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Grécia Saúde

RIO - Praticamente todo mundo já ouviu falar que caminhar faz bem para a saúde, mas um grupo de pesquisadores da Universidade Highlands do Novo México, EUA, encontrou mais um inusitado benefício da prática. Segundo eles, o impacto dos pés no chão produz ondas de pressão nas artérias que alteram significativamente o suprimento de sangue para o cérebro, podendo ajudar a aumentá-lo.

Links cérebro

Até pouco tempo atrás, achava-se que o fluxo de sangue para o cérebro era regulado de forma involuntária pelo corpo, sendo pouco afetado por mudanças na pressão causadas por exercícios. Recentemente, no entanto, cientistas da mesma universidade americana e de outras instituições descobriram que o impacto dos pés no chão durante a corrida geravam forças equivalentes a entre quatro e cinco vezes a da gravidade terrestre. Estas forças, por sua vez, produziam ondas de pressão nas artérias que se sincronizavam com a frequência cardíaca e o ritmo das passadas, regulando a circulação de sangue no cérebro de forma dinâmica.

Experimento com ultrassom

Diante disso, os pesquisadores decidiram verificar se algo parecido acontecia nas caminhadas. Para tanto, eles usaram ultrassons para calcular o fluxo sanguíneo em ambos hemisférios cerebrais a partir de medidas tanto da velocidade destas ondas quanto do calibre das artérias carótidas de 12 jovens adultos saudáveis enquanto ficavam parados em pé ou andavam de forma constante num ritmo tranquilo, de cerca de 3,6 km/h. Eles então constataram que embora o impacto dos pés no chão durante uma caminhada seja muito menor do que numa corrida, andar calmamente ainda produzia ondas de pressão poderosas o bastante para elevar o fluxo de sangue para o cérebro.

— O que é mais surpreendente é que demoramos tanto para finalmente medir estes óbvios efeitos hidráulicos no fluxo sanguíneo para o cérebro — diz Ernest Greene, líder do estudo, que apresentou seus resultados em palestra ontem durante a reunião anual da Sociedade Americana de Fisiologia (APS, na sigla em inglês) como parte da conferência Experimental Biology 2017, que acontece desde sábado e vai até amanhã em Chicago. — Há uma otimização de ritmo entre o fluxo sanguíneo cerebral e o caminhar. Tanto o ritmo das passadas quanto seus impactos com os pés estão dentro da gama de uma frequência cardíaca normal, de até cerca de 120 batimentos por minuto, quando nos movemos de forma apressada.

Cardiologista e diretor de pesquisas da Clínica de Medicina do Exercício (Clinimex), Claudio Gil Araújo lembra que o fluxo de sangue para o cérebro não é regulado por um único mecanismo, mas reconhece que a descoberta do grupo americano, embora aparentemente em caráter preliminar, reforça a noção de que o corpo busca sincronizar seus ritmos para atingir um equilíbrio entre o metabolismo e a atividade motora.

— Nosso corpo é um mecanismo complexo que nenhuma máquina conseguiu imitar ainda, com um acoplamento entre a respiração e a atividade cardíaca e entre a ação motora e a resposta cardiorrespiratória — destaca. — Assim, num organismo saudável, o cérebro tem uma espécie de comando central, uma função alta e sofisticada, que informa o corpo para realizar uma atividade motora e depois “ouve” as respostas do próprio corpo para modular esta atividade em busca, em última instância, da homeostasia, isto é, de manter todos seus parâmetros constantes, como a quantidade de oxigênio disponível para os músculos, mesmo em situações de estresse físico, como durante a prática de exercícios.

Outro que não se surpreendeu com a constatação dos pesquisadores americanos foi o especialista em preparação física e coaching em tempo integral Nuno Cobra Júnior. Segundo ele, o benefício das caminhadas para o fluxo sanguíneo cerebral já era conhecido desde a Grécia antiga, embora ele também admita que a descoberta de um mecanismo hidráulico envolvido neste processo seja um importante passo para aprofundar nossa compreensão da causa e do modo como isso acontece.

— Aristóteles já dizia que andar é a melhor forma de pensar — cita. — Sabemos também, por exemplo, que a atividade física leve ou moderada promove a neurogênese, isto é, a produção de novos neurônios, e que criamos novas conexões intraneurais através do aprendizado de movimentos novos. Tudo isso mostra a importância da atividade motora para a saúde cerebral. E é por isso também que os efeitos da atividade física no cérebro estão sendo cada vez mais estudados pela neurociência.

Já o neurologista Daniel de Souza e Silva, pesquisador em neurofisiologia na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), ressalta que, embora o mecanismo descrito pelos cientistas americanos seja de uma simplicidade surpreendente, o material disponível sobre o estudo ainda é limitado, não trazendo, por exemplo, uma quantificação do efeito das caminhadas sobre o fluxo sanguíneo cerebral.

— Depois de demonstrado, este mecanismo se mostra um tanto óbvio, mas a falta de mais dados coloca em dúvida seu real impacto na saúde e funcionamento do cérebro — considera. — Por isso quem faz a prática clínica como eu fica muito cauteloso na hora de abraçar uma conclusão dessas. Ainda assim, prevejo para o futuro uma série de outros artigos e estudos se baseando e ampliando esta descoberta, já que estes achados costumam começar assim, como algo observacional.

oglobo.globo.com | 25-04-2017

RIO, SÃO PAULO E BRASÍLIA - A reforma da Previdência se transformou em batalha. Além das dificuldades no Congresso — com as 146 emendas apresentadas, inclusive por partidos da base aliada —, o texto proposto pelo governo sofre agora resistência nas ruas e nos tribunais. Ontem, milhares de brasileiros se manifestaram contra a proposta em pelo menos 23 estados do país, em atos organizados por centrais sindicais. Enquanto isso, uma decisão da Justiça Federal de Porto Alegre determinou a suspensão da propaganda oficial sobre a necessidade de aprovar as mudanças nas regras da aposentadoria.

Os protestos, que também criticaram a reforma trabalhista, começaram logo cedo. Em Brasília, a Esplanada dos Ministérios foi tomada no início da manhã e parte dos que participavam do ato chegou a invadir o Ministério da Fazenda, quebrando vidraças e jogando paus e pedras.

Previdência1503

No Rio, ocorreram vários protestos ao longo do dia. O maior deles foi no fim da tarde, no Centro da cidade. Cem escolas não tiveram aulas por causa da adesão dos professores à paralisação, o que significa 5% da rede de dois mil colégios, segundo o Sindicato dos Professores do Município do Rio de Janeiro e Região (SinproRio). Outras duas manifestações foram organizadas pela Frente Internacionalista dos Sem-Teto e pelo Sindicato de Estivadores do Rio de Janeiro perto da Avenida Brasil.

O professor Carlos Eduardo Melo Cunha, de 26 anos, estava entre os participantes do protesto realizado no Centro:

— Vim porque a reforma é injusta. A gente tem de lutar. Já somos muito prejudicados.

Após pouco mais de uma hora de protesto, houve confronto entre manifestantes e agentes da Polícia Militar e da Guarda Municipal, que dispararam bombas de efeito moral. Um grupo de mascarados, que acompanhava o ato deste o início com placas a favor da “tática Black Block”, foi visto caminhando ao lado de manifestantes que protestavam de forma pacífica. Houve registro de confrontos em outros pontos da cidade, como a Cinelândia e a Praça Tiradentes.

Apesar dos protestos, os ônibus circularam normalmente na capital carioca, contrariando o anúncio de greve da noite anterior. Situação diferente da enfrentada em Belo Horizonte, onde houve paralisação de metroviários, petroleiros e de servidores da educação municipal, da saúde e da limpeza urbana, além de categorias administrativas. Várias escolas e faculdades privadas também não funcionaram.

Em São Paulo, diversas categorias também aderiram às paralisações, entre elas bancários, metalúrgicos, metroviários e motoristas de ônibus. A greve nos transportes públicos afetou, pela manhã, afetando seis milhões de usuários. O engarrafamento bateu recorde e chegou a 201 quilômetros.

Na Avenida Paulista, um ato no fim da tarde contou com a presença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que discursou por quase dez minutos. Ele afirmou que o “golpe” que tirou a presidente Dilma Rousseff do poder tinha o objetivo de “acabar com as conquistas dos trabalhadores”:

— Está ficando cada vez mais claro que o golpe dado neste país não foi só para tirar a Dilma, mas também para colocar um cidadão sem nenhuma legitimidade para acabar com as conquistas da classe trabalhadora ao longo de anos, com a reforma trabalhista e com a reforma da Previdência.

Professores das redes pública e particular também fizeram greve. Os metalúrgicos do ABC, berço político de Lula, paralisaram as atividades na Volkswagen, em São Bernardo, por 24 horas.

TEMER: PROPOSTA É PARA ‘EVITAR COLAPSO’

Enquanto isso, o governo viu sua campanha publicitária em prol da reforma contestada na Justiça. A 1ª Vara Federal de Porto Alegre determinou nesta quarta-feira a suspensão, em todo o país, da propaganda, que tem como mote “reformar hoje para garantir o amanhã”. A ação civil pública foi ajuizada contra a União por sete sindicatos de trabalhadores com sede no Rio Grande do Sul.

LEIA MAIS: Reforma da Previdência reduziria gastos de 18,8% para 11,5% do PIB

Reforma da Previdência: entenda a proposta em 22 pontos

A juíza federal Marciane Bonzanini, que assina a decisão, entendeu que há uso inadequado de recursos públicos e desvio de finalidade: “A proposta de reforma da Previdência não se inclui em categoria de atos, programas, obras, serviços e campanhas dos órgãos públicos. Diversa seria a situação de esclarecimentos acerca de alterações constitucionais ou legislativas já vigentes. Por outro lado, a campanha publicitária questionada não possui caráter educativo, informativo ou de orientação social, restringindo-se a trazer a visão dos membros do partido político que a propõe e passando a mensagem de que, caso não seja aprovada a reforma proposta, o sistema previdenciário poderá acabar”, avaliou.

Marciane determinou multa diária de R$ 100 mil em caso de descumprimento. A Advocacia-Geral da União (AGU) disse que vai recorrer, mas ainda não foi notificada. Já o Palácio do Planalto não comentou a decisão da Justiça.

Quantos aos protestos à reforma da Previdência, o governo vê com “normalidade”. O presidente Michel Temer não comentou as manifestações, mas disse que a mudança nas regras é necessária para “evitar um colapso”:

— Não podemos fazer uma coisa modestíssima. Ou daqui a quatro e cinco anos temos de fazer como Portugal, Espanha e Grécia. Nós apresentamos um caminho para salvar a Previdência do colapso, para salvar os benefícios dos aposentados de hoje e dos jovens que se aposentarão amanhã.

No Congresso, o governo deve ter que lidar com mais resistência de parlamentares. Nesta quarta-feira, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), reabriu o prazo para entrega de emendas ao texto da reforma — que agora terminará quinta-feira à tarde.

