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Países Baixos

BRASÍLIA — O presidente de governo da Espanha chega nesta segunda-feira ao Brasil para uma visita de dois dias — a primeira de um líder europeu ao país desde que o presidente Michel Temer tomou posse, em maio de 2016. Ele passará por Brasília e São Paulo. Em entrevista ao GLOBO, por escrito, Rajoy revelou que a economia dominará a conversa com Temer, afirmou que o Brasil é parceiro estratégico e enfatizou que o terror só será combatido com esforço internacional. Rajoy_2304

A União Europeia enfrenta um momento de indefinições e incertezas ante a saída do Reino Unido do bloco. Quais são as consequências do Brexit?

Não existe um Brexit bom. Nós sempre estivemos contra o Brexit, e continuo pensando que não é bom nem para a Europa nem para o Reino Unido. O que devemos, agora, é tentar fazer uma negociação inteligente e rápida, que limite ao máximo os danos que serão causados com a saída do Reino Unido da UE. As consequências serão de todos os tipos e serão constatadas com o tempo. A prova é que a maioria dos principais responsáveis pelo Brexit se retiraram do primeiro plano para não terem que enfrentar as consequências de seus discursos.

Qual a sua expectativa sobre um acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia?

Creio que, agora, temos as condições mais favoráveis para essas negociações. De fato, na última reunião do Conselho Europeu foi decidido, a pedido de Espanha e Portugal, acelerar os contatos para firmar o acordo com o Mercosul e atualizar o que já existe com o México. A Europa, que está saindo de uma crise gravíssima, continua apostando no livre comércio e isso é uma boa notícia para todo o mundo. O comércio continua sendo um dos motores mais potentes do crescimento, ao sustentar milhões de postos de trabalho e fomentar a prosperidade. Os momentos mais graves na crise da União Europeia

Qual avaliação o senhor faz da situação política hoje na Europa, com os ventos nacionalistas bem fortes em alguns países? O senhor acha que esses movimentos vão crescer ou são uma onda passageira?

Sou um europeísta convicto, como a maioria dos espanhóis. Portanto, não compartilho dessas posições contrárias à União Europeia. Acabamos de celebrar os 60 anos do Tratado de Roma e não há mais necessidade de se comparar a História da Europa nestes 60 anos e a que sofremos nos 60 anos anteriores: nem mais nem menos do que duas guerras mundiais e todos os tipos de totalitarismos. A Europa é um êxito indiscutível, por mais que alguns tenham decidido convertê-la numa espécie de madrasta responsável por todos os males, quando foi totalmente o contrário. Saberemos dar uma resposta às preocupações dos cidadãos e definir um rumo para os próximos anos. A Europa sairá fortalecida desta crise. Sete consequências e insatisfações deixadas pelo Brexit

A própria Espanha e o senhor enfrentaram grandes dificuldades para formar o governo atual, após um ano e várias tentativas fracassadas. A Espanha foi berço de novos partidos bem polarizados, tanto de esquerda como de direita e ainda convive com a questão da Catalunha. Diante desse quadro, o senhor diria que o modelo político vigente se esgotou?

Esse modelo que alguns dizem que está esgotado ajudou a Europa a criar um sistema de proteção social sem comparação com o resto do mundo e é um exemplo de respeito às liberdades e aos direitos das pessoas. No caso da Espanha, a evolução é ainda mais chamativa: há muitos poucos países no mundo que tenham experimentado um progresso como o da Espanha, e isso se deu com um modelo bipartidário, baseado na moderação e na capacidade de alcançar grandes consensos nacionais. Creio que ninguém pôde demonstrar que haja uma fórmula melhor, ou que renda melhores resultados para as pessoas. Os populistas prometem tudo, mas na hora da verdade, eu não conheço nenhum governo populista que tenha feito seu país prosperar. Outra coisa é que sempre devemos estar abertos a fazer reformas e melhorar o sistema. Essa vontade deve estar sempre aí.

O Brasil passa por momento de transição após o Congresso ter feito o impeachment da ex-presidente Dilma. Como a Espanha acompanhou esse processo e qual avaliação o senhor faz do atual momento do Brasil?

Acompanhamos o Brasil com a atenção e o interesse que nos desperta qualquer país que é um sócio estratégico e com o qual compartilhamos interesses e valores. Temos seguido de muito perto os acontecimentos políticos no Brasil, mas com a tranquilidade e a confiança de que há solidez nas suas instituições.

O que o senhor elegeria como mais importante a ser acertado em seu encontro com o presidente Michel Temer durante sua visita ao Brasil?

Esta viagem tem um inegável componente econômico, que desejaria ressaltar. O Brasil é o terceiro maior destino dos investimentos espanhóis no mundo, só atrás dos Estados Unidos e do Reino Unido, e, de todos os países que investem no Brasil, a Espanha é o terceiro, depois dos Países Baixos e dos EUA. Em 2014, a Espanha tinha um estoque de investimentos de € 47,202 bilhões, e nossas empresas fizeram uma aposta estratégica no futuro deste país. Também espero tratar com o presidente Temer a questão das negociações entre a União Europeia e o Mercosul. Como sabem, a Espanha é o impulsor mais firme da UE para uma aproximação comercial e também política entre as duas regiões.

O governo Temer prepara um amplo processo de concessões em áreas estratégicas de infraestrutura e logística. Como os empresários espanhóis estão se preparando?

Como dizia, nos momentos de maior dificuldade, as empresas espanholas demonstraram que sua aposta no Brasil era de longo prazo. Agora, podem oferecer sua experiência internacional e sua liderança em setores, como infraestrutura de transportes, energia, telecomunicações e meio ambiente. O governo espanhol também está disposto a apoiar, com instrumentos financeiros, aquelas companhias que queiram aproveitar a oportunidade de se internacionalizar.

Em sua opinião, como operações da Polícia Federal como a Lava-Jato, que atingiu as principais empreiteiras do Brasil e está investigando um gigantesco esquema de corrupção envolvendo agentes públicos, influencia na imagem internacional do Brasil?

A corrupção é sempre condenável e deve ser combatida de maneira implacável no Brasil, na Espanha e em todo o mundo. Contra esse flagelo, é preciso apoiar o trabalho de instituições fiscais, procuradores, juízes e forças de segurança. Esse tipo de operação demonstra a sua independência. É certo que também produzem alarme e mal-estar na população, mas são a prova evidente de que as instituições funcionam e não existe impunidade. Seis atentados terroristas em 30 dias de 2016

A Espanha e outros países da Europa têm sido alvos frequentes de ataques terroristas. O que o senhor pode comentar sobre isto?

A Espanha tem sofrido durante muitos anos a violência do ETA, que, felizmente, está em vias de desaparecer. Mas, agora, todos os países enfrentamos outro tipo de ameaça, que é a do terrorismo jihadista. É uma ameaça global, que requer uma resposta global da comunidade internacional. É preciso atuar sobre as novas formas de doutrinação, intercambiar informações entre os diversos serviços de Inteligência, atuar sobre os mecanismos de financiamento das redes e prevenir o fenômeno dos combatentes retornados. Sem dúvida, superaremos essa ameaça, como temos superado outras no passado. Mas só poderemos fazê-lo com muita cooperação internacional.

oglobo.globo.com | 23-04-2017

ISTAMBUL — Em meio a um cenário hostil, os turcos decidem neste domingo se concordam ou não em dar mais poderes a Recep Tayyip Erdogan. Eles votam em um referendo convocado pelo partido governista com o objetivo de consolidar a autoridade do presidente e confirmar a aprovação do governo, divididos pela política e pelo medo. E a vitória de Erdogan não está garantida. A última pesquisa de intenção de votos do instituto ANAR aponta uma vitória apertada do “sim”, com 52% dos votos. Turquia_domingo

O projeto do novo texto constitucional prevê 18 alterações. Caso o “sim” saia vitorioso, a Turquia deixaria de ser um parlamentarismo e passaria ao sistema presidencialista. O mandato de Erdogan aumentaria de quatro para cinco anos, e ele poderia, potencialmente, ficar no poder até 2029. O cargo de premier seria abolido, o número de deputados subiria de 550 para 600 e a idade mínima para se eleger cairia de 25 para 18 anos. Além disso, o presidente poderia nomear quatro dos 13 juízes para a mais alta corte do país.

