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Grécia Saúde

Ao ser incluída na Constituição de 88 a possibilidade de “grandes fortunas” serem taxadas, este imposto passou a transitar no imaginário das esquerdas — sempre prontas a punir a “burguesia” em atos de “justiça social” —, e é sempre lembrado quando há problemas fiscais. É costume, por exemplo, sindicatos colocarem sobre a mesa a proposta do gravame sobre fortunas, quando se discute o sério desequilíbrio do sistema previdenciário.

Taxar o patrimônio dos ricos parece remédio para todos os males. Não é sem motivo, então, que em meio à mais grave crise fiscal da história, esteja para ser votado na Comissão de Assuntos Sociais do Senado um projeto de lei com este objetivo.

De autoria do senador Antonio Carlos Valadares (PSB-SE), a proposta, relatada por Benedito de Lira (PP-AL), tem como alvo patrimônios superiores a R$ 2,5 milhões. A partir deste valor, começarão a incidir alíquotas a começar de 0,5%, numa progressão escalonada até chegar a 2,5%, aplicados sobre patrimônios acima de R$ 40 milhões.

O projeto destina a arrecadação para o SUS. Mas quem pensa que, assim, estarão resolvidos os problemas da saúde pública deve refrear o otimismo, porque taxar fortunas não é tão simples como parece. Há várias experiências no mundo que aconselham cautela antes de se contar com bilhões no Tesouro.

Uma questão a avaliar é o alto custo de fiscalização. Como se trata de um imposto declaratório — depende de o contribuinte declarar com fidedignidade os bens —, a arrecadação requer uma robusta máquina de fiscalização, cujo custo pode não compensar o que será coletado.

Tanto que, na América Latina, apenas Argentina, Colômbia e Uruguai têm este imposto. Há, ainda, o efeito perverso do incentivo à migração de patrimônios. Se manter propriedades no Brasil passa a ser muito gravoso, pode-se transferir o que for conveniente para o exterior e dar o mesmo destino aos investimentos familiares futuros. O resultado, aparentemente paradoxal, é uma redução real nos impostos recolhidos no país. Sem considerar a migração de empregos.

Esta é uma das explicações para, na década de 90, vários países europeus terem decidido acabar com o imposto sobre fortunas. As distâncias mais curtas dentro do continente também facilitam este tipo de migração de patrimônios. E foi assim que o gravame terminou revogado em Áustria, Itália, Dinamarca, Alemanha, Islândia, Finlândia, Suécia, Espanha e Grécia. Na Alemanha, chegou a ser declarado inconstitucional, devido ao seu caráter confiscatório.

O melhor a fazer é evitar a criação de mais um imposto num país de elevada carga tributária — e pior, um imposto de baixa eficiência e que ainda estimulará a fuga de riqueza e empregos. Não há escapatória à necessidade de se reduzirem os gastos gigantescos do Estado.

oglobo.globo.com | 29-07-2016

Às vésperas de sediar a Olimpíada, a “remodelada” cidade do Rio se assemelha à antiquíssima Atenas, mas não em seus imemoriais e gloriosos dias homéricos, e sim em seu presente neoliberal, decadente e injusto. Com seus deuses decadentes, mas ainda no poder, o Estado do Rio, por sua vez, se depara, tal qual o Brasil, com um tenebroso cenário grego, no qual a maioria da população, privada de participação política, se encontra refém de poderes tirânicos, representantes de uma minoria de oligarcas que habita palácios e jardins. Se, na Grécia contemporânea, os interesses do povo se curvam aos ditames privatistas dos banqueiros da União Europeia, no Brasil de hoje, um governo golpista implementa um draconiano ajuste fiscal que pode significar o fim da educação e da saúde públicas. Governado pelos mesmos titãs decrépitos que controlam a pólis olímpica — e o poder federal —, o estado é um laboratório do modelo de gestão que o PMDB de Temer oferece ao país.

Enquanto nas favelas a PM, olimpicamente, assassina jovens negros, o direito à educação e à saúde é subtraído aos cidadãos por meio de um impudente desfinanciamento — e a greve dos profissionais da educação e as mobilizações do Fórum de Saúde são justas respostas a isso. Boa parte da artilharia do governo estadual está voltada contra a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), com destaque para seu hospital, o Pedro Ernesto (Hupe).

O caso da Uerj é exemplar do projeto perpetrado pelo triunvirato Pezão-Dornelles-Picciani. A crise financeira estadual, oriunda não só dos vultosos gastos com os megaventos, mas também das incontáveis isenções fiscais concedidas a cervejarias e outras empresas de serviços dionisíacos, tem servido de justificativa para a destruição da maior universidade do estado, a primeira no país a instituir cotas raciais. Rios de tinta poderiam ser gastos para descrever o que é feito com a Uerj, mas basta ao leitor saber que, numa reedição neoliberal da escravidão ateniense, os terceirizados trabalharam meses sem receber, até se tornarem escravos por dívidas dos bancos. E, finalmente, foram sumariamente demitidos sem direitos trabalhistas pelas empresas prestadoras de serviços, que alegam nada ter recebido dos cofres públicos em um ano no qual a execução orçamentária da universidade é, até agora, de zero centavo. Nesse quadro calamitoso, as bolsas não são pagas, e os salários de técnicos e docentes são atrasados/parcelados.

Por fim, não é escusado destacar que os diversos campi universitários hoje acumulam tanta sujeira e lixo que, como num castigo maligno ordenado pelo Zeus Cabral, trabalhadores e estudantes parecem destinados a agonizar, acorrentados, junto a ratos, baratas e Aedes aegypti, por milênios, pelo simples fato de terem optado pela tocha prometeica do conhecimento (público, gratuito e de qualidade) em detrimento da vergonhosa tocha olímpica peemedebista.

Mas a UERJ resiste!

Lia Rocha e Felipe Demier são diretores da Associação dos Docentes da Uerj

oglobo.globo.com | 16-07-2016

LONDRES - Imigração, economia, soberania, união nacional... Cada um dos dois lados na disputa usa as mesmas munições em armas de diferentes calibres de argumentação para justificar a saída ou a permanência do Reino Unido na UE, uma decisão crucial tanto para o futuro do país como da ordem construída no continente europeu no pós-guerra.

A FAVOR DA PERMANÊNCIA:

Carolyn Fairbairn | Diretora-geral da Confederação da Indústria Britânica: “Em 2020, o custo total de uma saída da União Europeia poderia chegar a £ 100 bilhões e 950 mil empregos. A renda familiar no mesmo ano pode apresentar uma queda de até £ 3.700. A economia poderia até se recuperar lentamente ao longo dos anos, mas nunca chegando aos níveis que atingiria dentro do bloco. Deixar a UE significa enfrentar uma economia reduzida em 2030.”

Nicky Edwards | Diretor de políticas e negócios públicos do TheCityUK, grupo de lobby da indústria de serviços financeiros de Londres: “A saída da União Europeia teria uma série de impactos potenciais. Uma delas é que veríamos as empresas estrangeiras que estão concentradas no país sendo obrigadas a realocar boa parte ou mesmo todas as suas operações de volta ao mercado único europeu.” CONTEÚDO BREXIT PAPEL 2306

John M. Roberts | Especialista em segurança energética do Atlantic Council: “Se os britânicos optarem pelo Brexit, não será apenas o cargo de David Cameron que estará em risco, mas a própria existência do Reino Unido. É praticamente certo que a maioria dos eleitores escoceses apoiará a permanência. No caso de uma vitória da saída, o governo da Escócia, comandado por fervorosos nacionalistas, estará preparado para um futuro no qual a Escócia não integre a UE? Nessas condições seria muito difícil para um governo britânico negar a realização de um novo referendo sobre a independência escocesa, e, caso ele acontecesse, é muito provável que a rejeição do último pleito fosse revertida em favor do apoio à independência. Além de gerar caos em Londres, Bruxelas e Edimburgo — que teriam que renegociar praticamente todos os seus acordos — que espécie de Reino Unido teríamos no caso de uma vitória da independência escocesa? Seria o País de Gales o próximo na fila por um referendo nacionalista?”

Danny Dorling | Professor da Universidade de Oxford: “A vida não é um mar de rosas para muitos dos cidadãos britânicos, mas isso não é culpa da UE. Se o Reino Unido fosse um Estado mais progressista, na vanguarda do progresso social do continente, poderíamos ter motivo para nos ressentirmos e alegar que Bruxelas está nos impedindo de progredir. Mas somos retardatários sociais. Precisamos das leis da UE para impedir que exploremos nossos trabalhadores. Nosso establishment político não teria problema algum em tolerar níveis de poluição atmosférica muito superiores àqueles que nos rendem multas da Comissão Europeia. E nunca teríamos noção dos inacreditáveis níveis de desigualdade econômica se não fosse pela leis europeias que forçam nossos banqueiros mais ricos a divulgarem detalhes de seus salários e bônus. Ao contrário de muitos dos nossos benefícios, nossos problemas não são criados pelo fato de pertencermos à UE. Somos diferentes do resto da Europa porque nosso passado é diferente. Costumávamos nos apoiar num império, e deixar a UE não vai trazê-lo de volta.”

David Cameron | Primeiro-ministro britânico: “O Brexit levaria, sem dúvida, a uma perda na influência global do Reino Unido, enfraqueceria a Otan e fortaleceria os inimigos do Ocidente, justamente quando precisamos estar lado a lado com a comunidade euro-atlântica contra ameaças comuns, inclusive no nosso continente. Sair significa retroceder a uma era de nacionalismo competitivo na Europa. Podemos estar tão seguros de que a paz e a estabilidade no continente estão garantidas sem sombra de dúvida? Esse é um risco que vale a pena correr? Eu não seria tão inconsequente a ponto de presumir isso. O isolacionismo nunca funcionou muito bem para este país.”

Stephen Hawking | Físico britânico, em carta assinada juntamente com outros 150 membros da Royal Society: “O financiamento da UE aumentou enormemente o nível da ciência europeia em geral e do Reino Unido em particular, já que temos uma vantagem competitiva. Atualmente, recrutamos nossos melhores pesquisadores a partir da Europa continental, incluindo jovens que adquiriram benefícios da UE e escolheram o Reino Unido como destino. Trabalhando em conjunto, fortalecemos nossa economia, aumentamos nossa influência no mundo e damos oportunidades futuras aos jovens.”

Sadiq Khan | Prefeito de Londres: “Temos praticamente um consenso por parte dos economistas que concordam que permanecer na UE será melhor para a economia, para o comércio, para os negócios, para a geração de empregos e para as exportações. Sabemos também que, ficando na UE, estamos protegendo direitos trabalhistas, fortalecendo as defesas do país, melhorando a qualidade do ar e garantindo o respeito às mulheres no mercado de trabalho. A campanha pela saída tenta vender a ideia de que fazer parte da Europa nos torna menos britânicos. Mas, na verdade, a opção patriótica é não virar as costas para nosso passado de abertura e disposição de coexistir com o resto do mundo. Será que realmente queremos que nosso legado seja a criação de barreiras para a próxima geração, impedindo a continuidade de programas que ajudaram mais de 200 mil estudantes britânicos nos últimos 30 anos?”

A FAVOR DA SAÍDA:

Michael Gove | Ministro da Justiça e um dos líderes da campanha pela saída britânica da UE: “A resposta da União Europeia à crise migratória é um convite irrestrito para que Macedônia, Montenegro, Sérvia, Albânia e Turquia se juntem ao bloco. Como não podemos controlar nossas fronteiras, os serviços públicos, como o Sistema Nacional de Saúde, se verão diante de uma demanda inqualificável, já que milhões de pessoas se tornarão cidadãs europeias e terão o direito de se mudar para o Reino Unido.”

Gerard Lyons | Economista e ex-conselheiro econômico da prefeitura de Londres: “A UE está mal posicionada para prosperar na economia global do futuro. A geografia deixou de ser uma barreira para o comércio, e as economias que quiserem prosperar precisarão ser flexíveis, adaptáveis e em controle de seu destino. A saída da UE nos permite ter esse controle, enquanto o bloco se tornou mais centralizador, aumentando a regulação e o controle, exatamente o oposto do que precisamos para criar empregos e obter sucesso no futuro. É errado pensar que, se permanecermos na UE, poderemos mudá-la e adequá-la. Sempre ouvimos que a UE será reformada, mas essa reforma nunca acontece. O bloco nunca enfrenta seus principais problemas, como o alto índice de desemprego entre os jovens, a depressão econômica na Grécia ou as migrações em massa. E o cenário ainda pode piorar. Estima-se que a UE será a região de menor crescimento no planeta nas próximas décadas. Permanecer no bloco envolve uma grande dose de incerteza, porque não sabemos o que acontecerá com o euro. Para encobrir suas rachaduras econômicas, a zona do euro terá que aumentar ainda mais sua centralização rumo a uma união política, e embora o Reino Unido não precise adotar o euro, estando dentro da UE ficará incapaz de evitar as consequências negativas do que quer que aconteça com a moeda.”

Philip Johnston | Editor-assistente do diário inglês “Daily Telegraph”: “A questão que será apresentada ao eleitorado britânico é, na verdade, sobre soberania: quem governa? Podemos criar nossas próprias leis, aumentar nossos próprios impostos, negociar com quem bem entendermos, pescar em nossas próprias águas, convidar quem quisermos para dentro de nosso país e remover aqueles que não quisermos? Se fôssemos uma nação independente, poderíamos fazer tudo isso, exceto atividades reguladas por tratados internacionais. Como membro da UE, não podemos fazer nenhuma delas, a menos que façamos de maneira coletiva. O Parlamento ainda detém a soberania. A questão é se ele vai usá-la para devolver ao Reino Unido o controle de suas leis. E isso só será possível caso o país vote pela saída da UE no referendo. Não há meio-termo.”

Boris Johnson | Ex-prefeito de Londres: “Uma relação com a Europa que não seja baseada nos caprichos de burocratas não eleitos, mas na cooperação entre governos eleitos na qual poderemos continuar cooperando com nossos amigos e parceiros em questões de interesse mútuo. Podemos fazer tudo isso num nível intergovernamental, no qual não estamos mais sujeitos ao modelo único e ineficaz das leis supranacionais da UE. Quando pudermos retomar o controle dos £ 350 milhões semanais que damos à UE, teremos também o controle de nossas fronteiras. Então, quando ouço as pessoas dizendo que não podemos fazer comércio livremente com o resto do mundo, ou que a libra vai despencar ou ainda que as taxas de juros irão disparar, me lembro dos profetas do apocalipse que diziam que o bug do milênio faria com que os aviões caíssem dos céus. São as mesmas pessoas que disseram que teríamos um desastre econômico se não adotássemos o euro. O oposto provou ser verdade, e é justamente por termos nos mantido longe do euro que temos hoje a economia mais dinâmica da Europa.”

Michael Caine | Ator, duas vezes premiado com o Oscar: “Temos atualmente na Europa uma espécie de governo por procuração de todos os países que agora saiu do controle. A menos que haja uma mudança extremamente significativa, deveríamos sair da UE.”

Sol Campbell | Ex-zagueiro da seleção inglesa de futebol: “Se tivermos um controle rigoroso sobre quem pode entrar e sair do Reino Unido, poderemos trazer os melhores entre os melhores, não importa de onde quer que eles venham, enquanto impedimos aqueles que não produzirão de entrar no país.”

Richard Werner | Economista e professor da Universidade de Southampton: “O super-Estado europeu que já se formou não é democrático. O chamado Parlamento Europeu não tem o poder de propor leis. A legislação é formulada e proposta pela Comissão Europeia, que não é eleita! Como um observador russo comentou, o Parlamento Europeu é uma farsa com a função única de carimbar documentos, tal qual o Parlamento soviético durante os dias da União Soviética, enquanto o governo não eleito é a Comissão Europeia — uma espécie de Politburo repleto de seus comissários.”

oglobo.globo.com | 23-06-2016

RIO — É praticamente impossível passar pela Avenida Chrisóstomo Pimentel de Oliveira, em Anchieta, sem observar, perplexo, aquele monumento, digno de um palácio islâmico (mameluco). Apesar de os visitantes virem de toda parte, ouriçados pelo burburinho da divulgação boca a boca, muitos ainda desconhecem a existência e a riqueza histórica guardada no Museu da Humanidade, cuja beleza vai além da fachada. Há mais 90 mil peças variadas em estoque — incluindo objetos pessoais como cachimbos, leques e roupas —, sem contar o acervo documental e uma coleção de moedas gregas, romanas, bizantinas, islâmicas e medievais ainda não catalogada.

Um achado no subúrbio carioca, o espaço de 2.500 m² de área construída, vinculado ao Instituto de Pesquisa Histórica e Arqueológica do Rio de Janeiro (Ipharj), uma instituição privada, conquistou até o Comitê Olímpico Rio 2016 durante uma discreta visita realizada há dois anos e, agora, ganhará notoriedade como atração cultural da cidade num calendário paralelo aos Jogos. Peças como o Discóbolo (do escultor grego Míron); esculturas de em bronze e mármore; moedas e cerâmicas relacionadas ao esporte e às cerimônias dos Jogos; maquetes de monumentos gregos; e armamentos e instrumentos correlatos fazem parte da exposição planejada para a ocasião, de 20 de agosto a16 de outubro.

