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Europa Saúde

Se pudesse mudaria a anatomia do tempo para conseguir mais umas horas de forma a conciliar as várias tarefas. Como não pode, João de Deus, uma das cem personalidades mais influentes da saúde a nível mundial vai tratando dos olhos dos portugueses ao mesmo tempo que chama atenção à Europa para a necessidade de os médicos terem certificação e formação em liderança clínica.
feeds.dn.pt | 08-12-2017
Os Estados-membros da União Europeia irão decidir em 20 de novembro onde serão as sedes da Agência Europeia de Medicamentos e da Autoridade Bancária Europeia após a saída do Reino Unido do bloco (Brexit), em março de 2019. As duas agências têm sede em Londres.A Agência Europeia de Medicamentos emprega cerca de 900 funcionários altamente qualificados e exerce influência global nas políticas de saúde. Ao menos 19 membros da UE se ofereceram para abrigar a instituição. [Leia mais...]
atarde.uol.com.br | 15-11-2017
As novas regras, ao não permitirem no mercado modelos que excedem os 80 decibéis, evitarão "efeitos adversos para a saúde relacionados com a poluição sonora e a reemissão de poeira", diz associação Zero.
www.publico.pt | 31-08-2017
Tecnologia ainda pouco utilizada no tratamento de transtornos psiquiátricos no Brasil, os equipamentos de realidade virtual são usados em maior escala em centros de saúde dos Estados Unidos e da Europa. O próprio governo americano investe na técnica para tratar veteranos de guerra que desenvolveram estresse pós-traumático. "Eles criaram cenários para combatentes que estiveram no Iraque e no Afeganistão. Os softwares de lá são muito impressionantes. [Leia mais...]
atarde.uol.com.br | 22-07-2017
As autoridades de saúde declararam, esta quarta-feira, o fim da epidemia de sarampo em Portugal, iniciada em fevereiro, apesar de manterem os níveis de alerta elevados devido à manutenção de surtos da Europa.
feeds.jn.pt | 05-07-2017
Eurico Castro Alves, antigo secretário de Estado da Saúde, e o vereador Ricardo Valente vão representar o Porto, cidade interessada em receber a Agência Europeia do Medicamento.
www.publico.pt | 19-06-2017
O presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, disse ter sido informado pelo ministro da Saúde da intenção do Governo de convidar o Porto a candidatar-se a ser sede da Agência Europeia do Medicamento.
feeds.jn.pt | 17-06-2017
É uma espécie essencial à saúde das florestas que se alimenta de madeira de árvores de folha caduca já morta e em decomposição.
www.publico.pt | 12-05-2017
O objectivo final do centro de reabilitação é devolver os animais marinhos à natureza o mais rapidamente possível, garantindo a conservação destas espécies cruciais para a saúde dos oceanos
www.publico.pt | 11-05-2017

RIO - Usar o seguro-viagem embutido no cartão de crédito vale a pena? A pergunta é uma das mais frequentes durante o planejamento da viagem, e com motivo. O benefício embutido em algumas categorias de cartões consegue representar uma boa economia, mas também pode oferecer cobertura insuficiente, dependendo dos planos do turista.

BVSeguro

Tem direito ao seguro do cartão de crédito o cliente que efetuou o pagamento total do valor de algum meio de transporte de empresas registradas oficialmente (avião, trem, navio de cruzeiro) ou adquiriu essas passagens via programas de fidelidade ou milhagem com pontos de compras feitas com o próprio cartão. O benefício é estendido ao cônjuge do titular e para filhos menores de 24 anos.

Serviços à parte

Apesar da aparência gratuita, o seguro faz parte da cartela de serviços pagos com a anuidade do cartão. E não é para todo mundo. Nas principais empresas do mercado, esses serviços estão disponíveis apenas para portadores das bandeiras superiores.

Nos cartões Mastercard, o benefício é válido apenas para as categorias Platinum e Black, cujos usuários têm direito a despesas médicas pagas no valor até US$ 25 mil por pessoa, remoção médica de emergência até US$ 50 mil e repatriação de restos mortais de até US$ 25 mil. Nos cartões Visa, a categoria Platinum dá direito a cobertura de até US$ 50 mil em assistência médica e até US$ 100 mil em internação, remoção de corpo ou retorno antecipado. Na categoria Infinite, esses valores são de US$ 100 mil, para as duas situações. Para quem viaja para os países Schengen, na Europa, as empresas oferecem cobertura de até € 30 mil.

Em relação aos seguros por morte ou invalidez por acidente e outras doenças que não as preexistentes, as apólices dos cartões de crédito têm prêmios parecidos com os produtos mais caros das seguradoras, em valores que vão de US$ 500 mil a US$ 1,5 milhão. Os cartões mais superiores, como Visa Infinite e Mastercard Black, também dão reembolso para cancelamento de viagem, algo que, na maioria das seguradoras, é preciso contratar em serviço à parte, e seguro para proteção de objetos na bagagem. Outra vantagem é o seguro para o veículo alugado com o mesmo cartão, desde que o cliente não contrate o seguro oferecido pela locadora. Na Visa, esse benefício é válido também para categoria Gold.

Comprovante é exigência

Desde a regulamentação do serviço de assistência de viagens, em 2016, ficou determinado que todo passageiro deve viajar levando um documento que comprove o seguro. Por isso, quem pretende usar o benefício dos cartões deve baixar certificados nos sites das operadoras.

Para a advogada especializada em direito do viajante, Luciana Atheniense, tão fundamental quanto viajar com um seguro é se informar sobre a cobertura que ele oferece.

— Não importa o tipo de seguro, é importante que se saiba exatamente o que ele cobre. Vejo muitos casos de gente que diz “ah, não vou contratar na agência porque já tenho o do cartão de crédito”, e só descobre quando se depara com o problema, em outro país.

Além disso, acrescenta Luciana, é preciso especial atenção para seguros específicos, como de esportes radicais, que devem ser contratados à parte:

— Nem sempre a seguradora aceita pagar por um tratamento de um cliente que quebrou a perna esquiando se isso não havia sido acertado com antecedência.

O que fica de fora: quem precisa de cobertura extra

A cobertura oferecida pelos seguros de cartões de créditos costuma se assemelhar à dos planos mais básicos oferecidos pelas seguradoras. Mas há casos especiais em que o turista deve contratar um seguro específico, como para atividades radicais ou viagens longas.

Esportes radicais. Apólices convencionais não cobrem acidentes de pessoas que se expõem deliberadamente ao risco, como os praticantes de atividades como snowboard, esqui, bungee jump e voo de asa-delta. Nesses casos, é preciso contratar um seguro específico para esportes de aventura. É o ideal para quem viaja para lugares como Alpes, estações de esqui na América do Sul, nos EUA ou na Nova Zelândia.

Viagens longas. Os períodos máximos de cobertura oferecidos pelos cartões são de 30 ou 60 dias. Por isso, quem viaja para um mochilão ou um período sabático, com roteiros que podem durar alguns meses ou até um ano, é preciso contratar um seguro para períodos estendidos. Quem viaja para fazer intercâmbios ou cursos também precisa de um seguro específico para isso, que costuma ser oferecido nas agências especializadas.

Gestantes. Complicações na gravidez não são cobertas pelas apólices dos cartões de crédito, assim como das seguradoras (que são consideradas condições de saúde preexistentes). Mas algumas destas têm seguros especiais para viajantes grávidas, em geral até a 32ª semana de gestação, já que a partir desse período os médicos recomendam que as mulheres não viagem mais de avião.

oglobo.globo.com | 01-05-2017

Mais VATICANO - O Papa Francisco assegurou que a Santa Sé está disposta a intervir diante da grave crise na Venezuela, mas com "condições claras", em declarações feitas neste sábado a bordo do avião papal que o levava do Egito para Roma.

- Tem que ser com condições muito claras - advertiu o Papa, questionado sobre como a Santa Sé e ele pessoalmente poderiam ajudar a frear a onda de violência na Venezuela, que deixou até agora cerca de 30 mortos. - Houve intervenção da Santa Sé sob um pedido forte de quatro presidentes que trabalhavam como patrocinadores. E não deu em nada. Ficou do jeito que estava. Não deu em nada porque as propostas não eram aceitas ou se diluíam. Eram um sim sim, mas não não.

O pontífice se referia às ações da Santa Sé a pedido dos ex-presidentes José Luis Rodríguez Zapatero (Espanha), Leonel Fernández (República Dominicana), Martín Torrijos (Panamá) e Ernesto Samper (Colômbia) que não deram resultado em dezembro de 2016, ao tentarem entabular um diálogo entre a oposição e o governo de Nicolás Maduro.

- Todos sabemos sobre a difícil situação da Venezuela, um país que gosto muito - reconheceu o papa. - Sei que agora estão insistindo, não sei bem de onde, acredito que os quatro presidentes para relançar esse patrocínio e estão procurando um local. Acredito que tenha que ser com condições, condições muito claras.

AS CONDIÇÕES

A diplomacia do Vaticano não se reconhece como mediadora do conflito entre o governo de Nicolás Maduro e a oposição, mas como um "patrocinador" do diálogo, segundo explicaram fontes locais.

No ano passado, o secretário de Estado da Santa Sé, o cardeal Pietro Parolin, número dois do Vaticano, que foi núncio apostólico na Venezuela, fixou uma série de condições após consultar as partes para poder lidar com o conflito.

Entre as condições, destacam-se a fixação de um calendário eleitoral, a libertação dos opositores presos, a autorização de assistência de saúde internacional e a restituição das funções do Parlamento.

Durante a coletiva com mais de 70 jornalistas que o acompanhavam no avião, o Papa argentino admitiu que alguns dos problemas para sua ação pacificadora são as divisões dentro da oposição venezuelana.

- Parte da oposição não quer isso - disse. - É curioso, a oposição está dividida e os conflitos aumentam cada vez mais. Mas há algo em movimento [...] muito no ar ainda.

Francisco reiterou que "tudo o que se pode fazer pela Venezuela deve ser feito, mas com as garantias necessárias".

O pontífice manifestou publicamente em várias ocasiões sua preocupação com a crise na Venezuela.

COREIA DO NORTE

Francisco também disse que um terceiro país deveria tentar mediar a situação entre a Coreia do Norte e Estados Unidos, e que a situação se tornou "muito quente" e o mundo corre o risco de uma guerra devastadora.

Ele acredita que "uma boa parte da humanidade" seria destruída em qualquer guerra generalizada. Francisco afirmou que está pronto para encontrar com o presidente dos EUA, Donald Trump, quando o mandatário norte-americano estiver na Europa no próximo mês. Ele, contudo, disse não estar ciente de que Washington tenha solicitado um encontro.

Em resposta a uma pergunta sobre as tensões entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte, Francisco disse que a Organização das Nações Unidas (ONU) deveria reafirmar a sua liderança na diplomacia mundial, porque se tornou "muito aguada".

- Chamo, e conclamo, todos os líderes, como já pedi a líderes de vários lugares, a trabalhar para encontrar uma solução para os problemas através do caminho da diplomacia - disse ele sobre a crise da Coreia do Norte.

O Papa falou após a Coreia do Norte testar um míssil balístico neste sábado (horário local), pouco depois de o secretário de Estado dos EUA, Rex Tillerson, advertir que o fracasso em conter o programa nuclear e de mísseis balísticos de Pyongyang poderia levar a "conseqüências catastróficas".

- Há tantos facilitadores no mundo, existem mediadores que se oferecem, como a Noruega, por exemplo - disse ele. - (Noruega) está sempre pronta para ajudar. É apenas um (país) mas há outros. Mas o caminho é o caminho da negociação, de uma solução diplomática.

oglobo.globo.com | 30-04-2017

RIO — Quando as pessoas migram, os animais de estimação viajam junto. Foi isso o que aconteceu com o Canis familiaris, o cão doméstico, quando os primeiros humanos chegaram às Américas, revela o mais completo mapa genético da espécie já construído. De acordo com o estudo, publicado nesta quarta-feira no periódico “Cell Reports”, o chamado “Cão do Novo Mundo” cruzou o Estreito de Bering há milhares de anos, mas seus genes continuam vivos em raças modernas da América Latina.

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Segundo os pesquisadores, as raças mais populares nas Américas descendem de cães europeus, que chegaram ao continente durante o período de colonização, mas após a análise do genoma de 1.326 cães, de 161 raças diferentes — de um total de 360 raças reconhecidas pela Federação Cinológica Internacional —, foram encontradas evidências de que o cão pelado peruano e o pelado mexicano são descendentes do “Cão do Novo Mundo”.

— O que nós notamos é que existem grupos de cães americanos que se separaram de alguma forma das raças europeias — disse Heidi Parker, coautor do estudo e pesquisador dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA. — Nós estávamos procurando por algum tipo de assinatura, e esses cães têm os genes do “Cão do Novo Mundo” escondidos em seus genomas.

Entretanto, novos estudos serão necessários para determinar se a ausência de pelos é uma característica herdada do “Cão do Novo Mundo” ou de raças europeias, já que cruzamentos aconteceram ao longo do tempo.

'EXPLOSÃO' NO PERÍODO VITORIANO

De acordo com o estudo, as 161 raças analisadas se encaixam em 23 grupos diferentes, definidos pela origem geográfica e atributos físicos, como a habilidade de usar o olfato para a caça. Um ponto interessante é que a análise genética mostra que o cruzamento para a criação de novas raças sofreu um boom recente, há cerca de 300 anos, que resultou na grande variedade moderna.

O labrador é sobretudo um produto do cruzamento dentro do grupo retriever, mas seu parente mais próximo, o golden retriever, é bem diferente, possuindo traços genéticos do setter irlandês, do setter inglês e do airedale terrier. Essas raças surgiram na Inglaterra Vitoriana, no século XIX. Na época, essas e outras variedade foram desenvolvidas para acompanhar expedições de caça, impulsionadas pela popularização das armas de fogo.

Raças do Oriente Médio, como o saluki, e da Ásia, como o chow-chow e o Akita, surgiram bem antes da “explosão vitoriana” na Europa e nos EUA. Já os cães pastores, majoritariamente oriundos da Europa, mostraram grande diversidade.

— Quando olhamos para as raças pastoras, nós vemos muito mais diversidade que nas outras raças. Vimos um grupo particular que aparentemente surgiu no Reino Unido, um outro grupo que veio do Norte da Europa e outro, vindo do Sul — disse Parker. — Isso mostra que o pastoreio não é uma atividade recente. As pessoas usaram cães nesse trabalho há milhares de anos, não apenas centenas de anos.

Além das curiosidades, o estudo contribui para o melhor entendimento das doenças nos cães e a definição de grupos de risco. Somente com o mapa genético foi possível saber, por exemplo, que o duck tolling retriever da Nova Escócia é suscetível a uma doença nos olhos encontrada tipicamente em cães pastores, como o collie: várias raças pastoras contribuíram geneticamente para o tolling, provavelmente introduzindo alguma mutação responsável pela doença.

oglobo.globo.com | 26-04-2017

RIO - O regime fascista de Benito Mussolini não queria criar um mártir. Em 24 de abril de 1937, após dez anos e cinco meses de prisão, decidiu soltar Antonio Gramsci, principal liderança do Partido Comunista Italiano (PCI). Após uma década de maus tratos no cárcere, Gramsci, de saúde frágil desde a infância, já estava condenado. Morreu três dias depois, numa clínica em Roma, aos 46 anos. Sem nunca ter publicado um livro em vida, tornou-se um dos mais influentes pensadores do século XX, com sua original e heterodoxa contribuição ao marxismo. E, 80 anos após sua morte, seus trabalhos são lidos, relidos e, em alguns casos, até “reescritos”.

Desde a década de 1990, ganharam força as pesquisas que buscam reconstituir a produção de Gramsci à luz da filologia histórica. Seguindo essa linha, a partir de 2007 começou a ser editada na Itália a “Edição nacional dos escritos de Antonio Gramsci”, sob responsabilidade da Fundação Instituto Gramsci, com objetivo de estabelecer a versão definitiva de todos os seus manuscritos. Esse trabalho vem dando novo impulso aos estudos da obra do pensador italiano, agora livre das amarras políticas do século passado, como é o caso de dois livros recém-lançados no Brasil: o ambicioso “Dicionário gramsciano”, organizado por Guido Liguori e Pasquale Voza, e “Modernidades alternativas: o século XX de Antonio Gramsci”, de Giuseppe Vacca, ex-diretor do Instituto Gramsci.

Isso porque, além dos cerca de 2 mil textos políticos e jornalísticos publicados na imprensa entre 1914 e 1926, a parte mais importante da produção do pensador italiano são os seus 33 cadernos manuscritos, feitos na prisão entre 1929 e 1935, mais conhecidos como “Cadernos do cárcere”. É no período de reclusão que Gramsci desenvolve seus conceitos mais conhecidos, como “hegemonia”, “revolução passiva”, “sociedade civil” e a “filosofia da práxis”. Contudo, pela própria natureza dos cadernos e pelas limitações impostas pelos fascistas, trata-se de uma “obra em progresso”, na definição de Liguori, professor da Universidade da Calábria e presidente da seção italiana da International Gramsci Society (IGS).

NA TRILHA DO TEXTO

Para Vacca, os esforços em torno da “Edição nacional” favoreceram a formação de uma nova geração de estudiosos que se dedicam a uma “leitura diacrônica” dos “Cadernos do cárcere”, reconstruindo suas conexões com a história europeia e mundial do século XX. Essa “leitura diacrônica” é uma forma de montar o mosaico do seu pensamento, já que o desenvolvimento dos seus conceitos está espalhado pelos cadernos.

— A “Edição nacional” é a primeira edição crítica integral dos escritos de Gramsci tratados com critérios exclusivamente filológicos e segundo o método histórico, sem sugerir nenhuma interpretação e restituindo textos e contextos de sua obra a seu tempo, como é obrigatório para um clássico do pensamento — afirma Vacca, que no seu “Modernidades alternativas” analisa alguns dos principais conceitos de Gramsci.

Na mesma trilha, o “Dicionário gramsciano” busca realizar um trabalho que o pensador italiano não teve tempo de concluir em vida: a sistematização de seus principais conceitos. Trata-se de um trabalho coletivo dos pesquisadores da IGS desde o ano 2000. No livro, trabalharam cerca de 60 especialistas e estudiosos, italianos e estrangeiros, incluindo brasileiros. Liguori vê um renascimento dos estudos gramscianos após o fim da União Soviética: "Depois do fim do PCI, o partido de Gramsci, e da União Soviética, o seu pensamento tem sido interpretado de um modo menos diretamente condicionado pela luta política."

— Depois do fim do PCI, o partido de Gramsci, e da União Soviética, o seu pensamento tem sido interpretado de um modo menos diretamente condicionado pela luta política. Nos países anglo-saxões, ele se tornou um autor de referência para os “Estudos culturais”, o que lhe deu fama, mas também mutilou grande parte de sua natureza política. Um caso interessante é o dos “estudos subalternos”, nascido na Índia, que difundiu por todo o mundo a categoria gramsciana de “classe subalterna”, em oposição à “classe hegemônica” — aponta Liguori.

Os “Cadernos do cárcere” foram editados pela primeira vez entre 1948 e 1949, após a Segunda Guerra Mundial, mas o texto sofreu diversas alterações e censuras devido às discordâncias de Gramsci com a linha política adotada pelo PCI, à época comandado por Palmiro Togliatti. A primeira edição crítica dos “Cadernos” só foi publicada na Itália em 1975, graças ao trabalho de Valentino Gerratana. A partir daquela década, segundo Vacca, houve apropriações equivocadas das ideias de Gramsci com objetivos políticos imediatos. Ele cita a “presumida hegemonia neoliberal”, que não leva em conta que o conceito gramsciano de hegemonia implica “a capacidade das classes dominantes de produzir estabilidade e gerar consenso”.

