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Grécia Saúde

É muito provável que brasileiros, ao verem, em 2015, as cenas de gregos em filas à frente de caixas eletrônicos sem dinheiro, imagens de aposentados em Atenas durante protestos contra cortes nos benefícios, ao lado de servidores públicos com salários atrasados, tenham se sentido aliviados porque aqueles dramas aconteciam muito distante do Brasil. Quase do outro lado do mundo.

Mas, na verdade, encontravam-se, àquela altura, bastante próximos, à medida que a crise fiscal semeada pelo governo Lula/Dilma consolidava no subsolo da economia as condições — já visíveis há algum tempo por analistas — para uma grave crise fiscal. Algo no padrão grego daqueles dias, infelizmente. No fim do ano, o pedido de abertura de processo de impeachment contra Dilma seria aceito na Câmara, por Eduardo Cunha. A eclosão da crise prevista na campanha eleitoral de 2014 — a imprensa profissional começara a tratar do assunto antes — e o impeachment da presidente foram o desfecho de tudo.

A montagem da bomba-relógio não foi instantânea. Para ser preciso, começou na Constituição de 1988, com a missão dada ao Estado para com acabar com a miséria, atender toda população na rede de saúde pública, educar e assim por diante. Sempre o Estado como responsável por uma empreitada gigantesca contra a pobreza, além de outras.

A miríade de gastos ditos sociais, em que se incluem os da Previdência e benefícios assemelhados (Loas, por exemplo), veio sendo construída passo a passo. Um gigantesco salto rumo ao precipício foi a indexação de benefícios previdenciários e muitas outras despesas sociais pelo salário mínimo. Este, por sua vez, passou a ter aumentos acima da inflação e — pior — à frente da produtividade da economia. Nada contra a chamada “política de valorização” da remuneração de base da população, mas atrelar ao mínimo a maior parte das despesas públicas primárias foi overdose.

A Grécia também praticou a irresponsabilidade fiscal — para seu enorme azar, em euros. Quando ficou evidente que o país não pagaria as dívidas — tudo sempre em euros —, os bancos fecharam-se à Grécia, os juros subiram e a economia entrou em colapso.

No Brasil, a debacle veio na moeda pátria. A irresponsabilidade fiscal fez investidores recuarem, projetos foram engavetados e, para agravar a situação, Dilma, o secretário de Tesouro, Arno Augustin, mago da “contabilidade criativa”, sob as bênçãos do seu chefe formal, ministro Guido Mantega, passaram a adulterar as contas públicas. Acabou a credibilidade do governo dentro e fora do país, e a presidente sofreu impeachment.

O Brasil pôde deixar o real se desvalorizar (daí os enormes superávits comerciais, também fermentados pela recessão interna). A Grécia, nem isso, porque não tem moeda própria. Recorre à União Europeia e ao FMI para renegociar dívidas, enquanto executa duro ajuste.

O Brasil não padece de falta de divisas. Mas tem de ajustar as contas internas, em reais, implodidas pelos mecanismos de indexação de gastos, desregramento em geral nas despesas e pela queda da receita tribuária devido à enorme recessão provocada por toda esta lambança macroeconômica. Um circulo vicioso trágico.

Por caminhos diferentes, Brasil e Grécia chegaram ao mesmo desastre da explosão das contas públicas. Daí a semelhança dos dramas pessoais de servidores públicos gregos e brasileiros, e também aposentados da iniciativa privada: desemprego, benefícios previdenciários e pensões atrasados (o que acontecerá no âmbito do INSS, se não vier a reforma). A Grécia da crise chegou ao Brasil, pelo Rio de Janeiro. Mas visita todos os estados.

oglobo.globo.com | 13-11-2016

Atenas, Grécia, 7/11/2016 – A Meia-Lua Vermelha dos Emirados Árabes Unidos se reuniu com funcionários do Ministério da Saúde da Grécia para organizar a ajuda aos refugiados assentados no país. Do encontro participaram Amna Al Shawq, integrante da missão emiratense que viajou a esse país, e do coronel Nabit Al Zahmi, adido militar que encabeçou […]

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www.envolverde.com.br | 07-11-2016

RIO - O sociólogo Boaventura de Sousa Santos atesta a falência do sistema partidário nos EUA numa campanha atípica, na qual lideranças republicanas declararam voto à democrata Hillary Clinton, e dois candidatos antiestablishment — Donald Trump e Bernie Sanders — ganharam força. Sousa Santos divide seu tempo entre as universidades de Coimbra, em Portugal, e Wisconsin-Madison, nos EUA, onde mora parte do ano. Em Brasília, será homenageado com o título de cidadão honorário, e lança a “A difícil democracia – reinventar as esquerdas” (Editora Boitempo), durante a Bienal do Livro e da Leitura. O sociólogo conversou com O GLOBO, por telefone, antes de chegar ao Brasil.

Para onde caminha a democracia americana com um candidato como Donald Trump, que defende a deportação de imigrantes e ameaça não reconhecer o resultado das eleições?

trump & hillary

Esta eleição tem duas características sem precedentes na História da democracia americana. A primeira é o fato de um dos candidatos não se dispor a reconhecer o resultado se não ganhar. Isso chegou ao ponto de as eleições serem monitoradas por observadores da OEA e da UE, o que representa uma inversão sem precedentes do que tem ocorrido internacionalmente. É um sinal dos tempos. Há uma crise da democracia. E há outra característica: o dinheiro tem cada vez mais influência nos processos eleitorais dos países. Nos EUA, uma controversa decisão da Suprema Corte permitiu a qualquer empresa ou cidadão financiar os partidos, sem limites. Isso alterou muito o panorama americano de uma democracia totalmente dominada pela plutocracia, isto é, por quem tem dinheiro. A situação tem piorado muito. Neste momento, temos, por um lado, uma candidata que, de alguma maneira, tem que se comprometer com o capital financeiro global. Os e-mails divulgados pelo WikiLeaks revelam que Hillary diz uma coisa em público e outra em privado, quando fala para grandes corporações financeiras de Wall Street, que pagam rios de dinheiro por suas palestras. Por este lado, o dinheiro estará muito presente nas políticas de Hillary. As suas decisões, certamente, não vão contribuir para que se faça uma regulação do capital financeiro, que me parece absolutamente necessária se não quisermos voltar a ter uma crise global. E, por outro lado, o outro candidato é em si mesmo o sinal dos tempos porque se limita a ser um bilionário, um empresário cujo sucesso é questionado. Alguns de seus cassinos foram quatro vezes à falência e tudo leva a crer que essa falência foi provocada para não pagar dívidas. Prepara-se para ser presidente dos EUA alguém que não paga impostos. Por todas estas razões, penso que esta eleição não tem precedentes, embora a nível mundial, diria que não é por acaso que se trata de um bilionário e um homem do show business. Temos na Itália o partido Cinco Estrelas dirigido por um palhaço. E na Guatemala temos um presidente comediante.

Como o senhor interpreta o espaço que Trump e Sanders conquistaram junto ao eleitorado republicano e democrata, defendendo, cada um a seu modo, plataformas contra a política tradicional? É a falência da política partidária?

É a falência de um sistema político, com problemas graves no sistema partidário porque insiste no bipartidarismo, quando existe uma diversidade de opiniões políticas que não se enquadram no Partido Democrata nem no Republicano. Temos uma candidata dos Verdes, Jill Stein, que não pôde aparecer nos debates porque o sistema está orientado para favorecer os dois partidos. Mas o sistema se abriu em duas vertentes, uma para a esquerda e outra para direita. Bernie Sanders é abertura interessante, para uma esquerda moderada, para o que na Europa designamos de social-democracia. Trump é uma saída pela direita, com fortes afinidades com o Tea Party.

O vencedor desta eleição terá que lidar com uma metade de americanos insatisfeita e também com fraturas dentro de seus próprios partidos. Quais os riscos para a democracia americana?

A democracia americana a nível nacional é altamente problemática. Os cidadãos se abstêm muito nas eleições. Há uma crise no sistema e na participação. Neste momento, está tudo em suspenso. Hillary dá toda a ênfase a uma vitória o mais rotunda possível para evitar que o não reconhecimento das eleições possa levar a um problema legal. Não seria a primeira vez. Daí a estratégia do partido de investir em estados em que o Partido Democrata nunca venceu. O grande problema vai ser a aceitação. Este sistema tem uma grande coesão das elites políticas. Se ganha a Hillary, vai haver uma revolta interna do Partido Republicano, que já está anunciada pelo presidente da Câmara, Paul Ryan. Vai ocorrer um ajuste de contas dentro do partido. No Partido Democrata, sai fortalecida a linha mais conservadora, a de Hillary. Havia uma certa esperança de que ela se voltasse mais à esquerda pelo que prometeu ao Bernie Sanders. Tem falado em algumas promessas, mas é evidente que o fato de Trump ter puxado tanto o discurso à direita faz com que Hillary receba o apoio de muitos republicanos. É a prova da ruptura que está ocorrendo dentro do Partido Republicano e do ajuste de contas que se fará necessário.

Nesta desordem mundial, governantes de viés autocrático como o russo Vladimir Putin e o turco Recep Tayyip Erdogan conquistam espaço em seus países com um novo modelo de governo, despido de uma agenda ideológica. O senhor concorda?

Não, você menciona os nomes que a mídia ocidental cria. Não digo que são santos, mas também não são ditadores no mesmo nível que a família real da Arábia Saudita, grande amiga dos EUA. São mais democráticos, por exemplo, do que o governo de Israel. Neste momento, a Guerra Fria volta a crescer, e os governantes são aliados da mídia internacional de acordo com seus interesses. O Erdogan, por exemplo, tem sido amigo da União Europeia. A certa altura, mostrou algumas divergências com as posições dos EUA no Oriente Médio e foi considerado autoritário. Neste momento, a UE o utiliza para que ceda parte da Turquia como um campo de internamento perpétuo para parte dos refugiados. O caso do Putin é um bom exemplo. Não é um santo, mas é evidente que há uma estratégia de Guerra Fria. É preciso lembrar que Hillary é considerada um falcão da guerra. Se for eleita, teremos mais guerras com Hillary, talvez mais do que com Trump. Mas o problema é que Trump é imprevisível. Como europeu, não gostaria que a Europa fosse arrastada para uma Guerra Fria.

Como o senhor avalia o governo do presidente Obama?

O presidente dos EUA não tem tanto poder quanto imaginamos porque há uma estrutura de poder econômico muito forte, muito condicionada pela indústria militar e que tem exigências muito fortes. Houve aumento extraordinário das despesas militares. É uma contradição. Obama, ao contrário do que propôs, não baixou as despesas militares, teve a sua guerra. Pode ser que a guerra de Hillary seja a da Síria. Há outras coisas que tentou fazer, e o Senado não deixou. Ele tentou uma solução moderada para o sistema de saúde, por exemplo, que é insustentável, criando um sistema semipúblico controlado pelas seguradoras. Mas os conservadores puseram o Obamacare em tribunal. Os conservadores mais radicais têm dominado a agenda do partido. Ele não pôde também fechar Guantánamo, como queria. Perdeu oportunidade de fazer uma regulação do capital, como prometeu. Para mim, em alguns temas ele foi uma decepção relativa. Houve muita esperança. Também na frente racial, termina o mandato com maior incidência de episódios racistas na sociedade americana, não por culpa dele. O racismo está muito inscrito na sociedade, e o fato de ser um presidente negro gera mais preconceito. Assim como Hillary Clinton suscitará preconceito sexista.

A social-democracia perdeu poder e vive uma crise de identidade em vários países da Europa. Como reconquistar o eleitor diante da decadência do Estado do Bem-Estar Social e a pressão cada vez maior por políticas de austeridade?

É um campo de disputa na Europa atualmente. Dentro do modelo que nós designamos como neoliberal não existe a social-democracia. O neoliberalismo tinha muita dificuldade de penetrar nos países a nível nacional porque eles têm uma tradição social-democrata, como Alemanha, França, Portugal, Espanha e a própria Inglaterra. Mas o neoliberalismo entrou pelas instituições da União Europeia. Temos uma Comissão Europeia ideologicamente neoliberal e um Banco Central dirigido por um neoliberal, Mario Draghi, que disse recentemente que a social-democracia tinha acabado. A contradição neste momento é entre a Comissão Europeia e os governos nacionais. Na Grécia, o Syriza tenta uma alternativa confrontacional de maneira dramática. Em Portugal, se deu uma política distinta, de não confrontar as instituições europeias, mas de procurar, dentro das leis e do sistema europeu, algumas brechas que permitam manter um sistema democrático depois de quatro anos de um governo conservador radical. Portugal, neste momento, é a única solução de esquerda na Europa. É um governo socialista com apoio parlamentar de duas forças que nunca tinham concordado em colaborar com o Partido Socialista - o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda. É uma experiência que apoio como cidadão e como sociólogo observo com muita curiosidade, porque obviamente há uma hostilidade da Comissão Europeia a este governo. Existe uma ideia de que para ser europeísta é preciso ser de direita. E, por fim, a Espanha, onde se criaram tantas expectativas acerca de uma solução alternativa moderada ao neoliberalismo, mas, ao fim de um ano, se mostrou impossível.

Movimentos formados por indignados, como o Syriza, na Grécia, o Podemos, na Espanha, e o Cinco Estrelas, na Itália, conseguiram bons resultados eleitorais, mas agora enfrentam escândalos ou brigas internas da mesma forma que partidos tradicionais. Qual é a saída para eles?

Só pode haver uma saída europeia para eles. O caso do Syriza é dramático porque existe uma contradição total com o programa do partido. Na Espanha, o Partido Socialista não quis qualquer acordo com o Podemos. A social-democracia europeia só se reabillita a nível europeu. É uma questão de justiça social. E na Europa há muitas forças que não aceitaram que as sociedades tenham que ser tão desiguais. Se não houver alguma flexibilidade, teremos mais Brexits.

A crise dos refugiados fortaleceu a extrema-direita na Europa. Quais os riscos que a democracia corre atualmente no continente?