— O governo turco deu um tiro no pé ao organizar o referendo. Eu acredito na vitória do “não”. Com isso, começaremos uma nova fase política, em que o governo terá que fazer alianças e entender que não pode administrar o país sem o apoio dos partidos da oposição — explicou o cientista político Mehmet Perinçek. — Todo o processo do referendo, da convocação à realização, dividiu a Turquia. Os turcos estavam unidos na luta comum contra o terrorismo, mas agora temos uma completa polarização no país.

Além do partido governista AKP (Partido da Justiça e Desenvolvimento), o “sim” é apoiado pelo MHP (Partido do Movimento Nacionalista), representando a direita nacionalista, religiosa e conservadora. Por outro lado, o “não” é apoiado pelos dois partidos de oposição (CHP, ou Partido Republicano do Povo, e HDP, Partido Democrático dos Povos), que abarcam a importante minoria curda e grupos sociais minoritários de esquerda.

Em cinco pontos, o que muda com a reforma constitucional na Turquia

Os apoiadores de Erdogan votam “sim” no referendo e desejam uma Turquia forte. Eles creem que concentrar os poderes no Executivo ajudará no combate ao terrorismo.

— Voto “sim” porque a Turquia precisa de estabilidade política. Com o sistema que o governo propõe no referendo, teremos a chance de uma continuidade administrativa, em vez de termos governos destituídos o tempo todo devido a desavenças políticas. O “sim” também é a melhor maneira de vencer inimigos externos e internos — afirma Süleyman Yumusak, de 23 anos, estudante de Direito.

O temor em fazer comentários

O “não” é defendido pelos opositores, que temem que a vitória de Erdogan legitime o autoritarismo do presidente e concentre ainda mais o poder nas suas mãos.

— Em um país tão grande e diverso como a Turquia, seria um erro que uma pessoa controlasse tudo, inclusive o Judiciário. Além disso, o país mudou muito nos últimos três anos. E para pior. As pessoas estão com medo, pessimistas ou resignadas. Esse não era o espírito da Turquia — explica o intérprete Bilge Eroglu, 22 anos.

O medo tem sido um sentimento constante na sociedade turca. Desde julho de 2015, mais de 500 pessoas morreram no país vítimas de atentados terroristas organizados pelo autoproclamado Estado Islâmico ou pelas milícias curdas. Um outro temor dos turcos é o de serem vistos pelo governo como suspeitos de conspiração contra o poder central.

Em 15 de julho do ano passado, houve uma tentativa frustrada de de golpe de Estado. Ancara acusa o líder muçulmano Fethullah Gulen, radicado nos Estados Unidos, de ter conspirado contra o governo, juntamente com seus apoiadores (“gulenistas”). Desde então, a Turquia está em estado de emergência, e mais de cem mil pessoas foram presas, demitidas ou suspensas, alegadamente por terem algum tipo de filiação gulenista.

— O meu marido (turco) trabalha em um dos ministérios aqui e estamos com medo. Muitos colegas dele foram suspensos ou demitidos. E eu parei de usar as redes sociais porque tenho medo de que qualquer comentário, talvez até mesmo de um amigo, seja um motivo para que o governo suspeite dele e da nossa família — conta uma brasileira que mora na Turquia há cinco anos e preferiu não se identificar.

Entenda o referendo na Turquia em um minuto

Votos no exterior serão decisivos

A caça às bruxas contra a oposição afetou funcionários públicos, policiais, militares, professores, jornalistas, intelectuais e juízes. De acordo com dados da oposição, 152 jornalistas estão presos.

— Muita gente diz que apoia Erdogan ou se declara apolítica por não querer ser tachada de antipatriota ou por medo de represálias. Na hora das urnas, espero que a oposição a Erdogan prevaleça. O descontentamento com o governo é muito forte, mas a Turquia está realmente dividida — diz a brasileira.

Diante de uma sociedade polarizada e um grande número de indecisos, Erdogan foi buscar na Europa os votos dos turcos no exterior. São três milhões fora do país com direito a voto, um número crucial para o governo. No último mês, no entanto, seus partidários foram impedidos de fazer comícios em diversos países europeus. Isso irritou Erdogan e terminou em uma intensa troca de ameaças e acusações entre o governo turco e os dos Países Baixos e da Alemanha.

Durante a crise diplomática, o presidente usou o sentimento patriótico para unificar os turcos contra um suposto mal comum. Bandeiras da Turquia — muitas com o rosto do mandatário — foram mais uma vez levadas às ruas e continuam por todas as partes do país.

A religião também assumiu um papel importante no atual governo da Turquia, país secular há quase cem anos. Erdogan tenta agradar os conservadores com demonstrações públicas da fé islâmica. Além disso, aumentou o imposto sobre o álcool e permitiu que mulheres pudessem usar o véu nas instituições públicas.

— A religião sempre foi algo pessoal. Não me importo em ser amigo de turcos de diferentes origens ou classes. Mas só me sinto confortável sendo amigo de turcos seculares. Antes, até mesmo pessoas religiosas concordavam que não deveríamos misturar religião e política. Tudo mudou — conta Umit Oncel, 25, psicólogo.

Nem todos veem uma alteração brusca:

— Será que tudo mudou de repente mesmo? — pergunta um amigo de Umit que preferiu não se identificar. — Talvez os turcos sempre tenham sido conservadores e agora estão quase dando amplos poderes ao presidente com quem eles mais se identificam. info - turquia Erdogan

oglobo.globo.com | 16-04-2017

BRASÍLIA - A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) determinou a extradição da brasileira Claudia Hoerig, ou Claudia Cristina Sobral, para os Estados Unidos. Embora tenha nascido no país, ela perdeu a nacionalidade brasileira ao se naturalizar norte-americana. Claudia é acusada de matar o marido, Karl Hoerig. Mas antes que o corpo fosse descoberto, em março de 2007, ela voltou ao Brasil.

O relator do caso, ministro Luís Roberto Barroso, impôs algumas condicionantes para que haja a extradição. Os Estados Unidos terão que se comprometer formalmente a não aplicar penas estranhas ao Direito brasileiro, a condená-la a no máximo 30 anos (como ocorre no Brasil), e a descontar o tempo que ela ficou presa para fins de extradição. Claudia não poderá, por exemplo, ser condenada à morte.

A defesa alegou que Claudia ainda deve ser considerada brasileira nata e que nunca pediu a perda de nacionalidade. A Constituição proíbe a extradição de brasileiros natos. Mas o único ministro contrário à extradição foi Marco Aurélio Mello. Os outros três da Primeira Turma - Alexandre de Moraes, Rosa Weber e Luiz Fux - seguiram o relator. Claudia Hoerig

Em depoimento, Claudia contou que se mudou para os Estados Unidos em 1989. Em 1990, ela conseguiu o "green card", podendo residir no país sem restrições. Em 28 de setembro de 1999, diz que se naturalizou com o objetivo de exercer plenamente a profissão de contadora.

