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Países Baixos

A partir de hoje (31/08), as primeiras delegações esportivas começam a chegar ao local que chamarão de casa até o dia 18 de setembro. Ao todo, 2.500 pessoas, representantes das 162 delegações que competirão nos Jogos Paralímpicos, devem entrar nos apartamentos da Vila dos Atletas do Rio ao longo do dia. São aguardados atletas do Brasil, Estados Unidos, Grã-Bretanha, Canadá, Países Baixos, entre outros.

A área de 200 mil metros quadrados conta com 31 prédios de até 17 andares e um total de 3.064 apartamentos. A expectativa é que cerca de seis mil pessoas fiquem hospedadas no local durante as competições. Os apartamentos são completamente acessíveis e permitem o deslocamento de atletas cadeirantes sem dificuldades. Há também espaço para receber cães-guia, frequentemente utilizados por deficientes visuais. “Nunca estive num lugar com tanta beleza natural e pessoas tão gentis. Por isso tudo, acho que o Brasil será uma grande sede para os Jogos”, declara Jason Smyth, da Irlanda, que já conquistou quatro ouros no atletismo paralímpico.

O espaço também conta com todas as facilidades das quais os atletas necessitam, como academia, refeitório e a Policlínica, uma área médica com tecnologia de ponta para garantir a saúde e o bem-estar dos ilustres hóspedes, equipada com modernos equipamentos de diagnóstico por imagem e um software (EMR, da sigla em inglês) que unifica todas as informações de atendimento em uma mesma plataforma na nuvem, todos providos pela GE. A principal novidade em relação aos Jogos Olímpicos é o Centro de Reparos de Órteses e Próteses, que é operado pela Ottobock, patrocinadora do Comitê Paralímpico Internacional (IPC, da sigla em inglês).

Restaurante na Vila dos Atletas passou por mudanças

Com 27 mil m², o local, que chegou a servir 65 mil refeições em um único dia durante os Jogos Olímpicos, passou por algumas adaptações e ficará mais aconchegante para os atletas Paralímpicos.O gigantesco restaurante montado na Vila dos Atletas, apontado como o segundo maior do mundo – atrás apenas do Damascus Gate, na Síria –, foi montado em uma tenda de 27 mil metros quadrados (equivalente a dois campos de futebol), sendo que 9 mil m² são apenas para a cozinha.

As estações de comida serão as mesmas. A mais curiosa e fiel representante do espírito olímpico é a que une comidas judaica e islâmica em uma mesma ilha: Kosher & Halal. Há também as bancadas de Sabores do Brasil, Sabores do Mundo, Pizza & Pasta e Ásia & Índia, além das estações de frutas, pães, saladas e sobremesas.

Fileiras de mesas e cadeiras foram removidas para que os cadeirantes circulem sem grandes problemas. Algumas estações terão a altura reduzida para facilitar o acesso aos alimentos. De resto, a equipe responsável pelo espaço espera ter o mesmo clima de alegria e convivência dos atletas dos Jogos Rio 2016, quando foram servidas diariamente cerca de 200 toneladas de comida, entre 100 mil pães, três mil pizzas, incluindo as sem glúten e integrais, 120 toneladas de frutas, 30 toneladas de folhagens e 700 mil doses de café.

"A ideia é tornar o espaço mais aconchegante, já que ele foi desenvolvido pensando nos momentos de pico, quando sete mil atletas vinham ao mesmo tempo comer aqui. Nas Paralimpíadas, os números serão menores e as mudanças vão facilitar a vida dos atletas", afirmou Flávia Albuquerque, gerente de alimentos e bebidas da Vila dos Atletas.

oglobo.globo.com | 02-09-2016

Drone Domino's

WELLINGTON (Nova Zelândia) - A Nova Zelândia, primeiro país a permitir o voto feminino e a adotar metas de inflação, agora reclama outro pioneirismo: ser o primeiro lugar em que as entregas de pizza são feitas por drones. A iniciativa é da Domino’s, que planeja iniciar os testes no fim deste ano.

A pizzaria anunciou, nesta quinta-feira, uma parceria com a Flirtey, uma empresa que se classifica como operadora de “robôs voadores”, para realizar a primeira entrega comercial de pizzas por meio de drones. O plano é usar os drones também em Austrália, Bélgica, França, Países Baixos, Japão e Alemanha.

Na visão da Domino’s, as pessoas vão fazer os pedidos a partir de um aplicativo para smartphone, e os drones serão capazes de entregar no local ao seguir o sinal do GPS do celular. Quando a pizza estiver chegando, o consumidor receberá uma notificação, e o produto será baixado por meio de um cabo, garantindo que os drones permaneçam no alto, longe do público.

Companhias em todo o mundo estão, cada vez mais, buscando os drones como uma opção viável e mais eficiente de entregas, com a Amazon anunciando planos para usá-los em compras que caibam em pacotes pequenos assim que as questões de segurança e regulação sejam resolvidas.

A Nova Zelândia adotou, no ano passado, novas regras para a aviação com o objetivo de regulamentar e permitir o uso de drones para fins comerciais.

ROBÔ PARA ENTREGAS

O governo do país também revisou leis para veículos sem motorista e está “ativamente promovendo a Nova Zelândia como pista de teste para novas tecnologias de transporte”, afirmou Simon Bridges, ministro dos Transportes, em um comunicado em separado dando as boas-vindas aos testes da pizzaria.

Contudo, nem todos receberam bem a novidade.

“Como ficam os empregos dos entregadores de pizza?”, questionou a porta-voz do Partido Verde da Nova Zelândia em um tuíte. “O governo agora está se aliando às grandes empresas para substituir os seus empregos por robôs”.

Enquanto alguns alegam que pizzas já foram entregues por drones, incluindo por um restaurante em Bombaim, a Domino’s insiste que seus testes serão “o primeiro serviço de entregas com drones no mundo” para qualquer produto.

No início do ano, a pizzaria já havia apresentado outra opção “tecnológica” de entrega: o DRU, sigla em inglês para “unidade robótica da Domino’s”.

oglobo.globo.com | 25-08-2016

RIO - Eles merecem medalha de ouro em aventura rodoviária. Duas caravanas de holandeses encararam milhares de quilômetros de estrada desde Paramaribo, no Suriname, para sentir o clima da Olimpíada por aqui. Apesar de serem compatriotas e terem os mesmos pontos de partida e chegada, as duas turmas mal sabiam uma da outra. Se, na Copa de 2014, a invasão motorizada foi Argentina, nos Jogos Rio-2016 a grande zebra foi a frota dos Países Baixos.

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Os mais doidos foram os participantes do raid Transamazonica 2016. Saíram do Suriname (antiga Guiana Holandesa) no dia 11 de julho e chegaram ao Rio no dia 2 de agosto, após 7 mil quilômetros de muita lama. O que torna esta viagem especialmente impressionante é que os 23 carros eram da marca Volvo e fabricados entre as décadas de 1950 e 1980. Havia ainda quatro jipões Toyota de apoio.

DE AMAZON NA AMAZÔNIA

O evento foi organizado por um grupo chamado Amazon Adventures, que já produziu diversos raids deste tipo ao redor do mundo, percorrendo paragens remotas — já foram até a China e cruzaram o Saara, sempre com os carros da marca sueca. O nome, aliás, faz trocadilho com uma linha clássica da Volvo, os modelos Amazon, fabricados entre 1956 e 1970.

Além dos Amazon, vieram os modelos da “fase cubista” da marca, como os Volvo 144 e 240. A caravana incluiu até uma P1800ES de 1973, caminhonete esportiva ao estilo shooting brake, que parece nada apropriada a aventuras na lama.

Para organizar a viagem de Paramaribo ao Rio, o pessoal da Amazon Adventures chamou Olaf Hendriksz, um holandês especializado em passeios de 4x4 pela América do Sul.

— O Transamazonica 2016 não foi um rali com médias horárias a serem cumpridas, mas um grande passeio com o roteiro previamente planejado onde todos seguiram praticamente juntos durante todos os dias de viagem — explica Olaf.

