Français | English | Español | Português

Grécia Saúde

SAN ANTONIO - Esqueçam os caubóis, as paisagens de deserto e as longas fileiras de gado nas ruas. O Texas de San Antonio é uma espécie de México em miniatura, mas com organização ianque. E o Texas de Houston é moderno e cosmopolita, com vocação para o turismo cultural. Essas duas cidades, diferentes e complementares, mostram que o Texas não é um só.

Apesar de sua principal atração, o Alamo, lembrar da luta do estado para se separar do território mexicano, San Antonio parece não ter passado para o lado de lá da fronteira, marcada pelo Rio Grande. A aconchegante cidade vive em um ritmo tranquilo, reverenciando o passado sem muita pressa de encontrar o futuro. É assim que se sente quem desliza pelo Rio San Antonio a bordo de um dos muitos barquinhos turísticos, ou visita as missões jesuítas dos arredores da cidade, uma herança da presença latina que é expressa ainda hoje em restaurantes e na arquitetura.

A 300 quilômetros a leste, Houston é um contraponto de respeito. Nada pode ser mais americano que esta metrópole com vias largas, automóveis enormes e 2,1 milhões de habitantes, boa parte deles atraídos pela poderosa indústria do petróleo, carro-chefe da economia local. Houston, porém, não é só um destino de negócios — ou saúde, como atestam seus muitos hospitais de referência mundial.

Em pleno Downtown, a Discovery Green é uma praça onde crianças jogam bola e engravatados esquecem suas planilhas por uns minutos. E no Museum District, 20 museus e galerias oferecem uma das maiores concentrações de cultura por metro quadrado do país. Uma boa opção para quem fará uma parada em um dos voos diários que ligam a cidade americana ao Rio e a São Paulo.

História e latinidade ao longo do rio

Um guarda com chapéu de caubói e pinta de xerife observa, à distância, a movimentação em frente ao Alamo, uma das atrações turísticas mais visitadas dos Estados Unidos e principal atrativo de San Antonio. Ele mesmo, sem querer, vira parte da paisagem, que simboliza a cidade, muito voltada ao passado, erguida em um pedaço do Texas onde Estados Unidos e México se confundem.

Construído originalmente fora do povoado de San Antonio de Béxar, o Alamo hoje está encravado no coração de Downtown, com prédios altos e comércio intenso como vizinhos. Ainda assim essa antiga missão jesuíta, construída pelos espanhóis em 1718, se destaca. A fachada, em pedra, guarda detalhes do luxo original e não esconde as marcas deixadas pela página mais marcante não só de sua história, como a do Texas. É por causa da Batalha do Alamo, em 1836, que até hoje a cidade recebe uma legião de visitantes, que parecem não deixar o lema daquela época, “Remember The Alamo”, ser esquecido.

O museu que funciona dentro da antiga igreja conta como as tropas mexicanas cercaram o Alamo por 12 dias antes de invadir e matar mais de 200 pessoas, de soldados a mulheres e crianças, que se refugiaram na construção. Essa derrota serviu de motivação para os rebeldes texanos, que tentavam sua independência do México. Pouco mais de um mês depois ela foi conseguida, na Batalha de San Jacinto. A história do Texas como república independente também é contada, em outra ala do Alamo, que tem ainda um interessante jardim interno.

O Alamo fica em plena área central da cidade e a poucos passos do River Walk, um charmoso calçadão às margens do rio que leva o mesmo nome da cidade. É nesta área que San Antonio parece ser bem menor do que é. Ali é impossível lembrar que se está em uma cidade de 1,3 milhão de habitantes, a segunda maior do Texas.

O atual projeto de urbanização nasceu de uma tragédia. Após uma grande enchente, em 1921, que deixou 50 mortos, autoridades locais decidiram canalizar o Rio San Antonio e aproveitar melhor suas margens. Vem daquela época o rebaixamento do rio muitos metros em relação às ruas e a revitalização da área. Hoje em dia, os principais hotéis da cidade não só estão às margens do rio como dão acesso direto a ele, assim como uma intensa indústria turística.

Durante o dia, restaurantes servem em suas mesas nas calçadas pratos típicos da culinária tex-mex. À noite casais em busca de romantismo topam com jovens festeiros entrando e saindo de bares e casas noturnas. A trilha sonora é sempre a mesma, uma sequência de música latina, country ou apresentações en vivo de mariachis.

Alguns canais adicionais foram abertos a partir do rio ao longo do ano, o que confere um ar de labirinto em muitas partes do River Walk. Quem tiver tempo deve caminhar sem destino pelo calçadão, descobrindo cantinhos escondidos. Mas a melhor maneira de conhecer o rio é a bordo de um dos pequenos barcos turísticos que fazem cruzeiros fluviais de cerca de duas horas. Em alguns deles é servida uma refeição, almoço ou jantar. Prefira um que comece no fim da tarde, que permita apreciar o acender das luzes e sirva de aquecimento para a animada noite local.

Às margens do River Walk estão alguns centros comerciais. O mais curioso deles é o La Villita, reprodução de uma típica vila do norte do México, que reúne interessantes lojas de roupas, produtos de couro, artesanato indígena e mexicano e lembrancinhas variadas. É bastante turístico, mas, num canto escondido, uma imagem de Nossa Senhora de Guadalupe soa como exemplo bem autêntico da presença da cultura mexicana por ali.

E como não poderia deixar de ser, a latinidade está presente nas mesas de San Antonio. Dos incontáveis restaurantes mexicanos na cidade, o Mi Tierra, na área conhecida como El Mercado, se destaca pelo cardápio que não se resume aos tacos e quesadillas básicos, cobrindo a culinária de boa parte do país.

San Antonio ‘de las misiones’

O Alamo foi a primeira (com o nome de San Antonio de Valero, em 1718) e é a mais famosa, mas não é a única missão espanhola em San Antonio. Um dos detalhes que tornam a cidade um destino tão peculiar nos Estados Unidos é justamente a presença desse tipo de construção. Ao sul do centro da cidade há mais quatro missões do século XVIII, todas bem preservadas e inseridas em agradáveis parques e áreas verdes às margens do Rio San Antonio, que está sendo recuperado neste trecho pelo National Park Service, com novas trilhas, ciclovias e até melhorias de navegação.

Seguindo pela Mission Road, a primeira delas é a Concepción, datada de 1755. A bela igreja, reformada em 2010, é um dos endereços mais disputados para casamentos, e é raro que um deles não esteja acontecendo aos fins de semana. A seguinte é a Missão San José, a maior da região. Construída entre 1720 e 1782, chegou a abrigar mais de 300 indígenas e parte de sua infraestrutura está muito bem preservada até hoje, como o moinho e o celeiro onde eram guardados os grãos produzidos ali. Ela também passou por uma longa restauração, em 2011.

Mais ao sul o visitante encontrará a Missão San Juan Capistrano, de 1731, cujos sinos ainda hoje dobram. Do outro lado do rio está parte do que foi o aqueduto da Missão Espada, a última do complexo. O sistema de irrigação desta missão era sua grande marca e parte dele ainda pode ser visto.

Fábricas de cultura e gastronomia

O Rio San Antonio não flui apenas para zonas boêmias e históricas. O trecho ao norte de Downtown é chamado de Museum Reach e leva até museus e complexos culturais, alguns deles funcionando em antigas instalações industriais. É o caso das duas maiores atrações da região, o San Antonio Museum of Art e o Pearl, por acaso duas antigas cervejarias que ganharam novo uso nas últimas décadas.

Em 2001, chegava ao fim uma história iniciada exatamente 120 anos antes. A Pearl Brewery Company, que surgiu em 1881 com o nome de City Brewery, fechava as portas e vendia sua fábrica de 93 mil metros quadrados, a poucos quilômetros do centro de San Antonio e às margens do rio, a um grupo de investidores que aos poucos transformou a antiga cervejaria em um complexo gastronômico e cultural.

O Pearl reúne restaurantes, lojas e apartamentos e recebe cursos, eventos e uma feira semanal de produtos orgânicos, num belo exemplo de reinvenção do espaço público. E o complexo ganhará um hotel, operado pela rede Kimpton, com inauguração prevista ainda para este ano. Será um hotel butique com 146 quartos no imponente prédio central, em estilo vitoriano. O prédio de tijolos aparentes ganhará ainda dois restaurantes, uma piscina no terraço e um bar.

Uma das vantagens deste hotel é que os hóspedes poderão ser os primeiros a chegar na Pearl Farmers Market, que acontece todos os sábados em frente ao prédio. A feira só vende produtos orgânicos produzidos em um raio de 240 quilômetros dali. O turista que não estiver procurando ingredientes frescos para o almoço de sábado pode explorar as barraquinhas de comida, de simples sanduíches a doces elaborados, e produtos diversos, como velas e artesanato.

Mas é bom não beliscar muito porque boa parte da fama do Pearl vem de suas opções gastronômicas. O complexo abriga o terceiro campus do Culinary Institute of America, renomada escola gastronômica que ali tem um foco especial no encontro das tradições americanas com os sabores latinos. Muito do que é desenvolvido nas aulas é apresentado no NAO, o restaurante-escola. Há mais 11 estabelecimentos, de restaurante vegetariano a sorveteria, no Pearl.

Dois merecem destaque. O Boiler House tem uma leitura moderna da tradicional cozinha texana e também é forte nos peixes e frutos do mar americanos, além de contar com a adega mais prestigiada do Pearl. Para quem quer algo mais direto ao ponto, a pedida é o The Granary Cue and Brew, especializado em carnes e que honra a tradição de funcionar em uma centenária cervejaria e serve a bebida que produz ali mesmo.

Não muito longe dali, outra centenária cervejaria de San Antonio já havia secado as torneiras nos anos 1970, quando a histórica fábrica da Lone Star Brewery começou a se transformar no San Antonio Museum of Art. O museu abriu as portas em 1981, com um acervo eclético e impressionante, voltado para a arte do continente americano. Na parte mais antiga do prédio, vemos peças de culturas pré-colombianas, como um adereço de ouro da cultura Nazca, do Peru, do século V, ou obras sacras do barroco espanhol.

Há desde paisagistas americanos do século XIX, como Albert Bierstadt e Martin Johnson Heade, a modernistas mexicanos do início do século XX, como Diego Rivera e David Siqueros. Obras de artistas como Fernando Botero e Vik Muniz dão a dimensão da amplitude do acervo dedicado à arte americana, que dialoga também com a região.

Exemplo é a presença de um dos peixes gigantes de fibra de vidro de Donald Lipski, igual aos que o artista pregou sob uma ponte que cruza o rio, ali perto.

Mas é o segundo pavilhão do museu, com as obras doadas nos anos 1990, que chama mais a atenção. É ali que estão expostas peças de arte da Antiguidade, da Ásia e do Oriente Médio. Um busto egípcio, de aproximadamente 2.600 antes de Cristo, dá as boas-vindas ao visitante, que vê, em seguida, outras tantas peças do Egito antigo e, na sala seguinte, dezenas de estátuas e bustos do período clássico da Grécia.