O homicídio ocorreu em 12 de março de 2007. Em 19 de abril de 2016, a Primeira Turma do STF declarou a perda de nacionalidade de Claudia. No mesmo dia ela teve a prisão preventiva para fins de extradição decretada. Um dia depois foi detida na penitenciária feminina do Distrito Federal.

A Constituição estabelece que perderá a nacionalidade brasileira quem adquirir outra, salvo em dois casos. O primeiro quando o país estrangeiro reconhecer em sua legislação a nacionalidade originária. O segundo quando a naturalização é imposta para que o brasileiro residente no exterior possa permanecer por lá ou para o exercício de direitos civis.

O STF entendeu que nenhum dos dois casos se aplica à situação de Cláudia. Na avaliação do tribunal, a naturalização foi pretendida, desejada e voluntária. A Procuradoria-Geral da República (PGR) também foi a favor da extradição, lembrando que ela tinha status de residente permanente antes mesmo de se naturalizar.

"Há, ainda, muitos casos em que a perda de nacionalidade brasileira se dá em virtude de exigência do Estado estrangeiro nesse sentido. Áustria, Alemanha, Estados Unidos e Países Baixos são exemplos de países que exigem que o interessado renuncie à nacionalidade anterior ao completar o processo de naturalização", diz parecer do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, em 21 de setembro de 2016.

"Outrossim, em etapa obrigatória do procedimento norte-americano para a aquisição da cidadania norte-americana, resultante de conduta ativa da extraditada para integrar-se àquela sociedade, Claudia Cristina Sobral declarou, sob juramento, lealdade aos Estados Unidos, em renúncia a qualquer soberania estrangeira de quem tenha sido anteriormente cidadã", informou a PGR.

oglobo.globo.com | 28-03-2017

A Câmara de Comércio Exterior (Camex) editou seis resoluções que tratam de medidas de defesa comercial contra produtos importados de diferentes países. O detalhamento das decisões, com os respectivos valores das alíquotas a serem cobradas, está publicado no Diário Oficial da União (DOU) desta sexta-feira, 17.

A Resolução 3/2017 aplica direito antidumping definitivo, por até 5 anos, às importações brasileiras de pneus agrícolas vindas da China. Estão sujeitos à cobrança pneus diagonais com dimensões listadas na decisão. A medida não se aplica aos pneus de construção radial, para automóveis de passeio, para empilhadeiras, utilizados em carrinho de golfe, para veículo utilitário gator e para uso em máquinas mineradoras.

A Resolução 4/2017 aplica direito antidumping provisório às importações brasileiras de ésteres acéticos originárias dos Estados Unidos e do México. O recolhimento será cobrado por até 6 meses. O direito não se aplica aos produtos acondicionados em embalagens com capacidade não superior a 4 litros.

A Resolução 5/2017 cobrará direito antidumping por até 5 anos das importações brasileiras de vidros automotivos temperados e laminados vindas da China. Estão livres do encargo vidros blindados; vidros temperados e laminados cuja aplicação esteja destinada a motocicletas, ciclomotores, motonetas, triciclos, quadriciclos, tratores de rodas ou de esteiras, motocultores, cultivadores motorizados, colheitadeiras, guindastes, plataformas elevatórias, poliguindastes, dumpers concebidos para serem utilizados fora de estradas (off the road ), retroescavadeiras, cabines de maquinário não autopropulsado, locomotivas, aeronaves e embarcações; e tetos solares elétricos para automóveis e comerciais leves.

A Resolução 6/2017 homologa compromisso de preço e aplica direito antidumping definitivo, por até 5 anos, às importações brasileiras de batatas congeladas vindas da Alemanha, Bélgica, França e Países Baixos.

A Resolução 7/2017 prorroga a aplicação do direito antidumping definitivo, por um prazo de até 5 anos, às importações brasileiras de malhas de viscose vindas da China, e a Resolução 8/2017 estende a aplicação do direito antidumping definitivo às importações brasileiras de chapas grossas com adição de titânio originárias da China.

Veja aqui as resoluções.

BRASÍLIA - A saída dos Estados Unidos da Parceria Transpacífico (TPP), confirmada ontem pelo presidente Donald Trump, foi comemorada, discretamente, pelo governo brasileiro. Entre as razões para isso, a principal é que os produtos em que o Brasil concorre com os EUA (soja, açúcar, suco de laranja, carne bovina, entre outros) nesses mercados do Pacífico, especialmente o Japão, ficariam mais caros em relação aos americanos. Isso porque as exportações americanas deixariam de ser tributadas, ao contrário das vendas provenientes do Brasil.

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Na avaliação de fontes que estão na linha de frente da política externa brasileira, outro ponto favorável diz respeito às negociações entre Mercosul e União Europeia (UE). Espera-se que, com essa postura protecionista de Trump, os negociadores europeus voltem a focar o bloco sul-americano. Mesmo porque as perspectivas em torno da conclusão do Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio entre EUA e UE são praticamente nulas neste momento.

— Com o TPP, o produto brasileiro sairia mais caro que o americano. Ficará mais fácil para nós — afirmou o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro.

Para Roberto Abdenur, ex-embaixador do Brasil em Washington, a saída do TPP é boa para o Brasil “entre aspas”.

— O TPP agravaria a marginalização do Brasil no comércio internacional, prejudicaria nosso acesso aos mercados dos países participantes e imporia novos padrões técnicos e regulatórios que iriam além do que nosso visceral protecionismo admite — completou.

O presidente do Conselho Empresarial Brasil-China, Luiz Augusto de Castro Neves, enfatizou que a saída do TPP já era esperada. Segundo ele, Trump tenta, com isso, proteger industriais americanos mais antigos e menos competitivos. Ele concorda com o fato de o Brasil se beneficiar com a medida, mas acredita que os chineses é que sairão ganhando.

— Será aberto um enorme espaço de negociação comercial para a China — disse Castro Neves.

No campo bilateral, equipes dos governos do Brasil e dos EUA começam a se reunir no mês que vem, para construírem uma agenda comum, com itens como facilitação de comércio e investimentos. Os primeiros contatos se darão através das embaixadas dos dois países. Na avaliação do Itamaraty, o aumento do protecionismo a ser patrocinado por Trump não preocupa tanto o Brasil como os outros parceiros internacionais.

— Nós não somos uma fonte de problemas para os EUA. Temos um déficit comercial com eles (US$ 646 milhões em 2016) e, portanto, não somos um país com o qual os EUA precisam consertar a relação comercial — disse uma fonte do Itamaraty.

Além disso, os EUA são o país com maior estoque de Investimentos Estrangeiros Diretos (IEDs). No acumulado de janeiro a novembro de 2016, os EUA investiram US$ 5,66 bilhões no Brasil, o que o posiciona como o terceiro maior investidor estrangeiro no país. Já os investimentos brasileiros diretos tiveram nos EUA (US$ 1,354 bilhão) o quarto principal destino em 2016, atrás das Ilhas Cayman, Bahamas e Países Baixos.

oglobo.globo.com | 24-01-2017

O índice de sentimento econômico da zona do euro avançou de 106,6 em novembro para 107,8 em dezembro, o maior nível desde março de 2011, informou a Comissão Europeia nesta sexta-feira. Analistas ouvidos pelo Wall Street Journal previam alta para 106,9.

O índice de confiança do consumidor subiu de -6,2 em novembro, para -5,1 em dezembro, como o previsto pelos economistas, mas manteve-se em território negativo. O índice de confiança do setor industrial aumentou de -1,1 em novembro, para +0,1, acima da expectativa de -0,3.

Enquanto isso, a confiança do setor de serviços melhorou de +12,2 em novembro para +12,9 em dezembro. Já o índice de ambiente para negócios teve alta de +0,41 em novembro, para 0,79 no mês passado.