A estratégia do governo tem sido buscar unificar o discurso de partidos da base aliada. Para isso, conta com a ajuda de integrantes da equipe econômica, que têm apresentado números como o déficit de R$ 258,7 bilhões da Seguridade Social em 2016.

oglobo.globo.com | 16-03-2017

RIO — A expectativa de vida continuará aumentando nos países desenvolvidos e alcançará os 90 anos em 2030 para as mulheres de países como a Coreia do Sul, França e Espanha, revela um estudo publicado nesta quarta-feira.

LINKS LONGEVIDADE

— Até pouco tempo atrás, muitos cientistas pensavam que a expectativa de vida nunca ultrapassaria os 90 anos — lembrou o professor Majid Ezzati, autor principal do estudo publicado na revista médica britânica "The Lancet".

Após combinar 21 modelos matemáticos para prever a evolução da expectativa de vida em 35 países desenvolvidos, os pesquisadores chegaram à conclusão de que as mulheres sul-coreanas são suscetíveis de superar os 90 anos até 2030.

A expectativa de vida de uma sul-coreana ao nascer em 2030 será de 90,8 anos, enquanto que a das espanholas será de 88,07 anos, a das francesas, 88,6 anos, e a das japonesas, 88,4 anos.

A expectativa de vida também evoluirá para os homens, e a diferença em relação às mulheres (que são mais longevas) tenderá a se reduzir em 2030, exceto no México, onde aumentará ligeiramente, e no Chile, França e Grécia, onde ambos os sexos avançarão de forma similar.

Os homens sul-coreanos terão uma esperança de vida de 84,1 anos, à frente de australianos e suíços, ambos com uma expectativa de 84 anos, enquanto a dos espanhóis será de 83,4 anos.

Segundo as últimas estatísticas da Organização Mundial de Saúde (OMS), publicadas no ano passado, os três países com maior expectativa de vida para as mulheres em 2015 eram Japão (86,8 anos), Cingapura (86,1 anos) e Espanha (85,5 anos). No caso dos homens, eram Suíça (81,3 anos), Islândia (81,2) e Austrália (80,9).

O dado vai melhorar claramente na Coreia do Sul, com uma alta de 6,6 anos para as mulheres, e de sete anos, para os homens entre 2010 e 2030.

Esse país melhorou o acesso aos cuidados médicos e vem promovendo uma alimentação saudável entre crianças e adolescentes. Além disso, tem taxas de obesidade e de tabagismo entre as mulheres inferiores às da maioria dos países analisados, de acordo com os pesquisadores.

POUCA MUDANÇA NOS EUA

O estudo também revela que a situação não mudará significativamente até 2030 nos Estados Unidos, onde a expectativa de vida já é inferior à da maioria dos países desenvolvidos.

A expectativa de vida para as mulheres americanas passará de 81,2 anos, em 2010, para 83,3 anos, em 2030, e de 76,5 para 79,5 anos para os homens.

Para explicar essa situação, os pesquisadores destacam as desigualdades persistentes, a ausência de um sistema de saúde universal e as altas taxas de mortalidade infantil e materna, assim como de homicídios e de obesidade.

A progressão no México será similar à dos Estados Unidos. Para as mulheres, a expectativa de vida passará de 78,9 para 82,9 anos entre 2010 e 2030. No caso dos homens, pulará de 73,1 para 76,1 anos.

No Chile, a expectativa de vida das mulheres passará de 82,9 para 86,8 anos, e a dos homens, de 76,7 para 80,7.

O estudo também revelou que, em geral, os homens melhoraram seu estilo de vida. Antes "fumavam e bebiam mais e eram vítimas de acidentes e homicídios com mais frequência", disse Ezzati, do Imperial College de Londres, para explicar a progressão da expectativa de vida masculina.

oglobo.globo.com | 22-02-2017

LONDRES – A Europa enfrenta um crescente risco de surtos de novas doenças que podem ser difíceis de serem detectados e interrompidos à medida que o aquecimento global deixa o continente mais vulnerável a vírus e outros males trazidos por turistas e comércio, alertaram especialistas em saúde pública nesta quinta-feira. Segundo eles, um exemplo disso é a doença de Lyme. Transmitida por carrapatos, elas está avançando da Rússia à Grã-Bretanha e Croácia com a alta das temperaturas, enquanto a dengue, transportada por viajantes, ameaça se estabelecer em países do Sul da Europa, como Itália e Grécia. E o vírus da febre do Oeste do Nilo e a malária, assim como a zika, também já são motivos de preocupação.

- A União Europeia é um foco para emergência de doenças comunicáveis, e está muito conectada com outros focos do tipo – avisou Jan Semenza, que chefia a avaliação científica do Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDC, na sigla em inglês), sediado na Suécia.

De acordo com Semenza, com 590 milhões de pessoas desembarcando nos aeroportos da Europa apenas em 2015 – um dos setores aéreos mais movimentados do mundo – e as mudanças climáticas, muitas partes da Europa estão mais vulneráveis à chegada de doenças que podem ser espalhar e correm risco de se estabelecerem. Hoje, 61% dos surtos de doenças que preocupam as autoridades de saúde pública na Europa são alimentados pela globalização – o que inclui o turismo e o comércio - e as mudanças ambientais, afirmou ele durante debate sobre o assunto no Instituto Grantham, do Imperial College London, esta semana. O que é particularmente preocupante para os especialistas é que apenas uns poucos países europeus, incluindo Reino Unido e Espanha, consideram que seus sistemas de monitoramento de doenças estão aptos para acompanhar estas novas ameaças, acrescentou.

- A maioria dos sistemas de vigilância europeus afirmam não poderem lidar com as mudanças climáticas – contou Semenza.

O ECDC, criado em 2005 a reboque das preocupações com o avanço da gripe asiática e da síndrome respiratória aguda severa (Sars, também na sigla em inglês), está ficando cada vez melhor em monitorar e prever epidemias “que poderiam solapar o sistema, eventos catastróficos que não teremos como aguentar”, disse o pesquisador. Os cientistas, por exemplo, já têm informações de onde o mosquito da dengue poderia sobreviver na Europa, e durante quais meses, com dados de onde e quando passageiros de países com surtos de dengue estão chegando no continente. Isso fez os aeroportos de Milão e Roma, por exemplo, receberem alertas de alto risco de transmissão de dengue para ajudá-los a monitorar os desembarques neste período, destacou Semenza.

Os cientistas no centro na Suécia – contraparte europeu do americano Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC) – também foram capazes de prever surtos da febre do Oeste do Nilo em 2014 com 87% de acerto com base nas temperaturas do verão, a localização dos campos alagados e as rotas de migração dos pássaros que são hospedeiros da doença. Um surto de malária na Grécia em 2011 também foi eficazmente contido depois que os especialistas em saúde identificaram outras áreas com as mesmas características da que sofreu a epidemia – temperaturas cálidas, baixas elevações e campos irrigados – e criaram um mapa usado em campanhas de fumacê contra o mosquito.

Mas a ameaça que tira o sono de Semenza é a zika. O aquecimento da Europa pode facilitar a transmissão do vírus à medida que os mosquitos se espalham, disse. Um surto de zika na América Latina coincidiu com milhares de casos de microcefalia – uma severa malformação congênita associada com cabeças de tamanho reduzido – em crianças nascidas de mulheres expostas ao vírus. Com o CDC estimando o custo de atendimento destas crianças nascidas com microcefalia por toda vida em US$ 1 milhão a US$ 10 milhões, esta é uma doença que a Europa não tem condições de enfrentar.

- A zika é a que mais assusta – concluiu.

oglobo.globo.com | 09-02-2017

O título deste artigo é o mesmo de um livro do reconhecido filósofo americano Noam Chomsky a respeito do sistema econômico que rege alguns dos principais países do mundo ocidental. Suas considerações estão cada vez mais presentes em nossa atualidade, e todos nós deveríamos estar mais atentos aos caminhos aos quais somos conduzidos por aqueles que, em diversos segmentos de nossa sociedade, são detentores de algum tipo de poder.

Outro livro clássico, “A riqueza das nações”, de Adam Smith, deu origem ao capitalismo liberal. Diferentemente dos dias de hoje, Adam Smith não restringia ao autointeresse o motor da economia; esse era também admitido, ao lado da principal meta, que ele colocava como sendo o bem-estar da sociedade. Havia no criador do sistema capitalista um sentimento social. E devemos lembrar que o grande pecado da Grécia Antiga, da qual nossa civilização se origina, era a chamada húbris, que pode ser traduzida como desmedida; ou seja, tudo que se torna um exagero distorce os seus princípios. Assim, o neoliberalismo, e o que hoje chamo de financismo, privilegiou unicamente o interesse dos poucos detentores de poder e riqueza.

Hoje nos defrontamos estarrecidos com medidas governamentais que se enquadram nessa situação. O lucro, seja ele em que sentido for, tornou-se muito mais importante que as pessoas. O pagamento de dívidas a instituições financeiras ou similares toma o lugar do pagamento de dívidas em relação à população. Educação e saúde, dois compromissos absolutos de qualquer governo que se preze, são jogadas à margem para beneficiar algo volátil e sem valor próprio, o dinheiro, e para privilegiarem instituições que nada produzem a não ser intermediar essa matéria com a cobrança de juros absolutamente escorchantes. Nossos juros de 13% deixam longe a Alemanha e a França, com 0,05%; os Estados Unidos, com 0,25%; o Reino Unido, com 0,5%.

A falta de pensamento social por parte dos servidores públicos que se dizem “autoridades” alojadas no Congresso Nacional e no Palácio do Planalto é gritante. Também é gritante a falta de atenção da população em geral para a real doença de nossa economia. São ainda poucos os movimentos isolados protestando contra a desconstrução de nossa saúde pública, uma obrigação do Estado, como reza a Constituição Cidadã de 1988, assim como contra a desconstrução da educação pública que forma os cidadãos.

Que cada um de nós, cada vez mais, se conscientize de que decisões isoladas, e tantas vezes parciais, não podem estar acima do bem da sociedade como um todo. E para isso não ocorrer, é importante a participação de todos em relação a esses assuntos.

Luiz Roberto Londres é médico e diretor do Movimento Participação Médica

oglobo.globo.com | 16-01-2017

Foi com a vontade de embarcar em uma aventura emocionante, e também dramática, que o jornalista brasileiro André Naddeo deixou para trás a vida no Rio e viajou à Grécia. Tudo para ver com os próprios olhos o epicentro da crise migratória que atinge a Europa. Depois de meses no país, ele agora investe seu tempo em um projeto para dar voz a quem, depois de perder casa e pátria, se vê também sem a chance de nem mesmo contar a própria história. A sua iniciativa “I am immigrant” (Eu sou imigrante, em português) ensina refugiados de várias origens a manusear equipamentos para produzir um documentário, que deverá ser lançado em março. E os protagonistas, dessa vez, não poderiam ser ninguém além dos próprios imigrantes em sua longa e angustiante jornada para uma nova vida.

A ideia surgiu quando o jornalista, que tem 35 anos, chegou ao porto de Pireu em abril, na primeira vez que pisou em território grego. Lá, encontrou um campo improvisado de refugiados, hoje já desmantelado, onde à época viviam clandestinamente cerca de 2 mil pessoas em péssimas condições. Decidiu ele também se juntar, com seu cobertor e travesseiro, às tendas ali montadas durante 45 dias. Com o tempo, venceu a desconfiança dos imigrantes, inicialmente receosos sobre a sua presença, e passou a conhecer as trajetórias que os levaram até ali. E não demorou para que ele notasse quão fértil era aquele terreno para fazer nascer boas histórias.