O museu conta com um importante acervo também de arte oriental, que vai de budas e cerâmicas da China a estátuas de divindades hindus, passando por impressionantes armaduras de samurais. Mas nada é tão hipnotizante quanto a mandala de areia colorida feita por monges tibetanos, sob autorização especial de Dalai Lama.

Serviço

River Tours: A Rio San Antonio Cruises faz os passeios pelo rio, que custam a partir de US$ 8,25 por pessoa. riosanantonio.com

Alamo: Diariamente, das 9h às 17h30m, com entrada gratuita. 300 Alamo Plaza. thealamo.org.

Pearl Farmer Market: A feira acontece aos sábados, das 9h às 13h. 303 Pearl Pkwy. atpearl.com

San Antonio Museum of Art: De terça-feira a domingo. Entrada a US$ 10. 200 West Jones Ave. samuseum.org

Eduardo Maia viajou a convite do Turismo do Texas e da United Airlines

oglobo.globo.com | 20-03-2014

RIO - Professora da University College London (UCL) e economista reconhecida pela busca de um capitalismo mais ético, a inglesa Noreena Hertz, de 46 anos, afirma que o desemprego juvenil na Europa é uma bomba-relógio. Para Noreena, que já foi capa de revistas como “Newsweek” e é nome frequente entre os palestrantes do Fórum Econômico Mundial, na Suíça, a permanência por muitos anos fora do mercado de trabalho compromete o futuro desses jovens e, mais do que isso, é um problema para a sociedade civil, já que acaba levando as pessoas às ruas. A despeito disso, ela comemora o fato de que enfim os governos europeus começam a pensar o crescimento como parte de suas estratégias pós-crise, após a onda de austeridade. Noreena lança este mês no Brasil o livro “De olhos bem abertos: como tomar decisões inteligentes em um mundo confuso” (selo Fontanar, pela editora Objetiva). Num mundo com um “dilúvio de informações’, diz ela, é preciso ser muito cuidadoso com o que se encontra na internet e sugere um questionamento constante dos chamados especialistas, que podem muitas vezes se enganar, como ocorreu na crise financeira.

Logo depois da crise global houve um debate sobre o aspecto moral daquele momento e a necessidade de mudança. Acredita que algo mudou na sociedade?

Acho que há um cenário dúbio. Por um lado, o setor bancário foi menos afetado por regulação do que se esperaria. Ao mesmo tempo, acreditava-se que após a crise o mundo poderia tornar-se mais igual e no fundo ficou mais desigual. Os mais ricos se deram melhor no momento pós-crise. Ao mesmo tempo, no entanto, vemos algum avanço. Nos Estados Unidos, a campanha à prefeitura de Nova York de Bill de Blasio debateu muito a desigualdade, tema também forte nos discursos de Obama. Além disso, cada vez mais presidentes de empresas avaliam que não é do interesse deles ter um mundo muito dividido. E percebem que têm um papel na resolução dos problemas, como no caso do desemprego juvenil.

Como vê o desemprego juvenil na Europa?

A situação é muito séria. Países como Itália, Grécia e Espanha têm mais de 50% da população abaixo de 25 anos desempregada. É uma bomba-relógio. Quando alguém não tem emprego por alguns anos, suas chances na vida são comprometidas. Isso afeta a sociedade civil, porque se pode esperar aumento nas manifestações. Não é um problema apenas para esses países: a Europa ainda está muito fragilizada economicamente.

Como encara o declínio do Estado de bem-estar social na Europa?

Como consequência da crise, temos o Fundo Monetário Internacional (FMI) demandando austeridade, corte de gastos e do déficit, o que afeta o quanto os governos podem gastar em bem-estar. Há muitos países menos desejosos ou capazes de financiar educação e saúde, por exemplo. A austeridade tem um impacto grande nas pessoas e na economia. Ela essencialmente reduz a capacidade de as pessoas consumirem num momento em que precisamos que elas consumam mais, para estimular o crescimento.

Qual seria a alternativa?

A Europa deveria ter focado mais em crescimento. Há necessidade de um investimento maciço em infraestrutura em muitos países europeus, o que aumentaria a competitividade no futuro e traria empregos. Agora estão começando a pensar nisso, finalmente entrou no discurso político a percepção de que precisamos focar no crescimento e pensar o que pode ser feito.

Como analisa a situação da economia americana?

É muito cedo para ser otimista demais sobre uma recuperação. O mundo hoje é tão interconectado que qualquer choque pode afetar a fase inicial de recuperação em que estamos. É preciso cautela.

A senhora já foi chamada de economista antiglobalização muitas vezes, mas nega o rótulo. Como se define?

Sempre fui muito internacionalista, acredito que as pessoas não deveriam ser limitadas pelo local em que nasceram. Numa economia global, é preciso governança global, de acordos globais para lidar com os problemas. Sempre me vi como uma pessoa "pró-global", a favor de uma globalização mais ética e justa. É uma aspiração pragmática: todos nos saímos melhor se todos se saírem melhor.

No livro a senhora menciona as limitações dos especialistas e cita o fato de não terem previsto a crise. Qual é a importância de se questionar os especialistas?

Na verdade, especialistas têm uma média baixa de acertos em geral em previsões e diagnósticos. A maioria dos economistas não previu a crise financeira. Pouco antes, Alan Greenspan falou sobre a segurança dos derivativos. Agências de rating falharam completamente. E não se trata apenas de economistas: médicos fazem um diagnóstico errado a cada cinco. É preciso ter muito cuidado para não acreditar cegamente nos especialistas e saber em quem acreditar.

A senhora fala do atual "dilúvio de informações". Como o cidadão pode se proteger e se beneficiar do excesso de informações?

Há definitivamente hoje um "dilúvio de informações". Apenas uma edição do jornal "New York Times" tem mais informação do que estaríamos expostos em toda uma vida no século XVII. Adicione a isso e-mails, internet, Twitter, Facebook... O desafio é descobrir no que confiar e em quem acreditar. Ao mesmo tempo, temos uma grande oportunidade de sermos nós mesmos compiladores de informação. Se há motivo para não confiar na versão oficial de algo, podemos buscar por conta própria ou pelos jornalistas-cidadãos. É uma grande oportunidade para ouvir as redes sociais. Só é preciso manter o cérebro ligado e tirar partido do dilúvio de informações e não se afogar nele.

oglobo.globo.com | 04-03-2014

Logo depois da eclosão da crise financeira de 2008, eu adverti que, a menos que políticas adequadas fossem adotadas, uma enfermidade à japonesa — baixo crescimento e rendas perto da estagnação durante anos — poderia acontecer. Líderes de ambos os lados do Atlântico alegaram que tinham aprendido a lição do Japão, mas prontamente começaram a repetir os erros. Agora, até um importante ex-funcionário dos EUA, o economista Larry Summers, alerta para o risco de estagnação.

O ponto básico que levantei há meia década foi que a economia americana estava doente mesmo antes da crise: era apenas uma bolha no preço dos ativos, criada por regulação frouxa e baixas taxas de juro, o que fazia a economia parecer robusta. Abaixo da superfície, havia muitos problemas: desigualdade em expansão; necessidade não atendida de reforma estrutural (sair de uma economia baseada na manufatura para uma de serviços e se adaptar a vantagens comparativas globais em mudança); desequilíbrios globais persistentes; e um sistema financeiro mais sintonizado com a especulação do que em investimentos que gerassem empregos, aumentassem a produtividade e redirecionassem superávits para maximizar os ganhos sociais.

A resposta das autoridades à crise falhou em abordar essas questões; pior, exacerbou algumas delas e criou outras novas — e não apenas nos EUA. O resultado foi aumento no endividamento de muitos países nos quais o colapso do PIB solapou as receitas dos governos. Além disso, subinvestimento, tanto no setor público quanto no privado, criou uma geração de jovens ociosos e alienados num momento de suas vidas em que deveriam aprimorar suas capacidades e aumentar sua produtividade.

Em ambos os lados do Atlântico, o PIB deverá crescer consideravelmente mais rápido este ano do que em 2013. Mas, antes que os líderes que abraçaram políticas de austeridade espouquem champanhes e façam brindes, deveriam examinar onde estamos e levar em conta os danos quase irreparáveis que essas políticas causaram.

Toda crise acaba um dia. A marca da boa política é conseguir fazê-la menos profunda e mais curta do que poderia ser. A marca das políticas de austeridade que muitos governos adotaram é que elas tornam a crise mais profunda e mais longa do que o necessário, com consequências de longa duração.

O PIB per capita (ajustado pela inflação) no Atlântico Norte é hoje mais baixo do que em 2007; na Grécia, a economia encolheu algo como 23%. A Alemanha, o país europeu com melhor desempenho econômico, obteve miserável crescimento anual médio de 0,7% nos últimos seis anos. A economia americana ainda é cerca de 15% menor hoje do que seria se o crescimento tivesse continuado nos níveis moderados de antes da crise.

Mesmo esses números não contam toda a história de como as coisas estão ruins, porque o PIB não é uma boa medida do sucesso. Muito mais relevante é o que aconteceu com a renda das famílias. A renda real média nos EUA está abaixo da de 1989, há um quarto de século; a renda média para trabalhadores em tempo integral é menor hoje do que há mais de 40 anos.

Alguns, como o economista Robert Gordon, sugeriram que nós deveríamos nos ajustar a uma nova realidade na qual o crescimento da produtividade a longo prazo será significativamente menor do que no último século. Dado o desempenho medíocre dos economistas em fazer previsões, ninguém deve ter muita confiança em uma bola de cristal que antecipa décadas futuras. Mas isto parece claro: a menos que os governos mudem suas políticas, devemos esperar um longo período de desapontamento.

Os mercados não se autocorrigem. Os problemas que descrevi antes poderiam ter sido piores — e muitos são. Desigualdade enfraquece a demanda; desigualdade crescente a enfraquece ainda mais; e, na maioria dos países, incluindo os EUA, a crise agravou a desigualdade.

Os mercados nunca foram bons em obter rápidas transformações estruturais por sua própria conta; a transição da agricultura para a manufatura, por exemplo, foi tudo, menos suave; ao contrário, foi acompanhada por significativo deslocamento social e pela Grande Depressão. Desta vez não é diferente, mas de alguma forma pode ser pior: os setores que deveriam estar crescendo, ao refletir necessidades e desejos dos cidadãos, são serviços como educação e saúde, que tradicionalmente recebem financiamento público, e por uma boa razão. Mas, em vez de os governos facilitarem a transição, a política de austeridade a inibe.

Malaise é melhor do que recessão, e recessão é melhor do que depressão. Mas as dificuldades que enfrentamos agora não resultam de inexoráveis leis da economia, às quais simplesmente precisamos nos ajustar, como no caso de um desastre natural, um terremoto ou tsunami. Nem são um tipo de penitência pela qual devemos passar para expiar pecados — embora, com certeza, as políticas neoliberais que prevaleceram nas últimas três décadas tenham muito a ver com nossa atual situação.