Entre os participantes, havia desde um adolescente de 14 anos que acompanhou o pai até alguns setentões aventureiros, todos obviamente apaixonados por Volvo. Eles pagaram € 6 mil por pessoa, valor que incluiu praticamente tudo: passagens aéreas, transporte dos carros, hotéis e comida.

— Todos os carros vieram de navio da Holanda até o Suriname, onde os participantes já haviam chegado de avião para recebê-los — conta Olaf, que traçou um roteiro por regiões de climas e terrenos variados, como a Gran Sabana do sudeste da Venezuela, a Floresta Amazônica e o cerrado do Centro-Oste brasileiro. Havendo opção de estradas sem asfalto, melhor!

De Paramaribo, os carros foram para Georgetown, na Guiana. Daí entraram no Brasil por Roraima, descendo até Manaus, Porto Velho, Cuiabá, Brasília, Ouro Preto e, finalmente, o Rio.

Apesar da idade avançada dos veículos, não houve qualquer baixa: todos chegaram rodando por seus próprios meios. Os velhos Volvo, porém, não tiveram tempo de esquentar muito por aqui: já foram despachados, de navio, de volta para a Holanda. Muitos de seus donos, porém, ainda estão na cidade, agora se aventurando de metrô, BRT e trens da Central entre os estádios.

LARANJAS MECÂNICAS

A outra turma de holandeses fez a expedição Oranje Trophy, que veio ao Rio por um caminho ainda mais longo, com 12 mil quilômetros. A parte inicial foi mais ou menos pelo mesmo caminho do grupo dos Volvo, enfrentando a temida BR-319, entre Manaus e Porto Velho. Daí, contudo, eles fizeram um “pequeno desvio” para visitar Machu Picchu, no Peru. Desceram pelo deserto de Atacama, no Chile, visitaram o lindo desfiladeiro de Cafayate, no Norte da Argentina, e entraram no Brasil por Foz do Iguaçu.

Após 42 dias de viagem, os 12 jipões cor de laranja (na maioria, Toyota Land Cruiser de gerações variadas, Mercedes Classe G e até Hyundai Galloper) chegaram ao Rio na sexta-passada, a tempo da cerimônia de abertura da Olimpíada.

Na chegada, fizeram um pequeno carnaval em Botafogo. Daí partiram para a Casa da Holanda, na Lagoa, e agora estão espalhados por apartamentos alugados pela cidade.

É a segunda vez que um grupo Oranje Trophy vem ao Brasil para um evento esportivo. A primeira viagem foi para a Copa de 2014, quando percorreram 25 mil quilômetros desde Nova York, para ver a seleção holandesa em Salvador e São Paulo. Na época, usaram motos bigtrail modernas, além de Kombi e modelos Opel e Mercedes dos anos 1970. A maratona rodoviária, pelo visto, vicia.

(*Especial para O GLOBO)

oglobo.globo.com | 10-08-2016

RIO — São 207 delegações, incluindo o time de refugiados, capitaneado pela velocista Rose Lokonyen Nathike, que carregará a bandeira dos dez atletas apátridas que participam dos Jogos do Rio. Honrando a tradição, a Grécia abre o desfile, trazendo a velejadora Sofia Bekatorou como porta-bandeira. A apresentação das delegações seguirá a ordem alfabética do português — idioma oficial dos jogos — até a apresentação da equipe brasileira, que, como, como manda o script, encerra a cerimônia como país-sede, com Yane Marques, atleta do pentatlo moderno, carregando a bandeira nacional. Conheça todos os esportes olímpicos da Rio-2016

Astros olímpicos devem atrair atenção na apresentação das delegações. Maior medalhista da História das Olimpíadas, o nadador Michael Phelps carregara a bandeira dos Estados Unidos, enquanto o judoca Teddy Riner, ouro em Londres, será o porta-bandeira da França. Outro vencedor na última Olimpíada, o tenista Rafael nadal, terá a honra de carregar a bandeira espanhola. Esperanças de medalhas, a ginasta romena Catarina Ponor, e a velocista jamaicana Shelly-Ann Fraser-Pryce também levarão a bandeira de suas nações na entrada das delegações. 'O importante é competir': veja os improváveis heróis olímpicos

A classificação por ordem alfabética gerou algumas situações inusitadas para a apresentação das delegações. Com o velocista Luguelín Santos, medalhista em Londres, como porta-bandeira, a República Dominicana será a 60ª delegação a entrar, entre a equipe de Dominica e a do Egito, enquanto a República Tcheca é a 186ª, na letra T, entre a Tanzânia e o Timor-Leste. As Coreias do Sul e do Norte, que entraram juntas nas Olimpíadas de Sydney, desta vez surgem bastante separadas. Os atletas sul-coreanos entram na letra C, como “Republica da Coreia”, enquanto a Coreia do Norte, batizada de “República Popular Democrática da Coreia” abre a letra R. A Holanda vai na letra P, de “Países Baixos”, enquanto a Macedônia, até hoje não reconhecida oficialmente pelos gregos, entra na letra E, de “Ex-república iugoslava da Macedônia”. Sete ausências de peso nos Jogos do Rio

Espalhadas pelo desfile, as ilhas Cayman, Cook, Marshall, Salomão, Virgens Americanas e Virgens Britânicas estão todas longe da letra I. Já os Atletas Olímpicos Independentes serão a 14ª delegação a entrar, entre Aruba e Austrália.

oglobo.globo.com | 05-08-2016

De qualquer ângulo e sob qualquer aspecto — organização, atmosfera, hospitalidade, instalações, astral —, Sydney foi um deleite.

Quem não gosta de ser acolhido com alegria sem frescuras? A versão tropical do idioma inglês começava com o irresistível G’day (bom dia) e resolvia eventuais entraves com um apaziguador no worries. O clima geral naquele país fanático por esportes era de satisfação por estar recebendo os Jogos.

O entusiasmo com que mais de 16 mil profissionais de mídia (5.298 de jornais e revistas, 10.735 de TV e rádio, além de 5 mil operadores técnicos) cruzaram mares e continentes para estar em Sydney contou com forte incentivo visual. O chamariz foi o número especial da revista de arte Black&White, dedicado à equipe olímpica australiana. Editada em Sydney e disponível nas grandes livrarias de cidades cosmopolitas, a publicação selecionara 29 homens e mulheres da esquadra do país-sede para fazer uma ode ao corpo atlético. Dorrit Harazim, a série

Todos foram fotografados vestindo um mesmo uniforme: o próprio corpo nu, atlético e esplêndido, ora em movimento, ora captados quando parecem parar o tempo. As fotos mesclavam o rigor da germânica Leni Riefenstahl com pitadas da cultura solar australiana e resultaram num memorável ensaio imitado, desde então, por vários fotógrafos de outros países. Nenhuma das imitações deu certo. A edição de 2000 tinha por título The Sydney Dream, era sequência do piloto lançado para os Jogos de Atlanta quatro anos antes, e vale a pena ser revisitado até hoje. Continua disponível on-line por menos de US$ 20.

Em Sydney coube ao porta-bandeira da delegação de quatro atletas da Guiné Equatorial tornar-se a primeira celebridade instantânea com uma receita não planejada. Eric Moussambani saiu do anonimato no quarto dia dos Jogos ao quase afogar-se perante as 17 mil pessoas que assistiam à série de eliminatórias da nobilíssima prova dos 100 metros nado livre, no International Aquatic Center. Outros 3,5 bilhões de telespectadores globais também puderam acompanhar o feito.

O nadador chegara a Sydney como um dos chamados wild cards, ou atleta convidado, presentes em todos os Jogos. Segundo normas adotadas pelas federações de atletismo e natação, é permitido ao país que não tem atletas com índice olímpico credenciar dois competidores — um homem e uma mulher — para disputarem uma prova individual cada. Independentemente das respectivas qualificações ou habilidades. Tudo em nome do espírito olímpico universal.

