e os demais países tem recebido refugiados.

— Na minha opinião, a gente tem de refletir muito cuidadosamente sobre o significado desse resultado. Vai caber muita análise sociológica e muita análise política sobre o efeito da globalização nesse resultado. (Muita análise) sobre a crise da sociedade contemporânea.

Após as declarações do ministro, o Itamaraty divulgou uma nota. Nela, diz que o governo brasileiro saúda os Estados Unidos pelas eleições e que vê positivamente a “mensagem de superação das divisões nacionais e busca de relacionamento construtivo com todos os países, emitida pelo presidente eleito em seu discurso de aceitação”.

O texto diz ainda que o Brasil buscará manter os laços com os Estados Unidos.

“Sobre essas bases, em respeito aos compromissos políticos e jurídicos existentes, desejamos renovar e dinamizar nossa agenda de cooperação. Estamos prontos a trabalhar em conjunto com o novo governo Trump, já a partir de sua posse em janeiro de 2017”.

A nota ainda ressalta que há novas oportunidades de investimentos, energia, educação, inovação e tecnologia, combate ao crime organizado, transparência e eficiência regulatória, infraestrutura e promoção dos negócios.

oglobo.globo.com | 09-11-2016

ISTAMBUL - Centenas de acadêmicos, estudantes e membros de sindicatos da Turquia realizaram um protesto nesta quinta-feira contra um expurgo de milhares de empregados do setor educacional desde a tentativa de golpe de Estado ocorrida em julho, a mando do presidente Recep Tayyip Erdogan. erdogan

Ancara acusa o clérigo Fethullah Gülen, que mora nos Estados Unidos, de orquestrar o golpe de 15 de julho, e demitiu ou suspendeu mais de 110 mil servidores públicos, acadêmicos, juízes, policiais e outros por seus supostos laços com o religioso.

A multidão entoava "venceremos resistindo" diante da Universidade de Istambul enquanto dezenas de policiais da tropa de choque usando máscaras de gás observavam. Professores que perderam o emprego choravam e abraçavam alunos.

Entre os suspensos ou removidos nos expurgos há quase 50 mil funcionários do setor educacional. O inquérito do golpe fracassado colocou na prisão cerca de 37 mil pessoas, que aguardam julgamento.

— Estamos enfrentando um período pior do que o golpe — disse Tahsin Yesildere, líder de um grupo de docentes da universidade. — Em nosso país, que está sendo transformado em um regime de um homem só por meio do estado de emergência (declarado após o golpe), todos aqueles na oposição resistindo a esta tendência se tornaram alvos.

A escala da repressão vem alarmando os aliados ocidentais e investidores estrangeiros da Turquia. Grupos de direitos humanos e partidos da oposição dizem que Erdogan, cujas raízes políticas estão em um partido islâmico proscrito, está usando o levante como pretexto para silenciar todos os dissidentes da nação candidata a ingressar na União Europeia.

oglobo.globo.com | 03-11-2016

LONDRES - Desde o final da Segunda Guerra Mundial, as relações entre americanos e britânicos já foram celebradas como incomparáveis por sucessivos líderes, de Winston Churchill e Franklin Roosevelt a David Cameron e Barack Obama. Embora os EUA tenham outros grandes aliados no mundo, nenhum tem o status do Reino Unido. Durante as últimas sete décadas, os dois países se uniram para enfrentar a Guerra Fria, conflitos em diferentes pontos do planeta e o terrorismo islâmico. A “relação especial”, termo criado por Churchill, tem enorme peso econômico, militar e diplomático para Washington e Londres. Essa parceria, no entanto, pode sofrer mudanças, seja quem for o novo ocupante da Casa Branca.

Enquanto Obama e a candidata democrata, Hillary Clinton, deixaram claro que eram contra a saída britânica da União Europeia (UE) — o Brexit —, o republicano Donald Trump aplaudiu a decisão aprovada em junho, que inaugurou uma era de incerteza para o bloco europeu. Obama avisou — e Hillary, se eleita, deve seguir a mesma linha — que o Reino Unido fora da UE perde relevância e irá “para o fim da fila” dos acordos comerciais.

Perda de relevância

A primeira-ministra Theresa May ainda negocia com Bruxelas os termos da saída, que começa oficialmente em março de 2017. Uma das principais preocupações de um eventual governo Hillary é impedir que a parceria militar com os britânicos, que têm um dos mais poderosos Exércitos do mundo, também saia enfraquecida do processo.

A democrata defende uma Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) fortalecida. Uma Europa desunida e guiada por ideais nacionalistas é uma ameaça aos interesses americanos, principalmente diante das manobras expansionistas do presidente russo, Vladimir Putin. Nesse ponto, acredita o analista Clive Webb, professor de História Americana Moderna da Universidade de Sussex, Hillary e May devem se entender. Mesmo assim, ressalta, não é possível ignorar o efeito Brexit:

— A relação especial continuaria sob a Presidência de Hillary. É interesse dos EUA e do Reino Unido manter a parceria militar e de inteligência. Porém, o Brexit poderá diminuir a importância britânica para os americanos, já que o país não servirá mais como uma ponte para o continente. O Reino Unido sempre atuou como intermediário entre os EUA e a Europa — avalia Webb. EUA-Impacto-UK

Para Scott Lucas, professor de Política Internacional da Universidade de Birmingham, se o rompimento com a UE for mantido, os britânicos não terão tratamento privilegiado por parte de um possível governo democrata. A explicação é, principalmente, econômica: teme-se uma recessão britânica nos próximos anos, o que afetaria as relações comerciais. O mercado americano é o principal destino das exportações britânicas.

— Essa relação especial já vinha mudando porque o cenário econômico mundial é outro. Os EUA não olham mais necessariamente para Londres, mas para a China, para a União Europeia ou a América Latina. Ainda existe uma sólida relação na área militar e de inteligência, mas a grande mudança é econômica e, nesse sentido, o maior choque veio do Brexit. Os EUA querem negociar com uma Europa como mercado único, e o Reino Unido está se retirando desse bloco — diz Lucas.

Se Trump derrotar Hillary, o futuro da aliança anglo-americana ficaria ainda mais incerto. O republicano definiu a vitória do Brexit como “a independência britânica”. A campanha pela saída do bloco repetiu a retórica populista, protecionista e anti-imigração que sustenta Trump. Por outro lado, ele promete melhorar as relações com Putin e avisou que seu apoio à Otan é condicional: somente os países que reservam 2% do PIB para a Defesa merecem ser protegidos pela aliança militar. Apenas cinco dos 28 membros conseguem cumprir essa meta (os britânicos estão entre eles). A intenção de Trump contradiz um dos principais artigos do tratado, segundo o qual um ataque a um dos membros da Otan é encarado como uma agressão contra todo o bloco. “Os EUA não olham mais necessariamente para Londres, mas para a China, para a União Europeia ou a América Latina.”

— Ironicamente, se o Brexit afastou o Reino Unido da Europa, Trump poderia aproximá-los. Putin representa um desafio para os países europeus. Trump não definiu o que seriam melhores relações com a Rússia. Seria a relação pessoal com Putin? Ou uma maior cooperação econômica? Não sabemos. Trump adiciona incertezas às políticas econômicas e de relações internacionais — resume Lucas.

Hillary se dedicou à Ásia

Os militares britânicos desempenharam papel fundamental no Iraque e no Afeganistão. Além disso, Londres apoia as sanções contra a Rússia e participa de ataques aéreos ao Estado Islâmico na Síria. Em 2012, ao receber Cameron em Washington, Obama ressaltou “uma das maiores alianças que o mundo já viu”. Para John Bew, professor de História e Política Externa do King’s College de Londres, essa cooperação será mantida com Hillary no poder, mas em termos diferentes.

— Hillary ressaltará a importância da defesa da Europa e da Otan. Mas também arquitetou a reorientação da política comercial americana para a Ásia. Ela passou mais tempo na Ásia do que qualquer outro secretário de Estado. Portanto, seria boa opção para o Reino Unido, mas por outro, o mundo está mudando, e o balanço de poder também — resumiu.

oglobo.globo.com | 02-11-2016

BERLIM - Nunca uma eleição fora do continente moveu tanto os europeus quanto o pleito americano, no próximo dia 8. Abandonando a tradicional diplomacia no que se refere a candidatos estrangeiros, os europeus não poupam críticas (ou elogios) ao republicano Donald Trump. Como na sua pátria, também na Europa o magnata imobiliário não deixa ninguém indiferente. Na Itália ele é o “Berlusconi americano”. Na Alemanha, o candidato foi chamado pelo ministro das Relações Exteriores, Frank Walter Steinmeier, de “pregador do ódio”. Mas na Hungria ele só recebe elogios do primeiro-ministro Viktor Orbán.

— Trump ultrapassou todas as fronteiras, e por isso é acompanhado por uma mistura de ódio e amor no mundo inteiro — diz Sabine Hermeling, especialista em relações transatlânticas da Fundação Heinrich Böll.

Não só pelas críticas que fez à política de refugiados da chanceler federal Angela Merkel ou por suas previsões de fim da União Europeia (UE), a perspectiva de um presidente Trump, descendente de alemães, é vista como catastrófica.

Os políticos europeus não procuram nem disfarçar a aversão que sentem pelo candidato republicano, que é criticado pelo presidente francês François Hollande pelos seus excessos e chamado por Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu, como um “perigo para o mundo inteiro”. Info - Europa

Rejeitado por 60% dos alemães

“Trump personifica os preconceitos existentes na Europa sobre os Estados Unidos, e a sua eleição marcaria uma nova fase de forte antiamericanismo no continente”, escreveu o jornal berlinense “Der Tagesspiegel”, expressando a opinião de mais de 60% dos alemães, segundo um estudo recente. “O futuro deve tratar de educação, e não de intolerância; de confiança, e não de ódio; de construir pontes, e não muros”.

Para o cientista político Crister Garrett, da Universidade de Leipzig, o “fenômeno Trump”, do populismo acompanhado de xenofobia, existe também na Europa, onde é expressado por políticos como Orbán, a francesa Marine Le Pen ou o polonês Jaroslaw Kaczynski, do Partido Lei e Justiça, hoje chefe do governo.

Kaczynski e Orban recusam, como Trump, os muçulmanos.

— O que é bom para a Europa não poderia ser formulado de maneira melhor — disse Orbán, recentemente, ao falar para a minoria húngara na Romênia, alegando que um político como Trump seria o melhor para o continente.

Já o cientista político italiano Enrico Rusconi, da Universidade de Turim, lembra que o fenômeno Trump pode acontecer também na Europa Ocidental. Trata-se do que ele chama “estilo Berlusconi”, que se tornou possível através de uma “mutação” na sociedade.

— Trata-se da democracia do espectador. Vence o político que consegue se vender melhor na mídia, mesmo que tenha uma forma vulgar de expressão — lembra ele.

Sabine Hermeling também observa que os adeptos de Trump são parecidos com os franceses que apoiam Le Pen, os austríacos partidários de Heinz-Christian Strache, do Partido Democrata Liberal (FPÖ) e os poloneses que apoiam Kaczynski. “Não estou tendo pesadelos com a possibilidade de Trump ser o próximo presidente americano. Não vejo necessidade de responder suas críticas.”

Mesmo políticos moderados, como o ministro das Relações Exteriores da Áustria, Sebastian Kurz, observam Trump com interesse. Kurz chegou a apontar a ideia do magnata de construir um muro na fronteira com o México como interessante, pelo menos do ponto de vista de evitar imigrantes. A Áustria também constrói muros e cercas para evitar o êxodo de refugiados e imigrantes do Sul da Europa.

Mas, na sua maioria, os governos da Europa Ocidental preferem na Presidência dos EUA a democrata Hillary Clinton, de quem esperam mais confiabilidade. Segundo um estudo do “Deutsche Bank Research”, o instituto de pesquisa do Deutsche Bank, a economia europeia conta com uma vitória de Hillary porque enxerga que a cooperação econômica com a ex-secretária de Estado será mais intensa.

“Trump, ao contrário do que se espera de Hillary, quer cortar os laços econômicos com os países estrangeiro e concentrar o seu programa no mercado interno”, diz o estudo.

Medo de interferência

Thomas Jäger, do Instituto de Ciências Políticas da Universidade de Colônia, lembra que qualquer que seja o vitorioso haverá mudanças para pior nas relações com a Europa e com a Rússia.

— Trump não vai se intrometer nas questões europeias, mas também não terá uma influência positiva — considera o analista.

A Europa também espera de uma presidente Hillary mudanças para pior, como a de uma nova política de confrontação com a Rússia.

O jornalista alemão Jakob Augstein, coproprietário da revista “Der Spiegel”, afirmou que o papel que Hillary pode assumir na guerra da Síria, “o conflito mais perigoso do mundo”, terá o efeito de desencadear uma nova Guerra Fria. “Os excessos de Trump dão vontade de vomitar. A democracia está em risco, porque há cada vez mais políticos tentados pelo autoritarismo. Se os americanos escolherem Trump, haverá consequências, porque uma eleição nos EUA é uma eleição global”.

— Os riscos de um novo confronto com a Rússia se Hillary adotar as medidas que anunciou na campanha, como a criação de uma zona de proibição de voo, serão incalculáveis — disse Augstein.

O barril de pólvora da Síria, onde lutam lado a lado Rússia, Irã, Turquia, Israel e Arábia Saudita, mas cada um defendendo os próprios interesses, pode ser transformar em um explosivo para o mundo.

Ordem mundial multipolar

A Europa vê Trump como uma farsa, lembra Augstein, que é de esquerda. Mas mais do que essa farsa, ele receia a volta de uma política intervencionista, que seria possível com Hillary.

O cientista político austríaco Stefan Haderer diz que se Trump ganhar, os europeus vão observar com aversão como um presidente americano, da única superpotência do mundo, “usa uma terminologia que não é digna do seu posto". Mas com uma presidente Hillary Clinton vão sofrer se o novo governo americano se colocar contra uma ordem mundial multipolar. Segundo ele, com Hillary os Estados Unidos “podem retomar o papel de policiais do mundo”.

oglobo.globo.com | 02-11-2016

WASHINGTON - Na reta final da campanha, Donald Trump passou a atacar as pesquisas, nas quais ele aparece em baixa, dizendo que o resultado da eleição presidencial pode trazer um “novo Brexit”, ou seja, outra surpresa como a do referendo que decidiu pela saída do Reino Unido da União Europeia, em junho. Desta vez, ele pode não estar tão errado, e quem diz isso são justamente os especialistas em pesquisas de intenção. Mudanças tecnológicas, sociais e demográficas vêm gerando desafios extras para as consultas.

— Acho que os candidatos estão mais próximos do que dizem as pesquisas — disse ao GLOBO o especialista John Zogby, da John Zogby Strategies. — Poderemos ter uma série de surpresas nestas eleições.

A variação no termômetro eleitoral tem sido intensa. No cenário com quatro candidatos, que também leva em conta os votos para Gary Johnson (Libertário) e Jill Stein (Verde), a média das pesquisas calculada pelo site “Realclearpolitics” aponta para a democrata Hillary Clinton com 45% dos votos e o republicano Trump com 41,6%: uma diferença de 3,4 pontos percentuais, dentro da margem de erro. Mas, entre as oito pesquisas levadas em conta para essa média, há algumas em que Hillary tem nove pontos na frente, e outras indicando empate. E uma mesma sondagem pode ter grande variação. O levantamento da rede ABC dava 12 pontos de vantagem a Hillary entre os dias 20 a 23 de outubro. Na pesquisa entre os dias 25 a 28, a margem havia desabado para um ponto (empate técnico).

No cenário apenas com os dois principais candidatos, a variação é maior. Na média, Hillary tem 47,6%, e Trump, 43,3%, ou seja, vantagem de 4,3 pontos percentuais para a democrata. Mas, analisando cada uma das sete pesquisas utilizadas para calcular a média, há desde vantagem de Trump por dois pontos até uma dianteira de 10 pontos para Hillary. Nos dados utilizados pelo “Realclearpolitics”, a democrata poderia ter de 44% a 50%, enquanto Trump, de 37% a 46%. Isso sem levar em conta a reabertura das investigações do FBI, revelada na sexta-feira, sobre eventuais irregularidades nos e-mails de Hillary quando ela era secretária de Estado.

Desafios crescentes em todo o mundo

John Zogby afirma que os desafios das pesquisas eleitorais são crescentes e em todo o mundo, citando não só o Brexit, mas ainda as falhas na tentativa de antecipar o resultado do referendo sobre o acordo de paz na Colômbia. Quanto à eleição americana, analistas ouvidos pela agência de notícias Reuters indicam que a impopularidade histórica dos candidatos — a rejeição a ambos supera 50% — e as mudanças tecnológicas e sociais geram obstáculos.

Desde 2010, dobrou o percentual de pessoas que têm apenas celulares. E a legislação americana impede a discagem automática, chamada robocall, para telefones móveis. Além disso, é mais difícil criar um banco de dados confiável com celulares.

O aumento da diversidade dos EUA, com mais latinos e imigrantes, também impõe desafios. A necessidade de atualização é maior que nunca:

— Não podemos aplicar os modelos de 2008 e de 2012 para 2016 — explicou Ashley Koning, da Universidade Rutgers, em Nova Jersey.

Segundo Clifford Young, presidente para os Estados Unidos do instituto de pesquisa Ipsos, a atualização, segundo ele, é constante, pois a credibilidade é a base do serviço prestado.

— A metodologia vem mudando a todo o momento, o setor está migrando para pesquisas on-line com resultados robustos — disse ele.

O “Wall Street Journal” mostrou, na quinta-feira, que há grande diferença entre consultas por telefone e on-line. As empresas estão criando alternativas para pesquisas de opinião:

“Estamos em um período de transição, aprendendo a lidar com isso”, disse Charlie Cook, analista e editor do boletim “Cook Political Report”.

Além disso, Clifford Young acredita que a participação pode causar diferenças relevantes entre pesquisas e resultado da disputa, que será definida dia 8 de novembro. Como nos EUA o voto não é obrigatório, cada eleição tem sua dinâmica.

— Participações elevadas favorecem os democratas, e pouco engajamento tende a ser melhor para republicanos. Ainda há muitas questões políticas que podem influenciar a decisão do eleitor ao votar — afirmou Young ao GLOBO.

Uma campanha como a deste ano, focada em ataques pessoais, dificulta ainda mais.

— Temos que lembrar que o entusiasmo dos eleitores de Hillary é muito menor que a empolgação dos apoiadores de Trump — disse Zogby. — Na verdade, ninguém tem uma ideia clara de como será a participação eleitoral neste ano.

Os dados que mostram Hillary muito à frente podem fazer com que seus eleitores entrem no clima de “já ganhou” e não votem, além de incentivar mais mobilização em direção a Trump.

— Mas a situação de Hillary é melhor. Ela tem o partido inteiro trabalhando por sua eleição, o que não vemos no lado republicano — avaliou Zogby.

OS ERROS MAIS COMUNS

Por telefone: A entrevista por telefone é um método tradicional de pesquisa. Um caso comum de erro acontece porque muitas sondagens são feitas por telefones fixos. Como hoje quase metade da população americana tem apenas celular, resultados podem ser distorcidos.

Ppela internet: Cada vez mais usual por ser mais barata e, por isso, alcançar um número maior de pessoas, a entrevista pela internet também pode gerar erros, já que a sondagem ignora a opinião de quem não tem acesso à web. As pessoas normalmente se oferecem para participar e são ou não selecionadas.

‘Robopolls’: Na sondagem automatizada, os eleitores respondem a perguntas pré-gravadas apenas pressionando botões do telefone, sem conversar com o entrevistador. É um dos métodos mais difíceis de ser checado, já que qualquer um pode responder se passando por outro.