Nossas atuais dificuldades resultam de políticas defeituosas. Há alternativas. Mas não as encontraremos na complacência satisfeita das elites, cuja renda e portfólios de ações estão novamente em alta. Apenas alguns, parece, devem se adaptar permanentemente a um padrão de vida mais baixo. Infelizmente, essas pessoas são a maioria.

oglobo.globo.com | 04-03-2014

LONDRES (INGLATERRA) - A União Europeia abriu um processo judicial contra o Reino Unido tendo como causa a não redução da quantidade de poluentes lançados ao ar pelo país, informa a BBC News. O bloco alega que os níveis de dióxido de azoto (ou dióxido de nitrogênio), principalmente de motores diesel, são excessivamente altos em muitas cidades britânicas.

A Comissão afirma que este gás pode levar a grandes doenças respiratórias e a mortes prematuras. A Grã-Bretanha deveria cumprir os limites da União Europeia até 2010, mas o governo admite que Londres não vai alcançar este padrão até 2025.

O problema do Reino Unido com a poluição do ar decorre de uma nova norma estabelecida pela União Europeia a partir de 2008. Ela estabeleceu limites para os níveis de poluentes transportados, incluindo partículas e óxidos de nitrogênio, gases que são produzidos a partir da queima de combustíveis fósseis - que podem prejudicar a saúde humana, bem como plantas e animais.

O dióxido de nitrogênio (NO2), que em sua maior parte é produzida por carros a diesel e caminhões, tem a capacidade de inflamar o revestimento dos pulmões e causar doenças respiratórias.

Ele representa um risco maior para as pessoas que vivem perto de estradas nas grandes cidades e aqueles que sofrem com a asma.

Excesso de gás

Controlar a quantidade desse poluentes no ar tem sido particularmente difícil para o Reino Unido.

Para os efeitos da poluição do ar, o país é dividido em 43 zonas. Em 2010, quando as restrições da União Europeia entraram em vigor, os níveis de dióxido de azoto ultrapassaram os limites em 40 dessas áreas.

Após longa negociação, os estados obtiveram a prorrogação de mais cinco anos para reduzir os níveis de NO2. No entanto, o Reino Unido já admitiu que os limites relativos a 16 zonas, incluindo Londres, não serão cumpridos dentro do prazo previsto.

Para outras dessas áreas, incluindo a Grande Manchester, West Midlands, Merseyside e Glasgow, o governo acredita que os níveis poderão ser alcançados até 2020. Em Londres, no entanto, especula-se que a meta só sera batida em 2025.

Para a União Europeia, esse prazo representa muito tempo. O órgão decidiu, portanto, lançar o primeiro processo contra um país por violar os limites de NO2. Embora outros membros do grupo, incluindo a França, a Suécia, a Dinamarca e a Grécia, também não devam cumprir suas metas, os diretores negam que haja perseguição ao Reino Unido.

- Nossa prioridade é proteger a saúde pública e o meio ambiente. Pensamos que isso também é o que a população do Reino Unido quer - disse à BBC News o porta-voz da Comissão Europeia Joe Hennon .

Segundo ativistas, se quiser alcançar os índices, o governo terá que adotar medidas drásticas: entre elas, a redução pela metade da venda de carros à diesel.

O Reino Unido tem dois meses para responder à Comissão Europeia. A BBC News chegou a procurar o Departamento de Meio Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais (Defra, na sigla em inglês) para comentar sobre a ação, mas o órgão não se pronunciou.

oglobo.globo.com | 20-02-2014

SÃO FRANCISCO - A empresa de pornografia Kink.com, de São Francisco, Estados Unidos, foi multada em mais de U$ 78.000 nesta semana, por oferecer condições de trabalho perigosas, como submeter seus atores a cenas de sexo sem o uso de preservativos.

A Cybernet Entertainment, empresa responsável pela Kink.com, argumentou que muitos de seus artistas preferem não usar preservativos e que a multa anunciada nesta sexta-feira é resultado de uma longa campanha liderada por aqueles que se opõem à indústria do cinema adulto.

“A multa é excessiva e acreditamos que possui motivação politica", disse o fundador da Cybernet, Peter Acworth, em comunicado. "As queixas que motivaram a inspeção não foram feitas por funcionários, mas por grupos de fora com uma longa história de oposição ao filme adulto. Vamos recorrer da decisão."

Registros do órgão responsável pela Segurança e Saúde no Trabalho da Califórnia atribuiram à Cybernet uma série de violações, após uma inspeção feita em agosto do ano passado. A maior parte da multa - U$ 75 mil - se deve à política da Cybernet de permitir que seus artistas escolham se querem ou não usar preservativos.

O porta-voz do órgão, Melton, disse que houve várias queixas contra Kink.com no ano passado, e descreveu a multa como um valor "significativo". A inspeção foi motivada por uma queixa formal apresentada contra a Kink.com pela Fundação AIDS Healthcare, um grupo de defesa da saúde de Los Angeles.

Anteriormente, a fundação já havia pressionado com sucesso para que o uso de preservativos fosse obrigatório em sets pornográficos na cidade de Los Angeles e, posteriormente, em todo o Condado de Los Angeles.

A fundação apresentou as queixas depois que um casal de artistas da Kink.com foram diagnosticados como portadores de HIV no ano passado. A empresa, por sua vez, disse que eles haviam contraído a infecção em suas vidas privadas.

Para a AIDS Healthcare, entretanto, pouco importa se os artistas contraíram HIV em conjunto ou em suas vidas privadas, pois a fundação defende que os preservativos sejam usados em qualquer contexto.

oglobo.globo.com | 01-02-2014

Os franceses obviamente vivem melhor que os brasileiros. Têm mais renda, empregos bem remunerados, boas aposentadorias, saúde e escola públicas de qualidade, transporte público entre os melhores da Europa e, pois, do mundo, belas estradas. Além disso, os franceses inventaram e cultivam com cuidado e inovação algumas das melhores coisas da vida: a velha e a nova cozinha, os vinhos, os queijos, a moda e o estilo das mulheres. Em resumo: civilização, arte, cultura.

Mas em todas as pesquisas sobre felicidade pessoal — o modo como cada um percebe sua vida e seu futuro — o francês aparece no fim da lista. Declara-se infeliz e, não raro, muito infeliz. Já os brasileiros aparecem nas primeiras colocações.

Na ultima edição do Barômetro Global de Otimismo, do Ibope Inteligência em parceria com a Worldwide Independent Network of Market Research (WIN), entre os moradores de 65 países, o brasileiro aparece como o decimo mais feliz. Nada menos que 71% dos brasileiros se declararam satisfeitos com a própria vida.

É verdade que piorou um tanto. Em 2012, 81% se consideravam de bem com a vida. Mas os 71% da ultima pesquisa ainda superam a média mundial.

Aliás, houve aqui um movimento invertido. Se o número de brasileiros felizes caiu no ano passado, no mundo, a porcentagem de felicidade aumentou, de 53% para 60%.

Já na França, apenas 25% dos entrevistados se declararam felizes; 33% consideram-se infelizes; 42% nem uma coisa nem outra, o restante nem respondeu.

Pode-se dizer que a França ainda passa por uma crise longa e dolorosa, com aumento do desemprego. Mas isso ocorreu em praticamente toda a Europa e não cresceu da mesma maneira o número de infelizes.

Na Inglaterra, um país parecido com a França, tirante a comida e os vinhos, 53% se consideram felizes. Na Grécia, onde a crise foi mais devastadora, 30% dos habitantes se consideram felizes, número maior que os infelizes (23%).

E, para complicar de vez a questão, reparem nestes dados: afegãos felizes, 59%; sudaneses do Sul, 53%; palestinos em seus territórios, 20% (só aqui um número menor do que na França).

E então? Na edição especial de fim de ano, a revista “Economist” trouxe um excepcional ensaio sobre a malaise francesa. Tem a ver com a situação atual, mas pouco. Tem também algo a ver com a perda da importância global, inclusive a língua. E muito a ver com a cultura que forma e desenvolve um estado de espírito miserável.

Invertendo os termos, talvez se possa entender por que tantos países emergentes aparecem na ponta do ranking da felicidade. Além do Brasil, estão entre os dez mais animados: Colômbia (86% de moradores felizes), Arábia Saudita (80%), Argentina (78%), México (75%), Índia (74%) e Indonésia (74%).

Os emergentes, com poucas exceções, tiveram desempenho extraordinário desde o inicio deste século. Equilibraram suas economias, eliminaram velhos fantasmas, como a inflação, cresceram, ganharam renda e reduziram o número de pobres. E passaram com menores danos pela crise global justamente porque suas economias estavam com os fundamentos arrumados.

O sentimento geral é de melhora constante, o que deixa o pessoal mais animado em relação ao futuro. A vida normal nos emergentes, digamos assim, é de crescimento e melhora. Há de tudo por fazer e consumir: de metrôs a mais comida; de residências a celulares; de usinas hidrelétricas a motos. Mesmo em um ano fraco, permanece a sensação de que há muita coisa por fazer — e, pois, muitas oportunidades.

Já na Europa rica, parece que está tudo feito e que, daqui em diante, só pode piorar. O pessoal precisa se esforçar para manter o que tem e não sabe se isso é possível. Ou seja, é forte o sentimento de que se perderá algo, inevitavelmente, e que as novas gerações não serão tão ricas quanto a de seus pais.

Resumindo: nos emergentes, os habitantes estão em condições econômicas piores, mas vêm melhorando e mantêm a expectativa de melhora. Nos ricos, a sensação seria a de que a festa está acabando.

Entre os dez de mais bom astral, há apenas dois países ricos, FinIândia (com 78% de felizes) e Dinamarca (74%). Em comum: pequenas nações, pequenas populações, mais fácil de manter o padrão. Explica?

E quem são os mais felizes?

Os 88% dos 890 mil moradores das ilhas de Fiji, no Pacífico Sul. Têm um PIB per capita de 4.500 dólares, o que os classifica como pobres, numa economia dominantemente de subsistência. Passaram por uma sequência de golpes militares, o atual governo é ditadura. O lugar é lindo.

Vai saber.

oglobo.globo.com | 16-01-2014

RIO - Maria Callas morreu em setembro de 1977, prematuramente, aos 53 anos, de infarto. Deixou de cantar óperas completas em 1965, por causa da saúde fragilizada. Isso há quase meio século. E, ainda assim, a soprano continua a exercer um imenso fascínio. Encantamento gerado por um talento sem par, unido ao temperamento difícil e à vida de glórias e tristezas. A mistura ajudou a eternizar Maria Callas como um mito, revestido da mesma aura das heroínas trágicas que habitavam as óperas que ela representou.

Nascida em Nova York, Maria Cecilia Sofia Anna Kalogeropoulou, filha de pais gregos, foi obrigada a partir para a Grécia com a família, por razões econômicas. Lá, construiu a sólida base musical que a levaria, mais tarde, a se tornar não só a prima donna do La Scala de Milão (debutou na Itália em 1947), mas a maior cantora lírica da história, dona de versatilidade que a levaria a defender, com igual desenvoltura, os grandes papéis do repertório lírico. Callas era temperamental. Difícil de trabalhar. Arranjava desavenças com diretores, mantinha uma rivalidade pública com a soprano Renata Tebaldi, tinha uma relação para lá de complicada com a mãe. No trabalho, era muito exigente consigo mesma. Ensaiava horas a fio. Mas não cuidava só da voz. Oferecia a mesma atenção à parte dramática. Em cena,não era apenas dona de voz sublime e distinta, com tessitura, timbre e alcance únicos. Ela interpretava seus personagens com tamanha entrega que, não raro,terminava as récitas fisicamente esgotada.