RECEPÇÃO BRASILEIRA

No Brasil, a situação foi parecida. Um dos tradutores da edição brasileira dos “Cadernos” (Civilização Brasileira), ao lado de Carlos Nelson Coutinho e Luiz Sérgio Henriques, o professor Marco Aurélio Nogueira, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), afirma que o contexto brasileiro do final das décadas de 1970 e 1980 influenciou a recepção das ideias gramscianas.

— Havia muita resistência ao pluralismo e ao valor intrínseco da democracia, em torno do qual não deveria haver disputas. O marxismo brasileiro também era raso, sobretudo na reflexão política — diz Nogueira. — Além do mais, Gramsci é um pensador marxista heterodoxo e de difícil assimilação. São coisas que fazem com que ele gere tantas controvérsias.

Contudo, o professor aponta que as suas ideias foram decisivas para encaminhar os grupos de esquerda em direção à luta democrática contra a ditadura. Esse movimento estava alinhado com a própria reorientação política dos partidos comunistas na Itália, na França e na Espanha, repercutidas no Brasil por intelectuais chamados então de “eurocomunistas”. O marxismo gramsciano deu à esquerda uma concepção “processual” da reforma social, ou seja, uma ideia de “revolução socialista” que se faria mediante processo de longo prazo e não de “explosões”.

— O marxismo gramsciano deu à esquerda uma concepção “processual” da reforma social, ou seja, uma ideia de “revolução socialista” que se faria mediante processo de longo prazo e não de “explosões”. Isso impulsionou a passagem de praticamente todas as correntes para o campo democrático — explica Nogueira. — Sem o estímulo fornecido pela sua “plataforma” política e intelectual, é provável que a história da transição tivesse sido diferente.

Gramsci viveu e produziu no conturbado período entreguerras, num mundo chacoalhado pela Revolução Russa de 1917 e pela ascensão do fascismo — do qual foi vítima — na Itália, e do nazismo na Alemanha. Morto em 1937, não viu a queda dos seus algozes nem a crise do regime comunista soviético, que já criticava no início dos anos 1930. No presente de crises e ascensão da extrema-direita na Europa, os estudiosos concordam que Gramsci segue atual.

— Gramsci diz que o poder está assentado muito mais nos aspectos “hegemônicos” do que no aparato “repressivo”. Ele também não tinha uma visão ingênua da democracia: um consenso sobre um programa político deve ser criado bem antes do dia da eleição — diz Liguori.

Já Vacca acredita que o mundo do século XXI é marcado, mais do que pela globalização e sua crise, por um conflito econômico que corre o risco de se tornar uma guerra de verdade. E recorre às categorias gramscianas.

— Essa situação teve origem na crise do sistema mundial do segundo pós-guerra, culminada pela implosão da União Soviética. que havia permitido décadas de estabilidade, e no surgimento de um conflito econômico mundial que se caracteriza pelo crescente conflito do "cosmopolitismo" da economia e o "nacionalismo" da política. Superado o velho sistema hegemônico mundial, não se formou nenhum outro novo e, portanto, volta à cena a equação entre a política e a guerra.

oglobo.globo.com | 26-04-2017

Pela primeira vez desde o início da Quinta República, há 59 anos, os franceses irão às urnas, em segundo turno, escolher entre dois candidatos estranhos à tradição política da França, que sempre oscilou entre republicanos (direita) e socialistas (esquerda).

O centrista Emmanuel Macron, do movimento independente En marche! (Avante!), que obteve 23,9% dos votos no primeiro turno, no domingo passado, disputará a segunda rodada com a candidata da Frente Nacional (FN), Marine Le Pen (21,4%). Os dois derrotaram o conservador François Fillon (19,9%), do partido Os Republicanos; o socialista Benoit Hamon (6,3%) e o candidato da extrema-esquerda, Jean-Luc Mélenchon (19,6%), da Frente Insubmissa.

O resultado do primeiro turno é significativo pela derrota das agremiações convencionais, sobretudo o Partido Socialista (PS), refletindo a insatisfação do eleitor francês com o presidente François Hollande. Também evidenciou, mais uma vez, que o eixo atual da disputa ideológica, sobretudo no campo eleitoral, não se dá tanto entre esquerda e direita, mas especialmente entre aqueles que defendem um mundo integrado mediante regras comuns e os que preferem retornar ao isolacionismo e ao protecionismo do nacional-populismo.

Os números também apontam o forte avanço da esquerda radical e da extrema-direita, com bandeiras parecidas. As pesquisas, porém, indicam que Macron deve derrotar Le Pen no segundo turno, no próximo dia 7 de maio. Defensora de um nacionalismo que evoca o III Reich, a candidata da FN é controversa, com opiniões polêmicas sobre o Holocausto, refugiados sírios e globalização. Ela elogia as bravatas populistas de Donald Trump e, como ele, defende o fechamento de fronteiras, especialmente a muçulmanos. Le Pen prometeu que, se eleita, implementará o Frexit — a saída da França da União Europeia (UE), a exemplo do Reino Unido (Brexit).

Mais do que isso: Le Pen faz da xenofobia marca eleitoral e cativa o eleitor conservador do interior da França, embora também tenha crescido entre os jovens, ao contrário de Trump e dos eleitores britânicos que apoiaram o Brexit. Analistas dizem que a candidata da FN não consegue angariar muitos votos fora do seu eleitorado, ao contrário do rival, que já recebeu promessas de apoio de alguns dos candidatos derrotados no primeiro turno. Mélenchon, no entanto, anunciou que vai consultar “as bases” do partido, antes de anunciar quem terá seu apoio.

O centrista Macron é um defensor eloquente da integração europeia, a favor da economia de mercado e da saúde fiscal. Se sua vitória for confirmada, será mais um sinal de que a onda nacional-populista que varreu a Europa e o mundo nos últimos anos começa a perder força. Um alento bem-vindo.

oglobo.globo.com | 25-04-2017

A parceria entre Brasil e Espanha é fecunda e bem-sucedida em muitas áreas, e em ciência, tecnologia, inovações e comunicações. Raízes históricas poderiam explicar parte do que já se alcançou. Mas o presente e o futuro apontam, de modo inegável, para resultados a serem alcançados por meio de fluxos de informação cada vez maiores e mais velozes. Resultados que deverão redefinir a ideia mesma de navegação, agora em tempos de globalização e de internet.

Se nossos países carregam tanta similaridade, também são notórias as semelhanças no setor em que atuamos e buscamos contribuir com o desenvolvimento dos dois países.

Mantivemos uma profícua reunião em fevereiro, quando de viagem oficial brasileira à Espanha. Serviu como prévia em ciência, tecnologia, inovações e comunicações para visita do presidente de governo Mariano Rajoy ao Brasil, nestes dias 24 e 25 de abril. Visita há muito aguardada e que se concretiza pelo reconhecimento do governo de Michel Temer sobre a importância de multiplicarmos potencialidades entre os países.

As semelhanças nos níveis de desenvolvimento científico, tecnológico e de inovação favorecem parcerias bilaterais. Já firmamos um Plano de Ação em Ciência e Tecnologia e um acordo sobre cooperação em nanotecnologia. E iremos avançar mais.

E, por isso, na missão do presidente Rajoy, teremos importantes acordos de cofinanciamento de projetos conjuntos, envolvendo agências brasileiras e espanholas de pesquisa e ciência. O I Fórum Brasil-Espanha, a ser realizado em São Paulo, durante a missão espanhola, impulsionará essas discussões.

Prevê-se também a construção de um novo cabo submarino de fibra óptica entre a Europa e a América do Sul, em associação entre Espanha e Brasil, que ampliará a oferta e a velocidade de tráfego internacional, com redução de custos e incremento da segurança de dados.

Os dois países efetuam trocas comerciais que remontaram a mais de US$ 5,1 bilhões em 2016, com pauta variada. A Espanha é um dos maiores parceiros do Brasil quando se trata de investimentos em nível mundial. Em relação às exportações brasileiras para a Espanha, a pauta é diversificada e estimula o desenvolvimento da economia do país latino-americano.

Além disso, vale salientar a importância do aporte das empresas espanholas na década de 90 como contribuintes do desenvolvimento econômico do Brasil. Instalaram-se, cresceram e prosperaram. Geraram riqueza, empregos e contribuíram com o avanço de setores importantes, impactados pela tecnologia.

Brasil e Espanha estão prontos para embarcar em uma nova grande aventura em áreas de ponta, voltadas para o desenvolvimento econômico. Áreas que aliam inovações científico-tecnológicas ao que existe de mais moderno em comunicações.

A evolução da ciência, tecnologia, inovações e comunicações se reflete diretamente na vida dos cidadãos. Com a melhoria da qualidade dos serviços públicos nas áreas de transporte, comunicações, saúde e energia, entre outras. Sabendo disso, os dois países trabalham pela ampliação dos investimentos nesses setores e colocam em marcha políticas públicas impulsionadoras.

Quando a Espanha se reencontrou com o Brasil, há três décadas, em pouco tempo se tornou uma das principais investidoras no País. Agora, é a vez da Ciência, da Tecnologia, da Inovação e das Comunicações: a porta para o futuro. Brasil e Espanha têm as senhas de acesso nas mãos.

Gilberto Kassab é ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações do Brasil, e Carmen Vela é secretária de Estado de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Espanha

oglobo.globo.com | 24-04-2017

RIO — Ramiro Venâncio descobriu o câncer por acaso, em exames realizados para uma cirurgia, no início do ano passado. Nesse processo, ele precisou ser internado às pressas para realizar pela primeira vez uma quimioterapia, perdeu pouco mais de 15 quilos em algumas semanas e trocou a cama pelo sofá — se estivesse deitado, diz, “pensaria besteiras”.

Cuidados paliativos

— Eu achava que ia morrer, que não saberia como deixar minha família — lembra. — Nós ouvimos falar sobre como é uma doença difícil, e eu vi todos os sintomas acontecendo comigo. Parecia que estava trilhando um caminho sem volta e conversei muito com minha família sobre isso.

Apesar de ainda não estar curado, o empresário diz não sentir nada. O linfoma regrediu tanto que o médico permitiu que ele viajasse por um mês pela Europa — antes, estava proibido de passar um fim de semana no interior do estado.

— Esta experiência impactou meu comportamento. Não esquento muito com as coisas, tudo parece mais brando — descreve.

O sentimento de proximidade com a morte e o papel da medicina diante destes casos foram temas da edição deste mês do “Encontros O GLOBO Saúde e Bem-Estar”, realizada na última terça-feira na Casa do Saber. O debate contou com a presença da psicóloga e especialista em gerontologia Ligia Py, da geriatra e especialista em cuidados paliativos Claudia Burlá e mediação da jornalista do GLOBO Josy Fischberg.

Coordenador do evento, o cardiologista Claudio Domênico destaca a importância da família e do comportamento do médico na etapa final da vida de um paciente.

— Não importa se temos 30 ou 56 anos de idade, nunca vamos saber quando vamos morrer. A distância é a mesma para todo mundo — comenta. — Há diversos suportes para o fim da vida: a religião, a filosofia, os laços afetivos. E também precisamos de um médico carinhoso, que saiba escutar. Não adianta ter um profissional com conhecimento técnico se lhe falta calor humano.

REFLEXÃO SOBRE AS ÚLTIMAS RECOMENDAÇÕES

Domênico contou que recebe em seu consultório pacientes dispostos a fazer a diretiva antecipada de vontade — documento em que enumeram procedimentos que devem ou não ser realizados caso não haja possibilidade para reverter seu quadro de saúde.

— Às vezes as pessoas não falam sobre isso porque sentem vergonha, mas é importante que deixem claro: eu não quero isso ou aquilo — ressalta. — Apenas 10% das mortes são súbitas. Na grande maioria dos casos, como no câncer e na demência, o paciente tem a chance de refletir, dizer adeus e fazer suas últimas vontades.

A expectativa de vida cresceu significativamente no século passado e os avanços tecnológicos na área médica são incontestáveis, mas as doenças crônicas provocam limitações que devem ser acompanhadas até o fim da vida, para reduzir ao máximo a agonia do paciente.

Diante desta necessidade, a medicina paliativa ganha cada vez mais terreno. Trata-se de uma área interdisciplinar que foca do indivíduo, e não na doença que o aflige. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), 40 milhões de pessoas necessitam desta assistência, mas apenas 14% recebem o atendimento necessário. Em 2014, a entidade divulgou uma resolução global, apelando para que os Estados-membros da ONU investissem no acesso aos cuidados paliativos em seus sistemas de saúde. No ano seguinte, cerca de metade já havia atendido a recomendação.

EFICIÊNCIA MAIOR NO INÍCIO DA DOENÇA

A OMS alerta que a necessidade global de cuidados paliativos crescerá nas próximas décadas, seguindo o avanço de diversas doenças, principalmente crônicas, cardiovasculares e câncer, além do envelhecimento da população.

Este modo de assistência, no entanto, esbarra em diversas barreiras, como noções culturais sobre o que é a morte e como ela deve ocorrer, além da falta de informações básicas — muitas pessoas acreditam que estes cuidados só devem ser oferecidos para pacientes em suas últimas semanas de vida. Na verdade, a eficiência dos cuidados paliativos é maior se estiverem disponíveis desde o início da doença.

Outra resistência é encontrada dentro da comunidade médica, cuja formação acadêmica é direcionada para a cura. Diversos cursos de graduação em medicina ainda não têm disciplinas voltadas para este tema.

— Precisamos que os profissionais tenham a visão de que não são superpotências, e que aplicarão todos os cuidados para mitigar seu sofrimento até o fim da vida. Devem ser companheiros e oferecer sensibilidade — recomenda Ligia Py. — Devemos entender nossas próprias inquietações e inseguranças.

A psicóloga reivindica uma “revolução dos cuidados paliativos”, proporcionando uma nova assistência a casos em que a busca por unidades de tratamento intensivo não faz mais sentido.

— A morte é, foi e continuará sendo uma questão existencial. O papel da medicina é emprestar o seu aparato e arsenal terapêutico para vivermos melhor os nossos últimos momentos — ressalta. — É preciso nos reeducarmos para oferecer um contraponto ao pessimismo. Podemos trabalhar no processo de morrer, para que o ser humano seja a prioridade de nossos atos.

Para Claudia Burlá, é “inaceitável” uma pessoa padecer de dor, já que há medicamentos para combatê-la e indicações adequadas.

— O conhecimento científico já nos ensinou como controlar tanto um medicamento quanto o auxílio de profissionais de áreas como reabilitação e fisioterapia — sublinha. — Quantos segredos são revelados no leito de morte, quantas pendências são resolvidas, quantas palavras não foram ditas na vida inteira? Cabe a nós estarmos nesta cena e sermos um facilitador para a pessoa que está se despedindo da vida.

oglobo.globo.com | 23-04-2017

BRASÍLIA - Em poucas áreas a troca de guarda no governo foi tão nítida quanto no Ministério das Relações Exteriores depois que o presidente Michel Temer assumiu o comando do Palácio do Planalto, há pouco mais de um ano, após a condenação e o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff no Senado. Escolhido para o comando da política externa, o PSDB reformulou os principais postos-chave do Itamaraty e diplomatas que estavam no ostracismo voltaram à ribalta.

As substituições começaram com José Serra, que deixou o Ministério das Relações Exteriores em fevereiro, e seguiram sob a batuta de Aloysio Nunes Ferreira.

Aloysio Nunes Ferreira no comando do Itamaraty

Exemplos não faltam. O embaixador Marcos Caramuru de Paiva foi secretário de assuntos internacionais do Ministério da Fazenda no governo Fernando Henrique Cardoso e esteve à frente das negociações com o Fundo Monetário Internacional (FMI) nas crises financeiras da gestão tucana. Fontes do Itamaraty contam que quando Celso Amorim assumiu o órgão impediu que Caramuru assumisse um posto na embaixada do Canadá, deslocando-o para a Malásia, e depois para o posto de cônsul-geral em Xangai. Aborrecido com o tratamento, Caramuru deixou a pasta e abriu a Kemu Consultoria. Serra o resgatou e o nomeou embaixador do Brasil na China, o maior alvo de expansão comercial brasileiro.

— O Caramuru é um quadro extraordinário, conhece como ninguém os chineses, fala a língua e foi discriminado. Tinha se afastado do Itamaraty, mas agora nós o recolocamos como embaixador do Brasil na China e está tendo uma atuação espetacular — avalia o ex-chanceler José Serra, que deixou a pasta por problemas de saúde.

O embaixador Sérgio Amaral, ex-porta voz do governo Fernando Henrique Cardoso e seu ministro da Indústria e Comércio e ocupante de vários postos, inclusive em Washington, também estava no ostracismo. Era tido como exímio negociador. Foi um dos responsáveis pelo acordo entre Mercosul e Comunidade Andina.

Quando Lula assumiu, Amaral era embaixador do Brasil na França, mas foi substituído por Amorim. Decidiu se aposentar, voltou para a academia e prestou consultorias no setor privado. Amaral voltou para a linha de frente com Serra, que o nomeou embaixador do Brasil nos Estados Unidos. O diplomata Alexandre Parola, outro ex-porta voz do governo Fernando Henrique, voltou agora como porta-voz do presidente Michel Temer.

Questionado sobre Amaral, Amorim disse que o convidou para assumir a embaixada do Japão, mas ele preferiu sair. E afirmou que ele foi tirado do posto de Paris para a nomeação da primeira mulher no comando daquela representação, a embaixadora Vera Pedrosa.

— Foi oferecido um posto de grandeza razoável para o Sérgio Amaral. Ninguém pode dizer que o Japão não é importante. Mas talvez por outras ligações políticas ele preferiu sair. Não foi aposentado à força. Eu precisava colocar lá a embaixadora Vera Pedrosa. Ela era um quadro notável e também merecia um bom posto — explicou o ex-ministro.

SEM PERSEGUIÇÃO

A reabilitação do embaixador José de Alfredo Graça Lima, porém, não foi na gestão tucana. Coube ao ex-ministro Luiz Alberto Figueiredo, ainda na gestão Dilma, nomeá-lo para a subsecretaria-geral de assuntos políticos 2, área responsável pelas relações entre Brasil e Ásia. Graça Lima já havia tido papel de destaque em governos passados nas negociações de fóruns econômicos como a Organização Mundial do Comércio (OMC) e do Mercosul com a União Europeia.

Para especialistas na área, Graça Lima é apontado como o caso mais emblemático das mudanças de perfil do Itamaraty na era petista.

— O ministro Celso Amorim chegou a cometer a grosseria de tirar o Graça da chefia da delegação brasileira que iria negociar o Mercosul com a União Europeia e o mandou para o consulado em Los Angeles — conta um embaixador que acompanhou de perto a gestão petista no Itamaraty.

Amorim rebate e diz que Graça Lima é seu amigo pessoal, mas na época era necessária a mudança.

— Eram circunstâncias normais da carreira. Não houve nenhum tipo de perseguição. É normal que haja mais afinidade com essa ou aquela pessoa. Esse negócio de perseguição é fantasia. Eu nunca perguntei em quem votaram. E tenho certeza que quem trabalhou conosco e não votou no Lula, nem por isso deixou de fazer um trabalho extraordinário — diz o ex-chanceler.