— Quando o Comitê Olímpico veio aqui, liderado pela Carla Camurati (diretora do programa de Cultura da Rio 2016), eles ficaram muito encantados. O Ipharj está antenado com o passado, mas também com a contemporaneidade. Com a exposição que estamos preparando, queremos evocar uma reflexão sobre a importância da Olimpíada no passado, sobre o que representava o esporte e a saúde. Vamos usar muitos artefatos da Grécia e fazer um desdobramento também pelo Mundo Antigo — diz o arqueólogo e historiador Claudio Prado de Mello, responsável pelo local, credenciado como reserva técnica pelo governo federal e já reconhecido pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram).

A melhor notícia é que não será preciso esperar até agosto para aproveitar a já intensa programação promovida pelo idealizador e anfitrião. Uma das muitas novidades é que a casa estará aberta às sextas e sábados, das 14h às 20h (mediante reserva), para o Ipharj Open House, encontro que ele chama de happy hour do patrimônio e da arqueologia. Nele, o tour habitual pelas mostras transitórias — a atual compreende a Era Vitoriana — é incrementado por aulas teóricas e práticas, apresentações artísticas e degustação de quitutes. Sábado que vem haverá palestra sobre Arqueologia Urbana e declamação com um intérprete do escritor Fernando Pessoa. O programa custa R$ 5.

Boa parte do público que recebe é de grupos escolares de até 40 crianças.

— Não queremos que o museu seja apenas ilustrativo. O objetivo é ensinar, fazer com que as pessoas entendam a história por trás de cada peça ou fragmento de forma a contextualizá-la. Quando isso acontece, elas passam a gostar do patrimônio histórico. E nós precisamos de preservacionistas. Dependendo do bairro de onde vem o grupo, procuro puxar por monumentos conhecidos em suas regiões, estimulando o sentimento de pertencimento — diz o profissional, que também promove esquetes teatrais em locais onde há monumentos se deteriorando (como foi feito no entorno do Convento do Carmo, no Centro, e no Palacete São Cornélio, na Glória).

Cada peça que o profissional encontra em escavações de sítios arqueológicos é numerada, registrada, medida e carrega uma ficha com a descrição de quem a encontrou, onde e em qual camada do solo. Tudo o que é encontrado, comprado ou guardado tem processos catalogados em pastas, com notas fiscais. O trabalho minucioso tem a colaboração da amiga Alba Laurentino, seu braço direito na organização do acervo.

Uma das peças de maior valor encontradas no espaço é o par de colunas salomônicas portuguesas, adquiridas num antiquário em Petrópolis por R$ 15 mil. Outras foram compradas por valor irrisório, como a dupla de leques de madrepérola e prata pertencentes à Condessa de Araruama, que custou R$ 120 e chegou a entrar num leilão por R$ 70.

— Hoje, quem compra antiguidade quer matéria-prima. Eu disputei os talheres do Conde (de Araruama), no qual paguei R$ 500, com um prateiro. Ele disse que ia derretê-los para fazer bijuteria.

Inquieto com os objetos perdidos com o tempo, dada a desvalorização lançada por herdeiros de famílias nobres, Mello se empenha em fazer barulho entre dirigentes em prol de um foro de política patrimonial dissociado da cultura.

— Os leilões são feitos com acervo privado e as famílias têm o direito de vender o que quiser, mas as pessoas não têm mais a preocupação em preservar coisas velhas, não têm a dimensão do valor histórico, por isso há relíquias tratadas como lixo. Para piorar, as leis que regem o patrimônio público datam de 1925, estão defasadas e a Alerj já atestou isso — diz.

O arqueólogo lamenta a situação de certos museus do Rio.

— Há mais de cem museus abandonados ou fechados. As peças são roubadas constantemente. É comum que sejam fechados com a justificativa de reformas. Itens do acervo do antigo Museu do Gás, por exemplo, foram para o lixo; as peças estavam à venda a preço de banana na Praça Quinze.

MAIS DE 90 MIL RELÍQUIAS PRESERVADAS

O portentoso Museu da Humanidade, em Anchieta, tem quatro andares e 14 metros de altura, apesar de aparentar dois andares para quem o vê de fora. E seu estilo islâmico (mameluco) foi escolhido pela funcionalidade além da estética, visto que favorece a iluminação e a circulação de ar nos ambientes, todos planejados com cozinhas e banheiros independentes. No último andar, há uma área de pesquisa com dois laboratórios para análise de itens que são encontrados em escavações pelo país. Das 21 salas do prédio mantido pelo Ipharj — algumas com até 12 m² —, o idealizador Claudio Prado de Mello ainda planeja abrir ao público outras sete até o fim do ano. Um projeto inusitado, no subsolo, também está nos últimos ajustes e promete causar frisson entre os visitantes: o Human Gate, galeria de arqueologia funerária. Passando por uma escada de caracol bastante estreita, planejada propositalmente, chega-se ao ambiente escuro e soturno criado por Mello, onde há réplicas de catacumba romana, tumba pré-colombiana e tumba egípcia divididas entre paredes talhadas como as que haviam na Síria, com direito a esqueletos, múmias e imagens ritualísticas, visíveis por luzes direcionadas.

— É uma novidade até em termos de América porque ninguém tem cripta como a gente tem. Eu conheci muitos sítios arqueológicos mundo afora, como em Paris e em Nápoles, e quero compartilhar com as pessoas essa vibração e energia que é entrar no Mundo Antigo — diz o arqueólogo, primeiro brasileiro a participar de uma escavação arqueológica no Egito, sobre o qual é especialista desde os 16 anos.

Uma coleção de crânios contando a história do desenvolvimento do ser humano, desde o primeiro marsupial, já faz sucesso em oficinas práticas com o público infantil, conta. A rica biblioteca do local atrai pesquisadores, que podem levar exemplares emprestados.

— Quando viajo, só levo uma muda de roupa porque as malas vêm com peças e livros; temos mais de 35 mil nas áreas de arqueologia e patrimônio.

Menino humilde e com um sonho considerado de elite, Mello precisou superar desconfianças e uma depressão para conquistar a posição profissional que tem hoje, estando à frente de importantes escavações como a que abriu caminho para as obras da Linha 4 do Metrô, no sítio arqueológico da Leopoldina. Foi encarando mais um desafio que ele ergueu o Museu da Humanidade, comprando coisas em ferro-velho, reaproveitando sobras de materiais, restos de mármore doados e intercalando gotas de suor ao cimento prensado.

— Eu não tinha dinheiro, mas tinha um terreno e duas mãos. Escavei os primeiros buracos das sapatas; tracei e sondei todos os estribos dessas colunas que têm até 12 metros de altura; fiz as portas e também o chão. Virei pedreiro, carpinteiro e serralheiro.

Ainda faltam R$ 400 mil para concluir as obras pretendidas para o espaço, frisa Mello, que aguarda aprovação em editais públicos e apoio já solicitado a fundações e personalidades como o Rei da Arábia Saudita. Mas suas aspirações não param por aí: a casa onde ele nasceu, a cerca de 500 metros do Museu, está sendo transformada, também com investimentos próprios, para se tornar o Instituto de Arqueometria e Arqueologia Aplicada, com uma arquitetura de estilo medieval italiano. Esta novidade, segundo Mello, está reservada para o ano que vem.

oglobo.globo.com | 11-06-2016

RIO e ISE-SHIMA (Japão) - Conhecida pelas leis do trabalho mais protetivas do mundo, e pela resistência a mudanças, a França se prepara para implementar uma das mais ambiciosas reformas de sua história econômica: a flexibilização da legislação trabalhista. Subvertendo a cartilha do Partido Socialista e dos fortes sindicatos franceses, o governo do presidente François Hollande admitiu que a rigidez das regras é um entrave à competitividade e decidiu abraçar mudanças já implementadas pelos seus principais pares europeus — Alemanha, Reino Unido, Espanha e Itália. Para especialistas, o acirrado debate na França antecipa as discussões nas quais o Brasil mergulhará, após as propostas de reformas e revisão dos gastos encaminhada pelo presidente interino, Michel Temer.

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Na sexta-feira, após reunião do G-7, no Japão, Hollande garantiu que não recuará da revisão das leis:

— Acredito que é uma boa reforma e devemos continuar até sua adoção.

Às vésperas da campanha presidencial, em 2017, porém, o debate sobre mudanças estruturais na França não se restringe à reforma trabalhista. Alain Jupeé, provável candidato de centro-direita à presidência, tem afirmado que o ajuste precisa ser mais duro, com corte de gastos e de funcionários públicos e aumento da idade mínima de aposentadoria de 62 para 65 anos.

Quase todos os países europeus fizeram reformas para elevar a idade mínima, ao longo do tempo, para 65, 67 e até 68 anos. A França é exceção. Istvan Kasznar, economista da Fundação Getulio Vargas (FGV), diz que a mudança é urgente:

— A França vive, desde o fim dos anos 70, um envelhecimento populacional, e a sua capacidade de criar receitas para essa Previdência se limitou.

Para o economista Paulo Tafner, ao adiar a correção do déficit, cria-se um problema futuro:

— É uma irresponsabilidade, pois o jovem de hoje vai pagar a conta. Quando ele se aposentar, corre o risco de encontrar um país sem recursos.

Para especialistas, a França, tardiamente, se depara com os dilemas que o restante da União Europeia enfrenta desde a crise de 2008, que levou à bancarrota Estados com máquina pública inchada, orçamentos estourados e alto grau de endividamento. O ajuste foi severo desde então, com cortes de gastos e revisões gerais de legislações — especialmente a trabalhista e a previdenciária.

No caso mais emblemático, a Grécia, falida, foi obrigada a diminuir salários do funcionalismo, aumentar contribuições previdenciárias e reduzir benefícios pagos. A Espanha facilitou demissões coletivas e permitiu redução de jornada e salários, voltando a crescer.

A situação da França não é tão crítica. Mas o país está perdendo terreno aceleradamente para a Alemanha, que aproveitou o processo de unificação, nos anos 1990, para realizar um duro ajuste, que a consolidou como principal potência europeia, com economia em expansão e baixo desemprego — na França, a taxa chega a 10%.

— A Alemanha, após a reunificação, passou dez anos fazendo reformas. Controlou salários, reformulou a política industrial, reorganizou a economia. Quem mais cresce na Europa agora? — indaga a economista Monica de Bolle.

Esta semana, o FMI divulgou que a França deve crescer apenas 1,75% ao ano nos próximos cinco anos. Ressaltou que o ritmo não será suficiente para criar empregos e reduzir a dívida: “A economia francesa está se recuperando, mas maiores esforços ainda são necessários para criar empregos e colocar as finanças públicas em uma trajetória mais sustentável”.

A reforma trabalhista é uma opção clara no plano de recuperação da França. Um dos principais pontos é permitir que a sagrada jornada de 35 horas de trabalho semanais possa ser estendida para 48 ou até 60 horas. Demissões em empresas cujas receitas caiam por quatro trimestres passam a ser admitidas, e o pagamento de hora extra será flexibilizado.

Monica de Bolle argumenta que o Brasil tem muito a aprender com a França: ajustes devem ser feitos para ganhos de longo prazo. Temer parece ter optado por este caminho. Na posse, indicou que enviará as reformas trabalhista e da Previdência ao Congresso, com flexibilização de jornada e salários e a adoção de idade mínima para a aposentadoria. Esta semana, propôs uma revisão profunda nos gastos sociais, com desvinculação das despesas com saúde, educação e benefícios previdenciários.

Na avaliação do economista Manuel Thedim, do Iets, o desafio enfrentado por Hollande antecipa o debate no qual o Brasil vai mergulhar:

— No Brasil, essas duas reformas também são essenciais, pois temos problemas semelhantes: desemprego de dois dígitos e déficit da Previdência. Acredito que vai ter reação muito forte dos sindicatos apoiados pelo PT. Mas, diferentemente da França, aqui são menos organizados, e Temer parece ter apoio do Congresso.

Monica de Bolle concorda:

— No Brasil, não é mais possível ignorar as reformas necessárias. Elas estão em todas as áreas da economia. Quanto maior a demora em realizá-las, maiores os cortes a serem feitos.

oglobo.globo.com | 28-05-2016

BRASÍLIA - A chama olímpica está em solo brasileiro. O avião que a trouxe da Suíça pousou às 7h25m desta terça-feira no aeroporto de Brasília. Mas a travessia do Atlântico foi só o começo. Agora, a tocha passará pelas mãos de 12 mil pessoas, entre atletas e anônimos, que a conduzirão por 327 cidades durante 95 dias. A jornada só terminará em 5 de agosto, na cerimônia de abertura dos Jogos, no Maracanã.

Revezamento da Tocha 3 de maio

Na chegada a Brasília, Ramon Del Bel, comandante da aeronave, repetiu o gesto de Romário ao voltar dos Estados Unidos, em 1994, com a seleção tetracampeã mundial de futebol. Enquanto o avião taxiava na pista, ele segurou uma bandeira do Brasil, que tremulava do lado de fora da janela.

Coube ao presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman, descer do avião conduzindo a chama. Ele foi recepcionado pelo governador do DF, Rodrigo Rollemberg, e pelo ministro do Esporte, Ricardo Leyser. Entre os que vieram no mesmo avião da chama está o bicampeão olímpico de vôlei Giovane Gavio. Ele foi o primeiro brasileiro a carregar a tocha, ainda na Grécia.

Na capital do país, a chama será levada até o Palácio do Planalto, onde, às 10h, está previsto o início do revezamento. A primeira a carregar a tocha será Fabiana Claudino, bicampeã olímpica em 2008 e 2012 e capitã da seleção brasileira de vôlei. A partir daí, serão mais 140 pessoas, que vão de atletas consagrados a gente até agora desconhecida, como a menina síria Hanan Daqqah, que deixou o país natal em guerra civil e hoje mora no Brasil.

O trajeto em Brasília terá 118 quilômetros de distância, dos quais 37 serão percorridos por 141 condutores. No restante do trajeto entre os diversos pontos da cidade que serão palco do revezamento, a chama irá de carro ou até mesmo de helicóptero. Haverá vários pontos turísticos no caminho, como a Esplanada dos Três Poderes e a ponte JK, mas também outros que não costumam chamar a atenção dos turistas. É o caso da região administrativa de Taguatinga, uma das mais populosas e agitadas do Distrito Federal. Também haverá pausas para eventos de patrocinadores, como uma concessionária de automóveis. Ao todo o revezamento passará por cinco regiões administrativas.

Além dos trajetos a pé, de carro e de helicóptero, haverá travessia a nado, de bicicleta, em canoa havaiana e em embarcação a vela. Em dois pontos, a tocha seguirá de rapel: na descida da ponte JK até o lago Paranoá, e de um helicóptero até o gramado do estádio Mané Garrincha.

Com tantas pessoas e lugares para percorrer, a tocha levará quase um dia inteiro no trajeto em Brasília. A previsão é que o revezamento se encerre às 20h50m, na Esplanada dos Ministérios, onde haverá shows com artistas locais e de projeção nacional.

Nas outras cidades, a previsão é que a tocha também fique muito tempo na rua. Deverão ser 12 horas diárias. A chama original, acesa na Grécia, não se apagará. Ela será mantida em seis lanternas de segurança. Assim, se o fogo acabar durante o revezamento, a tocha poderá ser acesa novamente por meio das lanternas. Cada tocha tem autonomia de 18 minutos, mas cada condutor percorrerá em média 200 metros, ficando apenas dois minutos com a chama olímpica.

SEGURANÇA

A segurança do revezamento também é uma preocupação. Em Brasília, serão 3,5 mil agentes de segurança participando do evento. Em todo o Brasil, participarão dos esforços para que tudo ocorra bem vários órgãos federais, estaduais e municipais. Entre eles: a Secretaria Extraordinária de Segurança para Grandes Eventos (Sesge), que coordenará a operação, a Secretaria Nacional de Segurança Pública, a Força Nacional de Segurança Pública, a Polícia Federal (PF), a Polícia Rodoviária Federal (PRF), a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), as Forças Armadas, o Ministério do Esporte, e a Polícia Militar (PM).

TOCHA OLÍMPICA II

Já na chegada ao Planalto Central, o avião comercial trazendo a tocha foi escoltado por dois caças da Força Aérea Brasileira (FAB). Mas desde a madrugada, após entrar no espaço aéreo brasileiro, ainda sobre o Oceano Atlântico, ele já era monitorado. Antes de pousar no aeroporto, sobrevoou a área central de Brasília, entre a Torre de TV e o Congresso Nacional.