Ao pinçar Moussambani, a Guiné Equatorial deu de presente para a mídia um personagem de biografia irresistível sob medida. E todos a consumiram com voracidade a partir do momento em que o nadador levou 1m52s72 para perfazer os 100 metros da prova — com esse tempo, o holandês Pieter van den Hoogenband, que conquistou o ouro na final, atravessaria a piscina quatro vezes e meia.

Como os dois adversários do africano na eliminatória haviam sido desclassificados por queimar a largada, ele teve de se arrastar completamente sozinho na piscina, tornando sua performance ainda mais surreal. Ao final, tendo abandonado o último vestígio de qualquer estilo, nadava cachorrinho. Mas completou a prova. Saiu cabisbaixo, acenou timidamente para a arquibancada que o aplaudia sem parar, e, segundo o historiador olímpico David Wallechinsky, foi chorar no vestiário.

No dia seguinte tornara-se celebridade mundial, ganhara patrocínio e maiô pele de tubarão da Speedo, um apelido (“a Enguia") e uma agenda lotada de pedidos de entrevistas. Soube-se assim que em criança ele nadara com crocodilos e que até então jamais havia visto uma piscina olímpica — a maior em seu país tinha 20 metros. Mas não desistiu. No Mundial do ano seguinte realizado em Fukuoka, Japão, lá estava Moussambani, prudentemente na prova mais curta de 50 metros. Conseguiu chegar seis segundos à frente de um competidor de Antígua.

Pelo menos uma coisa era certa: sobre a Enguia não pairava a suspeita de doping, vírus que a cada nova edição dos Jogos mais contaminava os pódios olímpicos. Em Sydney 18 atletas e 2 técnicos foram expulsos dos Jogos por malfeitos envolvendo a fraude. Outros 40 foram barrados por testes com resultados positivos feitos antes de chegarem à Austrália.

Não por acaso, à última hora, 27 competidores chineses haviam desistido de comparecer aos Jogos e nenhum recorde mundial nas pistas de atletismo foi batido em Sydney. O aviso da introdução dos temidos testes capazes de detectar a presença do hormônio sintético EPO (eritropoietina, que aumenta a produção de glóbulos vermelhos no sangue) pode ter espantado os mais destemidos. De todo modo, aquela primeiro geração de testes de sangue só foi capaz de monitorar doping ocorrido até 72 horas antes da coleta do material.

Ao contraio do atletismo, a natação rendeu um maná de resultados. Quase desconcertantes. Quando Pieter van den Hoogenband estraçalhou o recorde mundial dos 100m livre, nadando abaixo da marca mítica dos 48 segundos, o Centro Aquático explodiu em festa apesar do herói festejado ser filho de terra estrangeira.

VDH, como passou a ser chamado por quem se confundia com o longo sobrenome — isto é, todo mundo menos alguns europeus — passou a herói da hora. Numa prova em que recordes são batidos em não mais do que centésimos de segundos, o holandês capou mais de três décimos da marca anterior de 48s18. Um assombro. De quebra, também abortou a meta do russo Alexander Popov de se tornar tricampeão olímpico na modalidade. Contrariando a norma de que todo medalhado deve comparecer a uma entrevista coletiva ostentando o troféu pendurado no pescoço, o russo enfrentou os holofotes com a medalha no bolso — era apenas de prata, metal de peso indigno para as expectativas do Príncipe da Velocidade.

Assistir a provas olímpicas ao vivo num país apaixonado por esportes e fanático por natação foi, sem dúvida, uma experiência à parte. Nas provas de revezamento, por exemplo, as arquibancadas se punham de pé, cantavam rock e batiam palmas ritmadas com as braçadas dos nadadores. Sinfonia nova para mim.

O peixe grande vindo dos Países Baixos também estragou a coroação que a Austrália preparava para o calouro sensação da casa, Ian Thorpe, de 17 anos e pés tamanho 50. Esperava-se que Thorpe conquistasse quatro medalhas de ouro (2 individuais, 2 em revezamentos) a bordo de seu dramático traje negro inteiriço, que imitava pele de tubarão. VDH cortou-lhe o voo na prova individual dos 200m nado livre, com direito a quebra de recorde mundial, e também levou o ouro nos 50m, novamente com quebra de recorde. Coincidência ou não, sua compatriota Inge de Bruijn, com quem dividia o técnico, também fez terra arrasada na piscina olímpica de Sydney, quebrando três recordes mundiais em três provas individuais. “Não respondo a perguntas sobre doping”, informava aos jornalistas que a aguardavam após cada vitória. A sala rapidamente se esvaziava à metade.

Houve quem atribuísse as boas marcas na natação ao fato de a piscina ser “a mais rápida do mundo”, como a definiu o velocista americano Gary Hall, Jr. A água esterilizada e tratada com ozônio para ganhar em estabilidade tinha temperatura igual à do ambiente para que o corpo do atleta não perdesse energia ao entrar em contato com ela, novidade para a época.

Teve mais razão, porém, quem associou os formidáveis desempenhos à estreia dos maiôs que encobriam os nadadores do pescoço aos tornozelos, fazendo dos blocos de largada quase uma cena de ficção científica. Cabe registrar que Popov não esteve entre os que aderiram à novidade hoje proibida. “Compito com minha própria pele”, dizia, altivo. E perdeu.

Meses antes do início dos Jogos, o americano Tom Malchow, dos 200m borboleta, fora o primeiro nadador da história a bater um recorde mundial meses antes enfiado numa dessas roupas fastskin. Defensor apaixonado da novidade, ele estava convencido de que por comprimir a musculatura, e portanto reduzir o acúmulo de ácido lático no corpo, além de diminuir brutalmente o atrito com a água, o revolucionário maiô era o grande diferencial.

Malchow ia além. Ele também dizia sentir-se como Clark Kent vestindo a roupa de Super-Homem, tamanha era a confiança que adquiria ao se enfiar na armadura.

Mas o maior lucro acabou indo para a Speedo, fabricante da roupa que prometia um ganho de 3% a 4% no desempenho na água. A marca subiu ao pódio 88 vezes só nos seis primeiros dias de provas e abiscoitou 81% do total de medalhas dali.

Desde 2010, e por pressão de nadadores de ponta encabeçados pelo maior de todos, Michael Phelps, os controvertidos maiôs de corpo inteiro à base de poliuretano estão proibidos pela Federação Internacional de Natação.

É possível, portanto, que alguns recordes alcançados com esses maiôs jamais consigam ser melhorados, da mesma forma que vários recordes antigos movidos a doping. E se nos Jogos de 2000 alguns resultados tiverem somado os dois fatores — pele de tubarão + substâncias ilícitas?

O vírus do doping tem isso de insidioso: ele dissemina suspeitas sem comprovação, até matar o esporte. Ou vice-versa — até o esporte domar o doping de medo. Matá-lo é impossível.

Numa edição dos Jogos que devolveu um sentido de jovialidade popular ao movimento olímpico e em que festas de rua pipocavam sem motivo, a Austrália se manteve à altura de sua reputação até o final. Na Cerimônia de Encerramento um rock sacolejante trovejou, e gloriosas Priscillas, Rainhas do Deserto fizeram festa no gramado. Tampouco faltou a característica nacional de fazer rir sobretudo dos próprios australianos, com a conhecida verve antiautoritária.

Temas sérios e essenciais à história da nação, como a marginalização da população aborígene, também conseguiram ser desengavetados durante os Jogos. E com grande pompa e circunstância, quando até a véspera ainda eram considerados tóxicos. A escolha da velocista aborígene Cathy Freeman para acender a pira olímpica foi um marco, e as repetidas menções à herança aborígene que constaram dos discursos oficiais não passaram despercebidas. A banda Midnight Oil se apresentou envergando camisetas e calças marcadas com a palavra “Sorry” — referência a um até então inexistente pedido de desculpas do governo australiano pelo tenebroso tratamento imposto a gerações e gerações de aborígenes.