Mas um caso emblemático da troca de comando no Itamaraty foi o que aconteceu com o embaixador Eduardo Saboia. Ele desagradou ao governo petista quando ocupava o cargo de encarregado de negócios da embaixada do Brasil em La Paz. Ainda diplomata, Saboia comandou a fuga do ex-senador boliviano Roger Pinto Molina, que fazia oposição ao presidente Evo Morales. Saboia dirigiu o carro que retirou o senador da Bolívia. Sem permissão do governo brasileiro, o diplomata foi alvo de um processo administrativo e punido com suspensão das funções. Acabou sendo contratado como assessor do então senador e hoje ministro Aloysio Nunes Ferreira.

Quando Serra assumiu a pasta, Saboia foi promovido a embaixador e, com a chegada de Aloysio, assumiu a chefia de gabinete do novo ministro. Apesar do episódio, os tucanos dizem que em sua nova gestão no Itamaraty não haverá troca de postos por não alinhamento político.

— Nós não discriminamos ninguém. Nenhum diplomata foi demitido ou trocado de posto por causa de suas ligações com o PT. O embaixador do Brasil na Espanha, por exemplo, eu mantive e vai muito bem. Isso cria um clima de respeito na corporação — disse Serra.

oglobo.globo.com | 23-04-2017

BERLIM e WASHINGTON DC - Milhares de pessoas participaram da primeira "Marcha pela Ciência", que se espalhou por mais de 600 cidades pelo mundo neste sábado, Dia Internacional da Terra, pela valorização da produção de conhecimento científico, devido a preocupações crescentes em relação às posturas adotadas pelo presidente Donald Trump, como o descrédito em relação às mudanças climáticas e cortes a fundos de pesquisas.

Nos Estados Unidos, a "Marcha pela Ciência", que incluiu manifestações no National Mall, em Washington DC, e desfiles em Midtown Manhattan, em Nova York, além de centensa de outras cidades pelo país, é rotulada como um movimento não partidário, com o objetivo de reafirmar o "papel vital da ciência na democracia americana", de acordo com o site da marcha. Ainda assim, as manfiestações foram, efetivamente, protestos contra cortes profundos que o presidente Donald Trump propôs nos orçamentos para ciências e pesquisas e seu ceticistmo sobre as mudanças climáticas e a necessidade de reduzir o aquecimento global.

Marcha pela Ciência pelo mundo no Dia Internacional da Terra

- É importante mostrar a esta administração que nos preocupamos com fatos - diz Chris Taylor, que participava da marcha no Mall, em DC, que reuniu cerca de duas mil pessoas, em grupos de discussões sobre mudanças climáticas, qualidade da água e alimentação sustentável - Parece que não estão realmente preocupados sobre crescimento econômico ou em criar novas tecnologias, apenas atendendo a grandes corporações - disse Taylor, que está tirando seu título de PhD em robótica na George Mason University, na Virgina.

A "Marcha da Ciência" é a última de uma série de demonstrações nos EUA que vêm sendo realizadas desde a posse de Trump há cerca de cem dias. Manifestações anteriores e protestos tinham foco em um leque de assuntos mais amplos, desde direito de aborto a política imigratória.

Austrália faz primeira 'marcha pela ciência' deste sábado

A Casa Branca não respondeu ao pedido de comentário sobre as marchas deste sábado. No entanto, no passado, Trump há havia afirmado seu desprezo pelo tema, dizendo que as mudanças climática são uma frande que estavam sufocando as políticas para fomentar o crescimento econômico. A administração de Trump está considerando a saída do Acordo de Paris, um acordo global que tem por objetivo a redução global de emissões de dióxido de carbono e outros gases-estufa. Ano passado, os Estados Unidos, sob a gestão do presidente Barack Obama, se juntaram a outros 190 países ao assinar o acordo.

Os cortes propostos por Trump no Orçamento de 2018 atingem os gastos com as agências que atuam em áreas científicas, incluindo redução de 31% para Agência de Proteção Ambiental.

Os organizadores da marcha demonstraram preocupação com o que vêem como ceticismo crescente dos políticos e com outros tópicos como vacinas, organismos geneticamente modificados e evolução.

BERLIM: 'NÃO HÁ ALTERNATIVAS AOS FATOS'

Em Berlim, os manifestantes levavam placas com os dizeres "Amamos os especialistas - aqueles com evidências" e "Ciência, não silêncio" para a marcha, que partir da Universidade Humboldt em direção ao Portão de Brandemburgo, liderada pelo prefeito de Berlim, Michael Mueller, e diretores de universidades da cidade.

"Não há alternativa aos fatos", dizia uma grande faixa, em referência ao termo usado pela assessora da Casa Branca Kellyanne Conway, durante uma controvérsia sobre o tamanho do público que assistiu à posse de Trump.

Os participantes da marcha fizeram uma parada rápida na Embaixada da Hungria para protestar contra uma nova lei húngara que ameaça fechar uma universidade financiada pelo investidor George Soros.

Segundo organizadores, 11 mil pessoas participaram do evento que, dizem, tem como alvo destacar a importântcia do conhecimento baseado na ciência e em evidências nas democracias.

links ciência

- Nós, berlinenes, sabemos por nossa própria História o que a repressão à liberdade significa. Isso mostra que temos uma responsabilidade particular em mobilizar as pessoas quanto à importância da ciência livre e aberta e de uma sociedade tolerante - disse Mueller aos mainifestantes.

A marcha, cuja data coincide com o Dia da Terra, vem após movimentos do presidente americano Donald Trum para cortar fundos da Agência de Proteção Ambiental e os Instutos Nacionais de Saúde.

- A Ciência é necessária. Na minha opinição a ciência empírica é a chava para o progresso da cultura e civilização que desenvolvemos - disse o manifestante Hagen Esterberg à TV Reuters.

Já Maria Pohle disse que se juntou à marcha para dar apoio "para a Ciência que não está ameaçada apenas na América, mas também na Europa e em todos os lugares do mundo".

REIVINDICAÇÕES TAMBÉM NO BRASIL

No Brasil, por sua vez, a comunidade científica brasileira reivindica maior valorização da área, sobretudo em termos financeiros. No mês passado, o presidente Michel Temer contingenciou R$ 2,5 bilhões do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. Os pesquisadores argumentam que a medida será um atraso para o país que, em 2015, teve cerca de 61 mil artigos científicos publicados, ficando em 13º lugar no ranking mundial de produção científica.

- A expectativa é conseguir dialogar com a sociedade, explicar qual a função da ciência, por que ela é importante, o que ela tem feito para o Brasil. Também aproveitamos para chamar atenção do governo. Infelizmente tivemos esse novo contingenciamento de recursos. Enquanto o país encarar educação, ciência e inovação como gasto e não como investimento, vamos andar para trás — sublinha a presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, Helena Nader.

oglobo.globo.com | 22-04-2017

RIO e VENEZA — Entre suas vielas antigas e estreitos canais, Veneza esconde o charme que faz suspirarem turistas e românticos do mundo todo. Mas, com a crise migratória que atinge a Europa, a histórica cidade do Norte da Itália agora escancara nas ruas — desta vez com dramática clareza — os vestígios de uma tragédia humanitária. Com um sistema de recepção a imigrantes e refugiados sobrecarregado, a cidade se distancia da sua tradição de hospitalidade iniciada há mais de duas décadas, com a guerra na Iugoslávia. O resultado é a violação de direitos fundamentais dos recém-chegados, que ocupam as calçadas para escapar da excruciante rotina dos centros de acolhimento.

Apenas no ano passado, 181 mil imigrantes chegaram à Itália, que se vê no epicentro da crise migratória europeia. E, embora não receba tantos quanto a costa do Mediterrâneo, Veneza vira uma metáfora do drama que percorre todo o país para quem foge de guerras, perseguições e extrema pobreza. Em janeiro, um refugiado da Gâmbia se afogou no Grande Canal, enquanto dezenas de turistas, que passeavam em barcos, o filmavam com seus celulares. Ninguém pulou para ajudar Pateh Sabally, de 22 anos. Morreu entre insultos e gritos: “Deixe-o morrer.”

Alguns dias antes, Sandrine Bakayoko, jovem de 25 anos da Costa do Marfim, morreu de uma trombose pulmonar no centro de acolhimento de Cona, uma isolada ex-base militar onde vive a maioria esmagadora dos refugiados da região: são 1,2 mil pessoas, cerca de 800 a mais do que a sua capacidade. As horas seguintes foram de violenta revolta, e os imigrantes acusavam os funcionários de não socorrerem Sandrine com a agilidade necessária. O resultado foi um cenário de guerra: móveis queimados, eletricidade cortada e 25 voluntários escondidos atrás de barricadas até a madrugada.

Os protestos se somam às denúncias de ativistas locais: tendas superlotadas, falta de serviços básicos e condições de higiene inexistentes. Segundo Yasmine Accardo, da ONG LasciateCIEntrare em Veneza, o centro de Conetta mais se assemelha a um regime de detenção, e não de acolhimento.

— O nosso sistema de recepção está falido. Os centros são isolados e pessimamente administrados, sem chegar nem mesmo perto de atender a direitos fundamentais — diz Yasmine. — Deveria haver assistência humanitária e cultural para os imigrantes, que não conhecem seus direitos e não falam o idioma. Muitas pessoas, incluindo menores, quando vão a lugares onde não têm direitos, preferem ir embora.

Hospitalidade água abaixo

Além da resistência de boa parte da população, os imigrantes em Veneza enfrentam a lenta burocracia e as ameaças políticas. Após a morte de Sandrine, o governo federal disse que aceleraria as deportações. Por sua vez, o prefeito de Veneza, Luigi Brugnaro, tomou posse em 2015 com a promessa de frear a imigração e retirar aqueles que “se embriagam, vendem bolsas contrabandeadas e vomitam” pelas ruas.

Tudo isso quebra com a tradição hospitaleira que Veneza conquistou em sua História recente. A Itália recebeu cerca de 80 mil refugiados da guerra da antiga Iugoslávia, dos quais 70% migraram entre 1992 e 1993. Neste mesmo ano, os venezianos receberam 500 imigrantes dos Bálcãs, um número impactante para a cidade. E, mesmo depois que o governo federal abandonou as medidas de emergência, autoridades locais mantiveram políticas propositivas de recepção.

Segundo o sociólogo Gianfranco Bettin, especialista em imigração de Veneza, a cidade desenvolveu um exemplar modelo à época. Ao invés de reunir imigrantes em campos frequentemente superlotados, como se faz hoje, autoridades adotaram um sistema difuso de integração, distribuindo os novos habitantes em apartamentos estruturados pela cidade, com serviços de assistência de saúde e social.

— Há mais de 20 anos, Veneza estava na vanguarda do acolhimento, especialmente por causa das guerras vizinhas — explica Bettin. — A experiência abriu o caminho que, depois, foi seguido em nível nacional. Algumas políticas orientaram o sistema de acolhimento italiano, sobretudo na proteção sexual às mulheres e nos cuidados aos menores.

Mas o mesmo sistema nacional que Veneza inspirou, hoje, sobrecarrega as suas estruturas. Muitas cidades italianas lutam para responder às demandas por acolhimento, enquanto falta coesão entre autoridades federais e locais. Vários defensores dos direitos dos imigrantes, incluindo Yasmine, argumentam que é necessário retornar ao modelo de baixo para cima, com mais autonomia às próprias comunidades.

— A falta de uma política nacional que afronte decisivamente o problema levou muitas cidades ao estresse e cansaço. Estado e Parlamento estão sobrecarregados, e isso cria desequilíbrios entre as cidades. É por isso que a mesma Veneza que investiu em recursos de acolhimento há duas décadas hoje tem muitas dificuldades — afirma Bettin.

oglobo.globo.com | 16-04-2017

Além do eleitorado conservador do Tea Party, votou em Trump a antiga classe operária industrial, hoje desempregada com o fechamento de fábricas pela globalização e inovação tecnológica. Indústrias tradicionais, como a automobilística, foram automatizadas, e inúmeros processos de trabalho robotizados.

O discurso populista de Trump vai na contramão das posições históricas do seu partido em defesa da globalização econômico-financeira. As grandes empresas multinacionais de origem USA passaram a produzir fora do território americano para aproveitar a mão de obra barata da Ásia que é hoje a grande fábrica dos EUA. A proposta protecionista de Trump se choca com o capitalismo contemporâneo. O lema do America First estava fadado a ter vida curta.

Nos anos 2000, um movimento internacional da sociedade civil criticou a globalização neoliberal de dominância econômico-financeira. “Um outro mundo é possível” era o lema altermundista do Fórum Social Mundial. Hoje, o principal ataque à globalização vem de um nacionalismo de direita que cresce na Europa e nos EUA. Isso parece indicar uma reação do nacional contra o global para a defesa de posições perdidas: emprego, soberania, autonomia etc.

Além da agenda econômica, a segunda metade do século XX viu surgir novos movimentos sociais baseados em identidades — étnica, de gênero, religiosa, sexual — e na denúncia da destruição ambiental: feministas, LGBT, negros, ambientalistas. Os atores políticos dessa nova agenda encontraram seu grande inimigo na figura de Trump e suas sobejas demonstrações de misoginia, xenofobia, homofobia, racismo e desprezo pela proteção do meio ambiente.

A impopularidade do governo Trump tende a aumentar. Sua proposta de orçamento prejudicou sua base eleitoral: reduziu significativamente as verbas de saúde, educação, meio ambiente, programas sociais e aumentou em 54 bilhões de dólares o orçamento militar.

Como, no plano doméstico, não poderá entregar o que prometeu, Trump passou a cortejar a possibilidade de guerras no exterior. O estrategista-chefe da Casa Branca, Steve Bannon, recém-exonerado, mas influente, anunciou que os EUA irão à guerra no mar do sul da China em cinco ou dez anos (The Guardian, 2-2-2017). Antes disso, poderão fazer uma ação militar contra a Coreia do Norte, mesmo com o risco de guerra nuclear. O secretário de Estado, Rex Tillerson, afirmou recentemente que todas as opções “estão na mesa”. E estrategistas militares já estão estudando um cenário de guerra (The Hill, 17-3-2017). Tudo isso, antes do bombardeio da Síria.

As cartas estão embaralhadas. O maior aliado dos EUA no sudeste asiático é hoje o Vietnã, cujo grande inimigo é a China. E o grande inimigo do Camboja — aliado da China — é o Vietnã, que controla a antiga Indochina francesa. No Oriente Médio, após o governo Obama recuar e aceitar a influência russa e iraniana na Síria, o governo Trump aproveitou o ataque químico que teria sido ordenado por Assad e bombardeou a Síria.

Por outro lado, Trump já colheu derrotas no Congresso, e circula hoje uma petição com mais de 500 mil assinaturas pedindo seu impeachment que se basearia em quatro fundamentos: 1) conexão russa; 2) recusa em obedecer ordem judicial; 3) corrupção e 4) perjúrio e outras formas de mentira (The Huffington Post, 16/02/2017).

A atitude caótica e insana de Trump dissimula, mas não oculta seus planos para levar os EUA a guerras contra não-brancos e não-cristãos. Para impedir novas cruzadas militares, há quem aposte que o Congresso americano vai optar pelo impeachment.

Liszt Vieira é doutor em Sociologia e professor da PUC-Rio

oglobo.globo.com | 15-04-2017

MADRI - Camila Hillier-Fry vive num mar de incertezas desde o referendo que decretou a saída do Reino Unido da União Europeia (UE). Inglesa morando há anos na Espanha, ela teme perder direitos que eram garantidos: a residência, o acesso à saúde pública e o visto para trabalhar. Agora, Camila enfrenta um dilema emocional. Ela pensa em renunciar à cidadania britânica e tornar-se espanhola, o único caminho seguro para contornar o limbo legal em que a política da primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, a colocou.

Centenas de pessoas já deram esse passo angustiante. As inscrições de britânicos para passar no exame de cidadania espanhola aumentaram 431% desde janeiro, em relação à média do ano anterior, segundo dados oficiais do Ministério da Justiça. gibraltar

As autoridades não dão conta das solicitações. A Espanha é o país europeu com mais expatriados britânicos: 308.821 (quase o dobro da França). Eles têm agora os mesmos direitos que os espanhóis, exceto a possibilidade de votar em eleições gerais ou autonômicas.

— Se o Reino Unido sai da União Europeia sem acordo, como ameaça May, todos os nossos direitos europeus se extinguirão — queixa-se Camila, sócia de uma consultoria de recursos humanos e fundadora da plataforma Eurocitizens, que luta para que os britânicos no exterior tenham os mesmos direitos da cidadania europeia.

História se repete em outros países

Entre os direitos em risco, estão a circulação e residência nos 28 países do bloco, a possibilidade de trabalhar sem precisar de vistos e o reconhecimento automático de diplomas universitários.

A situação é ainda mais delicada para os aposentados britânicos que escolheram se mudar para as costas de Valência e de Andaluzia. As consequências do Brexit poderiam deixá-los sem cobertura médica pública num momento da vida em que nenhum seguro privado os aceitaria.

— Imagina a situação em que se encontra uma pessoa mais velha, na qual a única maneira de manter esses benefícios consiste em renunciar à sua pátria — explica Michael Harris, outro ativista forçado pelas circunstâncias.

Harris é escritor, vive desde 1982 em Madri e agora, aos 61 anos, fez os dois exames — idioma e integração — requeridos para a concessão do passaporte espanhol.

A Espanha não tem um acordo de dupla cidadania com o Reino Unido e não permite que os britânicos naturalizados mantenham sua nacionalidade original. Por sua vez, um espanhol que adquira a nacionalidade britânica tem o direito às duas cidadanias, se quiser.

George Thomas, de 76 anos, é um dos que iniciaram o amargo trâmite para abandonar seu passaporte britânico. Faz 18 anos que Thomas vive em Javea, um povoado praiano na província de Alicante, onde há cinco mil ingleses numa comunidade de 27 mil habitantes. Ele tornou-se vereador socialista e aproveita sua posição para tornar-se porta-voz de seus compatriotas.

Os ingleses que moram na Espanha mantêm a esperança de que o Brexit seja amigável e atenda aos direitos dos expatriados. Porém, desde que na semana retrasada May invocou o Artigo 50 do Tratado de Lisboa, iniciando as negociações de saída, a discussão tornou-se azeda.

Para eles, o ruído diplomático entre o Reino Unido e a Espanha complica a expectativa de um acordo bilateral que blinde os direitos dos respectivos migrantes depois do Brexit.

— A situação é parecida com aquela que sofrem os espanhóis (132 mil, segundo dados oficiais) que vivem no Reino Unido — diz Camila.

A maioria começa a mudar de cidadania. A história se repete em quase todos os países da União Europeia. Normalmente, a opção mais lógica é a Irlanda, que tem vínculos muito próximos com o Reino Unido e ainda permite a possibilidade de ter a dupla nacionalidade.

Porém, também há ingleses que rastreiam suas raízes na Itália, ou investigam leis de reparação, como na Alemanha, para descendentes de pessoas perseguidas durante o nazismo, ou em Portugal para judeus de origem sefardita.

oglobo.globo.com | 12-04-2017

RIO — Alunos dos ensinos fundamental e médio do Colégio Internacional Everest, na Barra, foram premiados, no mês passado, numa competição que reuniu estudantes de 170 diferentes nacionalidades na sede da ONU, em Nova York. O National High School Model United Nations transcorre como a simulação de uma conferência, e proporciona aos alunos a possibilidade de atuar como diplomatas mirins, seguindo os protocolos da entidade. Durante os encontros, eles precisaram propor acordos para pôr fim a impasses de relevância mundial.

