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Grécia Saúde

RIO - Praticamente todo mundo já ouviu falar que caminhar faz bem para a saúde, mas um grupo de pesquisadores da Universidade Highlands do Novo México, EUA, encontrou mais um inusitado benefício da prática. Segundo eles, o impacto dos pés no chão produz ondas de pressão nas artérias que alteram significativamente o suprimento de sangue para o cérebro, podendo ajudar a aumentá-lo.

Links cérebro

Até pouco tempo atrás, achava-se que o fluxo de sangue para o cérebro era regulado de forma involuntária pelo corpo, sendo pouco afetado por mudanças na pressão causadas por exercícios. Recentemente, no entanto, cientistas da mesma universidade americana e de outras instituições descobriram que o impacto dos pés no chão durante a corrida geravam forças equivalentes a entre quatro e cinco vezes a da gravidade terrestre. Estas forças, por sua vez, produziam ondas de pressão nas artérias que se sincronizavam com a frequência cardíaca e o ritmo das passadas, regulando a circulação de sangue no cérebro de forma dinâmica.

Experimento com ultrassom

Diante disso, os pesquisadores decidiram verificar se algo parecido acontecia nas caminhadas. Para tanto, eles usaram ultrassons para calcular o fluxo sanguíneo em ambos hemisférios cerebrais a partir de medidas tanto da velocidade destas ondas quanto do calibre das artérias carótidas de 12 jovens adultos saudáveis enquanto ficavam parados em pé ou andavam de forma constante num ritmo tranquilo, de cerca de 3,6 km/h. Eles então constataram que embora o impacto dos pés no chão durante uma caminhada seja muito menor do que numa corrida, andar calmamente ainda produzia ondas de pressão poderosas o bastante para elevar o fluxo de sangue para o cérebro.

— O que é mais surpreendente é que demoramos tanto para finalmente medir estes óbvios efeitos hidráulicos no fluxo sanguíneo para o cérebro — diz Ernest Greene, líder do estudo, que apresentou seus resultados em palestra ontem durante a reunião anual da Sociedade Americana de Fisiologia (APS, na sigla em inglês) como parte da conferência Experimental Biology 2017, que acontece desde sábado e vai até amanhã em Chicago. — Há uma otimização de ritmo entre o fluxo sanguíneo cerebral e o caminhar. Tanto o ritmo das passadas quanto seus impactos com os pés estão dentro da gama de uma frequência cardíaca normal, de até cerca de 120 batimentos por minuto, quando nos movemos de forma apressada.

Cardiologista e diretor de pesquisas da Clínica de Medicina do Exercício (Clinimex), Claudio Gil Araújo lembra que o fluxo de sangue para o cérebro não é regulado por um único mecanismo, mas reconhece que a descoberta do grupo americano, embora aparentemente em caráter preliminar, reforça a noção de que o corpo busca sincronizar seus ritmos para atingir um equilíbrio entre o metabolismo e a atividade motora.

— Nosso corpo é um mecanismo complexo que nenhuma máquina conseguiu imitar ainda, com um acoplamento entre a respiração e a atividade cardíaca e entre a ação motora e a resposta cardiorrespiratória — destaca. — Assim, num organismo saudável, o cérebro tem uma espécie de comando central, uma função alta e sofisticada, que informa o corpo para realizar uma atividade motora e depois “ouve” as respostas do próprio corpo para modular esta atividade em busca, em última instância, da homeostasia, isto é, de manter todos seus parâmetros constantes, como a quantidade de oxigênio disponível para os músculos, mesmo em situações de estresse físico, como durante a prática de exercícios.

Outro que não se surpreendeu com a constatação dos pesquisadores americanos foi o especialista em preparação física e coaching em tempo integral Nuno Cobra Júnior. Segundo ele, o benefício das caminhadas para o fluxo sanguíneo cerebral já era conhecido desde a Grécia antiga, embora ele também admita que a descoberta de um mecanismo hidráulico envolvido neste processo seja um importante passo para aprofundar nossa compreensão da causa e do modo como isso acontece.