Vivemos uma grande crise de refugiados, mas esquecemo-nos de que na África o número é imensamente maior. França e Inglaterra não conseguem resolver o problema de dez mil pessoas no campo de Calais. No Norte da Nigéria, há 1,4 milhão de pessoas deslocadas pelo Boko Haram. Por que na Europa isso é tão grave? Porque na Europa quem está mais protegido socialmente, quem tem mais bem-estar, não quer perder isso. Acho preocupante. O outro lado do fracasso da social-democracia é que os neoliberais de Bruxelas pensam que podem manter a UE numa agenda neoliberal. Não vão conseguir. Não serão eles, mas será uma extrema-direita mais forte, que é nacionalista e também não quer a União Europeia. Esses partidos de extrema-direita são anti-UE. Existe uma cegueira total das instituições de Bruxelas. Pensam que vão manter a UE numa perspectiva neoliberal. Não vão. Alimentam as forças de extrema-direita, que são nacionalistas e não querem ceder parte da sua soberania à União Europeia. É a manipulação do descontentamento. O desemprego tem crescido na Europa, e basta que um político manipule um empregado (com a ideia de) que a possibilidade do desemprego é mais elevada se entrarem refugiados. E isso não é verdade. Foi uma grande oportunidade que a Europa poderia ter aproveitado.

oglobo.globo.com | 27-10-2016

WASHINGTON - O Fundo Monetário Internacional (FMI) não vai participar do programa de resgate à Grécia, mas deve aceitar o status de conselheiro, com alcance limitado, disseram duas fontes com conhecimento do assunto. Grécia

Por mais de um ano, o Fundo vem se resguardando a respeito dos termos com os quais concordaria para tomar parte no socorro, argumentando que, sem um alívio para as dívidas, as exigências para o resgate não são realistas. Porém, cada vez mais, vem se conformando com a resistência da Europa a fazer concessões e, agora, está em negociações para aceitar a recém-criada regra que permitiria uma participação limitada no acordo.

O formato da contribuição do FMI no programa de socorro ainda não está bem definido. “O Fundo será mais que um conselheiro”, disse uma fonte, mas não trabalhará com condicionamentos, como a checagem trimestral da saúde financeira do país. O organismo faria, por exemplo, o desenho de certos acordos e nos documentos da negociação, fazendo a coordenação entre os gregos e a União Europeia. “Eles não vão colocar dinheiro no programa, mas não se limitarão a dar assistência técnica”, disse a fonte. “Provavelmente, terão um papel de conselheiro especial, especialmente criado para o resgate grego”, disse outra pessoa.

As negociações entre a Grécia, seus credores europeus e o FMI seguem num impasse desde que o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schaeuble, insistiu que o FMI tomasse parte do acordo, mas rejeitou os pedidos da diretora-gerente do Fundo, Christine Lagarde, para que aceitasse uma grande reestruturação do débito grego.

Para Schaeuble, uma vez que os prazos para o pagamento da dívida grega já foram prolongados por 35 anos e os pagamentos de juros foram adiados por 10 anos, as pessoas que falam em alívio da dívida simplesmente “não querem falar sobre o que a Grécia precisa fazer”. O ministro afirmou que Atenas deve atender às condições que foram estabelecidas.

oglobo.globo.com | 08-10-2016

A pesquisa desenvolvida pela Fundação Getúlio Vargas — Instituto Brasileiro de Economia (FGV/Ibre) indicando que os cariocas estão muito insatisfeitos com saúde, segurança, transporte e educação reforça uma advertência severa aos gestores públicos: o Estado brasileiro, responsável pela maior carga tributária entre os países emergentes, mostra mão pesada na hora de cobrar dos cidadãos, mas a contrapartida da prestação de serviços é desastrosa. No estudo inédito, feito de 1º de junho a 4 de agosto, antes da Olimpíada, os entrevistados deram, numa escala de zero a dez, notas abaixo de cinco em dez dos 15 itens avaliados, sendo que em alguns casos a reprovação é veemente: 2,18 para saúde pública e 2,45 para segurança.

Não são males apenas cariocas, porque São Paulo também registrou alto grau de insatisfação, com notas abaixo de cinco em dez itens, mas, no geral, com melhor desempenho que o Rio. Tampouco se trata de mero reflexo da atual crise, já que cidadãos de países em dificuldades como a Grécia mostraram-se, em 2013, menos insatisfeitos em pesquisa semelhante, dando 4,8 à saúde, 4,63 à educação e 3,95 aos transportes, enquanto a média de São Paulo e Rio foi, respectivamente, 2,54, 4,13 e 5,62.

Realizada com 1.500 pessoas (800 paulistanos e 700 cariocas), a pesquisa é mais um indicativo da ineficiência crônica do Estado brasileiro, subordinado aos interesses das corporações que, ao máximo possível, criam obstáculos à realização de uma reforma ampla, além da anunciada pelo governo, que precisa evitar a insolvência do Tesouro, mas não necessariamente garante uma prestação de serviços pelo menos razoável. Outras medidas serão necessárias.

Viabilizar a Previdência deve ser só o começo. Da mesma forma que as concessões e privatizações em aeroportos, energia, rodovias, portos e ferrovias, que têm enorme potencial de desonerar o Estado e gerar empregos, mas enfrentam ferrenha oposição de corporações interessadas em manter privilégios — seja em forma de salários mais altos e benefícios negados aos trabalhadores da iniciativa privada, seja na recusa à cobrança de desempenho.

Portanto, o país que grita contra o abismo entre a pesada carga tributária e o ínfimo retorno precisa decidir se terá firme propósito de fazer as reformas que permitam ao Estado atender aos cidadãos que o sustentam, e não às corporações que emperram seu avanço. Do contrário, pesquisas sobre serviços públicos apresentarão sempre os mesmos resultados.

oglobo.globo.com | 18-09-2016

RIO - O Rio pode ser a Cidade Maravilhosa, mas o carioca não tem essa percepção do lugar onde vive. Uma pesquisa piloto, desenvolvida pela primeira vez no Brasil pela Fundação Getúlio Vargas — Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre), revelou que quem mora na cidade considera abaixo da média os serviços de saúde pública, segurança, transportes e os oferecidos por universidades, escolas e creches do poder público. Avaliados numa escala de 0 a 10, todos ficaram com notas inferiores a 5.

Em comparação a São Paulo, onde a mesma pesquisa foi feita, o Rio também não se saiu bem. De 15 itens avaliados, só em três os cariocas deram notas mais altas que os paulistanos: qualidade do ar, trânsito e infraestrutura para a prática de esportes. Os moradores do Rio também estão menos satisfeitos, por exemplo, com a limpeza urbana e o nível de barulho.

A pesquisa toma como base estudos semelhantes realizados na Europa, que são usados para orientar políticas públicas naquele continente. O trabalho da FGV avaliou a percepção de paulistanos e cariocas. Os participantes tinham que atribuir notas aos itens analisados, ao responder a uma pergunta sobre o grau de satisfação que tinham. Em ambas as cidades, as piores médias foram concedidas aos itens saúde pública (2,18 no Rio e 2,96 em São Paulo) e segurança pública (2,45 e 3,38, respectivamente). Nas duas, apenas cinco itens tiveram nota média acima de 5: qualidade da água potável, limpeza das ruas/coleta de lixo, urbanização, barulho e qualidade do ar. Nesses quesitos específicos, a percepção dos cariocas só é melhor que a dos paulistanos em relação à poluição do ar.

— A proposta do estudo é avaliar a percepção da população dessas duas cidades sobre a qualidade de seus serviços, sem entrar no mérito de eles serem prestados pelo governo federal, pelos estados ou pelas prefeituras. Mas os indicadores serão importantes para que as autoridades avaliem se estão investindo como deveriam em áreas consideradas relevantes para a população. Se acreditam que investiram para melhorar a qualidade do serviço, os gestores também têm que tentar entender por que a população tem determinada percepção — explicou a economista Viviane Seda Bittencourt, coordenadora da pesquisa.

NOTAS PIORES QUE EM PAÍSES EUROPES

Em comparação a pesquisas feitas na Europa em 2013 com indicadores semelhantes, moradores do Rio e de São Paulo atribuíram notas piores aos seus serviços públicos inclusive do que cidadãos de países com dificuldades econômicas. Na Grécia, por exemplo, no último estudo, a população atribuiu média de 4,80 à saúde, 4,63 à educação e 3,95 aos transportes. Na média, os moradores de Rio e São Paulo atribuíram aos mesmos itens, respectivamente, notas 2,54, 4,13 e 5,62.

O que a pesquisa da FGV constatou em relação ao Rio resume um pouco do que pensa, por exemplo, a consultora de marketing Luna Paladino, de 30 anos, moradora de Botafogo desde seu nascimento. Ela disse que se sente bem no bairro, mas reclama da qualidade dos serviços públicos que acabam interferindo na sensação de bem-estar dela e dos vizinhos. Segundo Luana, os principais problemas de Botafogo são a segurança pública, o trânsito, o barulho e qualidade do ar em alguns pontos.

— O trânsito é insuportável nas ruas São Clemente e Voluntários da Pátria, gerando reflexos nas vias internas. Na hora do rush, por exemplo, demoro 40 minutos para ir da casa da minha mãe, na Barão de Lucena, para a minha, na Eduardo Guinle. Este é um bairro de passagem e com muitos colégios, deixando-o propício a mais movimentação. E acho que o trânsito piorou com a colocação do BRS. Trabalho no Centro e vou e volto de metrô, que na minha opinião é a salvação dos moradores para fugir do trânsito — disse.

Luna costuma correr no Aterro do Flamengo. Segundo ela, a infraestrutura na região para a prática de esportes é boa. Mas a consultora reclama da falta de segurança: bandidos já roubaram sua bicicleta três vezes. Por isso, ela desistiu de pedalar no Aterro.

Os dados subdivididos por regiões das cidades do Rio e de São Paulo ainda estão sob análise dos pesquisadores. Mas indicadores preliminares mostram algumas curiosidades, como a avaliação do trânsito. A média entre os cariocas (4,58) ficou ligeiramente acima da dos paulistanos (4,50). No caso dos moradores do Rio, a pior avaliação veio dos que vivem na região de Barra, Recreio e Jacarepaguá, onde a nota média para o quesito (3,64) ficou abaixo da pior dada por nossos vizinhos (3,9). Esta foi atribuída pelos que moram na Zona Sul de São Paulo, cujos principais acessos são as marginais, onde o tráfego costumar ser intenso.

Com o estudo piloto, a FGV Ibre também pretende avaliar se a realização da Olimpíada no Rio terá alguma influência na percepção da qualidade dos serviços públicos na cidade. A pesquisa foi realizada antes do evento — entre os dias 1º de junho e 4 de agosto. Um novo questionário será aplicado este mês e em outubro, para comparação dos indicadores de percepção. A expectativa é que os relatórios completos — inclusive com resultados de cada região da cidade — sejam divulgados no fim do ano.

— O Rio recebeu investimentos importantes em infraestrutura para a Olimpíada. Muitas obras só ficaram prontas perto do evento. A gente quer avaliar que impacto a realização dos Jogos terá na percepção da população. A repetição do estudo em São Paulo é para efeito de controle dos resultados da pesquisa no Rio, pois permite comparar indicadores — disse Viviane.

Ao todo, os questionários foram respondidos por 1.500 pessoas (700 no Rio de Janeiro e 800 em São Paulo). Para fazer uma distribuição proporcional às características socioeconômicas e à quantidade de moradores das diversas regiões das duas cidades, os pesquisadores recorreram a informações coletadas no último censo do IBGE (2010). No Rio, a distribuição seguiu o critério de divisão pelas chamadas Áreas Programáticas: AP 1 (Centro), AP 2 (Zona Sul), AP 3 (Zona Norte), AP 4 (Barra, Recreio e Jacarepaguá) e AP 5 (Zona Oeste). Em São Paulo, a cidade foi dividida em seis áreas, conhecidas como Coordenadorias Regionais de Saúde.

PLANO É ESTENDER ESTUDO A OUTRAS CAPITAIS

A versão europeia da pesquisa é desenvolvida pela European Foundation for the Improvement of Living and Working Conditions (Eurofund), fundada em 1975. Com sede na Irlanda, a Eurofound é uma entidade vinculada à União Europeia, que desenvolve vários estudos em relação à percepção da qualidade de vida no continente. Também analisa outros indicadores sociais e econômicos, para orientar políticas públicas nesses países. Atualmente, os pesquisadores atuam em 33 países: 28 da União Europeia (incluindo Grã-Bretanha, que ainda não concluiu sua saída do bloco), além de Albânia, Macedônia, Montenegro, Sérvia e Turquia (candidatos a se associarem).

A intenção da FGV Ibre é que a pesquisa se torne mais uma das desenvolvidas permanentemente pela entidade, podendo se expandir para outras capitais brasileiras. No entanto, a FGV ainda não decidiu que outras cidades seriam estudadas, nem a fonte de financiamento. O trabalho atual, cujo valor não foi divulgado, foi feito com recursos da própria entidade.

— A prioridade neste momento é concluir a pesquisa piloto — disse Viviane.

oglobo.globo.com | 10-09-2016
O ministério da Saúde da Grécia afirmou hoje que suspendeu a coleta de sangue no país após uma alta dos casos de malária no país, uma consequência do alto número de imigrantes que chega ao país.A medida entrou em vigor nesta segunda-feira após 65 casos de contaminação relatados desde o início do ano, a maioria envolvendo imigrantes. O ministério descreveu os casos como "esporádicos" e disse que eles não são motivo de preocupação. [Leia mais...]
atarde.uol.com.br | 22-08-2016

Ao ser incluída na Constituição de 88 a possibilidade de “grandes fortunas” serem taxadas, este imposto passou a transitar no imaginário das esquerdas — sempre prontas a punir a “burguesia” em atos de “justiça social” —, e é sempre lembrado quando há problemas fiscais. É costume, por exemplo, sindicatos colocarem sobre a mesa a proposta do gravame sobre fortunas, quando se discute o sério desequilíbrio do sistema previdenciário.

Taxar o patrimônio dos ricos parece remédio para todos os males. Não é sem motivo, então, que em meio à mais grave crise fiscal da história, esteja para ser votado na Comissão de Assuntos Sociais do Senado um projeto de lei com este objetivo.

De autoria do senador Antonio Carlos Valadares (PSB-SE), a proposta, relatada por Benedito de Lira (PP-AL), tem como alvo patrimônios superiores a R$ 2,5 milhões. A partir deste valor, começarão a incidir alíquotas a começar de 0,5%, numa progressão escalonada até chegar a 2,5%, aplicados sobre patrimônios acima de R$ 40 milhões.

O projeto destina a arrecadação para o SUS. Mas quem pensa que, assim, estarão resolvidos os problemas da saúde pública deve refrear o otimismo, porque taxar fortunas não é tão simples como parece. Há várias experiências no mundo que aconselham cautela antes de se contar com bilhões no Tesouro.