Barra 09/04

Quinze alunos da escola viajaram para os Estados Unidos. Eles foram os únicos a trazer o prêmio de delegação de língua estrangeira com excelente desempenho — outras duas escolas brasileiras participaram da simulação, considerada a maior conferência modelo do mundo. A escola ficou entre as quatro melhores nessa categoria, competindo com outras 48 instituições de várias partes do mundo.

As simulações seguiram o padrão diplomático, desde a roupa usada pelos estudantes até o pedido de tempo feito pelos participantes. Divididos em comitês, os jovens debateram, sempre em inglês, temas variados, preestabelecidos pela ONU em outubro do ano passado. Os alunos Julien Daube e Thiago Baldine falaram sobre o meio ambiente, com destaque para a questão do hidrocarboneto na economia.

— Tínhamos que defender a postura do país em relação aos temas. As coisas não podiam ser aleatórias, tiradas das nossas cabeças. O mais interessante é que pudemos ter contato com pessoas com hábitos e comportamentos diferentes, o que nos fez observar que há várias ideias distintas. Aprendemos um pouco com cada uma — explica Baldine.

Entre os temas discutidos pelos demais estudantes estavam questões espinhosas, como o combate à xenofobia na Europa, a situação política da Líbia, o impacto dos agrotóxicos na saúde, a necessidade do desarmamento em países africanos e o uso da internet por terroristas. Matriculada no 9º ano, Beatriz Glafer participou, ao lado da colega Isabela Massadar, de uma discussão sobre a violência contra a mulher:

— Debatemos a questão da violência sexual como arma de guerra em zonas de conflito. Foi uma possibilidade de tratar de temas atuais e que realmente são abordados dentro da ONU.

A professora Fernanda Macena, coordenadora de língua inglesa do Everest, destaca o ineditismo do prêmio conquistado pelos estudantes brasileiros.

— A simulação foi criada em 1975, e esta é a primeira vez que o Brasil sai de lá com um prêmio de melhor performance — conta Fernanda, orgulhosa.

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oglobo.globo.com | 10-04-2017

RIO — A cidade que aspirava ser europeia derrubou cortiços, ampliou ruas, construiu avenidas, canalizou rios, combateu epidemias. O Rio foi a terceira cidade do mundo a implementar uma rede de esgoto, atrás apenas de Londres, na Inglaterra, e Hamburgo, na Alemanha. Os investimentos no saneamento, no entanto, não acompanharam seu crescimento urbano nem seu pioneirismo. Se em 1907, após dizimar 59.065 pessoas, a febre amarela foi erradicada pela primeira vez na capital, hoje, 110 anos depois, a doença volta a atormentar os cariocas, provocando uma verdadeira corrida aos postos de saúde. Embora nenhum caso tenha sido registrado no município até o momento, ainda há com o quê se preocupar: quatro em cada dez cariocas vivem em área sem tratamento de esgoto, valas a céu aberto rasgam a cidade e moradores convivem com abastecimento de água precário e intermitente.

Antes lançado diretamente no mar pelos “tigres” — escravos que tinham a pele listrada pelos detritos que carregavam em barris nas costas —, o esgoto da cidade passou a ser coletado e a receber um estágio inicial de tratamento em 1864, quando foi inaugurada uma estação na Rua do Russel, na Glória. O sistema, administrado pela empresa inglesa The Rio de Janeiro City Improvements Limited, recebia tanto os despejos sanitários quanto as águas pluviais.

— Hoje, nosso sistema é separado, são duas tubulações distintas. Naquela época, não se tratava esgoto biologicamente como se trata hoje, tratava-se por precipitação físico-química. Não era a mesma eficiência que se consegue hoje em dia — explica o professor Isaac Volschan, do Departamento de Recursos Hídricos e Meio Ambiente da Escola Politécnica da UFRJ.

No final de 1887, cerca de 30 mil dos 48.576 imóveis na cidade tinham coleta de esgoto (62% do total). Hoje, de acordo com dados retirados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), 83% das casas têm coleta. Para Volschan, no entanto, o avanço da rede poderia ter sido ainda maior se houvesse vontade política.

— A cidade cresceu sem infraestrutura adequada. A dificuldade de implantação é a mesma. O desafio é que é muito maior, já que o déficit é maior. Continua o mesmo grau de dificuldade que sempre teve. Quando se prioriza BRTs, o Maracanã, o Túnel Marcello Alencar, a derrubada da Perimetral, em detrimento do saneamento, é uma opção política, seja da sociedade ou do administrador público — ressalta.

NO RIO, 23% ESTÃO EM FAVELAS

Se antes os cortiços aglomeravam famílias em habitações populares com condições insalubres, hoje são as favelas, onde moram 23% dos cariocas, segundo dados do Censo de 2010, do IBGE, as que mais sofrem de problemas sanitários e estão mais suscetíveis a doenças.

— É um milagre que a gente não tenha nenhum caso de febre amarela urbana na cidade do Rio porque todas as condições propícias para o desenvolvimento do mosquito estão dadas há décadas. Há um amontoado de pessoas, sobretudo nas regiões mais carentes, falta um sistema de água encanada que atinja toda a população, o que leva as pessoas a estocar água, favorecendo criadouros para os mosquitos e falta saneamento básico para todas as regiões — afirma o historiador Rodrigo César Magalhães, professor do Colégio Pedro II.

A primeira grande epidemia de febre amarela no Rio ocorreu em dezembro de 1849, com a chegada da barca americana Navarre, vinda da Bahia, onde havia surto. Os marinheiros começaram a morrer, mas somente dois meses depois a Academia Imperial de Medicina admitiu, oficialmente, a existência de uma epidemia. A doença só foi erradicada na cidade em 1907, após as campanhas do médico sanitarista Oswaldo Cruz, em meio a críticas e protestos dos cariocas.

No entanto, em 1928, a doença retornou com força total em uma nova epidemia na capital e em outros 43 locais do estado, sendo controlada no ano seguinte, deixando um rastro de 436 mortes.

Desde então, o combate à febre amarela impulsionou a pesquisa científica e o desenvolvimento de vacinas no Brasil. Para Magalhães, os novos casos da doença no estado foram causados pelo relaxamento de medidas de combate à doença, principalmente a vacinação em áreas rurais:

— Uma coisa é o mosquito, depois de ter sido erradicado em 1958, ter retornado ao Brasil ainda em 1967, vindo de outros países que não fizeram seu trabalho. O Brasil consegue erradicá-lo no começo dos anos 70, mas ele volta um ano depois e está aí desde então. Com relação à febre amarela, houve um relaxamento das políticas, sobretudo de vacinação.

DA REVOLTA À CORRIDA PARA VACINAÇÃO

Se hoje a população corre aos postos de saúde para se vacinar contra a febre amarela, no século passado, a obrigatoriedade da imunização contra a varíola, aliada ao desconhecimento sobre a doença, provocou uma das maiores reações urbanas já ocorridas no país: a Revolta da Vacina. De 10 a 18 de novembro de 1904, o Centro do Rio transformou-se numa verdadeira praça de guerra. Insatisfeitos com a vacinação obrigatória e com o autoritarismo do governo, a população ergueu barricadas, incendiou bondes, depredou lojas e enfrentou as forças da polícia e do Exército. No total, 30 pessoas morreram, 110 ficaram feridas e 945 foram presas, sendo mais de 400 enviadas para fora do Rio, então capital do país.

À frente das campanhas para erradicar possíveis larvas e focos do mosquito transmissor, o Aedes aegypti, estava Oswaldo Cruz, que havia sido nomeado, em 1903, diretor do Serviço de Saúde da capital da República. O médico sanitarista montou as brigadas de agentes, apelidados de mata-mosquitos, que vistoriavam jardins, porões, ralos, telhados, ralos e caixas d’água. Faziam a higienização das áreas, como limpeza de bueiros e o derramamento de água parada em tonéis. Essa medida de vigilância ostensiva desagradou muito à população, que afirmava que o governo estava “violando a intimidade do lar”. Contando com poder de polícia, os mata-mosquitos podiam entrar nas casas sem autorização dos moradores e, quando consideravam uma moradia em péssimas condições de higiene, demoliam a construção, o que enfureceu ainda mais a população.

No dia 31 de outubro de 1904, o Congresso aprovou a vacinação contra a varíola, feita com êxito na Europa. O texto vazou para a imprensa e logo começou a confusão. No dia 10 de novembro, o povo tomou as ruas da cidade. Seis dias depois, a lei foi revogada, mas os tumultos continuaram até 18 de novembro. Chamado de Czar dos Mosquitos, Oswaldo Cruz foi duramente criticado na época.

Para debelar os protestos, o governo não só suspendeu momentaneamente a vacinação como decretou estado de sítio e prendeu os principais líderes do movimento, deportando-os para o Acre. Controlada a revolta, a vacinação obrigatória foi retomada e, em pouco tempo, a varíola foi erradicada.

Já a febre amarela, erradicada em 1907, voltou a passar por uma nova epidemia em 1928. Todo o sistema implantado pelo sanitarista Oswaldo Cruz vinha perdendo verbas do governo e, sem grande atuação para manter o combate ao mosquito, o inseto voltou à cidade, trazendo pânico aos cariocas. O médico Clementino Fraga, diretor do Departamento Nacional de Saúde Pública, e seu assistente, Barros Barreto, tiveram grande atuação no combate à febre amarela nesse período ao reorganizarem as medidas adotadas no início do século. Além disso, houve a instalação de uma estação experimental para estudos da doença e foram desenvolvidos pesticidas. O historiador Jaime Larry Benchimol, pesquisador da Casa Oswaldo Cruz, ressalta que, desde então, o país vem acumulando tradição na saúde pública.

— Temos uma estrutura criada não de assistência médica, mas de campanhas de vacinação com muita eficiência — afirmou.

oglobo.globo.com | 09-04-2017

RIO — A empresa de alimentos BRF, fabricante dos produtos Sadia e Perdigão, informou neste sábado que recebeu autorização para reativar a fábrica de Mineiros (GO) e que pretende reiniciar nos próximos dias os trabalhos na unidade paralisada pelos desdobramentos da operação Carne Fraca. Segundo a BRF, a autorização foi emitida pelo Ministério da Agricultura. A planta estava interditada desde a deflagração da Operação Carne Fraca, no dia 17 de março deste ano. Segundo a empresa, na cidade, eram abatidos em média 115 mil frangos e 25 mil perus por dia.

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“A BRF informa que foi autorizada a retomar as atividades em sua unidade de Mineiros. Os trabalhos devem ser reiniciados nos próximos dias”, afirmou a empresa, sem dar mais detalhes, em comunicado à imprensa.

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Em entrevista ao site G1, por telefone, o secretário de Defesa Agropecuária do Mapa, Luis Eduardo Pacifici Rangel, confirmou que a autorização ocorreu após a análise do plano de ação apresentado pela empresa.

“Recebemos as informações da unidade sobre as medidas que foram tomadas e, na noite de sexta-feira [7], houve a liberação. Foi confirmado que não há riscos e o abate de frangos e perus já pode ser retomado normalmente a partir deste sábado [8]”, ressaltou Rangel, por telefone.

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De acordo com as investigações da Polícia Federal, a unidade em Mineiros estava contaminada pela bactéria salmonela e mesmo assim continuou exportando carne para a Europa. Ao comentar as acusações, a empresa havia informado, em nota, que "existem cerca de 2.600 tipos de Salmonella, bactéria comum em produtos alimentícios de origem animal ou vegetal”, acrescentando que “todos os tipos são facilmente eliminados com o cozimento adequado dos alimentos”.

A lista completa dos frigoríficos investigados

O governador Marconi Perillo informou nesta sábado, em seus perfis nas redes sociais, que foi liberado, pelo Ministério da Agricultura, o abate emergencial de perus na unidade da BR Food de Mineiros, no interior de Goiás. Nesta semana, o governador esteve em Brasília para reunião com o presidente Michel Temer, onde tratou deste assunto. "Resultado do esforço de todos nós", escreveu Marconi na noite desta sexta-feira.

Pedido de contraprova

Na última quinta-feira, a BRF solicitou ao Ministério da Agricultura uma contraprova de testes feitos por fiscais em produtos de sua unidade em Mineiros (Goiás). O ministério havia informado naquele dia, ao divulgar o balanço final da força-tarefa realizada em 21 frigoríficos suspeitos de envolvimento no esquema de corrupção revelado pela operação Carne Fraca, que detectou excesso de água na carne de frango de diferentes frigoríficos no país, incluindo o da BRF. Por meio de nota, a empresa afirmou que alguns resultados nas análises de Drip Test — que mede o teor de água do descongelamento de carcaças de frango — feitos pelo Ministério da Agricultura foram divergentes dos obtidos em controles feitos pela empresa internamente.

"Existem inúmeras variáveis que podem interferir nos resultados de Drip Test realizados em frangos congelados coletados nos centros de distribuição, tais como condições de transporte e acondicionamento do frango assim como questões fisiológicas. A BRF já solicitou contraprova junto ao Ministério da Agricultura e está realizando uma verificação rigorosa nos seus controles de processo na fábrica e centros de distribuição. Até uma resposta definitiva, os produtos permanecerão retidos, apesar da inexistência de riscos à saúde do consumidor", informou a empresa por meio de nota.

oglobo.globo.com | 08-04-2017

RIO — O comércio ilegal de macacos já foi citado por autoridades e aventado por pesquisadores como uma das hipóteses para o avanço do surto de febre amarela no Brasil, que já chegou a cinco estados e adoeceu pelo menos 586 pessoas (incluindo 190 óbitos). Mas dados levantados pelo GLOBO com base em um banco de registros do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) indicam que o tráfico desses animais compõe apenas 0,07% dos 31.441 animais apreendidos no Brasil em infrações relacionadas à fauna em 2015 e 2016. As aves, maior alvo mundial deste tipo de contravenção, são 84% deste volume e o percentual restante fica com outros tipos de animais, como cobras e tartarugas. Especialistas acreditam que a decadência deste comércio no Sudeste torna pequena a sua influência no atual surto de febre amarela no país.

O Nordeste é a região com maior volume de infrações, que somam 1.386 no país, podendo envolver mais de um animal. O Ceará é o estado campeão, com 462 registros, seguido de Rio Grande do Norte (251) e Bahia (169). As infrações incluem a manutenção em cativeiro, transporte, venda e abate de animais.

info-trafico de animais

Das 18 apreensões envolvendo macacos entre 2015 e 2016, todas foram registradas no Nordeste (14) e no Norte (4) — nenhuma, portanto, no Sudeste, que tem os estados com o maior número de casos de febre amarela, Minas Gerais e Espírito Santo. Entre os 22 animais apreendidos nestas infrações, 14 eram macacos-prego, cinco eram saguis e um macaco-de-cheiro. Outros dois não tiveram a espécie identificada.

febre amarela

Dener Giovanini, coordenador geral da Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas), ONG dedicada ao combate ao tráfico de animais, destaca, porém, que a realidade deste comércio é muito maior do que a registrada pela fiscalização do Ibama. E mesmo que os macacos não sejam o principal alvo do tráfico ilegal, Giovanini lembra que a captura irregular de animais silvestres está diretamente ligada à circulação de doenças. Além da febre amarela, os macacos fazem parte do ciclo de transmissão de doenças como a malária e a raiva. Já as aves podem transmitir a toxoplasmose e a psitacose.

— Quando uma pessoa compra um animal silvestre de forma ilegal, está levando para casa uma bomba biológica. O animal sai diretamente da natureza, sem passar por qualquer tipo de controle sanitário — destaca Giovanini, apontando que a matança de macacos na tentativa de conter a febre amarela é um grave equívoco. — O animal na natureza não tem problema nenhum: ele tem o próprio sistema de defesa. A fauna é nossa aliada para combater doenças. O risco é quando há algum desequilíbrio, e no caso da febre amarela, estamos vendo que a relação do homem com a natureza está errada.

'NO OLHO DO FURACÃO'

O aparecimento de macacos mortos é visto como aviso para a circulação do vírus da febre amarela. Corpos de animais com presença confirmada do vírus já foram encontrados em cidades como Belo Horizonte e Vitória. A chegada da doença às grandes cidades, com eventual transmissão pelo mosquito Aedes aegypti, causa preocupação.

O primatologista Sérgio Lucena, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), afirma que o surto tem desafiado a compreensão dos pesquisadores — mas a influência do tráfico ilegal é provavelmente remota.

— Uma das formas de transporte a grande distâncias do vírus é o tráfico. Mas temos visto no Sudeste que esta atividade diminuiu muito. Os animais deixaram de ter valor comercial, se tornaram comuns. A desconfiança é que o próprio ser humano seja um primata dispersando o vírus em áreas urbanas e periurbanas — aponta Lucena.

A bióloga Marcia Chame, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), concorda que o tráfico explique pouco a expansão da febre amarela no Sudeste. Ela afirma que, hoje, os pesquisadores que tentam entender o surto estão focados em coletar dados em campo para posteriormente serem analisados — mas a explicação dos resultados possivelmente passa por uma série de fatores interligados.

— Estamos no olho do furacão, mas o que os dados indicam é que há um conjunto de fatores para a expansão da doença, com pesos muito parecidos. Por exemplo, um período de seca importante seguido de chuvas propícias ao aumento da população de mosquitos.

O tráfico de animais é considerado pela Comissão Europeia o quarto maior comércio ilegal do mundo, atrás apenas das drogas, armas e pessoas. Em muitos casos, no Brasil, estas atividades compartilham as mesmas rotas. Segundo estimativas da Renctas, 60% dos animais traficados no Brasil ficam no país, e 40% são destinados para o exterior.

Coordenadora de fauna silvestre do Ibama, Raquel Sabaini relata que a captura de animais para o tráfico costuma acontecer no Nordeste, com destino a grandes centros do Sudeste. A contravenção ganha contornos específicos no caso dos macacos.

— O tráfico de primatas normalmente tem como alvo os filhotes, pois são mais mansos. A captura acontece em situações oportunas, não é como no caso de araras, por exemplo, que são pegas sob encomenda. Para vender, muitas vezes os traficantes rodam o animal pelo rabo e até o embebedam para deixá-lo manso. Ainda é possível ver primatas sendo vendidos na beira de estrada, como nas BRs 101 e 116.

Sob regras específicas, o Ibama permite, porém, o comércio de animais criados em cativeiro. Celebridades como o cantor Latino e o jogador de futebol Emerson Sheik, por exemplo, escolheram ter macacos-prego como animais de estimação. Com o surto de febre amarela no Brasil, autoridades estão de olho também neste tipo de atividade. Em São Paulo, a Coordenadoria de Biodiversidade e Recursos Naturais do governo estadual suspendeu temporariamente, em fevereiro, o comércio de primatas. Animais criados em cativeiro não estão imunes à doença caso vivam em área em que o vírus esteja circulando.

oglobo.globo.com | 08-04-2017

WASHINGTON, MOSCOU E NOVA YORK - As chocantes imagens do ataque químico em Khan Sheikhoun, no Noroeste da Síria — atribuído pela oposição e vários países às forças do regime de Bashar al-Assad — tiveram um efeito imediato sobre a posição do governo americano em relação ao conflito sírio, que já causou mais de 400 mil mortes desde 2011. O uso de gases venenosos contra civis foi duramente condenado pelo presidente Donald Trump e pela embaixadora na ONU, Nikki Haley, que ameaçou com a possibilidade de ações unilaterais por parte dos EUA. E em meio a renovadas declarações de apoio a Assad por parte do Kremlin, que se mobilizou para defender o aliado nas Nações Unidas, o secretário de Estado americano, Rex Tillerson, alertou Moscou sobre a relação com o ditador sírio.