Idealizado por Naddeo, o projeto conta hoje com outros três brasileiros e uma portuguesa para realizar oficinas de inglês, fotografia e filmagem. Os seus 25 alunos, por sua vez, vêm do outro lado do mundo: sobretudo da Síria — devastada por uma sangrenta guerra civil —, além de Argélia, Marrocos e Egito. No ambiente multicultural, dois tradutores ajudam na comunicação do dia a dia: Laila, uma espanhola de origem marroquina, e Faridon, um afegão que fala vários dialetos.

Filhos convencem mães a dar depoimento

Nas aulas, os refugiados são convidados a colocar a mão na massa. Professores e alunos, cuja maioria é de jovens entre 18 e 25 anos, se reúnem nos chamados squats, ocupações em prédios abandonados no centro de Atenas onde vivem os imigrantes à espera de uma resposta para os seus pedidos de asilo na Europa.

— O conceito desta experiência é dar voz aos refugiados. É um passo diferente, com um novo formato para capacitá-los a produzir o próprio conteúdo. É muito mais justo que eles mesmos estejam se filmando, tirando suas fotos e entrevistando uns aos outros, seus familiares e seus amigos. Damos as ferramentas para que eles contem as suas histórias — explicou Naddeo, por telefone da capital grega, ao GLOBO.

Com equipamentos simples, como máquinas não muito complexas ou até mesmo celulares, os filhos convencem suas mães, por exemplo, a falarem para a câmera — as mulheres mais velhas, sobretudo muçulmanas, tendem a evitar expor a sua imagem. Alguns viram as lentes para si mesmos; e outros filmam momentos emocionantes das suas famílias, como se fossem apenas observadores. Destes pequenos capítulos sairá o documentário no final no ano que vem. No pano de fundo, estão a longa espera para conseguir as entrevistas do burocrático processo de solicitação de abrigo; a ansiedade e a falta de perspectivas em um continente tão diferente e, ainda, a sensação de ter sido esquecido pelo resto do mundo.

— São várias histórias que acontecem ao mesmo tempo. Uma delas, por exemplo, é a da síria Roro e do seu marido, que vive na Alemanha porque já conseguiu os papéis necessários; e ela ainda não. Eles não se viam há um ano e meio. E, no meio do processo, ele veio visitá-la. Demos a câmera na mão do sobrinho do casal, que filmou todo o reencontro, desde o momento em que ela saiu de casa para buscá-lo. O abraço no aeroporto é uma cena linda — contou o brasileiro.

Relatos para o mundo

A partir de janeiro, caberá aos jornalistas e fotógrafos à frente do projeto apenas montar o quebra-cabeças na fase de edição das imagens. Em seguida, o objetivo da iniciativa — que tem apoio financeiro de uma empresa brasileira que trabalha para a inclusão social no setor da saúde — é levar o filme a festivais independentes pelo mundo. A primeira exposição de fotos e de pequenos trechos do documentário já está marcada para o ano que vem em Lisboa.

As experiências do projeto já dão uma prova do clima esperado para o resultado final. No Facebook, o “I am immigrant” já tem vídeos curtos que apresentam, um a um, alguns participantes — e um poço de personalidades por trás do rótulo imposto a quem vive como refugiado. Lá, já encantam os depoimentos de Dani Dark Muhannad, um sírio apelidado de “o refugiado metaleiro”; Sajjad Gholami, um jovem iraniano apaixonado por futebol; ou Mouhip El-Rifay, um ex-taxista sírio, de olhos profundamente azuis, que já morou na Venezuela e hoje apenas sonha em rever seus dois filhos na Alemanha.

oglobo.globo.com | 25-12-2016

Temer diz que Imbassahy será aproveitado 'em momento oportuno'

FORTALEZA — O presidente Michel Temer disse, nesta sexta-feira, que, "no momento oportuno", aproveitará o líder do PSDB na Câmara, deputado Antonio Imbassahy, no governo. Temer afirmou que as "circunstâncias políticas" é que definirão quando isso acontecerá, sinalizando que a decisão só deve ocorrer no início do ano que vem. Descontraído e com um discurso forte, Temer disse que a oposição "falseia" sobre a PEC do teto dos gastos públicos, que tem um "apoio extraordinário" do Legislativo e que "só governa porque tem diálogo com o Legislativo".

Temer disse que Imbassahy ainda não foi convidado para um cargo, mas que em breve conversará com o tucano:

Imbassahy — 9/12

— Tenho o maior apreço por ele, conversarei com ele, devo aproveitá-lo no governo, não tenho a menor dúvida disso. Mas tudo isso tem um momento certo. E o momento certo será definido pelos diálogos que eu terei ao longo do tempo. Vou ter várias conversas, e o momento oportuno as circunstâncias dirão — disse Temer, ao ser perguntado se a escolha ficaria para depois.

Temer havia escolhido o tucano para ser o novo Secretário de Governo, mas houve reação do chamado Centrão, grupo de parlamentares na Câmara ligado ao ex-presidente da Casa Eduardo Cunha.

— O Imbassahy é uma figura preciosa do Legislativo brasileiro, tem o meu apreço pessoal, minha admiração política, apenas noticiou-se que ele já tinha sido convidado e ele não tinha ainda sido convidado — disse Temer.

Após a crise entre os Poderes por causa do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), Temer disse que "depende" do Legislativo para governar.

— Vivemos abalos constitucionais e, quando pensamos no abalo, pensamos no Legislativo. Temos que respeitar o Legislativo, porque é dele que o Executivo depende. Eu só governo porque dialogo com ele (Legislativo) — disse Temer, enfático:

— Conseguimos fazer como linha básica do governo o diálogo. E conseguir um apoio extraordinária no Congresso, temos conseguido aprovar matérias difíceis com uma larga margem na Câmara e no Senado. Quero homenagear o Congresso.

TETO DOS GASTOS

Com discurso forte, Temer atacou a oposição e disse que o papel dos opositores na democracia é de ajudar a governar e a fiscalizar. Temer disse que o teto para os gastos públicos será aprovado na próxima terça-feira, dia 13, e agradeceu o "apoio extraordinário" do Congresso.

— Ao lado do diálogo, temos a responsabilidade fiscal, de um lado; e a responsabilidade social, de outro. Vivemos uma situação complicada, recessiva e que dela estamos tentando sair, com décifit de R$ 170 bilhões. Nossos ouvidos se acostumaram aos bilhões. Falamos em bilhão como se fosse a coisa mais trivial do mundo. Quando lançamos a PEC dos gastos, estávamos cortando na própria carne. Faremos orçamentos apenas com a inflação e nada mais do que isso. É um teto geral. Então, há naturalmente prioridades que iremos atender, e Educação e Saúde serão prioridades por um longo momento. Ouço discursos vigorosos contra. E contra o argumento, eu ofereço o documento. É o Orçamento do ano que vem, e aprovado será agora no dia 13 — disse Temer.

Para ele, é preciso "desmistificar as informações".

— As pessoas não podem opor-se simplesmente porque são oposição. A ideia de oposição da democracia é para fiscalizar, ajudar a governador, mas não pode falsear. Mas a cultura é que se sou oposição tenho que destruir quem está no governo — disse ele.

Temer disse ainda que o diálogo é fundamental também com o Poder Judiciário.

ÉTICA

Num momento de crise e de acusações envolvendo o seu nome, Temer falou em ética.

— As pessoas querem eficiência, ética na política. Os fatos foram levados a tal ponto que levaram a esse ponto (atual).

Ele estava sentado ao lado do governador, Camilo Santana (PT), adversário do líder do PMDB no Senado, Eunício Oliveira (CE), e aliado dos irmãos Ciro e Cid Gomes.

— Falam que o nosso governo mexeu em algumas questões sociais. Sou relator e vamos aprovar na próxima terça-feira a PEC. Jamais o presidente Michel Temer, sei da dua sensibilidade com os mais humildes, e eu participaríamos de algo para tirar dinheiro da Saúde — disse Eunício.

PREVIDÊNCIA

Além de fazer uma defesa da PEC do teto, Temer disse que a reforma da Previdência poderia ser ainda mais dura. Num recado, disse que em outros países, como a Grécia, houve corte de salários dos funcionários públicos e não apenas a fixação de uma idade mínima para aposentadoria.

— O tema não é fácil reconheço. Mas o palco próprio para discutir a reforma é o Congresso, porque para lá é que vão as pressões. Digo eu, enfaticamente, isso já se fez em outros países. Limite de idade é um dos pilares e em outros cortaram-se salários em 30% . Não chegamos a isso e, se Deus quiser, não vamos chegar a isso. Pode ser impopular hoje, mas será popular amanhã — disse Temer.

O presidente disse que resolveu enfrentar os problemas.

— Seria extramente confortável que nesses dois anos gastasse ao máximo e deixasse (o rombo) para os próximos governantes. Mas não, tenho responsabilidade — disse ele.

PACOTE PARA O NORDESTE

Temer ainda lançou um pacote para o Nordeste: renegociação de dívidas, R$ 47,1 milhões para combate à seca e Fortaleza e mais entrega de 5,1 mil casas para o Ceará quase 5,200 residências aqui, no Ceará. Temer assinou decreto de regulamentação da lei 13.340/2016, que trata da regularização de dívidas rurais. Poderão ser beneficiados contratos realizados até 2011.

— E sei agora que o diálogo que tenho que ter é com o Nordeste e é isso que começo a fazer neste momento. O Nordeste tem sete ministros.

O líder do PMDB no Senado, Eunício Oliveira (CE), fez uma defesa enfática da PEC como relator da proposta.

oglobo.globo.com | 09-12-2016

É muito provável que brasileiros, ao verem, em 2015, as cenas de gregos em filas à frente de caixas eletrônicos sem dinheiro, imagens de aposentados em Atenas durante protestos contra cortes nos benefícios, ao lado de servidores públicos com salários atrasados, tenham se sentido aliviados porque aqueles dramas aconteciam muito distante do Brasil. Quase do outro lado do mundo.

Mas, na verdade, encontravam-se, àquela altura, bastante próximos, à medida que a crise fiscal semeada pelo governo Lula/Dilma consolidava no subsolo da economia as condições — já visíveis há algum tempo por analistas — para uma grave crise fiscal. Algo no padrão grego daqueles dias, infelizmente. No fim do ano, o pedido de abertura de processo de impeachment contra Dilma seria aceito na Câmara, por Eduardo Cunha. A eclosão da crise prevista na campanha eleitoral de 2014 — a imprensa profissional começara a tratar do assunto antes — e o impeachment da presidente foram o desfecho de tudo.

A montagem da bomba-relógio não foi instantânea. Para ser preciso, começou na Constituição de 1988, com a missão dada ao Estado para com acabar com a miséria, atender toda população na rede de saúde pública, educar e assim por diante. Sempre o Estado como responsável por uma empreitada gigantesca contra a pobreza, além de outras.