Uma questão a avaliar é o alto custo de fiscalização. Como se trata de um imposto declaratório — depende de o contribuinte declarar com fidedignidade os bens —, a arrecadação requer uma robusta máquina de fiscalização, cujo custo pode não compensar o que será coletado.

Tanto que, na América Latina, apenas Argentina, Colômbia e Uruguai têm este imposto. Há, ainda, o efeito perverso do incentivo à migração de patrimônios. Se manter propriedades no Brasil passa a ser muito gravoso, pode-se transferir o que for conveniente para o exterior e dar o mesmo destino aos investimentos familiares futuros. O resultado, aparentemente paradoxal, é uma redução real nos impostos recolhidos no país. Sem considerar a migração de empregos.

Esta é uma das explicações para, na década de 90, vários países europeus terem decidido acabar com o imposto sobre fortunas. As distâncias mais curtas dentro do continente também facilitam este tipo de migração de patrimônios. E foi assim que o gravame terminou revogado em Áustria, Itália, Dinamarca, Alemanha, Islândia, Finlândia, Suécia, Espanha e Grécia. Na Alemanha, chegou a ser declarado inconstitucional, devido ao seu caráter confiscatório.

O melhor a fazer é evitar a criação de mais um imposto num país de elevada carga tributária — e pior, um imposto de baixa eficiência e que ainda estimulará a fuga de riqueza e empregos. Não há escapatória à necessidade de se reduzirem os gastos gigantescos do Estado.

oglobo.globo.com | 29-07-2016

Às vésperas de sediar a Olimpíada, a “remodelada” cidade do Rio se assemelha à antiquíssima Atenas, mas não em seus imemoriais e gloriosos dias homéricos, e sim em seu presente neoliberal, decadente e injusto. Com seus deuses decadentes, mas ainda no poder, o Estado do Rio, por sua vez, se depara, tal qual o Brasil, com um tenebroso cenário grego, no qual a maioria da população, privada de participação política, se encontra refém de poderes tirânicos, representantes de uma minoria de oligarcas que habita palácios e jardins. Se, na Grécia contemporânea, os interesses do povo se curvam aos ditames privatistas dos banqueiros da União Europeia, no Brasil de hoje, um governo golpista implementa um draconiano ajuste fiscal que pode significar o fim da educação e da saúde públicas. Governado pelos mesmos titãs decrépitos que controlam a pólis olímpica — e o poder federal —, o estado é um laboratório do modelo de gestão que o PMDB de Temer oferece ao país.

Enquanto nas favelas a PM, olimpicamente, assassina jovens negros, o direito à educação e à saúde é subtraído aos cidadãos por meio de um impudente desfinanciamento — e a greve dos profissionais da educação e as mobilizações do Fórum de Saúde são justas respostas a isso. Boa parte da artilharia do governo estadual está voltada contra a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), com destaque para seu hospital, o Pedro Ernesto (Hupe).

O caso da Uerj é exemplar do projeto perpetrado pelo triunvirato Pezão-Dornelles-Picciani. A crise financeira estadual, oriunda não só dos vultosos gastos com os megaventos, mas também das incontáveis isenções fiscais concedidas a cervejarias e outras empresas de serviços dionisíacos, tem servido de justificativa para a destruição da maior universidade do estado, a primeira no país a instituir cotas raciais. Rios de tinta poderiam ser gastos para descrever o que é feito com a Uerj, mas basta ao leitor saber que, numa reedição neoliberal da escravidão ateniense, os terceirizados trabalharam meses sem receber, até se tornarem escravos por dívidas dos bancos. E, finalmente, foram sumariamente demitidos sem direitos trabalhistas pelas empresas prestadoras de serviços, que alegam nada ter recebido dos cofres públicos em um ano no qual a execução orçamentária da universidade é, até agora, de zero centavo. Nesse quadro calamitoso, as bolsas não são pagas, e os salários de técnicos e docentes são atrasados/parcelados.

Por fim, não é escusado destacar que os diversos campi universitários hoje acumulam tanta sujeira e lixo que, como num castigo maligno ordenado pelo Zeus Cabral, trabalhadores e estudantes parecem destinados a agonizar, acorrentados, junto a ratos, baratas e Aedes aegypti, por milênios, pelo simples fato de terem optado pela tocha prometeica do conhecimento (público, gratuito e de qualidade) em detrimento da vergonhosa tocha olímpica peemedebista.

Mas a UERJ resiste!

Lia Rocha e Felipe Demier são diretores da Associação dos Docentes da Uerj

oglobo.globo.com | 16-07-2016

LONDRES - Imigração, economia, soberania, união nacional... Cada um dos dois lados na disputa usa as mesmas munições em armas de diferentes calibres de argumentação para justificar a saída ou a permanência do Reino Unido na UE, uma decisão crucial tanto para o futuro do país como da ordem construída no continente europeu no pós-guerra.

A FAVOR DA PERMANÊNCIA:

Carolyn Fairbairn | Diretora-geral da Confederação da Indústria Britânica: “Em 2020, o custo total de uma saída da União Europeia poderia chegar a £ 100 bilhões e 950 mil empregos. A renda familiar no mesmo ano pode apresentar uma queda de até £ 3.700. A economia poderia até se recuperar lentamente ao longo dos anos, mas nunca chegando aos níveis que atingiria dentro do bloco. Deixar a UE significa enfrentar uma economia reduzida em 2030.”

Nicky Edwards | Diretor de políticas e negócios públicos do TheCityUK, grupo de lobby da indústria de serviços financeiros de Londres: “A saída da União Europeia teria uma série de impactos potenciais. Uma delas é que veríamos as empresas estrangeiras que estão concentradas no país sendo obrigadas a realocar boa parte ou mesmo todas as suas operações de volta ao mercado único europeu.” CONTEÚDO BREXIT PAPEL 2306

John M. Roberts | Especialista em segurança energética do Atlantic Council: “Se os britânicos optarem pelo Brexit, não será apenas o cargo de David Cameron que estará em risco, mas a própria existência do Reino Unido. É praticamente certo que a maioria dos eleitores escoceses apoiará a permanência. No caso de uma vitória da saída, o governo da Escócia, comandado por fervorosos nacionalistas, estará preparado para um futuro no qual a Escócia não integre a UE? Nessas condições seria muito difícil para um governo britânico negar a realização de um novo referendo sobre a independência escocesa, e, caso ele acontecesse, é muito provável que a rejeição do último pleito fosse revertida em favor do apoio à independência. Além de gerar caos em Londres, Bruxelas e Edimburgo — que teriam que renegociar praticamente todos os seus acordos — que espécie de Reino Unido teríamos no caso de uma vitória da independência escocesa? Seria o País de Gales o próximo na fila por um referendo nacionalista?”

Danny Dorling | Professor da Universidade de Oxford: “A vida não é um mar de rosas para muitos dos cidadãos britânicos, mas isso não é culpa da UE. Se o Reino Unido fosse um Estado mais progressista, na vanguarda do progresso social do continente, poderíamos ter motivo para nos ressentirmos e alegar que Bruxelas está nos impedindo de progredir. Mas somos retardatários sociais. Precisamos das leis da UE para impedir que exploremos nossos trabalhadores. Nosso establishment político não teria problema algum em tolerar níveis de poluição atmosférica muito superiores àqueles que nos rendem multas da Comissão Europeia. E nunca teríamos noção dos inacreditáveis níveis de desigualdade econômica se não fosse pela leis europeias que forçam nossos banqueiros mais ricos a divulgarem detalhes de seus salários e bônus. Ao contrário de muitos dos nossos benefícios, nossos problemas não são criados pelo fato de pertencermos à UE. Somos diferentes do resto da Europa porque nosso passado é diferente. Costumávamos nos apoiar num império, e deixar a UE não vai trazê-lo de volta.”

David Cameron | Primeiro-ministro britânico: “O Brexit levaria, sem dúvida, a uma perda na influência global do Reino Unido, enfraqueceria a Otan e fortaleceria os inimigos do Ocidente, justamente quando precisamos estar lado a lado com a comunidade euro-atlântica contra ameaças comuns, inclusive no nosso continente. Sair significa retroceder a uma era de nacionalismo competitivo na Europa. Podemos estar tão seguros de que a paz e a estabilidade no continente estão garantidas sem sombra de dúvida? Esse é um risco que vale a pena correr? Eu não seria tão inconsequente a ponto de presumir isso. O isolacionismo nunca funcionou muito bem para este país.”

Stephen Hawking | Físico britânico, em carta assinada juntamente com outros 150 membros da Royal Society: “O financiamento da UE aumentou enormemente o nível da ciência europeia em geral e do Reino Unido em particular, já que temos uma vantagem competitiva. Atualmente, recrutamos nossos melhores pesquisadores a partir da Europa continental, incluindo jovens que adquiriram benefícios da UE e escolheram o Reino Unido como destino. Trabalhando em conjunto, fortalecemos nossa economia, aumentamos nossa influência no mundo e damos oportunidades futuras aos jovens.”

Sadiq Khan | Prefeito de Londres: “Temos praticamente um consenso por parte dos economistas que concordam que permanecer na UE será melhor para a economia, para o comércio, para os negócios, para a geração de empregos e para as exportações. Sabemos também que, ficando na UE, estamos protegendo direitos trabalhistas, fortalecendo as defesas do país, melhorando a qualidade do ar e garantindo o respeito às mulheres no mercado de trabalho. A campanha pela saída tenta vender a ideia de que fazer parte da Europa nos torna menos britânicos. Mas, na verdade, a opção patriótica é não virar as costas para nosso passado de abertura e disposição de coexistir com o resto do mundo. Será que realmente queremos que nosso legado seja a criação de barreiras para a próxima geração, impedindo a continuidade de programas que ajudaram mais de 200 mil estudantes britânicos nos últimos 30 anos?”

A FAVOR DA SAÍDA:

Michael Gove | Ministro da Justiça e um dos líderes da campanha pela saída britânica da UE: “A resposta da União Europeia à crise migratória é um convite irrestrito para que Macedônia, Montenegro, Sérvia, Albânia e Turquia se juntem ao bloco. Como não podemos controlar nossas fronteiras, os serviços públicos, como o Sistema Nacional de Saúde, se verão diante de uma demanda inqualificável, já que milhões de pessoas se tornarão cidadãs europeias e terão o direito de se mudar para o Reino Unido.”

Gerard Lyons | Economista e ex-conselheiro econômico da prefeitura de Londres: “A UE está mal posicionada para prosperar na economia global do futuro. A geografia deixou de ser uma barreira para o comércio, e as economias que quiserem prosperar precisarão ser flexíveis, adaptáveis e em controle de seu destino. A saída da UE nos permite ter esse controle, enquanto o bloco se tornou mais centralizador, aumentando a regulação e o controle, exatamente o oposto do que precisamos para criar empregos e obter sucesso no futuro. É errado pensar que, se permanecermos na UE, poderemos mudá-la e adequá-la. Sempre ouvimos que a UE será reformada, mas essa reforma nunca acontece. O bloco nunca enfrenta seus principais problemas, como o alto índice de desemprego entre os jovens, a depressão econômica na Grécia ou as migrações em massa. E o cenário ainda pode piorar. Estima-se que a UE será a região de menor crescimento no planeta nas próximas décadas. Permanecer no bloco envolve uma grande dose de incerteza, porque não sabemos o que acontecerá com o euro. Para encobrir suas rachaduras econômicas, a zona do euro terá que aumentar ainda mais sua centralização rumo a uma união política, e embora o Reino Unido não precise adotar o euro, estando dentro da UE ficará incapaz de evitar as consequências negativas do que quer que aconteça com a moeda.”

Philip Johnston | Editor-assistente do diário inglês “Daily Telegraph”: “A questão que será apresentada ao eleitorado britânico é, na verdade, sobre soberania: quem governa? Podemos criar nossas próprias leis, aumentar nossos próprios impostos, negociar com quem bem entendermos, pescar em nossas próprias águas, convidar quem quisermos para dentro de nosso país e remover aqueles que não quisermos? Se fôssemos uma nação independente, poderíamos fazer tudo isso, exceto atividades reguladas por tratados internacionais. Como membro da UE, não podemos fazer nenhuma delas, a menos que façamos de maneira coletiva. O Parlamento ainda detém a soberania. A questão é se ele vai usá-la para devolver ao Reino Unido o controle de suas leis. E isso só será possível caso o país vote pela saída da UE no referendo. Não há meio-termo.”

Boris Johnson | Ex-prefeito de Londres: “Uma relação com a Europa que não seja baseada nos caprichos de burocratas não eleitos, mas na cooperação entre governos eleitos na qual poderemos continuar cooperando com nossos amigos e parceiros em questões de interesse mútuo. Podemos fazer tudo isso num nível intergovernamental, no qual não estamos mais sujeitos ao modelo único e ineficaz das leis supranacionais da UE. Quando pudermos retomar o controle dos £ 350 milhões semanais que damos à UE, teremos também o controle de nossas fronteiras. Então, quando ouço as pessoas dizendo que não podemos fazer comércio livremente com o resto do mundo, ou que a libra vai despencar ou ainda que as taxas de juros irão disparar, me lembro dos profetas do apocalipse que diziam que o bug do milênio faria com que os aviões caíssem dos céus. São as mesmas pessoas que disseram que teríamos um desastre econômico se não adotássemos o euro. O oposto provou ser verdade, e é justamente por termos nos mantido longe do euro que temos hoje a economia mais dinâmica da Europa.”

Michael Caine | Ator, duas vezes premiado com o Oscar: “Temos atualmente na Europa uma espécie de governo por procuração de todos os países que agora saiu do controle. A menos que haja uma mudança extremamente significativa, deveríamos sair da UE.”

Sol Campbell | Ex-zagueiro da seleção inglesa de futebol: “Se tivermos um controle rigoroso sobre quem pode entrar e sair do Reino Unido, poderemos trazer os melhores entre os melhores, não importa de onde quer que eles venham, enquanto impedimos aqueles que não produzirão de entrar no país.”