Amostras: O tipo mais confiável de amostra é a probabilística, em que a escolha do entrevistado é feita de maneira totalmente aleatória. A não probabilística pode excluir grupos, porque é dividida por cotas proporcionais a variáveis como gênero, faixa etária, escolarização, renda familiar, etc.

Análise final: Após realizar as entrevistas, os pesquisadores devem ponderar os dados, para evitar que a sondagem represente mais um grupo específico do que outro. Por exemplo, adultos mais velhos estão mais propensos a estar disponíveis para responder a uma sondagem por telefone.

oglobo.globo.com | 31-10-2016
Estudantes brasileiros já podem usar o resultado do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) como forma de ingresso em 18 instituições de ensino superior de Portugal. O convênio mais recente foi firmado nesta semana pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) com a Universidade do Minho. A parceria com o país, iniciada em 2014, também inclui universidades como as de Lisboa, Coimbra e do Porto.

As notas mínimas exigidas no exame variam de 500 a 600, com regras estabelecidas por cada instituição. Medicina é o único curso que, por uma lei local, só admite alunos por meio de provas específicas. As graduações em Portugal costumam ter duração de 3 a 5 anos e podem ser integradas a cursos de pós-graduação.

A má notícia para os brasileiros é que nem mesmo as universidades públicas são gratuitas em Portugal. Estrangeiros precisam desembolsar uma taxa anual de até 7 mil euros (cerca de R$ 24 mil), além de taxas de seleção e matrícula. Há, no entanto, opções mais em conta e a possibilidade de concorrer a bolsas de estudo parciais para aqueles com melhores notas no Enem. Já quem tem cidadania de qualquer país da União Europeia tem a maior parte do custo subsidiada pelo governo - a anuidade fica em torno de mil euros (R$ 3,4 mil).

Cada universidade tem um processo de seleção diferente, mas o período normalmente vai de maio até agosto. O ano letivo começa em setembro, assim como na maior parte da Europa. Se a intenção é voltar ao Brasil ao final do curso, é importante consultar o Ministério da Educação (MEC) para conferir se o diploma poderá ser validado no País.

Ao ser admitido no ensino superior em Portugal, qualquer brasileiro tem direito a requerer um visto de estudante pelo período de duração do curso. A autorização, porém, não dá direito a trabalhar formalmente no país. Se o aluno conseguir uma vaga de emprego em sua área de atuação, poderá solicitar um visto de trabalho.

Confira a lista e os sites de instituições de ensino superior portuguesas que aceitam o Enem:

1. Universidade de Coimbra (desde 26/05/2014) - www.uc.pt
2. Universidade de Algarve (desde 18/09/2014) - www.ualg.pt
3. Instituto Politécnico de Leiria (desde 24/04/2015) - www.ipleiria.pt
4. Instituto Politécnico de Beja (desde 10/07/2015) - www.ipbeja.pt
5. Instituto Politécnico do Porto (desde 26/08/2015) - www.ipp.pt
6. Instituto Politécnico de Portalegre (desde 08/10/2015) - www.ipportalegre.pt
7. Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (desde 09/11/2015) - ipca.pt
8. Instituto Politécnico de Coimbra (desde 24/11/2015) - www.ipc.pt
9. Universidade de Aveiro (desde 25/11/2015) - www.ua.pt
10. Instituto Politécnico de Guarda (desde 26/11/2015) - www.ipg.pt
11. Universidade de Lisboa (desde 27/11/2015) - www.ulisboa.pt
12. Universidade do Porto (desde 09/03/2016) - sigarra.up.pt
13. Universidade da Madeira (desde 14/03/2016) - www.uma.pt
14. Instituto Politécnico de Viseu (desde 15/07/2016) - www.ipv.pt
15. Instituto Politécnico de Santarém (desde 15/07/2016) - www.ipsantarem.pt
16. Universidade dos Açores (desde 04/08/2016) - www.uac.pt
17. Universidade da Beira Interior (desde 20/09/2016) - www.ubi.pt
18. Universidade do Minho (desde 24/10/2016) - www.uminho.pt

RIO – Uma equipe de cientistas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), no EUA, anunciou nesta segunda um novo recorde na saga pela fusão nuclear controlada, uma abundante e limpa fonte de energia com reações similares às que acontecem no interior do Sol. Segundo os pesquisadores, o plasma em seu reator - de um tipo conhecido como tokamak e batizado Alcator C-Mod - registrou a maior pressão à altíssima temperatura necessárias para forçar os átomos a se fundirem, e assim liberarem enormes quantidades de energia.

Em números, foram 2,05 atmosferas, ou pouco mais de duas vezes a pressão atmosférica no nível do mar, a 35 milhões de graus Celsius, ou aproximadamente o dobro da temperatura no núcleo do Sol, por um total de dois segundos. Neste período, o plasma produziu 300 trilhões de reações de fusão em um volume de aproximadamente 1 metro cúbico, ou mil litros, do tamanho de um pequeno armário. O segredo para um reator de fusão bem-sucedido é liberar mais energia do que a consumida para criar e manter este ambiente extremo, em que funcione de forma sustentada. Para isso, os reatores do tipo tokamak (corruptela para o termo em russo “câmara toroidal”) confinam o plasma superaquecido com um intenso campo magnético dentro de uma câmara em formato de rosquinha (na geometria, um toroide, daí seu nome).

- Este é um feito notável que destaca o altamente bem-sucedido programa do Alcator C-Mod no MIT – comentou Dale Meade, ex-vice-diretor do Laboratório de Física de Plasma da Universidade de Princeton, também nos EUA, e não diretamente envolvido no experimento. - O recorde na pressão do plasma valida a abordagem de intenso campo magnético como um caminho para a energia de fusão na prática.

Mas o novo recorde na pressão, 15% superior ao anterior, não salvou o Alcator C-Mod do desligamento. Depois de cerca de 23 anos de experiências, o equipamento atingiu a marca justamente no seu último dia de operação, que foram encerradas com o fim do seu financiamento pelo Departamento de Energia dos EUA. Agora, o país vai concentrar seus esforços na área no Iter, o gigantesco consórcio internacional formado também por União Europeia, China, Índia, Coreia do Sul, Rússia e Japão que está construindo um reator de fusão do mesmo tipo do Alcator C-Mod, mas muito maior, no interior da França. Com um orçamento estimado em mais de US$ 50 bilhões, o Iter deverá estar pronto em 15 a 20 anos com o objetivo de gerar cerca de 500 megawatts de energia, aproximadamente o mesmo que uma grande usina de fissão nuclear, mas sem seu lixo radioativo.

oglobo.globo.com | 17-10-2016

RIO - O dólar comercial fechou nesta terça-feira com alta de 1,55%, cotado a R$ 3,256, após fechar em queda no pregão de ontem. Cotado a R$ 3,212 na abertura do mercado, o movimento seguiu a tendência global, reforçado pelas declarações do presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, no Senado, que destacou que não há cronograma para o corte dos juros. Na máxima, a moeda americana chegou a R$ 3,261 e, na mínima, a R$ 3,208. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) encerrou com com recuo de 0,21%, aos 59.339,23 pontos, num dia de volatilidade, em que os investidores discutem as chances de os juros subirem nos Estados Unidos e avaliam o texto da PEC do teto dos gastos públicos, apresentada em comissão especial da Câmara.

— A disparada do dólar se deve, principalmente, à piora nas expectativas do FMI para a economia dos EUA, além de um discurso favorável, novamente, ao aumento de juros nos EUA, feito pelo presidente do FED de Richmento, Jeffrey Lacker — diz Celson Plácido, estrategista-chefe da XP Investimento. — Além disso, ainda há preocupações com o Deutsche Bank.

No mercado global, o Dollar Index Spot, que compara a moeda americana com uma cesta de dez moedas, também ganhou força e se valorizou em 0,44%, com a moeda americana impulsionada pelos comentários de autoridades do BC americano (Federal Reserve) indicando que a taxa de juros no país subirá antes do fim do ano. Contra o yen, a moeda americana tem o sexto dia de ganhos após pesquisa do Banco do Japão (BoJ) mostrar que as empresas reduziram suas previsões para a inflação.

— Na sexta-feira, haverá divulgação de dados sobre emprego nos EUA, e hoje autoridades do Federal Reserve deram indicações de que a alta dos juros está vindo — diz Reginaldo Galhardo, gerente de câmbio da Treviso Corretora.

Nos EUA, o Dow Jones perdeu 0,47% e o S&P 500 recuou 0,50%. Já o índice Nasdaq fechou em baixa de 0,21%.

— Quando olhamos para o exterior, o dólar ganhou força frente a seus principais pares. Ainda que não tenha havido dados da agenda macroeconômica americana, tivemos discursos de autoridades do Fed que são mais hawkish, ou seja, pró-elevação de juros. Essas delcarações contribuíram para a elevação do dólar — afirmou Ignácio Rey, economista da Guide Investimentos. — O movimento de hoje foi mais proveniente do exterior ao contrário de ontem, quando havia força das eleições municipais.

A reversão das expectativas — parte dos agentes de mercado estava baixando as apostas de elevação dos juros americano num horizonte mais próximo — levou ao desmonte de posições. O ouro, que acumula alta de 19% neste ano, perdeu 3,3% hoje, a US$ 1.266,30 por onça (28,35 g).

Por sua vez, a libra esterlina retoma o menor patamar em 31 anos, na comparação com o dólar, uma consequência da preocupação com a saída do Reino Unido da União Europeia. A cotação da moeda do Reino Unido fechou com queda de 0,8%, a US$ 1,2738, mas chegou a tocar US$ 1,2720, o menor nível desde 1985. A divisa também registrou o menor valor em mais de três anos em relação ao euro, negociada a 87,56 pence por um euro às 4h (de Brasília). A libra já acumula queda de 15% desde o referendo que definiu a saída do país do bloco econômico.

O movimento de baixa da libra teve início ontem e ilustra preocupação provocada pelo Brexit, que aumentou após a primeira-ministra Theresa May anunciar, no domingo, que pretende iniciar o processo de saída até o fim de março. O discurso gerou temores entre os investidores de um "Brexit duro", ou seja, sem compromisso prévio com Bruxelas, o que pode fazer com que as empresas britânicas percam acesso ao mercado único.

Com a libra em queda, o FTSE 100, da bolsa londrina, fechou em alta de 1,3%. Na mesma direção, o DAX, de Frankfurt, ganhou 1,03% e o CAC 40, de Paris, avançou 1,11%. Os investidores mantêm otimismo sobre a redução da multa aplicada pelo Departamento de Justiça americano ao Deutsche, e as expectativas ofuscam dados ruins de inflação. Na região, o economista-chefe do Banco Central Europeu (BCE), Peter Praet, disse que a autoridade monetária deve manter suas taxas de juros baixas até que ele atinja sua meta de inflação.

No Brasil, o Banco Central realizou o leilão diário de cinco mil contratos de swap cambial reverso, operação que equivale à compra futura de dólares.

BOVESPA

A Bolsa não reagiu à leitura da PEC dos Gastos, embora analistas tenham aprovado os principais pontos do texto. Plácido, da XP Investimentos, destaca o uso da inflação para corrigir as cifras previstas para gastos, o fato de que a flexibilização para os setores de saúde e educação foram limitados e o prazo para revisão — após dez, e não sete anos, como em versão anterior.

Já Rafael Figueredo, analista da Clear Corretora, afirma que a apresentação do texto na comissão da Câmara foi positiva para evitar uma perda maior na Bolsa na sessã desta terça-feira:

— A proposta é impopular, como outras que virão, mas ajustes são o preço para ter condições melhores de economia no ano que vem e daí para a frente, com mais previsibilidade para empresários investirem. A boa notícia, a apresentação do texto, evitou queda maior do Ibovespa, que seguiu a tendência internacional — avalia o especialista.

A maior perda do dia foi da Braskem (9,01%, cotada a R$ 23,54), que tenta negociar com autoridades americanas um acordo para resolver denúncias de irregularidades contra a companhia, envolvendo casos de corrupção com a Petrobras. Além disso, os investidores estão vendendo o papel à data de permanência obrigatória (3 de outubro) para participação nos dividendos.

Outra que registrou desvalorização foi a Itaúsa (1,41%, a R$ 8,37) — a holding de investimento das famílias Setubal e Vilella é uma das interessadas na compra de participação na BR Distribuidora. A ação foi a segunda mais negociada do dia. A primeira foi Itaú (alta de 0,88%, a R$ 36,67) e a segunda, Bradesco (alta de 1,38%, a R$ 30,20), com investidores na expectativa de dividendos extraordinários.

Rebaixada pela Fitch, a Cia Brasileira de Distribuição (Pão de Açúcar) perdeu 2,15%, a R$ 52,23.

Entre as principais ações do pregão, Vale chegou a subir 0,88%, seguindo as companhias do setor na Europa, mas fechou com queda de 2,49%, a R$ 17,65. A Bradespar, uma das controladoras da mineradora, segue o movimento e devolve parte dos ganhos de ontem e hoje perdeu 1,28%, a R$ 8,46.

Porém, outros papéis evitam recuo maior do Ibovespa, o principal índice do mercado brasileiro. Petrobras ganhou 0,51% na ação ON (ordinária, com direito a voto) e 0,36% na PN (preferencial, sem direito a voto), cotadas respectivamente a R$ 15,61 e R$ 14,02. Segundo Rey, o movimento se deve à recuperação do preço do petróleo ao longo do dia.

Os mercados asiáticos fecharam em alta nesta terça-feira liderados pelos mercados japoneses após uma pesquisa favorável sobre a atividade industrial dos Estados Unidos impulsionar o dólar. O índice Nikkei do Japão avançou 0,83%, com o dólar se fortalecendo ante o iene após dados econômicos fortes dos EUA. Em Hong Kong, o índice Hang Seng subiu 0,45%. Em Seul, o Kospi teve valorização de 0,55%, a 2.054 pontos. Em Taiwan, o Taiex registrou alta de 0,58%. Em Cingapura, o Straits Times valorizou-se 0,48%. Em Sydney, o S&P/ASX 200 avançou 0,10%. Os mercados chineses não operaram.

oglobo.globo.com | 04-10-2016

CARTAGENA — A Colômbia e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) selaram nesta segunda-feira o histórico pacto de paz para acabar com meio século de conflitos no país. O presidente colombiano, Juan Manuel Santos, e o líder máximo da guerrilha, Timoleón Jiménez (Timochenko), assinaram o acordo na cidade de Cartagena em uma cerimônia iniciada às 17h (horário local). Centenas de pessoas se reuniram no local para assistir ao gesto que marca o fim de quatro anos de negociações entre as duas partes em Havana. Para ser definitivamente colocado em prática, no entanto, o texto do pacto ainda deverá ser aprovado em um referendo nacional do próximo domingo. colombiafarc

"Hoje posso dizer a vocês que vivemos a felicidade de um novo amanhecer para a Colômbia, uma nova etapa da nossa história, a de um país em paz!", escreveu, mais cedo, Santos nas redes sociais.

Cerca de 2,5 mil pessoas vestidas de branco, entre elas 250 vítimas, estão presentes para escutar o anúncio que, por décadas, parecia uma realidade impossível: o fim da violência entre guerrilheiros, paramilitares e agentes do Estado. Os conflitos, que duraram 52 anos, deixaram cerca de 260 mil vítimas fatais, 45 mil desaparecidos e 6,9 milhões de deslocados.

Na cerimônia, estão presentes 15 chefes de Estado, incluindo o presidente cubano Raúl Castro, anfitrião das conversações de paz intermediadas também por Noruega, Venezuela e Chile. Também fazem parte do evento histórico o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, o rei emérito da Espanha, Juan Carlos, e vários representantes de organizações internacionais.

O evento teve início com a abertura de uma porta com uma grande chave por Santos, para representar a chegada da paz ao país. Em seguida, entraram os líderes da comunidade internacional e Timochenko, que foi fortemente aplaudido. Houve um minuto de silêncio em homenagem às vítimas fatais do conflito e um canto de luto por mulheres colombianas. Ban Ki-moon fez um discurso para celebrar o acordo de paz e o início de uma nova fase no país, pedindo que os colombianos façam da trégua um projeto nacional.

— Viva a Colômbia! Viva a Colômbia em paz! — disse o secretário-geral da ONU para finalizar seu discurso, acompanhado de aplausos e gritos.

Em seguida, Timochenko fez um discurso em que deu as boas-vindas a "uma nova era de reconciliação e construção da paz" — com "democracia e dignidade" para as próximas gerações do país. E disse ainda que todos os cidadãos serão artífices do processo de paz que, em suas palavras, "está apenas começando". Seis etapas da paz na Colômbia

— O processo de paz na Colômbia é uma referência para a solução de conflitos no mundo — destacou o líder das Farc, pedindo o fim dos conflitos entre palestinos e israelenses e no território sírio.

No fim do seu discurso, ele pediu perdão a todas as vítimas do conflito colombiano:

— Minhas sinceras desculpas a todas as vítimas deste conflito, por toda a dor que causamos nesta guerra — declarou, sob aplausos. — A guerra acabou, estamos começando a construir a paz.

Em comunicado, o secretário geral da Organização de Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, celebrou a assinatura do acordo histórico. E reiterou que o organismo continuará sua assistência à Colômbia durante o pós-conflito.

"Hoje é um dia que o mundo não esquecerá. O acordo de paz na Colômbia é um rito que todos os países do Hemisfério e do mundo aplaudem", afirmou Almagro. "A Colômbia demonstrou que, quando o diálogo está orientado a obter resultados, as convicções são fortes e o objetivo é superior, o impossível se torna realidade."

Nesta segunda-feira, a União Europeia decidiu suspender as Farc da sua lista de organizações terroristas. A medida deverá ficar em vigor por seis meses a partir da assinatura do acordo e, então, será revisada. A decisão, no entanto, não implica na retirada definitiva das Farc da lista criada em 2001 após os atentados de 11 de Setembro em Nova York, mas se traduz na suspensão das sanções adotadas contra o grupo rebelde, como o congelamento de ativos financeiros ou a proibição de colocar fundos à sua disposição.

Uma segunda-feira inesquecível para a Colômbia

ASSINATURA COM 'BALÍGRAFO'

O acordo, um documento de 297 páginas que procura trocar “balas por votos”, promovendo o desarmamento da guerrilha e sua transição para a vida política legal, foi assinado com um “balígrafo”: uma caneta feita com restos de balas usadas em metralhadoras e fuzis. Os líderes estrangeiros que vieram para a cerimônia serão presenteados com réplicas da criação, que leva a frase “as balas escreveram nosso passado, a educação, o nosso futuro” inscrita em sua extensão.

O pacto foi ratificado na sexta-feira passada pela Farc - que nasceu de uma revolta camponesa em 1964 e atualmente conta com 7 mil combatentes - após uma inédita conferência nacional guerrilheira autorizada pelo governo e aberta à imprensa em El Diamante, área remota do sul do país.

A segunda-feira começou com uma homenagem à forças de segurança, a quem Santos agradeceu por “seu sacrifício e importância”. O general Jorge Hernando Nieto, diretor da polícia colombiana, comemorou a conquista dos funcionários de “silenciar os fuzis da guerra”, afirmou que todos eles construirão “o caminho para a paz”.

Na igreja de San Pedro Claver, o cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano e enviado do Papa Francisco para a cerimônia, comandou uma oração pela reconciliação dos colombianos, que se repetiu em vários centros de culto por todo o país.

Em Bogotá, centenas de pessoas assistem desde às 14h a um concerto pela paz na praça Simón Bolívar, onde poderão acompanhar o evento através de um telão.