Outra medida de segurança adotada foi a restrição ao uso de drones no espaço aéreo de Brasília e das outras cidades que receberão o revezamento. A ação foi anunciada pela Secretaria de Aviação Civil (SAC). Às 9h50, o céu será da Esquadrilha da Fumaça, que terá sete caças sobrevoando a Esplanada.

COMBATE AO AEDES AEGYPTI

O medo despertado pelo Aedes aegypti também foi alvo de cuidados. Em Brasília, na última sexta-feira, 90 bombeiros e 60 agentes de vigilância ambiental da Secretaria de Saúde fizeram vistoria no trajeto da tocha para combater o mosquito transmissor da dengue, zika e chicungunha. Foram achados inclusive dois focos da larva do inseto. Houve também aplicação do larvicida em vários locais, como por exemplo no espelho d'água do Congresso Nacional.

A Secretaria de Saúde do DF anunciou ontem um esquema especial para o revezamento da tocha, o que inclui o cancelamento da maioria das cirurgias eletivas (aquelas marcadas previamente) desta terça-feria no Hospital Regional da Asa Norte (Hran), na região central de Brasília.

Apenas cirurgias eletivas mais simples, em que os pacientes podem ter alta no mesmo dia, estão mantidas. Segundo a Secretaria de Saúde, o objetivo é que o centro cirúrgico esteja liberado para ventuais emergências.

Nos próximos dias, a tocha passará por várias cidades de Goiás. O revezamento passará por todos os estados, e terminará no Rio de Janeiro. A tocha chegará à cidade-sede dos jogos em 4 de agosto, e o revezamento irá até o dia seguinte, quando haverá a cerimônia de abertura.

Em Brasília, segundo o governo do Distrito Federal (GDF), o revezamento terá um custo de R$ 3,8 milhões com infraestrutura, publicidade, segurança e outros serviços.

Trajeto da tocha em Brasília:

8h50 - Tocha chega ao Palácio do Planalto, onde haverá cerimônia

10h - Início do revezamento, a partir do Palácio do Planalto, em direção ao Congresso Nacional

10h21 - Catedral

10h37 - Palácio do Itamaraty

10h46 - Praça dos Três Poderes

11h19 - Descida da Ponte JK ao Lago Paranoá por rapel

11h37 - Após condução em embarcação e canoa havaiana, chegada ao Pontão do Lago Sul

11h55 - Descida de rapel de helicóptero para o Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha

12h05 - Volta no estádio

12h17 - Complexo Aquático Cláudio Coutinho

12h47 - Parque Nacional de Brasília (Água Mineral)

12h56 às 13h13 - Pausa

13h28 - Setor de Indústria e Abastaecimento (SIA)

14h14 às 15h20 - Taguatinga

15h34 - Regimento de Polícia Montada da Polícia Militar do DF, no Riacho Fundo 1

15h58 - Avenida Central do Riacho Fundo 1

16h20 - Centro Olímpico e Paraolímpico do Riacho Fundo 1

16h57 - Asa Sul

17h49 - Igrejinha

18h22 - Rodoviária do Plano Piloto

19h11 - Parque da Cidade

19h29 - Centro de Convenções Ulysses Guimarães

20h - Memoriais JK e dos Povos Indígenas

20h23 - Torre de TV e Fonte Luminosa

20h50 - Chegada da tocha ao palco da festa de celebração na Esplanada dos Ministérios

oglobo.globo.com | 03-05-2016

ATENAS - Para expulsar nesta sexta-feira para a Turquia um segundo grupo de migrantes, a Grécia intensificou seus controles de processamento de refugiados. Isto ocorre ao mesmo tempo que a Alemanha anunciou uma forte redução dos pedidos de asilo, enquanto a Europa tenta solucionar a mais grave crise migratória desde o fim da 2ª Guerra Mundial. As autoridades gregas informaram que dois barcos levaram 124 imigrantes de volta à Turquia, como parte do acordo entre União Europeia (UE) e Ancara.

Na ilha de Lesbos, um grupo de ativistas tentou barrar a saída de um dos barcos, e três ativistas foram detidos quando seguraram a âncora, para tentar impedir a partida do porto de Mitilene. Outras 30 pessoas se reuniram no porto de Lesbos e gritaram frases como "Vergonha para a UE" e "Liberdade para os refugiados". lesbos

O grupo desembarcou no porto de Dikili (oeste da Turquia), onde os migrantes serão submetidos a "controles de identidade e de saúde", segundo uma fonte local que pediu anonimato. Uma vez registrados, os migrantes serão levados de ônibus "provavelmente para Kirklareli", noroeste da Turquia, onde existe um campo de refugiados. O governo grego informou que 111 imigrantes levados à Turquia eram paquistaneses e quatro, iraquianos. Também havia bengaleses, indianos, marroquinos, egípcios e um palestino.

As embarcações que transportam os migrantes são todas fretadas pela agência de fronteiras da UE, Frontex.

De acordo com o governo grego, a operação envolve aqueles que não solicitaram asilo na Grécia.

"Qualquer pessoa que pede asilo sai da lista", afirmou uma fonte do Executivo à AFP.

Em outra operação por terra, 97 pessoas - a maioria paquistaneses - foram levadas à Turquia, informaram as autoridades gregas.

Segundo os termos do acordo entre a UE e Ancara concluído no mês passado em Bruxelas, todos os imigrantes que chegaram de maneira irregular às ilhas gregas a partir da Turquia a partir de 20 de março correm o risco de expulsão. O acordo também afirma que para cada refugiado sírio devolvido, a UE receberá outro sírio que está na Turquia, até atingir o limite de 72.000. Em troca, a Turquia receberá uma ajuda de seis bilhões de euros e no mês de junho será suspensa a exigência de visto aos cidadãos turcos em viagens para a UE.

Na segunda-feira, o primeiro grupo de 202 migrantes foi expulso para a Turquia a partir das ilhas de Lesbos e Quios. Diante da situação, muitos dos 3.000 migrantes bloqueados em Lesbos correram para apresentar pedidos de asilo, o que obrigou as autoridades gregas a adiar as expulsões para ter tempo de analisar as demandas individualmente.

O acordo foi muito criticado por diversas organizações, que o chamaram de "desumano".

Dezenas de migrantes bloqueados em Lesbos e na ilha de Samos, também próxima da Turquia, anunciaram o início de uma greve de fome para evitar a expulsão e pedir a reabertura das fronteiras nos Bálcãs.

Na Alemanha, a apresentação de novos pedidos de asilo registrou queda de 66%, com 20.000 pessoas cadastradas em março, contra 60.000 em fevereiro, anunciou nesta sexta-feira o ministro do Interior, Thomas de Maizière.

"Em dezembro eram 120.000 pessoas, em janeiro 90.000, em fevereiro 60.000 e agora em março 20.000", afirmou o ministro, poucas semanas depois do fechamento da rota migratória dos Bálcãs.

Em 2015 a Alemanha recebeu 1,1 milhão de solicitantes de asilo, depois que a chanceler Angela Merkel decidiu abrir as portas do país aos refugiados.

oglobo.globo.com | 09-04-2016

Os Jogos Olímpicos são o maior e mais importante evento esportivo mundial. São também um palco privilegiado para manifestações políticas. A ausência de Adolf Hitler na premiação do atleta negro americano Jesse Owens (quatro medalhas de ouro, em Berlim/1936); a saudação dos Panteras Negras, feita pelos corredores Tommie Smith e John Carlos (ouro e bronze, respectivamente, México/1968); o atentado do grupo palestino Setembro Negro, que culminou com a morte de 11 atletas da delegação israelense (Munique/1972), são alguns exemplos radicais da politização envolvida neste evento.

Por sua visibilidade mundial, as cerimônias de abertura dos Jogos são uma oportunidade para o país-sede celebrar suas riquezas naturais e valores culturais, isto é, enviar uma mensagem política. Em 2012, nos cinco continentes, quase um bilhão de telespectadores dedicaram algumas horas a admirar o espetáculo dirigido pelo vencedor do Oscar Danny Boyle. Em uma produção esmerada, ícones da cultura inglesa, como a escritora J. K. Rowling (da série Harry Poter), os atores Rowan Atkinson (do personagem Mr. Bean) e Daniel Craig (o atual 007), o cantor Paul McCartney e a própria rainha Elizabeth II divulgaram ao mundo alguns motivos de vaidade e orgulho da nação inglesa. Entre eles, com grande destaque, o seu Sistema Nacional de Saúde (SNS).

Organizado em 1948, em um contexto de devastação e solidariedade produzido pela Segunda Guerra Mundial, o SNS provê cobertura universal, baseando-se nos princípios de equidade e integralidade. Este enunciado faz lembrar o Sistema Único de Saúde brasileiro, o SUS, mas as semelhanças param por aí. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o governo inglês cobre cerca de 83% das despesas médicas da população mas, no Brasil, apenas 44% são bancados pelos cofres públicos. Desde o ano 2000, o governo brasileiro aumentou a participação do gasto em saúde de 4,9% para 5,9% do seu Orçamento, mas a média mundial é de 14,3%. Nosso percentual nos equipara à realidade africana. A Grécia, berço das Olimpíadas, cujas finanças são motivo de preocupação para a comunidade europeia, destina à saúde seis vezes mais recursos per capita do que o Brasil.

O SUS é um dos maiores patrimônios da cidadania brasileira e a mais ampla política pública de nossa história. Essa gigantesca obra social não apenas permanece inconclusa como, ao longo do tempo, grande parte de sua estrutura e mecanismos de funcionamento se tornaram obsoletos. Por exemplo, o SUS jamais dispôs de uma política organizada de recursos humanos e, como a execução das ações de saúde se tornou, basicamente, uma tarefa de estados e municípios, deixou a cargo dos gestores dessas esferas se moverem entre os limites da Lei de Responsabilidade Fiscal e os improvisos que, muitas vezes, apenas precarizam relações de trabalho. Mesmo nestas condições, sobram ao SUS números e realizações notáveis. O que lhe falta é um financiamento adequado, mecanismos de gestão mais contemporâneos e, sobretudo, aliados sérios e comprometidos com o seu aperfeiçoamento.

O resultado de competições esportivas sempre tem uma alta dose de imprevisto. Lamentavelmente, em poucos meses, nos Jogos Olímpicos brasileiros, a se realizarem no Rio de Janeiro, se pode antever com certeza que o SUS não será festejado na cerimônia de abertura e, ao final, a saúde brasileira estará distante do pódio.

Chico D’Angelo é médico e deputado federal (PT-RJ)

oglobo.globo.com | 03-04-2016

RIO - Aos 14 anos André Sant'anna percebeu um caroço no pescoço. Primeiro foi levado a um ortopedista, tomou alguns remédios, mas nenhum surtiu efeito. Meses depois, em um exame no Instituto Nacional do Câncer (Inca), ele confirmou que estava no estágio mais avançado do linfoma de Hodgkin, um tipo específico de câncer que compromete os linfócitos, importantes agentes do sistema imunológico. A quimioterapia, que deveria durar seis meses, se arrastou por mais de dois anos. O primeiro transplante de medula foi mal sucedido, e a família precisou recorrer à Justiça para conseguir um medicamento cuja comercialização ainda não era permitida no Brasil. Aconselhado pelos médicos, André chegou a se despedir dos amigos. Mas o jovem — agora curado, aos 19 anos, após um segundo transplante — sabia que esta medida não seria necessária. Nos cinco anos em que conviveu com a doença, encarou tranquilamente o tratamento, e, durante a maior parte do tempo, até frequentou festas. Entre todas as queixas possíveis, a única que ele realmente fazia era quando tinha que raspar o cabelo. André é um exemplo de como a felicidade e o afeto são importantes para o sucesso de terapias.

— Lidei com a doença como se não tivesse problema de saúde — lembra o jovem. — O jeito era enfrentar, não adiantava baixar a cabeça, e tive ajuda da família e dos amigos de escola. Mesmo quando me deram como caso perdido, eu tinha certeza de que não era a minha vez. Precisei deixar o colégio, fiz um curso intensivo e aos poucos estou voltando a pegar o ritmo.

Bem-estar

A influência da felicidade e do humor na saúde foi o tema do primeiro debate do ano nos Encontros O GLOBO Saúde e Bem-Estar, na última quarta-feira. O evento entra em seu quinto ano sob a coordenação do médico Cláudio Domênico e contou com a presença do oncologista Carlos José de Andrade e do escritor Zuenir Ventura, além da mediação do jornalista William Helal Filho, editor de Sociedade do GLOBO.

Domênico lembrou que a felicidade tem um componente genético, mas pode ser influenciada pelo meio ambiente, fortalecendo a nossa capacidade de enfrentar as adversidades. A vinculação entre este estado de espírito e a saúde é tema de um estudo que vem dendo realizado há 75 anos na Universidade Harvard.

— Os 724 jovens recrutados no início da pesquisa precisavam responder o que era mais importante para ser feliz. Uns disseram que era ter dinheiro; outros, reconhecimento — lembra. — Agora, 75 anos depois, são estudados dois mil filhos desses primeiros pesquisados, além dos 60 voluntários que ainda estão vivos. Diante da mesma pergunta, muitos mudaram de opinião. As pessoas que mantêm contato social vivem mais. A conclusão é que a solidão é tóxica e o isolamento mata.

A personalidade, segundo Domênico, repercute no tratamento de cada paciente, de diferentes formas:

— Alguns têm uma hipertensão pequenininha e chegam ao consultório sentindo um monte de coisa. Outros já foram operados, têm diabetes, hipertensão arterial. Pergunto por que estão ali e dizem que não sabem, que foi a chata da mulher que mandou — brinca. — Estas pessoas têm macrodoença e microssintomas.

Oncologista clínico do Inca e do Grupo COI, Carlos José de Andrade destaca a dificuldade sentida pela medicina em responder o que vem primeiro: somos felizes porque temos saúde ou temos saúde porque somos felizes?

— Já foram realizados estudos em vários ambientes tentando estabelecer uma relação entre a sensação de bem-estar das pessoas e a incidência de doenças cardiológicas — conta. — Os pesquisadores viram que as pessoas mais felizes têm um comportamento restaurativo e, assim, se recuperam melhor.

Outras pesquisas também mostram, segundo Andrade, como os sentimentos positivos são “cultiváveis”. Cientistas concluíram que 50% das chances de sermos pessoas felizes são determinadas geneticamente. Outros 10% viriam das circunstâncias. E 40% são um “espaço de manobra”, aquele instituído por cada um de nós.

Andrade e Domênico, no entanto, alertam que a atual crise política e econômica do país está elevando os níveis de estresse. Nos últimos dois anos, rankings elaborados por organizações internacionais sobre o índice de bem-estar da população mostram o Brasil nas primeiras colocações. Este cenário, no entanto, pode ser alterado nos próximos levantamentos.

— A Grécia, por exemplo, foi o país com maior queda na sensação de bem-estar, devido à diminuição da renda per capita e à crescente percepção de corrupção — lembra Andrade. — Não quero ser apocalíptico, mas podemos estar passando por uma situação semelhante.

ENVOLVIMENTO E SUPERAÇÃO

O oncologista Daniel Tabak pondera que não há evidências concretas de que adotar uma perspectiva positiva para combater o câncer pode auxiliar seu tratamento. No entanto, ele também considera que o estresse pode interferir negativamente nas alterações genéticas das células tumorais e em sua circulação no sistema imunológico.

Tabak, no entanto, reivindica que os médicos se envolvam mais no tratamento dos pacientes, dando-lhes inspiração para superar as limitações impostas pela doença. Para ele, a humanidade deve ser considerada como a essência da medicina.

— O médico, em vez de ser restrito a uma pessoa que cura doenças, também devem atuar como aliados — recomenda Tabak, que dirige o Centro de Tratamento Oncológico (Centron). — O paciente não deve ser visto só como um órgão a ser tratado. Precisamos entender o que é “pensar positivo”, ter esperança no futuro. Não há satisfação maior do que recuperar um paciente e de cumprir o nosso papel de cuidador. Quando ele percebe isso, como deve ter ocorrido com o André, então nosso trabalho foi coroado.

oglobo.globo.com | 20-03-2016

RIO - As mudanças climáticas vão frear os avanços previstos na segurança alimentar global, com impactos na produção agropecuária que levarão à morte mais de 500 mil pessoas em todo mundo em 2050 devido à piora nas suas dietas — especialmente com um menor consumo de frutas e vegetais e aumento na desnutrição. A projeção faz parte do primeiro e mais amplo estudo realizado até agora sobre a intrincada relação entre o clima e nossos hábitos alimentares, e como esses afetam nossa saúde, publicado na edição desta semana no prestigiado periódico médico científico “The Lancet”.

— Muitas pesquisas já foram feitas sobre a segurança alimentar (sob o impacto das mudanças climáticas), mas poucas se focaram nos efeitos mais amplos na saúde da produção agrícola — justifica Marco Springmann, cientista do Programa Sobre o Futuro dos Alimentos da Universidade de Oxford e líder do estudo. — Alterações na disponibilidade de comida e no consumo também afetarão fatores de risco relacionados à dieta e ao peso, como baixa ingestão de frutas e vegetais, alto consumo de carnes vermelhas e obesidade, todos causadores de um aumento na incidência de doenças não comunicáveis como problemas do coração, derrames e câncer, assim como nas mortes por essas doenças.