— Aristóteles já dizia que andar é a melhor forma de pensar — cita. — Sabemos também, por exemplo, que a atividade física leve ou moderada promove a neurogênese, isto é, a produção de novos neurônios, e que criamos novas conexões intraneurais através do aprendizado de movimentos novos. Tudo isso mostra a importância da atividade motora para a saúde cerebral. E é por isso também que os efeitos da atividade física no cérebro estão sendo cada vez mais estudados pela neurociência.

Já o neurologista Daniel de Souza e Silva, pesquisador em neurofisiologia na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), ressalta que, embora o mecanismo descrito pelos cientistas americanos seja de uma simplicidade surpreendente, o material disponível sobre o estudo ainda é limitado, não trazendo, por exemplo, uma quantificação do efeito das caminhadas sobre o fluxo sanguíneo cerebral.

— Depois de demonstrado, este mecanismo se mostra um tanto óbvio, mas a falta de mais dados coloca em dúvida seu real impacto na saúde e funcionamento do cérebro — considera. — Por isso quem faz a prática clínica como eu fica muito cauteloso na hora de abraçar uma conclusão dessas. Ainda assim, prevejo para o futuro uma série de outros artigos e estudos se baseando e ampliando esta descoberta, já que estes achados costumam começar assim, como algo observacional.

oglobo.globo.com | 25-04-2017

RIO, SÃO PAULO E BRASÍLIA - A reforma da Previdência se transformou em batalha. Além das dificuldades no Congresso — com as 146 emendas apresentadas, inclusive por partidos da base aliada —, o texto proposto pelo governo sofre agora resistência nas ruas e nos tribunais. Ontem, milhares de brasileiros se manifestaram contra a proposta em pelo menos 23 estados do país, em atos organizados por centrais sindicais. Enquanto isso, uma decisão da Justiça Federal de Porto Alegre determinou a suspensão da propaganda oficial sobre a necessidade de aprovar as mudanças nas regras da aposentadoria.

Os protestos, que também criticaram a reforma trabalhista, começaram logo cedo. Em Brasília, a Esplanada dos Ministérios foi tomada no início da manhã e parte dos que participavam do ato chegou a invadir o Ministério da Fazenda, quebrando vidraças e jogando paus e pedras.

Previdência1503

No Rio, ocorreram vários protestos ao longo do dia. O maior deles foi no fim da tarde, no Centro da cidade. Cem escolas não tiveram aulas por causa da adesão dos professores à paralisação, o que significa 5% da rede de dois mil colégios, segundo o Sindicato dos Professores do Município do Rio de Janeiro e Região (SinproRio). Outras duas manifestações foram organizadas pela Frente Internacionalista dos Sem-Teto e pelo Sindicato de Estivadores do Rio de Janeiro perto da Avenida Brasil.

O professor Carlos Eduardo Melo Cunha, de 26 anos, estava entre os participantes do protesto realizado no Centro:

— Vim porque a reforma é injusta. A gente tem de lutar. Já somos muito prejudicados.

Após pouco mais de uma hora de protesto, houve confronto entre manifestantes e agentes da Polícia Militar e da Guarda Municipal, que dispararam bombas de efeito moral. Um grupo de mascarados, que acompanhava o ato deste o início com placas a favor da “tática Black Block”, foi visto caminhando ao lado de manifestantes que protestavam de forma pacífica. Houve registro de confrontos em outros pontos da cidade, como a Cinelândia e a Praça Tiradentes.

Apesar dos protestos, os ônibus circularam normalmente na capital carioca, contrariando o anúncio de greve da noite anterior. Situação diferente da enfrentada em Belo Horizonte, onde houve paralisação de metroviários, petroleiros e de servidores da educação municipal, da saúde e da limpeza urbana, além de categorias administrativas. Várias escolas e faculdades privadas também não funcionaram.

Em São Paulo, diversas categorias também aderiram às paralisações, entre elas bancários, metalúrgicos, metroviários e motoristas de ônibus. A greve nos transportes públicos afetou, pela manhã, afetando seis milhões de usuários. O engarrafamento bateu recorde e chegou a 201 quilômetros.