— Estas mortes são uma afronta à Humanidade — disparou Trump. — As ações abomináveis do regime de Assad não podem ser toleradas.

Trump: 'atos odiosos' do regime Assad não podem ser tolerados

Na ONU, a embaixadora Nikki Haley afirmou ao Conselho de Segurança que os países são “obrigados a agir” quando o órgão é incapaz de atuar coletivamente, sinalizado que Washington pode responder unilateralmente às ações atribuídas ao regime sírio. EUA Síria

— Quantas crianças mais têm que morrer antes que a Rússia aja? Assad, a Rússia e o Irã não têm interesse algum na paz — afirmou Haley. — Quando a ONU falha na sua tarefa de agir coletivamente, há momentos em que os Estados são obrigados a agir por conta própria.

Em fevereiro, a Rússia — apoiada pela China — vetou, pela sétima vez, as tentativas do Conselho de impor sanções à Síria pelas acusações de uso de armas químicas.

Pressões por uma ação dos EUA vêm também do Partido Republicano. O senador Marco Rubio disse numa rádio que comentários do secretário de Estado, Rex Tillerson — que na semana passada afirmou que caberia aos sírios decidir o destino de Assad — serviram de incentivo para o ataque.

— O secretário de Estado deixou o futuro de Assad nas mãos do povo sírio, praticamente concordando que ele se mantivesse, de alguma forma, no poder — afirmou Rubio. — Não acho que seja coincidência que, poucos dias depois, isso (o ataque químico) aconteça.

Tillerson — cuja indicação foi bastante questionada devido a seus laços financeiros com o governo russo — se pronunciou na quarta-feira sobre o incidente.

— Acho que é hora de os russos realmente refletirem com cuidado sobre o apoio que dão ao regime de Assad — afirmou o secretário de Estado, que disse não ter “qualquer sombra de dúvida” de que o ditador sírio foi o responsável pelo que classificou como “um ataque horroroso”.

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Analistas ouvidos pelo GLOBO, no entanto, são reticentes sobre se as palavras mais duras do governo americano se traduzirão em ações concretas.

— O governo americano tem mostrado que pretendia uma visão mais pragmática, e chegou a defender que os sírios escolhessem seu futuro, mas a realidade tem demonstrado que a situação é mais complexa e exige estratégia — afirmou Thomas E. Gouttierre, da Universidade de Nebraska. — Não vejo espaço ainda para o envio de tropas terrestres, mas talvez para ampliar os ataques aéreos e fornecer mais material militar (à oposição).

Jim Morrow, professor de Política Mundial da Universidade de Michigan, também demonstra ceticismo com o governo americano:

— A declaração de Trump à imprensa mostra que sua posição sobre Assad mudou, mas ele não deu detalhes sobre sua nova posição ou o que está disposto a fazer. Como muitas das declarações de Trump, é suficientemente vaga para lhe dar flexibilidade no futuro — disse o professor.

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Por sua vez, Maxime Larive, diretor do Centro União Europeia na Universidade de Illinois, acha que embora seja cedo para antever uma real mudança de postura do governo, o cenário pode mudar rapidamente.

— É muito difícil ver qualquer coerência neste momento quando se trata de política externa. As narrativas de Trump são altamente emocionais para termos uma resposta, há uma certa falta de estratégia global — explicou. — Os gritos morais não se traduziram em esforços diplomáticos e militares concretos e significativos. Esta é a tragédia das guerra civil síria que ressuscita os fantasmas de Srebrenica e Ruanda.

Em Moscou, o Kremlin afirmou que as acusações contra o regime de Assad não alteram a posição do Ministério da Defesa da Rússia. A porta-voz da chancelaria, Maria Zakharova, exortou o Conselho de Segurança a pedir que a Organização para a Proibição de Armas Químicas (Opaq) lance uma investigação, caso consiga acesso ilimitado ao local do incidente. A Organização Mundial de Saúde informou que as vítimas em Khan Sheikhoun apresentavam sintomas de reações a agentes nervosos, similares aos que Assad se comprometeu a destruir há mais de três anos.

(Colaborou Henrique Gomes Batista)

Cinco casos de ataques químicos que chocaram o mundo

oglobo.globo.com | 05-04-2017

BISHKEK - O serviço de segurança do Quirguistão informou nesta terça-feira que um cidadão nascido no país, com cidadania russa, é o principal suspeito do ataque a bomba que matou 14 pessoas no metrô de São Petersburgo na segunda-feira. Um porta-voz do GKNB identificou o homem como Akbarzhon Jalilov, nascido na cidade de Osh em 1995, sem dar mais detalhes. Rússia ataque conteúdo

Não houve nenhuma reivindicação de autoria do ataque terrorista, que ocorreu enquanto o presidente da Rússia, Vladimir Putin, visitava sua cidade natal. O Comitê de Segurança Nacional do Quirguistão disse que está cooperando com a polícia russa na investigação.

O ministério da Saúde da Rússia elevou nesta terça-feira de 11 para 14 o número de mortos após a explosão de segunda-feira no metrô de São Petersburgo.

— Constatamos a morte de 14 pessoas: 11 no metrô e três em consequência dos ferimentos — disse a ministra da Saúde da Rússia, Veronika Skvortsova.

O Quirguistão, nação do centro da Ásia de maioria muçulmana e seis milhões de habitantes, é um aliado próximo de Moscou e abriga uma base militar russa.

Investigadores disseram nesta terça-feira que o ataque foi provocado por uma bomba possivelmente detonada por um homem cujos membros corporais foram encontrados em um dos vagões afetados pela explosão.

"Foi apurado que um dispositivo explosivo poderia ter sido detonado por um homem, cujos fragmentos corporais foram encontrados no terceiro vagão do trem", disse, em nota, o comitê responsável pela investigação. "O homem foi identificado mas sua identidade não sera divulgada agora por interesses da investigação".

A estação de metrô Sennaya Ploshchad, uma das duas atingida pelo ataque a São Petersburgo, foi fechada nesta terça-feira após uma ameaça de nova bomba. Segundo a agência RIA Novosti, uma ligação anônima alertou que um segundo ataque poderia ser realizado. Outra agência, a Interfax, disse que um repórter viu diversos caminhões dos bombeiros do lado de fora da estação.

De acordo com um agente de segurança, um homem-bomba foi o responsável pela explosão no metrô, por volta das 14h30m (hora local). A fonte disse à agência Interfax que as autoridades tinham identificado o suspeito como natural da Ásia Central, com 23 anos de idade. Ele teria carregado o artefato na estação numa mochila. Já o homem que foi flagrado por câmaras de vigilância — e chegou a ser considerado suspeito — apresentou-se na noite de segunda à polícia e disse não ter envolvimento no episódio. Segundo a imprensa local, dois mandados de prisão foram expedidos após o atentado.

Durante quase todo o dia, o metrô de São Petersburgo — um dos dez mais movimentados do planeta, com 2,3 milhões de usuários por dia — foi fechado e enormes engarrafamentos tumultuaram as ruas da cidade, que decretou luto de três dias. Uma das sedes da Copa de 2018, São Petersburgo é considerada capital europeia da Rússia, e sediará, em junho, a estreia da Copa das Confederações da Fifa. Apesar de ter sido um alvo histórico do terrorismo durante o fim do Império Russo, na virada do século XIX para o XX, vinha escapando desta atual onda de grandes ataques. Info - mapa explosão São Petersburgo

A explosão ocorreu num vagão do metrô que circulava no trecho entre duas estações no centro da cidade: a do Instituto Tecnológico e a da Praça Sennaya. A carga explosiva, com potência de 1kg de TNT, continha materiais cortantes, o que intensificou seu impacto mortal. Pouco depois da explosão, foi encontrada e neutralizada uma outra bomba caseira na estação da Praça Vosstaniya, perto do local onde chegam os trens de Moscou. A porta-voz do Comitê de Investigação, Svetlana Petrenko, disse que o maquinista tomou a decisão correta ao não parar o trem no momento da explosão — o que faria com que as autoridades tivessem que socorrer as vítimas dentro do túnel.

VEJA VÍDEOS GRAVADOS MOMENTOS APÓS A EXPLOSÃO

Após o ataque, o Ministério do Interior da França anunciou um reforço da segurança nos transportes públicos da região de Paris — alvo de atentados recentes. Já o presidente americano, Donald Trump, descreveu o incidente como “uma coisa terrível, que acontece no mundo todo”. O Conselho de Segurança da ONU condenou o ataque e pediu que os responsáveis sejam julgados. Não há registro de turistas entre os mortos, de acordo com a agência oficial russa Tass.Homenagens às vítimas de explosão em São Petersburgo

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oglobo.globo.com | 04-04-2017

SÃO PETERSBURGO — Ao menos dez pessoas morreram e dezenas ficaram feridas, nesta segunda-feira, em uma explosão no metrô de São Petersburgo, na Rússia. O procurador-geral russo considerou o ato de atentado terrorista. O que se sabe até agora:

A explosão

Segundo os serviços anti-terroristas e a investigação, a explosão aconteceu às 14h40m (horário local) em uma linha que circulava entre as estações do Instituto Tecnológico e de Sennaya, no centro da segunda cidade mais importante da Rússia. O maquinista seguiu viagem até a estação seguinte após a explosão, o que permitiu evacuar os vagões rapidamente e prestar o socorro às vitímas. As fotos e os vídeos compartilhados nas redes sociais mostram o metrô parado na estação do Instituto Tecnológico com as portas destruídas e muitas pessoas deitadas no chão. Info - mapa explosão São Petersburgo

Balanço das vítimas

A explosão deixou dez mortos, sete no local. Uma vítima faleceu enquanto era levada à ambulância e outras duas morreram no hospital. A ministra de Saúde, Veronika Skovortsova, informou que há 37 feridos, dos quais seis estão em estado grave. Russia

Um segundo atentado impedido

O Comitê Anti-terrorista informou que uma bomba foi detectada a tempo e neutralizada em outra estação, Ploshad Vosstaniya, no centro da cidade. Segundo os serviços secretos, o artefato foi descoberto às 15h (horário local).

A investigação

O Comitê de investigação russo abriu uma investigação de ato terrorista, porém disse que examinará todas as outras pistas possíveis.

— Sempre estudamos todas as possibilidades: acidental, criminal e, sobretudo, um ato com caráter terrorista — declarou antes o presidente russo, Vladimir Putin, que estava nesta segunda-feira em São Petersburgo.

A Rússia já sofreu atentados em outras ocasiões. A ameaça era latente depois que o Estado Islâmico (EI) disse que atacaria o país por seu apoio às forças de Bashar al-Assad na Síria, desde setembro de 2015. Em outubro de 2015, um Airbus A321 da companhia russa Metrojet que ia do balneário egípcio Sharm el Sheij até São Petersburgo foi derrubado logo após a decolagem. No ataque reivindicado pelo EI, morreram 224 pessoas. Em 2013, dois ataques suicidas em Volgogrado deixaram 34 mortos poucas semanas antes do início dos Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi, no ano de 2014.

As reações

As autoridades de São Petersburgo decretaram três dias de luto, a partir desta terça-feira. O metrô da cidade seguia fechado durante a tarde desta segunda-feira. Em escala nacional, o governo reforçou as medidas de segurança nos transportes. A agência de transporte aéreo ordenou aos aeroportos de todo o país aplicar medidas de segurança adicionais. A chefe da diplomacia da União Europeia (UE), Federica Mogherini, expressou suas condolências e condenou de maneira contundente todos os atos de violência. O ministro de Relações Exteriores francês, Jean-Marc Ayrault, também expressou sua solidariedade às vítimas. Atentados terroristas contra a Rússia

oglobo.globo.com | 03-04-2017

SÃO PAULO — Parcela significativa da comunidade médica mundial não tem dúvida: a cura para o HIV é possível e virá dentro de poucos anos. O que, no auge da epidemia, sequer era discutido, hoje é encarado como meta.

— Se me perguntassem três anos atrás se o HIV tem cura, minha resposta seria não. Hoje, é sim — disse, na última quarta-feira, durante uma conferência sobre o tema em São Paulo, Mario Stevenson, chefe da Divisão de Doenças Infecciosas e diretor do Instituto de Aids da Universidade de Miami, nos EUA.

A mudança de opinião parece abrupta, mas ele mal piscou enquanto justificava a nova posição:

— Surgiram tantos estudos nesses últimos anos, e todos tão bem embasados e promissores, que é difícil, como médico, não enxergar um caminho para a cura — ressaltou ele, que é virologista molecular e trabalha com HIV/Aids há mais de 25 anos.

Stevenson foi um dos palestrantes do encontro promovido na última semana pela amfAR, a Fundação para Pesquisa da Aids, na Escola da Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Nessa conferência, foi reafirmado o compromisso da fundação com a iniciativa batizada em 2015 de “Contagem Regressiva”, que estipula o ano de 2020 como o prazo para a descoberta de uma cura para o HIV. Não significa que a população que vive com o vírus começará a ser curada nessa data, mas sim que um método científico de cura deverá ser encontrado e validado.

RESERVATÓRIOS VIRAIS SÃO A CHAVE

Segundo a fundação, que é a maior agência sem fins lucrativos de fomento à pesquisa sobre esse tema no mundo, a “mágica” para chegar à cura é encontrar um meio eficiente de eliminar o que são conhecidos como reservatórios virais. Quando o indivíduo infectado com HIV se trata, tomando os medicamentos antirretrovirais, o vírus não some do corpo, mas fica latente, “adormecido” dentro de algumas células. Nos muitos casos em que o tratamento é bem-sucedido, a carga viral se torna indetectável. Isso é ótimo para o paciente, que, apesar de ter que tomar esses remédios durante toda a vida, não irá sofrer com os efeitos físicos da Aids. No entanto, é ruim para os esforços que buscam eliminar completamente o vírus do corpo.

Isso se explica pelo fato de que, com o HIV indetectável no organismo, os pesquisadores não conseguem saber onde estão as células infectadas. Os reservatórios virais ficam, então, invisíveis. E identificá-los é o primeiro de quatro passos para acabar com o HIV. O segundo é entender, cientificamente, o que mantém esses reservatórios vivos. Depois, mensurar quantas e quais células estão neles. E, por fim, retirar todas elas do corpo.

A reação imediata de quem se depara com esse passo a passo é pensar que a teoria é bem mais simples do que a prática. É verdade, mas essa “rota” já teve êxito uma vez, resultando na única pessoa com HIV que foi curada até hoje: Timothy Ray Brown, mais conhecido como “o paciente de Berlim”. Ele, que é americano, foi infectado em 1995 e, em 2006, descobriu estar com leucemia. Brown começou, então, a se tratar em um hospital ligado a uma universidade de Berlim, e seu médico, o hematologista Gero Huetter, fez nele um transplante de medula óssea de um doador que possuía uma mutação genética capaz de tornar seu organismo imune ao HIV. Tratava-se de uma raríssima mutação no gene CCR5. Desde então, o paciente não só está curado do câncer, como também não toma antirretrovirais e não tem vestígio de HIV.

Mas, então, por que não usar o transplante de medula óssea para curar quem é soropositivo?

— Essa cirurgia tem taxa de mortalidade de 25%, os custos são muito altos e é extremamente difícil conseguir um doador compatível com o paciente que tenha também a mutação no gene CCR5 — responde Mario Stevenson.

Ainda assim, o caso do “paciente de Berlim” melhorou muito a compreensão de como funciona o HIV e de como se poderia reproduzir esse resultado sem passar pelos riscos de um transplante. Aliás, uma pesquisa colaborativa na Europa busca reproduzir o caso de Brown, debruçando-se sobre células-tronco.

Outra iniciativa, de um grupo de pesquisadores da Austrália, envolve a utilização de drogas anticâncer em pacientes soropositivos, estudo que já se encontra em fase de testes em humanos. Existe também um grupo de pesquisa que reúne cientistas de Estados Unidos, Dinamarca e Alemanha que está combinando anticorpos como uma droga. Juntas, essas substâncias tiram o vírus do seu estado de latência — é como se “acordassem” o HIV, que fica adormecido por conta do remédios antirretrovirais, e o obrigasse a sair de seu esconderijo na célula. Essa pesquisa está, atualmente, em testes clínicos. Em outro estudo, também abordando anticorpos, foram realizados testes em quatro macacos infectados. Os animais receberam injeções de anticorpos que forçam o vírus a se manifestar e, em paralelo, são eliminados. Um desses macacos foi curado. O estudo, no entanto, só deve ser publicado em revista científica daqui a pelo menos um mês.

Esper Kallás, professor de Imunologia Clínica da USP, pondera que 2020 está perto demais para garantir uma cura comprovada e viável até lá, mas garante que ela está a caminho.

— Eu acredito que ainda vou estar vivo para ver essa cura. Estamos muito mais próximos do que jamais estivemos — defendeu ele, que participa de um estudo liderado pela Universidade George Washington, nos EUA, chamado “Projeto Believe”, com a intenção de usar agentes de imunoterapia para eliminar reservatórios virais.

O que Kallás mais teme, no entanto, é que os cortes de verbas para pesquisa que têm ocorrido no Brasil e em outras partes do mundo virem um entrave para esses avanços.

Hoje, existem 44 milhões de pessoas com HIV no mundo, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS). No último relatório do Ministério da Saúde, foram contabilizados no Brasil 842 mil infectados. No entanto, estima-se que sejam, na verdade, mais de 1,2 milhão, por conta de problemas de testagem.

A repórter viajou a convite da amfAR

oglobo.globo.com | 02-04-2017

BRASÍLIA - Advogado com atuação em direito Eleitoral, Administrativo e do Consumidor e professor de Direitos Difusos e Coletivos, o paulistano Arthur Rollo, 41 anos, recebeu O GLOBO na última terça-feira, menos de 48 horas depois de ter sido empossado como o novo titular da Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), do Ministério da Justiça. Com o olhar de quem “está vindo de fora do sistema”, admitiu estar assustado, mas mostrou já ter definido os caminhos que pretende seguir.

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Na sua pauta, o plano de saúde acessível e a lei do SAC têm destaque, ao lado de projetos de maior aproximação com o Judiciário, o fortalecimento do portal de intermediação de conflitos da Senacon, o consumidor.gov.br, e o realinhamento dos Procons. “Por enquanto, está valendo a pena para as empresa continuar desrespeitando o consumidor”, diz o novo secretário. Advogado de vários políticos, entre eles, o deputado Celso Russomanno (PRB-SP), Rollo diz que o parlamentar, assim “como quem defende com afinco o direito consumidor", é uma de suas referências.

Operação Carne Fraca

“Os recalls da Operação Carne Fraca foram pontuais e o acompanhamento da secretaria está sendo feito juntamente com o Ministério da Agricultura. Só haverá desdobramentos no âmbito da Senacon se tivermos informação de risco à vida, à saúde ou à segurança do consumidor pelo Ministério da Agricultura.”

Planos de saúde

“Desconfio dos planos (de saúde) acessíveis. Bem, tenho que me adaptar que não sou mais advogado e tomar posições institucionais. Vamos reativar os grupos de trabalho sobre o tema que estavam suspensos e participar ativamente das discussões e defender a posição dos consumidores.”