Mas cerca de duas mil pessoas também marcharam em Cartagena nesta segunda-feira contra o histórico acordo de paz. Diante dos manifestantes, o ex-presidente Álvaro Uribe disse "não" ao pacto e chamou os guerrilheiros de terroristas. A marcha foi convocada pelos apoiadores da campanha do “não” no plebiscito que irá referendar o pacto, marcado para 2 de outubro.

— Estamos aqui para dizer não aos terroristas, não a este mal acordo, não a esta assinatura final — disse Uribe à multidão.Correspondente: Acordo com as Farc ainda depende de referendo público

oglobo.globo.com | 26-09-2016

RIO e ROMA — Frente à histórica dificuldade da Itália em manter governos estáveis, o primeiro-ministro Matteo Renzi se vê nas últimas semanas de uma campanha decisiva à formação legislativa do país e ao seu destino na vida política. No poder há mais de dois anos, o premier quer reduzir drasticamente a autoridade do Senado com um referendo nacional que deverá votar, entre novembro e dezembro, uma das mais importantes reformas constitucionais desde o fim da monarquia, em 1946. De centro-esquerda, Renzi apostou todas as fichas, incluindo o seu próprio mandato, na votação. Ele argumenta que o país, hoje com quase mil legisladores em duas câmaras com o mesmo nível de poder, precisa aumentar a capacidade de governança e reduzir os custos do Estado superaparelhado. Italia_2409

A reviravolta busca facilitar a criação de leis, eliminando a necessidade de aprovar novos projetos no Senado e na Câmara dos Deputados, como é previsto pelo sistema de bicameralismo perfeito italiano. Em um Parlamento extremamente fragmentado, com 169 partidos nas últimas eleições, este pode se tornar um longo e penoso processo. E, ainda, a reforma tenta evitar a repetição de governos relâmpagos no país, que teve 63 comandos nos últimos 70 anos — instabilidade provocada, sobretudo, pela sobrevivência do governo condicionada à fiducia, ou voto de confiança, de ambas as casas.

Se for aprovada pelos italianos, a reforma Renzi-Boschi — que leva o nome do premier e da sua ministra encarregada de levar à frente a missão do referendo, Maria Elena Boschi — reduziria de 315 para 100 os senadores que hoje trabalham no Palácio Madama, em Roma. Estes legisladores, atualmente eleitos sob voto direto, seriam substituídos por autoridades apontadas ou eleitas indiretamente e teriam suas funções limitadas.

INDECISÃO NAS URNAS

Os críticos ao projeto, no entanto, afirmam que o pacote de mudanças colocaria poder demais nas mãos do primeiro-ministro, em um potencial estremecimento da democracia italiana. A tendência seria que partidos pequenos perdessem assentos parlamentares no sistema idealizado por Renzi, com a ajuda de uma nova lei eleitoral para a Câmara dos Deputados, já aprovada em 2014, que prevê a concentração de quase 55% dos 630 lugares na casa para o partido que obtiver 40% dos votos nas eleições legislativas, eliminando as menores legendas. Mas, antes mesmo da primeira aplicação do “Italicum”, como Renzi chamou a regra, o governo já aceitou discutir modificações na lei, em uma aparente tentativa de negociar o apoio dos partidos que prometem votar “não”, em reprovação à reforma, no referendo.

Os italianos estão divididos sobre a consulta. No início da campanha, Renzi parecia mais confiante da vitória na antiga promessa de reformar a política. Chegou a declarar, a plenos pulmões, que ele e Boschi deixariam o governo se fossem derrotados. Mas, nos últimos meses, o “não” parece avançar na opinião do eleitorado, com o incentivo das duas maiores forças da oposição: o partido Força Itália, do ex-premier Silvio Berlusconi; e o Movimento Cinco Estrelas (M5S), do comediante Beppe Grillo — que prometem ser os mais fortalecidos por uma eventual derrota de Renzi. Uma pesquisa do Instituto Piepoli, publicada este mês no “La Stampa”, mostrou que 51% dos eleitores pretendiam votar contra a reforma. E, agora, o premier e a ministra já evitam falar em demissão, embora não neguem suas antigas declarações, sob a justificativa de não personalizar o voto dos italianos pelas suas preferências partidárias.

Favorável à causa de Renzi, a deputada Renata Bueno, que nasceu no Brasil mas tem cidadania italiana, explica que a proposta já passou por longos debates parlamentares — embora constitucionalistas ainda questionem o texto. Ela argumenta que esta é a coluna vertebral de Renzi, mas não acredita que ele ou Boschi se demitiriam.

— Renzi entrou no governo em um acordo de partidos para fazer as reformas necessárias e diminuir o custo com a política. Primeiro, a ideia era abolir o Senado e, depois de debatermos por dois anos, a proposta final foi votada pelo Parlamento — diz Renata, que fará campanha na comunidade italiana. — Mas a polêmica ficou entre quem é a favor ou contra Renzi, sem avaliar tanto a reforma.

Há quem diga que a aposta de Renzi pode repetir a história que em junho viveu o então premier britânico, David Cameron. Logo após a apertada vitória da saída do Reino Unido da União Europeia (UE) em referendo, ele deixou Downing Street — tal como prometera na sua campanha pela permanência no bloco. A eventual derrota de Renzi poderia também prejudicar a Itália na UE, com a redução da confiança internacional no país, explica Fulco Lanchester, professor de Ciências Políticas da Universidade La Sapienza, em Roma.

— Cameron personalizou a votação e foi embora. Foi uma derrota política, mas a diferença é que o Reino Unido pode se permitir este afastamento — explica. — É perigosa a personalização de Renzi, porque um referendo binário pode se virar a favor de uma questão ou contra uma pessoa. Na Itália, que usa o euro, a redução da confiança internacional é um problema. Se vencer o “não”, a Europa e os mercados internacionais não nos darão mais crédito.

oglobo.globo.com | 25-09-2016

MADRI - Pablo Iglesias, o jovem vulcânico que fundou o Podemos, confessou o pior de seus medos depois das eleições na Espanha, em junho, quando acabou em terceiro: “Vamos passar de ser a resistência para formar o Exército regular, e isso pode nos sair muito caro”. Foi premonitório. Três meses mais tarde, o partido dos Indignados — movimento popular que tomou as ruas da Espanha em 2011 — se vê envolvido numa divisão interna feroz que levanta dúvidas sobre seu futuro. O drama que previu Iglesias ultrapassa fronteiras. Na Itália, o Movimento 5 Estrelas (M5E) sofre o mesmo, pouco depois de ter conquistado a prefeitura de Roma. E, no Reino Unido, os isolacionistas xenófobos do Ukip sangram até a morte desde o dia em que conseguiram empurrar o país para fora da União Europeia (UE), com a vitória do Brexit.

Nascidos de protestos, capazes de colocar a política europeia de pernas para o ar, os partidos antissistema atravessam a experiência traumática de entrar no jogo. O resultado é uma crise com um final em aberto que se traduz em fraturas, expurgos, mudanças de líderes e expectativas insatisfeitas por parte dos eleitores. Antissistema

É um fenômeno que acompanha os êxitos dos partidos e não esbarra em ideologias. O Syriza, a esquerda radical grega, está dividido há um ano, quando seu líder e primeiro-ministro, Alexis Tsipras, abandonou as promessas revolucionárias para evitar quebrar o país. A legenda rachou em três. No outro extremo, os ultradireitistas alemães do AfD (Alternativa para a Alemanha), em paralelo a seu alarmante crescimento eleitoral, travam batalhas inclementes para definir que rumo tomar.

— Os populistas, por definição, nascem na oposição e nos protestos. Quando chegam ao poder ou têm uma parte dele, enfrentam o drama de tomar decisões, o que põe em xeque sua coerência. As tensões resultam inevitáveis — explica o professor de Ciências Políticas Ignacio Molina, do Real Instituto Elcano, lembrando que na origem destes partidos está a semente do descontentamento. — Em geral, nascem ligados a um líder carismático que quando é questionado abala toda sua estrutura.

‘Retórica do xamã’

A crise do Podemos se encaixa nesta lógica. Começou com uma discussão sobre cargos. Mas, esta semana, derivou para uma briga ideológica às claras entre Iglesias e seu número dois, Íñigo Errejón, que debatem por que o partido desinflou depois das eleições de dezembro do ano passado e junho deste ano. Iglesias quer acentuar as teses radicais.

— No dia em que deixarmos de causar medo, seremos apenas mais um e não teremos nenhum sentido como força política — disse esta semana, num ato de campanha.

Errejón, vestindo a bandeira da moderação, rebateu pelo Twitter: “Aos poderosos já lhes damos medo, esse não é o objetivo. É reduzir a parte do nosso povo que sofre, mas ainda não confia em nós.”

A resposta do líder não demorou a chegar: “Sim, companheiro, mas em junho deixamos de seduzir um milhão de pessoas. Falando claramente e sendo diferentes, seduzimos mais.”

A consultora política Belén Barreiro acredita que a tensão se origina numa queda livre da avaliação pública de Iglesias:

— O Podemos tem um registro que soa bem em campanha, mas não soube adaptar seu estilo à política de todos os dias.

É o que Víctor Lapuente, doutor em Ciências Políticas pela Universidade de Oxford, chama de “retórica do xamã”:

— Se baseia na indignação, em sonhar com o impossível, em colocar a realidade contra a utopia — explica Lapuente. Líderes antissistema em situação complicada na Europa

E isso gera expectativas tão grandes que acabam por esmagar quem as expressa. Poucos casos são mais simbólicos que o Ukip. Seu líder, Nigel Farage, se converteu no promotor mais visceral do Brexit. Quando o referendo de junho deixou o Reino Unido na porta de saída da UE, teve seu momento de glória. E, no entanto, dois dias depois renunciou ao cargo.

Aflorou, então, uma luta de poder brutal que a euforia eleitoral tinha mantido escondida. O principal rival de Farage e favorito para suceder-lhe, Steve Woolfe, foi eliminado das primárias por apresentar os documentos de candidatura 17 minutos após o prazo. Douglas Carswell, o único deputado do Ukip, se cansou e se retirou da disputa.

— Isto parece a Síria. É uma guerra com milhares de facções, todos contra todos.

Na semana passada, o Ukip elegeu uma nova líder, a ex-empresária Diane James. Farage lhe estendeu a mão, mas anunciou que continuará no Parlamento Europeu, como uma espécie de “embaixador do Brexit”. Abriu-se já a próxima disputa pelo protagonismo numa legenda que luta para não cair na irrelevância, uma vez cumprida sua missão fundacional.

Falta de experiência e frustração

Outra vitória amarga é do M5E. Quando, em junho, Virginia Raggi conseguiu a prefeitura de Roma, o movimento do comediante Beppe Grillo se colocava como uma séria ameaça ao primeiro-ministro Matteo Renzi. Na Europa, os alarmes se acenderam por causa do referendo constitucional em que Renzi coloca em jogo boa parte de seu destino. O M5E se opõe a essas mudanças e promove uma consulta para tirar a Itália da zona do euro. Mas Raggi afunda. No começo do mês, perdeu num só dia cinco membros-chave de seu governo, por escândalos de corrupção e malversação. O partido expôs todas suas divisões, e Grillo teve que intervir para frear um desastre.

— Ficou em evidência a falta de experiência somada a uma frustração em relação aos princípios que defendiam desde a oposição — opina o cientista político Gianfranco Pasquino, da Universidade de Bolonha.

Ele sustenta que o personalismo extremo destas legendas a tornam potencialmente efêmeras. Mas não tem por que ser assim.

— A Frente Nacional leva 40 anos na França e está consolidada.

E também, continua, teve sua guerra pela liderança, quando Marine Le Pen desbancou nada menos que seu pai, Jean-Marie.

oglobo.globo.com | 24-09-2016

SÃO PAULO - Os países da América Latina têm uma tradição de serem pouco críticos uns com os outros. Esta é a conclusão de Christian Leffler, secretário-geral adjunto para assuntos econômicos e globais. Especialistas de várias partes do mundo se reuniram nesta quarta-feira no seminário “Democracias turbulentas e o sistema internacional: perspectivas da Europa, América Latina e Estados Unidos”, promovido pela Fundação Fernando Henrique Cardoso e pelo The German Marshall Fund of the United States (GMF).

— Há uma falta de expressão clara, de críticas. Se você comparar com a experiência europeia eles são muito mais críticos uns com os outros e interferem se julgarem necessário — lembrou Leffler.

Os especialistas falaram especificamente sobre a questão da Venezuela, que com a mudança de governo no Brasil, tem enfrentado resistência e foi suspensa no Mercosul.

— A suspensão da Venezuela vai levar o Mercosul a fazer uma nova avaliação, o que vai ser muito positivo, porque agora temos Brasil e Argentina pensando da mesma maneira. Acho que podemos começar a rever essa relação e modernizar o bloco — disse José Botafogo, que foi embaixador do Brasil na Argentina.

No painel sobre América Latina, Botafogo falou ainda sobre a situação do Brasil com o impeachment da presidente Dilma Rousseff e a Operação Lava-Jato, e citou uma mudança de comportamento dos brasileiros.

— A corrupção e a irresponsabilidade fiscal sempre existiram e sempre foram praticadas. A diferença é que, de uns anos para cá, a corrupção foi um instrumento usado pelo governo para se manter no poder. Depois do Mensalão e da Lava-Jato será difícil imaginar que daqui em diante continuarão a fazer isso, porque a sociedade não aceitará mais. A irresponsabilidade fiscal também é um fenômeno antigo, mas a diferença é a intensidade com que se fez isso.

Christian Leffler também lembrou que os países latino-americanos, especialmente o Brasil, são democracias jovens, mas participativas, o que, para ele, é um sinal de saúde da sociedade.

ESTADOS UNIDOS

Quando o assunto são as eleições americanas em outubro, os especialistas não conseguem chegar a um consenso sobre quem deve ganhar: Hillary Clinton ou Donald Trump.

— O resultado é imprevisível. Pensamos nos Estados Unidos como um país rico, mas 50% da população é de classe média, com um nível de educação não tão alto. Não sabemos como essa massa vai para as urnas, ainda mais depois dessa falta de transparência — ressaltou o embaixador Rubens Barbosa, referindo-se ao mistério envolvendo o estado de saúde da candidata democrata.

Eles concordaram, no entanto, que, independentemente de quem vença, as relações do país com a América Latina não devem sofrer mudanças significativas. E destacaram a imigração como o maior problema a ser enfrentado pelo novo presidente dos Estados Unidos.

— Há claras visões diferentes sobre imigração. Donald Trump pode deportar as pessoas que estão ilegais nos Estados Unidos. Já a Hillary Clinton tem uma visão bastante diferente sobre o tema. Mas a América Latina continuará sendo um assunto de menor importância na pauta de Washington —destacou Barbosa.

Para Kori Schake, pesquisadora do Instituto Hoover, as eleições em novembro também põe em jogo o futuro do partido Republicano e uma possível ascensão de um terceiro partido.

— O futuro do partido Republicano pode ser menos claro e menos positivo se Trump vencer a eleição. Ele devastaria o partido e, com isso, acredito na ascensão de uma terceira legenda. Mesmo se ele perder por uma diferença pequena, vai validar essas políticas que ele reproduz na campanha e que nem vale a pena repetir, e isso pode ser um desafio para os conservadores.

EUROPA

Christian Leffler destacou a má distribuição dos benefícios conquistados na União Europeia, assim como os problemas dos choques externos como a anexação da Crimeia pela Rússia e a imigração.

— Pessoalmente acho que a grande história do ano passado não foi a caótica imigração irregular na Europa, mas como ela foi gerenciada — explicou ele, dizendo que os imigrantes não se dispersaram por todo o continente.

Jorge Castañeda, ex-chanceler mexicano, destacou que a Europa errou ao não criar mecanismos melhores para proteger as pessoas desempregadas.

— Talvez você não veria o Brexit acontecendo. A maioria dos governos acreditava no estado de bem estar social e não construiu esses mecanismos, deixaram que cada indivíduo o fizesse.

Michael Leigh, conselheiro da GMF, destacou, no entanto, que não acredita na possibilidade da União Europeia desintegrar e desaparecer e na saída de mais países do bloco.

— Não acho que isso vai acontecer, mas acho que o bloco vai sobreviver de uma forma diferente. Vamos ver a continuação mas vai se tornar mais intra-governamental. Acho que os argumentos da União Europeia que os benefícios de permanecer são tão fortes que outros países não vão sair.

oglobo.globo.com | 14-09-2016

BERLIM— Ghaith, de 10 anos, despertou sem que o irmão precisasse chamá-lo, no apartamento onde moram em uma pequena cidade da antiga Alemanha Oriental. A mochila estava pronta desde a noite anterior — lápis de cor, canetinhas, um caderno em branco, onde começará a escrever a história da nova vida no refúgio. É o primeiro dia na escola, em dois anos, desde que a guerra mudou o curso de sua infância. Era setembro de 2014, o primeiro dia de aula em Zabadani, no Sudoeste da Síria, quando uma bomba atingiu o carro em que viajavam seu pai e o irmão do meio, Kinan, de 17 anos. Ghaith deveria estar com eles, mas, como os tios pediram carona, não havia lugar, e o irmão mais velho, Salah, levou-o para a escola de ônibus. Todos os que estavam no carro morreram.

Aos 22 anos, Salah Salem se tornou tudo para Ghaith: pai, protetor, melhor amigo. Os dois vivem sozinhos na Alemanha, onde se refugiaram. O país recebeu mais da metade dos dois milhões de pedidos de asilo à União Europeia, Noruega e Suíça (que não fazem parte do bloco) desde janeiro de 2015. Ao menos 30% são crianças e adolescentes de até 16 anos. Neste outono europeu, início do ano letivo, eles vão para a escola pela primeira vez. Segundo o Ministério de Educação da Alemanha, 325 mil crianças refugiadas estão matriculadas, 2% do total de alunos.

O sorriso de Ghaith não dava espaço à ansiedade, comum no primeiro dia de aula, especialmente quando tudo é novidade: escola, língua, cultura, amigos.

— Ele sempre gostou de estudar — diz Salah, orgulhoso, antes de engasgar e quase não terminar a frase: — Em Zabadani, nosso pai havia comprado o seu uniforme na noite anterior....

— Ele me trazia um sorvete bem grande todos os dias na volta do trabalho — Ghaith completa, enquanto enxuga as lágrimas do irmão e, pouco depois, volta a sorrir.

A Nordpark-Schule fica a três paradas, em um metrô de superfície. No portão, Ghaith larga a mão do irmão e entra sem olhar para trás. As lágrimas são agora de alegria.

— Eu acho que ele está feliz.

QUASE DOIS ANOS SEM VER A MÃE

Quando Salah já ia embora, porém, uma funcionária o chamou. A administração não localizou a matrícula de Ghaith. Salah tem dificuldade em entender o que ela diz, porque ainda não fala alemão. As escolas não têm tradutores. O irmão é retirado da sala de aula. Eles voltam para casa em silêncio, frustrados e confusos. A integração tem sido um desafio na Alemanha. Os refugiados são obrigados a aprender o idioma por seis meses, em escolas pagas pelo governo. Mas só é possível matricular-se depois de ter o pedido de asilo aceito, o que pode levar até um ano.

Salah começou as aulas há um mês, mas já acumula faltas, pois não tem com quem deixar Ghaith. Se continuar assim, corre o risco de perder o visto. Sem o certificado de proficiência, não tem permissão para trabalhar. Na Síria, cursava o terceiro ano de Direito, não reconhecido na Alemanha. Se quiser voltar à universidade, terá de começar os estudos do zero e, para isso, precisa de nota alta no teste de alemão.

— O problema na Alemanha é a burocracia. Cada serviço público depende de uma série de inscrições, verificações e autorizações por diferentes órgãos e secretarias — diz Ringo Köppe, voluntário do governo recrutado para auxiliar refugiados com a adaptação. — Para nós, alemães, lidar com isso já é muito difícil. Para os refugiados é impossível. Impossível.