A miríade de gastos ditos sociais, em que se incluem os da Previdência e benefícios assemelhados (Loas, por exemplo), veio sendo construída passo a passo. Um gigantesco salto rumo ao precipício foi a indexação de benefícios previdenciários e muitas outras despesas sociais pelo salário mínimo. Este, por sua vez, passou a ter aumentos acima da inflação e — pior — à frente da produtividade da economia. Nada contra a chamada “política de valorização” da remuneração de base da população, mas atrelar ao mínimo a maior parte das despesas públicas primárias foi overdose.

A Grécia também praticou a irresponsabilidade fiscal — para seu enorme azar, em euros. Quando ficou evidente que o país não pagaria as dívidas — tudo sempre em euros —, os bancos fecharam-se à Grécia, os juros subiram e a economia entrou em colapso.

No Brasil, a debacle veio na moeda pátria. A irresponsabilidade fiscal fez investidores recuarem, projetos foram engavetados e, para agravar a situação, Dilma, o secretário de Tesouro, Arno Augustin, mago da “contabilidade criativa”, sob as bênçãos do seu chefe formal, ministro Guido Mantega, passaram a adulterar as contas públicas. Acabou a credibilidade do governo dentro e fora do país, e a presidente sofreu impeachment.

O Brasil pôde deixar o real se desvalorizar (daí os enormes superávits comerciais, também fermentados pela recessão interna). A Grécia, nem isso, porque não tem moeda própria. Recorre à União Europeia e ao FMI para renegociar dívidas, enquanto executa duro ajuste.

O Brasil não padece de falta de divisas. Mas tem de ajustar as contas internas, em reais, implodidas pelos mecanismos de indexação de gastos, desregramento em geral nas despesas e pela queda da receita tribuária devido à enorme recessão provocada por toda esta lambança macroeconômica. Um circulo vicioso trágico.

Por caminhos diferentes, Brasil e Grécia chegaram ao mesmo desastre da explosão das contas públicas. Daí a semelhança dos dramas pessoais de servidores públicos gregos e brasileiros, e também aposentados da iniciativa privada: desemprego, benefícios previdenciários e pensões atrasados (o que acontecerá no âmbito do INSS, se não vier a reforma). A Grécia da crise chegou ao Brasil, pelo Rio de Janeiro. Mas visita todos os estados.

oglobo.globo.com | 13-11-2016

Atenas, Grécia, 7/11/2016 – A Meia-Lua Vermelha dos Emirados Árabes Unidos se reuniu com funcionários do Ministério da Saúde da Grécia para organizar a ajuda aos refugiados assentados no país. Do encontro participaram Amna Al Shawq, integrante da missão emiratense que viajou a esse país, e do coronel Nabit Al Zahmi, adido militar que encabeçou […]

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www.envolverde.com.br | 07-11-2016

RIO - O sociólogo Boaventura de Sousa Santos atesta a falência do sistema partidário nos EUA numa campanha atípica, na qual lideranças republicanas declararam voto à democrata Hillary Clinton, e dois candidatos antiestablishment — Donald Trump e Bernie Sanders — ganharam força. Sousa Santos divide seu tempo entre as universidades de Coimbra, em Portugal, e Wisconsin-Madison, nos EUA, onde mora parte do ano. Em Brasília, será homenageado com o título de cidadão honorário, e lança a “A difícil democracia – reinventar as esquerdas” (Editora Boitempo), durante a Bienal do Livro e da Leitura. O sociólogo conversou com O GLOBO, por telefone, antes de chegar ao Brasil.

Para onde caminha a democracia americana com um candidato como Donald Trump, que defende a deportação de imigrantes e ameaça não reconhecer o resultado das eleições?

trump & hillary

Esta eleição tem duas características sem precedentes na História da democracia americana. A primeira é o fato de um dos candidatos não se dispor a reconhecer o resultado se não ganhar. Isso chegou ao ponto de as eleições serem monitoradas por observadores da OEA e da UE, o que representa uma inversão sem precedentes do que tem ocorrido internacionalmente. É um sinal dos tempos. Há uma crise da democracia. E há outra característica: o dinheiro tem cada vez mais influência nos processos eleitorais dos países. Nos EUA, uma controversa decisão da Suprema Corte permitiu a qualquer empresa ou cidadão financiar os partidos, sem limites. Isso alterou muito o panorama americano de uma democracia totalmente dominada pela plutocracia, isto é, por quem tem dinheiro. A situação tem piorado muito. Neste momento, temos, por um lado, uma candidata que, de alguma maneira, tem que se comprometer com o capital financeiro global. Os e-mails divulgados pelo WikiLeaks revelam que Hillary diz uma coisa em público e outra em privado, quando fala para grandes corporações financeiras de Wall Street, que pagam rios de dinheiro por suas palestras. Por este lado, o dinheiro estará muito presente nas políticas de Hillary. As suas decisões, certamente, não vão contribuir para que se faça uma regulação do capital financeiro, que me parece absolutamente necessária se não quisermos voltar a ter uma crise global. E, por outro lado, o outro candidato é em si mesmo o sinal dos tempos porque se limita a ser um bilionário, um empresário cujo sucesso é questionado. Alguns de seus cassinos foram quatro vezes à falência e tudo leva a crer que essa falência foi provocada para não pagar dívidas. Prepara-se para ser presidente dos EUA alguém que não paga impostos. Por todas estas razões, penso que esta eleição não tem precedentes, embora a nível mundial, diria que não é por acaso que se trata de um bilionário e um homem do show business. Temos na Itália o partido Cinco Estrelas dirigido por um palhaço. E na Guatemala temos um presidente comediante.

Como o senhor interpreta o espaço que Trump e Sanders conquistaram junto ao eleitorado republicano e democrata, defendendo, cada um a seu modo, plataformas contra a política tradicional? É a falência da política partidária?

É a falência de um sistema político, com problemas graves no sistema partidário porque insiste no bipartidarismo, quando existe uma diversidade de opiniões políticas que não se enquadram no Partido Democrata nem no Republicano. Temos uma candidata dos Verdes, Jill Stein, que não pôde aparecer nos debates porque o sistema está orientado para favorecer os dois partidos. Mas o sistema se abriu em duas vertentes, uma para a esquerda e outra para direita. Bernie Sanders é abertura interessante, para uma esquerda moderada, para o que na Europa designamos de social-democracia. Trump é uma saída pela direita, com fortes afinidades com o Tea Party.

O vencedor desta eleição terá que lidar com uma metade de americanos insatisfeita e também com fraturas dentro de seus próprios partidos. Quais os riscos para a democracia americana?

A democracia americana a nível nacional é altamente problemática. Os cidadãos se abstêm muito nas eleições. Há uma crise no sistema e na participação. Neste momento, está tudo em suspenso. Hillary dá toda a ênfase a uma vitória o mais rotunda possível para evitar que o não reconhecimento das eleições possa levar a um problema legal. Não seria a primeira vez. Daí a estratégia do partido de investir em estados em que o Partido Democrata nunca venceu. O grande problema vai ser a aceitação. Este sistema tem uma grande coesão das elites políticas. Se ganha a Hillary, vai haver uma revolta interna do Partido Republicano, que já está anunciada pelo presidente da Câmara, Paul Ryan. Vai ocorrer um ajuste de contas dentro do partido. No Partido Democrata, sai fortalecida a linha mais conservadora, a de Hillary. Havia uma certa esperança de que ela se voltasse mais à esquerda pelo que prometeu ao Bernie Sanders. Tem falado em algumas promessas, mas é evidente que o fato de Trump ter puxado tanto o discurso à direita faz com que Hillary receba o apoio de muitos republicanos. É a prova da ruptura que está ocorrendo dentro do Partido Republicano e do ajuste de contas que se fará necessário.

Nesta desordem mundial, governantes de viés autocrático como o russo Vladimir Putin e o turco Recep Tayyip Erdogan conquistam espaço em seus países com um novo modelo de governo, despido de uma agenda ideológica. O senhor concorda?

Não, você menciona os nomes que a mídia ocidental cria. Não digo que são santos, mas também não são ditadores no mesmo nível que a família real da Arábia Saudita, grande amiga dos EUA. São mais democráticos, por exemplo, do que o governo de Israel. Neste momento, a Guerra Fria volta a crescer, e os governantes são aliados da mídia internacional de acordo com seus interesses. O Erdogan, por exemplo, tem sido amigo da União Europeia. A certa altura, mostrou algumas divergências com as posições dos EUA no Oriente Médio e foi considerado autoritário. Neste momento, a UE o utiliza para que ceda parte da Turquia como um campo de internamento perpétuo para parte dos refugiados. O caso do Putin é um bom exemplo. Não é um santo, mas é evidente que há uma estratégia de Guerra Fria. É preciso lembrar que Hillary é considerada um falcão da guerra. Se for eleita, teremos mais guerras com Hillary, talvez mais do que com Trump. Mas o problema é que Trump é imprevisível. Como europeu, não gostaria que a Europa fosse arrastada para uma Guerra Fria.

Como o senhor avalia o governo do presidente Obama?

O presidente dos EUA não tem tanto poder quanto imaginamos porque há uma estrutura de poder econômico muito forte, muito condicionada pela indústria militar e que tem exigências muito fortes. Houve aumento extraordinário das despesas militares. É uma contradição. Obama, ao contrário do que propôs, não baixou as despesas militares, teve a sua guerra. Pode ser que a guerra de Hillary seja a da Síria. Há outras coisas que tentou fazer, e o Senado não deixou. Ele tentou uma solução moderada para o sistema de saúde, por exemplo, que é insustentável, criando um sistema semipúblico controlado pelas seguradoras. Mas os conservadores puseram o Obamacare em tribunal. Os conservadores mais radicais têm dominado a agenda do partido. Ele não pôde também fechar Guantánamo, como queria. Perdeu oportunidade de fazer uma regulação do capital, como prometeu. Para mim, em alguns temas ele foi uma decepção relativa. Houve muita esperança. Também na frente racial, termina o mandato com maior incidência de episódios racistas na sociedade americana, não por culpa dele. O racismo está muito inscrito na sociedade, e o fato de ser um presidente negro gera mais preconceito. Assim como Hillary Clinton suscitará preconceito sexista.

A social-democracia perdeu poder e vive uma crise de identidade em vários países da Europa. Como reconquistar o eleitor diante da decadência do Estado do Bem-Estar Social e a pressão cada vez maior por políticas de austeridade?

É um campo de disputa na Europa atualmente. Dentro do modelo que nós designamos como neoliberal não existe a social-democracia. O neoliberalismo tinha muita dificuldade de penetrar nos países a nível nacional porque eles têm uma tradição social-democrata, como Alemanha, França, Portugal, Espanha e a própria Inglaterra. Mas o neoliberalismo entrou pelas instituições da União Europeia. Temos uma Comissão Europeia ideologicamente neoliberal e um Banco Central dirigido por um neoliberal, Mario Draghi, que disse recentemente que a social-democracia tinha acabado. A contradição neste momento é entre a Comissão Europeia e os governos nacionais. Na Grécia, o Syriza tenta uma alternativa confrontacional de maneira dramática. Em Portugal, se deu uma política distinta, de não confrontar as instituições europeias, mas de procurar, dentro das leis e do sistema europeu, algumas brechas que permitam manter um sistema democrático depois de quatro anos de um governo conservador radical. Portugal, neste momento, é a única solução de esquerda na Europa. É um governo socialista com apoio parlamentar de duas forças que nunca tinham concordado em colaborar com o Partido Socialista - o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda. É uma experiência que apoio como cidadão e como sociólogo observo com muita curiosidade, porque obviamente há uma hostilidade da Comissão Europeia a este governo. Existe uma ideia de que para ser europeísta é preciso ser de direita. E, por fim, a Espanha, onde se criaram tantas expectativas acerca de uma solução alternativa moderada ao neoliberalismo, mas, ao fim de um ano, se mostrou impossível.