Foi o início de uma sofrida reconciliação mediada, de certa forma, pelos Jogos. Oito anos depois viria o ansiado pedido de desculpas pelas leis de assimilação que, entre outros, retiravam crianças aborígenes de suas famílias para serem criadas por brancos. Uma dessas crianças foi Cathy Freeman. Quando ela cruzou a linha de chegada nos 400m rasos e conquistou a mais celebrada das 16 medalhas de ouro que deram à Austrália o quarto lugar no cômputo geral, o estádio olímpico veio abaixo.

Um total de quase 60 medalhas para uma nação de 19 milhões de habitantes é espetacular. Dava gosto de ver que, mesmo quando não havia nenhum atleta australiano no pódio, ninguém arredava pé das arquibancadas até o final das cerimônias de premiação. Quem realmente gosta de esportes sabe que todo minuto olímpico conta.

Escrevi na época que só poderia mesmo ter sido nos Jogos de Sydney, onde se celebrou como nunca a mulher atleta plena, orgulhosa de seus músculos e vaidosa de seu corpo, que surgiria um mulherão como Tatiana Grigorieva. No tablado de Ginástica do Super Dome, continuavam a atuar como sempre atletas em miniatura capazes de feitos extraordinários, como saltar no cavalo a uma velocidade de 25 km/hora. Eram as que devem portar franjas e topetes endurecidos de laquê, presilhas no cabelo, e maquiagem carregada demais para a aparência infantil. Eram as meninas que pareciam em descompasso com a atleta celebrada no ano 2000.

Essa estava em exposição total no Estádio Austrália, na prova de salto com vara feminino — modalidade do atletismo até então vetada a mulheres. Cada vez que a silhueta esguia e bronzeada de Grigorieva se colocava em marcha para um novo salto, a arquibancada do estádio aplaudia a cadência das passadas, em delírio. E cada vez que os telões focavam o rosto de traços eslavos e olhos de azul-esverdeado, emoldurados por uma penca de cabelos loiros, a alegria era maior. Embora nascida em São Petersburgo, ela competia pela Austrália.

“Quero mostrar que uma mulher que compete no esporte pode ser uma mulher linda e que sabe se cuidar”, diria ela sem modéstia, depois de conquistar a medalha de prata. Provavelmente também concorda que merece as sete fotos a que teve direito no ensaio de nus olímpicos da “Black&White".

Da delegação brasileira que levou 205 atletas para os XXVII Jogos e de lá voltou com 6 pratas e 6 bronzes, nosso melhor embaixador foi Gustavo Kuerten. Nem poderia ser diferente. Guga e o espírito que reinou em Sydney foram feitos um para o outro. Apesar de milionário e de ter se tornado pouco antes da Olimpíada bicampeão do Torneio de Roland Garros, em Paris, o brasileiro optou por alojar-se na Vila dos Atletas, da qual as celebridades do esporte fogem como da peste. Eles costumam alugar mansões ou hospedar-se em hotéis para fugir do assédio e poder se concentrar. Guga, como é de seu feitio, distribuía autógrafos como se não houvesse competição pela frente. Encarou o bandejão e o alojamento comum. Não ganhou medalha. Conquistou simpatia.

De certa forma, os Jogos de 2000 foram uma espécie de último Baile da Ilha Fiscal. Só que desta vez o apagar das luzes não foi o da monarquia brasileira. Foi o do mundo que existiu antes do atentado terrorista de 11 de Setembro de 2001. Ninguém sabia, mas em Sydney dançou-se sobre um vulcão chamado Al-Qaeda. A partir da Olimpíada de Atenas de 2004, tudo seria diferente.

oglobo.globo.com | 08-07-2016

A mobilidade contemporânea da globalização tem sua origem na conformação de redes de intercâmbio comercial, de transportes e finanças em escala mundial, que surgiram a partir do século XVI. Os enormes atrativos que se abriram para participar na atividade comercial a grandes distâncias favoreceram de maneira preferencial aquelas regiões ou nações que reuniram os requisitos adequados para aproveitá-los. Estes requisitos incluíam uma base comercial interna desenvolvida, uma decidida vocação marítima e suficiente capacidade de poupança e investimento para mobilizar recursos financeiros substanciais.

No século XVII, as Províncias Unidas dos Países Baixos reuniam estes requisitos. Apesar de seu reduzido tamanho territorial, as Províncias Unidas adquiriram o status de grande potência, graças à habilidade marítima e comercial dos holandeses. Amsterdã se converteu no principal centro financeiro do mundo. A primazia marítima e comercial se deslocou para o Reino Unido após o século XVIII, com Londres como centro financeiro, posições que, por sua vez, assumiram os Estados Unidos e a cidade de Nova York no século XX.

Os três exemplos mencionados têm em comum a prioridade destinada à liberdade de comércio e de navegação, e a vontade de defender estes princípios por meios diplomáticos ou pela força. Os holandeses desenvolveram o conceito jurídico de Mare Liberum. Tornar efetiva a supremacia naval foi parte essencial à estratégia comercial britânica. Desde sua independência, os Estados Unidos têm mostrado disposição de ir à guerra para defender a liberdade de navegação internacional. Isso explica o fortalecimento recente da presença aeronaval americana no Pacífico Ocidental, para reagir à tentativa de Pequim de restringir a navegação no Mar da China do Sul.

A manutenção de um sistema comercial e financeiro global requer o impulso e o compromisso de uma grande potência. A ausência de uma potência com capacidade para exercer liderança leva a uma globalização conflituosa. Isso aconteceu no intervalo entre as duas guerras mundiais do século passado.

A potência que respalda um sistema econômico global obtém benefícios associados a sua posição de direção. Mas com a liderança também vem a responsabilidade de considerar os interesses de seus sócios e a vontade de assumir uma parte mais que proporcional dos custos das iniciativas de interesse comum. Este esquema descreve o sistema internacional liderado pelos EUA desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

As premissas subjacentes do sistema estão sendo questionadas na campanha eleitoral americana. Em sua versão moderada, o mal-estar se manifesta assinalando a inconveniência do Acordo Transpacífico (TPP) e os demais acordos de livre comércio. A versão extremista gera um chauvinismo beligerante, e o repúdio unilateral de acordo internacionais vigentes. É de esperar que estas sejam figuras de retórica para consumo doméstico, às quais não se deve dar maior importância. Seja como for, o que está se tornando evidente é o cansaço que expressam setores representativos da opinião pública com a responsabilidade de manter o sistema econômico internacional atual.

Rodrigo Botero Montoya é economista e foi ministro da Fazenda da Colômbia

oglobo.globo.com | 25-04-2016

É possível que a primeira vez em que se empregou a palavra entressafra em futebol tenha sido a propósito da preparação e, em seguida, participação brasileira na décima Copa do Mundo, disputada na Alemanha Ocidental, em 1974. Com ela se queria dizer que uma geração de craques do Brasil havia se aposentado sem que uma nova geração de craques viesse ocupar o seu lugar. Quem iria substituir Gérson, Tostão, Carlos Alberto e Pelé, heróis do tri, quando chegasse a hora de defender o título contra fortes equipes europeias?

Morre Cruyff

É fato que nem todos os tricampeões haviam largado a bola. Mas só em saber que Pelé não queria mais nada com a seleção – da qual já havia se despedido, solenemente, num amistoso com Iugoslávia no Maracanã – fazia Zagallo e sua comissão técnica encarar a entressafra como um duro golpe em seus planos para conquistar a nova taça. Em junho de 1974, Pelé estaria com 33 anos. Com sua excepcional condição atlética, sua experiência e, claro, seu futebol, certamente ainda seria o principal trunfo de Zagallo. Mas, com o insucesso em seus negócios, e sem ter a ajuda que esperava para superá-lo, Pelé disse adeus à seleção.

Tostão, forçado pelo agravamento do problema na vista esquerda (o mesma que quase o impedira de jogar em 1970), encerrara prematuramente a brilhante carreira. Gérson ainda dava seus últimos passes pelo Fluminense, mas ele próprio sabia que seu tempo passara. Carlos Alberto ficou de fora por decisão de Zagallo. De qualquer forma, quatro grandes da conquista de 1970 não estariam na Alemanha em 1974.