Richard Werner | Economista e professor da Universidade de Southampton: “O super-Estado europeu que já se formou não é democrático. O chamado Parlamento Europeu não tem o poder de propor leis. A legislação é formulada e proposta pela Comissão Europeia, que não é eleita! Como um observador russo comentou, o Parlamento Europeu é uma farsa com a função única de carimbar documentos, tal qual o Parlamento soviético durante os dias da União Soviética, enquanto o governo não eleito é a Comissão Europeia — uma espécie de Politburo repleto de seus comissários.”

oglobo.globo.com | 23-06-2016

RIO — É praticamente impossível passar pela Avenida Chrisóstomo Pimentel de Oliveira, em Anchieta, sem observar, perplexo, aquele monumento, digno de um palácio islâmico (mameluco). Apesar de os visitantes virem de toda parte, ouriçados pelo burburinho da divulgação boca a boca, muitos ainda desconhecem a existência e a riqueza histórica guardada no Museu da Humanidade, cuja beleza vai além da fachada. Há mais 90 mil peças variadas em estoque — incluindo objetos pessoais como cachimbos, leques e roupas —, sem contar o acervo documental e uma coleção de moedas gregas, romanas, bizantinas, islâmicas e medievais ainda não catalogada.

Um achado no subúrbio carioca, o espaço de 2.500 m² de área construída, vinculado ao Instituto de Pesquisa Histórica e Arqueológica do Rio de Janeiro (Ipharj), uma instituição privada, conquistou até o Comitê Olímpico Rio 2016 durante uma discreta visita realizada há dois anos e, agora, ganhará notoriedade como atração cultural da cidade num calendário paralelo aos Jogos. Peças como o Discóbolo (do escultor grego Míron); esculturas de em bronze e mármore; moedas e cerâmicas relacionadas ao esporte e às cerimônias dos Jogos; maquetes de monumentos gregos; e armamentos e instrumentos correlatos fazem parte da exposição planejada para a ocasião, de 20 de agosto a16 de outubro.

— Quando o Comitê Olímpico veio aqui, liderado pela Carla Camurati (diretora do programa de Cultura da Rio 2016), eles ficaram muito encantados. O Ipharj está antenado com o passado, mas também com a contemporaneidade. Com a exposição que estamos preparando, queremos evocar uma reflexão sobre a importância da Olimpíada no passado, sobre o que representava o esporte e a saúde. Vamos usar muitos artefatos da Grécia e fazer um desdobramento também pelo Mundo Antigo — diz o arqueólogo e historiador Claudio Prado de Mello, responsável pelo local, credenciado como reserva técnica pelo governo federal e já reconhecido pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram).

A melhor notícia é que não será preciso esperar até agosto para aproveitar a já intensa programação promovida pelo idealizador e anfitrião. Uma das muitas novidades é que a casa estará aberta às sextas e sábados, das 14h às 20h (mediante reserva), para o Ipharj Open House, encontro que ele chama de happy hour do patrimônio e da arqueologia. Nele, o tour habitual pelas mostras transitórias — a atual compreende a Era Vitoriana — é incrementado por aulas teóricas e práticas, apresentações artísticas e degustação de quitutes. Sábado que vem haverá palestra sobre Arqueologia Urbana e declamação com um intérprete do escritor Fernando Pessoa. O programa custa R$ 5.

Boa parte do público que recebe é de grupos escolares de até 40 crianças.

— Não queremos que o museu seja apenas ilustrativo. O objetivo é ensinar, fazer com que as pessoas entendam a história por trás de cada peça ou fragmento de forma a contextualizá-la. Quando isso acontece, elas passam a gostar do patrimônio histórico. E nós precisamos de preservacionistas. Dependendo do bairro de onde vem o grupo, procuro puxar por monumentos conhecidos em suas regiões, estimulando o sentimento de pertencimento — diz o profissional, que também promove esquetes teatrais em locais onde há monumentos se deteriorando (como foi feito no entorno do Convento do Carmo, no Centro, e no Palacete São Cornélio, na Glória).

Cada peça que o profissional encontra em escavações de sítios arqueológicos é numerada, registrada, medida e carrega uma ficha com a descrição de quem a encontrou, onde e em qual camada do solo. Tudo o que é encontrado, comprado ou guardado tem processos catalogados em pastas, com notas fiscais. O trabalho minucioso tem a colaboração da amiga Alba Laurentino, seu braço direito na organização do acervo.

Uma das peças de maior valor encontradas no espaço é o par de colunas salomônicas portuguesas, adquiridas num antiquário em Petrópolis por R$ 15 mil. Outras foram compradas por valor irrisório, como a dupla de leques de madrepérola e prata pertencentes à Condessa de Araruama, que custou R$ 120 e chegou a entrar num leilão por R$ 70.

— Hoje, quem compra antiguidade quer matéria-prima. Eu disputei os talheres do Conde (de Araruama), no qual paguei R$ 500, com um prateiro. Ele disse que ia derretê-los para fazer bijuteria.

Inquieto com os objetos perdidos com o tempo, dada a desvalorização lançada por herdeiros de famílias nobres, Mello se empenha em fazer barulho entre dirigentes em prol de um foro de política patrimonial dissociado da cultura.

— Os leilões são feitos com acervo privado e as famílias têm o direito de vender o que quiser, mas as pessoas não têm mais a preocupação em preservar coisas velhas, não têm a dimensão do valor histórico, por isso há relíquias tratadas como lixo. Para piorar, as leis que regem o patrimônio público datam de 1925, estão defasadas e a Alerj já atestou isso — diz.

O arqueólogo lamenta a situação de certos museus do Rio.

— Há mais de cem museus abandonados ou fechados. As peças são roubadas constantemente. É comum que sejam fechados com a justificativa de reformas. Itens do acervo do antigo Museu do Gás, por exemplo, foram para o lixo; as peças estavam à venda a preço de banana na Praça Quinze.

MAIS DE 90 MIL RELÍQUIAS PRESERVADAS

O portentoso Museu da Humanidade, em Anchieta, tem quatro andares e 14 metros de altura, apesar de aparentar dois andares para quem o vê de fora. E seu estilo islâmico (mameluco) foi escolhido pela funcionalidade além da estética, visto que favorece a iluminação e a circulação de ar nos ambientes, todos planejados com cozinhas e banheiros independentes. No último andar, há uma área de pesquisa com dois laboratórios para análise de itens que são encontrados em escavações pelo país. Das 21 salas do prédio mantido pelo Ipharj — algumas com até 12 m² —, o idealizador Claudio Prado de Mello ainda planeja abrir ao público outras sete até o fim do ano. Um projeto inusitado, no subsolo, também está nos últimos ajustes e promete causar frisson entre os visitantes: o Human Gate, galeria de arqueologia funerária. Passando por uma escada de caracol bastante estreita, planejada propositalmente, chega-se ao ambiente escuro e soturno criado por Mello, onde há réplicas de catacumba romana, tumba pré-colombiana e tumba egípcia divididas entre paredes talhadas como as que haviam na Síria, com direito a esqueletos, múmias e imagens ritualísticas, visíveis por luzes direcionadas.

— É uma novidade até em termos de América porque ninguém tem cripta como a gente tem. Eu conheci muitos sítios arqueológicos mundo afora, como em Paris e em Nápoles, e quero compartilhar com as pessoas essa vibração e energia que é entrar no Mundo Antigo — diz o arqueólogo, primeiro brasileiro a participar de uma escavação arqueológica no Egito, sobre o qual é especialista desde os 16 anos.

Uma coleção de crânios contando a história do desenvolvimento do ser humano, desde o primeiro marsupial, já faz sucesso em oficinas práticas com o público infantil, conta. A rica biblioteca do local atrai pesquisadores, que podem levar exemplares emprestados.

— Quando viajo, só levo uma muda de roupa porque as malas vêm com peças e livros; temos mais de 35 mil nas áreas de arqueologia e patrimônio.

Menino humilde e com um sonho considerado de elite, Mello precisou superar desconfianças e uma depressão para conquistar a posição profissional que tem hoje, estando à frente de importantes escavações como a que abriu caminho para as obras da Linha 4 do Metrô, no sítio arqueológico da Leopoldina. Foi encarando mais um desafio que ele ergueu o Museu da Humanidade, comprando coisas em ferro-velho, reaproveitando sobras de materiais, restos de mármore doados e intercalando gotas de suor ao cimento prensado.

— Eu não tinha dinheiro, mas tinha um terreno e duas mãos. Escavei os primeiros buracos das sapatas; tracei e sondei todos os estribos dessas colunas que têm até 12 metros de altura; fiz as portas e também o chão. Virei pedreiro, carpinteiro e serralheiro.

Ainda faltam R$ 400 mil para concluir as obras pretendidas para o espaço, frisa Mello, que aguarda aprovação em editais públicos e apoio já solicitado a fundações e personalidades como o Rei da Arábia Saudita. Mas suas aspirações não param por aí: a casa onde ele nasceu, a cerca de 500 metros do Museu, está sendo transformada, também com investimentos próprios, para se tornar o Instituto de Arqueometria e Arqueologia Aplicada, com uma arquitetura de estilo medieval italiano. Esta novidade, segundo Mello, está reservada para o ano que vem.

oglobo.globo.com | 11-06-2016

RIO e ISE-SHIMA (Japão) - Conhecida pelas leis do trabalho mais protetivas do mundo, e pela resistência a mudanças, a França se prepara para implementar uma das mais ambiciosas reformas de sua história econômica: a flexibilização da legislação trabalhista. Subvertendo a cartilha do Partido Socialista e dos fortes sindicatos franceses, o governo do presidente François Hollande admitiu que a rigidez das regras é um entrave à competitividade e decidiu abraçar mudanças já implementadas pelos seus principais pares europeus — Alemanha, Reino Unido, Espanha e Itália. Para especialistas, o acirrado debate na França antecipa as discussões nas quais o Brasil mergulhará, após as propostas de reformas e revisão dos gastos encaminhada pelo presidente interino, Michel Temer.

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Na sexta-feira, após reunião do G-7, no Japão, Hollande garantiu que não recuará da revisão das leis:

— Acredito que é uma boa reforma e devemos continuar até sua adoção.

Às vésperas da campanha presidencial, em 2017, porém, o debate sobre mudanças estruturais na França não se restringe à reforma trabalhista. Alain Jupeé, provável candidato de centro-direita à presidência, tem afirmado que o ajuste precisa ser mais duro, com corte de gastos e de funcionários públicos e aumento da idade mínima de aposentadoria de 62 para 65 anos.

Quase todos os países europeus fizeram reformas para elevar a idade mínima, ao longo do tempo, para 65, 67 e até 68 anos. A França é exceção. Istvan Kasznar, economista da Fundação Getulio Vargas (FGV), diz que a mudança é urgente:

— A França vive, desde o fim dos anos 70, um envelhecimento populacional, e a sua capacidade de criar receitas para essa Previdência se limitou.

Para o economista Paulo Tafner, ao adiar a correção do déficit, cria-se um problema futuro:

— É uma irresponsabilidade, pois o jovem de hoje vai pagar a conta. Quando ele se aposentar, corre o risco de encontrar um país sem recursos.

Para especialistas, a França, tardiamente, se depara com os dilemas que o restante da União Europeia enfrenta desde a crise de 2008, que levou à bancarrota Estados com máquina pública inchada, orçamentos estourados e alto grau de endividamento. O ajuste foi severo desde então, com cortes de gastos e revisões gerais de legislações — especialmente a trabalhista e a previdenciária.

No caso mais emblemático, a Grécia, falida, foi obrigada a diminuir salários do funcionalismo, aumentar contribuições previdenciárias e reduzir benefícios pagos. A Espanha facilitou demissões coletivas e permitiu redução de jornada e salários, voltando a crescer.

A situação da França não é tão crítica. Mas o país está perdendo terreno aceleradamente para a Alemanha, que aproveitou o processo de unificação, nos anos 1990, para realizar um duro ajuste, que a consolidou como principal potência europeia, com economia em expansão e baixo desemprego — na França, a taxa chega a 10%.

— A Alemanha, após a reunificação, passou dez anos fazendo reformas. Controlou salários, reformulou a política industrial, reorganizou a economia. Quem mais cresce na Europa agora? — indaga a economista Monica de Bolle.

Esta semana, o FMI divulgou que a França deve crescer apenas 1,75% ao ano nos próximos cinco anos. Ressaltou que o ritmo não será suficiente para criar empregos e reduzir a dívida: “A economia francesa está se recuperando, mas maiores esforços ainda são necessários para criar empregos e colocar as finanças públicas em uma trajetória mais sustentável”.

A reforma trabalhista é uma opção clara no plano de recuperação da França. Um dos principais pontos é permitir que a sagrada jornada de 35 horas de trabalho semanais possa ser estendida para 48 ou até 60 horas. Demissões em empresas cujas receitas caiam por quatro trimestres passam a ser admitidas, e o pagamento de hora extra será flexibilizado.

Monica de Bolle argumenta que o Brasil tem muito a aprender com a França: ajustes devem ser feitos para ganhos de longo prazo. Temer parece ter optado por este caminho. Na posse, indicou que enviará as reformas trabalhista e da Previdência ao Congresso, com flexibilização de jornada e salários e a adoção de idade mínima para a aposentadoria. Esta semana, propôs uma revisão profunda nos gastos sociais, com desvinculação das despesas com saúde, educação e benefícios previdenciários.

Na avaliação do economista Manuel Thedim, do Iets, o desafio enfrentado por Hollande antecipa o debate no qual o Brasil vai mergulhar:

— No Brasil, essas duas reformas também são essenciais, pois temos problemas semelhantes: desemprego de dois dígitos e déficit da Previdência. Acredito que vai ter reação muito forte dos sindicatos apoiados pelo PT. Mas, diferentemente da França, aqui são menos organizados, e Temer parece ter apoio do Congresso.

Monica de Bolle concorda:

— No Brasil, não é mais possível ignorar as reformas necessárias. Elas estão em todas as áreas da economia. Quanto maior a demora em realizá-las, maiores os cortes a serem feitos.

oglobo.globo.com | 28-05-2016

BRASÍLIA - A chama olímpica está em solo brasileiro. O avião que a trouxe da Suíça pousou às 7h25m desta terça-feira no aeroporto de Brasília. Mas a travessia do Atlântico foi só o começo. Agora, a tocha passará pelas mãos de 12 mil pessoas, entre atletas e anônimos, que a conduzirão por 327 cidades durante 95 dias. A jornada só terminará em 5 de agosto, na cerimônia de abertura dos Jogos, no Maracanã.

Revezamento da Tocha 3 de maio

Na chegada a Brasília, Ramon Del Bel, comandante da aeronave, repetiu o gesto de Romário ao voltar dos Estados Unidos, em 1994, com a seleção tetracampeã mundial de futebol. Enquanto o avião taxiava na pista, ele segurou uma bandeira do Brasil, que tremulava do lado de fora da janela.