Segundo os pesquisadores, esses efeitos das mudanças climáticas na nossa dieta, e consequentemente na nossa saúde, serão mais fortes nos países pobres e em desenvolvimento e no Leste da Ásia e no Sudeste Asiático, com China e Índia respondendo sozinhas por mais de três quartos das mortes. Mesmo os países mais ricos vão sofrer, com destaque para Grécia e Itália, onde a conhecida dieta mediterrânea é apontada como responsável pela relativa longevidade de suas populações. Lá, os óbitos per capita em decorrência das alterações no consumo de alimentos pelas mudanças climáticas atingirão 123,66 e 89,17 pessoas por milhão de habitantes, respectivamente, entre os índices mais altos projetados no estudo. Já para o Brasil, a previsão é de um total de 4.490 mortes em 2050 (14ª posição global), com um impacto per capita de 24,25 pessoas por milhão de habitantes (70º lugar mundial).

Os números do estudo têm como base as perspectivas de melhorias na dieta da população do planeta pelos avanços na produção agrícola. Em um cenário sem mudanças climáticas e com um desenvolvimento socioeconômico mundial mediano, as projeções são de que estas melhorias evitariam quase 1,9 milhão de mortes em 2050, com altas no consumo diário de frutas e vegetais, de carnes vermelhas e de calorias totais.

Conta com cenário mais pessimista

Mas, levando em conta a pior previsão para as emissões de gases do efeito estufa, com um aumento da temperatura média global de 2 graus Celsius no período 2046-65 quando comparada à registrada entre 1986 e 2005, esta elevação no consumo diário seria 14,9 gramas diários por pessoa menor (-4%) no caso de frutas e vegetais; 0,5 grama inferior por dia (-0,7%) de carnes vermelhas; e 99 kcal diárias mais baixa (-3,2%) nas calorias relativa ao cenário inicial. Assim, a quantidade de mortes evitadas pelas melhorias na dieta e nos fatores de risco relacionados ao peso em 2050 cairia para quase 1,35 milhão, com a diferença, de exatas 529 mil, creditada então como mortes relacionadas às mudanças climáticas.

Ainda de acordo com os cálculos dos pesquisadores, o consumo menor de frutas e vegetais do que o esperado em 2050 responderá por 534 mil destas mortes ligadas às mudanças climáticas naquele ano, superando em muito os benefícios à saúde com a também redução no consumo de carnes vermelhas, que evitará 29 mil óbitos. Já nos indicadores relativos ao peso da população mundial, as mortes que serão evitadas pelas quedas nos índices de pessoas com sobrepeso ou obesas, 35 mil e 255 mil, respectivamente, serão contrabalançadas pelo aumento na desnutrição devido à menor disponibilidade calórica que a projetada se não houvesse as mudanças climáticas, que deverá matar 266 mil pessoas em meados deste século.

— Nossos resultados mostram que mesmo modestas reduções na disponibilidade de alimentos por pessoa podem provocar alterações no conteúdo energético e na composição das dietas, e essa mudanças terão graves consequências para a saúde — destaca Springmann.

Por outro lado, o estudo indica que medidas que levem ao corte das emissões e limitem o aquecimento global podem ajudar a reduzir significativamente estas mortes relacionadas às mudanças climáticas. Dependendo da força dessas intervenções, a queda varia de 29% a 71%. Em dois cenários medianos para as emissões, por exemplo, com o aumento da temperatura na superfície do planeta ficando entre 1,3°C e 1,4°C, seriam contabilizadas 368 mil e 381 mil mortes, respectivamente. Mas mesmo na perspectiva mais otimista, com um balanço de emissões negativas pelo uso de tecnologias de captura e armazenamento de carbono e ampliação na geração de energia a partir de fontes renováveis, restringindo a alta na temperatura a 1°C, próxima dos níveis atuais, ainda assim haveria vítimas: 154 mil no total.

— As mudanças climáticas provavelmente terão um impacto negativo substancial na mortalidade futura, mesmo sob os cenários mais otimistas — lembra Springmann. — Assim, os esforços de adaptação precisam crescer em escala rapidamente. Programas de saúde pública com o objetivo de prevenir e tratar fatores de risco relacionados à dieta e ao peso, como elevar a ingestão de frutas e vegetais, devem ser reforçados e vistos como prioridade para ajudar a mitigar os efeitos na saúde das mudanças climáticas.

oglobo.globo.com | 04-03-2016

ATENAS - Os credores europeus estão trabalhando em um plano para oferecer à Grécia um alívio gradual de suas dívidas, sob a condição de que o país adote mais reformas até 2022, publicou o jornal semanal grego Agora, neste sábado.

Os credores inicialmente permitiriam taxas de juros menores e vencimentos mais longos na dívida de € 316 bilhões, disse o jornal. Em um estágio mais avançado, haveria conversas para relacionar o pagamento das dívidas ao crescimento econômico, se Atenas implementar medidas a serem concordadas com os credores até 2022.

O plano foi discutido entre representantes da Comissão Europeia, o fundo de resgate da zona do euro, o Banco Central Europeu, e os maiores países da zona do euro, afirmou a publicação.

Os credores falaram publicamente sobre alívio das dívidas se as reformas forem completas.

Questionado sobre a reportagem, o ministro de Finanças da Finlândia, Alexander Stubb, disse: “Neste momento, não estamos pensando em alívio de dívida, mas completando a terceira revisão do primeiro programa interino.”

Na quinta-feira, Jeroen Dijsselbloem, presidente do grupo de ministros de finanças da zona do euro, disse que eles estavam preocupados com a qualidade das reformas que a Grécia prometeu em troca do resgate.

Negociações entre os chefes da missão da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional (FMI) que está revisando o progresso do país sobre medidas de reforma do sistema de aposentadoria, metas fiscais e sobre como está lidando com empréstimos podres foram interrompidas no começo do mês.

Não ficou claro quando os credores retornarão para Atenas. Sem a avaliação positiva deles sobre as reformas, a Grécia não pode começar a falar sobre alívio de dívida e mostrar aos gregos que sofrem com medidas de austeridade que os sacrifícios valeram a pena.

Falando depois da reunião da União Europeia que concordou na sexta-feira em um acordo para tentar manter o Reino Unido no bloco e enfrentar a crise de imigração, o primeiro-ministro da Grécia, Alexis Tsipras, disse que todos os parceiros do bloco de países concordaram que a revisão precisava ser concluída assim que possível.

O ministro de Finanças da Grécia sugeriu, no sábado, que as diferenças entre parceiros da União Europeia e do FMI sobre o programa de resgate estavam prejudicando os esforços do governo para ajudar a economia da Grécia a se recuperar de anos de recessão.

O FMI disse que está pronto para ajudar a Grécia apenas se os parceiros do país na União Europeia cedessem “alívios significativos de dívida”. Mas a Europa deixou claro que quer a conclusão da revisão antes de entrar nesse assunto.

PARLAMENTO APROVA PACOTE DE BENEFÍCIOS

Enquanto o alívio para a dívida não chega, os gregos ficaram mais perto de, pelo menos, mitigar os efeitos das medidas de austeridade. O parlamento grego aprovou neste sábado um pacote legislativo que prevê seguro saúde para cidadãos vulneráveis e oferece empregos municipais para desempregados.

Alexis Tsipras, que voltou atrás com promessas de encerrar o programa de austeridade no país e foi forçado a assinar um novo pacote de resgate à Grécia no verão passado, foi reeleito em setembro sob promessas de implementar reformas prescritas pela União Europeia e o FMI.

Milhares de gregos foram às ruas em fevereiro para protestar contra uma reforma no sistema de aposentadorias que eleva as contribuições e elimina benefícios para pensionistas de baixa renda. O plano afeta principalmente profissionais liberais e agricultores, que estão usando bloqueios em estradas como forma de protesto há semanas.

oglobo.globo.com | 20-02-2016

Os que defendem a legalização do aborto encontraram na associação do aumento da microcefalia com o surto de zika uma oportunidade para retomar a discussão da liberação do procedimento no Brasil. Querem transformar o diagnóstico de microcefalia em atestado de morte para todas as crianças das mães que contraíram o vírus e que optarem pela interrupção da gravidez, mesmo com possibilidades de nascerem sem sequelas neurológicas graves.

Com o avanço da medicina fetal e da genética médica, hoje é possível a detecção, ainda no útero, de várias anomalias fetais. Querer considerar apenas as crianças saudáveis com direito à vida é retomar a prática da eugenia feita na Grécia antiga e pelo nazismo, abrindo um precedente para a liberação do aborto em outros casos de microcefalia.

Não se pode falar na opção de abortamento, pois não se trata de patologia letal que inviabilize a vida extrauterina. A discussão do aborto em casos de microcefalia retrata bem o momento pós-moderno em que vivemos.

Para a maioria dos autores, a pós-modernidade é marcada como a época das incertezas, das fragmentações, do narcisismo, da troca de valores, do vazio, do niilismo, da deserção, do imediatismo, da efemeridade, do hedonismo, da substituição da ética pela estética, da apatia, do consumo de sensações e do fim dos grandes discursos.

Na sociedade pós-moderna, predomina a permissividade que justifica que tudo é bom desde que eu me sinta bem. É um relativismo no qual não há nada absoluto, nada totalmente bom ou mau, onde as verdades são oscilantes.

Vive-se numa época de grande competitividade e de pouca solidariedade. Em nome dessa nova ideologia, os indivíduos se permitem agir passando por cima de valores fundamentais.

A coisificação da vida e o predomínio dos interesses pessoais em detrimento do coletivo são bem característicos dessa fase em que vivemos.

Entretanto, aprendemos com a genética que a diversidade é a nossa maior riqueza coletiva. E o feto anômalo, mesmo o portador de grave deficiência, como é o caso da microcefalia, faz parte dessa diversidade. Deve ser, portanto, preservado e respeitado.

Necessário se faz proteger também a gestante, dando-lhe apoio em sua gravidez e proporcionando tratamento ao seu futuro filho.

O aborto provocado é um procedimento traumático, com repercussões gravíssimas para a saúde mental da mulher, que geralmente aparecem tardiamente. Produz um luto incluso, devido à negação da ocorrência de uma morte real, mas esse aspecto é totalmente desconsiderado.

As mulheres sofrem uma perda, e suas necessidades emocionais são relegadas ou escondidas. Esse processo vai gerar profundas marcas e favorecer o surgimento da síndrome pós-aborto.

A evolução de uma sociedade é medida pela sua capacidade de amparar os mais frágeis. A sociedade que apela para o aborto se declara falida em suas bases educacionais, porque dá guarida à violência no que ela tem de pior, que é a pena de morte para inocentes. Compromete, portanto, o seu projeto mais sagrado, que é o da construção da paz.

Gilson Luís Roberto é presidente da Associação Médico-Espírita do Brasil

oglobo.globo.com | 19-02-2016

BRASÍLIA - O laboratório Sumitomo Chemical, fabricante do larvicida Pyriproxyfen, usado no combate às larvas do mosquito Aedes aegypti, saiu em defesa de seu produto. No sábado, a Secretaria de Saúde do Rio Grande do Sul suspendeu o uso do larvicida em água para consumo humano, após circularem notícias associando o produto à microcefalia. Em nota, o laboratório, assim como já tinha feito o Ministério da Saúde, informou que não há comprovação científica disso e disse que o larvicida é seguro.

A microcefalia é uma malformação em que os bebês nascem com a cabeça menor do que o normal, levando, em geral, ao retardo mental. Exames feitos por laboratórios ligados ao Ministério da Saúde apontam a ligação entre a epidemia da doença, que atinge principalmente o Nordeste, o vírus zika, transmitido justamente pelo Aedes aegypti, o mesmo da dengue e da chicungunha.

O fabricante destacou que o produto tem registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e é usado no combate ao Aedes aegypti, além de outras espécies como o Culex quinquefasciatus (pernilongo ou muriçoca) e a mosca doméstica.

"O produto é registrado desde 2004 e o Governo brasileiro o vem utilizando como inseticida-larvicida no combate ao Aedes aegypti. Pyriproxyfen também é registrado para o combate do Aedes aegypti em países como Turquia, Arábia Saudita, Dinamarca, França, Grécia, Holanda, Espanha. Na América Latina, República Dominicana e Colômbia vêm utilizando o produto desde 2010", destacou a nota do Sumitomo Chemical, afirmando ainda que o larvicida é aprovado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

"Segundo a OMS, em seu documento Pyriproxyfen in Drinking-water, publicado em 2004 - também publicado pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) em 2001 -, o Pyriproxyfen não é mutagênico, não é genotóxico, não é carcinogênico nem teratogênico. O produto foi submetido a rigorosos testes toxicológicos que não demonstraram efeitos sobre a reprodução, sobre o sistema nervoso central ou periférico", diz trecho da nota do laboratório.

No sábado, a Secretaria de Saúde do Rio Grande do Sul informou que o larvicida era usado em pequena escala no estado. "A decisão (de suspender o produto) deve-se à hipótese de que a substância pode potencializar a má-formação cerebral causada pelo zika vírus, levantada pela organização médica argentina Physicians in the Crop-Sprayed Towns. A suspensão já foi comunicada às 19 Coordenadorias Regionais de Saúde do Estado, que devem informar às Vigilâncias Municipais", diz trecho da nota da secretaria.

Também no sábado, o Ministério da Saúde informou que a secretaria gaúcha tem autonomia para decidir como utilizar o produto. Já o secretário de Saúde do estado e presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), João Gabbardo dos Reis, tinha informado, por meio de nota, que a suspensão do uso do larvicida valeria até que houvesse uma posição do Ministério da Saúde sobre o tema. Procurado pelo GLOBO após a divulgação da nota do ministério, ele disse que a decisão será mantida pelo menos até segunda-feira.

oglobo.globo.com | 14-02-2016

ATENAS - Uma das economias mais endividadas da União Europeia, a Grécia é um dos países mais afetados na turbulência do mercado nesta segunda-feira. Segundo a agência Bloomberg News, o índice ASE, da Bolsa de Atenas, recuava quase 7%, e atingia o menor nível desde 1990. As ações de bancos perdiam mais de 20%, a maior queda desde novembro, indicando o temor do mercado com a saúde financeira dos bancos gregos. Ao mesmo tempo, as taxas sobre os títulos gregos avançaram para mais de 10%.

“É uma doença internacional que atinge um mercado muito pouco líquido, que se torna mais difícil com a disparada nos juros dos títulos. Há um risco de, se as negociações do governo demorarem muito, os bancos e a economia serão afetados”, afirmou, à Bloomberg News, George Athanasakis, diretor na Pantelakis Securities SA, em Atenas.

As taxas sobre os títulos da dívida grega de dez anos subiram para 10,01%, frente a 8,29% do fim de 2015.

oglobo.globo.com | 08-02-2016

Lançado no final de outubro do ano passado pelo PMDB, o documento “Uma ponte para o futuro” terminou contaminado por aquele momento político, em que o pedido de impeachment da presidente Dilma era o centro dos debates. Isso bastou para que o texto fosse interpretado como uma iniciativa do vice, Michel Temer, presidente do partido, para anunciar a plataforma do seu governo.

A interpretação atraiu ainda mais rancores do PT e aliados contra as propostas, rejeitadas também por princípio, ao reduzir o peso do Estado, dogma lulopetista. Até mesmo considerar o documento como “do PMDB” é um certo exercício de elasticidade, considerando-se a divisão da legenda, muito tensionada, com um bloco situacionista e um outro oposicionista. Mais ou menos como sempre.

O grupo de peemedebistas que lançou o texto decidiu patrocinar análises e sugestões que já transitavam no mundo acadêmico e na imprensa.

Apenas o PT não percebe — ou se percebe, não admite — que se esgotou um regime fiscal cujas raízes estão fincadas na visão ideológica embutida na Constituição de 1988: cabe ao Estado ser o principal instrumento do combate à pobreza, à miséria, ser o prestador de serviços de saúde a toda a população de forma gratuita, bem como educação de boa qualidade.

Estava pavimentado o caminho para o Estado, independentemente do governo de turno, ampliar a expropriação de rendas da sociedade, para ele distribuí-las no cumprimento desta enorme (e impossível) missão.

O saldo dessa trajetória é que o Brasil passou a ter a maior carga tributária entre os países emergentes (36% do PIB). Afinal, os gastos ditos sociais foram indexados, grande parcela deles ao salário mínimo. Para tornar tudo mais difícil, a correta política de valorização do mínimo, de FH, foi radicalizada com o PT no Planalto. E, além de tudo, vincularam-se parcelas do Orçamento a gastos específicos: Saúde, Educação, sem falar na folha do funcionalismo, por definição fixa, dada a estabilidade legal do servidor. Pode ser cortada apenas pela inflação.