Se têm o pedido de asilo aceito, os refugiados recebem o visto de residência por três anos e passam a ter o mesmo status de alemães no sistema de previdência social, com direito a benefícios como € 400 por mês aos chefes de família desempregados, entre € 40 e € 70 para material escolar dos filhos e moradia popular.

Salah e Ghaith vivem num apartamento de dois quartos simples, mas confortável em um conjunto habitacional. Ele arruma a casa, faz faxina, lava, passa roupa, cozinha. O pequeno quer ajudá-lo, mas o irmão não deixa, embora os dois façam tudo juntos. Vivem grudados, frequentemente abraçados. Um cuida do outro. Mas sentem falta da mãe e da irmã, de 15 anos, que continuam na Síria. Eles não se veem há quase dois anos.

A comunicação é cada vez mais difícil, porque Zabadani já não tem energia elétrica. Antes uma estação turística na fronteira com o Líbano, a cidade está sob o cerco das forças do presidente Bashar al-Assad. Salah mostra fotos do pai e do irmão, com ele e Ghaith, fazendo bonecos de neve, posando no terraço da casa de três andares com vista para as montanhas. “Assad”, ele aponta. É dali que o regime lança bombas contra a cidade.

Salah vive dividido entre a preocupação com os que ficaram e a responsabilidade de criar o caçula. Ringo, o voluntário, tenta agora ajudá-lo a trazer a mãe e a irmã para a Alemanha. Com as famílias separadas pela guerra, os que conseguiram chegar à Europa começam a juntar os cacos para refazer a vida e seguir em frente. A reunificação é prevista na Alemanha para crianças refugiadas. Mas o processo é lento e burocrático; e o resultado, incerto.

DIFICULDADE DE INTEGRAÇÃO COM ALUNOS

Ahlan Darwish fugiu da Síria para estar com os filhos. Na Alemanha desde outubro, ainda luta por isso. Abdu, de 20 anos, foi o primeiro a tentar o refúgio na Europa, para escapar da convocação pelo regime de Assad para o serviço militar. Quando ele telefonou já da Alemanha, Eyhab, de 17 anos, decidiu também partir.

Antes da guerra, Ahlan dava aulas de inglês e vivia com os três filhos em um apartamento confortável em Aleppo. A maior cidade da Síria se tornou o principal campo de batalha entre as forças leais a Assad e opositores. Com a cidade sob cerco e diante da possibilidade de não ver mais os filhos, ela arriscou-se na fuga com a mãe, que tem dificuldades para andar, e a caçula, Ritaj, de 7 anos. Protegendo-a junto ao corpo, cruzou a linha de combate. Ela viu quando uma mulher foi atingida com seu bebê no colo e caiu.

— Os tiros vinham de todos os lados.

O caminho à Europa envolveu a travessia por mar, de Bodrum — praia turca onde o corpo do menino Aylan Kurdi foi encontrado — a Kos, na Grécia. Na rota dos Bálcãs, tiveram ajuda de voluntários.

— Eu olhava para ela, mas não havia como voltar — diz a mãe.

Quando chegam à Alemanha, os refugiados são registrados e distribuídos aos estados, de acordo com as vagas. Isso criou uma situação em que integrantes da mesma família que vieram em momentos diferentes não podem viver no mesmo lugar. Ahlan, mãe e a filha foram para Saxônia-Anhalt; os filhos, para Sarre.

— Como Abdu tem mais de 18 anos, eles acham que ele não precisa mais de mim, que pode viver sozinho. É esse o pensamento europeu — diz, chorando.

Todos os dias, ela procura o escritório de imigração, mas deixa o local com mais um pedido por documentos que não tem ou uma explicação que não entende. Moram em um abrigo improvisado em contêineres. Mais de um milhão ainda vivem nestas construções temporárias; outros esperam a decisão sobre o pedido de asilo em centros de emergência — tendas ou nos hangares do Aeroporto de Tempelhof.

Ahlan estava feliz ao levar a filha para o primeiro dia de aula. Na saída, descobriu outro problema com o qual terá de lidar.

— As crianças não querem brincar comigo, porque dizem que sou síria e me chamam de “refugiada” — contou à mãe, num tom quase inaudível.

Dias após a entrevista, Ritaj estava na saída da escola, animada com os novos amigos. Um dos irmãos a esperava no abrigo — o outro não tinha permissão para viajar. Ghaith finalmente estava matriculado.

— Eu acho que estão felizes agora— diz Ahlan. —A situação na Alemanha é melhor que a Síria, é claro, e somos muito gratos pela ajuda. Mas, se a guerra acabar, voltaremos para casa.

oglobo.globo.com | 11-09-2016

ATENAS — A União Europeia (UE) anunciou que duplicará a ajuda de emergência para os refugiados na Grécia. O objetivo é melhorar as condições de vida das pessoas que estão paradas no país há meses enquanto tentam chegar aos países mais ricos da Europa, na fuga dos conflitos e da pobreza em seus países de origem. Cerca de 115 milhões de euros em ajuda de emergência estão sendo enviados pelo bloco, além dos 83 milhões de euros do início deste ano, disse a Comissão Europeia. refugiados

O dinheiro será canalizado através de organizações humanitárias para melhorar os abrigos de moradia e o acesso das crianças refugiadas à educação. Uma parte dos recursos seria oferecida em dinheiro ou esquemas de vouchers, segundo a UE.

— O novo financiamento tem o objetivo fundamental de melhorar as condições para os refugiados na Grécia e fazer a diferença antes do próximo inverno — disse o Comissário de Ajuda Humanitária, Christos Stylianides.

Pouco menos de 60 mil refugiados e migrantes estão parados na Grécia após suas tentativas de avançar pela Europa serem impedidas por uma onda de fechamento de fronteiras nos Balcãs no início do ano. Muitos estão alojados em quartéis abandonados ou fábricas, enquanto vivem verdadeiros dramas humanitários.

Na quarta-feira, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) alertou que, no mundo, há cerca de 50 milhões de crianças fora dos seus lares — um número elevado, sobretudo, pelos conflitos no Oriente Médio, que forçam milhões de famílias a deixarem seus países em busca de países mais seguros. Muitas delas vivem em centros de abrigo, sem as condições apropriadas para o seu desenvolvimento.

oglobo.globo.com | 10-09-2016

RIO - O Rio pode ser a Cidade Maravilhosa, mas o carioca não tem essa percepção do lugar onde vive. Uma pesquisa piloto, desenvolvida pela primeira vez no Brasil pela Fundação Getúlio Vargas — Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre), revelou que quem mora na cidade considera abaixo da média os serviços de saúde pública, segurança, transportes e os oferecidos por universidades, escolas e creches do poder público. Avaliados numa escala de 0 a 10, todos ficaram com notas inferiores a 5.

Em comparação a São Paulo, onde a mesma pesquisa foi feita, o Rio também não se saiu bem. De 15 itens avaliados, só em três os cariocas deram notas mais altas que os paulistanos: qualidade do ar, trânsito e infraestrutura para a prática de esportes. Os moradores do Rio também estão menos satisfeitos, por exemplo, com a limpeza urbana e o nível de barulho.

A pesquisa toma como base estudos semelhantes realizados na Europa, que são usados para orientar políticas públicas naquele continente. O trabalho da FGV avaliou a percepção de paulistanos e cariocas. Os participantes tinham que atribuir notas aos itens analisados, ao responder a uma pergunta sobre o grau de satisfação que tinham. Em ambas as cidades, as piores médias foram concedidas aos itens saúde pública (2,18 no Rio e 2,96 em São Paulo) e segurança pública (2,45 e 3,38, respectivamente). Nas duas, apenas cinco itens tiveram nota média acima de 5: qualidade da água potável, limpeza das ruas/coleta de lixo, urbanização, barulho e qualidade do ar. Nesses quesitos específicos, a percepção dos cariocas só é melhor que a dos paulistanos em relação à poluição do ar.

— A proposta do estudo é avaliar a percepção da população dessas duas cidades sobre a qualidade de seus serviços, sem entrar no mérito de eles serem prestados pelo governo federal, pelos estados ou pelas prefeituras. Mas os indicadores serão importantes para que as autoridades avaliem se estão investindo como deveriam em áreas consideradas relevantes para a população. Se acreditam que investiram para melhorar a qualidade do serviço, os gestores também têm que tentar entender por que a população tem determinada percepção — explicou a economista Viviane Seda Bittencourt, coordenadora da pesquisa.

NOTAS PIORES QUE EM PAÍSES EUROPES

Em comparação a pesquisas feitas na Europa em 2013 com indicadores semelhantes, moradores do Rio e de São Paulo atribuíram notas piores aos seus serviços públicos inclusive do que cidadãos de países com dificuldades econômicas. Na Grécia, por exemplo, no último estudo, a população atribuiu média de 4,80 à saúde, 4,63 à educação e 3,95 aos transportes. Na média, os moradores de Rio e São Paulo atribuíram aos mesmos itens, respectivamente, notas 2,54, 4,13 e 5,62.

O que a pesquisa da FGV constatou em relação ao Rio resume um pouco do que pensa, por exemplo, a consultora de marketing Luna Paladino, de 30 anos, moradora de Botafogo desde seu nascimento. Ela disse que se sente bem no bairro, mas reclama da qualidade dos serviços públicos que acabam interferindo na sensação de bem-estar dela e dos vizinhos. Segundo Luana, os principais problemas de Botafogo são a segurança pública, o trânsito, o barulho e qualidade do ar em alguns pontos.

— O trânsito é insuportável nas ruas São Clemente e Voluntários da Pátria, gerando reflexos nas vias internas. Na hora do rush, por exemplo, demoro 40 minutos para ir da casa da minha mãe, na Barão de Lucena, para a minha, na Eduardo Guinle. Este é um bairro de passagem e com muitos colégios, deixando-o propício a mais movimentação. E acho que o trânsito piorou com a colocação do BRS. Trabalho no Centro e vou e volto de metrô, que na minha opinião é a salvação dos moradores para fugir do trânsito — disse.

Luna costuma correr no Aterro do Flamengo. Segundo ela, a infraestrutura na região para a prática de esportes é boa. Mas a consultora reclama da falta de segurança: bandidos já roubaram sua bicicleta três vezes. Por isso, ela desistiu de pedalar no Aterro.

Os dados subdivididos por regiões das cidades do Rio e de São Paulo ainda estão sob análise dos pesquisadores. Mas indicadores preliminares mostram algumas curiosidades, como a avaliação do trânsito. A média entre os cariocas (4,58) ficou ligeiramente acima da dos paulistanos (4,50). No caso dos moradores do Rio, a pior avaliação veio dos que vivem na região de Barra, Recreio e Jacarepaguá, onde a nota média para o quesito (3,64) ficou abaixo da pior dada por nossos vizinhos (3,9). Esta foi atribuída pelos que moram na Zona Sul de São Paulo, cujos principais acessos são as marginais, onde o tráfego costumar ser intenso.

Com o estudo piloto, a FGV Ibre também pretende avaliar se a realização da Olimpíada no Rio terá alguma influência na percepção da qualidade dos serviços públicos na cidade. A pesquisa foi realizada antes do evento — entre os dias 1º de junho e 4 de agosto. Um novo questionário será aplicado este mês e em outubro, para comparação dos indicadores de percepção. A expectativa é que os relatórios completos — inclusive com resultados de cada região da cidade — sejam divulgados no fim do ano.

— O Rio recebeu investimentos importantes em infraestrutura para a Olimpíada. Muitas obras só ficaram prontas perto do evento. A gente quer avaliar que impacto a realização dos Jogos terá na percepção da população. A repetição do estudo em São Paulo é para efeito de controle dos resultados da pesquisa no Rio, pois permite comparar indicadores — disse Viviane.

Ao todo, os questionários foram respondidos por 1.500 pessoas (700 no Rio de Janeiro e 800 em São Paulo). Para fazer uma distribuição proporcional às características socioeconômicas e à quantidade de moradores das diversas regiões das duas cidades, os pesquisadores recorreram a informações coletadas no último censo do IBGE (2010). No Rio, a distribuição seguiu o critério de divisão pelas chamadas Áreas Programáticas: AP 1 (Centro), AP 2 (Zona Sul), AP 3 (Zona Norte), AP 4 (Barra, Recreio e Jacarepaguá) e AP 5 (Zona Oeste). Em São Paulo, a cidade foi dividida em seis áreas, conhecidas como Coordenadorias Regionais de Saúde.

PLANO É ESTENDER ESTUDO A OUTRAS CAPITAIS

A versão europeia da pesquisa é desenvolvida pela European Foundation for the Improvement of Living and Working Conditions (Eurofund), fundada em 1975. Com sede na Irlanda, a Eurofound é uma entidade vinculada à União Europeia, que desenvolve vários estudos em relação à percepção da qualidade de vida no continente. Também analisa outros indicadores sociais e econômicos, para orientar políticas públicas nesses países. Atualmente, os pesquisadores atuam em 33 países: 28 da União Europeia (incluindo Grã-Bretanha, que ainda não concluiu sua saída do bloco), além de Albânia, Macedônia, Montenegro, Sérvia e Turquia (candidatos a se associarem).

A intenção da FGV Ibre é que a pesquisa se torne mais uma das desenvolvidas permanentemente pela entidade, podendo se expandir para outras capitais brasileiras. No entanto, a FGV ainda não decidiu que outras cidades seriam estudadas, nem a fonte de financiamento. O trabalho atual, cujo valor não foi divulgado, foi feito com recursos da própria entidade.

— A prioridade neste momento é concluir a pesquisa piloto — disse Viviane.

oglobo.globo.com | 10-09-2016

RIO - Evitando falar abertamente sobre o clima político brasileiro, o embaixador da Grã-Bretanha, Alexander Ellis, disse que até agora o governo britânico não sinalizou nenhuma restrição ao governo de Michel Temer. Apesar das duras críticas que a impressa britânica fez ao processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, referindo-se ao processo como golpe, o embaixador disse que seu país acredita na soberania do Brasil e afirmou que orientação é continuar investindo na relação entre os países, principalmente nas áreas de saúde, educação e energia. Para fugir da saia justa, Alexander brincou que espera não ter que ir embora do país. No Rio para recepcionar a delegação paralímpica da Grã-Bretanha, Alexander Ellis conversou com O GLOBO.

Como a Grã-Bretanha recebeu a notícia da troca de governo?

Não vamos nos meter. Respeitamos a soberania do Brasil sobre o seu processo político. Vamos continuar trabalhando em conjunto com o Brasil. Nos últimos 10 anos o país cresceu muito em força e economia. Temos interesses em comum.

Como vocês acompanharam esse processo? A imprensa britânica falou em golpe...

Toda movimentação politica em países com os quais a Grã-Bretanha tem relação são acompanhadas. Assim como o mundo acompanhou a nossa saída da União Europeia. Estamos em um momento politico delicado. A saída da União Europeia mexe com o bloco britânico. Então, as relações estão sempre mudando entre os países como os países estão mudando.

Como essa mudança pode influenciar a relação da Grã-Bretanha com o Brasil?

Não acredito que vá mudar a relação Brasil e Grã-Bretanha. Não existe nenhuma orientação para isso. É uma mudança grande, mas, como o Brasil, a Grã-Bretanha também cresceu. De maneiras diferentes. Temos uma baixa taxa de desemprego e uma inflação bem controlada. A saída do bloco é complexa, mas podemos fazer isso. E não acho que nada disso mude a relação entre os países.

A Venezuela chamou de volta o seu embaixador. Alguns países se posicionaram contra ao governo Temer. Existe algum receio de que isso aconteça?

Espero muito que não. Não quero ir embora! (risos). Não acredito nisso. De novo, respeitamos a soberania do Brasil, e por enquanto, não há nenhum temor quanto a algo mais grave. Vamos continuar aqui trabalhando.

O senhor falou muitas vezes que as orientações não mudaram. Qual é a orientação?

É investir e fazer parcerias nos campos de saúde, educação e energia, principalmente. Que são assuntos que temos em comum. Já temos essa parceria.

A crise financeira preocupa?

Preocupou quando a gente falou de Olimpíada. Mas sabíamos que Brasil era capaz. Toda crise tem que ser acompanhada, mas o Brasil é um país grande e que cresceu muito para o mercado internacional.

E como foram os Jogos do Rio?

Foram ótimos. Um sucesso. Tiveram problemas pontuais, como os nossos tiveram. Mas foi uma ótima organização. Tenho certeza que o Brasil saberá aproveitar esse bom momento de visibilidade internacional pós-olímpico. Tenho certeza que as paralímpiadas serão um sucesso também.

oglobo.globo.com | 05-09-2016

Bancos ingleses e suíços cheios de ativos de baixa liquidez. Bancos italianos e portugueses precisando de capital. Grandes bancos alemães com balanços problemáticos. As instituições financeiras na Europa estão sob pressão e apresentam risco crescente para a estabilidade do sistema financeiro internacional, incluindo o brasileiro. O alerta tem sido dado nas últimas semanas por economistas, como o ex-secretário do Tesouro dos Estados Unidos Lawrence Summers, agências de rating e organismos multilaterais, incluindo o Fundo Monetário Internacional (FMI).

O gigante alemão Deutsche Bank foi classificado recentemente pelo FMI como o banco de maior risco para a estabilidade do sistema financeiro internacional, por conta de suas fortes conexões com outras instituições financeiras ao redor do mundo. No segundo lugar da lista aparece o HSBC, banco com atuação forte no Reino Unido. Em terceiro lugar, outro europeu, o Credit Suisse.

O FMI cobrou em seu último "Relatório de Estabilidade Financeira Global" atenção "urgente" dos dirigentes europeus para o setor financeiro da região, que enfrenta "desafios significativos" e a solução dos problemas do segmento "não pode mais ser adiada". Outro organismo, o Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês) também alertou que as instituições financeiras da região estavam distribuindo dividendos e enfraquecendo a base de capital, enquanto deveriam reter os ganhos e emprestar mais.

No último teste de estresse conduzido pelo Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) com 33 bancos que operam nos Estados Unidos, as subsidiárias de dois europeus, o Deutsche Bank e o Santander, foram as únicas reprovadas. Este teste mede como ficaria a situação de grandes bancos no caso de uma crise financeira.

Juro negativo

Os problemas dos bancos europeus começaram a se acumular após a crise financeira mundial de 2008. Anos de baixo crescimento da zona do euro e aumento do desemprego levaram os empréstimos inadimplentes a bater em quase 1 trilhão de euros na região este ano. A situação vem sendo agravada recentemente pela adoção de juros negativos pelo Banco Central Europeu (BCE), que reduz a rentabilidade do setor, e também pelas incertezas geradas pela saída do Reino Unido da União Europeia, o Brexit.

A situação dos bancos apresenta algumas diferenças entre países. No Reino Unido, Alemanha e Suíça grandes bancos possuem uma enorme quantidade de ativos imobiliário em suas carteiras, que são papéis de baixa liquidez e, portanto, difíceis de vender caso o setor precise de capital rapidamente. Na Itália, a inadimplência disparou e na Alemanha, o Deutsche tem 42 bilhões de euros expostos a derivativos, um dos maiores montantes do mundo, e ainda enfrenta uma série de litígios que podem lhe custar bilhões de euros.

Com o setor sob pressão, as ações dos bancos europeus acumulam fortes quedas este ano, sempre acima de dois dígitos. Entre os piores desempenhos, o Deutsche Bank tinha perda de 41% de janeiro até o pregão de ontem, mesmo montante do Credit Suisse. Já o italiano UniCredit recuava 55%.