A mesma paixão dedicou ao milionário grego Aristóteles Onassis, que conheceu no final da década de 1950. Por ele, abandonou o primeiro marido, o empresário Giovanni Battista Menegghini, e viu sua disciplina diminuir. Callas cancelou apresentações, deixou de ensaiar para frequentar festas e eventos sociais.

A falta de rigor colaborou para o declínio de sua saúde e de sua voz, que já não encontrava o mesmo alcance e sustentação. Em1965, ao interpretar Norma, não aguentou ir até o fim, desmaiando na terceira parte. A partir daí, não cantou mais em óperas encenadas.A vida amorosa também entrou em derrocada, após ser abandonada por Onassis.

A última apresentação de Callas foi em 1974, no Japão. O resto de seus dias ela passou reclusa, em seu apartamento em Paris, na Avenue Georges Mandel. Com sua morte, deixou de ser só diva para virar mito.

oglobo.globo.com | 11-01-2014

BUENOS AIRES - À Argentina coube o grupo da morte nas Copas de 2002 e 2006, nas quais ficou pelo caminho (na Coreia/Japão, caiu na primeira fase, e na Alemanha, perdeu nas quartas de final). A seleção de Lionel Messi confia na sorte desta vez, na esperança de ter mais tranquilidade nos três primeiros jogos.

Diante da expectativa para o sorteio na Costa do Sauípe, nesta sexta-feira, os argentinos respiraram aliviados com a notícia de que Pelé não sorteará os grupos da Copa de 2014. "Gênio do mal" para a Argentina, Pelé acabou empurrando os "hermanos" duas vezes ao grupo da morte. Por obra das mãos de Pelé a Argentina caiu em chaves complicadas em 2002 e 2006.

Para a Copa na Ásia, em 2002, Pelé sorteou um grupo que tinha Nigéria, Inglaterra e Suécia no caminho dos argentinos, que sequer passaram às oitavas de final. No Mundial seguinte, a Argentina teve logo de saída Holanda, Costa do Marfim e Sérvia e Montenegro. Passou adiante, mas caiu nas quartas de final. Aliás, nos últimos cinco Mundiais, a Argentina foi no máximo às quartas.

O que pode acontecer desta vez? O pior cenário para os argentinos, que são cabeça de chave, os deixaria com outras potências do futebol mundial, como Portugal, França, Itália e México ou Estados Unidos. Já num panorama favorável, caberia à Argentina um grupo que poderia sair dos seguintes possíveis adversários: Grécia, Argélia, Irã, Bósnia, Honduras e Costa Rica.

Mário Kempes, máximo goleador da Copa do Mundo de 1978, vencida pela Argentina dentro de casa, será uma das lendas do futebol mundial presentes no sorteio na Costa do Saípe. Após duas Copas, os argentinos terão novamente o técnico da seleção na solenidade. No sorteio para 2006, José Pekerman não foi devido a um problema de saúde. E no de 2010, Diego Maradona estava proibido de comparecer por uma suspensão imposta pela Fifa depois das palavras obscenas que proferiu contra seus críticos quando classificou a seleção nas eliminatórias. Agora, para 2014, no Brasil, a Argentina espera dar um drible no azar.

oglobo.globo.com | 04-12-2013
A Organização Mundial de Saúde (OMS) divulgou hoje um pedido de desculpas pela divulgação, em setembro, de um relatório segundo o qual metade dos novos casos de infecção pelo vírus HIV na Grécia teriam sido causados deliberadamente por pessoas interessadas em receber benefícios do governo.
atarde.uol.com.br | 26-11-2013

DUBLIN - A polícia irlandesa levou uma menina loira que vivia com uma família cigana em Dublin, numa ação estimulada por um caso similar ocorrido na Grécia. O Departamento de Serviços de Saúde do governo informou que aguarda ainda hoje uma liberação judicial para encaminhar a jovem para a assistência social, enquanto a polícia investiga a sua origem.

As autoridades informaram que os policiais retiraram a menina da casa onde vivia na segunda-feira. O casal, que alega ser os pais da criança, afirma que ela tem 7 anos e é sua filha biológica. A maternidade indicada por eles, no entanto, não tinha nenhum registro de nascimento da garota. Ninguém foi preso na operação.

Ainda segundo a polícia, foram os vizinhos da família de origem romani que denunciaram o casal, após verem a repercussão do caso grego, no qual o casal Christos Sali e Eleutheria Dimopoulou - também de origem cigana - está sendo acusado de sequestrar uma menina de 4 anos com traços nórdicos, conhecida como Maria e apelidada pela imprensa de “Anjo Loiro”.

oglobo.globo.com | 22-10-2013

Os partidos de extrema-direita, neofascistas, crescem em todo o continente europeu, e o pior é que muita gente está gostando do fenômeno.

Na França, com quase 25% de preferências, lideram as pesquisas de intenção de voto para as eleições europeias, previstas para maio próximo.

Não se trata de um fato isolado.

Na Suíça, desde 2003 o principal partido político é de extrema-direita. Em outros países do norte da Europa, consagrados pelo alto grau de civilidade, os neofascistas despontam. Em Noruega, Dinamarca, Holanda, Hungria, Eslováquia e Grécia, aparecem em terceiro lugar, participando, não raro, de coalizões governamentais. Na Itália, governam várias regiões do norte do país, tendo já integrado coligações governamentais. Na Finlândia, saíram da irrelevância para alcançar quase 20% dos votos nas últimas eleições parlamentares, realizadas há dois anos. Na Áustria também atingiram o segundo lugar. Na Suécia, ganharam há pouco o direito de ingressar no Parlamento. Na Alemanha já estão em alguns parlamentos regionais. Não apenas cresce sua força própria, mas condicionam todo o debate político nos respectivos países.

Disfarçam-se sob nomes anódinos e abrangentes. Na Suíça, Centro Democrático. Partido do Progresso, na Noruega. Na Holanda e na Áustria, Partido da Liberdade. Frente Nacional, na França. E se ofendem quando chamados pelo que são de fato: partidários da restauração do fascismo.

Mas não ocultam ideias e concepções de mundo.

Detestam as tradições multiculturais que fizeram — e fazem — a vitalidade da Europa. O Islã e o islamismo, substituindo os judeus, são os bodes expiatórios dos medos que alimentam. Denunciam supostas “invasões” de muçulmanos que ameaçam a “pureza” europeia. E reclamam políticas rígidas de controle da imigração, ocultando o fato óbvio de que os trabalhos — indispensáveis — realizados pelos estrangeiros são recusados pelos europeus há décadas.

Propõem a erradicação da corrupção endêmica dos “políticos profissionais”, dos “plutocratas parasitas” e dos “tecnocratas insensíveis”, associados, todos, no processo de uma construção europeia “elitista” e “antinacional”. E propõem reconstruir — ou refundar — nações impossíveis, que só existem em suas imaginações reacionárias. Querem uma Ordem inalcançável, porque perdida, fundada na autoridade patriarcal e na família monogâmica heterossexual.

Esta espécie de programa rastejava há tempos na cena política europeia. Era simplesmente rejeitado, como se fora mercadoria estragada. Ou, segundo a parábola de Ionesco, como um feio rinoceronte.

Do que se trata é compreender melhor como e por que se multiplicam os rinocerontes, como e por que passaram a ser considerados e votados.

A crise em que se afunda a Europa desde 2008 oferece uma primeira explicação. Conforme mostrou Joseph Stiglitz, apesar do falso otimismo de alguns, a economia europeia continua em recessão. Um quarto dos trabalhadores, desempregados. Em números absolutos: 27 milhões de pessoas querendo, e não encontrando, um trabalho. Em alguns países, como na Grécia e na Espanha, cerca de 50% dos jovens estão parados. E nada indica um retorno ao pleno emprego.

Em vez de políticas de retomada do desenvolvimento e de regulamentação e controle do capital, taxando em particular a especulação financeira, e dando fim aos “paraísos fiscais”, o que se tem observado são as políticas de “austeridade”, que punem os assalariados. Em nome da governabilidade do “sistema”, tudo se faz para salvar da bancarrota imensas instituições financeiras, consideradas “grandes demais” para quebrar, gerando, sempre segundo Stiglitz, “perdas cumulativas de produção — na Europa e nos EUA — que já passaram de 5 trilhões de dólares”.

Ao mesmo tempo, e em consequência, reduziram-se os recursos que viabilizavam o Estado de Bem-Estar Social (saúde, educação, transportes, moradias), melhor e maior ganho registrado pelos trabalhadores europeus em toda a sua história.

A tudo isto assistem, passivos, quando não cúmplices, ativos, os principais partidos políticos, mesmo os de esquerda, como ficou evidente neste último episódio da infame expulsão de Leonarda Dibrani, uma garota de apenas 15 anos, sacada pela polícia de uma excursão escolar e posta, com toda a família, para fora da França, sob a complacência — e a autorização — de um governo socialista.

Tempos sombrios.

É nesse caldo — grosso de ressentimentos e de frustrações — que vicejam as propostas neofascistas. E que se multiplicam os rinocerontes.

De nada adiantará fingir que as coisas não estão assim tão graves. Como Nicolas Sauger, que afirma peremptório: “Os neofascistas não têm maioria, nem vão tê-la.” Ou como Cas Mudde, que insiste em minimizar os ganhos recentes dos partidos de extrema-direita. A menos que eles já estejam achando os rinocerontes bonitinhos. Ou se preparando para se transformar num desses belos animais.

Daniel Aarão Reis é professor de História Contemporânea da UFF

oglobo.globo.com | 22-10-2013

O mais famoso médico da Grécia antiga, Hipócrates, considerado o pai da Medicina, dizia: “Para os males extremos, só são eficazes os remédios intensos.” A frase é oportuna quando se observa que a Saúde no Brasil encontra-se em colapso. Do Sistema Único de Saúde (SUS) aos planos privados, alguns verdadeiras arapucas.

Apesar da crise, políticos permanecem enaltecendo o SUS, muito embora só utilizem o Sírio (Hospital Sírio Libanês), onde são recebidos à porta pelos professores-doutores de plantão. Enquanto isso, menos da metade dos cidadãos confia nos hospitais aos quais têm direito como simples mortais.

Pesquisa da ONU, divulgada no primeiro trimestre deste ano, com base em dados coletados entre 2007 e 2009, revelou que entre 126 países o Brasil ficou em 108° lugar no que diz respeito à satisfação com a qualidade dos serviços prestados. Apenas 44% dos brasileiros sentem-se satisfeitos com os padrões aqui oferecidos. Em nenhum país da América Latina, à exceção do Haiti (35%), foi identificado índice tão baixo quanto o que os brasileiros revelaram. Nesse campeonato, perdemos, por exemplo, para o Uruguai (77%), Bolívia (59%), Afeganistão (46%) e Camarões (54%), onde a população considera os serviços de saúde melhores do que a percepção que temos sobre os nossos.