O Carrossel Holandês seria a atração da Copa. Todos atacando, todos defendendo, todos ocupando espaços ou abrindo espaços para todos. Um futebol aparentemente anárquico, mas inteligente e organizado, solidário e eficaz

Pelo menos politicamente, ou melhor, o modo como o futebol brasileiro era administrado nos gabinetes da confederação e da ditadura, não diferia muito do que ocorrera em 1970, depois da saída de João Saldanha. João Havelange ainda era o presidente da CBD (com a conquista do tri, a intenção de afastá-lo, articulada por gente do governo, teve de ser adiada). Mas já se sabia que os quatro anos de seu mandato até a Copa do Mundo na Alemanha seriam de campanha para tentar o que muitos pensavam ser impossível: eleger-se presidente da Fifa. O comando militar foi mantido, só que com outros nomes. O chefe da delegação seria o coronel Eric Tinoco, o do hipismo; supervisor, major Carlos Alberto Cavalheiro, o ex-goleiro; coordenador técnico, capitão Claudio Coutinho, o futuro treinador em 1978; preparador físico, capitão Raul Carlesso; e secretários, novas funções, os capitães Kleber Camerino e Osvaldo Costa Lobo. Como os eventuais brasileiros na Alemanha não pareciam oferecer os mesmos riscos dos asilados no México, não se integraria à delegação um segurança fardado como o major Ipiranga dos Guaranis.

Em campo, Zagallo teve oportunidade de testar seus novos convocados. E vários deles. E em várias ocasiões. O ano de 1971 foi reservado aos amistosos, como o da despedia de Pelé (nem os gritos de "Fica! Fica! Fica", vindos de todos os setores do Maracanã, o demoveram). Amistosos em que o treinador ainda pôde contar com a base de 1970. Em 1972, o calendário da seleção resumiu-se ao comemorativo Torneio do Sesquicentenário da Independência, ganho pelo Brasil em jogos contra a Tchecoslováquia (0 a 0), Iugoslávia (3 a 0), Escócia (1 a 0) e Portugal (1 a 0). Sem Pelé, claro, mas ainda com Gérson e Tostão. Até ali, não se falava em entressafra.

No ano seguinte, os trabalhos do treinador se intensificaram justamente porque tinha que definir os substitutos na mais longa excursão que a seleção brasileira fazia ao exterior até então. Foram nove jogos, na Europa e na África. Jogadores já com experiência em seleção, como Rivelino, Jairzinho, Clodoaldo, Wilson Piazza, Paulo César, Zé Maria, Leão, atuavam em várias formações com os estreantes Luís Pereira, Marinho Chagas, Valdomiro, Palhinha, Dirceu, Leivinha, este já tendo entrado e saído nas cinco partidas pelo Torneio do Sesquicentenário.

Em termos de resultados (seis vitórias, empate com a Áustria e derrotas para Suécia e Itália), o balanço da excursão ficou dentro dos limites do razoável. As críticas mais consideráveis eram ao modo de a seleção jogar. Na maioria das vezes, no 4-3-3 tão caro a Zagallo, mas um 4-3-3 de meio de campo reforçado numa clara intenção de defender. Os cinco jogos em que a seleção não sofreu gol e os três em que o goleiro da vez só levou um, eram sinal de que a primeira preocupação de Zagallo era se defender bem. O que, no ano seguinte, só se intensificou nos amistosos antes do embarque: apenas dois gols sofridos em nove jogos. Se por um lado essa estatística favorecia a defesa, por outro a média inferior a 1,5 gols por jogo era uma das mais baixas desde que Zagallo assumira.

Longe dali, algo de novo – e quase oposto ao que se vivia no Brasil – estava acontecendo no futebol até então modesto dos Países Baixos. A seleção que dez anos antes surpreendera a brasileira dera lugar a outra, que de modesta nada tinha. Com base no Ajax – clube de Amsterdã três vezes vitorioso na Liga dos Campeões (1971, 1972 e 1973) e uma na Copa Intercontinental (1972), em cima do Independiente de Buenos Aires – a nova seleção holandesa propunha a revolução tática que assinalaria a década como a do Carrossel Holandês ou da Laranja Mecânica, o futebol-total que acabaria sendo a principal atração da décima Copa do Mundo: todos atacando, todos defendendo, todos ocupando espaços ou abrindo espaços para todos. Um futebol aparentemente anárquico, mas inteligente e organizado, solidário e eficaz. João Saldanha, comentando para a TV, cometeu injustiça com aquele time ao chamar seu estilo de jogo de "tática de pelada".

A se indicar os responsáveis pela revolução, que sejam os do treinador Rinus Michels, 46 anos em 1974, e do múltiplo Johan Cruyff, 27. A partir deles, ou em torno deles, o Ajax foi campeão, avançou e serviu de alicerce para a seleção. Michels era um treinador tático, acreditava na posse de bola, e fazer seu time rodar como se fosse no vôlei. E, mais ainda, em craques polivalentes. Cruyff era um desses craques. O mais completo de sua geração, talvez no mundo inteiro. Nasceu praticamente no Ajax, onde seus pais trabalhavam, ela como faxineira, ele como vendedor de frutas. Foi em atenção ao casal que os dirigentes deixaram o jovem Johan treinar, acreditando que isso corregiria os pés-chatos. Ganharam na loteria, pois, com 18 anos, ela já era titular do time principal. Em que posição? Todas, uma vez que este era o espírito do Ajax: sua estrela sendo capaz de defender, marcar, armar e fazer gols.

oglobo.globo.com | 24-03-2016

RIO - Radicado em Paris desde os anos 1960, o búlgaro Tzvetan Todorov foi aluno de Roland Barthes e viveu uma época em que o cenário intelectual era dominado por críticos literários, como Julia Kristeva e Jacques Derrida. No livro “Crítica da crítica”, lançado em 1984 e publicado agora pela primeira vez no Brasil pela Unesp, ele faz um balanço pessoal dos estudos literários no século XX. Discute obras de autores que o influenciaram, como o russo Roman Jakobson, o canadense Northrop Frye e o francês Maurice Blanchot, além do próprio Barthes, entre outros. Ao fim desse percurso, propõe seu conceito de “crítica dialógica”, que mescla a análise estrutural da obra literária com a busca por uma verdade mais ampla sobre o mundo revelada pelo texto. Em entrevista por e-mail, Todorov, de 76 anos, diz que o livro transformou sua compreensão do ofício, que hoje vê como o compromisso de lançar um olhar crítico sobre a realidade. Exemplo disso é seu novo livro, “Insubmissos”, inédito no Brasil, sobre escritores e ativistas dos séculos XX e XXI.

No livro, o senhor escreve que a crítica literária “não é um apêndice da literatura, mas seu duplo”. Que tipo de duplo? Qual é a relação entre crítica e texto literário, na sua opinião?

A literatura encarna sempre um pensamento sobre o mundo e sobre o que é humano, e a crítica pode fazer a mesma coisa. Por isso digo que esse livro de crítica é como um romance. Ele conta as etapas de uma história, de uma educação intelectual. Por séculos, a literatura foi a única “ciência humana”. Hoje há outras.

A literatura encarna sempre um pensamento sobre o mundo e sobre o que é humano, e a crítica pode fazer a mesma coisa.

Quais foram as transformações mais importantes da crítica literária desde o lançamento do livro, em 1984? Acredita que a crítica perdeu prestígio no debate público?

Infelizmente, tenho dificuldades para responder a essa pergunta, porque este livro foi para mim uma espécie de adeus à crítica como objeto de reflexão. Depois só me preocupei com a prática, e não mais com a teoria. Não conheço bem o que acontece nesse campo desde então. Mas me parece que, ao menos na França, a opinião pública e a crítica não têm se cruzado. Nos anos 1960 e 1970, os debates sobre a crítica aconteciam em praça pública, como aquele entre a crítica universitária de (Raymond) Picard e a crítica inovadora de (Roland) Barthes, e muitas outras. Nada comparável a isso chegou aos meus ouvidos desde então.