Na Avenida Paulista, um ato no fim da tarde contou com a presença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que discursou por quase dez minutos. Ele afirmou que o “golpe” que tirou a presidente Dilma Rousseff do poder tinha o objetivo de “acabar com as conquistas dos trabalhadores”:

— Está ficando cada vez mais claro que o golpe dado neste país não foi só para tirar a Dilma, mas também para colocar um cidadão sem nenhuma legitimidade para acabar com as conquistas da classe trabalhadora ao longo de anos, com a reforma trabalhista e com a reforma da Previdência.

Professores das redes pública e particular também fizeram greve. Os metalúrgicos do ABC, berço político de Lula, paralisaram as atividades na Volkswagen, em São Bernardo, por 24 horas.

TEMER: PROPOSTA É PARA ‘EVITAR COLAPSO’

Enquanto isso, o governo viu sua campanha publicitária em prol da reforma contestada na Justiça. A 1ª Vara Federal de Porto Alegre determinou nesta quarta-feira a suspensão, em todo o país, da propaganda, que tem como mote “reformar hoje para garantir o amanhã”. A ação civil pública foi ajuizada contra a União por sete sindicatos de trabalhadores com sede no Rio Grande do Sul.

LEIA MAIS: Reforma da Previdência reduziria gastos de 18,8% para 11,5% do PIB

Reforma da Previdência: entenda a proposta em 22 pontos

A juíza federal Marciane Bonzanini, que assina a decisão, entendeu que há uso inadequado de recursos públicos e desvio de finalidade: “A proposta de reforma da Previdência não se inclui em categoria de atos, programas, obras, serviços e campanhas dos órgãos públicos. Diversa seria a situação de esclarecimentos acerca de alterações constitucionais ou legislativas já vigentes. Por outro lado, a campanha publicitária questionada não possui caráter educativo, informativo ou de orientação social, restringindo-se a trazer a visão dos membros do partido político que a propõe e passando a mensagem de que, caso não seja aprovada a reforma proposta, o sistema previdenciário poderá acabar”, avaliou.

Marciane determinou multa diária de R$ 100 mil em caso de descumprimento. A Advocacia-Geral da União (AGU) disse que vai recorrer, mas ainda não foi notificada. Já o Palácio do Planalto não comentou a decisão da Justiça.

Quantos aos protestos à reforma da Previdência, o governo vê com “normalidade”. O presidente Michel Temer não comentou as manifestações, mas disse que a mudança nas regras é necessária para “evitar um colapso”:

— Não podemos fazer uma coisa modestíssima. Ou daqui a quatro e cinco anos temos de fazer como Portugal, Espanha e Grécia. Nós apresentamos um caminho para salvar a Previdência do colapso, para salvar os benefícios dos aposentados de hoje e dos jovens que se aposentarão amanhã.

No Congresso, o governo deve ter que lidar com mais resistência de parlamentares. Nesta quarta-feira, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), reabriu o prazo para entrega de emendas ao texto da reforma — que agora terminará quinta-feira à tarde.

A estratégia do governo tem sido buscar unificar o discurso de partidos da base aliada. Para isso, conta com a ajuda de integrantes da equipe econômica, que têm apresentado números como o déficit de R$ 258,7 bilhões da Seguridade Social em 2016.

oglobo.globo.com | 16-03-2017

RIO — A expectativa de vida continuará aumentando nos países desenvolvidos e alcançará os 90 anos em 2030 para as mulheres de países como a Coreia do Sul, França e Espanha, revela um estudo publicado nesta quarta-feira.

LINKS LONGEVIDADE

— Até pouco tempo atrás, muitos cientistas pensavam que a expectativa de vida nunca ultrapassaria os 90 anos — lembrou o professor Majid Ezzati, autor principal do estudo publicado na revista médica britânica "The Lancet".

Após combinar 21 modelos matemáticos para prever a evolução da expectativa de vida em 35 países desenvolvidos, os pesquisadores chegaram à conclusão de que as mulheres sul-coreanas são suscetíveis de superar os 90 anos até 2030.