Aparentemente, o dinheiro não é o fator que mais contribui para o caos. Conforme dados da OMS de 2011, somando-se todas as principais formas de financiamento (impostos/contribuições sociais, sistemas privados de pré-pagamento e desembolsos diretos dos pacientes), o Brasil gasta anualmente com saúde 8,9% do Produto Interno Bruto (PIB). O percentual é semelhante ao da Espanha (9,4%) e não muito inferior às aplicações da França (11,6%). No entanto, na maioria dos países desenvolvidos a maior parcela do financiamento provém de fontes públicas que respondem, em média, por 70% do gasto global. Em nosso país, o setor público — que atende 150 milhões de pessoas — contribui com apenas 45,7% do total das despesas integrais com Saúde.

Nesse cenário, será que nos últimos anos a Saúde tem sido considerada como prioridade entre as políticas públicas? O programa Mais Médicos irá salvar a saúde da pátria? Infelizmente, ambas as respostas são negativas.

Ainda que os recursos globais do Ministério da Saúde tenham aumentado nos últimos anos, as despesas realizadas mantiveram praticamente a mesma relação com o PIB. Em 2002, o total pago representou 1,87%, percentual que subiu para 1,88% em 2012. Em suma, de FHC a Dilma, com ou sem CPMF, trocamos seis por meia dúzia.

Quanto aos investimentos em Saúde (construção de hospitais, UPAs, aquisições de equipamentos etc.), nos últimos 12 anos foram autorizados nos orçamentos da União R$ 67 bilhões, mas apenas R$ 27,5 bilhões (41%) foram pagos. A título de comparação, o Ministério da Defesa investiu no mesmo período R$ 56,2 bilhões, literalmente o dobro das aplicações da Pasta da Saúde. Estamos comprando blindados, aviões de caça e construindo submarinos nucleares para enfrentar imagináveis inimigos externos enquanto, por aqui, mais de um milhão de brasileiros protestam por serviços públicos de melhor qualidade.

Em 2013, a situação é semelhante. A dotação prevista para os investimentos do Ministério da Saúde é de R$ 10 bilhões. Até setembro apenas R$ 2,9 bilhões foram pagos, incluindo os restos a pagar. O valor investido coloca o Ministério da Saúde em 5° lugar comparativamente aos outros ministérios.

Na verdade, há muito por fazer. Para começar, é difícil imaginar um país saudável em que quase a metade dos domicílios não tem rede de esgotos. Por opção, vamos gastar R$ 7,1 bilhões nos estádios de futebol padrão Fifa, enquanto em dez anos aplicamos somente R$ 4,2 bilhões em saneamento. O Mais Médicos — mesmo sem o Revalida e com certificados distribuídos a esmo — vai gerar o primeiro atendimento em cidades até então desprovidas, o que é bom. Mas por trás das “boas intenções” está a reeleição de Dilma, o fortalecimento da candidatura de Padilha ao governo de São Paulo, além do financiamento da ditadura cubana.

Dessa forma, o programa passa ao largo de questões cruciais como a necessidade de mais investimentos públicos, melhor gestão, atualização das tabelas de ressarcimento do SUS, aumento das vagas nos cursos de Medicina, nas UTIs e nas residências médicas, entre outros problemas a serem enfrentados. Tal como dizia Hipócrates, urgem remédios intensos. A reconstrução da saúde no Brasil exige mais ações e menos hipocrisia.

Gil Castello Branco é economista e fundador da organização não governamental Associação Contas Abertas

oglobo.globo.com | 08-10-2013

Blogue

"A Europa não é feliz, duvida de si mesma", disse o circunspecto Presidente francês, François Hollande, perante os dirigentes da Espanha, da Itália e da Alemanha, durante um encontro em que se falou sobre formas de estimular o emprego. "A Europa precisa de mais fantasia", acrescentou o presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz. Apesar do seu isolamento insular e do seu clima gélido, a Islândia era o país mais feliz do mundo até rebentar a crise em Wall Street. Em boa medida, era também esse o caso da Europa, exemplo de bonança em matéria de equidade, de estabilidade e de equilíbrio, em matéria de liberdade e justiça.

Será que a crise nos tornou infelizes, de repente? Em parte, sim, porque despertámos bruscamente do sonho da prosperidade ilimitada [...]. 45 milhões de desempregados no mundo industrializado, dos quais 14 milhões depois da crise, quantifica a OCDE. E, apesar disso, países que ainda não atingiram os padrões de desenvolvimento da Europa têm um nível de satisfação maior. E, a despeito da fratura e da dolorosa e lenta recuperação, a própria Islândia conserva a alegria de viver.

Falar da ligação entre desesperança e crise não é uma ideia original do Presidente francês. Também a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE) – horas antes de, na última semana de julho, anunciar os piores prognósticos para os 34 países industrializados que agrupa: Global economy is advancing but pace of recovery varies – apresentou o seu próprio "índice de felicidade", O teu Índice para uma Vida Melhor. Será uma brincadeira? Se não, porquê o empenho em misturar a crise com sentimentos tão pouco quantificáveis e subjetivos como a alegria e a tristeza? [...] O facto de o Produto Interno Bruto (PIB), ou o valor monetário dos bens e serviços produzidos por um país num dado período, ter começado a ser calculado também em função da população (PIB per capita) já tinha constituído um grande passo. [...]

Além disso, os principais dados macroeconómicos, ainda mais diretamente relacionados com a área social, como o emprego, não dão ideia da forma como é distribuído o rendimento, nem do modo como a maior ou menor generalização e qualidade da saúde ou da educação afetam o nível de riqueza, ou da medida em que a economia é afetada pela maior ou menor estabilidade política e pela abertura ao exterior. Para já não falar de outros, mais tangíveis, que também determinam o desenvolvimento, como o papel da mulher, o grau de introdução de tecnologias, o nível de liberdade e democracia ou a gestão ambiental.

Por isso, partindo de premissa de que "A verdadeira riqueza das nações são as pessoas", as Nações Unidas começaram, nos anos 1990, a elaborar o Índice de Desenvolvimento Humano (Relatório sobre o Desenvolvimento Humano 2013 –PNUD). Ao princípio não foi fácil. Usando como argumento a precariedade dos dados, vários países ocultavam as suas vergonhas ou falseavam a medição das receitas ou dos serviços, para não ficarem muito mal vistos.

No entanto, este tornou-se o retrato mais aproximado da realidade do crescimento comparado com o bem-estar, ou seja, do desenvolvimento. Ao fim de um quarto de século de estudos e relatórios anuais, o índice evoluiu e passou a incluir variáveis como a desigualdade, por vezes mais decisivas do que o rácio pobreza/riqueza. [...] A verdade é que este índice da OCDE é um instrumento interativo divertido, com o qual cada um pode elaborar a sua própria lista do "bem viver", ordenando segundo a sua preferência os 11 aspetos –da habitação ou da saúde, à relação trabalho/ócio, passando por fatores tão cruciais como "o sentido de comunidade". Cada um tem a sua cor, em forma de pétalas de uma flor maior ou menor consoante o país […, medida segundo, no fim de um qualquer dia da vida de um cidadão comum, predomina o que é negativo ou o que é positivo.

As comparações são sem dúvida muito interessantes: países com padrões de bem-estar inferiores aos da Europa ou dos Estados Unidos, como o Brasil e o México, são mais felizes do que a média dos ricos e, entre estes, é significativo o descontentamento na Grécia, na Eslovénia e em Itália. Contudo, o mais surpreendente é a desigualdade crescente na outrora igualitária Europa: a desproporção entre os 20% de mais ricos e mais pobres é agora de 6 vezes, no Reino Unido, de 5, na Grécia, e de 4, na Alemanha.

Leia o artigo completo em Global Topics.

www.presseurop.eu | 01-08-2013

ATENAS Há alguns dias, prostitutas, viciados em drogas, sem-teto e imigrantes sem documentos estão na mira na Grécia como alvos potenciais de uma medida polêmica, dessas que fazem saltar as amarras legais da União Europeia: a realização de provas obrigatórias de HIV como uma política preventiva. O decreto, que suscita críticas de ONGs e grupos de direitos humanos como a Human Rights Watch (HRW), recai sobre o âmbito da saúde pública, desorganizada por cinco anos de recessão e sobre a qual os cortes em prevenção e aumento descontrolado do vírus se alimentam mutuamente: o número de contágio aumentou 200% desde 2011 enquanto o orçamento dos centros de tratamento caiu pela metade.

A pretensão do Executivo vai muito além do impacto sanitário. O decreto Nº GY/39A sobre “restrição da transmissão de enfermidades infectocontagiosas” permite a polícia deter qualquer pessoa para fazer testes de detecção. A norma já tinha entrado em vigor em abril de 2012 nas vésperas das eleições gerais e saiu da mão de um ministro socialista, Andreas Loverdos, em uma tentativa de regenerar um deteriorado centro de Atenas, esses mesmos dias também se abriu o primeiro centro de internação para estrangeiros, em Amygdaleza. O governo que saía, do tecnocrata Lukas Papademos e formado — como o atual — por socialistas e conservadores, socialistas y conservadores, acenava então com os olhos voltados para as urnas.

Devido a esse decreto, se realizaram centenas de testes em prostitutas. 17 delas — gregas, búlgaras e russas — resultaram como soropositivas e seus nomes, detalhes biográficos e fotografias foram publicadas na página web da polícia por horas, coma justificativa de que representavam uma urgência sanitária. As portadoras do vírus, que as autoridades definiram como “bombas sanitárias”, acabaram na prisão até serem soltas do delito de intencionalmente causar dano a terceiros; as últimas cinco ficaram livres em março. Aos clientes, o ministério só pediu que fizessem o teste.

Desde então o assédio nas ruas não diminuiu, mas a polêmica foi apagando até que, em abril passado, a então vice-ministra de Saúde, da Esquerda Democrática (Dimar, o sócio menor da tríade), revogou o decreto. Por pouco tempo: a crise da coalização, com a saída de Dimar, e a chegada ao ministério de um elemento mais ultra novo do governo bipartidário, Adonis Georgiadis, deu um novo alento a essa versão de caça às bruxas. Georgiadis, do partido de extrema direita nacionalista Laos — que ficou fora do parlamento em 2012, em benefício do neonazista Aurora Dorada —, é um antisemita confesso e defensor da ditadura militar, polemista e autor de um livro que refuta a ampla aceitação social que a homossexualidade teve na Grécia clássica.

Além do HIV, o decreto de Georgiadis — sua primeira medida, no dia seguinte após tomar posse — inclui outras doenças de “relevância pública”, quer dizer, patologias que se pensava erradicadas da Europa ou que, por suas conotações de miséria, provocam alarme, como tubercolose, malária — em aumento por falta de fundos para fumegamento —, a poliomelite , a hepatite ou a sífiles. As vítimas são “viciados em drogas por via intravenosa, trabalhadores do sexo, imigrantes sem documentos vindos de países onde essas enfermidades são endêmicas e gente que viva em condições que não reúnam padrões mínimos de higiene, incluídos os sem teto”.