A recuperação do sentimento contribui para outros sinais de que a economia da zona do euro ganhou algum ímpeto no último trimestre do ano passado. No entanto, economistas e legisladores preocupam-se com a crescente incerteza sobre o resultado de uma série de eleições nos Países Baixos, na França e na Alemanha, que poderiam levar as empresas e as famílias a reterem as despesas, enfraquecendo assim uma recuperação já modesta.

RIO - Em 1º de janeiro, o coffee shop mais antigo de Amsterdã encerrou suas atividades após mais de 40 anos. Pioneiro no comércio legal de maconha na Holanda, o Yellow Mellow foi um dos 28 estabelecimentos afetados pela nova lei local que proíbe a venda e o consumo da erva a uma distância de até 250 metros de escolas.

bv amsterdã maconha

Verdadeiro ponto turístico na cidade holandesa, o estabelecimento - batizado com o nome de uma canção sobre fumar folhas de banana - foi enquadrado na nova regra por estar a 230 metros de uma escola para cabeleireiros. Apesar de a lei ter a intenção de evitar que estudantes comecem a usar a droga antes dos 18 anos, não há alunos menores de idade naquela instituição de ensino, segundo alega o proprietário do coffee shop, Johnny Petram.

Ao diário britânico "The Telegraph", ele contou ter planos de tentar levar a marca para outro endereço. Não seria a primeira mudança do Yellow Mellow, fundado em 1973 no prédio de uma antiga padaria, no bairro de Weesperzijde. Após um incêndio, reabriu no atual endereço, na Vijzelstraat, próximo ao museu da Heineken.

Também à publicação inglesa, o porta-voz da prefeitura de Amsterdã afirmou que a nova legislação é uma resposta à chamada "Weed Pass", nova lei que tenta proibir estrangeiros de comprar maconha legalmente nesses estabelecimentos, e que já está sendo implantada em outras partes dos Países Baixos. "De outra maneira talvez seríamos forçados a acatar a 'Weed Pass' e aí teríamos grandes problemas. É a maneira que encontramos para proteger os demais 167 coffee shops de Amsterdã", disse.

oglobo.globo.com | 04-01-2017

BRASÍLIA - A balança comercial apresentou em 2016 superávit de US$ 47,692 bilhões, o maior saldo da série histórica, com início em 1989. O valor é mais do que o dobro do registrado em 2015, de U$ 19,7 bilhões. O recorde anterior foi de US$ 46,456 bilhões, registrado em 2006, segundo dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC).

O resultado é consequência de exportações no valor de US$ 185,2 bilhões e importações de US$ 137,6 bilhões. A corrente de comércio (soma de todas as exportações e importações no ano) foi a menor registrada desde 2010.

Abrão Neto, secretário de Comércio Exterior, destacou a importância desse superávit para a manutenção dos estoques das reservas cambiais e a redução de 75% para o déficit das nossas contas externas.

— O resultado deve ser considerado positivo. Olhando para 2017, deveremos ter um resultado ainda melhor do que o de 2016, com aumento tanto de exportações quanto de importações — disse Neto.

Para José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), o resultado da balança foi um "superávit de Pirro" - referência à vitória mitológica que teria custado mais do que o seu resultado positivo.

— Com a queda das exportações e das importações não houve impacto positivo na economia, ao contrário, contribuiu para a consolidação das recessão econômica. O problema do Brasil é gerar receitas em reais decorrente de atividade no mercado interno. Como o problema do Brasil não é de divisas, o superávit recorde não ajuda a solucionar nosso problema interno. O superávit recorde massageia o ego psicologicamente, mas não economicamente, como todos esperam — disse Castro.

O volume de exportações foi recorde, com 645 milhões de toneladas exportadas. No total, houve uma alta de 2,9% na quantidade de exportações. No entanto, houve queda de 6,2% no preço médio das exportações. Já as importações caíram tanto em termos de preço quanto em quantidade, colaborando para o recorde do saldo.

Por conta da variação de preços e da desaceleração econômica, pela primeira vez o resultado da conta de petróleo e derivados foi positiva, de US$ 410 milhões, ante US$ 5,738 bilhões de déficit em 2015. Para Neto, porém, esse resultado positivo foi conjuntural, tendendo a retomar à média negativa apresentada desde 1997.

Daquilo que foi exportado, aumentou novamente a parcela de ativos industrializados, de 51,9% do total em valor em 2015 para 55% no ano passado. Segundo o MDIC, houve aumento de 2,2% na exportação de industrializados. Houve também aumento no número de empresas exportadoras, de 20.322 em 2015 para 22.205.

Os principais países para onde o Brasil exportou em 2016 foram, pela ordem, China, Estados Unidos, Argentina, Países Baixos e Alemanha. Já as principais importações foram feitas de China, Estados Unidos, Alemanha, Argintina e Coreia do Sul.

Em dezembro, foi registrado um forte crescimento mensal, de 9,3%, o primeiro na comparação com o mesmo mês do ano anterior desde setembro de 2014. Mas o secretário avalia que esse aumento ainda não é suficiente para indicar uma retomada da economia brasileira — o que tenderia a elevar as importações de maneira mais forte.

Para 2017, o MDIC prevê um aumento das exportações e das importações e projeta um superávit comercial em patamar semelhante ao de 2016, com um aumento da safra brasileira de grãos – embora com incerteza quanto aos preços agrícolas - e a melhora nos preços de minérios e do petróleo.

— Se confirmada a expectativa, poderá ser o primeiro aumento de exportações em cinco anos, desde 2011, e o primeiro de importações desde 2013 — disse Neto.

oglobo.globo.com | 02-01-2017

RIO - A adoção de uma moeda única na Europa coincide com a expansão do comércio entre o Brasil e o Velho Continente. Segundo Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, o fluxo comercial com a União Europeia saltou de US$ 29,1 bilhões, em 2002, para US$ 88,7 bilhões, em 2015, avanço de 204,8%. O bloco é o segundo maior parceiro comercial do Brasil, com exportações de café, soja e produtos siderúrgicos, atrás da China.

EURO EM 2017

— Considero o euro uma grande revolução monetária. Criou-se uma nova moeda reserva capaz de acabar com o monopólio do dólar. Para o Brasil, as fontes de recursos externos foram ampliadas. O euro aumentou as exportações para a União Europeia — diz Carlos Langoni, ex-presidente do Banco Central e diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getulio Vargas.

Para José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), o sucesso do euro como “concorrente” do dólar em transações internacionais é relativo. A criação da moeda coincide com o boom de commodities e não pode ser considerada o único fator por trás do aumento do fluxo comercial. Segundo ele, a participação do euro nas transações comerciais sempre girou de 10% a 15%, não chegando a dividir a participação com o dólar:

— O que era para ser uma moeda aparentemente estável mostrou que está sujeita às flutuações do momento, por razões econômicas e políticas. Foi boa a participação do euro nesses 15 anos, embora não tenha alcançado o que se imaginava. O euro não é destaque, mas também não é uma decepção.

Lia Vals Pereira, professora da FGV, concorda:

— Moeda única facilita o comércio pelo menor custo de transação. Quando o euro foi criado, a moeda se valorizou, o que facilita exportações para o bloco.

Além do comércio, o euro impulsionou investimento estrangeiro direto (IED) da Europa no Brasil. Segundo dados da Eurostat, o fluxo de recursos para o Brasil cresceu mais de 11 vezes entre 2003 e 2012, alcançando € 24,9 bilhões em 2012.

Brasil atrai espanhóis

Luis Afonso Lima, diretor-presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e Globalização Econômica (Sobeet), diz que a divisa explica esses resultados.