"A situação dos bancos europeus deveria e vai receber extensa atenção dos governos", afirmou o ex-secretário do Tesouro dos EUA em um artigo, afirmando que os múltiplos que as grandes instituições financeiras da região estão sendo negociadas nas bolsas mostram que os investidores estão com expectativas desoladoras para o setor. Summers acredita que o Brexit pode piorar a situação do setor por conta das incertezas associadas ao movimento e da necessidade de realocar operações de alguns bancos.

Outro importante economista que chegou a alertar nos últimos dias sobre os riscos dos bancos europeus foi o prêmio Nobel e professor da Universidade de Columbia, Joseph Stiglitz. Ele chamou atenção principalmente para os bancos italianos, que podem ser o novo teste para o futuro da União Europeia. Com uma das taxas de inadimplência mais altas do mundo, beirando os 20%, os calotes aumentaram 85% em cinco anos e metade desta dívida é das famílias. O governo tem um plano de injetar 40 bilhões de euros nas instituições do país, mas as regras da UE não permitem pacotes de socorro financeiro com dinheiro público nos moldes do que aconteceu nos EUA na crise de 2008.

Ratings

Como consequência dos problemas, as notas de crédito dos bancos europeus vêm sendo pioradas, o que contribui para aumentar os custos de captação. A agência de classificação de risco Standard & Poor's (S&P) rebaixou recentemente os ratings de várias instituições financeiras da região, algumas em dois níveis, incluindo os alemães Deutsche Bank e Commerzbank, o inglês Barclays e o italiano UniCredit. Logo após o Brexit, a Moody's alertou que o movimento pode levar a um menor crescimento econômico no Reino Unido, aumento da incerteza, queda da demanda por crédito, aumento da inadimplência e captação de recursos mais volátil por bancos da região.

HANGZHOU, China - A economia mundial está longe de voar em céu de brigadeiro, mas enquanto discutem o que fazer para dispersar o nevoeiro de incertezas que encobre as perspectivas de bonança para os próximos anos, os líderes das 20 nações mais ricas do mundo terão 48 horas de céu azul e ar puro. Centenas de fábricas num raio de 300 quilômetros da cidade de Hangzhou, a sede da XI Cúpula do G-20, foram desligadas para garantir dias bonitos — sem a névoa de poluição — aos milhares de participantes do encontro, entre chefes de Estado e de governo, ministros e assessores, além de jornalistas, que estarão na capital da Província de Zhejiang, a quarta mais populosa da China e um dos maiores polos tecnológicos do país.

Para os ministros de Finanças do G-20, ainda pairam dúvidas sobre o ambiente econômico mundial. A lista de desafios vai de oscilações cambiais e nos preços das commodities a deflação em muitos países e volatilidade nos mercados financeiros. Há ainda uma onda protecionista, além de conflitos, crise de refugiados e terrorismo. As implicações da saída do Reino Unido da União Europeia também estão no cardápio dos encontros de hoje e amanhã.

O ritmo de crescimento da China daqui para frente e a desvalorização do yuan são igualmente motivos de preocupação. Por mais que o país ainda cresça em níveis superiores ao resto do mundo (6,9% no ano passado), o anfitrião da reunião já avisou que o “novo normal” não são mais as taxas de dois dígitos que vinham puxando a expansão global. Diante das preocupações, antes da cúpula, em entrevista à televisão estatal, o vice-ministro de Finanças chinês, Zhu Guangyao, garantiu que “não há base para uma depreciação de longo prazo da moeda” e que “os fundamentos da economia do seu país são sólidos”.

O ar puro que será respirado em Hangzhou esta semana terá um custo alto para a China. O fechamento temporário, total ou parcial, de fábricas na sede do G-20 e vizinhança (Xangai inclusive) por até dez dias pode afetar fornecedores e clientes dentro e fora do país. Levantamento da agência Icis mostra que milhões de toneladas de poliéster, cimento, coque, metais não ferrosos, produtos químicos, entre outros, deixarão de ser produzidos.

‘FINANCIAMENTO VERDE’

Talvez o efeito contraditório da iniciativa seja um bom exemplo do paradoxo que vive a China moderna: como investir e promover a sustentabilidade sem afetar o crescimento. Esta pode ser uma das explicações para que o país, pela primeira vez, tenha trazido para o âmbito do G-20 o tema do “financiamento verde”. Em uma declaração separada, chineses e americanos devem ratificar o acordo do clima de Paris, e anunciar revisões periódicas dos subsídios que cada um concede a combustíveis fósseis.

A presidência chinesa introduziu uma agenda de médio prazo que faça do G-20 uma plataforma menos imediatista. O G-20 foi criado em 1999. Mas passou a reunir os líderes dos países somente após a crise financeira global para coordenar medidas macroeconômicas de curto prazo para combater as turbulências internacionais. Em Hangzhou, pretende-se confirmar a meta de crescimento para 2018 em dois pontos percentuais acima dos 3,8% previstos pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) em 2013.

A ampliação da atuação dos bancos multilaterais em projetos de infraestrutura, um tema que interessa bastante ao Brasil, é um dos itens da pauta. Os chineses querem que o foco do encontro esteja na inovação, na economia digital e nas reformas estruturais, prioridades já anunciadas de Pequim nos seus planos de desenvolvimento de longo prazo.

BRASIL DE NOVO NOS HOLOFOTES

As reformas devem ganhar força no documento final do G-20. Os países devem indicar seus planos de ação.

— A China vai tentar impor sua visão, mas não vejo muito espaço para que consiga obter ação coordenada ou até mesmo um acordo geral. A China quer, por exemplo, um câmbio mais fraco, mas precisa que o yuan se enfraqueça mais do que outras moedas. Precisa que os outros aceitem a sua enxurrada de importações e investimentos ainda que não vá fazer o mesmo. É uma posição difícil de se defender — disse o professor de economia da Escola de Negócios HSBC da Universidade de Pequim.

Este ano, o Brasil volta aos holofotes. Não mais como um dos casos de sucesso de recuperação após a crise financeira global de 2008, mas como um país que atravessa uma crise de credibilidade e cuja economia está debilitada. Caberá ao governo mostrar o que está sendo feito para que o país volte a crescer e contribuir para a expansão mundial. Essa é um das principais missões do presidente Michel Temer.

— É o início do processo de reconstrução da imagem do país no exterior para tentar retomar a confiança de forma mais vigorosa dos investidores. A presença do (ministro da Fazenda, Henrique) Meirelles, reconhecido internacionalmente, reforça essa tese — disse o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini.

oglobo.globo.com | 03-09-2016

Você quer que sua multinacional seja uma boa cidadã corporativa. Mas você tem para com os acionistas a obrigação de não pagar nem um centavo a mais de imposto do que o exigido. Então qual é a linha que separa uma administração fiscal responsável da má cidadania? No momento, seria algo entre esses dois pontos:

A Apple estabeleceu sua operação de vendas na União Europeia de tal forma que as pessoas compravam produtos da Apple Sales International na Irlanda, não das lojas físicas espalhadas pelo continente. Assim, a Apple registrava todas as vendas, e os respectivos ganhos, diretamente na Irlanda.

A maior parte dos lucros era transferida da Irlanda para uma “matriz” dentro da Apple Sales International. Essa “matriz” não estava baseada em qualquer país, nem tinha empregados ou sede física. Suas atividades se limitavam a reuniões de diretoria. Somente uma fração dos lucros da Apple Sales International era alocada à filial irlandesa e sujeita a impostos na Irlanda. O grosso dos lucros era alocado à “matriz”, onde ficava isento.

Estes são trechos do comunicado divulgado ontem pela Comissão Europeia, ao determinar que a Apple pague € 13 bilhões em impostos retroativos, mais juros.

A decisão ainda será alvo de uma disputa jurídica; representantes do governo americano já se queixam de que a União Europeia está, injustamente, mirando em empresas dos EUA em sua batalha fiscal. Mas parece bastante claro que os métodos usados pelas gigantes de tecnologia dos EUA para transferir seu lucro para locais onde os impostos não são baixos, e sim inexistentes, estão se mostrando fora dos limites.

A UE, com seus diferentes sistemas fiscais, já dava ampla oportunidade para que multinacionais pagassem menos impostos. A Apple já havia transferido seus ganhos em países como França (33,3% de imposto corporativo) e Alemanha (15% na taxa federal, com impostos locais levando o total a cerca de 30%) para a Irlanda (12,5%).

Mas isso não bastava para a Apple e outras múltis americanas. A Google usou estratégias para reduzir seu imposto da 2,4%. A Starbucks ficou anos sem pagar impostos no Reino Unido, ao pagar royalties a uma filial holandesa e comprar café na Suíça. Esse “lucro sem Estado”, argumentou em 2011 Edward D. Kleinbard, professor de Direito da Universidade Southern California, estava se tornando uma "presença difusa", que "muda tudo" na área de impostos corporativos.

Desde então, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) deu início a um projeto sobre "erosão da base fiscal e transferência de lucros" (Beps, pela sigla em inglês), com o objetivo de cercear tais práticas. E tanto a UE como alguns países europeus, em separado, têm recorrido a várias estratégias para tentar fazer com que as empresas paguem.

Uma das grandes dificuldades em se cobrar impostos retroativos é que esse movimento era, de maneira geral, permitido pela legislação de vários países da União Europeia. Por isso, a acusação da UE é que a Irlanda concedeu à Apple vantagens que não ofereceu a outras empresas. É uma suposta violação das regras de concorrência da UE, não um caso estritamente fiscal.

Mas há aqui uma lição para executivos tentando saber até onde levar a evasão fiscal. Quando a estrutura corporativa ultrapassa o limite da frugalidade e entra no terreno do absurdo — e uma “matriz” sem empregados ou sede física é bastante absurda —, você está buscando encrenca. Em outras palavras, quando o planejamento fiscal transforma sua empresa em um cidadão sem país, você não está sendo um bom cidadão corporativo.

oglobo.globo.com | 31-08-2016

AMATRICE, Itália - A busca por vítimas do terremoto da última quarta-feira na Itália chega quase ao fim neste domingo enquanto diminuem as esperanças de encontrar sobreviventes entre os escombros dos povoados do centro do país devastados pelo sismo que deixou ao menos 290 mortos. Quatro dias depois do terremoto, as autoridades tentam, agora, avaliar os danos e organizar a vida dos habitantes da região nos próximos meses. Ao menos 2.500 pessoas perderam suas casas no terremoto.

- Nos preparamos para o inverno. (...) Vamos passar o inverno aqui. A princípio em barracas de campanha e, depois, espero que em casas pré-fabricadas - disse à agência AFP Emidio Chiappini, sobrevivente abrigado em uma barraca da Defesa Civil.

Neste acampamento de tendas de campanha azuis, os rostos são sombrios, apesar dos esforços dos socorristas para fazer algo mais acolhedor no local, com brincadeiras para as crianças e vinho nas mesas. As autoridades italianas dedicaram 60 milhões de euros em fundos de urgência, aos quais se somam 10 milhões em doações. A Itália se dispõe também a apelar ao fundo de solidariedade da União Europeia, mas o tempo é curto: o frio vai chegar logo a estas regiões de montanha, e a falta de esperança é crescente.

- Não tenho nenhuma perspectiva - diz Massimo, outro sobrevivente. - Não fazemos nada durante o dia todo. Tinha o costume de trabalhar quase 18 horas diárias, e agora não temos nada para fazer.

O primeiro-ministro Matteo Renz, reiterou no sábado, durante os funerais de 35 vítimas, que o governo faria de tudo para ajudar os afetados. É o que espera Atemio Scienzo, um artesão:

- Após a urgência, vem a fase de reestruturação. Isso é o importante. Todos os fundos têm que chegar rápida e integralmente. Se a metade dos fundos se perder no caminho, como ocorre frequentemente, haverá um problema.

Segundo a imprensa italiana, o governo se dispõe a nomear nesta semana Vasco Errani, antigo presidente da região Emília-Romana - atingida por um terremoto em 2012 -, comissário para a reconstrução, com amplos poderes para tomar rapidamente as decisões operacionais. Ao mesmo tempo, iniciam-se as investigações para determinar a razão pela qual o terremoto causou tanta morte e destruição, quando as normas antissísmicas nesta região de claro risco estão em vigor há mais de 45 anos.

- Em um primeiro momento, os especialistas deverão nos dizer e nos explicar como os edifícios foram construídos e por que foram derrubados. Depois, buscaremos a responsabilidade por trás dos escombros - declarou o promotor de Rieti, Giuseppe Saieva, ao jornal “La Stampa”.

A investigação se inicia com os edifícios públicos destruídos e fortemente danificados em Amatrice: a escola (que foi reformada com grandes gastos em 2012), o hospital, o quartel, o teatro. As promotorias de Rieti - das encostas Leste e Oeste da montanha - abriram, cada uma, uma investigação por “desastres e homicídios culposos”, que podem gerar julgamentos a pessoas físicas e jurídicas.

Segundo a imprensa italiana, os proprietários que fizeram obras sem autorização em edifícios que caíram ou funcionários que entregaram certificados de conformidade poderão ser levados a julgamento.

- Se os primeiros a cair são os edifícios simbólicos do Estado, como a escola, o quartel, o hospital, isto quer dizer que somos um país generoso na solidariedade, mas incapaz de respeitar as normas - declarou o presidente do Senado, Piero Grasso.

Antes, é necessário esperar que a terra se acalme: desde quarta-feira, mais de 1.800 réplicas foram registradas, provocando novas rachaduras e desabamentos.

oglobo.globo.com | 28-08-2016

ALEPPO — Omran Daqneesh tem apenas 5 anos, o mesmo tempo que dura a guerra civil na Síria. Mas se transformou no novo rosto da tragédia depois que uma imagem sua sentado numa ambulância, após ser resgatado de escombros, ganhou repercussão mundial. Coberto de poeira e com a cabeça ensanguentada, Omran foi salvo com os três irmãos — com idades de 1, 6 e 11 anos — a mãe e o pai após seu prédio ser atingido por um bombardeio aéreo na cidade sitiada de Aleppo, na noite de quarta-feira. Ativistas culpam o regime sírio e a Rússia pelos ataques, que deixaram oito mortos, incluindo cinco crianças. Desde que a guerra começou, 4.500 crianças foram mortas na cidade no Norte do país, a principal de Síria.aleppo

A imagem — do fotógrafo Mahmoud Raslan — captura o momento em que Omran percebe que está sangrando. E foi compartilhada milhares de vezes nas redes sociais, incluindo por David Miliband, ex-secretário das Relações Exteriores do Reino Unido e hoje presidente do Comitê Internacional de Resgate. Socorristas passaram o menino de varanda em varanda, retirando a família momentos antes de o prédio inteiro desabar. Segundo a Syrian American Medical Society, ele foi hospitalizado, mas já teve alta. Outras 12 crianças foram encaminhadas para o mesmo hospital.

— Já tirei muitas fotos de crianças mortas ou feridas por bombardeios. Normalmente elas estão desmaiadas ou choram. Mas Omran estava lá sem voz, com o olhar perdido. É como se não compreendesse muito bem o que tinha acabado de acontecer.

Outro vídeo comovente de Omran, publicado pelo grupo ativista Aleppo Media Center, mostra um funcionário da defesa civil carregando o menino para uma ambulância. Já sentado, em segurança, ele levanta a mão esquerda até o olho e sente a área machucada na cabeça. Enxuga o rosto e percebe o sangue. Sem falar nada, limpa a mão no banco. Omran, que só conheceu a guerra, não chorou em nenhum momento do resgate.

— A verdade é que a imagem se repete todo dia em Aleppo — desabafou à CNN Mustafa al-Sarouq, que gravou o vídeo. — E o mundo está em silêncio. Há milhares de crianças sendo bombardeadas.

Na quarta-feira, mais três pessoas morreram e outras 12 ficaram feridas no bairro onde a família vive, controlado pelos rebeldes, de acordo com o Observatório Sírio para os Direitos Humanos. Acredita-se que um dos mortos seja parente de Omran.

AJUDA HUMANITÁRIA NÃO CHEGA

Ontem, John Kirby, porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, disse que Omran era o “verdadeiro rosto do que de fato acontece na Síria”

— Suponho que este menino jamais tenha passado um dia de sua vida longe da guerra, da morte, da destruição e da pobreza em seu país.

Após a comoção, os 28 países da União Europeia exigiram o “fim imediato” dos combates na cidade para garantir as operações humanitárias, segundo um comunicado da chefe da diplomacia do bloco, Federica Mogherini. A Rússia, por sua vez, anunciou estar disposta a instaurar, a partir da próxima semana, uma pausa semanal de 48 horas nos ataques.

Socorristas levaram quase uma hora para tirar Omran dos escombros, escavando o local sob a luz de uma lanterna. O médico que o tratou disse que sua lesão era leve em comparação a de outros feridos. O menino recebeu alta duas horas depois.

— Durante todo o tempo, ele estava sob o mesmo torpor e choque — disse Mohammedd, cirurgião de Aleppo que preferiu não dar seu sobrenome por razões de segurança.

Mas Omran teve a sorte de escapar. Segundo o Aleppo Media Center, 4.500 crianças foram mortas na cidade e cerca de cem mil permanecem lá. Na semana passada, a ONG Save the Children denunciou o aumento dos ataques a escolas na cidade, assim como em Idlib — mais de 6.500 delas foram destruídas até agora. Em apenas sete dias, seis escolas foram atacadas, matando alunos e professores.

— Os menores que vão ao colégio correm um grave perigo — disse Helle Thorning-Schmidt, diretora executiva da ONG: — Muitos estudam em porões para se proteger, e desviam dos tiros a caminho da escola para fazer as provas.

O caso também joga mais luz sobre a cidade, há meses sitiada. Crucial no conflito sírio, em que as forças do regime de Damasco e os rebeldes se enfrentam duramente, Aleppo vive hoje uma profunda crise humanitária, que inclui a falta de médicos, suprimentos hospitalares, alimentos, água e luz.

— Quando chegamos, o regime ataca novamente as equipes de resgate que tentam salvar civis — diz Sarouq. — As condições de vida são terríveis.

No último mês, nenhum comboio conseguiu entrar nas áreas sitiadas, segundo o enviado especial da ONU, Staffan de Mistura, que, irritado, cancelou a reunião semanal sobre o tema:

— Suspendi a reunião como sinal de nossa profunda insatisfação com o fato de a ajuda não estar chegando à Síria, devido à falta de uma trégua.

oglobo.globo.com | 19-08-2016

WASHINGTON — Autor de “Turquia, islamismo, nacionalismo e modernidade”, Carter Findley, professor emérito da Universidade Estadual de Ohio e especialista em cultura otomana, afirma que ninguém na democracia turca “abusou tanto do poder quanto o presidente Erdogan”, que, segundo ele, tem feito jogo duplo com os EUA. Findley explica ao GLOBO por que não vê a participação do clérigo Fethullah Gülen na tentativa de golpe.

A reação do presidente Erdogan à tentativa de golpe militar não é outro tipo de golpe?

Parece uma batalha de titãs. Erdogan acusa os seguidores de Gülen de conspirar para montar um golpe contra ele. Com o fracasso da rebelião, Erdogan começou um expurgo dos suspeitos de serem seguidores de Gülen, que dá a impressão de ser um homem verdadeiramente santo. O religioso leva uma vida de renúncia e de serviço aos outros, e tem muitos seguidores. O fato de ser o líder religioso mais influente da Turquia é suficiente para gerar hostilidade do governo, não importa o motivo. Gülen insiste que ele não sabia nada sobre um golpe de Estado. É crível que ele não soubesse. Por outro lado, tudo na Turquia é politizado, e muita gente não vai acreditar que ele era inocente, que não tinha envolvimento na tentativa.