A categorização desatou a fúria das ONGs, que acusaram o ministério de estigmatizar os grupos mais vulneráveis da população. A intervenção da polícia reforça o propósito sanitário na política de ordem pública: esta terá poder para “fazer cumprir o isolamento do sujeito, a quarentena” e o tratamento que se prescrito. O pior é que não há um único dado médico que demonstre a eficácia de práticas semelhantes”, explica por telefone Zoe Mavrudi, autora do documentário Ruínas: Crônica da caza as bruxas do HIV, sobre as detenções de prostitutas em 2012. Em várias ocasiões a reportagem tentou ouvir a versão do Ministério da Saúde, sem ter resposta.

oglobo.globo.com | 16-07-2013

Os três próximos dias anunciam-se quentes para a Grécia, vaticina o diário Ta Nea. A partir de hoje, segunda-feira, as Câmaras Municipais deverão estar fechadas e estão previstas manifestações e reuniões noturnas na praça Sintagma, no centro de Atenas.

Os sindicatos dos setores público e privado lançaram um apelo a uma greve geral na terça-feira, 16 de julho – esta greve deverá ter grande adesão no setor da saúde.

A 17 de julho, o parlamento deverá votar a lei que prevê a supressão de 15 mil postos de trabalho na função pública. Este plano, que originou a contestação social prevista para esta semana, foi anunciado como contrapartida ao empréstimo de €6,8 mil milhões concedido na semana passada pela UE e pelo FMI.

www.presseurop.eu | 15-07-2013

RIO - Está certo que a linguagem da fé é universal, mas nem por isso trata-se de uma tarefa trivial fazer interagir milhares de peregrinos, vindos dos quatro cantos do planeta e falando pelo menos 26 idiomas (incluindo o português) — alguns pouquíssimo conhecidos ao ouvido dos brasileiros. Romeno, mandarim, árabe, coreano, letão, grego, lituano, flamengo... Para que não ocorram pecadilhos de percurso ou gafes durante a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), a organização do evento montou uma grande operação logística com a finalidade de distribuir, de acordo com as línguas nativas, os estrangeiros pelas paróquias onde participarão da programação de catequese.

A Igreja Nossa Senhora do Brasil, na Urca, por exemplo, abrirá as portas para 70 jovens da Letônia, cujo idioma é o letão. Os 280 peregrinos eslovacos terão ponto de encontro na paróquia do Santo Sepulcro, em Madureira. A Comunidade Emanuel, no Centro, receberá 50 húngaros. Os fiéis da Paróquia de São Francisco de Assis, no Rio Comprido, que se preparavam para receber gregos, souberam, na semana passada, que vão acolher 200 belgas, todos falando flamengo.

Veja também

Os fiéis de língua portuguesa, claro, são maioria e, portanto, haverá para eles cem pontos destinados à catequese. Entre os estrangeiros, os peregrinos de línguas espanhola e inglesa vêm a seguir com a maior concentração de igrejas (49 e 25 respectivamente). Já os italianos, na quarta colocação, ficarão distribuídos por 15 locais na cidade. Durante a Jornada, haverá catequese em 25 idiomas diferentes, além do português. Em cada um destes pontos, haverá pelo menos um bispo coordenando a programação.

Nas paróquias que receberão os peregrinos de idiomas menos conhecidos, a expectativa é grande. Na Igreja Nossa Senhora do Brasil, os voluntários, que não falam o letão, foram informados de que os jovens da Letônia também falam alemão... Menos pior.

Mas, pelo jeito, o idioma não será uma barreira intransponível, garante Ulf Bergmann, um dos coordenadores da equipe de 70 pessoas da paróquia.

— O idioma é pouco comum, mas isso não nos preocupa, porque virão com um intérprete. Todos ficarão instalados em casas de famílias aqui da Urca. Será um momento especial na paróquia, onde as missas e cânticos acontecerão em letão — diz Bergmann, que , como o sobrenome dá a pista, fala alemão.

Ele conta ainda que, com a ajuda dos smartphones, voluntários já instalaram um aplicativo de tradução sonora para ajudar na comunicação. Santo recurso!

Vá lá que na Babel da internet é possível aprender um básico express sobre costumes e idiomas. Mas, para não ter erro, os voluntários esperam contar com uma ajuda providencial: os tradutores que a Arquidiocese prometeu.

— Alguns jovens estavam pesquisando hábitos e o idioma grego. Mas, como o bispo da Grécia ainda não confirmou que virá, a Arquidiocese decidiu que ficaríamos com os belgas. Lógico que ninguém fala flamenco. Os tradutores vão nos salvar — diz o coordenador da Pastoral da Juventude da São Francisco de Assis, Tiago Araújo da Costa.

Na Santo Sepulcro, nem por um milagre foi possível achar na comunidade alguém que falasse eslovaco. Num primeiro momento, os voluntários ficaram apreensivos com as possíveis dificuldades de comunicação, mas acabaram gostando da ideia. A web também tem se mostrado uma fiel aliada.

— Temos pessoas que falam inglês e espanhol, o que vai ajudar. Mas, independentemente do idioma, a experiência de receber peregrinos de um lugar tão diferente está agradando muito. Vamos fazer o possível para acompanhar a pregação do bispo da Eslováquia e fazer com quem o grupo se sinta bem acolhido — diz a coordenadora da catequese, Janete Guedes dos Santos.

Na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Glória, no Largo do Machado, o grupo jovem organizou aulas de francês — a paróquia terá catequese na língua de Molière. Já a paróquia Divino Espírito Santo e São João Batista, no Maracanã, receberá chineses: 225 que falam cantonês e 145 que usam o mandarim. Apesar do idioma diferente, os paroquianos adoraram.

Agora imagine recepcionar um grupo de 600 jovens da região da Europa (parte de Alemanha e Holanda) onde há um dialeto que atende pelo nome de euregio? É o caso da Igreja dos Capuchinhos, na Tijuca. Os peregrinos ficarão abrigados na quadra, e Frei Paulo, que coordena o trabalho de recepção, tem a ajuda de cerca de cem fiéis. Passado o susto em relação ao dialeto, a equipe ficou sabendo que os peregrinos terão catequese em alemão e francês.

Jornada tem sete línguas oficiais

Geógrafo, cientista político, administrador de empresas. A gama de profissões é tão diversa quanto as línguas faladas no Comitê da JMJ. Na baia dos tradutores voluntários, cerca de 70 no total, vindos de seis cantos do mundo, existem várias bandeiras nacionais, umas coladas na parede, como a da Argentina, e outras em tecido, estendidas em mesinhas que lembram carteiras escolares, como a da Inglaterra. A JMJ tem sete línguas oficiais — espanhol, italiano, francês, inglês, alemão e polonês, além do português — e uma média de 12 tradutores por idioma. Para fazer parte do clube, é preciso ser católico praticante, o que garante fluência no vocabulário religioso. O trabalho é dividido em dois tipos: tradução simultânea, que será feita apenas nos cinco atos centrais, e tradução escrita, para alimentar site e Facebook do evento. Apesar de trabalharem em dobro, coordenando o setor de traduções, os brasileiros não estão menos empolgados.

— Me vi forçada a saber de tudo um pouco. Aqui é uma imersão free nas línguas — brinca a carioca Thamiris Gonçalves, de 22 anos.

oglobo.globo.com | 11-07-2013

NOVA YORK - O Occupy Wall Street é lembrado toda vez que acontece uma nova manifestação progressista pelo mundo. Em Nova York, porém, muitos se perguntam o que de fato aconteceu com o movimento iniciado no Distrito Financeiro de Manhattan em setembro de 2011, inspirado na Primavera Árabe, e que logo se espalhou por centenas de cidades americanas num levante pacífico por uma série de causas, sobretudo contra a distribuição desigual de renda no país e suas consequências democráticas.

Com o slogan “Somos os 99%”, eles chegaram a conquistar a simpatia até do Nobel de Economia Joseph Stiglitz, que os considerou revolucionários. Mas acabaram expulsos do Zuccotti Park — no meio do caminho entre Wall Street e o World Trade Center — pela polícia após dois meses de acampamento. De lá pra cá, mais que uma articulação de massa com ações na rua, o OWS se diluiu em grupos de trabalho independentes, focados em assuntos específicos. Há o Occupy Alternative Banking, o mais ativo, que se debruça semanalmente sobre ideias para driblar o sistema financeiro tradicional; o Occupy Healthcare, que estuda mudanças na saúde; e coletivos ocasionais, como o Occupy Sandy, criado no rastro do furacão que afetou a cidade no ano passado.

O último grande protesto foi em maio de 2012, quando o OWS reuniu 20 mil pessoas na Union Square. Mas, a partir daí, as assembleias gerais foram escasseando. Em dezembro, o jornal britânico “Guardian” revelou que o FBI e o Departamento de Segurança Nacional estariam monitorando o movimento. Mês passado, o antropólogo David Graeber, occupier de primeira hora e hoje um dos mais influentes pensadores radicais contemporâneos, lançou o livro “O projeto da democracia”, em que tenta provar que a empreitada deu certo, apesar de — e sobretudo por — não ter apresentado demandas políticas concretas.

— Quando seu coração para e você vai para o hospital, te dão um choque elétrico; e é disso que o movimento precisa — reconheceu ao site “Huffington Post” em abril Kalle Lasn, criador do nome Occupy Wall Street e responsável por disponibilizar o material promocional do primeiro protesto em Nova York.

A reportagem do “HP” descreve uma reunião para planejar o protesto de 1º de maio deste ano: se em 2012 centenas se acotovelaram no átrio da sede do Deutsche Bank em Manhattan, desta vez havia apenas 11 pessoas.

oglobo.globo.com | 30-06-2013

RIO - A trilha sonora dos protestos que agitam as ruas do país marca uma diferença importante em relação às manifestações que, desde o início da crise econômica, sacudiram o continente europeu, especialmente a Espanha. No Brasil, o Hino Nacional é líder absoluto e indica um caráter menos disruptivo do movimento, vandalismos à parte. Questiona-se o sistema, mas não seus fundamentos.

Como os espanhóis, por aqui se exige transparência e o fim de privilégios de políticos, mas os ibéricos, que andam de ônibus com ar-condicionado, usam bilhete único, têm um sistema de saúde invejável e escola pública em tempo integral, apostam no autogoverno e na dissolução das estruturas políticas tradicionais. São os Indignados ou movimento 15M, que abriga várias plataformas ativistas.

No Brasil, apesar da rejeição aos partidos, a anarquia fica por conta dos vândalos. A pauta brasileira, mais conservadora, expressa nas faixas e nas redes sociais o desejo de um país mais honesto, com qualidade de vida no “padrão Fifa”.

Diferenças na pauta, semelhanças na mobilização. Aqui, como lá, não há líderes. No máximo representantes com funções específicas, pois a identidade é coletiva. Das redes sociais se salta às ruas.

A longevidade e a vitalidade dos Indignados dão singularidade ao movimento, pois o mesmo fenômeno não ocorreu em países com situações parecidas, abalados pela crise, como Grécia, Irlanda e Portugal.