Movimentos formados por indignados, como o Syriza, na Grécia, o Podemos, na Espanha, e o Cinco Estrelas, na Itália, conseguiram bons resultados eleitorais, mas agora enfrentam escândalos ou brigas internas da mesma forma que partidos tradicionais. Qual é a saída para eles?

Só pode haver uma saída europeia para eles. O caso do Syriza é dramático porque existe uma contradição total com o programa do partido. Na Espanha, o Partido Socialista não quis qualquer acordo com o Podemos. A social-democracia europeia só se reabillita a nível europeu. É uma questão de justiça social. E na Europa há muitas forças que não aceitaram que as sociedades tenham que ser tão desiguais. Se não houver alguma flexibilidade, teremos mais Brexits.

A crise dos refugiados fortaleceu a extrema-direita na Europa. Quais os riscos que a democracia corre atualmente no continente?

Vivemos uma grande crise de refugiados, mas esquecemo-nos de que na África o número é imensamente maior. França e Inglaterra não conseguem resolver o problema de dez mil pessoas no campo de Calais. No Norte da Nigéria, há 1,4 milhão de pessoas deslocadas pelo Boko Haram. Por que na Europa isso é tão grave? Porque na Europa quem está mais protegido socialmente, quem tem mais bem-estar, não quer perder isso. Acho preocupante. O outro lado do fracasso da social-democracia é que os neoliberais de Bruxelas pensam que podem manter a UE numa agenda neoliberal. Não vão conseguir. Não serão eles, mas será uma extrema-direita mais forte, que é nacionalista e também não quer a União Europeia. Esses partidos de extrema-direita são anti-UE. Existe uma cegueira total das instituições de Bruxelas. Pensam que vão manter a UE numa perspectiva neoliberal. Não vão. Alimentam as forças de extrema-direita, que são nacionalistas e não querem ceder parte da sua soberania à União Europeia. É a manipulação do descontentamento. O desemprego tem crescido na Europa, e basta que um político manipule um empregado (com a ideia de) que a possibilidade do desemprego é mais elevada se entrarem refugiados. E isso não é verdade. Foi uma grande oportunidade que a Europa poderia ter aproveitado.

oglobo.globo.com | 27-10-2016

WASHINGTON - O Fundo Monetário Internacional (FMI) não vai participar do programa de resgate à Grécia, mas deve aceitar o status de conselheiro, com alcance limitado, disseram duas fontes com conhecimento do assunto. Grécia

Por mais de um ano, o Fundo vem se resguardando a respeito dos termos com os quais concordaria para tomar parte no socorro, argumentando que, sem um alívio para as dívidas, as exigências para o resgate não são realistas. Porém, cada vez mais, vem se conformando com a resistência da Europa a fazer concessões e, agora, está em negociações para aceitar a recém-criada regra que permitiria uma participação limitada no acordo.

O formato da contribuição do FMI no programa de socorro ainda não está bem definido. “O Fundo será mais que um conselheiro”, disse uma fonte, mas não trabalhará com condicionamentos, como a checagem trimestral da saúde financeira do país. O organismo faria, por exemplo, o desenho de certos acordos e nos documentos da negociação, fazendo a coordenação entre os gregos e a União Europeia. “Eles não vão colocar dinheiro no programa, mas não se limitarão a dar assistência técnica”, disse a fonte. “Provavelmente, terão um papel de conselheiro especial, especialmente criado para o resgate grego”, disse outra pessoa.

As negociações entre a Grécia, seus credores europeus e o FMI seguem num impasse desde que o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schaeuble, insistiu que o FMI tomasse parte do acordo, mas rejeitou os pedidos da diretora-gerente do Fundo, Christine Lagarde, para que aceitasse uma grande reestruturação do débito grego.

Para Schaeuble, uma vez que os prazos para o pagamento da dívida grega já foram prolongados por 35 anos e os pagamentos de juros foram adiados por 10 anos, as pessoas que falam em alívio da dívida simplesmente “não querem falar sobre o que a Grécia precisa fazer”. O ministro afirmou que Atenas deve atender às condições que foram estabelecidas.

oglobo.globo.com | 08-10-2016

A pesquisa desenvolvida pela Fundação Getúlio Vargas — Instituto Brasileiro de Economia (FGV/Ibre) indicando que os cariocas estão muito insatisfeitos com saúde, segurança, transporte e educação reforça uma advertência severa aos gestores públicos: o Estado brasileiro, responsável pela maior carga tributária entre os países emergentes, mostra mão pesada na hora de cobrar dos cidadãos, mas a contrapartida da prestação de serviços é desastrosa. No estudo inédito, feito de 1º de junho a 4 de agosto, antes da Olimpíada, os entrevistados deram, numa escala de zero a dez, notas abaixo de cinco em dez dos 15 itens avaliados, sendo que em alguns casos a reprovação é veemente: 2,18 para saúde pública e 2,45 para segurança.

Não são males apenas cariocas, porque São Paulo também registrou alto grau de insatisfação, com notas abaixo de cinco em dez itens, mas, no geral, com melhor desempenho que o Rio. Tampouco se trata de mero reflexo da atual crise, já que cidadãos de países em dificuldades como a Grécia mostraram-se, em 2013, menos insatisfeitos em pesquisa semelhante, dando 4,8 à saúde, 4,63 à educação e 3,95 aos transportes, enquanto a média de São Paulo e Rio foi, respectivamente, 2,54, 4,13 e 5,62.

Realizada com 1.500 pessoas (800 paulistanos e 700 cariocas), a pesquisa é mais um indicativo da ineficiência crônica do Estado brasileiro, subordinado aos interesses das corporações que, ao máximo possível, criam obstáculos à realização de uma reforma ampla, além da anunciada pelo governo, que precisa evitar a insolvência do Tesouro, mas não necessariamente garante uma prestação de serviços pelo menos razoável. Outras medidas serão necessárias.

Viabilizar a Previdência deve ser só o começo. Da mesma forma que as concessões e privatizações em aeroportos, energia, rodovias, portos e ferrovias, que têm enorme potencial de desonerar o Estado e gerar empregos, mas enfrentam ferrenha oposição de corporações interessadas em manter privilégios — seja em forma de salários mais altos e benefícios negados aos trabalhadores da iniciativa privada, seja na recusa à cobrança de desempenho.

Portanto, o país que grita contra o abismo entre a pesada carga tributária e o ínfimo retorno precisa decidir se terá firme propósito de fazer as reformas que permitam ao Estado atender aos cidadãos que o sustentam, e não às corporações que emperram seu avanço. Do contrário, pesquisas sobre serviços públicos apresentarão sempre os mesmos resultados.

oglobo.globo.com | 18-09-2016

RIO - O Rio pode ser a Cidade Maravilhosa, mas o carioca não tem essa percepção do lugar onde vive. Uma pesquisa piloto, desenvolvida pela primeira vez no Brasil pela Fundação Getúlio Vargas — Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre), revelou que quem mora na cidade considera abaixo da média os serviços de saúde pública, segurança, transportes e os oferecidos por universidades, escolas e creches do poder público. Avaliados numa escala de 0 a 10, todos ficaram com notas inferiores a 5.

Em comparação a São Paulo, onde a mesma pesquisa foi feita, o Rio também não se saiu bem. De 15 itens avaliados, só em três os cariocas deram notas mais altas que os paulistanos: qualidade do ar, trânsito e infraestrutura para a prática de esportes. Os moradores do Rio também estão menos satisfeitos, por exemplo, com a limpeza urbana e o nível de barulho.

A pesquisa toma como base estudos semelhantes realizados na Europa, que são usados para orientar políticas públicas naquele continente. O trabalho da FGV avaliou a percepção de paulistanos e cariocas. Os participantes tinham que atribuir notas aos itens analisados, ao responder a uma pergunta sobre o grau de satisfação que tinham. Em ambas as cidades, as piores médias foram concedidas aos itens saúde pública (2,18 no Rio e 2,96 em São Paulo) e segurança pública (2,45 e 3,38, respectivamente). Nas duas, apenas cinco itens tiveram nota média acima de 5: qualidade da água potável, limpeza das ruas/coleta de lixo, urbanização, barulho e qualidade do ar. Nesses quesitos específicos, a percepção dos cariocas só é melhor que a dos paulistanos em relação à poluição do ar.

— A proposta do estudo é avaliar a percepção da população dessas duas cidades sobre a qualidade de seus serviços, sem entrar no mérito de eles serem prestados pelo governo federal, pelos estados ou pelas prefeituras. Mas os indicadores serão importantes para que as autoridades avaliem se estão investindo como deveriam em áreas consideradas relevantes para a população. Se acreditam que investiram para melhorar a qualidade do serviço, os gestores também têm que tentar entender por que a população tem determinada percepção — explicou a economista Viviane Seda Bittencourt, coordenadora da pesquisa.

NOTAS PIORES QUE EM PAÍSES EUROPES

Em comparação a pesquisas feitas na Europa em 2013 com indicadores semelhantes, moradores do Rio e de São Paulo atribuíram notas piores aos seus serviços públicos inclusive do que cidadãos de países com dificuldades econômicas. Na Grécia, por exemplo, no último estudo, a população atribuiu média de 4,80 à saúde, 4,63 à educação e 3,95 aos transportes. Na média, os moradores de Rio e São Paulo atribuíram aos mesmos itens, respectivamente, notas 2,54, 4,13 e 5,62.

O que a pesquisa da FGV constatou em relação ao Rio resume um pouco do que pensa, por exemplo, a consultora de marketing Luna Paladino, de 30 anos, moradora de Botafogo desde seu nascimento. Ela disse que se sente bem no bairro, mas reclama da qualidade dos serviços públicos que acabam interferindo na sensação de bem-estar dela e dos vizinhos. Segundo Luana, os principais problemas de Botafogo são a segurança pública, o trânsito, o barulho e qualidade do ar em alguns pontos.

— O trânsito é insuportável nas ruas São Clemente e Voluntários da Pátria, gerando reflexos nas vias internas. Na hora do rush, por exemplo, demoro 40 minutos para ir da casa da minha mãe, na Barão de Lucena, para a minha, na Eduardo Guinle. Este é um bairro de passagem e com muitos colégios, deixando-o propício a mais movimentação. E acho que o trânsito piorou com a colocação do BRS. Trabalho no Centro e vou e volto de metrô, que na minha opinião é a salvação dos moradores para fugir do trânsito — disse.

Luna costuma correr no Aterro do Flamengo. Segundo ela, a infraestrutura na região para a prática de esportes é boa. Mas a consultora reclama da falta de segurança: bandidos já roubaram sua bicicleta três vezes. Por isso, ela desistiu de pedalar no Aterro.