Em certo sentido, o movimento de apoiadores de Gülen se parece com uma pirâmide de três níveis. O nível mais largo, mais baixo, inclui os muitos membros com motivação inteiramente religiosa. O nível médio inclui pessoas que misturam religião e negócios. No topo da pirâmide seriam pessoas religiosas com motivações políticas. Se houve uma conspiração de seguidores de Gülen contra Erdogan, teria vindo do topo. Outros membros do movimento (e não membros) poderiam ter sido levados a participarem de algo que não entendiam. No entanto, o apoio de Gülen não está formalmente organizado.

A democracia turca está em que grau de risco?

Se o Brasil é o país do futuro, a Turquia é a terra da democracia sob risco. A democracia está sempre em risco na Turquia. No mesmo período em que os positivistas foram imaginar a política na América Latina, os jovens turcos da geração de 1889 foram reimaginar a política da modernidade como o governo constitucional, parlamentar. Isso não resulta necessariamente em democracia. A República Turca (fundada em 1923) nunca teve mais de um partido político eficaz ao mesmo tempo. Seus líderes de governo têm sido pessoas cujos poderes não foram limitados pela Constituição. Sempre houve estruturas estatais profundas que exerceram poderes que vão além da Carta Magna. Durante muito tempo, as pessoas pensavam que os militares tinham esta liberdade. Quem tem o poder na Turquia sempre abusou dele.

Quais são as possíveis soluções para esta crise?

Isso está em aberto, é muito cedo para prevermos a solução. Erdogan pode estar cavando sua própria sepultura. Ele demitiu ou afastou cerca de 70 mil funcionários do governo e fechou mais de cem meios de comunicação. O que vai acontecer quando as escolas reabrirem? Erdogan tem sido o líder político de maior sucesso da Turquia desde Türgut Ozal, na década de 1980. No momento, seus seguidores ainda continuam a apoiá-lo. Mas nenhum líder abusou de seu poder tanto quanto Erdogan. Em algum momento, isso tem que parar, e então o futuro será incerto. Erdogan fez danos permanentes à cultura política da Turquia.

Como os países ocidentais devem agir neste caso?

Os países ocidentais costumam pensar no Oriente Médio como um lugar onde os seus interesses de segurança estão em perigo. Isso começou muito antes da era do petróleo, remonta, ao menos, à invasão do Egito por Napoleão em 1798. No curto prazo, os governos ocidentais terão de esperar e ver. Por causa dos perigos da situação na Síria, os países ocidentais também têm de tentar manter a cooperação com a Turquia. A União Europeia (UE), por exemplo, deve tentar gerenciar toda a sua influência a partir das esperanças históricas da Turquia de aderir ao bloco. Em vista da recente desestabilização no interior da UE, por um lado, e do crescente autoritarismo de Erdogan, por outro, os esforços do bloco não são suscetíveis em eficácia.

E como os EUA devem atuar?

Os EUA terão que enfrentar uma resposta difícil. O governo permite que Gülen viva nos EUA desde 1999 por causa de suas reivindicações, realmente críveis, de que ele pode ser perseguido na Turquia. Agora, muitos na Turquia acreditam que os EUA também estão por trás da tentativa de golpe. Erdogan faz jogo duplo, incentivando essa crença em seus discursos domésticos, apesar de seus militares terem tranquilizado os comandantes dos EUA, dizendo que acordos bilaterais de segurança não serão alterados.

oglobo.globo.com | 17-08-2016

BERLIM — Se até o início da crise de refugiados, a chanceler federal alemã, Angela Merkel - no poder há 11 anos e considerada pela revista "Forbes" a mulher mais poderosa do mundo - tinha aceitação recorde, uma recente queda de popularidade dramática, de 12 pontos percentuais em apenas quatro semanas, preocupa o governo. A sondagem mostra ainda que cerca de 76% desaprovam a política de Merkel e admitem que têm medo de novos atentados.

A queda fez com que seu partido, a União Social Cristã (CSU), começasse a debater a possibilidade de Horst Seehofer, governador da Baviera e presidente da sigla, se candidatar pela aliança conservadora com o CDU, no lugar de Merkel, nas eleições federais do próximo ano. Ele é, desde o ano passado, o maior crítico da política de refugiados adotada pelo governo, e a considera responsável pela maior onda de imigração para o país, no ano passado, desde o final da Segunda Guerra Mundial.

E depois dos ataques terroristas praticados por refugiados ligados ao grupo terrorista Estado Islâmico, Seehofer passou a ser visto pelos conservadores como a chance de solução na crise atual.

Enquanto a aprovação da chanceler caiu de 59%, no início de julho, para 47%, quatro semanas depois, Seehofer conquistou quase todos os pontos perdidos por Merkel, passando de 33% para 44%. Até agora ele não confirmou sua intenção em se candidatar, mas também não descartou essa possibilidade. Fundada em 1945, a CSU existe apenas na Baviera, onde detém o governo estadual ininterruptamente desde 1957. No plano federal, a legenda forma um bloco com a CDU, que por sua vez não existe na Baviera. Os dois juntos são chamados de CDU/CSU, ou simplesmente Union (União).

Segundo a pesquisa, divulgada na noite de quinta-feira, também em termos de simpatia pessoal Merkel está pagando um preço alto pela sua política de refugiados. Hoje ela ocupa apenas o sexto lugar, perdendo para políticos como o ministro das relações exteriores, Frank-Walter Steinmeier, do Partido Social Democrata (SPD), o ministro da fazenda, Wolfgang Schäuble, da CDU, ou o verde Wilfried Kretschmann, governador de Baden Württemberg.

Para o cientista político Heinrich Oberreuter, da Universidade de Passau, o acordo migratório com o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, irritou profundamente os alemães.

- Entregar a solução para o problema a Erdogan teve o efeito iniciar o processo de demolição carreira política de Merkel - disse.

No entender do jornalista Jörg Seisselberg, da Rádio do Norte da Alemanha (NDR), o acordo com Ancara causou impacto ainda mais negativo do que os últimos ataques dos jihadistas. Com a promessa de fim da exigência de visto para cidadãos turcos na União Europeia (UE), bem como de aceleração das negociações para o ingresso do país no bloco, Erdogan assumiu o compromisso de segurar os refugiados a caminho da Europa Ocidental.

- Merkel entregou a solução do problema à Turquia e é, desde então, constantemente confrontada com as provocações de Erdogan.

Em sua opinião, se o presidente turco liberar os fugitivos, a rota dos Bálcãs precisará ser de novo aberta e centenas de milhares de migrantes irão novamente se aglomerar na fronteira tentando chegar à Alemanha, país preferido por causa de seu sistema de amparo social, que é garantido pela Constituição.

E enquanto nas redes sociais o fórum anti-Merkel ganha dimensões absurdas, nos bastidores da CDU/CSU, o clima entrou em ebulição.

- As pessoas estão muito preocupadas sobre como vamos resolver a situação diante de um número cada vez maior de refugiados - disse Wolfgang Bosbach, deputado pela CDU.

Já Peter Ramsauer, ex-ministro de Merkel, acredita que o efeito de sua insistência em não mudar a política seria uma "provocação".

oglobo.globo.com | 06-08-2016

BERLIM — Depois dos últimos atentados praticados na Europa por extremistas islâmicos — ou de alguma forma ligados à religião — aumentaram em alguns países as manifestações públicas de aversão contra os muçulmanos. Na Alemanha, fiéis e mesquitas foram alvo de protestos, com pichações ou cartazes críticos ao Islã. Representantes de organizações muçulmanas denunciam a existência de um crescente clima de ódio. Na França, uma mesquita sofreu um incêndio aparentemente criminoso em Toulouse. Tudo isso num continente em que, segundo pesquisas, já vinha subindo o sentimento anti-islâmico desde o ano passado, com a crise dos refugiados — em sua maioria vindos do Oriente Médio, Norte da África, Paquistão e Afeganistão, onde o predomina o islamismo. europa

Boubekeur Bekri, do Conselho Regional do Culto Muçulmano da França, lembrou que os últimos ataques abalaram a sociedade francesa e contribuíram para aumentar o abismo entre os praticantes do islamismo e o resto da população.

— Há uma inquietação profunda entre os muçulmanos, que se sentem estigmatizados — disse.

Para Aiman Mazyek, presidente do Conselho Central dos Muçulmanos da Alemanha, em consequência dos atentados terroristas, toda uma religião vem sendo desacreditada. A famosa apresentadora Dunja Hayali, da TV alemã ZDF, muçulmana e filha de imigrantes iraquianos, revelou ter recebido ainda mais mensagens de ódio do que antes. Hayali apresentou no início da semana um programa que abordava, entre outros assuntos, a extrema-direita em ascensão como efeito colateral do jihadismo.

— Pela primeira vez desde a era nazista, temos partidos na Europa que crescem ao combater uma religião — confirma Mazyek.

QUANTO MAIS INCIDENTES, MAIS PRECONCEITO

Os incidentes têm se multiplicado. Em Zirndorf, Sul da Alemanha, uma bomba numa mala explodiu perto do abrigo de refugiados. Em algumas cidades alemãs, imigrantes muçulmanos foram alvo de ofensas e agressões. Mas não são só ataques terroristas que alimentam o sentimento anti-islâmico. Em Londres, cidade pela primeira vez governada por um muçulmano — Sadiq Khan, de 43 anos, filho de imigrantes do Paquistão — a discussão sobre o Brexit (a saída da União Europeia) terminou pondo a religião como alvo da nova onda de nacionalismo. Dados divulgados pela prefeitura revelam que ações de xenofobia, sobretudo contra muçulmanos, aumentaram em 42% em comparação com o ano passado.

Sedat Simsek, da organização muçulmana Ditib, disse que a islamofobia pode resultar na criação de um ciclo vicioso, uma espiral de ódio capaz de gerar ainda mais violência.

— O sentimento de ser discriminado é um dos motivos que tornam jovens vulneráveis à propaganda dos islamistas. Os terroristas oferecem a esses jovens vítimas da discriminação a aceitação e o reconhecimento dos quais têm sede — acredita.

Novos estudos divulgados recentemente revelam que cerca de 52% dos europeus veem os muçulmanos como “perigosos”. Na Hungria, onde praticamente não vivem muçulmanos, 62% veem a minoria com profunda desconfiança. Ayman Mayzek disse que um problema é a falta de objetividade na discussão atual.

— Cada novo debate negativo que associa os muçulmanos em geral a atentados praticados por terroristas aumenta a aversão da população para com os muçulmanos. As pessoas ignoram que os muçulmanos criticam os atentados de forma tão rigorosa quanto o restante da população.

Lamya Kaddor, alemã filha de sírios que preside a Liga do Islã Liberal, afirma que a associação “difusa” do islã ao terrorismo começou após o 11 de Setembro e sempre volta a cada atentado.

— Todo o preconceito contra minorias foi canalizado em direção aos muçulmanos. O debate já beira a histeria — criticou.

Num estudo da Universidade de Leipzig com as fundações Heinrich Böll e Rosa Luxemburgo, cerca de 50% dos alemães afirmam que deixaram de se sentir em casa diante do que consideram o excesso de muçulmanos no país — onde são 5,8% da população — enquanto 41% manifestaram-se favoráveis à proibição da imigração das pessoas dessa religião. Na Universidade de Bielefeld, a equipe do professor Andreas Zick investiga desde 2011 a relação entre terrorismo islâmico e islamofobia. A cada novo atentado, piora a situação.

— As manifestações de ódio não vêm mais apenas da extrema-direita. Elas partem de pessoas normais que não se consideram racistas — desabafou Lamya Kaddor, que confessa receber diariamente ofensas e ameaças via internet.

Na sua opinião, o preconceito contra os muçulmanos é antigo na Europa. A diferença é que hoje ele é mais intenso, e as pessoas são mais diretas, como se não tivessem medo de críticas.

— Os antissemitas, que continuam existindo, têm mais cautela ao expressar opiniões porque receiam ser alvo de críticas. Já para o anti-islâmico há praticamente um consenso — continua.

oglobo.globo.com | 30-07-2016

O chamado "direito ao esquecimento" será julgado em breve pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Na mesa, o pedido feito pela família de uma vítima de homicídio da década de 1950 - que quer impedir veículos de comunicação de relembrar a sua história sob alegação de violação de privacidade. Com repercussão geral, a ação na mais alta Corte brasileira vai definir um posicionamento único que deverá ser seguido pelo Judiciário. Mesmo com a Procuradoria-Geral da República posicionando-se de forma contrária à tese, quase 1/3 da jurisprudência em tribunais estaduais tem concedido o direito de se apagar da história fatos já noticiados.

Levantamento do jornal O Estado de S. Paulo mostra que, de ao menos 94 processos já analisados por desembargadores no País, 67 negaram o pedido de se esquecer o passado. No entanto, 27 aceitaram a hipótese.

O direito ao esquecimento obriga retirar e apagar de páginas da internet conteúdos que associem o nome de qualquer pessoa a fato calunioso, difamatório, injurioso ou a um crime do qual ela tenha sido absolvida e sobre o qual não haja mais possibilidade de recurso. Para o advogado que representa a família Curi, Roberto Algranti Filho, o caso da jovem Aída Jacob Curi, estuprada e assassinada brutalmente aos 18 anos de idade em julho de 1958, no Rio, é exemplar e pode criar "critérios mínimos para a atividade de imprensa".

Na avaliação de Algranti Filho, com o fim da Lei de Imprensa (2009), "ficou um vácuo em relação ao que é notícia de interesse público e aquilo que só diz respeito à família". A defesa da família questiona a veiculação do caso no programa Linha Direta, da TV Globo, em 2004. "Se tudo é jornalismo, nada está protegido, nem a própria imprensa. O caso de Aída não tem interesse público, não é um caso que conta a história do País, não existem motivos para reabrir uma ferida e causar dor aos parentes", diz o advogado.

Em seu parecer sobre o caso, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, lembrou que o direito ao esquecimento "ainda não foi reconhecido ou demarcado no âmbito civil por norma alguma do ordenamento jurídico brasileiro". Portanto, segundo ele, "não pode limitar o direito fundamental à liberdade de expressão por censura ou exigência de autorização prévia".

Embora o direito ao esquecimento tenha sido aprovado na Comissão de Constituição de Justiça (CCJ) da Câmara, ele ainda não foi votado em plenário. Ainda assim, acumulam-se processos em que o "princípio" é posto em pauta - alguns deles tendo como base o caso julgado no Tribunal de Justiça da União Europeia (mais informações nesta página).

Equívoco

Além do questionamento da família Curi, um outro recurso envolvendo um dos acusados, e depois absolvido, pela chacina da Candelária já chegou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) e muitos outros rondam os tribunais estaduais. "Ainda é um tema muito recente. Um princípio que ainda causa muito debate e dúvidas. Nesse sentido, o caso Curi não foi um bom exemplo para ser tomado como repercussão geral", diz o professor de Direito Constitucional da FGV Direito e coordenador do Supremo em Pauta, Rubens Glezer. "É um equívoco. O caso dos Curi está muito mais relacionado à ofensa do que ao esquecimento. A decisão do STF, seja qual for, pode causar mais problemas e interpretações inconclusivas", afirma Glezer.

Para o professor de Direito Constitucional Luiz Guilherme Arcaro Conci, da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), é imperativo separar a questão entre o cidadão comum e aquele que exerce cargo público ou que, porventura, tenha feito algo de repercussão nacional. "É preciso levar em conta a situação e a particularidade de cada caso. O que é vida pública não pode ser protegido pela lei do esquecimento. Uma coisa é quem teve um problema na vida pessoal aparecer na busca do Google para o resto da vida. Outra, bem diferente, é um político, com mandato, querer tirar seu nome de uma denúncia", diz.

A advogada Taís Gasparian, que já atuou em diversos casos em que o direito ao esquecimento foi ao menos citado, diz que a hipótese de aplicá-lo é "como queimar bibliotecas, uma volta à Idade Média". "Quem pode decidir o que é histórico ou não?", questiona Taís. Ela afirma que, "na esfera pública, mesmo os erros de informação podem ter relevância para estudos futuros". De acordo com a advogada, o perfil atual do STF não deve "abrir as portas para a Lei do Esquecimento".

Para Patrícia Blanco, diretora do Instituto Palavra Aberta, "toda e qualquer regra que estabeleça a retirada de conteúdo ou link de acesso a determinado conteúdo fere a liberdade de expressão e de imprensa". Patrícia diz acreditar, no máximo, em um código de autorregulamentação e voluntário, sem que haja a necessidade de uma nova lei que estabeleça esse procedimento. "Além disso, já existe no Brasil um amplo arcabouço jurídico capaz de proteger o cidadão de qualquer abuso ou excesso que possa ser cometido", afirma.

História

Para o professor de História da PUC-SP Luiz Antônio Dias, a função do historiador é "lembrar o que a sociedade quer esquecer". Para ele, o direito ao esquecimento não poderia criar barreiras para, por exemplo, o Brasil se deparar com sua própria história. "Separar o personagem público do personagem histórico é difícil. Eu entendo que a família de um torturado na ditadura militar não queira falar sobre o assunto, mas, ao mesmo tempo, o depoimento dele tem uma importância histórica fundamental. Em tese, sou contra a Lei do Esquecimento, mas não acho que seja um tema simples. Consigo entender o lado de quem, às vezes, prefere esquecer."

O doutor em História Social e colunista do jornal O Estado de S. Paulo, Leandro Karnal, afirma que o direito ao esquecimento "deveria ser possível". "O resgate da privacidade é um desafio novo. Nunca estivemos tão expostos. Logo, surge uma nova meta ou utopia: o esquecimento. O debate é muito contemporâneo: quem tem direito a controlar a memória da minha vida? Todos devem ter acesso permanente aos dados sobre mim? Ser esquecido é um direito, mas será exequível? Talvez, em breve, incluamos o anonimato como direito fundamental do homem", diz.

RIO E SÃO PAULO - O novo presidente do Banco Central (BC), Ilan Goldfajn, comanda hoje sua primeira reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), e a expectativa é que mantenha a taxa básica de juros (Selic) estável nos atuais 14,25% ao ano. Enquanto isso, os países europeus vêm reduzindo suas taxas, para tentar estimular a economia, e o Federal Reserve (Fed, o BC americano) deve adiar a alta dos juros. Essa combinação de fatores levou a diferença entre a taxa brasileira e a média dos países desenvolvidos ao maior patamar em dez anos: 13,73 pontos percentuais.

Juros18-07Levantamento feito pelo economista-chefe da agência de classificação de risco Austin Rating, Alex Agostini, a pedido do GLOBO, mostra que este é o maior nível desde fevereiro de 2006, quando ficou em 13,88 pontos. Agostini usou a média das taxas básicas de juros de Estados Unidos, Austrália, Canadá, Japão e zona do euro, que ficou em 0,53% em maio deste ano. Em fevereiro de 2006, portanto bem antes da crise financeira global, essa média era de 3,38%, enquanto a Selic estava em 17,25%.

O chamado diferencial de juros é um dos indicadores que estimulam a atração de capital de curto prazo, com perfil mais especulativo, e vinha variando entre 13,64 e 13,68 desde julho do ano passado. Neste século, o nível desse diferencial só foi maior entre fevereiro e março de 2003, quando a Selic estava em 26,50%, e a média dos juros dos países desenvolvidos era de 2,54%.

REAL TENDE A SE APRECIAR MAIS

E há pouca expectativa de mudança nesse cenário nos próximos meses, já que a economia global se vê às voltas com os efeitos econômicos do Brexit (a saída do Reino Unido da União Europeia) e da intensificação dos atentados terroristas.

— A perspectiva de aumento de juros lá fora está adormecida, e, aqui no Brasil, há dúvidas sobre o corte da taxa. Então a avaliação é que o diferencial de juros deve se manter elevado por pelo menos seis meses — afirma Agostini.