Na Espanha, o uso do ambiente digital como cenário e canal de mobilização ganhou relevância a partir de 2009, quando bloguers, twitters e flickers abriram frentes de resistência contra uma nova lei de propriedade intelectual implantada pelo socialista José Luiz Zapatero. Somada a esse movimento, a defesa da cultura livre e da neutralidade na internet transformou-se numa crítica ao bipartidarismo PSOE-PP e ao sistema político, cuja expressão máxima foi a campanha #Nolesvote, dando origem ao movimento Democracia Direta Ya.

No dia 15 de maio de 2011, após uma manifestação que terminou na madrilenha Plaza Del Sol, 40 pessoas, sem motivo aparente, pernoitaram na praça. Pensaram nos manifestantes egípcios da Praça Tahir, mas não imaginavam que o mesmo poderia ocorrer, segundo relato de Miguel Arana, um dos fundadores. Naquela noite, criaram uma ação digital que levou as pessoas de volta às ruas para seguir com um protesto tão difuso como os o que ocorrem hoje no Brasil. Dois dias depois, a polícia desalojou a praça com violência, provocando adesão maciça ao movimento, que se espalhou pelo país e causou picos nos servidores das redes sociais.

Um estudo do DatAnalysis 15M demonstra esta adesão ao analisar a migração entre os tweets com hashtags de apoio ao movimento. Por meio das redes sociais, há um entrelaçamento de plataformas novas e já existentes, como Democracia Directa Ya, Contra Lei Sinde, No les Vote, Okupa e Plataforma dos Afetados pelas Hipotecas — PAH, formando um guarda-chuvas para distintas frentes de lutas.

Os Indignados nasceram com prática acumulada em redes sociais. Já haviam superado o clickativismo, que se limita a assinar petições virtuais e compartilhar enlaces. Desde o início, exercitam a tecnopolítica: usam a rede e o ciberespaço para ter efeitos dentro e fora dele, alterando o estado de ânimo das pessoas. Esse é o segredo de sua vitalidade, explica Javier Toret, do DatAnalyis 15M.

E as ações no mundo real vêm se multiplicando: a PAH enfrenta bancos com proposta de lei por iniciativa popular que muda as regras dos sistema hipotecário; a Candidatura d’Unitat Popular, CUP, conseguiu eleger três deputados no parlamento catalão; e, recentemente, foi lançado um partido sem rosto ou liderança, o Partido X, que pretende, em breve, tomar o poder.

Por estas bandas, ainda falta uma praça onde os manifestantes possam montar um acampamento para discutir cara a cara suas reivindicações e dar uma forma ao futuro. Por enquanto, estão marchando pelas ruas de um lado para o outro.

oglobo.globo.com | 23-06-2013

RIO - A fotógrafa catarinense Claudia Regina, de 24 anos, vive num apartamento de 40 metros quadrados em Copacabana, na Zona Sul do Rio, sem liquidificador, micro-ondas e torradeira. Simples até na dispensa do sobrenome, ela também não tem carro. Dentro de casa, apenas uma cama, poucos armários e um frigobar. Os cabelos são mantidos praticamente raspados, o que elimina a necessidade do uso regular de shampoo e condicionador, assim como o de pente ou escova. O publicitário paulista Michell Zappa, de 28 anos, mora nos Jardins, bairro de classe alta em São Paulo, num apartamento do mesmo tamanho do de Claudia, mas sem TV a cabo, DVD ou Blu-Ray. Até virtualmente ele cortou supérfluos. Tudo que ouve é em serviço de streaming — o que significa que não precisa baixar músicas —, e os livros estão armazenados num Kindle.

Não foi a ruína financeira que levou Claudia e Zappa a aderir à redução do estilo de vida ao essencial. Eles não se conhecem, mas comungam dos mesmos ideais quando o assunto é a maneira de consumir. Mais do que isso, fazem parte de um fenômeno social que já começa a ser debatido. É o que faz o pesquisador da PUC do Paraná Jelson Oliveira. Ele está concluindo o livro “Simplicidade”, que será lançado até o final do ano. Entre os temas abordados está um dos aspectos da questão que Oliveira mais gosta de ressaltar: o “culto de viver com menos” não tem nada a ver com pobreza:

— Adotar a ideia da simplicidade é estar disposto a abrir mão do excesso de bens de consumo. O aumento da procura por outra forma de viver é um sintoma de cansaço com a uma sociedade altamente consumista.

Criados na cultura digital, os adeptos da simplicidade voluntária subtraem móveis, roupas, sapatos, livros, qualquer bem de consumo considerado supérfluo de suas vidas. Ainda que seja um fenômeno social contemporâneo sem líderes nem regras, alguns usam o espaço virtual para divulgar suas ideias.

O escritor carioca Alex Castro, de 39 anos, que cresceu num apartamento de 600 metros quadrados na Barra da Tijuca, aderiu ao movimento e usa seu site pessoal para propagar suas ideias sobre a redução do estilo de vida ao essencial. A base de tudo é o minimalismo — movimento cultural do século passado que faz uso de poucos elementos fundamentais como base de expressão.

— Antes eu atrelava os momentos felizes a objetos inanimados. Um dia, fiquei irritado porque um amigo usou minha caneca. Decidi que não queria ser essa pessoa. Descobri que jogar fora os objetos não significa jogar fora as emoções. Passei a viver uma vida sem rastro, aumentando a prática do desapego.

Castro reduziu seus pertences de tal forma que garante caberem numa caixa. Poucas roupas e sapatos, assim como utensílios domésticos. Ele só não abre mão de investir num bom laptop, Kindle, celular, câmara digital e cachimbos. Todo o resto, teoriza, é supérfluo. Deixar tudo para trás, diz ele, é um exercício constante, que incluiu até livros caçados em sebos durante anos:

— Tenho menos objetos e mais tempo livre para mim. Não posso imaginar troca mais sensata.

A sensação de liberdade por se livrar da necessidade de ter dinheiro para consumir cada vez mais é repetida por todos os seguidores de uma rotina mais simples. O relatório “Estado do Mundo — 2010", da ONG ambientalista WorldWatch Institute, mostrou que apenas um terço da população mundial consome mais do que a Terra é capaz de repor. Os outros dois terços da população do mundo sequer conseguem ir às compras, já que apenas garantem sua própria sobrevivência.

Filósofos e escritores

A vida de pesquisador de tendências levou Michell Zappa a descobrir os benefícios do desapego. Hoje, é praticamente um nômade. Desde os 15 anos, quando saiu de São Paulo para morar em Estocolmo, na Suécia, troca de endereço periodicamente. Nos últimos sete anos morou em Amsterdã, Nova York e São Paulo. Cada mudança, lembra, exigia o exercício do desapego. Até que decidiu focar apenas em alguns móveis e objetos de arte, que ficam espalhados nas casas de familiares e amigos. O resto é “descartável”.

— Hoje tenho um apartamento pequeno, que comporta apenas um sofá, uma estante, um baú e uma mesa com duas cadeiras.

A simplicidade ultrapassa a adoção de uma atitude menos consumista, mas não significa um rompimento total com a sociedade de consumo. Implica fundamentalmente em trocar o supérfluo pelo essencial.

O desejo de ser feliz com menos é mais antigo do que se imagina. Na antiga Grécia, o filósofo Diógenes de Sínope condenava os luxos da civilização. Diógenes, o Cínico, como era conhecido, teria vivido pelas ruas de Atenas e sua única posse era uma cuia. E até dessa se livrou ao ver um menino usando as mãos em forma de concha para beber água. Mas Diógenes, vale esclarecer, achava que pobreza era virtude. Seus discípulos e o também filósofo Antístenes são considerados os primeiros a defender a ideia de que bens e glórias podem se tornar fontes de infelicidade e prisões do espírito.

No século XVIII, o pensador Jean-Jacques Rousseau pregava uma vida bucólica, em contato com a natureza, enquanto o francês Pierre-Joseph Proudhon, no século seguinte, chegou a criar substitutos do dinheiro, como a troca de produtos de acordo com o tempo de trabalho. Escritores como Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau também seguiram por caminhos semelhantes. No mundo contemporâneo, paradoxalmente, um dos exemplos de gente que adotou estilo de vida minimalista foi também um dos maiores criadores de símbolos de consumo. Steve Jobs, criador da Apple, marca-fetiche entre os adeptos do “menos é mais”, era minimalista em sua vida pessoal. Quando solteiro, vivia num ambiente decorado apenas com uma foto do físico Albert Einstein, uma luminária, uma cadeira e uma cama.

— A ideia de simplicidade volta aos debates com frequência. Nos anos 1960, por exemplo, surgiram numerosos movimentos que defendiam uma vida mais comunitária e menos individualista. O que há hoje é uma mercantilização do mundo. Isso estressa as pessoas, e a situação que leva a isso não mudou com o passar das décadas. Uma sociedade extremamente voltada para o consumo apenas complica. Não simplifica. E ainda causa impactos enormes no meio ambiente — argumenta Dulce Critelli, terapeuta e professora de filosofia da PUC de São Paulo.

Para ela, três fatores levam ao crescimento da tendência minimalista pelo mundo. Uma delas é o conceito de slow food que, ao criticar os efeitos padronizantes da fast food, reforçou a crítica ao ritmo da vida atual. O segundo é a crise econômica, que diminuiu o poder aquisitivo das pessoas e as fez repensar seus gastos. E, por fim, os movimentos de preservação ambiental, que não cansam de chamar a atenção, por meio de relatórios e documentos, para o excesso de consumo.

Consumo consciente

Pesquisa do Instituto Akatu, ONG que se dedica à conscientização da sociedade para o consumo consciente, mostra que o brasileiro não associa o sentimento de felicidade e de bem-estar à posse de bens. Das 800 pessoas entrevistadas, 66% apontaram a saúde, tanto a própria como a de parentes e de amigos, como um dos fatores para se sentirem satisfeitas. Apenas 33% indicaram aspectos relacionados ao consumo como condição primordial para o bem-estar. No quesito afetividade, a opção “passar tempo com as pessoas” levou nota 8,3; e “comprar presentes” conquistou 2,6 pontos.

Para Hélio Mattar, diretor-presidente do Akatu, existe uma tensão na sociedade de consumo que leva as pessoas a viverem um verdadeiro estresse cotidiano. Trabalha-se mais para se consumir mais. Um dos maiores dramas, para ele, é na economia. O excesso de desejo gera dívidas. Só que a vontade de comprar ainda mais não cessa, o que acaba alimentando um círculo vicioso que deixa a população numa situação vulnerável.

Segundo o Banco Central, cerca de 45% da renda anual da população estão comprometidos com dívidas. Por mês, o brasileiro gasta, em média, um quarto do salário para pagar o que deve. Os americanos, tradicionais consumistas, comprometem 16%. A consequência do aperto no orçamento é a dificuldade de manter em dia os compromissos financeiros.

Mattar lança mão de um estudo do WorldWatch Institute para discutir o tema:

— Aproximadamente 16% dos países mais ricos do mundo são responsáveis por 78% do consumo total. Isso já ultrapassa o que o planeta é capaz de repor. Agora pensemos na certeza de que o número de pessoas que compram em alta intensidade irá aumentar nas próximas décadas. O planeta aguenta?