— O ganho mais óbvio é o custo de transação. Ficou mais fácil fazer investimentos em outros países. Algumas economias foram beneficiadas. O caso mais exemplar é o da Espanha, que era um país fechado comparativamente aos outros e, com a adoção do euro, teve uma internacionalização. Isso nos beneficiou. O Brasil acabou virando um grande receptor de investimentos espanhóis — afirma Afonso, acrescentando que a Espanha é o terceiro maior investidor estrangeiro direto do Brasil, atrás de EUA e Países Baixos.

O economista avalia ainda que o Brasil se beneficiou quando a crise internacional atingiu mais fortemente a Europa, em 2011, tornando-se refúgio para companhias europeias.

Langoni, da FGV, avalia que o saldo dos 15 anos é positivo para o Brasil e para o mundo, embora a economia da região esteja diante de desafios importantes:

— O saldo é positivo. Se o Reino Unido tivesse aderido ao euro, a saída seria mais difícil, talvez impossível. O impacto da desvalorização acentuada da libra seria importante desestímulo para a onda neopopulista e protecionista que varreu o Reino Unido. Esse efeito vai ser testado nas eleições francesas de março.

oglobo.globo.com | 01-01-2017

Os ministros de Finanças da zona do euro (Eurogrupo) concordaram nesta segunda-feira em um pacote de medidas de curto prazo para aliviar a dívida da Grécia e reduzi-la em cerca de um quinto até 2060.

As medidas, propostas pelo Mecanismo Europeu de Estabilidade (ESM, na sigla em inglês), o fundo de resgate da zona do euro, visam aliviar a dívida da Grécia, estendendo alguns prazos e bloqueando os juros de alguns empréstimos da Grécia para protegê-la de futuros aumentos de taxas de juros. As mudanças começarão a ser implementadas nas próximas semanas.

Estas variam desde a troca de obrigações de taxa variável, mantidas por bancos gregos como parte das recapitalizações bancárias do país, para dívidas de taxa fixa e pelo uso de swaps de taxa de juro para fixar os pagamentos que a Grécia paga em alguns empréstimos do ESM. Incluem também fazer alguns desembolsos futuros para a Grécia em empréstimos a taxa fixa. Fonte: Dow Jones Newswires.

Os ministros, reunidos em Bruxelas para sua reunião mensal, esperavam aproximar-se de um conjunto de reformas que a Grécia deve aprovar sob o seu resgate, que poderia chegar a 86 bilhões de euros, bem como uma série de medidas de alívio da dívida de seus países europeus credores. Ambos os passos são necessários para que o Fundo Monetário Internacional (FMI) participe do resgate.

Em maio, os credores da Grécia acordaram num quadro de medidas de curto, médio e longo prazo para reduzir a dívida da Grécia para níveis considerados sustentáveis, sem sobrecarregar os contribuintes europeus.

No entanto, a Alemanha e outros países da zona do euro têm relutado em discutir uma nova reestruturação da dívida para além das medidas de curto prazo até 2018, após as eleições na Alemanha e nos Países Baixos.

O alívio da dívida a curto prazo inclui três conjuntos de medidas, das quais a mais eficaz seria bloquear a taxa de juro que a Grécia paga sobre alguns empréstimos correntes e futuros. Fonte: Dow Jones Newswires.

A partir de hoje (31/08), as primeiras delegações esportivas começam a chegar ao local que chamarão de casa até o dia 18 de setembro. Ao todo, 2.500 pessoas, representantes das 162 delegações que competirão nos Jogos Paralímpicos, devem entrar nos apartamentos da Vila dos Atletas do Rio ao longo do dia. São aguardados atletas do Brasil, Estados Unidos, Grã-Bretanha, Canadá, Países Baixos, entre outros.

A área de 200 mil metros quadrados conta com 31 prédios de até 17 andares e um total de 3.064 apartamentos. A expectativa é que cerca de seis mil pessoas fiquem hospedadas no local durante as competições. Os apartamentos são completamente acessíveis e permitem o deslocamento de atletas cadeirantes sem dificuldades. Há também espaço para receber cães-guia, frequentemente utilizados por deficientes visuais. “Nunca estive num lugar com tanta beleza natural e pessoas tão gentis. Por isso tudo, acho que o Brasil será uma grande sede para os Jogos”, declara Jason Smyth, da Irlanda, que já conquistou quatro ouros no atletismo paralímpico.

O espaço também conta com todas as facilidades das quais os atletas necessitam, como academia, refeitório e a Policlínica, uma área médica com tecnologia de ponta para garantir a saúde e o bem-estar dos ilustres hóspedes, equipada com modernos equipamentos de diagnóstico por imagem e um software (EMR, da sigla em inglês) que unifica todas as informações de atendimento em uma mesma plataforma na nuvem, todos providos pela GE. A principal novidade em relação aos Jogos Olímpicos é o Centro de Reparos de Órteses e Próteses, que é operado pela Ottobock, patrocinadora do Comitê Paralímpico Internacional (IPC, da sigla em inglês).

Restaurante na Vila dos Atletas passou por mudanças

Com 27 mil m², o local, que chegou a servir 65 mil refeições em um único dia durante os Jogos Olímpicos, passou por algumas adaptações e ficará mais aconchegante para os atletas Paralímpicos.O gigantesco restaurante montado na Vila dos Atletas, apontado como o segundo maior do mundo – atrás apenas do Damascus Gate, na Síria –, foi montado em uma tenda de 27 mil metros quadrados (equivalente a dois campos de futebol), sendo que 9 mil m² são apenas para a cozinha.

As estações de comida serão as mesmas. A mais curiosa e fiel representante do espírito olímpico é a que une comidas judaica e islâmica em uma mesma ilha: Kosher & Halal. Há também as bancadas de Sabores do Brasil, Sabores do Mundo, Pizza & Pasta e Ásia & Índia, além das estações de frutas, pães, saladas e sobremesas.

Fileiras de mesas e cadeiras foram removidas para que os cadeirantes circulem sem grandes problemas. Algumas estações terão a altura reduzida para facilitar o acesso aos alimentos. De resto, a equipe responsável pelo espaço espera ter o mesmo clima de alegria e convivência dos atletas dos Jogos Rio 2016, quando foram servidas diariamente cerca de 200 toneladas de comida, entre 100 mil pães, três mil pizzas, incluindo as sem glúten e integrais, 120 toneladas de frutas, 30 toneladas de folhagens e 700 mil doses de café.

"A ideia é tornar o espaço mais aconchegante, já que ele foi desenvolvido pensando nos momentos de pico, quando sete mil atletas vinham ao mesmo tempo comer aqui. Nas Paralimpíadas, os números serão menores e as mudanças vão facilitar a vida dos atletas", afirmou Flávia Albuquerque, gerente de alimentos e bebidas da Vila dos Atletas.

oglobo.globo.com | 02-09-2016

Drone Domino's

WELLINGTON (Nova Zelândia) - A Nova Zelândia, primeiro país a permitir o voto feminino e a adotar metas de inflação, agora reclama outro pioneirismo: ser o primeiro lugar em que as entregas de pizza são feitas por drones. A iniciativa é da Domino’s, que planeja iniciar os testes no fim deste ano.

A pizzaria anunciou, nesta quinta-feira, uma parceria com a Flirtey, uma empresa que se classifica como operadora de “robôs voadores”, para realizar a primeira entrega comercial de pizzas por meio de drones. O plano é usar os drones também em Austrália, Bélgica, França, Países Baixos, Japão e Alemanha.

Na visão da Domino’s, as pessoas vão fazer os pedidos a partir de um aplicativo para smartphone, e os drones serão capazes de entregar no local ao seguir o sinal do GPS do celular. Quando a pizza estiver chegando, o consumidor receberá uma notificação, e o produto será baixado por meio de um cabo, garantindo que os drones permaneçam no alto, longe do público.