Ele aponta que a taxa de remuneração dos títulos do Tesouro americano para o prazo de dez anos — os chamados T-Bonds — estava em 2,3%, enquanto no Brasil, hoje, os papéis do Tesouro prefixados têm taxa de 12%.

Agostini ressalta, porém, que o diferencial elevado de juros não é o único fator determinante na decisão dos investidores estrangeiros — o risco-país e a variação cambial também são importantes. O credit default swap (CDS, espécie de seguro contra calote da dívida soberana), indicador do risco associado ao Brasil, de cinco anos ficou em 288,3 pontos. Em março deste ano, antes do início do processo de impeachment, havia superado os 400 pontos.

O economista-chefe da Austin lembra ainda que as pesquisas mostram aumento da confiança no Brasil nos últimos meses. Sua expectativa é que, com a definição sobre o impeachment, cresça o volume de investimentos no país, especialmente os de curto prazo.

Isso traz consequências para o câmbio: o real tende a se apreciar ainda mais, movimento que vem sendo observado nas últimas semanas. O professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Fundação Getulio Vargas André Nassif ressalta que, quanto maior o diferencial de juros, maior a atração de capital de curto prazo, mantendo-se as demais condições constantes. Estudo feito por ele para o período entre 1999 e 2015 aponta que a evolução da renda per capita, o diferencial de juros e os termos de troca são os três fatores que mais determinam o comportamento da taxa real de câmbio.

— Existe um alto estoque de liquidez no mundo, freneticamente desejoso por ganhos com diferenciais de preços. A tendência é mirar países em que o diferencial de juros é maior, sem riscos de controle cambial — diz Nassif.

AJUSTE NO COMÉRCIO EXTERNO

O aumento da confiança com uma avaliação melhor da situação fiscal favorece esse processo, mas o professor destaca que também há influência do ajuste comercial externo em curso no país. Ele lembra que o déficit em conta corrente era de US$ 104 bilhões no fim de 2014 — o que correspondia a 4,3% do Produto Interno Bruto (PIB) —, montante que caiu para US$ 58,8 bilhões no fim de 2015 (3,3% do PIB) e US$ 29,5 bilhões (1,7% do PIB) no período de 12 meses encerrado em maio deste ano. A previsão é que chegue a zero no fim de 2016, segundo Nassif:

— Fizemos um ajuste externo recessivo, com queda forte de importações, de maneira muito rápida. Dado o cenário, a perspectiva é que o diferencial de juros continue alto e o real continue se apreciando.

O mercado acredita que o BC vá manter a taxa de juros em 14,25% ainda por algum tempo. Nassif destaca que, diante da postura cautelosa da autoridade monetária, o movimento não só não será imediato como ocorrerá de forma gradual. Com isso, vai se manter o diferencial de juros elevado. A avaliação é compartilhada pelo economista Joaquim Elói Cirne de Toledo:

— Acredito que há espaço para reduzir juros, mas acho que o Banco Central não vai mexer nos juros pelo menos nas próximas duas reuniões, até pela questão da credibilidade. Com isso, os movimentos de capitais de curto prazo vão continuar, pressionando o dólar mais para baixo.

(Colaborou Ana Paula Ribeiro)

oglobo.globo.com | 19-07-2016

BERLIM — Para o cientista político turco Hüseyin Bagci, o presidente Recep Tayyip Erdogan saiu fortalecido da tentativa de golpe dos militares e poderá concentrar ainda mais poderes durante o “processo de limpeza” nas Forças Armadas e no Judiciário. “O golpe dos militares poderia ser visto como um presente para Erdogan se não tivesse sido tão sangrento”, disse Bagci, da Universidade de Ancara, por telefone.

As lutas acabaram definitivamente ou o senhor espera nova ação dos militares?

Acho que as forças que apoiam o governo superaram a tentativa de golpe. Muitos militares foram presos. Os culpados serão julgados. Vejo como palavras vazias as ameaças de políticos de reintroduzir a pena de morte. A Turquia negocia atualmente com o Conselho Europeu e assinou documentos em que reafirmou que não haverá pena de morte no país.

A Turquia vem sendo vítima de ataques terroristas. Isso contribui para a desestabilização?

A Turquia é um alvo do terrorismo desde 1995. Não há exatamente falta de estabilidade. O que há é uma luta de poder, a sociedade está polarizada e vai ficar ainda mais polarizada.

Erdogan, criticado pela falta de liberdade de imprensa, pode contar agora com o apoio da oposição?

O presidente saiu bastante fortalecido e poderá concentrar ainda mais poderes. A tentativa de golpe foi uma luta de militares contra civis, pois pessoas de todos os setores foram às ruas para defender a democracia. Até adeptos do HDP, partido curdo. Também as críticas do exterior vão diminuir. Mas Erdogan vai encontrar um limite. A Turquia continua sendo uma democracia parlamentar. Ele só vai conseguir transformá-la em regime presidencial através de referendo.

Haverá mais apoio da União Europeia?

O surgimento de caos não é do interesse nem dos Estados Unidos nem da UE. O país é membro da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), é estratégico para os EUA na luta contra o Estado Islâmico. Toda a UE condentou o golpe. Mesmo os maiores críticos de Erdogan sabem que sem a Turquia não vão conseguir resolver o problema dos refugiados. O apoio da UE vai continuar, e as críticas vão diminuir. Em resumo, o golpe poderia ser visto como um presente para Erdogan se não tivesse sido tão sangrento.

oglobo.globo.com | 17-07-2016

LONDRES E NOVA YORK - A tentativa de golpe que abalou o delicado cenário político na Turquia também gerou reflexos para a economia do país. A reação de investidores às primeiras notícias de mobilização de militares, no fim da tarde de sexta-feira, foi rápida. A lira turca, que tinha dia de estabilidade, despencou 5% — a maior queda desde 2008. Segundo analistas ouvidos pela imprensa internacional, não se trata de pânico passageiro, mas sim um sinal de crescente incerteza em relação à economia turca, altamente dependente de fluxo de capital externo de curto prazo.

turquia1607Reportagem do jornal britânico "Financial Times" destaca que uma fuga da capital duradoura seria nociva para o país em várias frentes. O mais imediato seria o potencial efeito inflacionário, devido à moeda mais fraca. O mais preocupante, no entanto, é o volume de investimentos, que podem afetar diretamente a capacidade de crescimento do país. A nova onda de incerteza, causada não só pela tentativa de golpe, como também pelos recentes ataques terroristas, ocorre em um cenário de perda de confiança dos investidores. As projeções para o crescimento da Turquia deste ano estão entre 3% e 4%, contra um avanço do PIB de 4,5% em 2015.

— O desafio para a Turquia, e o governo esqueceu disso, é a necessidade de aumentar a produtividade. Sem investimento de longo prazo em educação... Ou uma economia baseada em exportação, você se condena a um crescimento econômico mais lento — avalia Gultekin.

Neil Shearing, economista-chefe para mercados emergentes da Capital Economics, destaca que a situação se agrava diante da alta necessidade de financiamento turca, após um boom de crédito: “Um período prolongado de instabilidade política poderia desencadear uma séria baixa na economia”, escreveu Shearing em relatório, segundo a Bloomberg.

A instabilidade política traz consequências para um dos principais setores da economia turca: o turismo. Segundo dados do governo citados pelo “FT”, o fluxo de turistas para o país já caiu 23% em maio, frente ao ano anterior. A sequência de ataques terroristas, a proximidade com a Síria e, agora, a tentativa de golpe, agravam a situação. Mais uma razão para que a capacidade de crescimento do país seja colocada em xeque.

— Da perspectiva de investidor, a Turquia parece cada vez mais um caso perdido — resume Dami Rodrik, economista turco da Universidade de Harvard.

IMPACTO MENOR QUE BREXIT

A avaliação sobre o quão duradouro será o impacto econômico da crise política turca, no entanto, ainda é incerto. Alguns analistas destacam que é cedo para prever se os desdobramentos serão tão graves.

— Não acho que isso (a tentativa de golpe) resultará em uma grande mudança de avaliação de risco nos mercados globais. Claramente, há um foco nessa parte do mundo em relação ao que está ocorrendo na Síria, mas não acho que é outro choque para os mercados como foi o Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia). Considerando a história, é um evento muito menor — ponderou Jeffrey Kleintop, estrategista global da Charles Schwap, em entrevista à Bloomberg.

oglobo.globo.com | 16-07-2016

Às vésperas de sediar a Olimpíada, a “remodelada” cidade do Rio se assemelha à antiquíssima Atenas, mas não em seus imemoriais e gloriosos dias homéricos, e sim em seu presente neoliberal, decadente e injusto. Com seus deuses decadentes, mas ainda no poder, o Estado do Rio, por sua vez, se depara, tal qual o Brasil, com um tenebroso cenário grego, no qual a maioria da população, privada de participação política, se encontra refém de poderes tirânicos, representantes de uma minoria de oligarcas que habita palácios e jardins. Se, na Grécia contemporânea, os interesses do povo se curvam aos ditames privatistas dos banqueiros da União Europeia, no Brasil de hoje, um governo golpista implementa um draconiano ajuste fiscal que pode significar o fim da educação e da saúde públicas. Governado pelos mesmos titãs decrépitos que controlam a pólis olímpica — e o poder federal —, o estado é um laboratório do modelo de gestão que o PMDB de Temer oferece ao país.

Enquanto nas favelas a PM, olimpicamente, assassina jovens negros, o direito à educação e à saúde é subtraído aos cidadãos por meio de um impudente desfinanciamento — e a greve dos profissionais da educação e as mobilizações do Fórum de Saúde são justas respostas a isso. Boa parte da artilharia do governo estadual está voltada contra a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), com destaque para seu hospital, o Pedro Ernesto (Hupe).

O caso da Uerj é exemplar do projeto perpetrado pelo triunvirato Pezão-Dornelles-Picciani. A crise financeira estadual, oriunda não só dos vultosos gastos com os megaventos, mas também das incontáveis isenções fiscais concedidas a cervejarias e outras empresas de serviços dionisíacos, tem servido de justificativa para a destruição da maior universidade do estado, a primeira no país a instituir cotas raciais. Rios de tinta poderiam ser gastos para descrever o que é feito com a Uerj, mas basta ao leitor saber que, numa reedição neoliberal da escravidão ateniense, os terceirizados trabalharam meses sem receber, até se tornarem escravos por dívidas dos bancos. E, finalmente, foram sumariamente demitidos sem direitos trabalhistas pelas empresas prestadoras de serviços, que alegam nada ter recebido dos cofres públicos em um ano no qual a execução orçamentária da universidade é, até agora, de zero centavo. Nesse quadro calamitoso, as bolsas não são pagas, e os salários de técnicos e docentes são atrasados/parcelados.

Por fim, não é escusado destacar que os diversos campi universitários hoje acumulam tanta sujeira e lixo que, como num castigo maligno ordenado pelo Zeus Cabral, trabalhadores e estudantes parecem destinados a agonizar, acorrentados, junto a ratos, baratas e Aedes aegypti, por milênios, pelo simples fato de terem optado pela tocha prometeica do conhecimento (público, gratuito e de qualidade) em detrimento da vergonhosa tocha olímpica peemedebista.

Mas a UERJ resiste!

Lia Rocha e Felipe Demier são diretores da Associação dos Docentes da Uerj

oglobo.globo.com | 16-07-2016
A nova primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, sinalizou que pretende conduzir os preparos para a saída da União Europeia o mais rápido possível ao colocar alguns dos políticos mais anti-UE em papéis importantes. Seu novo gabinete inclui figuras-chave do Brexit, como o novo Secretário de Relações Exteriores, Boris Johnson, e David Davis, que se tornou o ministro encarregado do Brexit.

"Muitas das pessoas que ela escolheu estão cientes de que o Partido Conservador precisa responder a esse momento populista", afirmou o professor de política na universidade Queen Mary, Tim Bale.

Johnson e Davis estão agora encarregados de elaborar uma nova política externa e examinar a relação comercial do Reino Unido com países dentro e fora da União Europeia. Johnson tem um histórico de insultar alguns dos líderes e pessoas de outros países com as quais ele terá de negociar agora. Nos últimos meses, ele acusou o presidente dos EUA, Barack Obama, de ser anti-Reino Unido porque seu pai era do Quênia e também escreveu uma anedota sobre o presidente da Turquia transar com uma cabra.

Davis, o "ministro do Brexit", escreveu um artigo antes de ser nomeado dizendo que as negociações deveriam começar no início do ano que vem, com a saída completa do Reino Unido acontecendo em dezembro de 2018. Além disso, ele defende que o resultado ideal das negociações seria que o Reino Unido continuasse a ter acesso ao mercado único da União Europeia, mas com a imposição de novos controles sobre imigração. Fonte: Dow Jones Newswires.

LONDRES — Foi bem mais rápido do que se pensava. A confirmação da conservadora Theresa May como a nova primeira-ministra do Reino Unido ocorreu na manhã de ontem, de forma inesperada, após a abrupta desistência da concorrente de partido, Andrea Leadsom. Segunda mulher a ocupar o cargo na História — a anterior foi Margaret Thatcher (1979-90) — May vai escrever seu nome como a governante que conduzirá o país para fora da União Europeia (UE), aquela que seguirá à risca a decisão dos britânicos em referendo mês passado com a retumbante e inconteste frase: “Brexit significa Brexit.”

May chega com força ao cargo por ter logo de saída já largado bem na frente — com mais de 50% do total de votos — dos outros quatro concorrentes, levando dois a desistirem após a primeira votação. Com os 165 conseguidos na segunda rodada, contra os 66 de Leadsom, quinta-feira passada, mostrou ter a preferência inegável do partido. Segundo anunciou David Cameron, chefe de governo de saída, que renunciou após o referendo, a posse dela se dará amanhã. O premier, que só deixaria o cargo em setembro, antecipou a saída alegando não fazer sentido estender a transição.

Se para os britânicos, é praticamente a confirmação do Brexit, para os brasileiros poderá significar um entrave para visitar as ilhas se ela ressuscitar uma proposta de 2013, quando defendeu que se passasse a exigir visto dos brasileiros para entrar em solo britânico. Como ministra do Interior, a questão da migração — alvo de severos debates dentro da UE — sempre foi um tema caro a ela. Na época, em entrevista ao “Financial Times”, May disse que o Brasil era o único da lista dos dez países com mais imigrantes ilegais no Reino Unido que não tinha exigência de visto. Mas, após protestos sobre o impacto que restrições poderiam ter sobre a economia britânica, May voltou atrás e o governo anunciou que não havia planos para impor um regime de vistos ao Brasil.

‘MINHA FILOSOFIA É FAZER, NÃO FALAR’

Titular do Interior desde 2010, May, de 59 anos, é a mais longeva no cargo no país em meio século, com reputação de seriedade, trabalho duro e evitando as intrigas e traições que assolam seu partido. Ela faz parte de um número crescente de mulheres na política britânica a subirem ao escalão da liderança, tradicionalmente dominado pelos homens. Conhecida pela conduta férrea, pragmática e inflexível, May é conhecida dentro do Partido Conservador pelo meticuloso processo nas tomadas de decisão.

— Minha filosofia é fazer, e não falar — afirmou ela ao jornal britânico “The Telegraph”. — Sempre defendi mulheres na política. A política não é um jogo: as decisões que tomamos afetam as pessoas.

Ao contrário de Cameron e do ministro da Fazenda, George Osborne, May vê o Twitter como uma perda de tempo. Estas características levaram um colega de partido, Ken Clarke, a dizer que “Theresa é uma mulher terrivelmente difícil”, ressaltando que já tinha trabalhado com outra mulher, “com reputação de aço”, que também enfrentou uma política dominada pelos homens: Margaret Thatcher.

— Sei que não sou uma política que chama atenção. Não vou a estúdios de televisão. Eu não fofoco sobre as pessoas durante o almoço. Eu não vou beber nos bares do Parlamento — assume-se May, segundo o “New York Times”.

Por outro lado, a comparação política mais intrigante não é exatamente com a Dama de Ferro, mas com Gordon Brown, o premier que sucedeu a Tony Blair em 2007, também em votação interna do partido após a renúncia do trabalhista. Filhos de pais religiosos, criados com postura séria e moral rígida, tanto uma como o outro têm a necessidade do controle total. May é conhecida pela dificuldade em delegar, necessitando passar em revista tudo o que está sendo feito, checando todos os detalhes de decisões alheias a ela. E, como Brown, exige uma lealdade inabalável.

A política metódica de May — e sua história de vida — também permite traçar um paralelo com outra sistemática chefe de governo, a chanceler federal da Alemanha, Angela Merkel. As diligentes mulheres no comando das duas maiores economias europeias são filhas de clérigos: o pai da alemã, teólogo e pastor luterano; e o inglês, sacerdote da Igreja Católica.

Nascida em 1956, na cidade litorânea de Eastbourne, no condado de Sussex, May cresceu em Oxfordshire, condado industrial que abriga a cidade universitária de Oxford. Um “estudante boazinha”, como ela contou em entrevista ao “The Daily Telegraph”, nunca se rebelou contra a educação religiosa e continua a frequentar a igreja. Como Cameron e Boris Johnson, ex-prefeito de Londres que recentemente abandonou a corrida pela liderança conservadora, May estudou na Universidade de Oxford.

PROVÁVEL ROTA DE COLISÃO COM MERKEL

Política sempre foi um dos seus interesses, e May participou do famoso diretório estudantil Oxford Union, passando a integrar também a Associação Conservadora universitária. Numa das reuniões do grupo, uma colega — Benazir Bhutto, futura primeira-ministra do Paquistão — apresentou-a ao homem com quem ela iria se casar, Philip May, que viria a se tornar um banqueiro de investimentos. Theresa May trabalhou em serviços financeiros, inclusive no Banco da Inglaterra, sem deixar de lado suas ambições políticas. Conquistou um assento no Parlamento britânico em 1997, por Maidenhead, próspera cidade a oeste de Londres — e teve rápida ascensão no Partido Conservador. Ontem, chegou ao posto mais alto.

— Teremos uma nova primeira-ministra neste prédio atrás de mim na noite de quarta-feira — afirmou ele em entrevista coletiva diante da residência oficial em Downing Street, acrescentando que manterá a última sessão de perguntas como primeiro-ministro no Parlamento amanhã, antes de se reunir com a rainha Elizabeth II para apresentar a renúncia.

Mas será com Merkel que May terá um provável primeiro embate. No domingo, a chanceler federal alemã reafirmou que, com a decisão do referendo, o Reino Unido deve deixar em breve a UE. Entretanto, a nova premier reiterou a “necessidade de negociar o melhor acordo para que o Reino Unido deixa a UE”, o que pode adiar o início do processo para 2017.

May, uma eurocética que passou para o campo dos partidários à permanência na UE por fidelidade a Cameron, declarou que “não pode haver um segundo referendo” e “nenhuma tentativa de voltar à UE pela porta dos fundos”:

— Não poderia ser mais clara: não haverá uma tentativa para permanecer na UE. Brexit significa Brexit, e nós faremos isso com êxito.

oglobo.globo.com | 12-07-2016

RIO - Professor da Universidade de Harvard e vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 2007 – ao lado de Leonid Hurwicz e Roger Myerson, Eric Maskin vê no Brexit uma ameaça à globalização. Apesar das desigualdades criadas pelo fenômeno, ele lembra que a globalização também ajudou a levar prosperidade aos países em desenvolvimento. Maskin defende políticas de redução de desigualdade para neutralizar alguns desses efeitos, como a educação de trabalhadores menos capacitados.

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Na sua avaliação, o mundo ainda vive os efeitos da profunda recessão que se seguiu à crise financeira internacional, que levou à estagnação dos salários da classe média. Assim, muitos acabam confundindo as razões pelas dificuldades que atravessam.