Uma engenharia dessas só se manteria em pé se a economia brasileira sempre crescesse, e a uma boa taxa. Como isso é impossível, todo este edifício desabou a partir do momento que a mistura de recessão com inflação, que chegou a dois dígitos, reduziu, de um lado, as receitas tributárias, e, de outro, jogou na estratosfera a maior parcela das despesas: Previdência e outros gastos ditos sociais. Não surpreende que o déficit nominal em 2015 haja sido de 10,34% do PIB, do nível da Grécia no auge da crise.

Ora, diante de uma situação insustentável como esta, economistas — e o PMDB os endossa neste documento — defendem, entre outras medidas, a desindexação do Orçamento e o fim das vinculações, o que implicará rever a qualidade de cada gasto na montagem anual dos orçamentos, algo imprescindível.

Se o PT e Dilma insistirem em manter a fórmula de alta carga tributária, a recessão se transformará em depressão, e a coleta de impostos desabará junto, num cataclismo.

oglobo.globo.com | 08-02-2016

NOVA YORK - Quase 60 milhões de pessoas no mundo todo tiveram que abandonar suas casas por causa de guerras, conflitos ou perseguições em 2014, número que não é visto desde a Segunda Guerra Mundial. Aproximadamente 11 milhões delas são sírias. É difícil conceber números tão grandes e as muitas histórias trágicas por trás deles, mas uma única fotografia de um menino sírio de três anos que se afogou e foi achado em uma praia turca, em setembro, humanizou a crise de refugiados para muita gente. O pai do menino também perdeu a esposa e outro filho na travessia do Mediterrâneo rumo à Grécia, em busca da chance de uma vida normal.

Depois de mais de quatro anos de guerra civil, os sírios enfrentam uma situação que está longe de acabar e muitos indivíduos caridosos querem encontrar formas eficazes para ajudar. Muitos têm dúvidas já bem conhecidas das organizações de auxílio: como empregar eficientemente uma quantia limitada para ajudar o maior número possível de pessoas? Onde a necessidade é mais premente?

Agora que muitos tentam chegar à Europa, os países vizinhos da Síria estão sob grande pressão, pois contam com um número maior de refugiados. No Líbano, por exemplo, os sírios representam de um quarto a um terço da população, de acordo com o Comitê de Resgate Internacional. A Jordânia tem 630 mil refugiados registrados, o que, segundo o grupo, seria o equivalente aos Estados Unidos absorverem a população da Grã-Bretanha.

"Para ajudar o maior número de refugiados você precisa primeiro entender onde eles estão localizados, e em segundo lugar, apoiar as organizações que cuidam de suas necessidades nesses locais", disse Katherina M. Rosqueta, diretora executiva e fundadora do Centro de Filantropia de Alto Impacto da Universidade da Pensilvânia.

Atender às necessidades do dia a dia dos refugiados é vital, mas aqueles que estão lá ajudando também pedem que os doadores pensem em contribuir com instituições de caridade que tentam resolver problemas em longo prazo.

"É fácil pedir que doadores ajudem pessoas com necessidades imediatas, mas se você está disposto a ser um pouco mais estratégico em suas contribuições, elas podem ter um alcance maior", disse Emily E. Arnold-Fernández, diretora executiva do Asylum Access, grupo de defesa sem fins lucrativos que se concentra em direitos humanos e jurídicos dos refugiados.

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A lista abaixo fornece orientação sobre onde doar, além de uma amostra de organizações bem reputadas para as quais é possível fazer doações diretas:

Hope for Syria é um tipo de organização central, pois divide uniformemente as doações entre nove outras organizações sem fins lucrativos bem conceituadas, incluindo a Catholic Relief Services, a HIAS e a Islamic Relief EUA. Esses grupos se concentram em vários aspectos da crise, inclusive na ajuda àqueles que ainda estão na Síria e em reassentamentos nos Estados Unidos.

"Se quiser fazer uma doação para abranger todos os pontos, esse é o grupo", disse Sam Worthington, diretor executivo da InterAction, uma aliança de 195 ONGs americanas que trabalham no exterior.

– A Charity Navigator tem uma lista de 19 organizações envolvidas na crise da Síria, todas elas já tendo recebido pelo menos três das quatro estrelas que o grupo outorga em seu sistema de classificação.

Elas são concedidas com base na saúde e eficiência financeiras, responsabilidade e transparência de uma instituição de caridade. A Charity Navigator tenta agora adicionar outro componente que incluirá os resultados e as conquistas das instituições, algo difícil de medir, mas mais esclarecedor, disse Michael Thatcher, o presidente do grupo. Ele sugere que os doadores façam avaliações minuciosas visitando o site da organização para ver se há qualquer evidência de resultados.

– O International Rescue Committee é um grupo muito bem avaliado por profissionais e observadores de organizações de caridade que ajudam refugiados em vários momentos. Ele agora trabalha para criar um centro de recepção na ilha grega de Lesbos, onde muitos sírios que buscam refúgio na Europa desembarcam após a perigosa travessia, muitas vezes em botes de borracha saídos da Turquia.

Aproximadamente dois mil de seus funcionários fornecem ajuda para os desabrigados na Síria, em países vizinhos e na Grécia. Além de comida e abrigo, oferecem também cuidados com a saúde, serviços de proteção para mulheres e crianças e programas para ajudar a desenvolver habilidades profissionais em longo prazo. O grupo, que pretende angariar US$ 33 milhões em 2016 para esses programas, também ajuda a instalar refugiados em 26 cidades dos Estados Unidos.

– A Oxfam America ajuda os sírios em seu país de origem, na Jordânia e no Líbano com água potável, saneamento e outros itens básicos, que podem incluir dinheiro e suprimentos como cobertores e fogões, ou vouchers para produtos de higiene. Ela também ajuda as famílias a obter informações sobre seus direitos, colocando-as em contato com serviços médicos e jurídicos. As pessoas podem destinar suas doações para crises no Oriente Médio, embora a organização afirme que muitas vezes é melhor doar para o fundo geral, o que agiliza muita coisa.

– A Médicos sem Fronteiras tem uma presença limitada na Síria, particularmente após o rapto de alguns membros da equipe, em 2014, e a destruição parcial de um centro médico em novembro, que matou sete pessoas. Porém, ainda opera seis instalações médicas no norte da Síria, que fornecem vacinas, cuidados maternos e tratamento para queimaduras e controla diretamente 150 postos de saúde e hospitais de campo no país. A organização também ajuda os refugiados nos países vizinhos, incluindo Jordânia, Líbano e Iraque e mantém navios de busca e salvamento no mar Mediterrâneo, que, até agora, já resgataram mais de 18 mil pessoas que tentavam a viagem para a Europa.

– A Save the Children auxilia os refugiados de várias maneiras, fornecendo ajuda de emergência e cuidados de saúde, reconstruindo salas de aula danificadas e dando suporte a escolas na Síria e nos países vizinhos. A organização apoia 55 escolas no norte da Síria e opera seis instalações de cuidados de saúde que fornecem serviços médicos e atendimento de emergência 24 horas para mulheres grávidas na Síria. Oferece também espaços agradáveis para as crianças afetadas pelo conflito, proporcionando uma sensação de normalidade.

oglobo.globo.com | 14-01-2016

ISTAMBUL – No Pages, café e livraria em uma casa de madeira de três andares no bairro mais antigo desta cidade, um refúgio literário floresceu para os jovens árabes exilados – principalmente sírios, mas também iraquianos, líbios e iemenitas que fugiram dos problemas de seus países e se estabeleceram aqui.

As prateleiras são tomadas por traduções em árabe de Orhan Pamuk, Jack Kerouac, Gabriel García Márquez e Franz Kafka. Dois romances sírios são particularmente populares: "No Knives in This City's Kitchens", sobre uma família que vive sob a tirania, e "The Shell", sobre um detento de uma prisão síria.

— Essa é a geração da revolução em todo o mundo árabe. Eles querem saber por que tudo aconteceu, e não acreditam na imprensa — diz Samer Alkadri, pintor e designer gráfico de Damasco que abriu o café em julho com a mulher, com estoques de livros árabes que importou de uma editora de Beirute, no Líbano.

O café e o jardim dos fundos também são ponto de encontro para discussão da questão que domina a vida dos sírios aqui: ficar, ou embarcar na perigosa jornada por mar para a Europa. A pergunta parece ser mais importante agora que foi fechado um acordo entre a Turquia e a União Europeia visando conter o fluxo de refugiados para o continente.

A Europa enfrenta uma crise depois que quase 700 mil pessoas, em 2015, fizeram a travessia marítima perigosa da Turquia para a Grécia, por isso buscou a ajuda turca.

A UE, de acordo com o pacto assinado recentemente, oferece mais de US$ 3 bilhões em ajuda ao governo turco para serem gastos na melhoria da vida dos sírios, como a construção de escolas e centros de saúde, com a esperança de que muitos escolham ficar e construir suas vidas aqui.

Quatro das cinco pessoas que trabalharam para Alkadri quando o café foi aberto estão agora na Europa; ele, no entanto, decidiu ficar.

— Fiquei porque quero voltar para a Síria. Talvez amanhã, talvez daqui 10 anos. Depois dessa guerra terrível, precisaremos de gente para reconstruir o país.

Para muitos sírios, a decisão de permanecer na Turquia vai depender do fato de ela cumprir sua promessa de permissão de trabalho legal, o que poderia aumentar seus salários e, como muitos esperam, garantir um caminho para a cidadania.

Basil Qali, 19 anos, deixou um subúrbio controlado pelo governo sírio em outubro e, em uma manhã recente, estava varrendo o chão de um café em Istambul. Trabalha 13 horas por dia e ganha o equivalente a cerca de US$280 por mês.

— Aqui você trabalha 13 horas por dia para ganhar só o que gasta com comida — diz ele.

Disse que ficaria na Turquia se pudesse ganhar mais dinheiro e ter uma chance de cidadania, mas, por enquanto, só pensa na Europa.

— Não adianta falar sobre o que está acontecendo na Síria porque sabemos que vai durar mais cinco ou 10 anos. O negócio então é falar sobre chegar à Europa, ganhar dinheiro e poupar.

Outro jovem sírio em Istambul, Mohammed Sayid, 20 anos, trabalha como entregador de um restaurante local. Ele disse que o pai apoiou a rebelião na Síria e acabou sendo executado pelo governo. Sayid aprendeu turco e espera ficar aqui, desde que o governo faça mais para melhorar sua vida, permitindo-lhe trabalhar legalmente. Ele se queixa de discriminação – as garotas nos bares o ignoram quando descobrem que é sírio – mas está hesitante em se juntar aos amigos na Europa.

— Já vivo aqui como estrangeiro há muito tempo. Não estou preparado para ser forasteiro de novo em outro país — afirma.

Apesar de um êxodo recente, ainda há quase 2,2 milhões de refugiados sírios na Turquia, o maior número entre os países da região que os acolheram. Apenas em Istambul, há cerca de 350 mil, escrevendo seu próprio capítulo na história de uma cidade que há tempos é lugar de exílio.

Há muitos anos eles fazem parte da vida frenética desta metrópole, abrindo cafés, atuando como músicos de rua nas avenidas mais movimentadas e mendigando nas esquinas, exibindo seu passaporte sírio como apelo à caridade dos transeuntes. Talvez desde o fim da Primeira Guerra Mundial, quando os muçulmanos fugiam da Grécia e dos Bálcãs e os russos escapavam da revolução bolchevique, as ruas de Istambul nunca tiveram tantos imigrantes.

Os sírios aqui dizem que começam a se sentir otimistas devido à vitória do Partido da Justiça e Desenvolvimento, do presidente Recep Tayyip Erdogan, nas eleições parlamentares em novembro. Em geral, gostam de Erdogan por manter a política antiga de abrir as portas da Turquia aos refugiados; antes da eleição, temiam que os partidos de oposição, hostis aos estrangeiros, tivessem sucesso nas urnas.

— Ele abriu as portas para os sírios — disse Alkadri sobre Erdogan.

No Pages, Mohammed Kayali, 32 anos, trabalha na promoção do café na mídia social. Já fez a viagem para a Europa, para a Suécia em 2012, mas voltou.

Quando perguntado sobre o motivo, disse apenas "Culpa de sobrevivente. E o clima", acrescentou.

Quando os amigos que pensam em fazer a viagem pedem sua opinião, Kayali lhes diz: "De uma maneira ou outra, você vai se arrepender".

Contou que, na Europa, por causa de programas sociais generosos, "a subsistência é garantida, mas não uma vida boa". Com isso, ele se refere à perda de identidade.

— Você tem que mudar muito — ele disse.

Na noite das eleições em novembro, quando ficou claro que o partido de Erdogan se aproximava da vitória, Kayali pegou o telefone e ligou para sua noiva, que também está na Turquia.

E disse a ela: "Nós vamos ficar".

oglobo.globo.com | 06-01-2016

A presidente Dilma e o PT, por convicções populistas, não tocam no assunto. Mesmo que textos acadêmicos circulem esmiuçando o sério problema, e um partido formalmente aliado, o PMDB, tenha lançado um documento, sob o título de “Uma ponte para o futuro”, com propostas objetivas para desatar o nó.

O ponto central, que já deveria ser tema de um amplo debate no Congresso, Executivo e fora deles, é que a crise fiscal implodiu os alicerces da Constituição de 1988. A ideia de um Estado que seria capaz de eliminar a miséria, reduzir a pobreza e ainda fornecer serviços básicos como saúde e educação com eficiência, faliu. Aceite-se ou não.

Por uma estrondosa ironia, foi pelas mãos do PT, partido defensor desse Estado tutor da sociedade, insaciável coletor de impostos para redistribuir as rendas fazendo o “bem”, que este modelo entrou em colapso. Do ponto de vista moral, o mensalão e o petrolão, este ainda sendo esmiuçado pela Lava-Jato, fizeram o trabalho de reciclar a imagem do PT. E o partido, por meio de Dilma e outros economistas petistas, tratou de desequilibrar de forma estrutural o Orçamento, na talvez maior crise fiscal da História republicana.

Bastou que aplicassem a fórmula letal do “novo marco macroeconômico”: apertar fundo no acelerador dos gastos públicos, não se preocupar com a inflação, baixar juros na base da “vontade política”, permitir aumentos reais frequentes para o salário mínimo, ampliar os chamados gastos sociais, sem limites. Some-se tudo e disso resulta um paiol de dinamite. Se forem adicionados o congelamento de tarifas e preços públicos (luz,combustíveis, para conter artificialmente a inflação no ano eleitoral de 2014); a transferência de dinheiro do Tesouro, proveniente de dívida, para BNDES e outros bancos públicos a fim de subsidiar e impulsionar o crédito; e, se os efeitos fiscais forem maquiados por técnicas da “contabilidade criativa”, temos as condições perfeitas para a enorme crise em que se encontra o país. Na política, o drama se aprofunda porque está na Presidência quem deu respaldo a toda esta operação de prestidigitação econômica e se beneficiou de uma enorme marquetagem eleitoral estelionatária. A crônica das manobras, engendradas na Secretaria do Tesouro, foi publicada pelo jornal “Valor”, sexta-feira, com provas documentais. Técnicos do Tesouro alertaram o governo, em 2013, para o risco que o Brasil corria. Dilma, o ministro Guido Mantega e o secretário do Arno Augustin seguiram em frente. Quebraram o país.

Dentro do espírito “social” da Constituição de 88, gastos foram vinculados a despesas, a fim de que jamais faltassem recursos para Saúde e Educação. Também indexou-se grande parte dos benefícios previdenciários, e vários gastos ditos “sociais”, ao salário mínimo ou à inflação. Eles representam expressiva parcela do Orçamento. Instalou-se, assim, uma bomba-relógio dentro das finanças públicas. À espera de uma conjuntura ingrata: recessão com inflação. E ela veio, no rastro do “novo marco macroeconômico”.

Os números mostram a gravidade do que ocorre: devido à recessão, o recolhimento de impostos federais ligados à produção (IPI, Imposto de Importação) caiu, no terceiro trimestre, 8,3%. E as perspectivas são ruins porque a queda na coleta de impostos tem sido superior à velocidade de retração do PIB. Para uma recessão de 3,5%, por exemplo, projeta-se menos 5% de receita.

Não seria um problema de enormes dimensões se cortes equivalentes pudessem ser feitos nos gastos. Mas não podem, pois eles estão indexados, por determinação legal, ao SM ou à inflação.

Há, então, um problema insolúvel, se reformas estruturais não forem feitas: não bastasse a retração nas receitas, boa parcela dos gastos aumentará 10% em 1º de janeiro, quando entrar em vigor o novo salário mínimo.