O senhor descreve “Crítica da crítica” como um “romance de formação”. Qual foi a importância desse livro para sua obra naquele momento? O que aprendeu sobre a crítica enquanto o escrevia?

O livro marca o corte mais importante em meu percurso profissional. Encerrou uma primeira etapa, que teve como objeto de estudo os métodos críticos e a teoria literária. E abriu uma segunda, que dura até hoje, na qual me interesso pelo mundo e pela condição humana mais do que pelas formas de falar sobre eles. Foi graças à evolução descrita nesse livro que pude me aproximar de temas como o encontro entre culturas, a unidade e a diversidade da espécie humana, o totalitarismo e a democracia, o lugar do indivíduo na sociedade e o lugar do social na construção do indivíduo. Descrevo o livro como um “romance de formação” também porque ele evoca várias etapas da crítica, começando pelo formalismo russo e terminando pelas abordagens sociológicas e históricas de (Ian) Watt e (Paul) Bénichou.

Descrevo o livro como um “romance de formação” também porque ele evoca várias etapas da crítica

Como o senhor define hoje o conceito de “crítica dialógica”, que formulou pela primeira vez naquele livro?

Como uma crítica que não se contenta apenas em reconstituir, com a fidelidade possível, o pensamento do autor lido, primeira tarefa de toda crítica. A “crítica dialógica” se engaja também em um debate mais amplo com o autor em questão, no qual busca não só capturar seu sentido, mas também avaliar o grau de verdade do que ele nos apresenta. Foi assim que procedi, por exemplo, em meu livro “A beleza salvará o mundo” (de 2006, publicado no Brasil em 2011 pela editora Difel), que examina o pensamento de três escritores, Oscar Wilde, Rainer Maria Rilke e Marina Tsvetaeva, na forma como se manifestam em sua obra mas também na maneira como conduziram suas vidas. São três brilhantes versões do pensamento romântico. Procurei elucidar esse pensamento, mas também colocar em questão suas conclusões.

Em seu livro mais recente, “Insoumis” (“Insubmissos”, de 2015, inédito no Brasil), o senhor escreve sobre oito pessoas muito diferentes: dos escritores russos Boris Pasternak e Alexander Soljenítsin a Nelson Mandela e Edward Snowden. Qual é a ligação entre elas?

“Insubmissos” é um livro dedicado às relações entre moral e política, mais precisamente ao papel que podem ter na vida pública as qualidades morais (e portanto privadas) de um indivíduo. É esclarecedor separar essas duas esferas, mas as virtudes pessoais têm um papel na vida política. Mais do que teorizar sobre isso, escolhi reconstituir oito biografias de personalidades, do século XX ou do presente, que encarnam as diversas articulações entre esses dois campos. O que elas têm em comum é também a escolha de lutar não só contra um inimigo externo (a ocupação nazista nos Países Baixos e na França, a ditadura comunista na URSS, a discriminação racial na África do Sul e nos EUA etc.), mas também contra seus demônios interiores. Outra característica comum é minha grande admiração por elas.

oglobo.globo.com | 30-01-2016

ORANJESTAD - Ao desembarcar no Aeroporto Queen Beatrix, na capital Oranjestad, fica fácil para o visitante entender por que o slogan “Ilha feliz” está estampado nas placas de todos os carros e em alguns locais de Aruba. Com 110 mil habitantes, localizado ao norte da Venezuela e cercada por um mar de águas cristalinas, o país — que integra o Reino dos Países Baixos — oferece diversas atrações ao turista. E, a uma temperatura de 28° quase o ano todo, parece estar sempre no verão.

Bv-caribe

Nas paradisíacas praias de Aruba, é possível praticar desde os esportes mais radicais (como kitesurfe e windsurfe, beneficiados pelos fortes ventos que sopram no país) às atividades que geralmente agradam a famílias inteiras (casos dos passeios de banana boat, canoa havaiana e catamarã).

Esse último, aliás, costuma incluir no roteiro mergulhos e snorkel (imperdíveis, diga-se de passagem), num mar em que se pode apreciar de muito perto a fantástica diversidade de peixes. Música ao vivo no barco, petiscos e bebidas são outros ingredientes deste tipo de passeio.

Já se o turista brasileiro quiser se aventurar na canoa havaiana, uma das vantagens será não precisar se preocupar em falar holandês ou papiamento (línguas oficiais locais), nem inglês ou espanhol, outros idiomas bastante falados na ilha. Isso porque, essa atração é comandada pelo brasileiro Ulysses Matarozzi, paulista, de Santos, que mora em Aruba há 26 anos.

— A canoa havaiana é algo que faltava na ilha. É um passeio ativo, onde as pessoas estão, em plena natureza, fazendo atividade física e desfrutando de uma vista maravilhosa — diz Ulysses, que é professor de educação física e também organiza mergulhos de snorkel, além de ter uma empresa responsável pela limpeza da orla em frente aos 28 hotéis e resorts da ilha.

Em Aruba não há diferença de origem entre as pessoas. Se quem está te atendendo é arubiano, holandês, venezuelano ou americano, não importa — todos vão te tratar do mesmo jeito, sempre dando uma boa risada.

— Eu acho muito legal essa cordialidade — acrescenta o santista.

Também são praticadas na ilha algumas atividades ao mar ainda pouco comuns no Brasil. Como o flyboard (em que o praticante é empurrado para o alto por jatos d’água) ou mesmo o parasailing (em que o usuário, em uma espécie de paraquedas, é puxado por uma lancha).

Já o beach tennis, modalidade criada na década de 1980 na Itália, é o esporte mais praticado pelos moradores da “Ilha feliz”. Aliás, nos meses de novembro, Aruba realiza um dos mais importantes torneios dessa modalidade em todo o mundo. Na última edição, o Aruba Beach Tennis Open recebeu cerca de mil atletas de 17 países, nas areias brancas e águas azul-turquesa de Eagle Beach.

Ainda na orla arubenha, entre as muitas opções, há uma exclusiva para os hóspedes do hotel Renaissance: a Praia dos Flamingos. Uma lancha busca os hóspedes no lobby do hotel e, em cerca de cinco minutos, o leva para um destino que é pra lá de exclusivo e inusitado.

CAVERNAS E PISCINAS NATURAIS, OPÇÕES ÀS PRAIAS

E mesmo que você não seja um grande fã de praia, logo logo vai descobrir que há muito a fazer em Aruba.

Uma das paradas obrigatórias para quem visita a “Ilha feliz” é o Parque Nacional de Arikok, que ocupa quase 20% do território do país. Ao todo, são 32 quilômetros de terreno desértico e selvagem, onde se pode conhecer grande parte da fauna e da flora locais, piscinas naturais e cavernas, além de algumas praias escondidas.

A caverna Fontein, por exemplo, é toda de calcário e famosa pelos desenhos ameríndios, de mais de mil anos, que decoram suas paredes e seu teto. Há também a Guadirikiri Cave, que funciona como abrigo de morcegos e é conhecida pela entrada de luz natural por suas frestas.

Do ponto mais alto do parque nacional, a Montanha Yamanota, é possível ter uma visão de toda a ilha. Um programa imperdível. Já a Fazenda das Borboletas é um jardim tropical com espécies de todo o mundo — outro passeio que é altamente indicado para aqueles que preferem se divertir fora da praia. Ou depois dela.

Na capital Oranjestad, um bondinho turístico leva os turistas às principais lojas da região. Hora de conferir grifes internacionais como Gucci, Carolina Herrera, Victoria Secret e Ralph Loren.

À noite, além dos muitos restaurantes com músicas ao vivo, os turistas podem ainda conferir os cassinos e boliches espalhados pela ilha.

E para além de seus encantos naturais e da infraestrutura turística, Aruba costuma atrair visitantes durante o ano todo em eventos dos mais variados. Entre outros, a “Ilha Feliz” vai receber, no próximo dia 20 de março, sua Meia Maratona Internacional. Em 24 de abril, a ilha será palco para a 56ª edição da 10k International Race, sua mais popular corrida de rua.