A expectativa de vida de uma sul-coreana ao nascer em 2030 será de 90,8 anos, enquanto que a das espanholas será de 88,07 anos, a das francesas, 88,6 anos, e a das japonesas, 88,4 anos.

A expectativa de vida também evoluirá para os homens, e a diferença em relação às mulheres (que são mais longevas) tenderá a se reduzir em 2030, exceto no México, onde aumentará ligeiramente, e no Chile, França e Grécia, onde ambos os sexos avançarão de forma similar.

Os homens sul-coreanos terão uma esperança de vida de 84,1 anos, à frente de australianos e suíços, ambos com uma expectativa de 84 anos, enquanto a dos espanhóis será de 83,4 anos.

Segundo as últimas estatísticas da Organização Mundial de Saúde (OMS), publicadas no ano passado, os três países com maior expectativa de vida para as mulheres em 2015 eram Japão (86,8 anos), Cingapura (86,1 anos) e Espanha (85,5 anos). No caso dos homens, eram Suíça (81,3 anos), Islândia (81,2) e Austrália (80,9).

O dado vai melhorar claramente na Coreia do Sul, com uma alta de 6,6 anos para as mulheres, e de sete anos, para os homens entre 2010 e 2030.

Esse país melhorou o acesso aos cuidados médicos e vem promovendo uma alimentação saudável entre crianças e adolescentes. Além disso, tem taxas de obesidade e de tabagismo entre as mulheres inferiores às da maioria dos países analisados, de acordo com os pesquisadores.

POUCA MUDANÇA NOS EUA

O estudo também revela que a situação não mudará significativamente até 2030 nos Estados Unidos, onde a expectativa de vida já é inferior à da maioria dos países desenvolvidos.

A expectativa de vida para as mulheres americanas passará de 81,2 anos, em 2010, para 83,3 anos, em 2030, e de 76,5 para 79,5 anos para os homens.

Para explicar essa situação, os pesquisadores destacam as desigualdades persistentes, a ausência de um sistema de saúde universal e as altas taxas de mortalidade infantil e materna, assim como de homicídios e de obesidade.

A progressão no México será similar à dos Estados Unidos. Para as mulheres, a expectativa de vida passará de 78,9 para 82,9 anos entre 2010 e 2030. No caso dos homens, pulará de 73,1 para 76,1 anos.

No Chile, a expectativa de vida das mulheres passará de 82,9 para 86,8 anos, e a dos homens, de 76,7 para 80,7.

O estudo também revelou que, em geral, os homens melhoraram seu estilo de vida. Antes "fumavam e bebiam mais e eram vítimas de acidentes e homicídios com mais frequência", disse Ezzati, do Imperial College de Londres, para explicar a progressão da expectativa de vida masculina.

oglobo.globo.com | 22-02-2017

LONDRES – A Europa enfrenta um crescente risco de surtos de novas doenças que podem ser difíceis de serem detectados e interrompidos à medida que o aquecimento global deixa o continente mais vulnerável a vírus e outros males trazidos por turistas e comércio, alertaram especialistas em saúde pública nesta quinta-feira. Segundo eles, um exemplo disso é a doença de Lyme. Transmitida por carrapatos, elas está avançando da Rússia à Grã-Bretanha e Croácia com a alta das temperaturas, enquanto a dengue, transportada por viajantes, ameaça se estabelecer em países do Sul da Europa, como Itália e Grécia. E o vírus da febre do Oeste do Nilo e a malária, assim como a zika, também já são motivos de preocupação.

- A União Europeia é um foco para emergência de doenças comunicáveis, e está muito conectada com outros focos do tipo – avisou Jan Semenza, que chefia a avaliação científica do Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDC, na sigla em inglês), sediado na Suécia.

De acordo com Semenza, com 590 milhões de pessoas desembarcando nos aeroportos da Europa apenas em 2015 – um dos setores aéreos mais movimentados do mundo – e as mudanças climáticas, muitas partes da Europa estão mais vulneráveis à chegada de doenças que podem ser espalhar e correm risco de se estabelecerem. Hoje, 61% dos surtos de doenças que preocupam as autoridades de saúde pública na Europa são alimentados pela globalização – o que inclui o turismo e o comércio - e as mudanças ambientais, afirmou ele durante debate sobre o assunto no Instituto Grantham, do Imperial College London, esta semana. O que é particularmente preocupante para os especialistas é que apenas uns poucos países europeus, incluindo Reino Unido e Espanha, consideram que seus sistemas de monitoramento de doenças estão aptos para acompanhar estas novas ameaças, acrescentou.