O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, luta pela meta modesta de um superávit primário no ano que vem de 0,7%. Porém, só pelo “efeito salário mínimo”, os gastos devem subir instantaneamente 0,2% do PIB. Mesmo que a CPMF viesse a ser ressuscitada, a cada ano teria de ser lançado outro imposto idêntico, e já com a carga tributária nas alturas. É indiscutível que sem desarmar a indexação do Orçamento, rever vinculações e reformar a Previdência, cujo déficit aumenta a cada ano, a conta não fechará. Mas o Planalto não quer falar nisso, e o Congresso está mergulhado no impeachment. Isso não significa, porém, que este problema gigantesco deixe de existir. Ele ficará bastante visível. Foi assim na Grécia.

oglobo.globo.com | 13-12-2015

Por inevitável, a crise fiscal se abate sobre os estados, e também agrava a vida das pessoas, ao atingir a rede pública de Saúde, já abalada por problemas nos repasses federais, a malha de ensino e por aí segue.

Aos poucos, mas de maneira inexorável, a debacle fiscal patrocinada pelo lulopetismo e Dilma chega à vida da população, e o Brasil ganha aspectos de uma Grécia latino-americana, quando aquele país, em divergências com a União Europeia em torno de um pacote de resgate de sua economia, passou a atrasar benefícios previdenciários, salários do funcionalismo etc.

As origens da crise brasileira são diferentes, mas o efeito no Tesouro é o mesmo. Com a recessão que se anuncia recorde, uma inflação de dois dígitos e desemprego, há queda de lucros nas empresas e de renda na sociedade. Em consequência, desaba a coleta de tributos. Mas por uma peculiaridade brasileira, os gastos não encolhem. Ao contrário, boa parte deles aumenta, por estar indexada ao salário mínimo ou inflação. É receita certeira para a falência, já à vista.

Os estados padecem do mesmo veneno mortal. E a reação de praticamente todos eles repete o governo federal: este quer recriar a CPMF e aqueles tratam de elevar alíquotas do ICMS e IPVA (veículos). São Paulo inflou o ICMS sobre cerveja e fumo. No Rio Grande do Sul, estado com fragilidades fiscais históricas, houve um tarifaço. Em outubro, o Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz), onde se reúnem todos os estados, autorizou 15 deles e mais o Distrito Federal a elevar de 10% para 15% o ICMS sobre o serviço de TV por assinatura. Os exemplos são vários.Costuma ser politicamente mais fácil aumentar a já pesada carga tributária do que fazer cortes e melhorar a gestão.

Não é fácil a vida do administrador público, diante de um arcabouço jurídico que garante estabilidade ao funcionalismo, engessa o Orçamento e o indexa, principalmente pelo salário mínimo. Mas ou os governos enfrentam esta questão ou vai-se para a quebra efetiva do Estado, em meio a um surto destruidor de hiperinflação. O governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão (PMDB), tem se dedicado a um corpo a corpo com grandes devedores do Erário estadual. Mas não deixa de considerar elevação de impostos.

Cometerá um equívoco, se for por este caminho, pois mais impostos numa recessão é tiro no pé. Deprime ainda mais as vendas. Ou seja, diminui a base a ser taxada.

Ao mesmo tempo, o governador fluminense fala numa reforma administrativa, com a extinção de secretarias e redução no número de cargos. É um plano mais inteligente e com possibilidade real de ter sucesso. Mas nenhum governador pode desconsiderar que a solução efetiva da crise fiscal brasileira passa por reformas estruturais.

oglobo.globo.com | 08-12-2015

BRASÍLIA - O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, informou ontem ao GLOBO que o decreto de programação financeira que será divulgado hoje com um contingenciamento de R$ 10,7 bilhões no Orçamento ressalva que, se algum órgão público necessitar de recursos emergenciais, a movimentação financeira necessária será excluída do bloqueio. Em entrevista concedida por e-mail, o ministro defendeu o corte de gastos para que se entenda “a situação de emergência fiscal pela qual o Brasil passa”.

O governo decidiu seguir a recomendação do Tribunal de Contas da União (TCU) de trabalhar com a meta fiscal que já foi aprovada pelo Congresso. Mas ela vai obrigar a equipe econômica a contingenciar R$ 10,7 bilhões do Orçamento de 2015, bloqueando todos os gastos discricionários. Isso não vai trazer prejuízos para os serviços públicos?

A situação é especial e será um teste da adaptabilidade da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) a situações completamente atípicas. A dificuldade de alcançar a meta este ano não é porque se gastou muito, mas porque a receita caiu muito além de qualquer previsão nossa ou do mercado. Uma queda por razões econômicas e não econômicas. Estamos economizando R$ 78 bilhões em relação ao autorizado pelo Congresso e gastando menos, em valor nominal, do que em 2014 ou 2013.

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Mas como ficam os serviços para a população? Como o governo vai gerir o Orçamento se o Congresso não aprovar a meta fiscal reduzida e os gastos ficarem bloqueados até o fim de dezembro?

Estamos implementando as recomendações do TCU, em circunstâncias especiais, mas independente da expectativa de votação da alteração da LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) de 2015. Por isso, o decreto da presidente prevê o congelamento dos limites orçamentários e financeiros, mas ressalva que se algum órgão necessitar de recursos emergenciais, para atender uma despesa essencial, a movimentação financeira necessária poderá ser excepcionalmente excluída desses limites.

Haverá algum critério para essa liberação excepcional? Saúde e Educação estarão na frente das demais áreas?

Esses pagamentos estão cobertos pelos mínimos constitucionais para a Educação ou para a Saúde, que estão resguardados do contingenciamento. O mesmo vale para aposentadorias e para o pagamento dos salários dos servidores. Mas, se uma operadora cortar o telefone de uma unidade crucial para a população porque não houve pagamento nas próximas semanas, pode-se responder rapidamente. Devem-se proteger os serviços essenciais, mas também é importante entender a situação de emergência fiscal que o país passa. Por isso é tão importante revisar gastos, inclusive antes do reforço de impostos que vamos precisar ano que vem.

Como está a relação do governo com o TCU? O tribunal entendeu as razões pelas quais o governo reduziu a meta de 2015 três vezes?

Tem havido permanente diálogo com o TCU, que entende o esforço que tem sido feito ao longo do ano, e a transparência com que temos tratado a questão fiscal. Transparência inclusive em relação à receita, depois que ficou evidente que as empresas estavam pagando menos impostos por causa do clima de incerteza que temos vivido nos últimos meses.

O governo vai pagar todo o estoque das pedaladas fiscais (atrasos nos repasses de recursos do Tesouro para bancos públicos) já condenadas pelo TCU ainda em 2015? O Ministério Público junto ao TCU defende que o passivo seja pago de uma vez.

Para pagar os atrasados com os bancos públicos será necessário ter orçamento adicional, o que só poderá acontecer depois da votação do pedido de mudança de meta que fizemos ao Congresso e que está para ser votado esta semana. O tema é complexo, porque não pode ser apenas jogar os gastos passados na dívida pública, sem nenhum esforço fiscal. Temos usado de total abertura ao apresentar essas questões ao TCU e acho que a construção da confiança e respeito tem sido recíproca.

O senhor tem defendido a importância de o governo manter o compromisso com a meta fiscal de 0,7% do PIB em 2016. No entanto, alguns acham esse número irreal. O governo tem poucas chances de aprovar a CPMF e a economia continuará em retração no ano que vem. De onde virá esse esforço fiscal?

Ter um superávit mínimo ano que vem é essencial. Senão, a gente fica que nem a Grécia, um país com problemas estruturais e que não consegue poupar nada para pagar sua dívida. Nesse cenário, ninguém iria investir e o emprego despencaria. É claro que o Brasil, com 200 milhões de habitantes, toda a riqueza, a indústria e agricultura que tem, não é para ser a Grécia dos últimos anos. Portanto, a gente tem que se organizar, ter a disposição de tomar as medidas necessárias, fazer escolhas sólidas.

De onde virão as receitas para garantir essa meta de 0,7% do PIB?

Claro que nessas horas surgem ideias mobilizantes, como privatizar o jogo, esperando arrecadar bilhões imediatamente. Mas, quem sabe o que é Atlantic City ou conhece Macau entende os cuidados e o tempo que precisaria para essa privatização ter algum impacto fiscal ou no desenvolvimento. Especialmente porque autorizações precárias afugentariam qualquer investimento duradouro. Não se improvisam essas coisas. O fundamental é que é possível 2016 ser um ano de crescimento. Para isso, precisamos vencer agora os impasses políticos e certa abulia de alguns segmentos empresariais em ratificar um plano mínimo de reforma estrutural, com menos gastos e os impostos indispensáveis.

O projeto da repatriação (que permite a legalização de recursos que foram enviados ao exterior sem aviso à Receita Federal) ainda não teve sua votação concluída no Congresso. Ele pode acabar servindo para ajudar no primário de 2016?

Essa regularização é importante, apesar de ter surgido um problema que pode ser ruim para o país, já que infelizmente a promessa dela ser aprovada na Câmara como desenhada pelo Executivo não foi cumprida. Do jeito que o Executivo desenhou, ela protege uma riqueza brasileira no exterior que sem essa lei poderia ser confiscada por outros países. Com a lei, haverá mais dinheiro para investir aqui. Precisamos que, como combinado, os recursos gerados pela lei sejam direcionados para o fundo de infraestrutura e o de auxílio aos estados, que vai financiar a convergência das alíquotas do ICMS. Essa reforma muda o ambiente de negócios no Brasil, diminuindo a insegurança jurídica para os investimentos existentes. Pela proposta do Executivo, a lei criaria uma poupança de uns R$ 20 bilhões, que viabilizaria o Orçamento 2016. Tenho confiança que o Legislativo vai encontrar uma solução, porque fora do modelo combinado, vamos ter mais imposto e uma Selic bem mais alta nos próximos meses. E ninguém quer isso.

O senhor também defende uma reforma na estrutura dos gastos de modo que haja maior eficiência na gestão pública. Na Previdência, por exemplo, quais as primeiras regras que deveriam mudar?

A Previdência é essencial ao contrato social. Por isso, a presidente tem dito que temos que torná-la sustentável. A gente tem que chegar a um conjunto de regras que seja compatível com o envelhecimento da população e estimular as pessoas e empresas a contribuir. Não pode que aqueles que contribuem se aposentem antes dos 55, ou que os que se aposentam por idade cheguem à conclusão de que não precisam contribuir. Não podemos ter uma situação em que menos de 10% da população está no campo, mas um terço das aposentadorias novas são aposentadorias rurais porque ali as exigências de contribuição são mínimas. A Constituição Federal dá a indicação correta, idade mínima e contribuição. Temos que ratificar essa exigência dupla, que hoje é interpretada de maneira ambígua, em muitos casos eliminando a idade mínima e criando um déficit insuportável.

O governo tem tomado medidas para tentar recuperar a atividade econômica, como voltar a autorizar operações de crédito para estados e municípios, mudar as regras de aplicação para fundos de previdência e seguradoras, além de reabrir o prazo para a apresentação de pedidos de financiamento do PSI. O que mais será adotado?

Estamos reorganizando a política de financiamento desses entes. Foi um equívoco deixar os estados e municípios aumentarem sua dívida em R$ 30 bilhões todo ano. Serviu para acomodar maiores despesas de salário e gasto corrente, que hoje se mostram insustentáveis e estão criando enormes problemas para os governadores. O PSI tampouco está sendo digerido bem, sequer pelos seus beneficiários. Muitos desses estão tendo dificuldade para pagar as prestações, apesar de elas serem altamente subsidiadas. Enfim, tem toda uma arrumação da casa em curso, que no curto prazo é complicada. Mas, onde podemos, temos dado folga. Ampliamos o crédito imobiliário em mais de R$ 20 bilhões no meado do ano, e os bancos já usaram pouco mais da metade desse valor até agora. O principal é criar novos mecanismos para financiar o crescimento, como fizemos recentemente ao reformar os ativos em que os fundos de previdência aberta e fechada podem investir, ampliando as opções de mercado.

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Qual é o papel dos bancos públicos, especialmente Banco do Brasil e Caixa, nesse processo de retomada da atividade?

Em grande medida, o mesmo do outros bancos. É uma transição difícil, enquanto não houver clareza fiscal. Vários setores estão sentindo alguma dificuldade, inclusive aqueles que confiaram na expansão fiscal, como o setor imobiliário. Então há um momento de ajuste. Mas estamos privilegiando o setor imobiliário, tentando cumprir as promessas dos anos anteriores. Primeiro, porque uma casa é uma coisa transformadora na vida das pessoas. Segundo, porque é um setor que emprega bastante e que quando as coisas voltarem ao normal vai ser importante para o crescimento de longo prazo. O Brasil investe pouco no imobiliário, em parte porque o desequilíbrio fiscal e a incerteza pressionam os juros e encurtam os prazos dos empréstimos. O setor poderia crescer mais rápido que o PIB durante vários anos se a situação fiscal fosse mais previsível.

Que outros setores poderiam ajudar no crescimento?

No curto prazo, há pelo menos quatro setores que podemos trabalhar bem: turismo, indústria de transformação, agricultura e infraestrutura. Turismo pelo câmbio e Olimpíadas, em um mundo em que outros países ficaram mais perigosos. É a hora do Nordeste atrair turistas do hemisfério norte e até da China, como sugerido por alguns movimentos empresariais recentes. Na indústria, há como recuperar o mercado doméstico, além de expandir exportações. Agora podemos ser competitivos. Agricultura não precisa falar, porque o desempenho fala por si. E infraestrutura gera demanda no curto prazo, enquanto se constrói, e amplia a oferta agregada quando fica pronta. Com a tradição de participação do setor privado nessa área, o que precisamos é simplificar processos e dar transparência. Veja a concorrência que houve agora no leilão das hidroelétricas existentes e para construção de usinas eólicas há uns meses. Com segurança jurídica, taxas de retorno adequadas e um quadro fiscal que diminua os juros, a economia volta rápido.

Como o senhor vê o impacto da prisão do líder do governo no Senado, Delcídio Amaral (PT-MS), na aprovação das medidas do ajuste fiscal que estão no Congresso?

Acho que são desdobramentos de uma mudança estrutural, que vai além do indivíduo A ou B. No dia em que assumi o cargo de ministro, chamei a atenção para o papel do combate ao patrimonialismo, da promoção da transparência e da impessoalidade nas relações do governo. Essas são alavancas para sermos um país mais justo, com uma economia mais aberta e dinâmica. Esse é o caminho, com todos os desafios de padrões do passado, alguns avoengos. Os fatos recentes levam a repensar as relações do Estado com os agentes econômicos, e os incentivos nem sempre positivos que muitas vezes se criam quando o Estado cresce demais e vira protagonista fora das áreas essenciais de sua atuação. É muito melhor para o crescimento econômico e para a melhora de condições de vida do trabalhador e das famílias o país ter instituições fortes, do que um Estado em toda parte.

oglobo.globo.com | 30-11-2015

BRASÍLIA E RIO - Embora fique atrás apenas do México e da Nova Zelândia na proporção dos gastos públicos destinados à educação, o Brasil, que aplicou 17,2% de todo o orçamento no setor em 2012, está nas últimas posições quando o assunto é o valor investido anualmente por aluno. Foram US$ 3.441 por estudante da rede pública brasileira, do ensino básico ao superior, montante que corresponde a 37% da média dos 34 países que compõem a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que é de US$ 9.317.

INFOGRÁFICO: UM RETRATO DA EDUCAÇÃO

No topo da lista está Luxemburgo (US$ 21.998) e Suíça (US$ 15.859). Atrás do Brasil, apenas México (US$ 3.233), Turquia (US$ 3.072), Colômbia (US$ 2.898) e Indonésia (US$ 1.809). Os dois últimos, assim como o Brasil, não são membros da OCDE, mas, sim, parceiros. Os dados, que fazem parte do relatório “Education at a glance 2015”, elaborado pela entidade para avaliar diversos aspectos da educação no mundo, apresenta os valores de investimento em dólar americano convertido pela metodologia de paridade do poder de compra, que equaliza as moedas via poder aquisitivo, e não pela taxa de câmbio.

Ao comentar a publicação, o presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Chico Soares, afirmou que os números revelam o “esforço” do país em aumentar o investimento em educação, mas que, na comparação com nações mais ricas, é compreensível que os montantes aplicados pelo Brasil sejam menores:

— É impossível pegarmos um dado e levá-lo para o primeiro mundo. Não posso querer gastar na educação o mesmo que a Áustria gasta. E a saúde, o saneamento, o transporte, a segurança? Estamos gastando um terço (da média dos países da OCDE) porque isso corresponde à nossa situação. Em termos de esforço, estamos avançando.

Segundo a publicação, o gasto público em educação feito no Brasil, em 2012, foi de 5,6% do PIB, patamar “consideravelmente maior que a média da OCDE de 4,7% e a quinta mais alta entre todos os países e parceiros com dados disponíveis”. No entanto, a entidade ressalta uma desigualdade na aplicação do dinheiro. O ensino superior brasileiro recebe 3,4 vezes mais recursos que os anos iniciais do ensino fundamental. Na média da OCDE, esse investimento é 1,8 vez maior.