Coube ao presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman, descer do avião conduzindo a chama. Ele foi recepcionado pelo governador do DF, Rodrigo Rollemberg, e pelo ministro do Esporte, Ricardo Leyser. Entre os que vieram no mesmo avião da chama está o bicampeão olímpico de vôlei Giovane Gavio. Ele foi o primeiro brasileiro a carregar a tocha, ainda na Grécia.

Na capital do país, a chama será levada até o Palácio do Planalto, onde, às 10h, está previsto o início do revezamento. A primeira a carregar a tocha será Fabiana Claudino, bicampeã olímpica em 2008 e 2012 e capitã da seleção brasileira de vôlei. A partir daí, serão mais 140 pessoas, que vão de atletas consagrados a gente até agora desconhecida, como a menina síria Hanan Daqqah, que deixou o país natal em guerra civil e hoje mora no Brasil.

O trajeto em Brasília terá 118 quilômetros de distância, dos quais 37 serão percorridos por 141 condutores. No restante do trajeto entre os diversos pontos da cidade que serão palco do revezamento, a chama irá de carro ou até mesmo de helicóptero. Haverá vários pontos turísticos no caminho, como a Esplanada dos Três Poderes e a ponte JK, mas também outros que não costumam chamar a atenção dos turistas. É o caso da região administrativa de Taguatinga, uma das mais populosas e agitadas do Distrito Federal. Também haverá pausas para eventos de patrocinadores, como uma concessionária de automóveis. Ao todo o revezamento passará por cinco regiões administrativas.

Além dos trajetos a pé, de carro e de helicóptero, haverá travessia a nado, de bicicleta, em canoa havaiana e em embarcação a vela. Em dois pontos, a tocha seguirá de rapel: na descida da ponte JK até o lago Paranoá, e de um helicóptero até o gramado do estádio Mané Garrincha.

Com tantas pessoas e lugares para percorrer, a tocha levará quase um dia inteiro no trajeto em Brasília. A previsão é que o revezamento se encerre às 20h50m, na Esplanada dos Ministérios, onde haverá shows com artistas locais e de projeção nacional.

Nas outras cidades, a previsão é que a tocha também fique muito tempo na rua. Deverão ser 12 horas diárias. A chama original, acesa na Grécia, não se apagará. Ela será mantida em seis lanternas de segurança. Assim, se o fogo acabar durante o revezamento, a tocha poderá ser acesa novamente por meio das lanternas. Cada tocha tem autonomia de 18 minutos, mas cada condutor percorrerá em média 200 metros, ficando apenas dois minutos com a chama olímpica.

SEGURANÇA

A segurança do revezamento também é uma preocupação. Em Brasília, serão 3,5 mil agentes de segurança participando do evento. Em todo o Brasil, participarão dos esforços para que tudo ocorra bem vários órgãos federais, estaduais e municipais. Entre eles: a Secretaria Extraordinária de Segurança para Grandes Eventos (Sesge), que coordenará a operação, a Secretaria Nacional de Segurança Pública, a Força Nacional de Segurança Pública, a Polícia Federal (PF), a Polícia Rodoviária Federal (PRF), a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), as Forças Armadas, o Ministério do Esporte, e a Polícia Militar (PM).

TOCHA OLÍMPICA II

Já na chegada ao Planalto Central, o avião comercial trazendo a tocha foi escoltado por dois caças da Força Aérea Brasileira (FAB). Mas desde a madrugada, após entrar no espaço aéreo brasileiro, ainda sobre o Oceano Atlântico, ele já era monitorado. Antes de pousar no aeroporto, sobrevoou a área central de Brasília, entre a Torre de TV e o Congresso Nacional.

Outra medida de segurança adotada foi a restrição ao uso de drones no espaço aéreo de Brasília e das outras cidades que receberão o revezamento. A ação foi anunciada pela Secretaria de Aviação Civil (SAC). Às 9h50, o céu será da Esquadrilha da Fumaça, que terá sete caças sobrevoando a Esplanada.

COMBATE AO AEDES AEGYPTI

O medo despertado pelo Aedes aegypti também foi alvo de cuidados. Em Brasília, na última sexta-feira, 90 bombeiros e 60 agentes de vigilância ambiental da Secretaria de Saúde fizeram vistoria no trajeto da tocha para combater o mosquito transmissor da dengue, zika e chicungunha. Foram achados inclusive dois focos da larva do inseto. Houve também aplicação do larvicida em vários locais, como por exemplo no espelho d'água do Congresso Nacional.

A Secretaria de Saúde do DF anunciou ontem um esquema especial para o revezamento da tocha, o que inclui o cancelamento da maioria das cirurgias eletivas (aquelas marcadas previamente) desta terça-feria no Hospital Regional da Asa Norte (Hran), na região central de Brasília.

Apenas cirurgias eletivas mais simples, em que os pacientes podem ter alta no mesmo dia, estão mantidas. Segundo a Secretaria de Saúde, o objetivo é que o centro cirúrgico esteja liberado para ventuais emergências.

Nos próximos dias, a tocha passará por várias cidades de Goiás. O revezamento passará por todos os estados, e terminará no Rio de Janeiro. A tocha chegará à cidade-sede dos jogos em 4 de agosto, e o revezamento irá até o dia seguinte, quando haverá a cerimônia de abertura.

Em Brasília, segundo o governo do Distrito Federal (GDF), o revezamento terá um custo de R$ 3,8 milhões com infraestrutura, publicidade, segurança e outros serviços.

Trajeto da tocha em Brasília:

8h50 - Tocha chega ao Palácio do Planalto, onde haverá cerimônia

10h - Início do revezamento, a partir do Palácio do Planalto, em direção ao Congresso Nacional

10h21 - Catedral

10h37 - Palácio do Itamaraty

10h46 - Praça dos Três Poderes

11h19 - Descida da Ponte JK ao Lago Paranoá por rapel

11h37 - Após condução em embarcação e canoa havaiana, chegada ao Pontão do Lago Sul

11h55 - Descida de rapel de helicóptero para o Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha

12h05 - Volta no estádio

12h17 - Complexo Aquático Cláudio Coutinho

12h47 - Parque Nacional de Brasília (Água Mineral)

12h56 às 13h13 - Pausa

13h28 - Setor de Indústria e Abastaecimento (SIA)

14h14 às 15h20 - Taguatinga

15h34 - Regimento de Polícia Montada da Polícia Militar do DF, no Riacho Fundo 1

15h58 - Avenida Central do Riacho Fundo 1

16h20 - Centro Olímpico e Paraolímpico do Riacho Fundo 1

16h57 - Asa Sul

17h49 - Igrejinha

18h22 - Rodoviária do Plano Piloto

19h11 - Parque da Cidade

19h29 - Centro de Convenções Ulysses Guimarães

20h - Memoriais JK e dos Povos Indígenas

20h23 - Torre de TV e Fonte Luminosa

20h50 - Chegada da tocha ao palco da festa de celebração na Esplanada dos Ministérios

oglobo.globo.com | 03-05-2016

ATENAS - Para expulsar nesta sexta-feira para a Turquia um segundo grupo de migrantes, a Grécia intensificou seus controles de processamento de refugiados. Isto ocorre ao mesmo tempo que a Alemanha anunciou uma forte redução dos pedidos de asilo, enquanto a Europa tenta solucionar a mais grave crise migratória desde o fim da 2ª Guerra Mundial. As autoridades gregas informaram que dois barcos levaram 124 imigrantes de volta à Turquia, como parte do acordo entre União Europeia (UE) e Ancara.

Na ilha de Lesbos, um grupo de ativistas tentou barrar a saída de um dos barcos, e três ativistas foram detidos quando seguraram a âncora, para tentar impedir a partida do porto de Mitilene. Outras 30 pessoas se reuniram no porto de Lesbos e gritaram frases como "Vergonha para a UE" e "Liberdade para os refugiados". lesbos

O grupo desembarcou no porto de Dikili (oeste da Turquia), onde os migrantes serão submetidos a "controles de identidade e de saúde", segundo uma fonte local que pediu anonimato. Uma vez registrados, os migrantes serão levados de ônibus "provavelmente para Kirklareli", noroeste da Turquia, onde existe um campo de refugiados. O governo grego informou que 111 imigrantes levados à Turquia eram paquistaneses e quatro, iraquianos. Também havia bengaleses, indianos, marroquinos, egípcios e um palestino.

As embarcações que transportam os migrantes são todas fretadas pela agência de fronteiras da UE, Frontex.

De acordo com o governo grego, a operação envolve aqueles que não solicitaram asilo na Grécia.

"Qualquer pessoa que pede asilo sai da lista", afirmou uma fonte do Executivo à AFP.

Em outra operação por terra, 97 pessoas - a maioria paquistaneses - foram levadas à Turquia, informaram as autoridades gregas.

Segundo os termos do acordo entre a UE e Ancara concluído no mês passado em Bruxelas, todos os imigrantes que chegaram de maneira irregular às ilhas gregas a partir da Turquia a partir de 20 de março correm o risco de expulsão. O acordo também afirma que para cada refugiado sírio devolvido, a UE receberá outro sírio que está na Turquia, até atingir o limite de 72.000. Em troca, a Turquia receberá uma ajuda de seis bilhões de euros e no mês de junho será suspensa a exigência de visto aos cidadãos turcos em viagens para a UE.

Na segunda-feira, o primeiro grupo de 202 migrantes foi expulso para a Turquia a partir das ilhas de Lesbos e Quios. Diante da situação, muitos dos 3.000 migrantes bloqueados em Lesbos correram para apresentar pedidos de asilo, o que obrigou as autoridades gregas a adiar as expulsões para ter tempo de analisar as demandas individualmente.

O acordo foi muito criticado por diversas organizações, que o chamaram de "desumano".

Dezenas de migrantes bloqueados em Lesbos e na ilha de Samos, também próxima da Turquia, anunciaram o início de uma greve de fome para evitar a expulsão e pedir a reabertura das fronteiras nos Bálcãs.

Na Alemanha, a apresentação de novos pedidos de asilo registrou queda de 66%, com 20.000 pessoas cadastradas em março, contra 60.000 em fevereiro, anunciou nesta sexta-feira o ministro do Interior, Thomas de Maizière.

"Em dezembro eram 120.000 pessoas, em janeiro 90.000, em fevereiro 60.000 e agora em março 20.000", afirmou o ministro, poucas semanas depois do fechamento da rota migratória dos Bálcãs.

Em 2015 a Alemanha recebeu 1,1 milhão de solicitantes de asilo, depois que a chanceler Angela Merkel decidiu abrir as portas do país aos refugiados.

oglobo.globo.com | 09-04-2016

Os Jogos Olímpicos são o maior e mais importante evento esportivo mundial. São também um palco privilegiado para manifestações políticas. A ausência de Adolf Hitler na premiação do atleta negro americano Jesse Owens (quatro medalhas de ouro, em Berlim/1936); a saudação dos Panteras Negras, feita pelos corredores Tommie Smith e John Carlos (ouro e bronze, respectivamente, México/1968); o atentado do grupo palestino Setembro Negro, que culminou com a morte de 11 atletas da delegação israelense (Munique/1972), são alguns exemplos radicais da politização envolvida neste evento.

Por sua visibilidade mundial, as cerimônias de abertura dos Jogos são uma oportunidade para o país-sede celebrar suas riquezas naturais e valores culturais, isto é, enviar uma mensagem política. Em 2012, nos cinco continentes, quase um bilhão de telespectadores dedicaram algumas horas a admirar o espetáculo dirigido pelo vencedor do Oscar Danny Boyle. Em uma produção esmerada, ícones da cultura inglesa, como a escritora J. K. Rowling (da série Harry Poter), os atores Rowan Atkinson (do personagem Mr. Bean) e Daniel Craig (o atual 007), o cantor Paul McCartney e a própria rainha Elizabeth II divulgaram ao mundo alguns motivos de vaidade e orgulho da nação inglesa. Entre eles, com grande destaque, o seu Sistema Nacional de Saúde (SNS).

Organizado em 1948, em um contexto de devastação e solidariedade produzido pela Segunda Guerra Mundial, o SNS provê cobertura universal, baseando-se nos princípios de equidade e integralidade. Este enunciado faz lembrar o Sistema Único de Saúde brasileiro, o SUS, mas as semelhanças param por aí. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o governo inglês cobre cerca de 83% das despesas médicas da população mas, no Brasil, apenas 44% são bancados pelos cofres públicos. Desde o ano 2000, o governo brasileiro aumentou a participação do gasto em saúde de 4,9% para 5,9% do seu Orçamento, mas a média mundial é de 14,3%. Nosso percentual nos equipara à realidade africana. A Grécia, berço das Olimpíadas, cujas finanças são motivo de preocupação para a comunidade europeia, destina à saúde seis vezes mais recursos per capita do que o Brasil.

O SUS é um dos maiores patrimônios da cidadania brasileira e a mais ampla política pública de nossa história. Essa gigantesca obra social não apenas permanece inconclusa como, ao longo do tempo, grande parte de sua estrutura e mecanismos de funcionamento se tornaram obsoletos. Por exemplo, o SUS jamais dispôs de uma política organizada de recursos humanos e, como a execução das ações de saúde se tornou, basicamente, uma tarefa de estados e municípios, deixou a cargo dos gestores dessas esferas se moverem entre os limites da Lei de Responsabilidade Fiscal e os improvisos que, muitas vezes, apenas precarizam relações de trabalho. Mesmo nestas condições, sobram ao SUS números e realizações notáveis. O que lhe falta é um financiamento adequado, mecanismos de gestão mais contemporâneos e, sobretudo, aliados sérios e comprometidos com o seu aperfeiçoamento.

O resultado de competições esportivas sempre tem uma alta dose de imprevisto. Lamentavelmente, em poucos meses, nos Jogos Olímpicos brasileiros, a se realizarem no Rio de Janeiro, se pode antever com certeza que o SUS não será festejado na cerimônia de abertura e, ao final, a saúde brasileira estará distante do pódio.