- A maioria dos sistemas de vigilância europeus afirmam não poderem lidar com as mudanças climáticas – contou Semenza.

O ECDC, criado em 2005 a reboque das preocupações com o avanço da gripe asiática e da síndrome respiratória aguda severa (Sars, também na sigla em inglês), está ficando cada vez melhor em monitorar e prever epidemias “que poderiam solapar o sistema, eventos catastróficos que não teremos como aguentar”, disse o pesquisador. Os cientistas, por exemplo, já têm informações de onde o mosquito da dengue poderia sobreviver na Europa, e durante quais meses, com dados de onde e quando passageiros de países com surtos de dengue estão chegando no continente. Isso fez os aeroportos de Milão e Roma, por exemplo, receberem alertas de alto risco de transmissão de dengue para ajudá-los a monitorar os desembarques neste período, destacou Semenza.

Os cientistas no centro na Suécia – contraparte europeu do americano Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC) – também foram capazes de prever surtos da febre do Oeste do Nilo em 2014 com 87% de acerto com base nas temperaturas do verão, a localização dos campos alagados e as rotas de migração dos pássaros que são hospedeiros da doença. Um surto de malária na Grécia em 2011 também foi eficazmente contido depois que os especialistas em saúde identificaram outras áreas com as mesmas características da que sofreu a epidemia – temperaturas cálidas, baixas elevações e campos irrigados – e criaram um mapa usado em campanhas de fumacê contra o mosquito.

Mas a ameaça que tira o sono de Semenza é a zika. O aquecimento da Europa pode facilitar a transmissão do vírus à medida que os mosquitos se espalham, disse. Um surto de zika na América Latina coincidiu com milhares de casos de microcefalia – uma severa malformação congênita associada com cabeças de tamanho reduzido – em crianças nascidas de mulheres expostas ao vírus. Com o CDC estimando o custo de atendimento destas crianças nascidas com microcefalia por toda vida em US$ 1 milhão a US$ 10 milhões, esta é uma doença que a Europa não tem condições de enfrentar.

- A zika é a que mais assusta – concluiu.

oglobo.globo.com | 09-02-2017

O título deste artigo é o mesmo de um livro do reconhecido filósofo americano Noam Chomsky a respeito do sistema econômico que rege alguns dos principais países do mundo ocidental. Suas considerações estão cada vez mais presentes em nossa atualidade, e todos nós deveríamos estar mais atentos aos caminhos aos quais somos conduzidos por aqueles que, em diversos segmentos de nossa sociedade, são detentores de algum tipo de poder.

Outro livro clássico, “A riqueza das nações”, de Adam Smith, deu origem ao capitalismo liberal. Diferentemente dos dias de hoje, Adam Smith não restringia ao autointeresse o motor da economia; esse era também admitido, ao lado da principal meta, que ele colocava como sendo o bem-estar da sociedade. Havia no criador do sistema capitalista um sentimento social. E devemos lembrar que o grande pecado da Grécia Antiga, da qual nossa civilização se origina, era a chamada húbris, que pode ser traduzida como desmedida; ou seja, tudo que se torna um exagero distorce os seus princípios. Assim, o neoliberalismo, e o que hoje chamo de financismo, privilegiou unicamente o interesse dos poucos detentores de poder e riqueza.

Hoje nos defrontamos estarrecidos com medidas governamentais que se enquadram nessa situação. O lucro, seja ele em que sentido for, tornou-se muito mais importante que as pessoas. O pagamento de dívidas a instituições financeiras ou similares toma o lugar do pagamento de dívidas em relação à população. Educação e saúde, dois compromissos absolutos de qualquer governo que se preze, são jogadas à margem para beneficiar algo volátil e sem valor próprio, o dinheiro, e para privilegiarem instituições que nada produzem a não ser intermediar essa matéria com a cobrança de juros absolutamente escorchantes. Nossos juros de 13% deixam longe a Alemanha e a França, com 0,05%; os Estados Unidos, com 0,25%; o Reino Unido, com 0,5%.