Companhias em todo o mundo estão, cada vez mais, buscando os drones como uma opção viável e mais eficiente de entregas, com a Amazon anunciando planos para usá-los em compras que caibam em pacotes pequenos assim que as questões de segurança e regulação sejam resolvidas.

A Nova Zelândia adotou, no ano passado, novas regras para a aviação com o objetivo de regulamentar e permitir o uso de drones para fins comerciais.

ROBÔ PARA ENTREGAS

O governo do país também revisou leis para veículos sem motorista e está “ativamente promovendo a Nova Zelândia como pista de teste para novas tecnologias de transporte”, afirmou Simon Bridges, ministro dos Transportes, em um comunicado em separado dando as boas-vindas aos testes da pizzaria.

Contudo, nem todos receberam bem a novidade.

“Como ficam os empregos dos entregadores de pizza?”, questionou a porta-voz do Partido Verde da Nova Zelândia em um tuíte. “O governo agora está se aliando às grandes empresas para substituir os seus empregos por robôs”.

Enquanto alguns alegam que pizzas já foram entregues por drones, incluindo por um restaurante em Bombaim, a Domino’s insiste que seus testes serão “o primeiro serviço de entregas com drones no mundo” para qualquer produto.

No início do ano, a pizzaria já havia apresentado outra opção “tecnológica” de entrega: o DRU, sigla em inglês para “unidade robótica da Domino’s”.

oglobo.globo.com | 25-08-2016

RIO - Eles merecem medalha de ouro em aventura rodoviária. Duas caravanas de holandeses encararam milhares de quilômetros de estrada desde Paramaribo, no Suriname, para sentir o clima da Olimpíada por aqui. Apesar de serem compatriotas e terem os mesmos pontos de partida e chegada, as duas turmas mal sabiam uma da outra. Se, na Copa de 2014, a invasão motorizada foi Argentina, nos Jogos Rio-2016 a grande zebra foi a frota dos Países Baixos.

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Os mais doidos foram os participantes do raid Transamazonica 2016. Saíram do Suriname (antiga Guiana Holandesa) no dia 11 de julho e chegaram ao Rio no dia 2 de agosto, após 7 mil quilômetros de muita lama. O que torna esta viagem especialmente impressionante é que os 23 carros eram da marca Volvo e fabricados entre as décadas de 1950 e 1980. Havia ainda quatro jipões Toyota de apoio.

DE AMAZON NA AMAZÔNIA

O evento foi organizado por um grupo chamado Amazon Adventures, que já produziu diversos raids deste tipo ao redor do mundo, percorrendo paragens remotas — já foram até a China e cruzaram o Saara, sempre com os carros da marca sueca. O nome, aliás, faz trocadilho com uma linha clássica da Volvo, os modelos Amazon, fabricados entre 1956 e 1970.

Além dos Amazon, vieram os modelos da “fase cubista” da marca, como os Volvo 144 e 240. A caravana incluiu até uma P1800ES de 1973, caminhonete esportiva ao estilo shooting brake, que parece nada apropriada a aventuras na lama.

Para organizar a viagem de Paramaribo ao Rio, o pessoal da Amazon Adventures chamou Olaf Hendriksz, um holandês especializado em passeios de 4x4 pela América do Sul.

— O Transamazonica 2016 não foi um rali com médias horárias a serem cumpridas, mas um grande passeio com o roteiro previamente planejado onde todos seguiram praticamente juntos durante todos os dias de viagem — explica Olaf.

Entre os participantes, havia desde um adolescente de 14 anos que acompanhou o pai até alguns setentões aventureiros, todos obviamente apaixonados por Volvo. Eles pagaram € 6 mil por pessoa, valor que incluiu praticamente tudo: passagens aéreas, transporte dos carros, hotéis e comida.

— Todos os carros vieram de navio da Holanda até o Suriname, onde os participantes já haviam chegado de avião para recebê-los — conta Olaf, que traçou um roteiro por regiões de climas e terrenos variados, como a Gran Sabana do sudeste da Venezuela, a Floresta Amazônica e o cerrado do Centro-Oste brasileiro. Havendo opção de estradas sem asfalto, melhor!

De Paramaribo, os carros foram para Georgetown, na Guiana. Daí entraram no Brasil por Roraima, descendo até Manaus, Porto Velho, Cuiabá, Brasília, Ouro Preto e, finalmente, o Rio.

Apesar da idade avançada dos veículos, não houve qualquer baixa: todos chegaram rodando por seus próprios meios. Os velhos Volvo, porém, não tiveram tempo de esquentar muito por aqui: já foram despachados, de navio, de volta para a Holanda. Muitos de seus donos, porém, ainda estão na cidade, agora se aventurando de metrô, BRT e trens da Central entre os estádios.

LARANJAS MECÂNICAS

A outra turma de holandeses fez a expedição Oranje Trophy, que veio ao Rio por um caminho ainda mais longo, com 12 mil quilômetros. A parte inicial foi mais ou menos pelo mesmo caminho do grupo dos Volvo, enfrentando a temida BR-319, entre Manaus e Porto Velho. Daí, contudo, eles fizeram um “pequeno desvio” para visitar Machu Picchu, no Peru. Desceram pelo deserto de Atacama, no Chile, visitaram o lindo desfiladeiro de Cafayate, no Norte da Argentina, e entraram no Brasil por Foz do Iguaçu.

Após 42 dias de viagem, os 12 jipões cor de laranja (na maioria, Toyota Land Cruiser de gerações variadas, Mercedes Classe G e até Hyundai Galloper) chegaram ao Rio na sexta-passada, a tempo da cerimônia de abertura da Olimpíada.

Na chegada, fizeram um pequeno carnaval em Botafogo. Daí partiram para a Casa da Holanda, na Lagoa, e agora estão espalhados por apartamentos alugados pela cidade.

É a segunda vez que um grupo Oranje Trophy vem ao Brasil para um evento esportivo. A primeira viagem foi para a Copa de 2014, quando percorreram 25 mil quilômetros desde Nova York, para ver a seleção holandesa em Salvador e São Paulo. Na época, usaram motos bigtrail modernas, além de Kombi e modelos Opel e Mercedes dos anos 1970. A maratona rodoviária, pelo visto, vicia.

(*Especial para O GLOBO)

oglobo.globo.com | 10-08-2016

RIO — São 207 delegações, incluindo o time de refugiados, capitaneado pela velocista Rose Lokonyen Nathike, que carregará a bandeira dos dez atletas apátridas que participam dos Jogos do Rio. Honrando a tradição, a Grécia abre o desfile, trazendo a velejadora Sofia Bekatorou como porta-bandeira. A apresentação das delegações seguirá a ordem alfabética do português — idioma oficial dos jogos — até a apresentação da equipe brasileira, que, como, como manda o script, encerra a cerimônia como país-sede, com Yane Marques, atleta do pentatlo moderno, carregando a bandeira nacional. Conheça todos os esportes olímpicos da Rio-2016

Astros olímpicos devem atrair atenção na apresentação das delegações. Maior medalhista da História das Olimpíadas, o nadador Michael Phelps carregara a bandeira dos Estados Unidos, enquanto o judoca Teddy Riner, ouro em Londres, será o porta-bandeira da França. Outro vencedor na última Olimpíada, o tenista Rafael nadal, terá a honra de carregar a bandeira espanhola. Esperanças de medalhas, a ginasta romena Catarina Ponor, e a velocista jamaicana Shelly-Ann Fraser-Pryce também levarão a bandeira de suas nações na entrada das delegações. 'O importante é competir': veja os improváveis heróis olímpicos