Lei do SAC

“A Lei do SAC precisa ser turbinada, vai ter de se fazer cumprir. Tentei falar com uma TV a cabo em São Paulo e cai no atendimento eletrônico. Como o consumidor vai tirar suas dúvidas num momento em que o sinal analógico está sendo desligado? Ninguém hoje cumpre mais a obrigação de entregar as gravações ao cliente, de continuidade de atendimento, para cada queixa são 200 protocolos, se conta tudo de novo... Temos que relançar, ressuscitar o decreto, que ficou esquecido, e fiscalizar. O SAC é uma forma de harmonizar as relações. É claro que a qualidade do atendimento se reflete no número de reclamações no Sindec (que reúne queixas aos Procons). O SAC do setor de alimentos, por exemplo, é bom, e o número de queixas é baixo. O de telefonia é ruim, e o número é alto.”

Punição a reincidentes

“Por enquanto, está valendo a pena para as empresa continuar desrespeitando o consumidor: desrespeita no atacado e as ações são no varejo. A minha tese de doutorado foi sobre formas de punição a fornecedores renitentes. Temos que partir para outras sanções, além da multa, como a Anatel fez com a proibição da venda de chips, que tem um efeito mais rápido. A participação do Judiciário nesse ponto será fundamental. Defendo que, no caso do fornecedor renitente, o juiz leve em conta a indenização pelo tempo perdido pelo consumidor, como defende a tese do advogado capixaba Marcos Dessaune, e agregue à indenização dos danos morais inclusive os pagamentos dos custos advocatícios da parte do consumidor.”

Justiça

“Precisamos nos aproximar mais dos tribunais de Justiça. Já temos parceria com 14 tribunais, mas temos de mostrar para os juízes como a plataforma consumidor.gov.br está subutilizada e que pode ser uma ferramenta para reduzir as ações nos fóruns. Já conversei com a equipe e temos estrutura técnica para suportar um aumento significativo de demanda no portal, que, diga-se de passagem, tem um índice de resolução de mais de 80%. E as empresas com mais demandas já estão cadastradas no portal. Já tenho reunião agendada com o Tribunal de Justiça de São Paulo.”

Procons

“A Senacon tem de ir mais até aos Procons para facilitar a vida, até por causa do contingenciamento. Em uma reunião em Brasília, conseguimos reunir umas 200 pessoas. Na reunião da regional Sudeste, nesta quarta-feira (29 de março), já temos mais de 200 inscritos. Vou visitar os estados com maior dificuldade na implementação do consumidor.gov. Já identificamos que os maiores problemas estão nas regiões Norte e Nordeste. Há Procons que relutam em implantar a plataforma com receio que o atendimento digital acabe com o pessoal. Pelo contrário, ele qualifica. O fato é que a questão digital é inexorável. Em outros locais, vamos trabalhar para integração, caso do Procon Estadual e do municipal do Rio: é preciso que falem a mesma língua. Se a gente não tem harmonia em casa, como buscar harmonizar a relação entre consumidor e fornecedor? Queremos ter estratégias regionais de atuação e melhorar a articulação entre os Procons.”

Agenda internacional

“De 19 a 29 deste mês, estarei numa agenda internacional. Tínhamos orçamento para participar dessas reuniões, mas não estávamos utilizando. É um momento de caldeirão fervendo. Vou à Argentina e à França. Na Europa, vamos discutir a proteção de dados pessoais. Não tinha tempo de estudar determinados assuntos na correria do dia a dia. Agora, vou aprofundar, ver como estão as diretrizes europeias. Temos projetos de lei no Congresso sobre o tema, essa é uma questão fundamental e um tema globalizado”.

Olhar de fora

“Eu estou assustado para ser sincero. É fácil quando se está olhando... É uma estrutura enxuta, mas extremamente competente. O espírito é de quem estava do lado de fora vendo muita coisa, de fazer um esforço para tentar melhorar o sistema. Estar vindo de fora traz uma visão da outra ponta, de saber a hora que arrebenta no Judiciário, da necessidade de aproximação. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) também preocupa, pois chega lá muito mais informação das empresas do que do consumidor. Temos que dialogar mais.”

Referência

“Como advogado atuei na área eleitoral e do direito administrativo para diversos agentes políticos, inclusive para o deputado Celso Russomanno. Sem dúvida, ele tem uma extensa lista de serviços prestados aos consumidores brasileiros, principalmente aos paulistas. Minhas referências são aquelas pessoas que, assim como eu, defendem com afinco os direitos dos consumidores.”

oglobo.globo.com | 02-04-2017
Mais de 500 casos de sarampo foram reportados só este ano na Europa, afetando pelo menos sete países, segundo a Organização Mundial da Saúde.
feeds.jn.pt | 30-03-2017

RIO — Com ampla oferta de mão de obra e regulações e infraestrutura que facilitam as exportações, a China se transformou no maior centro industrial do mundo. Bens por lá produzidos são distribuídos por todo o planeta, assim como a poluição. Um estudo que será publicado na edição desta quinta-feira da revista “Nature” mostra que da mesma forma que as mercadorias, os poluentes em suspensão circulam entre regiões distantes, carregados pelas correntes atmosféricas, espalhando os males por eles provocados a áreas afastadas dos centros industriais.

Pesquisadores da Universidade de East Anglia, na Inglaterra, utilizaram modelos para estimar a mortalidade prematura relacionada com a poluição por material particulado fino (PM 2.5) em 13 regiões, que englobam 228 países. O foco foi nos óbitos por doenças cardíacas, acidente vascular cerebral, câncer de pulmão e doença pulmonar obstrutiva crônica. Das 3,45 milhões de mortes prematuras registradas em 2007, cerca de 12% ou 411.100, foram provocadas por poluentes emitidos em outra região do mundo.

— Isso indica que a mortalidade prematura relacionada com a poluição do ar é mais que uma questão local — disse Dabo Guan, coautor do estudo e professor da Escola de Desenvolvimento Internacional de East Anglia. — Nossos resultados quantificam a extensão da poluição do ar como um problema global.

CONSUMO NUM PAÍS, POLUIÇÃO EM OUTRO

Além disso, os pesquisadores estimaram que 22% das mortes prematuras, ou 762.400, estavam associadas com a poluição gerada na produção de bens e serviços numa região, mas consumidos em outra. Produtos consumidos nos EUA, por exemplo, provocam mortes na China, onde eles foram fabricados. Dessa forma, alertam os cientistas, a economia gerada pelo custo menor de produção em países onde os controles sobre a emissão de poluentes é mais frouxa resulta em perdas de vidas em outros locais.

— O comércio internacional está globalizando a questão da mortalidade provocada pela poluição do ar, por permitir que as atividades de produção e consumo sejam fisicamente separadas — destacou Guan. — Na nossa economia global, bens e serviços consumidos em uma região podem envolver a geração de grandes quantidades de poluentes, e a mortalidade relacionada, em outras regiões.

É lógico que o PM2,5 tem maior impacto na saúde da população local, mas mortes em regiões vizinhas e em áreas mais distantes também são evidentes, pelo transporte intercontinental de poluentes. A poluição gerada na China, por exemplo, provocou 64.800 mortes prematuras em outras regiões, incluindo mais de 3.100 mortes nos EUA e na Europa Ocidental. Por outro lado, o consumo de bens e serviços nos EUA e na Europa está relacionado com mais de 108.600 mortes prematuras na China.

Os autores sugerem que a adoção de políticas regionais para regular a qualidade do ar pela imposição de um preço para a emissão de poluentes pode ser eficaz, e em alguns casos os custos de tais políticas poderiam ser compartilhados por consumidores em outras regiões. Entretanto, existem evidências de que indústrias poluentes tendem a migrar para países com regulações mais frouxas, o que provoca uma tensão entre a necessidade de melhorar a qualidade do ar e de atrair investimentos internacionais diretos.

“A melhoria de controle de poluentes na China, na Índia e no resto da Ásia traria uma imenso benefício para a saúde pública naquelas regiões e em todo o mundo, e uma cooperação internacional para apoiar esses esforços na redução da poluição e do “vazamento” das emissões pelo comércio internacional é de interesse global”, dizem os pesquisadores.

oglobo.globo.com | 29-03-2017

BRASÍLIA - Numa ofensiva para superar a crise da carne, o presidente Michel Temer assinou, nesta quarta-feira, um decreto que endurece as punições a empresas e fiscais sanitários. O novo decreto atualiza o Regulamento da Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal (Rispoa), de 1952, editado pelo então presidente Getúlio Vargas, e que está em vigor hoje. Ele traz, entre outros pontos, penalidades leves, graves e gravíssimas a empresas que atuam no setor, podendo chegar a proibir a comercialização em caso de três penalidades gravíssimas no mesmo ano.

Temer mais uma vez reforçou a importância da agricultura para a economia brasileira e disse que o Brasil "está vencendo a batalha" contra a crise envolvendo a carne do país.

— Esse episódio foi provocativo. Fez com que todos nós quando vimos, sentíssemos na pele e na carne a importância do agronegócio para o Brasil — afirmou o presidente.

Secretário-adjunto do Ministério da Agricultura, Eumar Novacki disse que o novo decreto não é uma consequência da Operação Carne Fraca, deflagrada pela Polícia Federal, e que o novo texto não foi feito de forma "corrida", mas admitiu que o momento é oportuno para dar uma resposta em relação à crise envolvendo o país, um dos maiores exportadores de carne do mundo.

— Esse decreto não foi uma atualização açodada ou corrida, isso começou há alguns anos, a revisão começou em 2007, é um regulamento muito extenso e por isso exigiu um trabalho meticuloso — afirmou Novacki:

— Ele não foi motivado pela operação em si, mas é uma resposta oportuna, porque estamos criando regras coercitivas para os infratores e regras claras de procedimentos.

O novo decreto traz penalidades leves, graves e gravíssimas às empresas e fiscais sanitários envolvidos na atividade. A partir de agora, se uma empresa cometer três penalidades gravíssimas em um ano terá o seu Serviço de Inspeção Federal (SIF), espécie de RG das empresas, cassado.

Novacki elencou ainda, como duas das principais inovações do decreto, a preocupação com o bem-estar animal e com a sustentabilidade.

O ministro da Agricultura, Blairo Maggi, reconheceu que o país ficou em situação delicada com a deflagração da Operação Carne Fraca. China e Egito, que estão entre os maiores importadores de proteína animal brasileira, haviam suspendido as compras.

— O Brasil ficou muito ameaçado. Ficamos numa posição muito difícil, muito complicada — declarou Maggi, emendando:

— A situação era de emergência. Se nós não tomássemos as devidas providências imediatamente, os fechamentos de mercados internacionais seriam consequência muito danosa, extremamente danosa para o Brasil.

Apesar de comemorar a volta das compras internacionais da carne brasileira, o ministro da Agricultura defendeu que o governo tem outra luta pela frente: reconquistar o mercado.

COBRANÇAS ‘DURAS’

Blairo Maggi reuniu-se ontem com o comissário da União Europeia para Saúde e Segurança Alimentar, Vytenis Andriukaitis. O bloco estuda tomar medidas mais rigorosas em relação ao mercado brasileiro após a Carne Fraca. O ministro reconheceu que as cobranças foram "bastante duras", e que o governo brasileiro ainda não tem garantias de que não perderá mercados. Nesta quinta-feira, haverá outra audiência sobre o tema.

— As cobranças foram bastante duras. Eu disse que estamos prontos e dispostos a aceitar sugestões — afirmou, completando:

— Obviamente, não nos deu nenhuma garantia, nem poderia dar. Não depende só dele (comissário da União Europeia).

Em abril e maio, representantes do Ministério da Agricultura devem fazer duas viagens internacionais. Em maio, o périplo deve durar vinte dias e passar por Emirados Árabes, Arábia Saudita, China e União Europeia.

Blairo Maggi voltou a criticar a "comunicação" da Polícia Federal, e enfatizou que não estava atacando a operação.

— Em nenhum momento reclamei da operação. Nunca reclamei

oglobo.globo.com | 29-03-2017
Direcção-Geral de Saúde está a trabalhar com organismos homólogos de toda a Europa. O surto identificado em mais de 10 países poderá ter tido origem na Holanda.
www.publico.pt | 29-03-2017

RIO- A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) rejeitou o pedido de patente do principal e mais eficaz medicamento para tratar hepatite C crônica, o sofosbuvir. A decisão, antecipada pela coluna de Ancelmo Gois no sábado, é um grande passo para que possam surgir genéricos deste remédio e que, por conta da concorrência, os preços caiam. Mas ainda existe mais uma etapa para que esse cenário seja possível: na sequência da decisão da Anvisa, o pedido de patente será enviado ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), que analisará a documentação e tomará a decisão final. Embora o Ministério da Saúde tenha determinado prioridade para este caso, não há prazo legal para o INPI apresentar sua resolução. hepatite c

A farmacêutica que pediu a patente, a Gilead Sciences, afirma que cobra atualmente no Brasil US$ 4.197 — o correspondente a R$ 13 mil — pelo tratamento de 12 semanas, considerado o ideal para que um paciente tenha 95% de chances de cura. O valor é alto, mas já é fruto de descontos que o Ministério da Saúde negociou com a empresa ao longo dos últimos anos. Quando o remédio foi lançado, em 2013, nos Estados Unidos, o preço inicial era de inacreditáveis US$ 84 mil por esse mesmo tratamento, o que equivaleria nos valores de hoje a mais de R$ 250 mil.

FIOCRUZ PODE PRODUZIR POR ATÉ US$ 3 MIL

Por causa do alto custo por paciente, o Serviço Único de Saúde (SUS) raciona a terapia: apenas as pessoas que se encontram nos dois últimos graus de cirrose hepática em decorrência da doença recebem o remédio. Sem a patente, o sofosbuvir deverá ter seu preço bem reduzido. A Fiocruz, por exemplo, anunciou que pode produzir e vender as pílulas suficientes para as 12 semanas por, no máximo, US$ 3 mil. Versões genéricas em países como a Índia chegam a custar menos de US$ 500. A expectativa é de que, assim, mais pacientes possam se beneficiar.

— Do jeito que estamos hoje, é preciso piorar muito para ser tratado de forma adequada — lamenta Jeová Fragoso, que adquiriu hepatite C em 1994 e, com o tratamento à base de sofosbuvir, em 2015, conseguiu negativar o vírus. — Com esse remédio, o tratamento para hepatite C mudou da água para o vinho. As chances de cura passaram de 20%, com as drogas disponíveis antes, para mais de 90%. E os efeitos colaterais, que antes eram terríveis, agora são quase inexistentes.

Quando Fragoso começou o tratamento, ainda faltavam meses para que o sofosbuvir fosse incorporado ao SUS, mas como ele já havia tido o fígado transplantado e estava piorando rapidamente, acionou a Justiça para obrigar o plano de saúde a cobrir todo o tratamento.

— Eu não podia esperar. Se esperasse, morreria — lembra ele, que é fundador de uma ONG de defesa dos direitos de quem tem a doença.

Existem 80 milhões de pessoas vivendo com hepatite C no mundo, das quais apenas um milhão têm acesso a novas opções de tratamento, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). De acordo com um relatório divulgado ano passado pela entidade, há 700 mil mortes de infectados por ano, e os países que têm alcançado a maior cobertura no tratamento são aqueles em que remédios genéricos estão disponíveis. No Brasil, a estimativa é de que haja 1,6 milhão de infectados com o vírus, e somente 30 mil recebem o sofosbuvir.

A americana Gilead tem a patente do remédio nos Estados Unidos, e, desde outubro de 2015, o Ministério da Saúde importa a droga para distribuir pelo SUS. Enquanto a farmacêutica tem seu pedido de patente no Brasil analisado, o país não pode comprar o medicamento de nenhuma outra empresa. O INPI informou que os documentos sobre o pedido de patente ainda não chegaram ao instituto e que não é possível, neste momento, dar uma previsão de quando sairá o resultado do exame.

— Esperamos que saia uma decisão ainda este ano — aspira Felipe de Carvalho, coordenador no Brasil da Campanha de Acesso a Medicamentos Essenciais dos Médicos Sem Fronteiras. — O que pode atrapalhar é um possível recurso da empresa para tentar reverter a decisão da Anvisa. O monopólio de um remédio tão importante é prejudicial à sociedade como um todo.

Em nota, a farmacêutica não disse se entrará com recurso, mas apenas que confia no INPI.

“A Gilead Sciences acredita na competência técnica do INPI para avaliar a questão de patenteabilidade dos nossos produtos. Consideramos que a proteção da propriedade intelectual é uma das mais importantes formas de estímulo constante à inovação e à busca por novas opções terapêuticas que podem tratar e curar milhares de pacientes”, afirmou a companhia.

Arair Azambuja, presidente do Movimento Brasileiro de Luta contra as Hepatites Virais, defende que a Gilead não é merecedora da patente porque não inovou, uma vez que outras empresas chegaram à fórmula do sofosbuvir mais ou menos ao mesmo tempo.

A associação Médicos Sem Fronteiras também está se mobilizando para evitar que a patente seja dada aos países da União Europeia, onde ela passa pelo mesmo trâmite do Brasil.

— É muito importante o que está acontecendo hoje no Brasil porque uma decisão influencia outras. Então esperamos que o posicionamento da Anvisa influencie o debate global — diz Carvalho.

oglobo.globo.com | 28-03-2017

RIO - Vytenis Andriukaitis, Comissário de Saúde da União Europeia, afirma que quer ajudar o Brasil a recuperar a credibilidade. Segundo ele, o governo brasileiro precisa entender que é preciso agir rapidamente para isso.

Alguma chance de o embargo aos frigoríficos brasileiros ser suspenso após a reunião que o senhor terá com o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, hoje?

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Será uma boa oportunidade para discutir essa questão em detalhes. Brasil e União Europeia são parceiros, nossa relação é forte e baseada na confiança. Precisamos de um sistema oficial de controle muito eficiente. Se o consumidor é traído na sua confiança no sistema de segurança alimentar, temos consequências terríveis. Confiança, credibilidade e responsabilidade são os pilares no comércio.

Que tipo de exigência a UE vai fazer para reabrir o mercado?

É prematuro dizer qualquer coisa hoje (ontem). A UE tem os mais rígidos padrões de segurança alimentar no mundo, porque nossa prioridade é a saúde pública, não o negócio.

A reunião (com Maggi) já estava agenda antes da Operação Carne Fraca?

Sim, desde janeiro deste ano, e tinha por objetivo discutir a cooperação entre a América do Sul e a União Europeia para resistência a micro-organismos.

Quanto o Brasil representa das importações de carne da União Europeia?

De tudo o que importamos de carne bovina, 45% vêm do Brasil. No caso do frango, o Brasil representa 55% de nossas importações. Não compramos suínos daqui. Dos 21 frigoríficos suspeitos, apenas quatro tinham autorização para exportar para a União Europeia. Suspendemos as compras desses quatro.

A imagem do Brasil no exterior foi arranhada?

Minha função não é falar sobre imagem, e, sim, restaurar o quanto antes a confiança, ajudar o Brasil a fazer de tudo para restaurar sua credibilidade.

A confiança foi quebrada?

Você sabe muito bem que todos os rumores e todas as crises afetam a confiança, porque imediatamente cria desconfiança e desinformação entre consumidores. O timing é um fator muito importante. A confiança tem que ser restaurada o quanto antes. O governo brasileiro tem que entender isso.

oglobo.globo.com | 28-03-2017

BRASÍLIA - A União Europeia (UE) pediu nesta segunda-feira que o Brasil trabalhe para recuperar a confiança dos importadores, enquanto o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, admitiu que a imagem do país foi "muito atacada" pelo escândalo.