INVESTIMENTO INSUFICIENTE

A coordenadora-geral do Todos Pela Educação, Alejandra Meraz Velasco, lembra que, apesar de ter um percentual maior de gasto público com educação em relação aos outros países, o Brasil tem uma economia menor ou mais alunos, se comparado com várias dessas nações. Por isso, não há uma relação direta entre esse indicador e a qualidade do ensino. Ela também deixa um alerta:

— Na edição anterior, esse percentual do gasto público era de 19%. Ou seja, o país já investiu mais.

De acordo com o coordenador-geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara, esse índice de investimento do PIB ainda não é suficiente. Ele afirma que o relatório da OCDE revela a necessidade de ampliar o gasto para 10% do PIB.

— O Brasil ainda tem uma demanda educacional enorme, precisamos incluir muita gente. O que significa que, se incluir mais alunos sem aumentar o investimento em relação ao PIB, o custo por estudante vai diminuir. Por isso, a luta pelos 10% do PIB para educação é importante, para que tenhamos um investimento que garanta padrão mínimo de qualidade. Qualificar esse custo por aluno é fundamental, daí a importância de implementar o CAQi (Custo Aluno-Qualidade inicial) — explicou. — Mesmo se resolvêssemos os problemas de gestão, o investimento por aluno que temos hoje não garante a educação. E, com a corrupção, isso é pior ainda.

O CAQi é um indicador que mostra qual valor deve ser investido anualmente por aluno na educação básica, considerando insumos materiais e humanos mínimos para garantir um padrão de qualidade no ensino.

Apesar de fatias do orçamento total cada vez maiores para a educação, o Brasil aparece como sexto, entre as nações avaliadas, com a mais elevada proporção de jovens de 25 a 34 anos que não concluíram o ensino médio. São 39% nessa situação. Apesar de ainda elevado, assinala a OCDE, o índice tem caído ao longo do tempo, quando se verifica que, na população brasileira de 55 a 64 anos, 72% não terminaram o antigo segundo grau.

Em alguns estados, a situação é ainda pior. Alagoas, por exemplo, registra 61% de pessoas de 25 a 34 anos sem ensino médio, mesmo índice verificado na Indonésia para a mesma faixa etária. Já no Distrito Federal, 75% da população nessa idade têm o certificado de ensino médio, panorama semelhante ao da Itália e da Islândia, segundo o estudo. Pela primeira vez, a publicação trouxe indicadores locais de alguns países para determinadas variáveis.

No ranking do ensino médio atrelado a programas de educação profissional, o Brasil vai mal, contrariando o discurso do governo de valorização da formação técnica. É o terceiro país com menos alunos nessa modalidade, perdendo apenas para Irlanda e Arábia Saudita. Cerca de 9% dos jovens de 15 a 19 anos matriculados no ensino médio frequentam o ensino profissionalizante no país, enquanto a média da OCDE é de 40%. Chico Soares, do Inep, reconhece que é preciso mudar:

— Antes, o ensino médio servia para ir para a universidade. Agora, que o ensino médio de fato é para todos, a questão da formação técnica se coloca de forma clara, na própria Base Nacional Comum (currículo nacional da educação básica em discussão) e no PNE (Plano Nacional de Educação).

OS ‘NEM-NEM’

Os jovens de 15 a 29 anos que não estudam nem trabalham, conhecidos como “nem-nem”, somam pouco mais de 20% no Brasil, acima da média da OCDE, de 16%. Mas Amapá e Alagoas, com índices em torno de 30%, ficam próximos de países como a Grécia, que tem 28% dos jovens fora da escola e do mercado de trabalho. Santa Catarina (12%) e Rio Grande do Sul (14%) são parecidos com Austrália (13%) e Reino Unido (14%) nesse quesito, mostra o relatório.

Para Ernesto Faria, coordenador-especialista da Fundação Lemann, o alto índice de jovens dentro desse recorte revela uma deficiência recorrente nas escolas brasileiras.

— O ensino médio brasileiro ainda não consegue preparar o jovem para a vida e para o mercado de trabalho. Ele sai da escola e não tem um norte a seguir, não tem bagagem. Se o bom aluno já tem essa dificuldade, aquele que não estava tão interessado enfrenta ainda mais obstáculos — diz. — Mudar isso passa por uma melhora não só no ensino de disciplinas básicas, como História e Português, mas em um foco maior em ensinar os estudantes a serem mais criativos e se comunicarem melhor.

No capítulo dedicado aos professores, a publicação mostrou que os docentes da rede pública, na média da OCDE, recebem 77% do valor médio pago a profissionais com escolaridade equivalente. No Brasil, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) mais recente, essa proporção é de 72%. Só na Dinamarca e Luxemburgo, de acordo com o estudo, eles têm salários similares à média das outras categorias.

As dificuldades dos docentes brasileiros também foram medidas no relatório. Seis em cada dez disseram sentir “alta necessidade” de se qualificar para lidar com alunos especiais. A proporção é praticamente a mesma verificada em 2008, de 63,2%. É também elevada a quantidade de professores (27,5%) que se ressentem de treinamento para usar recursos de tecnologia em sala de aula. Pouco mais de 6% reclamam de qualificação na própria área de ensino.

O relatório engloba dados dos 34 membros da OCDE e de mais 12 parceiros da entidade. Mas nem todos têm dados disponíveis para todas as variáveis levantadas pela OCDE. Nesses casos, só são incluídas as informações comparáveis. No Brasil, o parceiro da OCDE para a publicação é o Inep.

oglobo.globo.com | 24-11-2015

LISBOA - Foi o governo mais curto da História de Portugal. Apenas 11 dias após o primeiro-ministro conservador Pedro Passos Coelho tomar posse para o seu segundo mandato, uma aliança inédita da esquerda derrubou o governo minoritário de centro-direita, abrindo caminho para o fim da política de austeridade. Por 123 votos a favor e 107 contra, o Parlamento aprovou na terça-feira uma moção rejeitando o programa do premier, o que causou sua demissão imediata — a primeira derrubada de um governo por moção desde a redemocratização em 1974. A queda do governo de Passos Coelho colocou Portugal de volta num cenário de incertezas, levantando temores sobre a possibilidade de o país seguir o caminho da Grécia. A formação de um governo de esquerda, no entanto, precisa ainda do sinal verde do presidente conservador Aníbal Cavaco Silva, que já se mostrou contrário a uma alternativa liderada pelos socialistas.

Num desdobramento inesperado e colocando de lado profundas divergências ideológicas, o Partido Socialista (PS) se uniu ao Partido Comunista (PCP) e ao Bloco de Esquerda (BE) para obter maioria parlamentar e apresentar uma alternativa à centro-direita. Após a aprovação da moção, o líder do PS, António Costa, destacou que o Parlamento expressou a vontade da maioria.

— O tabu terminou, o muro foi quebrado — afirmou Costa, que arquitetou a ação para derrubar a centro-direita e pode se tornar o novo premier. — Esse é um novo quadro político, a velha maioria não pode fingir ser o que deixou de ser.

O texto apresentado pelos socialistas ao Parlamento faz duras críticas às tesouradas nos gastos públicos.

“O corte nos rendimentos de trabalhadores e pensionistas, a degradação dos serviços públicos, o desinvestimento na educação e na saúde públicas, os cortes na ciência, a desvalorização salarial, a promoção do trabalho precário e o ataque à segurança social tiveram como principal objetivo não a sustentabilidade das contas públicas, mas sim a alteração da relação de forças em Portugal contra os interesses dos trabalhadores, das famílias, das classes médias e dos mais pobres”, criticou o PS no documento.

Centenas de simpatizantes do governo de centro-direita se reuniram em frente ao Parlamento, cantaram o Hino Nacional e frases de apoio a Passos Coelho, enquanto outro grupo manifestava apoio à coalizão de esquerda, comemorando as chances de corte de impostos e proteção dos benefícios sociais.

A perspectiva de um governo apoiado pelos comunistas e pelo Bloco de Esquerda preocupou investidores, provocando temores de que uma recuperação econômica frágil possa descarrilar, num país que acabou de sair de um programa de resgate internacional no ano passado. O governo de Passos Coelho alertou que recuar com a austeridade poderia colocar Portugal numa rota similar à da Grécia.

— Não precisamos imaginar as consequências. Basta olhar para a experiência recente da Grécia e o custo das suas tentativas de terminar com a austeridade. Mais recessão, mais pobreza, mais desemprego e maior dependência de empréstimos europeus e do FMI — advertiu ao Parlamento a ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, acrescentando que a confiança dos investidores já estava diminuindo.

Diante da pressão e do receio do mercado — a Bolsa de Lisboa caiu 4% anteontem e 0,3% ontem — os socialistas insistem que irão respeitar as regras orçamentárias da União Europeia (UE) e que voltar a conceder maiores rendimentos às famílias deverá impulsionar a economia.

‘PRESIDENTE DEVE CEDER À ESQUERDA’

Após a queda do governo, o presidente Cavaco Silva iniciará um período de consultas com líderes políticos e outras personalidades do país para decidir quem será indicado ao governo. Analistas traçam três cenários possíveis: ou o presidente acaba cedendo e convida o líder do PS para formar um governo de esquerda ou mantém a coalizão de centro-direita no poder — limitada a um governo de gestão — até que novas eleições sejam convocadas.

— Cavaco Silva não tem prazo para tomar sua decisão, mas acredito que ele deve se pronunciar nos próximos 15 dias. A maioria dos analistas prevê que o presidente vai aceitar o governo de esquerda se o Partido Socialista apresentar estabilidade governista e um acordo sólido. Os partidos de centro-direita, por sua vez, poderiam fazer campanha para pedir eleições antecipadas — afirmou o analista António Costa Pinto, da Universidade de Lisboa, em entrevista ao GLOBO.

Caminhando para o fim de seu mandato, porém, Cavaco Silva não tem mais o poder de convocar novas eleições. A antecipação do pleito ficaria, então, a cargo de seu sucessor, com novas votações sendo previstas somente a partir de junho do próximo ano.

O principal desafio do governo socialista, na avaliação de Costa Pinto, será conseguir cumprir o programa de recuperação salarial e, ao mesmo tempo, manter os compromissos orçamentários com a UE.

— O acordo com os partidos à esquerda é muito moderado, não tem críticas ao euro, mas é difícil cumprir. Prometem o fim da austeridade, mas também o cumprimento dos pactos com a UE: de manter o crescimento, a estabilidade e o deficit abaixo dos 3%. Uma das propostas é aumento do salário-mínimo em quatro anos e o fim dos cortes nas pensões para os aposentados — explicou.

O analista político Tiago Fernandes, da Universidade Nova de Lisboa, alertou para uma crise institucional caso o presidente não aprove o governo de esquerda.

— Se Cavaco Silva não aceitar, poderia criar um confronto que seria ruim para a democracia, além de polarizar a sociedade — advertiu.

A coalizão de Passos Coelho venceu com uma vantagem discreta de 38% as eleições de 4 de outubro — consideradas um referendo sobre a política de austeridade. Mantendo a convenção política, ele foi reconduzido ao posto na semana passada pelo presidente. Juntos, os partidos de esquerda obtiveram 50% do apoio do eleitorado.

oglobo.globo.com | 11-11-2015

LISBOA - Os partidos de esquerda de Portugal, que se uniram para garantir maioria parlamentar, aprovaram nesta terça-feira a moção, apresentada ao Parlamento pelo Partido Socialista, que rejeita o programa de direita do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, causando sua demissão, após votação no plenário.

Segundo o jornal português “Diário de Notícias”, a moção foi aprovada com 123 votos a favor e 107 contra, sem abstenções. O Partido Socialista, em uma aliança inédita com a esquerda antiliberal, aspira formar o próximo governo e acabar com as medidas de austeridade fiscal que integram a política adotada pelo governo de direita desde 2011.

— O tabu terminou, o muro foi quebrado — disse o líder socialista, António Costa, secretário-geral do Partido Socialista. — Esse é um novo quadro político, a velha maioria não pode fingir ser o que deixou de ser.

No texto apresentado ao Parlamento nesta terça-feira, o PS afirma que a implementação de cortes na economia não tinham como objetivo ajustar as contas públicas do país, mas foi uma "consciente e deliberada opção ideológica".

"O corte nos rendimentos de trabalhadores e pensionistas, a degradação dos serviços públicos, o desinvestimento na Educação e Saúde públicas, os cortes na ciência, a desvalorização salarial, a promoção do trabalho precário e o ataque à Segurança Social tiveram como principal objetivo, não a sustentabilidade das contas públicas, mas sim a alteração da relação de forças em Portugal, contra os interesses dos trabalhadores, das famílias, das classes medias e dos mais pobres", defende o PS no documento.

EXPERIÊNCIA GREGA

O governo minoritário alertou que recuar com a austeridade pode colocar Portugal numa rota similar à da Grécia, enquanto que a esquerda comemorava a chance de aumentar rendimentos afetados durante a crise financeira, cortar impostos e proteger benefícios sociais.

A ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, alertou o Parlamento que a confiança dos investidores já estava diminuindo, enquanto que a perspectiva de não cortar o déficit orçamentário, de acordo com os compromissos firmados com a União Europeia, poderia levar a uma nova crise da dívida e tornar necessário outro socorro.

"Não precisamos imaginar as consequências. Basta olhar para a experiência recente da Grécia e o custo das suas tentativas de terminar com a austeridade. Mais recessão, mais pobreza, mais falta de empregos e maior dependência de empréstimos europeus e do FMI", disse a ministra.

Centenas de simpatizantes do governo se juntaram em frente ao Parlamento, cantaram o hino nacional e frases de apoio ao primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, enquanto outro grupo aliado a um sindicato apoiava a esquerda. No debate anterior à votação, Costa afirmou o país precisa de um novo governo.

— O programa deste governo não traz respostas à vontade de mudança expressada pelos portugueses. Portugal precisa de um novo governo — declarou Antonio Costa, segundo a AFP.

Nas últimas semanas, o PS, junto ao Partido Comunista de Portugal e o Bloco de Esquerda negociaram um acordo para apresentar uma alternativa ao governo, liderada pelos socialistas.

Passos Coelho ganhou a última eleição em 4 de outubro, mas perdeu a maioria no Parlamento, o que levou à formação de um governo frágil. A oposição se baseia em um artigo da Constituição, ao afirmar que “a rejeição do programa de governo implica na demissão do Executivo”.

oglobo.globo.com | 10-11-2015

ATENAS - O Parlamento da Grécia aprovou neste sábado uma legislação que delineia o processo de recapitalização dos bancos do país, coincidindo com uma avaliação de saúde do Banco Central Europeu (BCE) que mostrou que seus quatro principais credores precisam suprir uma carência de capital de € 14,4 bilhões.

O Parlamento aprovou o projeto de lei por maioria.

O projeto estabelece que o Fundo Helênico de Estabilidade Financeira (HFSF, na sigla em inglês) terá pleno direito de voto em quaisquer ações que adquira de bancos em troca do fornecimento de ajuda estatal.

Nos termos do projeto de lei, o fundo de resgate bancário terá um papel mais ativo, avaliando o gerenciamento dos bancos.

A composição exata de ações e títulos conversíveis que o HFSF irá comprar dos bancos como contrapartida de qualquer financiamento adicional fornecido será decidida pelo gabinete.

A falta de capital veio à tona sobretudo devido ao número crescente de gregos incapazes ou indispostos a pagar suas dívidas depois que a desavença do governo esquerdista e dos credores internacionais sobre as reformas necessárias no país quase levou à expulsão da Grécia do euro.

Nas avaliações sobre a saúde financeira dos quatro principais bancos gregos – o Banco Nacional da Grécia, o Piraeus, o Alpha Bank e o Eurobank –, o BCE determinou que, mesmo que a economia se recupere tal como previsto, os bancos irão necessitar de quase € 4,4 bilhões e de mais de € 14 bilhões se o desempenho for pior do que o esperado em um “cenário adverso”.

Os credores internacionais separaram até € 25 bilhões para a recapitalização dos bancos em consonância com os termos do terceiro pacote de resgate financeiro da Grécia, cujo montante é de € 86 bilhões.

oglobo.globo.com | 31-10-2015

FRANKFURT - Os bancos da Grécia precisam de € 14,4 bilhões em capital novo, afirmou o Banco Central Europeu neste sábado, após exames de saúde para iniciar a reabilitação dos credores do país. O anúncio segue uma série de testes de estresse sobre os bancos depois de uma longa disputa sobre reformas exigidas da Grécia para que recebesse apoio internacional.

Os resultados dos testes, que constataram que os empréstimos com risco de inadimplência tinham aumentado em € 7 bilhões, devem atrair investidores a preencher este buraco. Embora os bancos estejam sendo mantidos à tona com acesso a recursos através do sistema monetário da zona do euro, há uma corrida para a recapitalização ser concluída. Se isso não for feito até o final do ano, as novas regras da União Europeia implicam a possibilidade de grandes depositantes, como empresas, poderem sofrer impacto em suas contas.