Os dados subdivididos por regiões das cidades do Rio e de São Paulo ainda estão sob análise dos pesquisadores. Mas indicadores preliminares mostram algumas curiosidades, como a avaliação do trânsito. A média entre os cariocas (4,58) ficou ligeiramente acima da dos paulistanos (4,50). No caso dos moradores do Rio, a pior avaliação veio dos que vivem na região de Barra, Recreio e Jacarepaguá, onde a nota média para o quesito (3,64) ficou abaixo da pior dada por nossos vizinhos (3,9). Esta foi atribuída pelos que moram na Zona Sul de São Paulo, cujos principais acessos são as marginais, onde o tráfego costumar ser intenso.

Com o estudo piloto, a FGV Ibre também pretende avaliar se a realização da Olimpíada no Rio terá alguma influência na percepção da qualidade dos serviços públicos na cidade. A pesquisa foi realizada antes do evento — entre os dias 1º de junho e 4 de agosto. Um novo questionário será aplicado este mês e em outubro, para comparação dos indicadores de percepção. A expectativa é que os relatórios completos — inclusive com resultados de cada região da cidade — sejam divulgados no fim do ano.

— O Rio recebeu investimentos importantes em infraestrutura para a Olimpíada. Muitas obras só ficaram prontas perto do evento. A gente quer avaliar que impacto a realização dos Jogos terá na percepção da população. A repetição do estudo em São Paulo é para efeito de controle dos resultados da pesquisa no Rio, pois permite comparar indicadores — disse Viviane.

Ao todo, os questionários foram respondidos por 1.500 pessoas (700 no Rio de Janeiro e 800 em São Paulo). Para fazer uma distribuição proporcional às características socioeconômicas e à quantidade de moradores das diversas regiões das duas cidades, os pesquisadores recorreram a informações coletadas no último censo do IBGE (2010). No Rio, a distribuição seguiu o critério de divisão pelas chamadas Áreas Programáticas: AP 1 (Centro), AP 2 (Zona Sul), AP 3 (Zona Norte), AP 4 (Barra, Recreio e Jacarepaguá) e AP 5 (Zona Oeste). Em São Paulo, a cidade foi dividida em seis áreas, conhecidas como Coordenadorias Regionais de Saúde.

PLANO É ESTENDER ESTUDO A OUTRAS CAPITAIS

A versão europeia da pesquisa é desenvolvida pela European Foundation for the Improvement of Living and Working Conditions (Eurofund), fundada em 1975. Com sede na Irlanda, a Eurofound é uma entidade vinculada à União Europeia, que desenvolve vários estudos em relação à percepção da qualidade de vida no continente. Também analisa outros indicadores sociais e econômicos, para orientar políticas públicas nesses países. Atualmente, os pesquisadores atuam em 33 países: 28 da União Europeia (incluindo Grã-Bretanha, que ainda não concluiu sua saída do bloco), além de Albânia, Macedônia, Montenegro, Sérvia e Turquia (candidatos a se associarem).

A intenção da FGV Ibre é que a pesquisa se torne mais uma das desenvolvidas permanentemente pela entidade, podendo se expandir para outras capitais brasileiras. No entanto, a FGV ainda não decidiu que outras cidades seriam estudadas, nem a fonte de financiamento. O trabalho atual, cujo valor não foi divulgado, foi feito com recursos da própria entidade.

— A prioridade neste momento é concluir a pesquisa piloto — disse Viviane.

oglobo.globo.com | 10-09-2016
O ministério da Saúde da Grécia afirmou hoje que suspendeu a coleta de sangue no país após uma alta dos casos de malária no país, uma consequência do alto número de imigrantes que chega ao país.A medida entrou em vigor nesta segunda-feira após 65 casos de contaminação relatados desde o início do ano, a maioria envolvendo imigrantes. O ministério descreveu os casos como "esporádicos" e disse que eles não são motivo de preocupação. [Leia mais...]
atarde.uol.com.br | 22-08-2016

Ao ser incluída na Constituição de 88 a possibilidade de “grandes fortunas” serem taxadas, este imposto passou a transitar no imaginário das esquerdas — sempre prontas a punir a “burguesia” em atos de “justiça social” —, e é sempre lembrado quando há problemas fiscais. É costume, por exemplo, sindicatos colocarem sobre a mesa a proposta do gravame sobre fortunas, quando se discute o sério desequilíbrio do sistema previdenciário.

Taxar o patrimônio dos ricos parece remédio para todos os males. Não é sem motivo, então, que em meio à mais grave crise fiscal da história, esteja para ser votado na Comissão de Assuntos Sociais do Senado um projeto de lei com este objetivo.

De autoria do senador Antonio Carlos Valadares (PSB-SE), a proposta, relatada por Benedito de Lira (PP-AL), tem como alvo patrimônios superiores a R$ 2,5 milhões. A partir deste valor, começarão a incidir alíquotas a começar de 0,5%, numa progressão escalonada até chegar a 2,5%, aplicados sobre patrimônios acima de R$ 40 milhões.

O projeto destina a arrecadação para o SUS. Mas quem pensa que, assim, estarão resolvidos os problemas da saúde pública deve refrear o otimismo, porque taxar fortunas não é tão simples como parece. Há várias experiências no mundo que aconselham cautela antes de se contar com bilhões no Tesouro.

Uma questão a avaliar é o alto custo de fiscalização. Como se trata de um imposto declaratório — depende de o contribuinte declarar com fidedignidade os bens —, a arrecadação requer uma robusta máquina de fiscalização, cujo custo pode não compensar o que será coletado.

Tanto que, na América Latina, apenas Argentina, Colômbia e Uruguai têm este imposto. Há, ainda, o efeito perverso do incentivo à migração de patrimônios. Se manter propriedades no Brasil passa a ser muito gravoso, pode-se transferir o que for conveniente para o exterior e dar o mesmo destino aos investimentos familiares futuros. O resultado, aparentemente paradoxal, é uma redução real nos impostos recolhidos no país. Sem considerar a migração de empregos.

Esta é uma das explicações para, na década de 90, vários países europeus terem decidido acabar com o imposto sobre fortunas. As distâncias mais curtas dentro do continente também facilitam este tipo de migração de patrimônios. E foi assim que o gravame terminou revogado em Áustria, Itália, Dinamarca, Alemanha, Islândia, Finlândia, Suécia, Espanha e Grécia. Na Alemanha, chegou a ser declarado inconstitucional, devido ao seu caráter confiscatório.

O melhor a fazer é evitar a criação de mais um imposto num país de elevada carga tributária — e pior, um imposto de baixa eficiência e que ainda estimulará a fuga de riqueza e empregos. Não há escapatória à necessidade de se reduzirem os gastos gigantescos do Estado.

oglobo.globo.com | 29-07-2016

Às vésperas de sediar a Olimpíada, a “remodelada” cidade do Rio se assemelha à antiquíssima Atenas, mas não em seus imemoriais e gloriosos dias homéricos, e sim em seu presente neoliberal, decadente e injusto. Com seus deuses decadentes, mas ainda no poder, o Estado do Rio, por sua vez, se depara, tal qual o Brasil, com um tenebroso cenário grego, no qual a maioria da população, privada de participação política, se encontra refém de poderes tirânicos, representantes de uma minoria de oligarcas que habita palácios e jardins. Se, na Grécia contemporânea, os interesses do povo se curvam aos ditames privatistas dos banqueiros da União Europeia, no Brasil de hoje, um governo golpista implementa um draconiano ajuste fiscal que pode significar o fim da educação e da saúde públicas. Governado pelos mesmos titãs decrépitos que controlam a pólis olímpica — e o poder federal —, o estado é um laboratório do modelo de gestão que o PMDB de Temer oferece ao país.

Enquanto nas favelas a PM, olimpicamente, assassina jovens negros, o direito à educação e à saúde é subtraído aos cidadãos por meio de um impudente desfinanciamento — e a greve dos profissionais da educação e as mobilizações do Fórum de Saúde são justas respostas a isso. Boa parte da artilharia do governo estadual está voltada contra a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), com destaque para seu hospital, o Pedro Ernesto (Hupe).

O caso da Uerj é exemplar do projeto perpetrado pelo triunvirato Pezão-Dornelles-Picciani. A crise financeira estadual, oriunda não só dos vultosos gastos com os megaventos, mas também das incontáveis isenções fiscais concedidas a cervejarias e outras empresas de serviços dionisíacos, tem servido de justificativa para a destruição da maior universidade do estado, a primeira no país a instituir cotas raciais. Rios de tinta poderiam ser gastos para descrever o que é feito com a Uerj, mas basta ao leitor saber que, numa reedição neoliberal da escravidão ateniense, os terceirizados trabalharam meses sem receber, até se tornarem escravos por dívidas dos bancos. E, finalmente, foram sumariamente demitidos sem direitos trabalhistas pelas empresas prestadoras de serviços, que alegam nada ter recebido dos cofres públicos em um ano no qual a execução orçamentária da universidade é, até agora, de zero centavo. Nesse quadro calamitoso, as bolsas não são pagas, e os salários de técnicos e docentes são atrasados/parcelados.

Por fim, não é escusado destacar que os diversos campi universitários hoje acumulam tanta sujeira e lixo que, como num castigo maligno ordenado pelo Zeus Cabral, trabalhadores e estudantes parecem destinados a agonizar, acorrentados, junto a ratos, baratas e Aedes aegypti, por milênios, pelo simples fato de terem optado pela tocha prometeica do conhecimento (público, gratuito e de qualidade) em detrimento da vergonhosa tocha olímpica peemedebista.

Mas a UERJ resiste!

Lia Rocha e Felipe Demier são diretores da Associação dos Docentes da Uerj

oglobo.globo.com | 16-07-2016

LONDRES - Imigração, economia, soberania, união nacional... Cada um dos dois lados na disputa usa as mesmas munições em armas de diferentes calibres de argumentação para justificar a saída ou a permanência do Reino Unido na UE, uma decisão crucial tanto para o futuro do país como da ordem construída no continente europeu no pós-guerra.

A FAVOR DA PERMANÊNCIA:

Carolyn Fairbairn | Diretora-geral da Confederação da Indústria Britânica: “Em 2020, o custo total de uma saída da União Europeia poderia chegar a £ 100 bilhões e 950 mil empregos. A renda familiar no mesmo ano pode apresentar uma queda de até £ 3.700. A economia poderia até se recuperar lentamente ao longo dos anos, mas nunca chegando aos níveis que atingiria dentro do bloco. Deixar a UE significa enfrentar uma economia reduzida em 2030.”