A falta de pensamento social por parte dos servidores públicos que se dizem “autoridades” alojadas no Congresso Nacional e no Palácio do Planalto é gritante. Também é gritante a falta de atenção da população em geral para a real doença de nossa economia. São ainda poucos os movimentos isolados protestando contra a desconstrução de nossa saúde pública, uma obrigação do Estado, como reza a Constituição Cidadã de 1988, assim como contra a desconstrução da educação pública que forma os cidadãos.

Que cada um de nós, cada vez mais, se conscientize de que decisões isoladas, e tantas vezes parciais, não podem estar acima do bem da sociedade como um todo. E para isso não ocorrer, é importante a participação de todos em relação a esses assuntos.

Luiz Roberto Londres é médico e diretor do Movimento Participação Médica

oglobo.globo.com | 16-01-2017

Foi com a vontade de embarcar em uma aventura emocionante, e também dramática, que o jornalista brasileiro André Naddeo deixou para trás a vida no Rio e viajou à Grécia. Tudo para ver com os próprios olhos o epicentro da crise migratória que atinge a Europa. Depois de meses no país, ele agora investe seu tempo em um projeto para dar voz a quem, depois de perder casa e pátria, se vê também sem a chance de nem mesmo contar a própria história. A sua iniciativa “I am immigrant” (Eu sou imigrante, em português) ensina refugiados de várias origens a manusear equipamentos para produzir um documentário, que deverá ser lançado em março. E os protagonistas, dessa vez, não poderiam ser ninguém além dos próprios imigrantes em sua longa e angustiante jornada para uma nova vida.

A ideia surgiu quando o jornalista, que tem 35 anos, chegou ao porto de Pireu em abril, na primeira vez que pisou em território grego. Lá, encontrou um campo improvisado de refugiados, hoje já desmantelado, onde à época viviam clandestinamente cerca de 2 mil pessoas em péssimas condições. Decidiu ele também se juntar, com seu cobertor e travesseiro, às tendas ali montadas durante 45 dias. Com o tempo, venceu a desconfiança dos imigrantes, inicialmente receosos sobre a sua presença, e passou a conhecer as trajetórias que os levaram até ali. E não demorou para que ele notasse quão fértil era aquele terreno para fazer nascer boas histórias.

Idealizado por Naddeo, o projeto conta hoje com outros três brasileiros e uma portuguesa para realizar oficinas de inglês, fotografia e filmagem. Os seus 25 alunos, por sua vez, vêm do outro lado do mundo: sobretudo da Síria — devastada por uma sangrenta guerra civil —, além de Argélia, Marrocos e Egito. No ambiente multicultural, dois tradutores ajudam na comunicação do dia a dia: Laila, uma espanhola de origem marroquina, e Faridon, um afegão que fala vários dialetos.

Filhos convencem mães a dar depoimento

Nas aulas, os refugiados são convidados a colocar a mão na massa. Professores e alunos, cuja maioria é de jovens entre 18 e 25 anos, se reúnem nos chamados squats, ocupações em prédios abandonados no centro de Atenas onde vivem os imigrantes à espera de uma resposta para os seus pedidos de asilo na Europa.

— O conceito desta experiência é dar voz aos refugiados. É um passo diferente, com um novo formato para capacitá-los a produzir o próprio conteúdo. É muito mais justo que eles mesmos estejam se filmando, tirando suas fotos e entrevistando uns aos outros, seus familiares e seus amigos. Damos as ferramentas para que eles contem as suas histórias — explicou Naddeo, por telefone da capital grega, ao GLOBO.