A classificação por ordem alfabética gerou algumas situações inusitadas para a apresentação das delegações. Com o velocista Luguelín Santos, medalhista em Londres, como porta-bandeira, a República Dominicana será a 60ª delegação a entrar, entre a equipe de Dominica e a do Egito, enquanto a República Tcheca é a 186ª, na letra T, entre a Tanzânia e o Timor-Leste. As Coreias do Sul e do Norte, que entraram juntas nas Olimpíadas de Sydney, desta vez surgem bastante separadas. Os atletas sul-coreanos entram na letra C, como “Republica da Coreia”, enquanto a Coreia do Norte, batizada de “República Popular Democrática da Coreia” abre a letra R. A Holanda vai na letra P, de “Países Baixos”, enquanto a Macedônia, até hoje não reconhecida oficialmente pelos gregos, entra na letra E, de “Ex-república iugoslava da Macedônia”. Sete ausências de peso nos Jogos do Rio

Espalhadas pelo desfile, as ilhas Cayman, Cook, Marshall, Salomão, Virgens Americanas e Virgens Britânicas estão todas longe da letra I. Já os Atletas Olímpicos Independentes serão a 14ª delegação a entrar, entre Aruba e Austrália.

oglobo.globo.com | 05-08-2016

De qualquer ângulo e sob qualquer aspecto — organização, atmosfera, hospitalidade, instalações, astral —, Sydney foi um deleite.

Quem não gosta de ser acolhido com alegria sem frescuras? A versão tropical do idioma inglês começava com o irresistível G’day (bom dia) e resolvia eventuais entraves com um apaziguador no worries. O clima geral naquele país fanático por esportes era de satisfação por estar recebendo os Jogos.

O entusiasmo com que mais de 16 mil profissionais de mídia (5.298 de jornais e revistas, 10.735 de TV e rádio, além de 5 mil operadores técnicos) cruzaram mares e continentes para estar em Sydney contou com forte incentivo visual. O chamariz foi o número especial da revista de arte Black&White, dedicado à equipe olímpica australiana. Editada em Sydney e disponível nas grandes livrarias de cidades cosmopolitas, a publicação selecionara 29 homens e mulheres da esquadra do país-sede para fazer uma ode ao corpo atlético. Dorrit Harazim, a série

Todos foram fotografados vestindo um mesmo uniforme: o próprio corpo nu, atlético e esplêndido, ora em movimento, ora captados quando parecem parar o tempo. As fotos mesclavam o rigor da germânica Leni Riefenstahl com pitadas da cultura solar australiana e resultaram num memorável ensaio imitado, desde então, por vários fotógrafos de outros países. Nenhuma das imitações deu certo. A edição de 2000 tinha por título The Sydney Dream, era sequência do piloto lançado para os Jogos de Atlanta quatro anos antes, e vale a pena ser revisitado até hoje. Continua disponível on-line por menos de US$ 20.

Em Sydney coube ao porta-bandeira da delegação de quatro atletas da Guiné Equatorial tornar-se a primeira celebridade instantânea com uma receita não planejada. Eric Moussambani saiu do anonimato no quarto dia dos Jogos ao quase afogar-se perante as 17 mil pessoas que assistiam à série de eliminatórias da nobilíssima prova dos 100 metros nado livre, no International Aquatic Center. Outros 3,5 bilhões de telespectadores globais também puderam acompanhar o feito.

O nadador chegara a Sydney como um dos chamados wild cards, ou atleta convidado, presentes em todos os Jogos. Segundo normas adotadas pelas federações de atletismo e natação, é permitido ao país que não tem atletas com índice olímpico credenciar dois competidores — um homem e uma mulher — para disputarem uma prova individual cada. Independentemente das respectivas qualificações ou habilidades. Tudo em nome do espírito olímpico universal.

Ao pinçar Moussambani, a Guiné Equatorial deu de presente para a mídia um personagem de biografia irresistível sob medida. E todos a consumiram com voracidade a partir do momento em que o nadador levou 1m52s72 para perfazer os 100 metros da prova — com esse tempo, o holandês Pieter van den Hoogenband, que conquistou o ouro na final, atravessaria a piscina quatro vezes e meia.

Como os dois adversários do africano na eliminatória haviam sido desclassificados por queimar a largada, ele teve de se arrastar completamente sozinho na piscina, tornando sua performance ainda mais surreal. Ao final, tendo abandonado o último vestígio de qualquer estilo, nadava cachorrinho. Mas completou a prova. Saiu cabisbaixo, acenou timidamente para a arquibancada que o aplaudia sem parar, e, segundo o historiador olímpico David Wallechinsky, foi chorar no vestiário.

No dia seguinte tornara-se celebridade mundial, ganhara patrocínio e maiô pele de tubarão da Speedo, um apelido (“a Enguia") e uma agenda lotada de pedidos de entrevistas. Soube-se assim que em criança ele nadara com crocodilos e que até então jamais havia visto uma piscina olímpica — a maior em seu país tinha 20 metros. Mas não desistiu. No Mundial do ano seguinte realizado em Fukuoka, Japão, lá estava Moussambani, prudentemente na prova mais curta de 50 metros. Conseguiu chegar seis segundos à frente de um competidor de Antígua.

Pelo menos uma coisa era certa: sobre a Enguia não pairava a suspeita de doping, vírus que a cada nova edição dos Jogos mais contaminava os pódios olímpicos. Em Sydney 18 atletas e 2 técnicos foram expulsos dos Jogos por malfeitos envolvendo a fraude. Outros 40 foram barrados por testes com resultados positivos feitos antes de chegarem à Austrália.

Não por acaso, à última hora, 27 competidores chineses haviam desistido de comparecer aos Jogos e nenhum recorde mundial nas pistas de atletismo foi batido em Sydney. O aviso da introdução dos temidos testes capazes de detectar a presença do hormônio sintético EPO (eritropoietina, que aumenta a produção de glóbulos vermelhos no sangue) pode ter espantado os mais destemidos. De todo modo, aquela primeiro geração de testes de sangue só foi capaz de monitorar doping ocorrido até 72 horas antes da coleta do material.

Ao contraio do atletismo, a natação rendeu um maná de resultados. Quase desconcertantes. Quando Pieter van den Hoogenband estraçalhou o recorde mundial dos 100m livre, nadando abaixo da marca mítica dos 48 segundos, o Centro Aquático explodiu em festa apesar do herói festejado ser filho de terra estrangeira.

VDH, como passou a ser chamado por quem se confundia com o longo sobrenome — isto é, todo mundo menos alguns europeus — passou a herói da hora. Numa prova em que recordes são batidos em não mais do que centésimos de segundos, o holandês capou mais de três décimos da marca anterior de 48s18. Um assombro. De quebra, também abortou a meta do russo Alexander Popov de se tornar tricampeão olímpico na modalidade. Contrariando a norma de que todo medalhado deve comparecer a uma entrevista coletiva ostentando o troféu pendurado no pescoço, o russo enfrentou os holofotes com a medalha no bolso — era apenas de prata, metal de peso indigno para as expectativas do Príncipe da Velocidade.

Assistir a provas olímpicas ao vivo num país apaixonado por esportes e fanático por natação foi, sem dúvida, uma experiência à parte. Nas provas de revezamento, por exemplo, as arquibancadas se punham de pé, cantavam rock e batiam palmas ritmadas com as braçadas dos nadadores. Sinfonia nova para mim.