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— Espero que as autoridades brasileiras entendam que precisam atuar o mais rápido possível para restabelecer a confiança em seus sistemas de controle — disse o comissário europeu de Saúde e de Segurança Alimentar, Vytenis Andriukaitisk em uma entrevista à AFP no Rio de Janeiro.

O comissário europeu será recebido na terça-feira em Brasília pelo ministro da Agricultura, Blairo Maggi.

A visita de Andriukaitis "é um espaço importante (...) para fazer todos os esclarecimentos, mostrar quais são os procedimentos, onde estão as nossas preocupações", disse Maggi em uma entrevista coletiva em Brasília.

A Polícia Federal revelou no dia 17 de março a operação "Carne Fraca", com denúncias de que grandes frigoríficos haviam subornado fiscais sanitários para que eles autorizassem a venda de carne vencida ou adulterada.

O caso repercutiu imediatamente no exterior, e vários países importadores bloquearam suas compras, embora alguns importadores importantes, como a China, tenha limitado a suspensão aos frigoríferos envolvidos no escândalo.

— Nossa imagem foi muito atacada nos últimos dias, os comentários fora são muito ruins — admitiu Maggi. — Nossos concorrentes, aqueles que querem nossos lugares, estão se aproveitando desse momento de fragilidade para poderem conquistar e fazer os mercados serem melhores para eles — acrescentou.

O ministro anunciou que fará nas próximas horas uma teleconferência com autoridades de Hong Kong para tentar reverter as restrições do maior importador de carne bovina do Brasil.

— Temos respondido a todos os questionamentos, mas se querem mais alguma explicação estamos prontos para dar. Vamos ver se hoje à noite a gente consegue convencê-los de que as informações são suficientes — acrescentou Maggi.

As vendas de carne trouxeram de US$ 13 bilhões à economia brasileira em 2016. A China é o segundo maior comprador de carne bovina e de frango do Brasil.

Na semana passada, o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC) informou que as exportações de carne tiveram uma queda de US$ 63 milhões diários de antes do escândalo para 74.000 dólares registrados no dia 21 de março.

No entanto, nessa segunda-feira o ministério informou que a queda das vendas de carne da semana passada se limitou a 20% em relação à semana anterior, sem detalhar o volume das vendas diárias.

oglobo.globo.com | 27-03-2017

VIENA - A Suíça ampliou a proibição de importação de carne de quatro para 21 unidades de processamento brasileiras, como parte de medidas de segurança em toda a Europa, disseram autoridades suíças neste domingo. Apesar de estar fora do bloco, o país poderia ser um canal de entrada do produto brasileiro na região — sob suspeita desde a divulgação da Operação Carne Fraca, da Polícia Federal. Segundo as investigações, um esquema de propina permitia que carnes e embutidos fossem comercializados sem a devida fiscalização.

Os peritos veterinários da União Europeia recomendaram o reforço dos controles sobre as importações do Brasil na sexta-feira. “A extensão da proibição é uma resposta às medidas europeias, visando impedir que a carne chegue ao território da União Europeia via Suíça”, disse uma porta-voz do escritório suíço de segurança alimentar e veterinária.

A Suíça proibiu na terça-feira as importações de quatro fábricas brasileiras de processamento de carnes. Não ficou imediatamente claro quanta carne a Suíça importa do Brasil.

O comissário europeu Vytenis Andriukaitis, responsável pela saúde e segurança alimentar, estará no Brasil na segunda-feira para discutir o assunto com o ministro da Agricultura do Brasil, Blairo Maggi.

China, Egito e Chile anunciaram no sábado a reabertura de seus mercados para a importação de carne brasileira, movimentos que foram comemorados pelo governo brasileiro, que se mobilizou nos últimos dias para tentar diminuir o dano às exportações após escândalo envolvendo a fiscalização dos produtos no Brasil.

oglobo.globo.com | 26-03-2017

PEQUIM - Não é só a carne brasileira que está em alta na China - pelo menos estava até o escândalo da operação Carne Fraca da Polícia Federal levar as autoridades a suspender as importações do produto brasileiro. O churrasco entrou na moda e ajudou a espalhar a boa fama da carne e do estilo de vida do brasileiro. Proliferam as churrascarias por todo o país. Só na capital há 25, das quais duas apenas com churrasqueiros brasileiros.

Carne fraca 2Curiosamente, os fornecedores destes estabelecimentos não trabalham com carne brasileira. Mas são obrigados a oferecer a tradicional picanha, um corte que só os chineses muito iniciados saberão dizer o que é. Os outros não têm ideia do que se trata.

- Tivemos de ensinar como é que se faz para tirar a bola da picanha da peça inteira - conta Ceará, o churrasqueiro do restaurante Latina, que vive há 17 anos em Pequim.

A primeira churrascaria chinesa abriu as portas na capital em 1994, mas já não existe mais. A Beijing Brazil fechou antes da Olimpíada de Pequim, em 2008, para dar lugar a mais uma via na larga avenida que passa pela Praça da Paz Celestial.

Ceará, que fala chinês como um local, afirma que a clientela gosta de ver os pratos cheios. A carne sempre foi item de luxo na China. Até bem pouco tempo atrás era usada como tempero e não prato principal. Foi a ascensão de tantos milhões à classe média que popularizou o consumo da carne.

- Eles ficam alucinados com aquelas peças grandes que a gente serve no rodízio - conta Ceará, no intervalo entre o almoço, que é servido de 11h às 14h, e o jantar, pouco antes da sua sesta, um hábito bastante chinês que incorporou à rotina.

A "Carnaval" é uma churrascaria comandada por locais e até lembra as antigas churrascarias brasileiras. Um estabelecimento com características chinesas. Tem o rodízio, o que muitas não costumam usar (deixam as carnes servidas em um bufê) e oferecem acompanhamentos muito mais da culinária chinesa do que outra coisa. À noite, fazem show de música, dançarinas com poucas roupas e chineses cuspidores de fogo.

O mercado de carnes da China é uma conquista recente. Os produtores consideram o ano de 2016 como um divisor de águas. Foi quando o Brasil deixou os australianos para trás pela primeira vez, tornando-se seu principal fornecedor de carnes bovinas. De 2012 a 2015, a carne brasileira não entrava na China. Estava embargada por causa de casos de doença da vaca louca. As exportações de carne suína - a preferida do consumidor local -, passaram de 123 mil toneladas, em 2015, para 232 mil toneladas no ano passado. Um salto importante de 82% em um país que produz a maior parte da carne de porco que consome.

Neste momento, o cidadão comum chinês não parece muito preocupado com a carne brasileira. Os comentários sobre o assunto na internet (usada por 730 milhões de pessoas) esta semana não chegaram a 50. A base antimíssil que está sendo construída entre a Coreia do Sul e os Estados Unidos, no "quintal" da China, provocaram mais de 520 milhões de visualizações. Mas, embora não queiram admitir abertamente, as churrascarias começam a receber telefonemas de jornalistas e clientes querendo saber a origem da carne. Por mais que não sirvam produto brasileiro, é impossível dissociar um do outro.

O aumento explosivo do poder aquisitivo e a absorção do modelo de consumo do Ocidente levaram os chineses a comprar carne como nunca e a experimentar um sistema de produção que deve se confirmar insustentável no médio prazo. A China hoje consome sozinha mais do que os Estados Unidos e a União Europeia (UE) juntos - quase um terço da produção mundial. E hoje, depende em boa medida do Brasil, seu maior fornecedor. Mas a ordem agora é cortar pela metade a quantidade de carne que eles põem à mesa diariamente. A justificativa oficial são razões de saúde e vigilância sanitária. Trata-se de um movimento inédito (do ano passado) cujos efeitos estimados sobre o meio ambiente dentro e fora da China, segundo especialistas e ambientalistas, não tem precedentes.

Um exemplo é a gigantesca indústria de carnes suínas. Os chineses sozinhos consomem metade da carne suína produzida no planeta. E isso é um dos grandes responsáveis pela poluição do solo no país, considerada ainda mais grave do que a atmosférica.

*Correspondente

oglobo.globo.com | 26-03-2017

Anunciada como “a maior operação da história da Polícia Federal", a Carne Fraca completou uma semana ontem com um saldo negativo, principalmente na balança comercial. Pelo menos dez países, entre eles a China, decretaram embargo total à carne brasileira. União Europeia e seis nações suspenderam as compras dos 21 frigoríficos investigados. Na última terça-feira, o total de carnes bovina, de frango e suína embarcadas ao exterior despencou de uma média diária de US$ 63 milhões para US$ 74 mil. Em Hong Kong, as redes McDonald’s e KFC decidiram banir a carne brasileira de seus cardápios. Na quinta-feira, o grupo JBS, dono das marcas Friboi, Seara e Swift, suspendeu por três dias a produção de carne bovina em 33 de suas unidades e anunciou que retomará as atividades, na próxima semana, com um corte de 35%.

Após um encontro entre o secretário-executivo do Ministério da Agricultura, Eumar Roberto Novacki, e o diretor geral da Polícia Federal, Leandro Daiello, na terça-feira, quando os estragos no mercado externo já estavam consumados, PF e ministério divulgaram comunicado conjunto para dizer que o foco da Carne Fraca eram os desvios de conduta praticados por fiscais e não o mau funcionamento do Sistema de Inspeção Federal (SIF), que, segundo a nota, “garante produtos de qualidade ao consumidor brasileiro”. Ao mesmo tempo, o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, protagonizava um périplo por frigoríficos, em alguns deles acompanhado por jornalistas chineses, para atestar a saúde da carne brasileira.

Mas, se a operação não era para pôr em dúvida a qualidade da carne e sim desvendar o esquema de corrupção no setor, uma semana depois, sabe-se menos sobre as delituosas relações entre servidores e frigoríficos do que sobre a venda de produtos adulterados. Até agora, não foi suficientemente explicado por que frigoríficos pagavam propinas a fiscais federais e o que pretendiam encobrir com isso. Os superintendentes do Paraná, Gil Bueno de Magalhães, e de Goiás, Júlio César Carneiro, foram sumariamente afastados do Ministério da Agricultura, mas os motivos não foram revelados. As gestões do ex-superintendente do Paraná Daniel Gonçalves Filho, preso na operação e apontado pela PF como chefe da organização criminosa, também não foram detalhadas. É preciso esclarecer ainda a promíscua relação que levava frigoríficos a escolherem os fiscais que os inspecionavam, chegando ao cúmulo de conseguir trocá-los quando não lhes agradavam.

Outra questão que precisa ser esclarecida são as ramificações. Sabe-se que cerca de 70% das 27 superintendências do ministério nos estados eram preenchidos por indicações políticas. E escutas telefônicas da Carne Fraca mostraram que superintendentes federais sofriam pressões de Brasília.

As inconsistências na Operação Carne Fraca sobre a qualidade da carne não podem impedir o avanço das investigações sobre o grave esquema de corrupção montado na fiscalização. Após uma semana, a PF ainda deve explicações.

oglobo.globo.com | 25-03-2017

PEQUIM - Em novo revés para a imagem do Brasil no exterior, desta vez foi a rede Mc Donald’s que anunciou que retirou do cardápio dos seus restaurantes em Hong Kong o “BBQ McWings”, ou asas de galinha grelhadas, para tranquilizar os clientes. A medida foi tomada preventivamente, segundo revela a empresa ao GLOBO, porque descobriu-se que alguns lotes da mercadoria poderiam ter vindo do Brasil. A assessoria de imprensa garante que o frango grelhado e McChicken que estão sendo oferecidos nas cerca de 240 lojas da marca em Hong Kong são provenientes da China.

carne fraca 24 março

“Para garantir a tranquildade dos consumidores, tiramos temporariamente os “BBQ McWings” do cardápio como medida de precaução. Confirmamos que os fringe grelhado e o McChicken disponível nos restaurantes são todos da China”, diz o texto. A empresa reiterou que não há qualquer ingrediente servido em suas lojas que tenha sido importado dos 21 frigoríficos que estão sob investigação no Brasil na operação “Carne Fraca” da Polícia Federal.

LEIA MAIS: Carne Fraca: China pode usar embargo para forçar negociação maior

VEJA TAMBÉM: JBS suspende produção em 33 das 36 unidades por três dias

Carne Fraca - 22.03

Seguindo o exemplo chinês e da União Europeia, a região administrativa especial de Hong Kong divulgará no final da tarde de terça-feira a suspensão temporária das importações de carnes brasileiras. O Centro para Segurança Alimentar (CFS) do Departamento de Saúde Alimentar e Ambiental afirmou em nota oficial que, "tendo em vista o fato de a qualidade carne exportada pelo Brasil estar sendo questionada, em nome da prudência, o CFS decidiu suspender temporariamente as compras de carnes congeladas e frescas de bovinos e aves brasileiros". A medida teve efeito logo após a publicação da nota.

— O centro decidiu, como medida de precaução, suspender temporariamente as importações de carnes congeladas e frescas de bovinos e aves do Brasil. O CFS vai manter os contatos com as autoridades relevantes no país para obter as informações detalhadas. Além disso, a fiscalização sobre carnes bovinas e de aves vindas do Brasil será reforçada para garantir a segurança alimentar e a saúde pública — disse um porta-voz do CFS.

Nos últimos três anos, segundo o CFS, foram colhidas 17.060 amostras de carnes de bovinos e aves para testes de rotina. Entre eles, houve apenas 36 amostras consideradas insatisfatórias e nenhuma delas estava relacionada à qualidade dos produtos brasileiros.

Carne Fraca: veja os países que atuaram contra o Brasil

oglobo.globo.com | 24-03-2017
Comissário europeu da saúde confessa-se “chocado” com o facto de na União Europeia “quase um em cada quatro adolescentes de 13 anos” que frequentam a escola já terem fumado.
www.publico.pt | 23-03-2017

O governo brasileiro apelou aos demais países na Organização Mundial do Comércio (OMC) nesta quarta-feira, 22, que não adotem medidas e barreiras "arbitrárias" sob a justificativa de estar protegendo seus consumidores domésticos depois da revelação da fraude no setor de carnes. Num documento enviado a 165 países, o Itamaraty insistiu que o sistema de controle sanitário do país é "sólido" e tentou minimizar a dimensão do problema, apontando que apenas um número pequeno de fiscais e funcionários foi alvo de suspeitas.

Para justificar o apelo, o governo explicou que a Operação Carne Fraca se refere à suspeita de corrupção, e não de condições sanitárias dos produtos.

"No espírito de transparência e cooperação, esperamos que os membros não recorram a medidas que poderiam constituir restrições arbitrárias ao comércio internacional ou que possam ir na direção contrária de acordos e disciplinas da OMC", indicou o governo no documento, que também será lido nesta tarde pelo Itamaraty numa reunião em Genebra.

O discurso vem no momento em que diversos países suspenderam a importação de carne brasileira ou pediram informações ao governo. Ao menos 12 nações já tiveram alguma reação após o início da Operação Carne Fraca. A pedido do Palácio do Planalto, postos diplomáticos nas principais capitais estão sendo instruídas a dar explicações sobre o caso e insistir que não existe motivo para frear as importações.

O governo, porém, insiste que está levando a sério os resultados da investigação, que Temer está pessoalmente envolvido no assunto e que considera que a operação da PF por si só é "prova da transparência e credibilidade" dos controles.

"Os controles sanitários do Brasil são sólidos e podem ser confiados", mostra o documento. "Os procedimentos são eficientes e resultam em alimentos seguros para o consumo. Reiteramos nosso compromisso em continuar a melhorar as garantias de nosso sistema de controle sanitário."

"O Ministério da Agricultura é amplamente reconhecido por seu serviço rigoroso e robusto de inspeção", afirmou a diplomacia, apontando para a "excelência" dos produtos nacionais em 150 mercados pelo mundo.

"Por esse motivo, o sistema regulatório está entre os mais auditados do mundo", justificou, apontando que ele passa periodicamente por inspeções. De acordo com o Itamaraty, uma série de medidas foi tomada desde a eclosão do caso. "O compromisso é de garantir a segurança e qualidade dos produtos", disse.

Perspectiva

O governo também defendeu que o caso seja "colocado em perspectiva". Segundo o Itamaraty, apenas 33 pessoas dos 2,3 mil auditores do Ministério da Agricultura estão sendo investigados. "Todos foram suspensos", indicou.

Das 4,8 mil unidades de processamento animal, apenas 21 foram envolvidas em irregularidades. Dessas, três tiveram suas atividades suspensas e todas estão passando sob novo exame. O governo garante ainda que todas as 21 unidades passaram a ser impedidas de exportar. Dos 853 mil carregamentos em 2016 exportados pelo Brasil, apenas 184 foram alvos de irregularidades.

O Itamaraty ainda insistiu em apontar que a investigação da PF não se refere ao sistema de inspeção, mas sobre a "má-conduta de alguns poucos indivíduos".

Tentando dar garantias aos demais governos, o Brasil prometeu que as autoridades estavam à disposição para lidar com preocupações que possam surgir do exterior.

Em diversas partes do mundo, contudo, a desconfiança ainda é grande. O jornal O Estado de S. Paulo apurou que, em todos os portos do continente europeu, autoridades estão colhendo amostras de carnes brasileiras e outros produtos que estejam entrando no mercado europeu. Se ficar provado que existem problemas de saúde nesses carregamentos, a UE deixou claro que "não hesitará em tomar novas medidas".

"Se o Brasil não nos der garantias e se vermos que o problema é sistêmico, haverá consequência", disse Michael Scannell, chefe do escritório de Veterinária da Comissão Europeia. Segundo ele, Bruxelas pediu que todos os governos do bloco elevassem os controles sobre todos os alimentos de origem animais importados do Brasil. "Pedimos maiores controles físicos e a inclusão de controles de higiene", disse, indicando que um primeiro resultado desse esforço será conhecido na sexta-feira.

A pedido da Europa, o Brasil suspendeu as exportações de quatro estabelecimentos envolvidos na Operação Carne Fraca. Mas, durante a reunião em Bruxelas, Scannell admitiu que, no passado, "fez auditorias no Brasil e encontrou problemas". "No setor de carnes, continuamente temos alertado sobre problemas ao longo de anos", disse.

PEQUIM - Em novo desdobramento das crise que vive o Brasil após a operação “Carne Fraca”, deflagrada pela Polícia Federal na semana passada, a cidade de Hong Kong acaba de anunciar que também está suspendendo as importações de carnes brasileiras. O Centro para Segurança Alimentar (CFS) do Departamento de Saúde Alimentar e Ambiental anunciou que, “tendo em vista o fato de a qualidade carne exportada pelo Brasil está sendo questionado, em nome da prudência, o CFS decidiu suspender temporariamente as compras de carnes congeladas e frescas de bovinos e aves brasileiros”. A medida tem efeito imediato, segundo a nota da autoridade sanitária.

A decisão de Hong Kong acontece menos de 24 horas depois dos anúncios de União Europeia (UE) e China.

— O centro decidiu, como medida de precaução, suspender temporariamente as importações de carnes congeladas e frescas de bovinos e aves do Brasil. O CFS vai manter os contatos com as autoridades relevantes no país para obter as informações detalhadas. Além disso, a fiscalização sobre carnes bovinas e de aves vindas do Brasil será reforçada para garantir a segurança alimentar e a saúde pública — disse um porta-voz do CFS.