Chico D’Angelo é médico e deputado federal (PT-RJ)

oglobo.globo.com | 03-04-2016

RIO - Aos 14 anos André Sant'anna percebeu um caroço no pescoço. Primeiro foi levado a um ortopedista, tomou alguns remédios, mas nenhum surtiu efeito. Meses depois, em um exame no Instituto Nacional do Câncer (Inca), ele confirmou que estava no estágio mais avançado do linfoma de Hodgkin, um tipo específico de câncer que compromete os linfócitos, importantes agentes do sistema imunológico. A quimioterapia, que deveria durar seis meses, se arrastou por mais de dois anos. O primeiro transplante de medula foi mal sucedido, e a família precisou recorrer à Justiça para conseguir um medicamento cuja comercialização ainda não era permitida no Brasil. Aconselhado pelos médicos, André chegou a se despedir dos amigos. Mas o jovem — agora curado, aos 19 anos, após um segundo transplante — sabia que esta medida não seria necessária. Nos cinco anos em que conviveu com a doença, encarou tranquilamente o tratamento, e, durante a maior parte do tempo, até frequentou festas. Entre todas as queixas possíveis, a única que ele realmente fazia era quando tinha que raspar o cabelo. André é um exemplo de como a felicidade e o afeto são importantes para o sucesso de terapias.

— Lidei com a doença como se não tivesse problema de saúde — lembra o jovem. — O jeito era enfrentar, não adiantava baixar a cabeça, e tive ajuda da família e dos amigos de escola. Mesmo quando me deram como caso perdido, eu tinha certeza de que não era a minha vez. Precisei deixar o colégio, fiz um curso intensivo e aos poucos estou voltando a pegar o ritmo.

Bem-estar

A influência da felicidade e do humor na saúde foi o tema do primeiro debate do ano nos Encontros O GLOBO Saúde e Bem-Estar, na última quarta-feira. O evento entra em seu quinto ano sob a coordenação do médico Cláudio Domênico e contou com a presença do oncologista Carlos José de Andrade e do escritor Zuenir Ventura, além da mediação do jornalista William Helal Filho, editor de Sociedade do GLOBO.

Domênico lembrou que a felicidade tem um componente genético, mas pode ser influenciada pelo meio ambiente, fortalecendo a nossa capacidade de enfrentar as adversidades. A vinculação entre este estado de espírito e a saúde é tema de um estudo que vem dendo realizado há 75 anos na Universidade Harvard.

— Os 724 jovens recrutados no início da pesquisa precisavam responder o que era mais importante para ser feliz. Uns disseram que era ter dinheiro; outros, reconhecimento — lembra. — Agora, 75 anos depois, são estudados dois mil filhos desses primeiros pesquisados, além dos 60 voluntários que ainda estão vivos. Diante da mesma pergunta, muitos mudaram de opinião. As pessoas que mantêm contato social vivem mais. A conclusão é que a solidão é tóxica e o isolamento mata.

A personalidade, segundo Domênico, repercute no tratamento de cada paciente, de diferentes formas:

— Alguns têm uma hipertensão pequenininha e chegam ao consultório sentindo um monte de coisa. Outros já foram operados, têm diabetes, hipertensão arterial. Pergunto por que estão ali e dizem que não sabem, que foi a chata da mulher que mandou — brinca. — Estas pessoas têm macrodoença e microssintomas.

Oncologista clínico do Inca e do Grupo COI, Carlos José de Andrade destaca a dificuldade sentida pela medicina em responder o que vem primeiro: somos felizes porque temos saúde ou temos saúde porque somos felizes?

— Já foram realizados estudos em vários ambientes tentando estabelecer uma relação entre a sensação de bem-estar das pessoas e a incidência de doenças cardiológicas — conta. — Os pesquisadores viram que as pessoas mais felizes têm um comportamento restaurativo e, assim, se recuperam melhor.

Outras pesquisas também mostram, segundo Andrade, como os sentimentos positivos são “cultiváveis”. Cientistas concluíram que 50% das chances de sermos pessoas felizes são determinadas geneticamente. Outros 10% viriam das circunstâncias. E 40% são um “espaço de manobra”, aquele instituído por cada um de nós.

Andrade e Domênico, no entanto, alertam que a atual crise política e econômica do país está elevando os níveis de estresse. Nos últimos dois anos, rankings elaborados por organizações internacionais sobre o índice de bem-estar da população mostram o Brasil nas primeiras colocações. Este cenário, no entanto, pode ser alterado nos próximos levantamentos.

— A Grécia, por exemplo, foi o país com maior queda na sensação de bem-estar, devido à diminuição da renda per capita e à crescente percepção de corrupção — lembra Andrade. — Não quero ser apocalíptico, mas podemos estar passando por uma situação semelhante.

ENVOLVIMENTO E SUPERAÇÃO

O oncologista Daniel Tabak pondera que não há evidências concretas de que adotar uma perspectiva positiva para combater o câncer pode auxiliar seu tratamento. No entanto, ele também considera que o estresse pode interferir negativamente nas alterações genéticas das células tumorais e em sua circulação no sistema imunológico.

Tabak, no entanto, reivindica que os médicos se envolvam mais no tratamento dos pacientes, dando-lhes inspiração para superar as limitações impostas pela doença. Para ele, a humanidade deve ser considerada como a essência da medicina.

— O médico, em vez de ser restrito a uma pessoa que cura doenças, também devem atuar como aliados — recomenda Tabak, que dirige o Centro de Tratamento Oncológico (Centron). — O paciente não deve ser visto só como um órgão a ser tratado. Precisamos entender o que é “pensar positivo”, ter esperança no futuro. Não há satisfação maior do que recuperar um paciente e de cumprir o nosso papel de cuidador. Quando ele percebe isso, como deve ter ocorrido com o André, então nosso trabalho foi coroado.

oglobo.globo.com | 20-03-2016

RIO - As mudanças climáticas vão frear os avanços previstos na segurança alimentar global, com impactos na produção agropecuária que levarão à morte mais de 500 mil pessoas em todo mundo em 2050 devido à piora nas suas dietas — especialmente com um menor consumo de frutas e vegetais e aumento na desnutrição. A projeção faz parte do primeiro e mais amplo estudo realizado até agora sobre a intrincada relação entre o clima e nossos hábitos alimentares, e como esses afetam nossa saúde, publicado na edição desta semana no prestigiado periódico médico científico “The Lancet”.

— Muitas pesquisas já foram feitas sobre a segurança alimentar (sob o impacto das mudanças climáticas), mas poucas se focaram nos efeitos mais amplos na saúde da produção agrícola — justifica Marco Springmann, cientista do Programa Sobre o Futuro dos Alimentos da Universidade de Oxford e líder do estudo. — Alterações na disponibilidade de comida e no consumo também afetarão fatores de risco relacionados à dieta e ao peso, como baixa ingestão de frutas e vegetais, alto consumo de carnes vermelhas e obesidade, todos causadores de um aumento na incidência de doenças não comunicáveis como problemas do coração, derrames e câncer, assim como nas mortes por essas doenças.

Segundo os pesquisadores, esses efeitos das mudanças climáticas na nossa dieta, e consequentemente na nossa saúde, serão mais fortes nos países pobres e em desenvolvimento e no Leste da Ásia e no Sudeste Asiático, com China e Índia respondendo sozinhas por mais de três quartos das mortes. Mesmo os países mais ricos vão sofrer, com destaque para Grécia e Itália, onde a conhecida dieta mediterrânea é apontada como responsável pela relativa longevidade de suas populações. Lá, os óbitos per capita em decorrência das alterações no consumo de alimentos pelas mudanças climáticas atingirão 123,66 e 89,17 pessoas por milhão de habitantes, respectivamente, entre os índices mais altos projetados no estudo. Já para o Brasil, a previsão é de um total de 4.490 mortes em 2050 (14ª posição global), com um impacto per capita de 24,25 pessoas por milhão de habitantes (70º lugar mundial).

Os números do estudo têm como base as perspectivas de melhorias na dieta da população do planeta pelos avanços na produção agrícola. Em um cenário sem mudanças climáticas e com um desenvolvimento socioeconômico mundial mediano, as projeções são de que estas melhorias evitariam quase 1,9 milhão de mortes em 2050, com altas no consumo diário de frutas e vegetais, de carnes vermelhas e de calorias totais.

Conta com cenário mais pessimista

Mas, levando em conta a pior previsão para as emissões de gases do efeito estufa, com um aumento da temperatura média global de 2 graus Celsius no período 2046-65 quando comparada à registrada entre 1986 e 2005, esta elevação no consumo diário seria 14,9 gramas diários por pessoa menor (-4%) no caso de frutas e vegetais; 0,5 grama inferior por dia (-0,7%) de carnes vermelhas; e 99 kcal diárias mais baixa (-3,2%) nas calorias relativa ao cenário inicial. Assim, a quantidade de mortes evitadas pelas melhorias na dieta e nos fatores de risco relacionados ao peso em 2050 cairia para quase 1,35 milhão, com a diferença, de exatas 529 mil, creditada então como mortes relacionadas às mudanças climáticas.

Ainda de acordo com os cálculos dos pesquisadores, o consumo menor de frutas e vegetais do que o esperado em 2050 responderá por 534 mil destas mortes ligadas às mudanças climáticas naquele ano, superando em muito os benefícios à saúde com a também redução no consumo de carnes vermelhas, que evitará 29 mil óbitos. Já nos indicadores relativos ao peso da população mundial, as mortes que serão evitadas pelas quedas nos índices de pessoas com sobrepeso ou obesas, 35 mil e 255 mil, respectivamente, serão contrabalançadas pelo aumento na desnutrição devido à menor disponibilidade calórica que a projetada se não houvesse as mudanças climáticas, que deverá matar 266 mil pessoas em meados deste século.

— Nossos resultados mostram que mesmo modestas reduções na disponibilidade de alimentos por pessoa podem provocar alterações no conteúdo energético e na composição das dietas, e essa mudanças terão graves consequências para a saúde — destaca Springmann.

Por outro lado, o estudo indica que medidas que levem ao corte das emissões e limitem o aquecimento global podem ajudar a reduzir significativamente estas mortes relacionadas às mudanças climáticas. Dependendo da força dessas intervenções, a queda varia de 29% a 71%. Em dois cenários medianos para as emissões, por exemplo, com o aumento da temperatura na superfície do planeta ficando entre 1,3°C e 1,4°C, seriam contabilizadas 368 mil e 381 mil mortes, respectivamente. Mas mesmo na perspectiva mais otimista, com um balanço de emissões negativas pelo uso de tecnologias de captura e armazenamento de carbono e ampliação na geração de energia a partir de fontes renováveis, restringindo a alta na temperatura a 1°C, próxima dos níveis atuais, ainda assim haveria vítimas: 154 mil no total.

— As mudanças climáticas provavelmente terão um impacto negativo substancial na mortalidade futura, mesmo sob os cenários mais otimistas — lembra Springmann. — Assim, os esforços de adaptação precisam crescer em escala rapidamente. Programas de saúde pública com o objetivo de prevenir e tratar fatores de risco relacionados à dieta e ao peso, como elevar a ingestão de frutas e vegetais, devem ser reforçados e vistos como prioridade para ajudar a mitigar os efeitos na saúde das mudanças climáticas.

oglobo.globo.com | 04-03-2016

ATENAS - Os credores europeus estão trabalhando em um plano para oferecer à Grécia um alívio gradual de suas dívidas, sob a condição de que o país adote mais reformas até 2022, publicou o jornal semanal grego Agora, neste sábado.

Os credores inicialmente permitiriam taxas de juros menores e vencimentos mais longos na dívida de € 316 bilhões, disse o jornal. Em um estágio mais avançado, haveria conversas para relacionar o pagamento das dívidas ao crescimento econômico, se Atenas implementar medidas a serem concordadas com os credores até 2022.

O plano foi discutido entre representantes da Comissão Europeia, o fundo de resgate da zona do euro, o Banco Central Europeu, e os maiores países da zona do euro, afirmou a publicação.

Os credores falaram publicamente sobre alívio das dívidas se as reformas forem completas.

Questionado sobre a reportagem, o ministro de Finanças da Finlândia, Alexander Stubb, disse: “Neste momento, não estamos pensando em alívio de dívida, mas completando a terceira revisão do primeiro programa interino.”

Na quinta-feira, Jeroen Dijsselbloem, presidente do grupo de ministros de finanças da zona do euro, disse que eles estavam preocupados com a qualidade das reformas que a Grécia prometeu em troca do resgate.

Negociações entre os chefes da missão da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional (FMI) que está revisando o progresso do país sobre medidas de reforma do sistema de aposentadoria, metas fiscais e sobre como está lidando com empréstimos podres foram interrompidas no começo do mês.

Não ficou claro quando os credores retornarão para Atenas. Sem a avaliação positiva deles sobre as reformas, a Grécia não pode começar a falar sobre alívio de dívida e mostrar aos gregos que sofrem com medidas de austeridade que os sacrifícios valeram a pena.

Falando depois da reunião da União Europeia que concordou na sexta-feira em um acordo para tentar manter o Reino Unido no bloco e enfrentar a crise de imigração, o primeiro-ministro da Grécia, Alexis Tsipras, disse que todos os parceiros do bloco de países concordaram que a revisão precisava ser concluída assim que possível.

O ministro de Finanças da Grécia sugeriu, no sábado, que as diferenças entre parceiros da União Europeia e do FMI sobre o programa de resgate estavam prejudicando os esforços do governo para ajudar a economia da Grécia a se recuperar de anos de recessão.

O FMI disse que está pronto para ajudar a Grécia apenas se os parceiros do país na União Europeia cedessem “alívios significativos de dívida”. Mas a Europa deixou claro que quer a conclusão da revisão antes de entrar nesse assunto.

PARLAMENTO APROVA PACOTE DE BENEFÍCIOS

Enquanto o alívio para a dívida não chega, os gregos ficaram mais perto de, pelo menos, mitigar os efeitos das medidas de austeridade. O parlamento grego aprovou neste sábado um pacote legislativo que prevê seguro saúde para cidadãos vulneráveis e oferece empregos municipais para desempregados.

Alexis Tsipras, que voltou atrás com promessas de encerrar o programa de austeridade no país e foi forçado a assinar um novo pacote de resgate à Grécia no verão passado, foi reeleito em setembro sob promessas de implementar reformas prescritas pela União Europeia e o FMI.

Milhares de gregos foram às ruas em fevereiro para protestar contra uma reforma no sistema de aposentadorias que eleva as contribuições e elimina benefícios para pensionistas de baixa renda. O plano afeta principalmente profissionais liberais e agricultores, que estão usando bloqueios em estradas como forma de protesto há semanas.

oglobo.globo.com | 20-02-2016

Os que defendem a legalização do aborto encontraram na associação do aumento da microcefalia com o surto de zika uma oportunidade para retomar a discussão da liberação do procedimento no Brasil. Querem transformar o diagnóstico de microcefalia em atestado de morte para todas as crianças das mães que contraíram o vírus e que optarem pela interrupção da gravidez, mesmo com possibilidades de nascerem sem sequelas neurológicas graves.