— Muitos que estão sofrendo com essa recessão confundem suas críticas. Eles acham que é por causa da globalização, da imigração, mas é na verdade a consequência de uma recessão muito profunda. De certa forma, Donald Trump é uma fraude porque ele dá a explicação errada para o sofrimento das pessoas — apontou.

O Nobel elogiou o programa Bolsa Família do governo brasileiro, exatamente pela exigência de manter as crianças na escola, e defendeu os investimentos em educação mesmo em plena crise fiscal porque “a melhor maneira de dar às pessoas a oportunidade de ter sucesso por elas mesmas”.

O senhor foi um dos economistas laureados com o Nobel que se posicionou publicamente contra o Brexit. Diante do resultado, quais os maiores riscos?

Na economia, o maior risco é um retorno para as elevadas tarifas e para as restrições no comércio e no mercado de trabalho, o que é ruim para todos. Mas também há os riscos políticos. Uma razão para a Europa estar em paz há quase 70 anos é a cooperação econômica. No momento em que o Reino Unido sai na União Europeia, outros países podem decidir sair também e pode se imaginar até uma desintegração da União Europeia. Ninguém sabe. Certamente é um passo na direção errado. Eu me preocupo com o futuro da paz na Europa se isso ocorrer. Historicamente, a Europa tem sido o continente mais violento no mundo. A ideia de um período de 70 anos sem guerra é uma novidade e está ligada ao fato de existir tanta cooperação agora. Se essa cooperação se deteriorar, ninguém sabe o que vai ocorrer.

É uma ameaça à globalização?

É uma ameaça à globalização e é uma grande pena. Apesar das reclamações sobre a globalização, ela tem sido um instrumento poderoso para levar prosperidade aos países em desenvolvimento. O Brasil, por exemplo, se beneficiou enormemente da globalização, assim como a China. É verdade que há elevada desigualdade nesses países. Mas é possível lidar com a desigualdade sem eliminar a globalização. Você deve ter programas contra desigualdade ao lado da globalização para neutralizar a desigualdade que ela pode criar. O Brexit certamente coloca a globalização em risco.

Como os trabalhadores são afetados?

A globalização tende a criar mais desigualdades entre os trabalhadores dos países em desenvolvimento. Os trabalhadores mais capacitados são os que conseguem as novas vagas criadas pela globalização, e aqueles sem habilidades ficam para trás. Então o intervalo entre eles cresce. Isso é verdade. Mas a maneira de atacar o problema não é atacar a globalização, mas dar aos trabalhadores menos capacitados mais treinamento e educação para que possam competir no mercado de trabalho global também. O Brasil agiu nessa direção. O Brasil tem um programa de transferência condicional de renda de muito sucesso em que famílias pobres recebem subsídio se concordarem em enviar seus filhos para a escola. O sucesso ocorre não apenas porque ganham maior renda, mas porque as crianças são educadas e podem ganhar mais por elas mesmas. O programa é muito importante para enfrentar a desigualdade.

Mas o Brasil enfrenta hoje um grande problema fiscal. Como isso pode afetar?

Entendo que quando há um problema fiscal é preciso equilibrar o orçamento de alguma forma, mas acho que é um grande erro reduzir gastos em educação. Educação é um importante investimento para o futuro: há outras coisas com prioridade mais baixa. Educação deve ser a prioridade porque é importante para lutar contra a desigualdade, mas também porque o população é o ativo mais importante de um país. E a educação é a melhor maneira de dar às pessoas a oportunidade de ter sucesso por elas mesmas.

Muitos ligam o fenômeno do Brexit e a popularidade de Donald Trump à desigualdade. Como vê isso?

É verdade. Mas eu acho que o problema não é tanto a desigualdade, mas o fato de que os salários para a classe média estão estagnados há muito tempo. E uma grande razão para isso é a crise financeira de 2008/2009 e a profunda recessão que se seguiu a ela. O grande problema é que tivemos uma profunda recessão e ainda não nos recuperamos dela. E muitos que estão sofrendo com essa recessão confundem suas críticas. Eles acham que é por causa da globalização, da imigração, mas é na verdade a consequência de uma recessão muito profunda. De certa forma, Donald Trump é uma fraude porque ele dá a explicação errada para o sofrimento das pessoas. É inegável que as pessoas estão sofrendo, mas a razão não é a que ele dá. Não é por causa da imigração. Não é por causa de acordos de comércio ruins.

No início muitos consideraram Trump como uma piada...

Trump não é uma piada, ele é uma ameaça muito mais séria que muitos de nós imaginávamos. Mas apesar disso as pessoas para as quais ele está se voltando são uma minoria. Felizmente, a maioria dos americanos ainda entende que ele será muito ruim para o país e para o mundo. Acho que há uma grande probabilidade de ele perder.

Antes da elevação dos juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano), o senhor estava muito cauteloso sobre esse movimento. Como vê a economia americana hoje?

Há muita incerteza, não apenas com o que está acontecendo nos Estados Unidos, mas também na Europa e na China. Se eu estivesse no Fed, seria muito cauteloso para elevar juros nesse momento, não vejo nenhuma razão para correr com isso.

Mas o que acha que a presidente Janet Yellen vai fazer?

Você deveria perguntar a ela. Ela não me contou e não tenho como adivinhar. Mas ela é uma economista muito inteligente então acho que vai levar em consideração esses aspectos que conversamos.

oglobo.globo.com | 12-07-2016

LONDRES — Filha de um vigário da Igreja Anglicana, Theresa May deverá se tornar primeira-ministra do Reino Unido na próxima quarta-feira, após David Cameron anunciar sua renúncia nesta manhã. Será a primeira mulher a assumir o cargo desde Margaret Thatcher, conhecida como a Dama de Ferro.

Uma sucessão de fatos nas últimas horas acelerou a disputa, depois de sua única concorrente desistir inesperadamente da corrida pela liderança nesta segunda-feira, acabando com a necessidade de uma votação final.

May, de 59 anos, já estava à frente do Ministério do Interior desde 2010 — um dos cargos mais difíceis no governo. Entre os candidatos à sucessão de Cameron, era considerada uma das mais preparadas.

Ela estudou Geografia na Universidade de Oxford, trabalhou no Bank of England após se formar e como consultora financeira da Association for Payment Clearing Services (APACS). Foi eleita para o Parlamento em 1997.

Em 2002, se tornou a presidente do Partido Conservador (responsável pela administração da máquina partidária), após um discurso famoso em que disse que as pessoas viam a legenda como “um partido sujo”.

— Sei que não sou uma política em evidência — disse ao anunciar que disputaria a liderança, em junho. — Não vou aos estúdios de TV. Não fofoco sobre pessoas no almoço. Não bebo no bar do Parlamento. Apenas faço o trabalho que tenho diante de mim.

May tem diabetes Tipo Um e toma injeções de insulina várias vezes ao dia. Ela se descreve como uma cristã praticante e tem mais de cem livros de culinária.

— Gosto de manter minha vida pessoal. Não tivemos filhos, lidamos com isso e seguimos em frente. Espero que ninguém considere isso importante — disse ela, citando um tópico que acabou sendo usado pela adversária Andrea Leadsom contra ela.

May foi a favor da permanência do país na UE no referendo do mês passado, mas repetiu seu novo mantra, “Brexit significa Brexit”, dizendo que não pode haver um segundo referendo e nenhuma tentativa de voltar à UE pela porta dos fundos.

— Como primeira-ministra, farei com que saiamos da União Europeia — prometeu.

oglobo.globo.com | 11-07-2016

LONDRES — As muitas conquistas de Tony Blair como primeiro-ministro do Reino Unido ficaram, de certa forma, manchadas por sua entrada na Guerra do Iraque. Vencedor de três eleições legislativas e chefe de governo durante um período de prosperidade, o símbolo do “Novo Trabalhismo” teve seu legado marcado pela disposição irrestrita para tomar parte num conflito que muitos de seus compatriotas — inclusive vários de seus colegas de partido — veem como um equívoco, e que seus desafetos mais ferrenhos afirmam ser um crime de guerra.

Eleito para o Parlamento britânico pela primeira vez em 1983, Blair chegou à liderança do Partido Trabalhista em 1994 e, três anos mais tarde, levou a legenda de volta ao governo, após 18 anos de domínio dos conservadores. Já em seu primeiro ano como premier, obteve uma importante vitória com a assinatura do Acordo de Belfast, que redefiniu a relação da Irlanda do Norte com o Reino Unido e pôs fim ao conflito entre católicos e protestantes que há décadas assolava a região.

Ao lado de Gordon Brown, que viria a suceder-lhe em 2007, Blair deixou de lado o compromisso do partido com a nacionalização da indústria e aproveitou o bom momento econômico, ampliando gastos em saúde e educação — o que lhe rendeu duas reeleições. No entanto, os ataques terroristas de julho de 2005 em Londres e as críticas cada vez mais severas à Guerra do Iraque acabaram por minar sua popularidade.

Nos últimos anos, o ex-premier atuou como emissário no Oriente Médio do Quarteto Diplomático (ONU, EUA, União Europeia e Rússia), mas deixou o cargo no ano passado sem obter resultados expressivos. Na campanha do referendo britânico, Blair teve rápida participação, alertando para os perigos de uma saída do bloco europeu, mas não teve impacto junto ao eleitorado.

oglobo.globo.com | 07-07-2016

Há histórias tão verdadeiras que, às vezes, parecem inventadas. A frase, de Manoel de Barros, parece ter sido especialmente desenhada para o Brasil de hoje. Na Sucupira real, as notícias se superam, e a última é sempre mais inacreditável que a anterior. A sucessão de escândalos políticos nos governos PT e PMDB, a queda da ciclovia no Rio, o estupro coletivo, o japonês da Federal e tantas outras histórias nas páginas deste jornal soam absurdas, inacreditáveis. Já entre os acontecimentos que não nos surpreendem, destacam-se os negativos, como a recente divulgação do Ranking de Competitividade Global da escola de negócios suíça IMD, que revelou o Brasil como o quinto pior país do mundo nessa medição.

Diante do quadro de corrupção e da falta de credibilidade no governo por parte do empresariado, não foi zebra a queda de posição (pelo sexto ano) no ranking do qual fazem parte 61 economias. O IMD leva em conta cerca de 300 critérios para a classificação, com foco em desempenho econômico, eficiência governamental, eficiência empresarial e infraestrutura. Estamos no 57ª lugar, à frente apenas de Croácia, Ucrânia, Mongólia e Venezuela.

Uma dose de curiosidade resultou na breve análise dessas nações que nos rodeiam no ranking, vizinhas na arte da corrupção, do descontrole e da ineficiência. Infelizmente, algumas informações nos levam a crer que, em 2017, o buraco do Brasil pode ser mais embaixo.

Vamos à Croácia. O país, que se tornou independente da URSS em 1991, foi pego de jeito pela crise financeira que atingiu a Europa. De 2008 a 2014, os croatas enfrentaram alta das taxas de desemprego e pobreza. Mas, como novata da União Europeia, a Croácia nutre expectativas de reformas (já anunciadas) e acesso a fundos. Segundo o FMI, desde o fim de 2014, o país se recupera da recessão, sobretudo com aumento das exportações. O turismo, fortemente incentivado, já representa parcela significativa do PIB.

Entre a influência russa e a europeia, a Ucrânia tem sua história recente marcada por guerras e rebeliões, tendo o país se transformado em palco de corrupção e espionagem. Em 2015, apesar da queda de quase 10% no PIB, houve progresso em direção à estabilidade, de acordo com relatório do FMI. A liberação de ajuda bilionária do Fundo tem como contrapartida esforços do governo contra a corrupção, além da implementação de reformas de gestão. O país é peça importante na geopolítica do petróleo.

Se há esperança ocidental em relação à Croácia e à Ucrânia, não se pode afirmar o mesmo de Mongólia e Venezuela, que parecem ter menos chances de ultrapassar o Brasil no curto prazo. A Mongólia, também ex-comunista, está na zona de influência da China, principal importador de sua produção agropastoril e mineral. Grande parte da população vive em extrema pobreza, e a infraestrutura é defasada. Com a desaceleração da economia chinesa, as perspectivas não são positivas.

Por fim, a Venezuela, bolivariana, em estado de emergência, até faz com que o Brasil pareça promissor. Com a economia dependente do petróleo, o país sofre os efeitos drásticos da queda do preço do barril. A miséria avança. A indústria inexistente e a redução de importações geraram uma escassez sem precedentes. A população convive com racionamento, previsão de inflação anual na casa de 700%, crise política, medidas autoritárias e ameaças de confisco.

Nossa história e o desenvolvimento socioeconômico brasileiro dos últimos anos estão bem distantes do ocorrido em cada um dos países citados. Para que a imagem do Brasil não se confunda com realidades tão duras quanto às vividas por Mongólia e Venezuela, por exemplo, o país precisa pavimentar seu próprio caminho priorizando combate à corrupção, reforma política e controle das contas públicas. Só assim poderá reconstruir as condições para a eficiência, investir em infraestrutura e, consequentemente, escapar de uma inacreditável 61ª posição do ranking da IMD.

Luciana Brafman é jornalista

oglobo.globo.com | 07-07-2016

RIO - Os mercados globais receberam com pânico a decisão dos eleitores britânicos pela saída do Reino Unido da União Europeia (EU), evento que sugou mais de US$ 3,5 trilhões do valor de mercado das empresas abertas no mundo em apenas dois pregões, em 24 e 27 de junho. Na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), o tombo acumulado naqueles dias foi de 4,49%, mas as perdas foram inteiramente recuperadas nos pregões posteriores, quando se consolidou a percepção de que o chamado Brexit levaria a uma nova onda de estímulos monetários no mundo. Mas, se o Ibovespa, índice de referência do mercado brasileiro, parece ter saído ileso da cisão geopolítica, nem todos os setores e papéis que o compõem tiveram a mesma sorte, e analistas recomendam que se leve em conta o Brexit na hora de escolher ações a partir de agora.

Para entender como as empresas brasileiras podem ser influenciadas, os analistas de corretoras e gestoras recomendam olhar mais para a macroeconomia do que para fatores corporativos. Como observou Jason Vieira, economista-chefe da Infinity Asset, os efeitos do Brexit sobre o Brasil, em si, “são bastante limitados”. A razão disso, afirmou, é que o país não possui nenhum grande acordo comercial com o bloco europeu.

— Dessa forma, trata-se mais de uma questão de volatilidade de mercado — afirmou Vieira.

O que realmente está influenciando a Bolsa é a interpretação de que o Brexit, por suscitar preocupações de que o crescimento da economia global será mais lento do que se imaginava, fará com que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) interrompa por ora o processo de elevação de suas taxas de juros, hoje entre 0,25% e 0,50% ao ano.

Segundo algumas estimativas, o ritmo de crescimento da economia americana deve ser reduzido em 0,2 ponto percentual durante os próximos seis trimestres. Como juros mais altos implicam em economia mais lenta, os economistas estão apostando que o baque do Brexit levará à postergação de novas altas nas taxas dos Estados Unidos. Se antes a aposta era que o Fed poderia aumentar os juros mais duas vezes este ano, a maioria agora descarta qualquer nova elevação em 2016. Os mais recentes números de negociações no mercado de juros sugerem que os investidores veem maior probabilidade de só haver uma alta de juros nos EUA no começo de 2018.

Como o dólar subiu em escala global na expectativa de um aperto monetário nos EUA, a frustração dessa aposta levará à queda da divisa. O processo já está ocorrendo: o dólar comercial estava em R$ 3,34 antes do Brexit e agora vale R$ 3,22, proporcionando ao real seu maior fortalecimento em um mês desde abril de 2003.

— Isso significa que ações de empresas eminentemente exportadoras, com fluxo de caixa dolarizado, vão sofrer maior pressão de venda na Bolsa — comentou Alexandre Wolwacz, diretor da Leandro & Stormer Escola de investimentos.

Wolwacz e Thiago Bisi, analista da L&S Análise, citam entre companhias especialmente afetadas a Embraer e aquelas do setor de celulose (Klabin, Suzano e Fibria). Outra que deve sofrer pressões negativas é a catarinense Weg, fabricante de maquinário industrial.

— A Weg deve ser influenciada não só pelo câmbio. Ela produz bens de capital, produtos que só são demandados quando há crescimento no mundo. Acontece que o Brexit deve impor um ritmo mais lento à expansão da atividade global — acrescentou Wolwacz.

Não à toa, essas empresas estão entre as que mais caíram na Bovespa desde o referendo britânico. Até a última quinta-feira, as ações ordinárias (ON, com direito a voto) da Fibria haviam caído 17,2%. Já a Weg ON perdeu 4,72%, enquanto os papéis preferenciais (PN, sem voto) da Suzano PNA tiveram desvalorização de 3,98%, a Embraer ON teve baixa de 3,85% e a unit da Klabin recuou 1,20%.

Gigantes do ramo de alimentos da Bovespa também são exportadores importantes, como JBS e BRF, mas os analistas lembram que essas empresas têm robustas operações de hedge (proteção) cambial, suavizando possíveis impactos da queda do dólar.

FRIGORÍFICOS: MELHOR ESPERAR NEGOCIAÇÕES

Considerando-se especificamente o setor de frigoríficos (que também inclui companhias como Marfrig e Minerva), o Brexit acendeu a esperança de que o Reino Unido poderia flexibilizar as importações de carne, uma vez que a oferta do produto vinda do bloco europeu tende a diminuir. Por enquanto, porém, Victor Martins, analista da Planner, recomendou esperar para ver os desdobramentos antes de fazer qualquer aposta:

— Vai depender efetivamente se haverá regras mais flexíveis para as vendas destinadas ao Reino Unido. Nesse contexto, e olhando a curto prazo, acreditamos que não haverá um reflexo destacadamente positivo nas cotações das ações dos frigoríficos brasileiros.

Quando o dólar se desvaloriza, a tendência é de alta para as commodities. Por isso, embora os produtos básicos ainda estejam sofrendo com a turbulência provocada pelo Brexit, os analistas acreditam que companhias ligadas a matérias-primas podem se beneficiar daqui para frente, em algum grau. Esse grupo inclui Petrobras, Vale e siderúrgicas, por exemplo.

SETOR BANCÁRIO SENTE REFLEXOS

Raphael Figueredo, da corretora Clear, destaca ainda o setor de concessionárias de serviços públicos, sobretudo no setor de energia. Segundo ele, além de serem ações consideradas defensivas, há a expectativa de que o segmento seja beneficiado pela onda de privatizações prometida pelo governo do presidente interino, Michel Temer. Essas companhias estão entre as que mais subiram desde o Brexit, aliás. Até a última quinta-feira, por exemplo, a Cemig saltou 15,56%, enquanto a Tractebel avançou 6,07%.

— O mercado vai voltar a procurar o setor de utilities (serviços públicos) como uma postura anticíclica. Isso está acontecendo também nos EUA. Como está havendo uma retomada da confiança no front doméstico e como o Temer vem falando em privatizações, empresas como Alupar, Light e Equatorial podem ser beneficiadas — explicou Figueredo.

O setor bancário, por sua vez, está na berlinda. Embora não tenha acumulado perdas nos pregões pós-Brexit, ele está sujeito a parte da intensa volatilidade que os bancos europeus vêm enfrentando desde o referendo.

— Os bancos brasileiros podem sofrer um pouco com maiores entraves nas captações do mercado externo, que acessam com alguma frequência. Trata-se de uma particularidade do mercado financeiro. Mas, a princípio, seus balanços não devem ser machucados por isso — disse Mario Roberto Mariante, analista-chefe da Planner.

Mariante também observou que, mais do que os desdobramentos do Brexit, os investidores devem estar atentos ao desenrolar do cenário político, sobretudo ao processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff:

— Isso vai ser muito mais importante do que o Brexit.

oglobo.globo.com | 04-07-2016
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