Já no dia 26 de junho, a atração ficará por conta do 30º Triatlo Olímpico de Aruba. Ainda em julho, entre os dias 6 e 11, será a vez do 30º Aruba HiWinds, competição que reúne kitesurfistas e windsurfistas. E, de 19 a 21 de agosto, golfistas profissionais e amadores se reunirão ali por conta do Torneio Internacional ProAm de Aruba.

EVENTOS CULTURAIS

No campo cultural, em 1º e 2 de julho, acontecerá na ilha a 30ª edição do Aruba Summer Music Festival, que em 2015 reuniu nomes como Pitbull, Carlos Vives e Elvis Crespo. O Festival Internacional de Filmes de Aruba, por sua vez, do qual já participaram Richard Gere e Tyrese Gibson, é uma das principais atrações — normalmente em outubro. E entre 23 e 24 de setembro, a ilha receberá The Caribbean Sea Jazz Festival. É realmente uma festa só.

RESTAURANTES PREMIADOS E INOVADORES

Colonizada pela Espanha e, depois, conquistada pela Holanda, hoje Aruba tem influência de diferentes países, especialmente na culinária. Se o visitante aprecia comidas típicas de França, Suíça, Bélgica, Estados Unidos, Argentina, Itália, entre outros, certamente, vai gostar do que a ilha tem a oferecer à mesa.

O restaurante Screaming Eagle é um show à parte. Eleita no mês de novembro pelo “Caribbean Journal”, como a melhor comida do Caribe, a casa tem sua cozinha sob o comando do chef holandês Erwin Husken, uma celebridade da gastronomia local. A decoração, contemporânea, é das mais bonitas e aconchegantes. E o menu dispõe de pratos da cozinha francesa, além de frutos do mar — tudo da melhor qualidade. Aberto das 18h às 23h.

O restaurante “Taste of Belgium” é outra boa opção. Localizado no Shopping Palm Beach Plaza e aberto das 8h à meia-noite, oferece café da manhã, almoço e jantar. Entre as peculiaridades do estabelecimento estão os hinos regionais belgas, tocados nos alto-falantes dos banheiros.

Ao longo da orla arubenha não faltam bares e restaurantes na beira-mar, literalmente. São os casos do Moomba Beach e do Pinchos Grill & Bar. O primeiro é um charmoso e aconchegante bar em uma das praias mais famosas de Aruba, com boa parte das mesas e cadeiras colocadas na areia. O segundo fica num pier de madeira, em um cenário deslumbrante.

Em novembro último, o Moomba Beach inovou e ofereceu aos clientes uma pista de patinação no gelo em plena praia. Deu tão certo que a atração, que terminaria no dia 23, funcionou até 29. E, para dar as boas vindas a 2016, a casa promoveu o tradicional “Mergulho de Ano Novo”, no dia 1º de janeiro. Cerca de 500 pessoas participaram da festa pra lá de animada. Simplesmente a cara de Aruba.

SERVIÇO

Onde ficar

Tropicana Aruba Resort & Casino. Em Noord Aruba, o resort está localizado a um quilômetro de Eagle Beach. Diárias a partir de US$ 170. troparuba.com

Holiday Inn Resort Aruba. Fica em frente a Palm Beach, com diárias a partir de US$ 300. holidayarubaresort.com

Renaissance Aruba Resort & Casino. Localizado no coração da capital, oferece passeio exclusivo à Praia dos Flamingos. A partir de US$ 323. marriott.com/hotels/ travel/auabr

Onde comer

Moomba Beach Bar & Restaurant. moombabeach.com

Screaming Eagle Restaurant-Lounge. screaming-eagle.net

Pinchos Grill & Bar. pinchosaruba.com

Gustavo Loio viajou a convite da Autoridade de Turismo de Aruba (ATA)

oglobo.globo.com | 22-01-2016

MADRID — Durante nove dias, os espanhóis poderão olhar um jovem Felipe IV diretamente nos olhos. Ou, ao menos, o único retrato conservado do monarca pintado por Rubens.

O quadro estará disponível a partir de sábado, na Feriarte, mostra artística e de antiguidades que acontece em Madrid até o dia 29 de novembro. A obra, que reapareceu publicamente depois de cinquenta anos, pertence a uma coleção particular. Os atuais proprietários a colocaram à venda, embora o governo da Espanha possa exercer seu direito de preferência para garantir que o quadro não deixe o país nos próximos seis meses. E, por conta da sua importância, “não se descarta que o governo e o Museu do Prado optem por sua aquisição”, segundo o secretário de cultura espanhol José Maria Lassalle.

O retrato pintado por Pedro Pablo Rubens entre 1628 e 1629 esteve perdido por mais de dois séculos e meio, no período entre a morte do artista na Antuérpia no ano de 1640 e o reaparecimento do quadro no começo do século XX. No entanto, logo a obra se perdeu novamente nos anos 1960.

A obra não pode ser exportada temporariamente, de acordo com o Conselho de Classificação, Valoração e Exportação de bens do patrimônio histórico. Depois de um comunicado do museu, o conselho pediu que a pintura seja incluída em uma das categorias de proteção especial. A notícia da ressurreição da tela se soma a uma série de novas informações sobre o mundo da arte. Dentre elas, incluem-se algumas dúvidas sobre a autoria de alguns trabalhos — como os questionamentos sobre a criação de “Sete pecados mortais e os quatro novíssimos do homem”, que sempre se acreditou ter sido pintada por El Bosco.

A pergunta agora é se o Estado espanhol se candidatará a comprar a peça de 63,5 centímetros de altura por 49 centímetros de largura. Os proprietários, que permanecem no anonimato, não revelaram o preço de venda. Existem várias cópias da obra, uma delas no museu Hermitage, na cidade russa em São Petesburgo. Outras estão em coleções privadas, como a da Casa de Alba.

A importância do retrato original de Felipe IV “não é apenas o valor da obra em si, mas também o que está por fora do quadro, a história do seu entorno no tempo em que foi criado”, assegura Mercè Ros, galerista e historiadora responsável pela venda do quadro e pela investigação de um ano que trouxe o seu paradeiro de volta a conhecimento público.

O quadro buscou a galerista. Há um ano, um grupo de pessoas a chamou para dizer que tinham uma pintura em mãos, estavam convencidos de que era um original de Rubens e queriam vendê-lo. “Investiguei a história do quadro e confirmei que era original”, contou Mercè.

Sua investigação tem duas vertentes: quando e por que Rubens pintou esta obra e o destino sombrio que parece acompanhar o retrato. Quando Rubens (1577-1640) já era um grande nome da pintura e Velázquez (1599-1660) estava a caminho de se tornar um gênio, o artista flamengo chegou a Madrid e pintou Felipe IV. O monarca tinha 23 anos e os seus retratos mostravam uma figura juvenil e tímida. Nas mãos de Rubens, ele se tornou adulto e majestoso.

Não é apenas o valor da obra em si, mas também o que está por fora do quadro, a história do seu entorno no tempo em que foi criado

UMA OBRA ESCONDIDA

O pintor viajou à Espanha a pedido do Rei, que buscava informações sobre as negociações de paz com os Países Baixos. Durante sua estadia, entre 1628 e 1629, pediu um retrato. Foram várias pinturas: três foram queimadas em 1734, incluindo o retrato equestre preferido do monarca.

No retrato de busto largo que está à venda, a luz cai sobre o rosto de um Felipe IV saído da penumbra de uma cortina. Posando de lado, seu olhar é para a frente e o bigode e o cavanhaque são quase inexistentes. Rubens o pintou sobre madeira, material que utilizava para suas composições mais ambiciosas.

O mestre flamenco gostava do trabalho de Velázquez, segundo Mercè, e aconselhou que ele fosse à Itália para continuar sua preparação. Quando Rubens partiu para a Antuérpia em 1629, Velázquez fez o mesmo, rumo à região alpina. Dalí, ele voltou para entrar no Olimpo das artes.