Nicky Edwards | Diretor de políticas e negócios públicos do TheCityUK, grupo de lobby da indústria de serviços financeiros de Londres: “A saída da União Europeia teria uma série de impactos potenciais. Uma delas é que veríamos as empresas estrangeiras que estão concentradas no país sendo obrigadas a realocar boa parte ou mesmo todas as suas operações de volta ao mercado único europeu.” CONTEÚDO BREXIT PAPEL 2306

John M. Roberts | Especialista em segurança energética do Atlantic Council: “Se os britânicos optarem pelo Brexit, não será apenas o cargo de David Cameron que estará em risco, mas a própria existência do Reino Unido. É praticamente certo que a maioria dos eleitores escoceses apoiará a permanência. No caso de uma vitória da saída, o governo da Escócia, comandado por fervorosos nacionalistas, estará preparado para um futuro no qual a Escócia não integre a UE? Nessas condições seria muito difícil para um governo britânico negar a realização de um novo referendo sobre a independência escocesa, e, caso ele acontecesse, é muito provável que a rejeição do último pleito fosse revertida em favor do apoio à independência. Além de gerar caos em Londres, Bruxelas e Edimburgo — que teriam que renegociar praticamente todos os seus acordos — que espécie de Reino Unido teríamos no caso de uma vitória da independência escocesa? Seria o País de Gales o próximo na fila por um referendo nacionalista?”

Danny Dorling | Professor da Universidade de Oxford: “A vida não é um mar de rosas para muitos dos cidadãos britânicos, mas isso não é culpa da UE. Se o Reino Unido fosse um Estado mais progressista, na vanguarda do progresso social do continente, poderíamos ter motivo para nos ressentirmos e alegar que Bruxelas está nos impedindo de progredir. Mas somos retardatários sociais. Precisamos das leis da UE para impedir que exploremos nossos trabalhadores. Nosso establishment político não teria problema algum em tolerar níveis de poluição atmosférica muito superiores àqueles que nos rendem multas da Comissão Europeia. E nunca teríamos noção dos inacreditáveis níveis de desigualdade econômica se não fosse pela leis europeias que forçam nossos banqueiros mais ricos a divulgarem detalhes de seus salários e bônus. Ao contrário de muitos dos nossos benefícios, nossos problemas não são criados pelo fato de pertencermos à UE. Somos diferentes do resto da Europa porque nosso passado é diferente. Costumávamos nos apoiar num império, e deixar a UE não vai trazê-lo de volta.”

David Cameron | Primeiro-ministro britânico: “O Brexit levaria, sem dúvida, a uma perda na influência global do Reino Unido, enfraqueceria a Otan e fortaleceria os inimigos do Ocidente, justamente quando precisamos estar lado a lado com a comunidade euro-atlântica contra ameaças comuns, inclusive no nosso continente. Sair significa retroceder a uma era de nacionalismo competitivo na Europa. Podemos estar tão seguros de que a paz e a estabilidade no continente estão garantidas sem sombra de dúvida? Esse é um risco que vale a pena correr? Eu não seria tão inconsequente a ponto de presumir isso. O isolacionismo nunca funcionou muito bem para este país.”

Stephen Hawking | Físico britânico, em carta assinada juntamente com outros 150 membros da Royal Society: “O financiamento da UE aumentou enormemente o nível da ciência europeia em geral e do Reino Unido em particular, já que temos uma vantagem competitiva. Atualmente, recrutamos nossos melhores pesquisadores a partir da Europa continental, incluindo jovens que adquiriram benefícios da UE e escolheram o Reino Unido como destino. Trabalhando em conjunto, fortalecemos nossa economia, aumentamos nossa influência no mundo e damos oportunidades futuras aos jovens.”

Sadiq Khan | Prefeito de Londres: “Temos praticamente um consenso por parte dos economistas que concordam que permanecer na UE será melhor para a economia, para o comércio, para os negócios, para a geração de empregos e para as exportações. Sabemos também que, ficando na UE, estamos protegendo direitos trabalhistas, fortalecendo as defesas do país, melhorando a qualidade do ar e garantindo o respeito às mulheres no mercado de trabalho. A campanha pela saída tenta vender a ideia de que fazer parte da Europa nos torna menos britânicos. Mas, na verdade, a opção patriótica é não virar as costas para nosso passado de abertura e disposição de coexistir com o resto do mundo. Será que realmente queremos que nosso legado seja a criação de barreiras para a próxima geração, impedindo a continuidade de programas que ajudaram mais de 200 mil estudantes britânicos nos últimos 30 anos?”

A FAVOR DA SAÍDA:

Michael Gove | Ministro da Justiça e um dos líderes da campanha pela saída britânica da UE: “A resposta da União Europeia à crise migratória é um convite irrestrito para que Macedônia, Montenegro, Sérvia, Albânia e Turquia se juntem ao bloco. Como não podemos controlar nossas fronteiras, os serviços públicos, como o Sistema Nacional de Saúde, se verão diante de uma demanda inqualificável, já que milhões de pessoas se tornarão cidadãs europeias e terão o direito de se mudar para o Reino Unido.”

Gerard Lyons | Economista e ex-conselheiro econômico da prefeitura de Londres: “A UE está mal posicionada para prosperar na economia global do futuro. A geografia deixou de ser uma barreira para o comércio, e as economias que quiserem prosperar precisarão ser flexíveis, adaptáveis e em controle de seu destino. A saída da UE nos permite ter esse controle, enquanto o bloco se tornou mais centralizador, aumentando a regulação e o controle, exatamente o oposto do que precisamos para criar empregos e obter sucesso no futuro. É errado pensar que, se permanecermos na UE, poderemos mudá-la e adequá-la. Sempre ouvimos que a UE será reformada, mas essa reforma nunca acontece. O bloco nunca enfrenta seus principais problemas, como o alto índice de desemprego entre os jovens, a depressão econômica na Grécia ou as migrações em massa. E o cenário ainda pode piorar. Estima-se que a UE será a região de menor crescimento no planeta nas próximas décadas. Permanecer no bloco envolve uma grande dose de incerteza, porque não sabemos o que acontecerá com o euro. Para encobrir suas rachaduras econômicas, a zona do euro terá que aumentar ainda mais sua centralização rumo a uma união política, e embora o Reino Unido não precise adotar o euro, estando dentro da UE ficará incapaz de evitar as consequências negativas do que quer que aconteça com a moeda.”

Philip Johnston | Editor-assistente do diário inglês “Daily Telegraph”: “A questão que será apresentada ao eleitorado britânico é, na verdade, sobre soberania: quem governa? Podemos criar nossas próprias leis, aumentar nossos próprios impostos, negociar com quem bem entendermos, pescar em nossas próprias águas, convidar quem quisermos para dentro de nosso país e remover aqueles que não quisermos? Se fôssemos uma nação independente, poderíamos fazer tudo isso, exceto atividades reguladas por tratados internacionais. Como membro da UE, não podemos fazer nenhuma delas, a menos que façamos de maneira coletiva. O Parlamento ainda detém a soberania. A questão é se ele vai usá-la para devolver ao Reino Unido o controle de suas leis. E isso só será possível caso o país vote pela saída da UE no referendo. Não há meio-termo.”

Boris Johnson | Ex-prefeito de Londres: “Uma relação com a Europa que não seja baseada nos caprichos de burocratas não eleitos, mas na cooperação entre governos eleitos na qual poderemos continuar cooperando com nossos amigos e parceiros em questões de interesse mútuo. Podemos fazer tudo isso num nível intergovernamental, no qual não estamos mais sujeitos ao modelo único e ineficaz das leis supranacionais da UE. Quando pudermos retomar o controle dos £ 350 milhões semanais que damos à UE, teremos também o controle de nossas fronteiras. Então, quando ouço as pessoas dizendo que não podemos fazer comércio livremente com o resto do mundo, ou que a libra vai despencar ou ainda que as taxas de juros irão disparar, me lembro dos profetas do apocalipse que diziam que o bug do milênio faria com que os aviões caíssem dos céus. São as mesmas pessoas que disseram que teríamos um desastre econômico se não adotássemos o euro. O oposto provou ser verdade, e é justamente por termos nos mantido longe do euro que temos hoje a economia mais dinâmica da Europa.”

Michael Caine | Ator, duas vezes premiado com o Oscar: “Temos atualmente na Europa uma espécie de governo por procuração de todos os países que agora saiu do controle. A menos que haja uma mudança extremamente significativa, deveríamos sair da UE.”

Sol Campbell | Ex-zagueiro da seleção inglesa de futebol: “Se tivermos um controle rigoroso sobre quem pode entrar e sair do Reino Unido, poderemos trazer os melhores entre os melhores, não importa de onde quer que eles venham, enquanto impedimos aqueles que não produzirão de entrar no país.”

Richard Werner | Economista e professor da Universidade de Southampton: “O super-Estado europeu que já se formou não é democrático. O chamado Parlamento Europeu não tem o poder de propor leis. A legislação é formulada e proposta pela Comissão Europeia, que não é eleita! Como um observador russo comentou, o Parlamento Europeu é uma farsa com a função única de carimbar documentos, tal qual o Parlamento soviético durante os dias da União Soviética, enquanto o governo não eleito é a Comissão Europeia — uma espécie de Politburo repleto de seus comissários.”

oglobo.globo.com | 23-06-2016

RIO — É praticamente impossível passar pela Avenida Chrisóstomo Pimentel de Oliveira, em Anchieta, sem observar, perplexo, aquele monumento, digno de um palácio islâmico (mameluco). Apesar de os visitantes virem de toda parte, ouriçados pelo burburinho da divulgação boca a boca, muitos ainda desconhecem a existência e a riqueza histórica guardada no Museu da Humanidade, cuja beleza vai além da fachada. Há mais 90 mil peças variadas em estoque — incluindo objetos pessoais como cachimbos, leques e roupas —, sem contar o acervo documental e uma coleção de moedas gregas, romanas, bizantinas, islâmicas e medievais ainda não catalogada.

Um achado no subúrbio carioca, o espaço de 2.500 m² de área construída, vinculado ao Instituto de Pesquisa Histórica e Arqueológica do Rio de Janeiro (Ipharj), uma instituição privada, conquistou até o Comitê Olímpico Rio 2016 durante uma discreta visita realizada há dois anos e, agora, ganhará notoriedade como atração cultural da cidade num calendário paralelo aos Jogos. Peças como o Discóbolo (do escultor grego Míron); esculturas de em bronze e mármore; moedas e cerâmicas relacionadas ao esporte e às cerimônias dos Jogos; maquetes de monumentos gregos; e armamentos e instrumentos correlatos fazem parte da exposição planejada para a ocasião, de 20 de agosto a16 de outubro.

— Quando o Comitê Olímpico veio aqui, liderado pela Carla Camurati (diretora do programa de Cultura da Rio 2016), eles ficaram muito encantados. O Ipharj está antenado com o passado, mas também com a contemporaneidade. Com a exposição que estamos preparando, queremos evocar uma reflexão sobre a importância da Olimpíada no passado, sobre o que representava o esporte e a saúde. Vamos usar muitos artefatos da Grécia e fazer um desdobramento também pelo Mundo Antigo — diz o arqueólogo e historiador Claudio Prado de Mello, responsável pelo local, credenciado como reserva técnica pelo governo federal e já reconhecido pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram).

A melhor notícia é que não será preciso esperar até agosto para aproveitar a já intensa programação promovida pelo idealizador e anfitrião. Uma das muitas novidades é que a casa estará aberta às sextas e sábados, das 14h às 20h (mediante reserva), para o Ipharj Open House, encontro que ele chama de happy hour do patrimônio e da arqueologia. Nele, o tour habitual pelas mostras transitórias — a atual compreende a Era Vitoriana — é incrementado por aulas teóricas e práticas, apresentações artísticas e degustação de quitutes. Sábado que vem haverá palestra sobre Arqueologia Urbana e declamação com um intérprete do escritor Fernando Pessoa. O programa custa R$ 5.