Com o avanço da medicina fetal e da genética médica, hoje é possível a detecção, ainda no útero, de várias anomalias fetais. Querer considerar apenas as crianças saudáveis com direito à vida é retomar a prática da eugenia feita na Grécia antiga e pelo nazismo, abrindo um precedente para a liberação do aborto em outros casos de microcefalia.

Não se pode falar na opção de abortamento, pois não se trata de patologia letal que inviabilize a vida extrauterina. A discussão do aborto em casos de microcefalia retrata bem o momento pós-moderno em que vivemos.

Para a maioria dos autores, a pós-modernidade é marcada como a época das incertezas, das fragmentações, do narcisismo, da troca de valores, do vazio, do niilismo, da deserção, do imediatismo, da efemeridade, do hedonismo, da substituição da ética pela estética, da apatia, do consumo de sensações e do fim dos grandes discursos.

Na sociedade pós-moderna, predomina a permissividade que justifica que tudo é bom desde que eu me sinta bem. É um relativismo no qual não há nada absoluto, nada totalmente bom ou mau, onde as verdades são oscilantes.

Vive-se numa época de grande competitividade e de pouca solidariedade. Em nome dessa nova ideologia, os indivíduos se permitem agir passando por cima de valores fundamentais.

A coisificação da vida e o predomínio dos interesses pessoais em detrimento do coletivo são bem característicos dessa fase em que vivemos.

Entretanto, aprendemos com a genética que a diversidade é a nossa maior riqueza coletiva. E o feto anômalo, mesmo o portador de grave deficiência, como é o caso da microcefalia, faz parte dessa diversidade. Deve ser, portanto, preservado e respeitado.

Necessário se faz proteger também a gestante, dando-lhe apoio em sua gravidez e proporcionando tratamento ao seu futuro filho.

O aborto provocado é um procedimento traumático, com repercussões gravíssimas para a saúde mental da mulher, que geralmente aparecem tardiamente. Produz um luto incluso, devido à negação da ocorrência de uma morte real, mas esse aspecto é totalmente desconsiderado.

As mulheres sofrem uma perda, e suas necessidades emocionais são relegadas ou escondidas. Esse processo vai gerar profundas marcas e favorecer o surgimento da síndrome pós-aborto.

A evolução de uma sociedade é medida pela sua capacidade de amparar os mais frágeis. A sociedade que apela para o aborto se declara falida em suas bases educacionais, porque dá guarida à violência no que ela tem de pior, que é a pena de morte para inocentes. Compromete, portanto, o seu projeto mais sagrado, que é o da construção da paz.

Gilson Luís Roberto é presidente da Associação Médico-Espírita do Brasil

oglobo.globo.com | 19-02-2016

BRASÍLIA - O laboratório Sumitomo Chemical, fabricante do larvicida Pyriproxyfen, usado no combate às larvas do mosquito Aedes aegypti, saiu em defesa de seu produto. No sábado, a Secretaria de Saúde do Rio Grande do Sul suspendeu o uso do larvicida em água para consumo humano, após circularem notícias associando o produto à microcefalia. Em nota, o laboratório, assim como já tinha feito o Ministério da Saúde, informou que não há comprovação científica disso e disse que o larvicida é seguro.

A microcefalia é uma malformação em que os bebês nascem com a cabeça menor do que o normal, levando, em geral, ao retardo mental. Exames feitos por laboratórios ligados ao Ministério da Saúde apontam a ligação entre a epidemia da doença, que atinge principalmente o Nordeste, o vírus zika, transmitido justamente pelo Aedes aegypti, o mesmo da dengue e da chicungunha.

O fabricante destacou que o produto tem registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e é usado no combate ao Aedes aegypti, além de outras espécies como o Culex quinquefasciatus (pernilongo ou muriçoca) e a mosca doméstica.

"O produto é registrado desde 2004 e o Governo brasileiro o vem utilizando como inseticida-larvicida no combate ao Aedes aegypti. Pyriproxyfen também é registrado para o combate do Aedes aegypti em países como Turquia, Arábia Saudita, Dinamarca, França, Grécia, Holanda, Espanha. Na América Latina, República Dominicana e Colômbia vêm utilizando o produto desde 2010", destacou a nota do Sumitomo Chemical, afirmando ainda que o larvicida é aprovado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

"Segundo a OMS, em seu documento Pyriproxyfen in Drinking-water, publicado em 2004 - também publicado pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) em 2001 -, o Pyriproxyfen não é mutagênico, não é genotóxico, não é carcinogênico nem teratogênico. O produto foi submetido a rigorosos testes toxicológicos que não demonstraram efeitos sobre a reprodução, sobre o sistema nervoso central ou periférico", diz trecho da nota do laboratório.

No sábado, a Secretaria de Saúde do Rio Grande do Sul informou que o larvicida era usado em pequena escala no estado. "A decisão (de suspender o produto) deve-se à hipótese de que a substância pode potencializar a má-formação cerebral causada pelo zika vírus, levantada pela organização médica argentina Physicians in the Crop-Sprayed Towns. A suspensão já foi comunicada às 19 Coordenadorias Regionais de Saúde do Estado, que devem informar às Vigilâncias Municipais", diz trecho da nota da secretaria.

Também no sábado, o Ministério da Saúde informou que a secretaria gaúcha tem autonomia para decidir como utilizar o produto. Já o secretário de Saúde do estado e presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), João Gabbardo dos Reis, tinha informado, por meio de nota, que a suspensão do uso do larvicida valeria até que houvesse uma posição do Ministério da Saúde sobre o tema. Procurado pelo GLOBO após a divulgação da nota do ministério, ele disse que a decisão será mantida pelo menos até segunda-feira.

oglobo.globo.com | 14-02-2016

ATENAS - Uma das economias mais endividadas da União Europeia, a Grécia é um dos países mais afetados na turbulência do mercado nesta segunda-feira. Segundo a agência Bloomberg News, o índice ASE, da Bolsa de Atenas, recuava quase 7%, e atingia o menor nível desde 1990. As ações de bancos perdiam mais de 20%, a maior queda desde novembro, indicando o temor do mercado com a saúde financeira dos bancos gregos. Ao mesmo tempo, as taxas sobre os títulos gregos avançaram para mais de 10%.

“É uma doença internacional que atinge um mercado muito pouco líquido, que se torna mais difícil com a disparada nos juros dos títulos. Há um risco de, se as negociações do governo demorarem muito, os bancos e a economia serão afetados”, afirmou, à Bloomberg News, George Athanasakis, diretor na Pantelakis Securities SA, em Atenas.

As taxas sobre os títulos da dívida grega de dez anos subiram para 10,01%, frente a 8,29% do fim de 2015.

oglobo.globo.com | 08-02-2016

Lançado no final de outubro do ano passado pelo PMDB, o documento “Uma ponte para o futuro” terminou contaminado por aquele momento político, em que o pedido de impeachment da presidente Dilma era o centro dos debates. Isso bastou para que o texto fosse interpretado como uma iniciativa do vice, Michel Temer, presidente do partido, para anunciar a plataforma do seu governo.

A interpretação atraiu ainda mais rancores do PT e aliados contra as propostas, rejeitadas também por princípio, ao reduzir o peso do Estado, dogma lulopetista. Até mesmo considerar o documento como “do PMDB” é um certo exercício de elasticidade, considerando-se a divisão da legenda, muito tensionada, com um bloco situacionista e um outro oposicionista. Mais ou menos como sempre.

O grupo de peemedebistas que lançou o texto decidiu patrocinar análises e sugestões que já transitavam no mundo acadêmico e na imprensa.

Apenas o PT não percebe — ou se percebe, não admite — que se esgotou um regime fiscal cujas raízes estão fincadas na visão ideológica embutida na Constituição de 1988: cabe ao Estado ser o principal instrumento do combate à pobreza, à miséria, ser o prestador de serviços de saúde a toda a população de forma gratuita, bem como educação de boa qualidade.

Estava pavimentado o caminho para o Estado, independentemente do governo de turno, ampliar a expropriação de rendas da sociedade, para ele distribuí-las no cumprimento desta enorme (e impossível) missão.

O saldo dessa trajetória é que o Brasil passou a ter a maior carga tributária entre os países emergentes (36% do PIB). Afinal, os gastos ditos sociais foram indexados, grande parcela deles ao salário mínimo. Para tornar tudo mais difícil, a correta política de valorização do mínimo, de FH, foi radicalizada com o PT no Planalto. E, além de tudo, vincularam-se parcelas do Orçamento a gastos específicos: Saúde, Educação, sem falar na folha do funcionalismo, por definição fixa, dada a estabilidade legal do servidor. Pode ser cortada apenas pela inflação.

Uma engenharia dessas só se manteria em pé se a economia brasileira sempre crescesse, e a uma boa taxa. Como isso é impossível, todo este edifício desabou a partir do momento que a mistura de recessão com inflação, que chegou a dois dígitos, reduziu, de um lado, as receitas tributárias, e, de outro, jogou na estratosfera a maior parcela das despesas: Previdência e outros gastos ditos sociais. Não surpreende que o déficit nominal em 2015 haja sido de 10,34% do PIB, do nível da Grécia no auge da crise.

Ora, diante de uma situação insustentável como esta, economistas — e o PMDB os endossa neste documento — defendem, entre outras medidas, a desindexação do Orçamento e o fim das vinculações, o que implicará rever a qualidade de cada gasto na montagem anual dos orçamentos, algo imprescindível.

Se o PT e Dilma insistirem em manter a fórmula de alta carga tributária, a recessão se transformará em depressão, e a coleta de impostos desabará junto, num cataclismo.

oglobo.globo.com | 08-02-2016

NOVA YORK - Quase 60 milhões de pessoas no mundo todo tiveram que abandonar suas casas por causa de guerras, conflitos ou perseguições em 2014, número que não é visto desde a Segunda Guerra Mundial. Aproximadamente 11 milhões delas são sírias. É difícil conceber números tão grandes e as muitas histórias trágicas por trás deles, mas uma única fotografia de um menino sírio de três anos que se afogou e foi achado em uma praia turca, em setembro, humanizou a crise de refugiados para muita gente. O pai do menino também perdeu a esposa e outro filho na travessia do Mediterrâneo rumo à Grécia, em busca da chance de uma vida normal.

Depois de mais de quatro anos de guerra civil, os sírios enfrentam uma situação que está longe de acabar e muitos indivíduos caridosos querem encontrar formas eficazes para ajudar. Muitos têm dúvidas já bem conhecidas das organizações de auxílio: como empregar eficientemente uma quantia limitada para ajudar o maior número possível de pessoas? Onde a necessidade é mais premente?

Agora que muitos tentam chegar à Europa, os países vizinhos da Síria estão sob grande pressão, pois contam com um número maior de refugiados. No Líbano, por exemplo, os sírios representam de um quarto a um terço da população, de acordo com o Comitê de Resgate Internacional. A Jordânia tem 630 mil refugiados registrados, o que, segundo o grupo, seria o equivalente aos Estados Unidos absorverem a população da Grã-Bretanha.

"Para ajudar o maior número de refugiados você precisa primeiro entender onde eles estão localizados, e em segundo lugar, apoiar as organizações que cuidam de suas necessidades nesses locais", disse Katherina M. Rosqueta, diretora executiva e fundadora do Centro de Filantropia de Alto Impacto da Universidade da Pensilvânia.

Atender às necessidades do dia a dia dos refugiados é vital, mas aqueles que estão lá ajudando também pedem que os doadores pensem em contribuir com instituições de caridade que tentam resolver problemas em longo prazo.

"É fácil pedir que doadores ajudem pessoas com necessidades imediatas, mas se você está disposto a ser um pouco mais estratégico em suas contribuições, elas podem ter um alcance maior", disse Emily E. Arnold-Fernández, diretora executiva do Asylum Access, grupo de defesa sem fins lucrativos que se concentra em direitos humanos e jurídicos dos refugiados.

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A lista abaixo fornece orientação sobre onde doar, além de uma amostra de organizações bem reputadas para as quais é possível fazer doações diretas:

Hope for Syria é um tipo de organização central, pois divide uniformemente as doações entre nove outras organizações sem fins lucrativos bem conceituadas, incluindo a Catholic Relief Services, a HIAS e a Islamic Relief EUA. Esses grupos se concentram em vários aspectos da crise, inclusive na ajuda àqueles que ainda estão na Síria e em reassentamentos nos Estados Unidos.

"Se quiser fazer uma doação para abranger todos os pontos, esse é o grupo", disse Sam Worthington, diretor executivo da InterAction, uma aliança de 195 ONGs americanas que trabalham no exterior.

– A Charity Navigator tem uma lista de 19 organizações envolvidas na crise da Síria, todas elas já tendo recebido pelo menos três das quatro estrelas que o grupo outorga em seu sistema de classificação.

Elas são concedidas com base na saúde e eficiência financeiras, responsabilidade e transparência de uma instituição de caridade. A Charity Navigator tenta agora adicionar outro componente que incluirá os resultados e as conquistas das instituições, algo difícil de medir, mas mais esclarecedor, disse Michael Thatcher, o presidente do grupo. Ele sugere que os doadores façam avaliações minuciosas visitando o site da organização para ver se há qualquer evidência de resultados.

– O International Rescue Committee é um grupo muito bem avaliado por profissionais e observadores de organizações de caridade que ajudam refugiados em vários momentos. Ele agora trabalha para criar um centro de recepção na ilha grega de Lesbos, onde muitos sírios que buscam refúgio na Europa desembarcam após a perigosa travessia, muitas vezes em botes de borracha saídos da Turquia.

Aproximadamente dois mil de seus funcionários fornecem ajuda para os desabrigados na Síria, em países vizinhos e na Grécia. Além de comida e abrigo, oferecem também cuidados com a saúde, serviços de proteção para mulheres e crianças e programas para ajudar a desenvolver habilidades profissionais em longo prazo. O grupo, que pretende angariar US$ 33 milhões em 2016 para esses programas, também ajuda a instalar refugiados em 26 cidades dos Estados Unidos.

– A Oxfam America ajuda os sírios em seu país de origem, na Jordânia e no Líbano com água potável, saneamento e outros itens básicos, que podem incluir dinheiro e suprimentos como cobertores e fogões, ou vouchers para produtos de higiene. Ela também ajuda as famílias a obter informações sobre seus direitos, colocando-as em contato com serviços médicos e jurídicos. As pessoas podem destinar suas doações para crises no Oriente Médio, embora a organização afirme que muitas vezes é melhor doar para o fundo geral, o que agiliza muita coisa.