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O órgão avisa que mantém um programa de rotina de fiscalizações, que colhe amostras de alimentos (inclusive carnes de bovinos e aves) na importação, atacado e varejo para medir os níveis de substâncias químicas e micróbios para assegurar que estão de acordo com as regras vigentes em Hong Kong e prontos para o consumidor humano. Nos últimos três anos, segundo o CFS, foram colhidas 17.060 amostras de carnes de bovinos e aves para teses. Entre eles, houve apenas 36 amostras consideradas insatisfatórias e nenhuma delas estava relacionada à qualidade dos produtos brasileiros.

O centro recomendou que o público cozinhasse as carnes antes de seu consumo e avisou vai continuar acompanhando de perto a situação.

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oglobo.globo.com | 21-03-2017

Desde que a Operação Carne Fraca da Polícia Federal foi deflagrada, muitas notícias correram a internet e as mídias sociais, deixando o consumidor confuso e apreensivo. Veja abaixo o que especialistas consultados pelo GLOBO dizem sobre o uso de carne de cabeça de porco e carcaça de frango em embutidos e entenda o que pode ou não fazer mal à saùde.

Cabeça de porco

Na decisão da Justiça sobre os pedidos de prisão em âmbito da Operação Carne Franca, há um diálogo dos sócios do frigorífero Peccin, no qual sugerem usar carne de cabeça de porco em linguiça. O uso de carne de cabeça de porco em embutidos é permitida por lei, desde que essa carne seja congelada após sua retirada e usada apenas em produtos previamente cozidos, como mortadela e salsicha. Em linguiça de churrasco, a chamada linguiça frecal, o uso não é permitido justamente porque ela não passa por cozimento. De acordo com o professor de tecnologia de carnes do Departamento de Engenharia de Alimentos da USP, Marco Antonio Trindade, a carne de cabeça de porco é muito manipulada e, por isso, é mais vulnerável à contaminação por microorganismos que estão no ar ou na faca. Daí a determinação de seu congelamento e uso em embutidos cozidos. O consumo desse tipo de carne em si não faz mal à saúde humana.

Carcaça de frango

A carcaça de frango é aquilo que sobra após a desossa do frango, aquela que fica presa à cartilagem. Também é chamada de carne mecanicamente separada ou CMS. Seu uso em embutidos é permitido mas há limites — de até 60% — que variam conforme tipo de produto. Segundo o funcionário que denunciou as fraudes, alguns frigoríferos usavam carcaça de frango acima do teto. A gerente técnica de alimentos da Vigilância Sanitária do Rio, Aline Borges, explica que, mesmo com consumo acima do limite, não há problema para a saúde humana. Mas o consumidor estará comprando um produto com valor econômico menor. Ou seja, vai pagar mais do que ele vale.

Ácido ascórbico ou sórbico

Na decisão da Justiça, há relatos feitos por fiscais de uso de ácido ascórbico (vitamina C) pelo frigorífero Peccin com objetivo de “maquiar” a deterioração da carne. No mesmo documento, é reproduzido um diálogo no qual sócios do frigorífero comentam uso de ácido sórbico. Ambos são usados como conservantes em produtos processados, já que pela norma brasileira não é possível usar aditivos em carnes frescas ou congeladas. Não há evidência de que eles sejam associados a risco de desenvolvimento de câncer. Na norma brasileira, não há imposição de limite ao uso de vitamina C. É dito que é possível usá-la em “quantidade suficiente” para obter o efeito desejado. No caso do ácido sórbico, o limite é de 0,02g por 100g de carne.

Água no frango

Uma das fraudes era vender frango com mais água que o permitido. Pela legislação brasileira, o limite de água na ave é de 8% de seu peso. Essa tolerância é necessária, segundo Marco Antonio Trindade, da USP, porque no processo de abate de frango, ele é imerso em água fria logo após ser morto. O objetivo é baixar sua temperatura e evitar contágio por microorganismos. A presença de água superior a esse limite não faz mal à saúde, mas o consumidor vai pagar mais caro pela quantidade de frango que está comprando. É uma fraude recorrente. Nas demais carnes, bovinos ou suínos, a água não é permitida em qualquer dosagem.

Salmonella

Segundo a Polícia Federal, a partir de áudios da investigação, havia carnes contaminadas com salmonela em sete contêineres da companhia que seriam exportados para a Europa. No entanto, a BRF (dona das marcas Sadia e Perdigão, entre outras) sustenta que o tipo de bactéria (Salmonella Saint Paul) é tolerado pela legislação europeia para carnes in natura, e, portanto, não impediria a entrada do produto no continente. No Brasil, segundo a veterinária Sheila Galvão, gerente técnica do Laboratório de Saúde Pública do Rio, a salmonella não é tolerada.

oglobo.globo.com | 21-03-2017

SÃO PAULO - A Polícia Federal (PF) deflagrou na última sexta-feira a Operação Carne Fraca, que investiga um suposto esquema em que donos de frigoríficos pagavam propina a fiscais do Ministério da Agricultura para liberar produtos no mercado sem a devida fiscalização. Ao todo, 21 estabelecimentos são investigados. Veja abaixo os problemas identificados pela operação em cada uma das companhias citadas pela PF e o que cada uma tem a dizer a respeito.

EMPRESA: BRF

O QUE A PF APUROU?

- Incidência de salmonela em duas granjas, uma de peru e outra de frango, e também um lote de perus que havia sido exportada para a Europa.

- Executivos da empresa foram grampeados combinando troca de favores e e o envio de presentes a fiscais do Ministério da Agricultura para que a granja de Buriti, que não tinha licença para abater perus, continuasse funcionando.

- Também existe a acusação de apoio a campanhas eleitorais e de oferta de produtos a fiscais para evitar a interdição da unidade de Mineiros, em Goiás.

- A BRF ainda teria pago uma viagem à Europa a uma funcionária do ministério para conhecer uma tecnologia de abate de animais de alta performance — mais de 10 mil aves por hora. O Ministério da Agricultura não permitia esse sistema, mas depois acabou aprovando-o no país.

- Outro grampo a funcionários da empresa levou a PF a acusar a empresa de misturar papelão em carne processada

O QUE DIZ A EMPRESA?

Em nota, a BRF diz que a unidade de Mineiros produz carne de frango e de peru e responde por menos de 5% da produção total da empresa. Seus produtos são destinados a exportações e mercado interno, possuindo três certificações internacionais. A última auditoria realizada pelo Ministério da Agricultura aconteceu em fevereiro deste ano e a fábrica foi considerada apta a manter as operações. A empresa diz ainda que apesar de o juiz da operação ter considerado desnecessário o fechamento da unidade, mesmo assim ela foi interditada, de forma preventiva e temporária, pelo Ministério da Agricultura.

Sobre a salmonela, a BRF afirma que a bactéria é comum em produtos alimentícios de origem animal e que é eliminada com o cozimento adequado dos alimentos.

No caso da carga que era destinada à Europa, havia presença de um tipo de salmonela tolerado pela legislação europeia para carnes in natura e, portanto, não justificaria a proibição de embarque.

Sobre as acusações contra seus executivos, a BRF diz que não compactua com práticas ilícitas e refuta categoricamente qualquer insinuação em contrário. A BRF informa que está acompanhando as investigações e dará todo o suporte às autoridades

A empresa afirma que não há papelão algum nos seus produtos e que houve um mal entendido na interpretação do áudio capturado pela PF. O funcionário estava se referindo às embalagens do produto e não ao seu conteúdo.

EMPRESA: Seara (empresa do grupo JBS)

O QUE A PF APUROU?

- Fiscais teriam assinado certificados para exportação de carnes sem fiscalização feita no próprio local. Em troca, teriam recebido produtos da empresa.

- Um funcionário da empresa, que é médico veterinário, estaria prestando serviços no Ministério da Agricultura, onde teria acesso a senhas e login para emitir certificados de exportação.

O QUE DIZ A EMPRESA?

JBS informa que tem no Brasil 2 mil funcionários treinados para garantir a qualidade de todos os seus produtos, inclusive das marcas Friboi e Seara.

No despacho da Justiça, lembra a empresa, não há menção a irregularidades sanitárias da JBS e nenhuma de suas unidades foi interditada

Nenhum executivo da empresa foi alvo de medidas judiciais. Apenas um funcionário da unidade de Lapa, no Paraná, foi citado na investigação. A JBS não compactua com desvios de conduta e tomará todas as medidas cabíveis.

EMPRESA: Grupo Peccin

O QUE A PF APUROU?

- No despacho judicial, consta que a empresa cometia “falcatruas para não desperdiçar alimentos podres, vencidos, doentes e mal estocados”.

- Gravação de conversa entre sócios mostra uso de cabeça de porco na composição de embutidos — o que é proibido pela legislação.

- O sócios também falam´, segundo a PF, sobre uso de presunto podre, mas que estava sem cheiro, e poderia ser usado para a produção alimentícia.

- Ausência de refrigeração em carreta que carregava carne mecanicamente separada (CMS), usada nos produtos.

- Contatada presença de substâncias químicas acima do permitido por lei e de aditivos não previstos pela legislação para maquiar aspecto das carnes (ácido ascórbico).

- Pagamento de propina a fiscais para que eles ignorassem problemas sanitários.

O QUE DIZ A EMPRESA?

Em nota publicada em seu site, a empresa lamenta a divulgação precipitada de "inverdades" sobre o seu sistema de produção, sendo que as informações repassadas ao público foram no "afã de justificar os motivos da operação, modificando os fatos e comprometendo a verdade".

A empresa diz ainda que recebeu com "grande surpresa, consternação e forte repúdio as falsas alegações que culminaram com a prisão preventiva de seus diretores".

E que se coloca à disposição das autoridades policiais para prestar esclarecimentos e que confia nos órgãos competentes para discernir a veracidade e conclama pela paciência e serenidade da sociedade para o esclarecimento dos fatos verdadeiros.

Seis cuidados na hora de comprar carne

EMPRESA: Frigorífico Larissa

O QUE A PF APUROU?

- Emissão de notas fiscais falsas.

- Transportar produtos fora da temperatura adequada, troca de etiqueta de produtos vencidos e a colocação no mercado dessa mercadoria.

- Ameaçado de fechamento, dono do frigorífico é acusado de tentar negociar com representantes do Ministério da Agricultura substituição de fiscal

O QUE DIZ A EMPRESA?

Nenhum representante da empresa foi encontrado

EMPRESA: Souza Ramos

- Fornecimento de produtos em desacordo com o contrato para merenda escolar no Paraná (forneceu salsicha de frango em vez de salsicha de peru).

- Irregularidades na fiscalização das atividades da empresa.

O QUE DIZ A EMPRESA?

- Empresa diz em nota que colabora com as investigações e segue as exigências de qualidade

- Empresa diz ser importante "que se desvincule a ideia de que todas as empresas investigadas pela polícia, de fato adulterem e/ou burlem a lei"

- Nunca houve uso de carne estragada, que pudesse prejudicar a saúde dos seus consumidores. Lote de salsichas foi recebido pela Secretaria de Educação do Paraná que o atestou como próprio para o consumo.

EMPRESA: Mastercarnes

O QUE A PF APUROU?

- Injeção de líquidos em frangos da empresa e irregularidades na fiscalização.

- Assinatura de certificados de qualidade sem fiscalização prévia.

O QUE DIZ A EMPRESA?

carne fracaEmpresa diz que tem certificação do ministério, e é auditada e fiscalizada pelo órgão. Produtos fornecidos por nossas empresas seguem a risca as exigências de qualidade.

EMPRESA: Dagranja Agroindustrial

O QUE A PF APUROU?

- Assinatura de certificados de qualidade sem fiscalização no local mediante corrupção de fiscais.

O QUE DIZ A EMPRESA?

Ninguém da empresa foi localizado.

EMPRESA: Grupo Argus

O QUE A PF APUROU?

- Assinatura de certificados de qualidade sem fiscalização no local.

O QUE DIZ A EMPRESA?

Em nota, o Grupo Argus sustenta de maneira irrestrita instalações plenamente administradas pelo SIF e seus técnicos, sem interferir em qualquer hipótese em suas diligências, tampouco solicitando quaisquer favorecimentos e/ou outras ilicitudes em detrimento da qualidade de seus produtos, tendo o mesmo SIF total autonomia para fiscalizar sua planta industrial.

EMPRESA: Frigobeto Frigorífico

O QUE A PF APUROU?

- Sócios são acusados de pagar propina para fiscais em troca de uma licença em tempo recorde para abate de carne de cavalo.

O QUE DIZ A EMPRESA?

Com ordem de prisão preventiva decretada, os sócios estão foragidos.

EMPRESA: Frigorífico Oregon

O QUE A PF APUROU?

- Seria beneficiado pela licença para abate de cavalos em tempo recorde, supostamente também em razão de suborno de autoridades.

O QUE DIZ A EMPRESA?

Nenhum representante da empresa foi encontrado.

Info - carne fraca

EMPRESA: Frigomax

O QUE A PF APUROU?

- Irregularidades nas atividades da empresa, como poluição de um rio que passa ao lado.

O QUE DIZ A EMPRESA?

Advogado da empresa ainda estuda posicionamento.

EMPRESA: Frigorífico Rainha da Paz

O QUE A PF APUROU?

Pagamento de propina a fiscais para acobertar irregularidades na empresa

O QUE DIZ A EMPRESA?

Mantém rigoroso controle de qualidade e higiene em seu processo produtivo e cumpre normas sanitárias vigentes. Repudia comercialização de produtos impróprios para consumo e nega envolvimento em atos ilícitos.

EMPRESA: Novilho Nobre

Irregularidades nas fiscalização de seus produtos.

O QUE DIZ A EMPRESA?

Em nota, empresa diz que produto fornecidos seguem a risca as exigências de qualidade.

EMPRESA: Fábrica de Farinha de Carne Castro Ltda

O QUE A PF APUROU?

Recebeu carga de salsicha estragada da Central de Carnes Paranaense.

O QUE DIZ A EMPRESA?

Nenhum representante da empresa foi encontrado.

OUTRAS EMPRESAS

Também são citadas no documento da Justiça as empresas Frango a Gosto, Frigorífico 3D e Fratelli que teriam fornecido frango, carne e até botas de borracha a pedido de fiscais do Ministério da Agricultura.

Nenhum representante das empresas foi encontrado. A SmartMeal e a Unidos Comércio de Alimentos foram alvo de busca e apreensão de documentos sob suspeita de terem ligações com fiscais do Ministério da Agricultura para cometer irregularidades. A Central de Carnes Paranaense também é citada e é dona das marcas Mastercarnes, Novilho Nobre e Souza Ramos.

oglobo.globo.com | 20-03-2017

BUENOS AIRES - Enquanto o governo do presidente argentino, Mauricio Macri, acompanha de perto e com preocupação a crise da carne brasileira, representantes de frigoríficos locais afirmam que a Operação Carne Fraca poderia representar uma oportunidade para empresas locais.

Nas últimas horas, o ministro da Agroindústria argentino, Ricardo Buryaile, realizou consultas às autoridades sanitárias locais para entender o que está acontecendo no Brasil e analisar possíveis consequências para a Argentina, onde existem frigoríficos controlados pela BRF.

Fontes oficiais argentinas afirmaram que “o país está seguindo atentamente o desenvolvimento das investigações, estando em contato com autoridades políticas e com o serviço sanitário brasileiro, para proteger a saúde e o bem estar dos cidadãos argentinos e para preservar os fluxos de comércio e investimento entre ambos países”. A mesma fonte disse, ainda, que “confiamos nas instituições brasileiras e em sua capacidade de resolver em tempo e forma a situação”. Atualmente, a Argentina importa carne porcina do Brasil.

Em declarações a meios de comunicação locais, o diretor executivo da Associação de Frigoríficos e Industriais da Carne (Afic), Daniel Urcía, não escondeu sua expetativa de que a crise da carne brasileira possa terminar beneficiando empresas argentinas.

— Se forem confirmadas as suspensões das compras da China e da União Europeia, surgiria uma necessidade nesses importadores e certamente eles vão recorrer a outros vendedores internacionais. Isso representa uma oportunidade para a Argentina — afirmou Urcía.

O representante dos frigoríficos argentinos lembrou que a carne brasileira custa entre 15% e 20% a menos do que a argentina e isso poderia representar um problema no caso de uma eventual substituição de importações.

— Teremos de ver se esses países que deixariam de comprar carne brasileira estariam dispostos a pagar mais por nossa carne — disse Urcía.

oglobo.globo.com | 20-03-2017

O discurso de Trump exprimiu, finalmente, a sua coerência reacionária, com a mais ingênua e agressiva defesa do liberalismo. Marcou-se, na exigência do contraste com a presidência anterior, pelo ataque ao Obamacare, a sustentar a volta do seguro-saúde ao mundo empresarial. Sobretudo, desaparece a questão social, pela apologia da mais crassa das economias de mercado, associando estritamente a garantia do emprego ao favoritismo dos nacionais na concorrência com os incômodos imigrantes. Corporificava-se, inclusive, essa opção pelo capital com o convite ao conjunto de bilionários que passam a integrar o Ministério.

Fechando o circuito, na sua diatribe, associou o terrorismo com a imigração e com uma política sistemática e crescente de extradições. Remeteu-se à “invasão das fronteiras”, a partir da determinada incursão dos mal-vindos estrangeiros. Interditando-se qualquer enlace dentro da política internacional, foi sumário em condenar e descartar o Tratado do Pacífico, tal como nada disse sobre as novas dinâmicas da União Europeia ou qualquer associação com o Brexit.

Por força, na rota que abre para o isolacionismo e o orgulho intrafronteiros, foi ao reforço da segurança do país, no aumento de 10% de seus gastos orçamentários, mesmo à custa do que remanescesse ainda da política clássica do bem-estar social. Abre, ao mesmo tempo, todas as portas para os impostos de importação, no empenho de expandir, de logo, a produção nacional. É uma política, pois, rotundamente proclamada do capitalismo anacrônico, a bem, inclusive, da sua acelerada concentração, no compromisso também, já anunciado, de reduzir as inversões públicas em benefício de seus serviços sociais ou de garantia da manutenção de sua presente infraestrutura.

Os apoiadores dessa fala de Trump estão conscientes do seu caráter até mesmo minoritário no quadro republicano. Nem passa despercebido o silêncio dos vários semblantes, já, de desaprovação dos democratas com o que ouviram. Não convence o apelo do presidente ao consórcio de todas as forças políticas para a construção da prosperidade que o país merece e que teria sido abandonada pelo governo anterior. Nos próximos dias, no impulso da réplica de uma verdadeira consciência coletiva, a plataforma de Trump vai enfrentar a multiplicidade dos recursos no Supremo ou, inevitavelmente, o pedido de impeachment. E, dentro de um impasse, não espantariam o racha do próprio Partido Republicano e a emergência, nitidamente minoritária, de um país radical, respondendo aos clamores arqueológicos do Tea Party.

Candido Mendes é membro do Conselho das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações

oglobo.globo.com | 20-03-2017
A rainha espanhola será recebida por Marcelo Rebelo de Sousa na Conferência Europeia do Tabaco e da Saúde, dia 23, no Porto. O presidente da Liga Portuguesa Contra o Cancro explica como surgiu o convite.
feeds.dn.pt | 18-03-2017
A rainha espanhola será recebida por Marcelo Rebelo de Sousa na Conferência Europeia do Tabaco e da Saúde, dia 23, no Porto. O presidente da Liga Portuguesa Contra o Cancro explica como surgiu o convite.
feeds.jn.pt | 18-03-2017
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