O peixe grande vindo dos Países Baixos também estragou a coroação que a Austrália preparava para o calouro sensação da casa, Ian Thorpe, de 17 anos e pés tamanho 50. Esperava-se que Thorpe conquistasse quatro medalhas de ouro (2 individuais, 2 em revezamentos) a bordo de seu dramático traje negro inteiriço, que imitava pele de tubarão. VDH cortou-lhe o voo na prova individual dos 200m nado livre, com direito a quebra de recorde mundial, e também levou o ouro nos 50m, novamente com quebra de recorde. Coincidência ou não, sua compatriota Inge de Bruijn, com quem dividia o técnico, também fez terra arrasada na piscina olímpica de Sydney, quebrando três recordes mundiais em três provas individuais. “Não respondo a perguntas sobre doping”, informava aos jornalistas que a aguardavam após cada vitória. A sala rapidamente se esvaziava à metade.

Houve quem atribuísse as boas marcas na natação ao fato de a piscina ser “a mais rápida do mundo”, como a definiu o velocista americano Gary Hall, Jr. A água esterilizada e tratada com ozônio para ganhar em estabilidade tinha temperatura igual à do ambiente para que o corpo do atleta não perdesse energia ao entrar em contato com ela, novidade para a época.

Teve mais razão, porém, quem associou os formidáveis desempenhos à estreia dos maiôs que encobriam os nadadores do pescoço aos tornozelos, fazendo dos blocos de largada quase uma cena de ficção científica. Cabe registrar que Popov não esteve entre os que aderiram à novidade hoje proibida. “Compito com minha própria pele”, dizia, altivo. E perdeu.

Meses antes do início dos Jogos, o americano Tom Malchow, dos 200m borboleta, fora o primeiro nadador da história a bater um recorde mundial meses antes enfiado numa dessas roupas fastskin. Defensor apaixonado da novidade, ele estava convencido de que por comprimir a musculatura, e portanto reduzir o acúmulo de ácido lático no corpo, além de diminuir brutalmente o atrito com a água, o revolucionário maiô era o grande diferencial.

Malchow ia além. Ele também dizia sentir-se como Clark Kent vestindo a roupa de Super-Homem, tamanha era a confiança que adquiria ao se enfiar na armadura.

Mas o maior lucro acabou indo para a Speedo, fabricante da roupa que prometia um ganho de 3% a 4% no desempenho na água. A marca subiu ao pódio 88 vezes só nos seis primeiros dias de provas e abiscoitou 81% do total de medalhas dali.

Desde 2010, e por pressão de nadadores de ponta encabeçados pelo maior de todos, Michael Phelps, os controvertidos maiôs de corpo inteiro à base de poliuretano estão proibidos pela Federação Internacional de Natação.

É possível, portanto, que alguns recordes alcançados com esses maiôs jamais consigam ser melhorados, da mesma forma que vários recordes antigos movidos a doping. E se nos Jogos de 2000 alguns resultados tiverem somado os dois fatores — pele de tubarão + substâncias ilícitas?

O vírus do doping tem isso de insidioso: ele dissemina suspeitas sem comprovação, até matar o esporte. Ou vice-versa — até o esporte domar o doping de medo. Matá-lo é impossível.

Numa edição dos Jogos que devolveu um sentido de jovialidade popular ao movimento olímpico e em que festas de rua pipocavam sem motivo, a Austrália se manteve à altura de sua reputação até o final. Na Cerimônia de Encerramento um rock sacolejante trovejou, e gloriosas Priscillas, Rainhas do Deserto fizeram festa no gramado. Tampouco faltou a característica nacional de fazer rir sobretudo dos próprios australianos, com a conhecida verve antiautoritária.

Temas sérios e essenciais à história da nação, como a marginalização da população aborígene, também conseguiram ser desengavetados durante os Jogos. E com grande pompa e circunstância, quando até a véspera ainda eram considerados tóxicos. A escolha da velocista aborígene Cathy Freeman para acender a pira olímpica foi um marco, e as repetidas menções à herança aborígene que constaram dos discursos oficiais não passaram despercebidas. A banda Midnight Oil se apresentou envergando camisetas e calças marcadas com a palavra “Sorry” — referência a um até então inexistente pedido de desculpas do governo australiano pelo tenebroso tratamento imposto a gerações e gerações de aborígenes.

Foi o início de uma sofrida reconciliação mediada, de certa forma, pelos Jogos. Oito anos depois viria o ansiado pedido de desculpas pelas leis de assimilação que, entre outros, retiravam crianças aborígenes de suas famílias para serem criadas por brancos. Uma dessas crianças foi Cathy Freeman. Quando ela cruzou a linha de chegada nos 400m rasos e conquistou a mais celebrada das 16 medalhas de ouro que deram à Austrália o quarto lugar no cômputo geral, o estádio olímpico veio abaixo.

Um total de quase 60 medalhas para uma nação de 19 milhões de habitantes é espetacular. Dava gosto de ver que, mesmo quando não havia nenhum atleta australiano no pódio, ninguém arredava pé das arquibancadas até o final das cerimônias de premiação. Quem realmente gosta de esportes sabe que todo minuto olímpico conta.

Escrevi na época que só poderia mesmo ter sido nos Jogos de Sydney, onde se celebrou como nunca a mulher atleta plena, orgulhosa de seus músculos e vaidosa de seu corpo, que surgiria um mulherão como Tatiana Grigorieva. No tablado de Ginástica do Super Dome, continuavam a atuar como sempre atletas em miniatura capazes de feitos extraordinários, como saltar no cavalo a uma velocidade de 25 km/hora. Eram as que devem portar franjas e topetes endurecidos de laquê, presilhas no cabelo, e maquiagem carregada demais para a aparência infantil. Eram as meninas que pareciam em descompasso com a atleta celebrada no ano 2000.

Essa estava em exposição total no Estádio Austrália, na prova de salto com vara feminino — modalidade do atletismo até então vetada a mulheres. Cada vez que a silhueta esguia e bronzeada de Grigorieva se colocava em marcha para um novo salto, a arquibancada do estádio aplaudia a cadência das passadas, em delírio. E cada vez que os telões focavam o rosto de traços eslavos e olhos de azul-esverdeado, emoldurados por uma penca de cabelos loiros, a alegria era maior. Embora nascida em São Petersburgo, ela competia pela Austrália.

“Quero mostrar que uma mulher que compete no esporte pode ser uma mulher linda e que sabe se cuidar”, diria ela sem modéstia, depois de conquistar a medalha de prata. Provavelmente também concorda que merece as sete fotos a que teve direito no ensaio de nus olímpicos da “Black&White".

Da delegação brasileira que levou 205 atletas para os XXVII Jogos e de lá voltou com 6 pratas e 6 bronzes, nosso melhor embaixador foi Gustavo Kuerten. Nem poderia ser diferente. Guga e o espírito que reinou em Sydney foram feitos um para o outro. Apesar de milionário e de ter se tornado pouco antes da Olimpíada bicampeão do Torneio de Roland Garros, em Paris, o brasileiro optou por alojar-se na Vila dos Atletas, da qual as celebridades do esporte fogem como da peste. Eles costumam alugar mansões ou hospedar-se em hotéis para fugir do assédio e poder se concentrar. Guga, como é de seu feitio, distribuía autógrafos como se não houvesse competição pela frente. Encarou o bandejão e o alojamento comum. Não ganhou medalha. Conquistou simpatia.

De certa forma, os Jogos de 2000 foram uma espécie de último Baile da Ilha Fiscal. Só que desta vez o apagar das luzes não foi o da monarquia brasileira. Foi o do mundo que existiu antes do atentado terrorista de 11 de Setembro de 2001. Ninguém sabia, mas em Sydney dançou-se sobre um vulcão chamado Al-Qaeda. A partir da Olimpíada de Atenas de 2004, tudo seria diferente.

oglobo.globo.com | 08-07-2016
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