“O que não está claro é se Rubens pintou este quadro em Madrid ou na Antuérpia”, diz a historiadora. Tudo indica que ele o fez na cidade flamenca em uma estrutura de madeira e, a partir dela, se realizaram todas as demais cópias. Quando morreu, o autor deixou a obra em seu inventário, mas não se voltou a saber dela até o início do século XX, quando reapareceu nas mãos de uma família inglesa de sobrenome Kent e foi comprada pelo britânico H. M. Clark. Nos anos vinte, o historiador August L. Mayer a registrou na The Burlington Magazine. Em 1926, o famoso negociante de arte americano Joseph Duveen adquiriu o quadro. Em 1929, a vendeu aos milionários da família Vanderbilt por US$ 160 mil. Então, a obra foi transferida à tela e, nos anos sessenta, passou ao milionário Otto Eitel, morto em 1983.

Agora, a luz volta a ser vista e logo seu destino será decidido: se seguirá como um retrato para poucos olhos ou se poderá sem contemplado por qualquer pessoa em um museu espanhol.

oglobo.globo.com | 16-11-2015
O ministro das Finanças dos Países Baixos, Jeroen Dijsselbloem, foi envolvido na polémica sobre a alegada influência do grupo bancário holandês ING na elaboração de uma lei que concede deduções aos bancos.
feeds.jn.pt | 04-11-2015

RIO - Os avanços da medicina ajudam a ampliar a expectativa de vida da população, mas isso não quer dizer que as pessoas desfrutam de saúde nesses anos extras. A afirmação é da Organização Mundial de Saúde (OMS), que, nesta quarta, divulgou um relatório segundo o qual o número de pessoas com mais de 60 anos será duas vezes maior em 2050, o que exigirá uma mudança social radical. O órgão contabiliza cerca de 900 milhões de idosos atualmente, ou cerca de 12,3% da população total. A expectativa é de que em 2050, esta fatia represente 21,5%, mais de um quinto do planeta (2 bilhões).

Por isso, a OMS propõe três grandes mudanças: tornar os lugares em que vivemos em ambientes amigáveis para as pessoas mais velhas, realinhar sistemas de saúde às necessidades dos idosos, e os governos desenvolverem sistemas de cuidados de longo prazo que possam reduzir o uso inadequado dos serviços de saúde agudos, garantindo a dignidade nos últimos anos de vida.

Estes são pontos abordados no Relatório Mundial sobre Envelhecimento e Saúde, divulgado nesta quarta-feira, por conta do Dia Internacional do Idoso, que é comemorado em 1.º de outubro. Segundo a OMS, a expectativa de vida global é de 66 anos e em 2050 será de 72. Idoso

— Hoje, a maioria das pessoas, mesmo em países mais pobres, vivem por mais tempo — diz Margaret Chan, diretora-geral da OMS. — Mas isso não é suficiente. Precisamos assegurar que esses anos extras sejam saudáveis, significativos e dignos. Alcançar esse objetivo não será bom apenas para os mais velhos, será bom para a sociedade como um Vida longa não é necessariamente vida saudável

No Brasil, a expectativa de vida de um bebê nascido hoje é de 75 anos. E para quem tem 60 anos é de 82, em média. Segundo a OMS, no Brasil, os idosos passarão de 24,4 milhões de idosos para quase 70 milhões (2050).

— A OMS está dizendo aos seus 193 países membros: acordem! É preciso pensar no idoso, temos de dar ênfase a eles. Porque o envelhecimento está chegando rápido — comenta Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional para Longevidade, no Brasil, para quem no país, será preciso dar atenção à educação. — Outro investimento no Brasil deve ser na formação educacional dos médicos que hoje estudam como se vivessem no século XX e não no século XXI. Por que tantos especialistas em reprodução, se cada vez mais nascem menos bebês? Precismos de melhores cardiologistas, geriatras e, de uma forma geral, de médicos que foquem nas doenças crônicas.

Ao contrário das suposições generalizadas, o relatório conclui que há poucas evidências de que os anos adicionais de vida são desfrutados com melhor saúde do que no caso das gerações anteriores na mesma idade. Isso porque, há a impressão que a tecnologia, inclusive na área da saúde, tenha “melhorado” a condição das pessoas.

— Infelizmente, os 70 ainda não parecem ser os novos 60 — atesta John Beard, diretor do Departamento de Envelhecimento e Curso de Vida da OMS, que endossa a tese de que a probabilidade das pessoas mais velhas estarem passando por vidas mais longas e saudáveis é de que tenham vindo de classes mais favorecidas da sociedade.

A maioria dos problemas de saúde enfrentados por pessoas mais velhas são associados a condições crônicas, principalmente doenças não transmissíveis.

Muitas delas podem ser prevenidas ou retardadas. Outros problemas de saúde podem ser controlados de maneira eficaz, principalmente se forem detectados cedo o suficiente.

E mesmo para as pessoas com declínios na capacidade, os ambientes de apoio podem garantir que elas vivam vidas dignas e com crescimento pessoal contínuo. O relatório, conclui no entanto, que o mundo está muito longe desses ideais. Segundo a OMS, o envelhecimento da população demanda resposta abrangente da saúde pública.

CUSTO QUESTIONÁVEL

A OMS cita uma pesquisa desenvolvida no Reino Unido em 2011 que estimou que, após definir os custos das pensões, bem-estar e cuidados com a saúde em relação às contribuições feitas por meio de impostos, gastos de consumidores e outras atividades de valor econômico, as pessoas mais velhas contribuíram com aproximadamente R$ 240 milhões para a sociedade e que subirá para R$ 462 bilhões em 2030.

Embora haja menos evidências de países de baixa e média renda, a contribuição de pessoas mais velhas nesses cenários também é significativa.

No Quênia, por exemplo, a idade média dos pequenos agricultores é de mais de 60 anos. Portanto, as pessoas maiores podem ser críticas para manter a segurança dos alimentos no Quênia e em outras partes da África Subsaariana. Elas também possuem um papel crucial no apoio a outras gerações. Na Zâmbia, por exemplo, cerca de 1/3 das mulheres maiores são as principais fornecedoras e prestadoras de cuidados de netos cujos pais foram perdidos para a epidemia de HIV ou migraram para trabalhar.

A OMS afirma que o período de vida associado com os maiores gastos de saúde está relacionado ao último ou dois últimos anos de vida. Mas, que essa relação também varia significativamente entre os países.

Segundo o relatório, cerca de 10% de todos os gastos com saúde na Austrália e nos Países Baixos, e cerca de 22% nos Estados Unidos, são incorridos no cuidado de pessoas durante o seu último ano de vida. Além disso, os últimos anos de vida tendem a resultar em gastos mais baixos com saúde nos grupos de idades mais avançadas.

Embora mais evidências sejam necessárias, prever custos futuros de saúde com base na estrutura etária da população, a OMS afirma que é um valor questionável. Reforça a tese com análises históricas que sugerem que o envelhecimento tem muito menos influência sobre os gastos com saúde do que diversos outros fatores.

Entre 1940 e 1990 nos Estados Unidos (um período de envelhecimento significativamente mais rápido da população já ocorrido), o envelhecimento parece ter contribuído apenas cerca de 2% dos gastos com saúde, enquanto as mudanças relacionadas à tecnologia foram responsáveis entre 38% e 65% de crescimento.

MUDANÇA DE FOCO

O relatório enfatiza que enquanto algumas pessoas mais velhas exigirão cuidados e apoio, as populações idosas, em geral, são muito diversas e podem fazer várias contribuições para as famílias, comunidades e sociedade em geral.

O estudo cita uma pesquisa que sugere que essas contribuições superam quaisquer investimentos que podem ser necessários para fornecer serviços de saúde, cuidados de longa duração e de segurança social necessárias para as populações mais velhas.

Outra constatação é de que a política tem de mudar de uma ênfase no controle de custos, a um foco em permitir que as pessoas mais velhas façam o que importa a elas.

oglobo.globo.com | 30-09-2015
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