– A Médicos sem Fronteiras tem uma presença limitada na Síria, particularmente após o rapto de alguns membros da equipe, em 2014, e a destruição parcial de um centro médico em novembro, que matou sete pessoas. Porém, ainda opera seis instalações médicas no norte da Síria, que fornecem vacinas, cuidados maternos e tratamento para queimaduras e controla diretamente 150 postos de saúde e hospitais de campo no país. A organização também ajuda os refugiados nos países vizinhos, incluindo Jordânia, Líbano e Iraque e mantém navios de busca e salvamento no mar Mediterrâneo, que, até agora, já resgataram mais de 18 mil pessoas que tentavam a viagem para a Europa.

– A Save the Children auxilia os refugiados de várias maneiras, fornecendo ajuda de emergência e cuidados de saúde, reconstruindo salas de aula danificadas e dando suporte a escolas na Síria e nos países vizinhos. A organização apoia 55 escolas no norte da Síria e opera seis instalações de cuidados de saúde que fornecem serviços médicos e atendimento de emergência 24 horas para mulheres grávidas na Síria. Oferece também espaços agradáveis para as crianças afetadas pelo conflito, proporcionando uma sensação de normalidade.

oglobo.globo.com | 14-01-2016

ISTAMBUL – No Pages, café e livraria em uma casa de madeira de três andares no bairro mais antigo desta cidade, um refúgio literário floresceu para os jovens árabes exilados – principalmente sírios, mas também iraquianos, líbios e iemenitas que fugiram dos problemas de seus países e se estabeleceram aqui.

As prateleiras são tomadas por traduções em árabe de Orhan Pamuk, Jack Kerouac, Gabriel García Márquez e Franz Kafka. Dois romances sírios são particularmente populares: "No Knives in This City's Kitchens", sobre uma família que vive sob a tirania, e "The Shell", sobre um detento de uma prisão síria.

— Essa é a geração da revolução em todo o mundo árabe. Eles querem saber por que tudo aconteceu, e não acreditam na imprensa — diz Samer Alkadri, pintor e designer gráfico de Damasco que abriu o café em julho com a mulher, com estoques de livros árabes que importou de uma editora de Beirute, no Líbano.

O café e o jardim dos fundos também são ponto de encontro para discussão da questão que domina a vida dos sírios aqui: ficar, ou embarcar na perigosa jornada por mar para a Europa. A pergunta parece ser mais importante agora que foi fechado um acordo entre a Turquia e a União Europeia visando conter o fluxo de refugiados para o continente.

A Europa enfrenta uma crise depois que quase 700 mil pessoas, em 2015, fizeram a travessia marítima perigosa da Turquia para a Grécia, por isso buscou a ajuda turca.

A UE, de acordo com o pacto assinado recentemente, oferece mais de US$ 3 bilhões em ajuda ao governo turco para serem gastos na melhoria da vida dos sírios, como a construção de escolas e centros de saúde, com a esperança de que muitos escolham ficar e construir suas vidas aqui.

Quatro das cinco pessoas que trabalharam para Alkadri quando o café foi aberto estão agora na Europa; ele, no entanto, decidiu ficar.

— Fiquei porque quero voltar para a Síria. Talvez amanhã, talvez daqui 10 anos. Depois dessa guerra terrível, precisaremos de gente para reconstruir o país.

Para muitos sírios, a decisão de permanecer na Turquia vai depender do fato de ela cumprir sua promessa de permissão de trabalho legal, o que poderia aumentar seus salários e, como muitos esperam, garantir um caminho para a cidadania.

Basil Qali, 19 anos, deixou um subúrbio controlado pelo governo sírio em outubro e, em uma manhã recente, estava varrendo o chão de um café em Istambul. Trabalha 13 horas por dia e ganha o equivalente a cerca de US$280 por mês.

— Aqui você trabalha 13 horas por dia para ganhar só o que gasta com comida — diz ele.

Disse que ficaria na Turquia se pudesse ganhar mais dinheiro e ter uma chance de cidadania, mas, por enquanto, só pensa na Europa.

— Não adianta falar sobre o que está acontecendo na Síria porque sabemos que vai durar mais cinco ou 10 anos. O negócio então é falar sobre chegar à Europa, ganhar dinheiro e poupar.

Outro jovem sírio em Istambul, Mohammed Sayid, 20 anos, trabalha como entregador de um restaurante local. Ele disse que o pai apoiou a rebelião na Síria e acabou sendo executado pelo governo. Sayid aprendeu turco e espera ficar aqui, desde que o governo faça mais para melhorar sua vida, permitindo-lhe trabalhar legalmente. Ele se queixa de discriminação – as garotas nos bares o ignoram quando descobrem que é sírio – mas está hesitante em se juntar aos amigos na Europa.

— Já vivo aqui como estrangeiro há muito tempo. Não estou preparado para ser forasteiro de novo em outro país — afirma.

Apesar de um êxodo recente, ainda há quase 2,2 milhões de refugiados sírios na Turquia, o maior número entre os países da região que os acolheram. Apenas em Istambul, há cerca de 350 mil, escrevendo seu próprio capítulo na história de uma cidade que há tempos é lugar de exílio.

Há muitos anos eles fazem parte da vida frenética desta metrópole, abrindo cafés, atuando como músicos de rua nas avenidas mais movimentadas e mendigando nas esquinas, exibindo seu passaporte sírio como apelo à caridade dos transeuntes. Talvez desde o fim da Primeira Guerra Mundial, quando os muçulmanos fugiam da Grécia e dos Bálcãs e os russos escapavam da revolução bolchevique, as ruas de Istambul nunca tiveram tantos imigrantes.

Os sírios aqui dizem que começam a se sentir otimistas devido à vitória do Partido da Justiça e Desenvolvimento, do presidente Recep Tayyip Erdogan, nas eleições parlamentares em novembro. Em geral, gostam de Erdogan por manter a política antiga de abrir as portas da Turquia aos refugiados; antes da eleição, temiam que os partidos de oposição, hostis aos estrangeiros, tivessem sucesso nas urnas.

— Ele abriu as portas para os sírios — disse Alkadri sobre Erdogan.

No Pages, Mohammed Kayali, 32 anos, trabalha na promoção do café na mídia social. Já fez a viagem para a Europa, para a Suécia em 2012, mas voltou.

Quando perguntado sobre o motivo, disse apenas "Culpa de sobrevivente. E o clima", acrescentou.

Quando os amigos que pensam em fazer a viagem pedem sua opinião, Kayali lhes diz: "De uma maneira ou outra, você vai se arrepender".

Contou que, na Europa, por causa de programas sociais generosos, "a subsistência é garantida, mas não uma vida boa". Com isso, ele se refere à perda de identidade.

— Você tem que mudar muito — ele disse.

Na noite das eleições em novembro, quando ficou claro que o partido de Erdogan se aproximava da vitória, Kayali pegou o telefone e ligou para sua noiva, que também está na Turquia.

E disse a ela: "Nós vamos ficar".

oglobo.globo.com | 06-01-2016

A presidente Dilma e o PT, por convicções populistas, não tocam no assunto. Mesmo que textos acadêmicos circulem esmiuçando o sério problema, e um partido formalmente aliado, o PMDB, tenha lançado um documento, sob o título de “Uma ponte para o futuro”, com propostas objetivas para desatar o nó.

O ponto central, que já deveria ser tema de um amplo debate no Congresso, Executivo e fora deles, é que a crise fiscal implodiu os alicerces da Constituição de 1988. A ideia de um Estado que seria capaz de eliminar a miséria, reduzir a pobreza e ainda fornecer serviços básicos como saúde e educação com eficiência, faliu. Aceite-se ou não.

Por uma estrondosa ironia, foi pelas mãos do PT, partido defensor desse Estado tutor da sociedade, insaciável coletor de impostos para redistribuir as rendas fazendo o “bem”, que este modelo entrou em colapso. Do ponto de vista moral, o mensalão e o petrolão, este ainda sendo esmiuçado pela Lava-Jato, fizeram o trabalho de reciclar a imagem do PT. E o partido, por meio de Dilma e outros economistas petistas, tratou de desequilibrar de forma estrutural o Orçamento, na talvez maior crise fiscal da História republicana.

Bastou que aplicassem a fórmula letal do “novo marco macroeconômico”: apertar fundo no acelerador dos gastos públicos, não se preocupar com a inflação, baixar juros na base da “vontade política”, permitir aumentos reais frequentes para o salário mínimo, ampliar os chamados gastos sociais, sem limites. Some-se tudo e disso resulta um paiol de dinamite. Se forem adicionados o congelamento de tarifas e preços públicos (luz,combustíveis, para conter artificialmente a inflação no ano eleitoral de 2014); a transferência de dinheiro do Tesouro, proveniente de dívida, para BNDES e outros bancos públicos a fim de subsidiar e impulsionar o crédito; e, se os efeitos fiscais forem maquiados por técnicas da “contabilidade criativa”, temos as condições perfeitas para a enorme crise em que se encontra o país. Na política, o drama se aprofunda porque está na Presidência quem deu respaldo a toda esta operação de prestidigitação econômica e se beneficiou de uma enorme marquetagem eleitoral estelionatária. A crônica das manobras, engendradas na Secretaria do Tesouro, foi publicada pelo jornal “Valor”, sexta-feira, com provas documentais. Técnicos do Tesouro alertaram o governo, em 2013, para o risco que o Brasil corria. Dilma, o ministro Guido Mantega e o secretário do Arno Augustin seguiram em frente. Quebraram o país.

Dentro do espírito “social” da Constituição de 88, gastos foram vinculados a despesas, a fim de que jamais faltassem recursos para Saúde e Educação. Também indexou-se grande parte dos benefícios previdenciários, e vários gastos ditos “sociais”, ao salário mínimo ou à inflação. Eles representam expressiva parcela do Orçamento. Instalou-se, assim, uma bomba-relógio dentro das finanças públicas. À espera de uma conjuntura ingrata: recessão com inflação. E ela veio, no rastro do “novo marco macroeconômico”.

Os números mostram a gravidade do que ocorre: devido à recessão, o recolhimento de impostos federais ligados à produção (IPI, Imposto de Importação) caiu, no terceiro trimestre, 8,3%. E as perspectivas são ruins porque a queda na coleta de impostos tem sido superior à velocidade de retração do PIB. Para uma recessão de 3,5%, por exemplo, projeta-se menos 5% de receita.

Não seria um problema de enormes dimensões se cortes equivalentes pudessem ser feitos nos gastos. Mas não podem, pois eles estão indexados, por determinação legal, ao SM ou à inflação.

Há, então, um problema insolúvel, se reformas estruturais não forem feitas: não bastasse a retração nas receitas, boa parcela dos gastos aumentará 10% em 1º de janeiro, quando entrar em vigor o novo salário mínimo.

O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, luta pela meta modesta de um superávit primário no ano que vem de 0,7%. Porém, só pelo “efeito salário mínimo”, os gastos devem subir instantaneamente 0,2% do PIB. Mesmo que a CPMF viesse a ser ressuscitada, a cada ano teria de ser lançado outro imposto idêntico, e já com a carga tributária nas alturas. É indiscutível que sem desarmar a indexação do Orçamento, rever vinculações e reformar a Previdência, cujo déficit aumenta a cada ano, a conta não fechará. Mas o Planalto não quer falar nisso, e o Congresso está mergulhado no impeachment. Isso não significa, porém, que este problema gigantesco deixe de existir. Ele ficará bastante visível. Foi assim na Grécia.

oglobo.globo.com | 13-12-2015

Por inevitável, a crise fiscal se abate sobre os estados, e também agrava a vida das pessoas, ao atingir a rede pública de Saúde, já abalada por problemas nos repasses federais, a malha de ensino e por aí segue.

Aos poucos, mas de maneira inexorável, a debacle fiscal patrocinada pelo lulopetismo e Dilma chega à vida da população, e o Brasil ganha aspectos de uma Grécia latino-americana, quando aquele país, em divergências com a União Europeia em torno de um pacote de resgate de sua economia, passou a atrasar benefícios previdenciários, salários do funcionalismo etc.

As origens da crise brasileira são diferentes, mas o efeito no Tesouro é o mesmo. Com a recessão que se anuncia recorde, uma inflação de dois dígitos e desemprego, há queda de lucros nas empresas e de renda na sociedade. Em consequência, desaba a coleta de tributos. Mas por uma peculiaridade brasileira, os gastos não encolhem. Ao contrário, boa parte deles aumenta, por estar indexada ao salário mínimo ou inflação. É receita certeira para a falência, já à vista.

Os estados padecem do mesmo veneno mortal. E a reação de praticamente todos eles repete o governo federal: este quer recriar a CPMF e aqueles tratam de elevar alíquotas do ICMS e IPVA (veículos). São Paulo inflou o ICMS sobre cerveja e fumo. No Rio Grande do Sul, estado com fragilidades fiscais históricas, houve um tarifaço. Em outubro, o Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz), onde se reúnem todos os estados, autorizou 15 deles e mais o Distrito Federal a elevar de 10% para 15% o ICMS sobre o serviço de TV por assinatura. Os exemplos são vários.Costuma ser politicamente mais fácil aumentar a já pesada carga tributária do que fazer cortes e melhorar a gestão.

Não é fácil a vida do administrador público, diante de um arcabouço jurídico que garante estabilidade ao funcionalismo, engessa o Orçamento e o indexa, principalmente pelo salário mínimo. Mas ou os governos enfrentam esta questão ou vai-se para a quebra efetiva do Estado, em meio a um surto destruidor de hiperinflação. O governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão (PMDB), tem se dedicado a um corpo a corpo com grandes devedores do Erário estadual. Mas não deixa de considerar elevação de impostos.

Cometerá um equívoco, se for por este caminho, pois mais impostos numa recessão é tiro no pé. Deprime ainda mais as vendas. Ou seja, diminui a base a ser taxada.

Ao mesmo tempo, o governador fluminense fala numa reforma administrativa, com a extinção de secretarias e redução no número de cargos. É um plano mais inteligente e com possibilidade real de ter sucesso. Mas nenhum governador pode desconsiderar que a solução efetiva da crise fiscal brasileira passa por reformas estruturais.

oglobo.globo.com | 08-12-2015
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