Uma solução é o desapego a pertences físicos. Solução essa que ganhou um aliado no mundo virtual. Acervos de fotos, livros, revistas, papéis, DVDs e documentos, que costumam encher armários e gavetas, podem ser guardados virtualmente. Nos Estados Unidos, a venda de livros tradicionais tem caído todos os anos, em contraste com o crescimento do comércio de e-books.

O analista de mídias sociais Ian Black, de 32 anos, não tem tocador de DVD e diz não frequentar locadoras de vídeo há quatro anos. Nos últimos dez anos acumulou um acervo considerável de música e entretenimento digital. Tem mais de 20 mil faixas armazenadas. Possui também aproximadamente 400 filmes baixados. Para ele, um jeito torto de ser ecologicamente correto.

— Consumir menos também significa gastar menos recursos naturais. Mas há um lado de conveniência mesmo. Ter uma estante com centenas de CDs significa que você precisa investir um bom tempo organizando, limpando e ainda tirando da embalagem para colocar em um aparelho específico. Também vou, aos poucos, me livrando dos livros. É o que considero mais absurdo. Dificilmente são relidos e depois só servem como decoração e como peso desconfortável na mudança.

Black, que mora em São Paulo, diz que tenta aplicar o mesmo conceito para roupas. Cada vez mais se apega a peças lisas e fáceis de combinar, de maneira que não tomem tempo e espaço maiores do que o necessário:

— Não quero mais gastar tempo com detalhes supérfluos no meu dia a dia. Também não quero me matar de trabalhar para manter um estilo de vida mais extravagante. Recentemente, também mudei de escritório. Eu e minha equipe abandonamos uma casa alugada de 200 metros quadrados, na qual tínhamos que ter uma pessoa contratada exclusivamente para mantê-la funcionando. Optamos por um espaço mais central e menor que nos permita um contato maior com outros empreendedores. Nosso custo mensal passou de R$ 15 mil para R$ 3 mil.

A vida editada pode fazer diferença para casais como o ilustrador Bruno Algarve, de 30 anos, e a designer Daisy Biagini, de 29 anos. Ambos são paulistas. O estalo começou da parte de Algarve, quando, em 2005, percebeu que não conhecia mais a voz dos clientes. Todo o trabalho era desenvolvido através de e-mails. Viu, então, que não precisaria se prender a São Paulo para trabalhar.

Algarve convenceu Daisy a venderem tudo que tinham e viajar. O que sobrou foi colocado em dez caixas de papelão e armazenado em um quartinho na casa dos pais dela. Agora são apenas duas mochilas para cada um. Uma para roupas e outra para o escritório. Na do trabalho de Algarve ficam laptop, câmera fotográfica e pen tablet, espécie de prancheta digital muito usada por ilustradores. O valor dos três itens não ultrapassa R$ 3 mil.

— E dessa maneira já viajamos para Uruguai, Chile, Peru e Bolívia. Em cada lugar, ficamos em apartamentos ou pousadas. Trabalhávamos onde estivéssemos. De vez em quando, ficamos em São Paulo, mas em casas de amigos ou da família. Até adquirimos um carro para ter mais mobilidade. Mas lá vão apenas as quatro mochilas. A prioridade, na verdade, é viajar. O minimalismo acabou sendo uma consequência que nos ensinou a nos livrar de objetos e praticar o desapego — conta Bruno.

Radicalismo

Poucos pessoas, no entanto, conseguem ser tão radicais quanto o economista britânico Mark Boyle. Em 2008, exatamente no mesmo dia das notícias sobre a quebra dos bancos envolvidos em negócios no mercado de hipotecas, ele resolveu renunciar ao dinheiro. Era dono de duas empresas de comida orgânica, em Londres. Boyle vendeu tudo que tinha e hoje, cinco anos depois, vive em um velho trailer no Sudoeste da Inglaterra.

Hoje, escreve artigos para o jornal “The Guardian” sobre sua atual rotina. Foi logo batizado pelo veículo como “o homem sem dinheiro”. Virou celebridade e chegou a publicar um livro, chamado “O homem sem grana” (Ed. Best-Seller), já lançado no Brasil. Também possui um site pessoal na internet e dá palestras em que conclama as pessoas a renunciar ao dinheiro.

— Todos nós conhecemos os benefícios do dinheiro. Somos informados disso constantemente desde o momento em que nascemos. Na realidade, porém, a experiência de 99% da população me diz que nada disso está perto de ser verdade. O pior de tudo é que, quando olhamos para os problemas do mundo, todos sabemos que esse tipo de cultura em que estamos envolvidos é o principal responsável por grandes problemas ecológicos, sociais e pessoais — argumenta.

A fotógrafa Claudia não chegou ao extremo de Boyle, embora admita que raspar os cabelos foi uma forma de radicalização. Desde que trocou Curitiba pelo Rio — depois de largar a vida de empresária, ela tinha um escritório de webdesign na capital catarinense, e o marido —, ela passou a dar palestras sobre a vida minimalista:

— Minhas escolhas têm a ver com sustentabilidade e economia. Mas é também um ato político. Eu economizo, gasto menos recursos do planeta e me posiciono contra uma sociedade consumista.

Um dos primeiros ativistas desse estilo de vida, o americano Duane Elgin, autor do livro “Simplicidade voluntária”, previa na sua obra, de 1981, a necessidade de mudança. Ele deixava claro que descomplicar não significava fazer voto de pobreza. Mas reduzir a demanda por elementos externos que proporcionam uma dose limitada de satisfação e sensação de bem-estar.

— Desde então, muita coisa mudou. Lembro que nos anos 1970, nas minhas primeiras palestras, eu era visto como um cara excêntrico. Agora sou apresentado como um exemplo positivo de que é possível mudar. O tema passou a ser visto com menos complacência e mais urgência. Naquela época, havia poucos debates sobre mudanças climáticas, problemas de energia e água... Agora, quanto mais perto observamos o planeta, mais vemos que ultrapassamos a capacidade do mundo em assegurar nosso nível extremado de consumo — defende Elgin, em entrevista por email.

oglobo.globo.com | 21-05-2013

“A recuperada saúde de Wall Street está a espalhar-se como uma mancha de óleo, até mesmo à Europa, parente pobre do crescimento”, escreve o jornal Les Echos.

Assim, na Bolsa de Frankfurt, o índice DAX “mostra ganhos de 124% desde março de 2009”, enquanto Londres “está no nível mais alto desde 1 de novembro de 2007”.

Para o diário económico, “os mercados beneficiam de vários elementos favoráveis”, sobretudo os bons números da produção industrial no Reino Unido e na Alemanha, os bons resultados das empresas e também a acalmia das tensões sobre as dívidas soberanas.

Uma estabilização da crise da dívida que

também tranquiliza os investidores, que não se mostraram indiferentes ao regresso aos mercados financeiros de Portugal [e até 2014, a própria Grécia espera voltar aos mercados].

www.presseurop.eu | 10-05-2013

LONDRES E ATENAS - Estudo do economista político David Stuckler, da Universidade de Oxford, e Sanjay Basu, epidemiologista da Universidade Stanford, revelou que as políticas de austeridade adotadas pelos países estão tendo um efeito devastador sobre a saúde da população. O caso da Grécia é especialmente dramático. Segundo os dois acadêmicos, com a redução do acesso a medicamentos e atendimento médico, casos de suicídio, depressão e doenças infecciosas cresceram no país. A Grécia voltou até mesmo a registrar casos de malária, depois que os cortes orçamentários do governo afetaram os programas de combate ao mosquito transmissor.

Em um livro a ser lançado nesta semana, Stuckler e Basu afirmam que mais de dez mil suicídios e até um milhão de casos de depressão foram diagnosticados durante o período que eles batizaram como “Grande Recessão”, quando os governos da Europa e da América do Norte adotaram medidas de austeridade. Na Grécia, medidas como cortes orçamentários nos programas de prevenção à Aids coincidiram com um aumento de mais de 200% nas infecções pelo vírus HIV desde 2011 — o que tem como explicação também a disparada no uso de drogas, num contexto em que o desemprego juvenil chega a 50%.

Pressionado pela troika — formada por União Europeia (UE), Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Central Europeu (BCE) —, o governo grego, liderado pelo conservador Antonis Samaras, adotou medidas de aperto fiscal, para reduzir o déficit público, num plano que envolveu cortes de gastos e o aumento de impostos. Na mais recente medida, o Parlamento grego aprovou no último domingo um plano de demissão de 15 mil servidores até 2014.

A economia grega continua em queda livre, tendo encolhido 20% nos últimos cinco anos. A taxa de desemprego supera os 27%, o maior patamar da Europa. A maior parte dos desocupados está sem trabalho há mais de um ano. Segundo reportagem do “New York Times”, a crise grega também se reflete na fome, especialmente de crianças.

“Nossos políticos precisam levar em conta as sérias e em alguns casos profundas consequências das escolhas econômicas”, disse, em nota, Stuckler, coautor do livro “The Body Economic: Why Austerity Kills” (A economia do corpo: por que a austeridade mata).

“No final, o que vimos é que a piora da saúde não é uma consequência inevitável das recessões econômicas. É uma escolha política”, disse, por sua vez, Basu na nota.

oglobo.globo.com | 30-04-2013

ATENAS - A Grécia pode receber cerca de € 3,2 bilhões de auxílio financeiro emergencial antes do planejado para cobrir parte de suas necessidades de financiamento, informaram jornais gregos neste sábado. A economia grega recebeu de seus credores internacionais um atestado de saúde neste mês, que assegurou o desembolso de ao menos € 2,8 bilhões em ajuda. Espera-se que o montante seja aprovado ainda neste mês. A Grécia ainda tem programado para receber mais € 6 bilhões, via fundos da União Europeia (UE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI) em maio.

Os jornais “Kathimerini” e “Ta Nea” afirmaram, no entanto, que, além desse dinheiro, Atenas pode obter também € 3,2 bilhões a mais do socorro da UE, destinados a ajudar o país a cobrir parte de suas necessidades de financiamento para o segundo trimestre do ano.

O ministro das Finanças do país negou-se a comentar as reportagens. Atenas já conseguiu cerca de € 200 bilhões em empréstimos do resgate desde meados de 2010 e cerca de € 44 bilhões de ajuda ainda a ser desembolsada.

A chamada “troika” — formada por Comissão Europeia, FMI e UE — concluiu sua revisão do plano de resgate grego mais cedo neste mês, e sua próxima inspeção deve ocorrer em junho. Até lá, a Grécia deve ter levado a cabo suas primeiras grandes privatizações e definir como irá cobrir um déficit orçamentário que varia entre € 2 bilhões e € 4 bilhões para os anos de 2015 e 2016.

O governo de coalizão grego descartou a possibilidade de adotar novas medidas de austeridade e espera que uma forte recuperação possa criar receita o suficiente para compensar o déficit.

oglobo.globo.com | 20-04-2013
w3architect.com | hosting p2pweb.net
afromix.org | afromix.info | mediaport.net | webremix.info