Boa parte do público que recebe é de grupos escolares de até 40 crianças.

— Não queremos que o museu seja apenas ilustrativo. O objetivo é ensinar, fazer com que as pessoas entendam a história por trás de cada peça ou fragmento de forma a contextualizá-la. Quando isso acontece, elas passam a gostar do patrimônio histórico. E nós precisamos de preservacionistas. Dependendo do bairro de onde vem o grupo, procuro puxar por monumentos conhecidos em suas regiões, estimulando o sentimento de pertencimento — diz o profissional, que também promove esquetes teatrais em locais onde há monumentos se deteriorando (como foi feito no entorno do Convento do Carmo, no Centro, e no Palacete São Cornélio, na Glória).

Cada peça que o profissional encontra em escavações de sítios arqueológicos é numerada, registrada, medida e carrega uma ficha com a descrição de quem a encontrou, onde e em qual camada do solo. Tudo o que é encontrado, comprado ou guardado tem processos catalogados em pastas, com notas fiscais. O trabalho minucioso tem a colaboração da amiga Alba Laurentino, seu braço direito na organização do acervo.

Uma das peças de maior valor encontradas no espaço é o par de colunas salomônicas portuguesas, adquiridas num antiquário em Petrópolis por R$ 15 mil. Outras foram compradas por valor irrisório, como a dupla de leques de madrepérola e prata pertencentes à Condessa de Araruama, que custou R$ 120 e chegou a entrar num leilão por R$ 70.

— Hoje, quem compra antiguidade quer matéria-prima. Eu disputei os talheres do Conde (de Araruama), no qual paguei R$ 500, com um prateiro. Ele disse que ia derretê-los para fazer bijuteria.

Inquieto com os objetos perdidos com o tempo, dada a desvalorização lançada por herdeiros de famílias nobres, Mello se empenha em fazer barulho entre dirigentes em prol de um foro de política patrimonial dissociado da cultura.

— Os leilões são feitos com acervo privado e as famílias têm o direito de vender o que quiser, mas as pessoas não têm mais a preocupação em preservar coisas velhas, não têm a dimensão do valor histórico, por isso há relíquias tratadas como lixo. Para piorar, as leis que regem o patrimônio público datam de 1925, estão defasadas e a Alerj já atestou isso — diz.

O arqueólogo lamenta a situação de certos museus do Rio.

— Há mais de cem museus abandonados ou fechados. As peças são roubadas constantemente. É comum que sejam fechados com a justificativa de reformas. Itens do acervo do antigo Museu do Gás, por exemplo, foram para o lixo; as peças estavam à venda a preço de banana na Praça Quinze.

MAIS DE 90 MIL RELÍQUIAS PRESERVADAS

O portentoso Museu da Humanidade, em Anchieta, tem quatro andares e 14 metros de altura, apesar de aparentar dois andares para quem o vê de fora. E seu estilo islâmico (mameluco) foi escolhido pela funcionalidade além da estética, visto que favorece a iluminação e a circulação de ar nos ambientes, todos planejados com cozinhas e banheiros independentes. No último andar, há uma área de pesquisa com dois laboratórios para análise de itens que são encontrados em escavações pelo país. Das 21 salas do prédio mantido pelo Ipharj — algumas com até 12 m² —, o idealizador Claudio Prado de Mello ainda planeja abrir ao público outras sete até o fim do ano. Um projeto inusitado, no subsolo, também está nos últimos ajustes e promete causar frisson entre os visitantes: o Human Gate, galeria de arqueologia funerária. Passando por uma escada de caracol bastante estreita, planejada propositalmente, chega-se ao ambiente escuro e soturno criado por Mello, onde há réplicas de catacumba romana, tumba pré-colombiana e tumba egípcia divididas entre paredes talhadas como as que haviam na Síria, com direito a esqueletos, múmias e imagens ritualísticas, visíveis por luzes direcionadas.

— É uma novidade até em termos de América porque ninguém tem cripta como a gente tem. Eu conheci muitos sítios arqueológicos mundo afora, como em Paris e em Nápoles, e quero compartilhar com as pessoas essa vibração e energia que é entrar no Mundo Antigo — diz o arqueólogo, primeiro brasileiro a participar de uma escavação arqueológica no Egito, sobre o qual é especialista desde os 16 anos.

Uma coleção de crânios contando a história do desenvolvimento do ser humano, desde o primeiro marsupial, já faz sucesso em oficinas práticas com o público infantil, conta. A rica biblioteca do local atrai pesquisadores, que podem levar exemplares emprestados.

— Quando viajo, só levo uma muda de roupa porque as malas vêm com peças e livros; temos mais de 35 mil nas áreas de arqueologia e patrimônio.

Menino humilde e com um sonho considerado de elite, Mello precisou superar desconfianças e uma depressão para conquistar a posição profissional que tem hoje, estando à frente de importantes escavações como a que abriu caminho para as obras da Linha 4 do Metrô, no sítio arqueológico da Leopoldina. Foi encarando mais um desafio que ele ergueu o Museu da Humanidade, comprando coisas em ferro-velho, reaproveitando sobras de materiais, restos de mármore doados e intercalando gotas de suor ao cimento prensado.

— Eu não tinha dinheiro, mas tinha um terreno e duas mãos. Escavei os primeiros buracos das sapatas; tracei e sondei todos os estribos dessas colunas que têm até 12 metros de altura; fiz as portas e também o chão. Virei pedreiro, carpinteiro e serralheiro.

Ainda faltam R$ 400 mil para concluir as obras pretendidas para o espaço, frisa Mello, que aguarda aprovação em editais públicos e apoio já solicitado a fundações e personalidades como o Rei da Arábia Saudita. Mas suas aspirações não param por aí: a casa onde ele nasceu, a cerca de 500 metros do Museu, está sendo transformada, também com investimentos próprios, para se tornar o Instituto de Arqueometria e Arqueologia Aplicada, com uma arquitetura de estilo medieval italiano. Esta novidade, segundo Mello, está reservada para o ano que vem.

oglobo.globo.com | 11-06-2016

RIO e ISE-SHIMA (Japão) - Conhecida pelas leis do trabalho mais protetivas do mundo, e pela resistência a mudanças, a França se prepara para implementar uma das mais ambiciosas reformas de sua história econômica: a flexibilização da legislação trabalhista. Subvertendo a cartilha do Partido Socialista e dos fortes sindicatos franceses, o governo do presidente François Hollande admitiu que a rigidez das regras é um entrave à competitividade e decidiu abraçar mudanças já implementadas pelos seus principais pares europeus — Alemanha, Reino Unido, Espanha e Itália. Para especialistas, o acirrado debate na França antecipa as discussões nas quais o Brasil mergulhará, após as propostas de reformas e revisão dos gastos encaminhada pelo presidente interino, Michel Temer.

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Na sexta-feira, após reunião do G-7, no Japão, Hollande garantiu que não recuará da revisão das leis:

— Acredito que é uma boa reforma e devemos continuar até sua adoção.

Às vésperas da campanha presidencial, em 2017, porém, o debate sobre mudanças estruturais na França não se restringe à reforma trabalhista. Alain Jupeé, provável candidato de centro-direita à presidência, tem afirmado que o ajuste precisa ser mais duro, com corte de gastos e de funcionários públicos e aumento da idade mínima de aposentadoria de 62 para 65 anos.

Quase todos os países europeus fizeram reformas para elevar a idade mínima, ao longo do tempo, para 65, 67 e até 68 anos. A França é exceção. Istvan Kasznar, economista da Fundação Getulio Vargas (FGV), diz que a mudança é urgente:

— A França vive, desde o fim dos anos 70, um envelhecimento populacional, e a sua capacidade de criar receitas para essa Previdência se limitou.

Para o economista Paulo Tafner, ao adiar a correção do déficit, cria-se um problema futuro:

— É uma irresponsabilidade, pois o jovem de hoje vai pagar a conta. Quando ele se aposentar, corre o risco de encontrar um país sem recursos.

Para especialistas, a França, tardiamente, se depara com os dilemas que o restante da União Europeia enfrenta desde a crise de 2008, que levou à bancarrota Estados com máquina pública inchada, orçamentos estourados e alto grau de endividamento. O ajuste foi severo desde então, com cortes de gastos e revisões gerais de legislações — especialmente a trabalhista e a previdenciária.

No caso mais emblemático, a Grécia, falida, foi obrigada a diminuir salários do funcionalismo, aumentar contribuições previdenciárias e reduzir benefícios pagos. A Espanha facilitou demissões coletivas e permitiu redução de jornada e salários, voltando a crescer.

A situação da França não é tão crítica. Mas o país está perdendo terreno aceleradamente para a Alemanha, que aproveitou o processo de unificação, nos anos 1990, para realizar um duro ajuste, que a consolidou como principal potência europeia, com economia em expansão e baixo desemprego — na França, a taxa chega a 10%.

— A Alemanha, após a reunificação, passou dez anos fazendo reformas. Controlou salários, reformulou a política industrial, reorganizou a economia. Quem mais cresce na Europa agora? — indaga a economista Monica de Bolle.

Esta semana, o FMI divulgou que a França deve crescer apenas 1,75% ao ano nos próximos cinco anos. Ressaltou que o ritmo não será suficiente para criar empregos e reduzir a dívida: “A economia francesa está se recuperando, mas maiores esforços ainda são necessários para criar empregos e colocar as finanças públicas em uma trajetória mais sustentável”.

A reforma trabalhista é uma opção clara no plano de recuperação da França. Um dos principais pontos é permitir que a sagrada jornada de 35 horas de trabalho semanais possa ser estendida para 48 ou até 60 horas. Demissões em empresas cujas receitas caiam por quatro trimestres passam a ser admitidas, e o pagamento de hora extra será flexibilizado.

Monica de Bolle argumenta que o Brasil tem muito a aprender com a França: ajustes devem ser feitos para ganhos de longo prazo. Temer parece ter optado por este caminho. Na posse, indicou que enviará as reformas trabalhista e da Previdência ao Congresso, com flexibilização de jornada e salários e a adoção de idade mínima para a aposentadoria. Esta semana, propôs uma revisão profunda nos gastos sociais, com desvinculação das despesas com saúde, educação e benefícios previdenciários.

Na avaliação do economista Manuel Thedim, do Iets, o desafio enfrentado por Hollande antecipa o debate no qual o Brasil vai mergulhar:

— No Brasil, essas duas reformas também são essenciais, pois temos problemas semelhantes: desemprego de dois dígitos e déficit da Previdência. Acredito que vai ter reação muito forte dos sindicatos apoiados pelo PT. Mas, diferentemente da França, aqui são menos organizados, e Temer parece ter apoio do Congresso.

Monica de Bolle concorda:

— No Brasil, não é mais possível ignorar as reformas necessárias. Elas estão em todas as áreas da economia. Quanto maior a demora em realizá-las, maiores os cortes a serem feitos.

oglobo.globo.com | 28-05-2016
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