Com equipamentos simples, como máquinas não muito complexas ou até mesmo celulares, os filhos convencem suas mães, por exemplo, a falarem para a câmera — as mulheres mais velhas, sobretudo muçulmanas, tendem a evitar expor a sua imagem. Alguns viram as lentes para si mesmos; e outros filmam momentos emocionantes das suas famílias, como se fossem apenas observadores. Destes pequenos capítulos sairá o documentário no final no ano que vem. No pano de fundo, estão a longa espera para conseguir as entrevistas do burocrático processo de solicitação de abrigo; a ansiedade e a falta de perspectivas em um continente tão diferente e, ainda, a sensação de ter sido esquecido pelo resto do mundo.

— São várias histórias que acontecem ao mesmo tempo. Uma delas, por exemplo, é a da síria Roro e do seu marido, que vive na Alemanha porque já conseguiu os papéis necessários; e ela ainda não. Eles não se viam há um ano e meio. E, no meio do processo, ele veio visitá-la. Demos a câmera na mão do sobrinho do casal, que filmou todo o reencontro, desde o momento em que ela saiu de casa para buscá-lo. O abraço no aeroporto é uma cena linda — contou o brasileiro.

Relatos para o mundo

A partir de janeiro, caberá aos jornalistas e fotógrafos à frente do projeto apenas montar o quebra-cabeças na fase de edição das imagens. Em seguida, o objetivo da iniciativa — que tem apoio financeiro de uma empresa brasileira que trabalha para a inclusão social no setor da saúde — é levar o filme a festivais independentes pelo mundo. A primeira exposição de fotos e de pequenos trechos do documentário já está marcada para o ano que vem em Lisboa.

As experiências do projeto já dão uma prova do clima esperado para o resultado final. No Facebook, o “I am immigrant” já tem vídeos curtos que apresentam, um a um, alguns participantes — e um poço de personalidades por trás do rótulo imposto a quem vive como refugiado. Lá, já encantam os depoimentos de Dani Dark Muhannad, um sírio apelidado de “o refugiado metaleiro”; Sajjad Gholami, um jovem iraniano apaixonado por futebol; ou Mouhip El-Rifay, um ex-taxista sírio, de olhos profundamente azuis, que já morou na Venezuela e hoje apenas sonha em rever seus dois filhos na Alemanha.

oglobo.globo.com | 25-12-2016

Temer diz que Imbassahy será aproveitado 'em momento oportuno'

FORTALEZA — O presidente Michel Temer disse, nesta sexta-feira, que, "no momento oportuno", aproveitará o líder do PSDB na Câmara, deputado Antonio Imbassahy, no governo. Temer afirmou que as "circunstâncias políticas" é que definirão quando isso acontecerá, sinalizando que a decisão só deve ocorrer no início do ano que vem. Descontraído e com um discurso forte, Temer disse que a oposição "falseia" sobre a PEC do teto dos gastos públicos, que tem um "apoio extraordinário" do Legislativo e que "só governa porque tem diálogo com o Legislativo".

Temer disse que Imbassahy ainda não foi convidado para um cargo, mas que em breve conversará com o tucano:

Imbassahy — 9/12

— Tenho o maior apreço por ele, conversarei com ele, devo aproveitá-lo no governo, não tenho a menor dúvida disso. Mas tudo isso tem um momento certo. E o momento certo será definido pelos diálogos que eu terei ao longo do tempo. Vou ter várias conversas, e o momento oportuno as circunstâncias dirão — disse Temer, ao ser perguntado se a escolha ficaria para depois.

Temer havia escolhido o tucano para ser o novo Secretário de Governo, mas houve reação do chamado Centrão, grupo de parlamentares na Câmara ligado ao ex-presidente da Casa Eduardo Cunha.

— O Imbassahy é uma figura preciosa do Legislativo brasileiro, tem o meu apreço pessoal, minha admiração política, apenas noticiou-se que ele já tinha sido convidado e ele não tinha ainda sido convidado — disse Temer.

Após a crise entre os Poderes por causa do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), Temer disse que "depende" do Legislativo para governar.

— Vivemos abalos constitucionais e, quando pensamos no abalo, pensamos no Legislativo. Temos que respeitar o Legislativo, porque é dele que o Executivo depende. Eu só governo porque dialogo com ele (Legislativo) — disse Temer, enfático:

— Conseguimos fazer como linha básica do governo o diálogo. E conseguir um apoio extraordinária no Congresso, temos conseguido aprovar matérias difíceis com uma larga margem na Câmara e no Senado. Quero homenagear o Congresso.

TETO DOS GASTOS

Com discurso forte, Temer atacou a oposição e disse que o papel dos opositores na democracia é de ajudar a governar e a fiscalizar. Temer disse que o teto para os gastos públicos será aprovado na próxima terça-feira, dia 13, e agradeceu o "apoio extraordinário" do Congresso.

— Ao lado do diálogo, temos a responsabilidade fiscal, de um lado; e a responsabilidade social, de outro. Vivemos uma situação complicada, recessiva e que dela estamos tentando sair, com décifit de R$ 170 bilhões. Nossos ouvidos se acostumaram aos bilhões. Falamos em bilhão como se fosse a coisa mais trivial do mundo. Quando lançamos a PEC dos gastos, estávamos cortando na própria carne. Faremos orçamentos apenas com a inflação e nada mais do que isso. É um teto geral. Então, há naturalmente prioridades que iremos atender, e Educação e Saúde serão prioridades por um longo momento. Ouço discursos vigorosos contra. E contra o argumento, eu ofereço o documento. É o Orçamento do ano que vem, e aprovado será agora no dia 13 — disse Temer.

Para ele, é preciso "desmistificar as informações".

— As pessoas não podem opor-se simplesmente porque são oposição. A ideia de oposição da democracia é para fiscalizar, ajudar a governador, mas não pode falsear. Mas a cultura é que se sou oposição tenho que destruir quem está no governo — disse ele.

Temer disse ainda que o diálogo é fundamental também com o Poder Judiciário.

ÉTICA

Num momento de crise e de acusações envolvendo o seu nome, Temer falou em ética.

— As pessoas querem eficiência, ética na política. Os fatos foram levados a tal ponto que levaram a esse ponto (atual).

Ele estava sentado ao lado do governador, Camilo Santana (PT), adversário do líder do PMDB no Senado, Eunício Oliveira (CE), e aliado dos irmãos Ciro e Cid Gomes.

— Falam que o nosso governo mexeu em algumas questões sociais. Sou relator e vamos aprovar na próxima terça-feira a PEC. Jamais o presidente Michel Temer, sei da dua sensibilidade com os mais humildes, e eu participaríamos de algo para tirar dinheiro da Saúde — disse Eunício.

PREVIDÊNCIA

Além de fazer uma defesa da PEC do teto, Temer disse que a reforma da Previdência poderia ser ainda mais dura. Num recado, disse que em outros países, como a Grécia, houve corte de salários dos funcionários públicos e não apenas a fixação de uma idade mínima para aposentadoria.

— O tema não é fácil reconheço. Mas o palco próprio para discutir a reforma é o Congresso, porque para lá é que vão as pressões. Digo eu, enfaticamente, isso já se fez em outros países. Limite de idade é um dos pilares e em outros cortaram-se salários em 30% . Não chegamos a isso e, se Deus quiser, não vamos chegar a isso. Pode ser impopular hoje, mas será popular amanhã — disse Temer.

O presidente disse que resolveu enfrentar os problemas.

— Seria extramente confortável que nesses dois anos gastasse ao máximo e deixasse (o rombo) para os próximos governantes. Mas não, tenho responsabilidade — disse ele.

PACOTE PARA O NORDESTE

Temer ainda lançou um pacote para o Nordeste: renegociação de dívidas, R$ 47,1 milhões para combate à seca e Fortaleza e mais entrega de 5,1 mil casas para o Ceará quase 5,200 residências aqui, no Ceará. Temer assinou decreto de regulamentação da lei 13.340/2016, que trata da regularização de dívidas rurais. Poderão ser beneficiados contratos realizados até 2011.

— E sei agora que o diálogo que tenho que ter é com o Nordeste e é isso que começo a fazer neste momento. O Nordeste tem sete ministros.

O líder do PMDB no Senado, Eunício Oliveira (CE), fez uma defesa enfática da PEC como relator da proposta.

oglobo.globo.com | 09-12-2016
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