Os testes analisaram quantos empréstimos podem sofrer calote se a economia do país tiver o desempenho esperado até 2017 - a chamada "linha de base". Também foi simulado um cenário de estresse, no qual a economia recua ainda mais.

Nos testes da solidez financeira dos quatro principais bancos do país - Banco Nacional da Grécia, Piraeus, Alpha Bank e Eurobank - o BCE determinou que, mesmo se a economia performar como previsto, os bancos precisarão de quase € 4,4 bilhões (US$ 4,8 bilhões). De um resgate de € 86 bilhões da Grécia, € 25 bilhões destinam-se a bancos.

O fato de o buraco de capital ser menor que esse montante pode incentivar investidores como fundos de hedge, bem como limitar a quantidade de recursos que o Estado tem que gastar no resgate.

oglobo.globo.com | 31-10-2015

RIO — A presidente vai reduzir seu salário, do vice-presidente e dos 31 ministros a partir de novembro. Dilma Rousseff ganha R$ 26,7 mil mensais e deve perder 10%, pouco mais de três salários mínimos.

O corte salarial no topo do poder, porém, é meramente simbólico num governo onde os gastos são crescentes.

O caso da Presidência da República é exemplar. Na última década, se tornou um agrupamento burocrático de dezenas de organismos, fundos e secretarias extraordinárias. Gastou R$ 9,3 bilhões no ano passado —210% mais que em 2005, já descontada a inflação do período.

É um volume de dinheiro quase três vezes maior, por exemplo, que o gasto anual do Estado do Rio na manutenção da rede pública de saúde, com 60 hospitais (1.050 leitos de UTI).

Ano passado, as despesas do núcleo administrativo diretamente vinculado a Dilma somaram R$ 747,6 milhões, recorde no primeiro mandato.

Pouco mais da metade disso (R$ 390,3 milhões) foi usado para pagar assessoria e serviços prestados à presidente nos palácios onde trabalha e reside e durante as viagens, segundo dados da Secretaria de Administração da Presidência disponíveis no Portal da Transparência, do governo federal.

Dilma já custa para os brasileiros praticamente o dobro do que a rainha Elizabeth II e a família real para os súditos britânicos. A monarquia consumiu, em 2014, o equivalente a R$ 196,3 milhões, segundo relatório anual da Casa Real, tendo-se como referência a cotação da moeda (libra) no fim de agosto.

Numa comparação republicana, o custeio do gabinete de Dilma equivale a 60% do escritório de Barack Obama. O presidente dos Estados Unidos gastou R$ 648 milhões com serviços na Casa Branca e na residência oficial, segundo relatório sobre a execução orçamentária no último ano.

Em Washington, como em Brasília, parte das despesas presidenciais acaba dissimulada no orçamento. A diferença fica por conta da credibilidade sobre as contas dos dois governos e a eficácia do controle público.

Nos EUA, Congresso e organizações sociais mantêm ativa fiscalização. No Brasil, sobra desconfiança, e o controle é rarefeito. “Aqui, além da pouca transparência, o excesso de truques e maquiagens fez crescer em progressão geométrica o descrédito nas contas governamentais”, diz Gil Castelo Branco, da ONG Contas Abertas.

Em Brasília, a rotina de Dilma fica circunscrita a um raio de 15 quilômetros: trabalha no Palácio do Planalto, mora no Alvorada e passa fins de semana na Granja do Torto, uma casa de campo.

Logo cedo, a presidente passeia nos jardins do Alvorada, à margem do Lago Paranoá, entre araucárias e sibipurunas plantadas por Yoichi Aikawa, jardineiro do imperador japonês Hirohito, que doou o projeto paisagístico há mais de meio século. Caminha sobre um tapete vegetal três vezes maior que o Maracanã, com sutil variação de tons de verde derivada das gramas Esmeralda (Zoysia japonica), Batatais (Paspalum notatum) e São Carlos (Axonupus compressus). A irrigação e a jardinagem consomem R$ 4 milhões anuais.

Os prédios da Presidência abrigam multidões de servidores públicos, assessores contratados e a mão de obra alugada de secretárias, telefonistas, vigilantes, faxineiros e garçons, entre outros. Os serviços de manutenção somam R$ 220 milhões por ano.

Vigilância e limpeza custam R$ 5,7 milhões anuais. Nas portarias, há um batalhão de vigias. Representam uma fração (R$ 1,5 milhão) de uma das maiores despesas do setor público: R$ 3 bilhões ao ano em policiamento privado, com elevada concentração em quatro grupos (Confederal, TBI, Albatroz e Santa Helena Vigilância). Ano passado, esse tipo de gasto superou os investimentos realizados por um conjunto de 33 órgãos, incluídos os ministérios do Esporte, das Comunicações e da Cultura.

Há despesas mais prosaicas, como R$ 9,7 mil para quatro camareiras que lavam as roupas do vice-presidente Michel Temer, sob compromisso de “sigilo de informações”. E R$ 7,8 mil para tratamento semanal da piscina do Palácio do Jaburu, onde Temer mora.

Recorrentes mudanças administrativas, produto da instabilidade nas relações da presidente com aliados, levaram à contratação permanente (por R$ 1milhão por ano) de empresa especializada na montagem e desmontagem de paredes divisórias no Planalto.

Cada despesa nova leva uma justificativa pomposa. Exemplo: os R$ 39 mil pagos para encerar o piso de mármore do Planalto têm “o objetivo de manter a nobreza dos ambientes por onde circulam autoridades”, diz o contrato.

O esmero burocrático se reflete na mesa do poder, com espaço para opções individuais, como a escolha do chefe de cozinha. Nem sempre dá certo. No governo Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, um sargento da Marinha foi enviado a Paris com a missão de aprender a cozinhar. Voltou, agradeceu e partiu para a aventura de um negócio próprio.

Nas 28 copas, a prestação de serviços custa R$ 7,4 milhões. Por elas circulam 88 garçons, sempre em camisa branca, calça, paletó de dois botões e cinco bolsos, gravata-borboleta e sapatos pretos. Há 58 copeiras em calças sem pregas, blusa de mangas três-quartos, em microcrepon (do tipo anarruga), sob avental xadrez preto e branco, com viés nas laterais. Os uniformes são exigência contratual.

A intensidade do movimento entre copa e cozinha varia conforme a predileção do governante por festas e homenagens. O governo Dilma foi de comemorações no primeiro mandato: gastou-se R$ 302,7 milhões, 40% mais que Lula em oito anos. Em 2014, foram R$ 77,3 milhões, média de R$ 213 mil por cada dia do calendário da reeleição.

Luxo e fartura ambientam as cozinhas dos palácios. Paga-se R$ 9 mil por banho restaurador dos utensílios em prata 925 (esterlina, com 92,5% de pureza). Os gastos com alimentação no Planalto somam R$ 16 milhões anuais.

Desse total, uma fatia de R$ 1,3 milhão fica reservada para prover a despensa, os cardápios sob encomenda e a adega da presidente, com capacidade para 2.000 garrafas. Quase tudo é mantido em segredo. Aos curiosos, a presidência acena com um decreto (nº 7.724) assinado pela própria Dilma, em 2012, onde se lê: “As informações que puderem colocar em risco a segurança do presidente da República, vice-presidente e seus cônjuges e filhos ficarão sob sigilo até o término do mandato em exercício ou do último mandato, em caso de reeleição.”

Como nem os donos de segredos de Estado conseguem guardá-los, sabe-se que um dos mais caros cardápios é mantido à margem da contabilidade rotineira de copa e cozinha palaciana: custa R$ 2 milhões anuais o serviço de comida a bordo do avião presidencial.

Já foi mais. Em 2006, Lula chegou a gastar R$ 3,7 milhões — mais que a conta dos cinco mil telefones da presidência naquele ano. Ele instituiu um padrão em voos, preservado por Dilma, com variedade de carnes (coelho assado, costeleta de cordeiro, rã, pato, picanha e peixe). O café da manhã a bordo custa R$ 58,60; a bandeja de frutas, R$ 102; cada canapé de caviar sai a R$ 7; camarão ou salmão defumado, a R$ 4,60.

Em viagens ao exterior, Dilma prefere hotéis às residências oficiais nas embaixadas brasileiras. Em junho, passou três dias numa suíte do St. Regis, em Nova York, decorada por joalheiros da Tiffany. Depois, passou um dia em São Francisco, Califórnia, no hotel Fairmont, cuja suíte principal tem um mapa estelar em folhas de ouro contra um céu de safira. O custo médio das diárias nos EUA foi de R$ 36 mil.

Para servi-la e à comitiva foram contratados 19 limusines, 15 motoristas, dois ônibus e um caminhão para transportar bagagens. Custou R$ 360 mil (o pagamento atrasou dois meses).

Em Atenas, na Grécia, em 2011, a presidente gastou R$ 244 mil numa “escala técnica" de 24 horas — mais de R$ 10 mil por hora.

oglobo.globo.com | 18-10-2015

RIO — Além de emoldurar o rosto e representar um forte traço de apresentação do indivíduo, o cabelo sempre foi carregado de simbolismos, antes mesmo de ser associado à beleza.

Na Grécia Antiga, quando surgiram os primeiros salões e barbearias da História, as melenas representavam força para os homens e se constituíram como símbolo de poder e sedução para as mulheres. Nessa época, diferentes técnicas para alterar a forma, a cor e a textura dos cabelos foram desenvolvidas, e os cortes se firmaram como expressão de personalidade.

Hoje, atitude e praticidade permeiam a escolha do estilo que cada um adota para os cabelos, porém, mais do que os modismos que pululam por aí, o bom senso deve ser o verdadeiro guia na hora de dizer àquele cabeleireiro de confiança: “Vou querer assim”.

Por isso, O GLOBO-Zona Sul consultou profissionais de salões renomados para descobrir quais cortes farão a cabeça das mulheres na estação que acaba de desabrochar — e que, ao que tudo indica, abrirá caminho para dias cada vez mais quentes. Não por acaso, as indicações de todos levam em conta a versatilidade e o frescor; afinal, o calorão pede cuidado redobrado com a saúde dos fios e do couro cabeludo.

Dentro dessa proposta, o cabeleireiro Cássio Lucas, do FT Studio, no Leblon, aposta no chamado corte bordado, que, além de charmoso, é funcional.

— É o ideal para quem não gosta de cortar cabelo — conta. — Geralmente, a pessoa que levou meses deixando o cabelo crescer acaba ficando com fios arrepiados e cheios de pontas duplas. Então vamos aparando delicadamente mecha por mecha, com o cuidado de eliminar todo esse aspecto espetadinho desde a raiz. É quase que um polimento, e ressalta o estilo do cabelo sem comprometer seu comprimento — explica ele, que demonstrou a técnica na blogueira Juliana Bonadiman.

Segundo Lucas, o bordado será o corte-sensação dos próximos meses.

— Os dias ensolarados inspiram sensualidade. Esse corte valoriza o balanço dos fios, dá um efeito bem “musa tropical” — destaca.

UM AR DESPOJADO

Contra a “ditadura dos cabelos alisados”, Caetano Gusmão, do Care, em Ipanema, sugere um cabelo médio-quase-curto, com ondulações suaves ou marcantes, que provocam um ar de despojamento.

— Desaconselho escova progressiva, acho que as mulheres precisam se libertar de tratamentos que castigam os fios em nome de um efeito liso a todo custo — pontua. — Sou partidário dos cabelos naturais, mas é um natural arrumado e tratado. Minha dica de ouro é um corte desestruturado, com efeito bagunçadinho, que fica muito fácil de cuidar e é a cara da primavera-verão — define.

De acordo com Gusmão, o estilo pode ser aplicado em cabelos lisos, crespos e cacheados.

— No caso do cabelo crespo, costumo dar uma desfiada extra para ativar o movimento — diz.

Outro xodó do hairstylist é um corte atemporal que ele batizou de “picadão à moda”.

— É um repicado abaixo do ombro, que não vai sair de moda nunca. É perfeito para quem quer manter o cabelo longo, ganhar volume na medida certa e ficar com aparência mais sexy. É um dos que mais saem, já que brasileira adora um cabelão — afirma.

No entanto, o especialista identifica entre suas clientes uma maior abertura para os cortes curtos.

— Acho que as mulheres vêm ficando mais corajosas para ousar e apostar na beleza dos cabelos além da dupla longo e liso — observa.

Neste caso, Gusmão indica um corte chanel com movimento:

— É um curtinho que não fica careta. Não é aquele coladíssimo no rosto, tem um desfiado.

ONDAS PARA QUE TE QUERO

Uma modalidade que foge ao padrão longo e também está em alta é o wob bob, uma versão wavy (ondulada) para o bob, corte médio que caiu nas graças de famosas como Beyoncé e Marina Ruy Barbosa nas últimas temporadas e que tem a it-girl Alexa Chung como representante absoluta. Na opinião do cabeleireiro Luiz Paulo Viana, do Werner Coiffeur Galeria Ipanema, o estilo é perfeito para enfrentar as altas temperaturas com elegância.

— É um corte em degradê com ângulos de 45º, que deixam a nuca à mostra. Quem ainda tem resistência com cabelo curto acaba se adaptando fácil, pois as pontas ficam ligeiramente mais compridas na frente — resume. — Um complemento bacana são luzes discretas em tom mel nas pontas, para acender o visual.

Mas, acima de tudo, a palavra de ordem do wob bob é praticidade.

— Ele é muito fácil de escovar, e o efeito dos repicados nas laterais fica bem acentuado. Para quem tem cabelos crespos, aconselho usar um leave-in ativador de cachos para modelar os fios e deixar a estrutura do corte bem evidente — finaliza.

SALÕES USAM DIFERENTES TÉCNICAS

À frente do Peluqueria, em Copacabana, Milton Perdigão corta os cabelos das clientes com máquina de barbear. A técnica, que segundo ele chega a assustar alguns (“Arregalam os olhos achando que vou raspar tudo”, diz, aos risos) é, na verdade, um grande trunfo para realizar o corte com mais agilidade e dar às madeixas um toque moderno.

— O efeito desfiado fica muito mais preciso — explica, acrescentando que é puro mito a história de que a máquina engrossa os fios.

Perdigão acredita que os próximos meses serão o auge para os cortes médios e os mais naturais possíveis, isto é, sem químicas alisadoras. Mas ele tem uma posição ponderada em relação a lançar tendências:

— Cabeleireiro não pode ser ditador. As pessoas acabam muito influenciadas pelos cortes de beldades da TV, mas o grande barato é usar algo que realmente combine com você. Não adianta pedir um cabelo superdescolado se você não sente que banca aquele visual. O corte precisa estar adequado ao estilo de cada um, com autenticidade.

ALFAIATE DE CABELO

Na visão de Neandro Ferreira, do TP Beauty Lounge, no Leblon, cortar cabelo é como uma arte:

— Hoje, o profissional é quase um alfaiate de cabelo. Vai esculpindo o corte de acordo com o tipo do rosto e até do corpo.

A aposta dele é o corte que ele apelidou apenas de versátil, com pegada mais andrógina.

— É uma releitura de um estilo que surgiu nos anos 60 com Mia Farrow, dentro do movimento minimalista. Ele é um pouco mais comprido, mas é superprático: é lavar a cabeça e ir para a rua — diz Ferreira. — E ainda é unissex. Acho que não temos mais essa coisa de cabelo de menino ou de menina, vivemos um momento de desconstrução dos gêneros, e isso chegou aos salões de beleza também.

oglobo.globo.com | 24-09-2015

LONDRES — Esta é uma era de violência no Oriente Médio e no norte da África, com nove guerras civis em curso em países islâmicos entre o Paquistão e a Nigéria. É por isso que tantas pessoas estão fugindo para salvar suas vidas. Metade das 23 milhões de pessoas da Síria foi forçada a deixar suas casas, com quatro milhões de pessoas tendo se refugiado em outros países.

Cerca de 2,6 milhões de iraquianos se deslocaram por conta das ofensivas do Estado Islâmico (EI) no último ano e ocupam tendas ou prédios nunca terminados. Despercebidos pelo resto do mundo, cerca de 1,5 milhão de pessoas deixaram o Sudão do Sul desde que os conflitos no país foram retomados no final de 2013.

Outras partes do mundo, especialmente o sudeste asiático, se tornaram mais pacíficas nos últimos 50 anos. Mas, na vasta faixa de território entre as montanhas do Hindu Kush e a região oeste do Saara, conflitos religiosos, étnicos e separatistas dilaceram países. Em todo lugar, nações estão entrando em colapso, se enfraquecendo ou sob ataque; e, em muitos destes lugares, insurgências sunitas extremistas estão crescendo e usando o terror contra a população para provocar fugas em massa.

Outra característica destas guerras é que nenhuma delas demonstra nenhum sinal de fim e, então, as pessoas não podem voltar às suas casas. A maioria dos refugiados sírios que partiram para a Turquia, para o Líbano e para a Jordânia em 2011 e 2012 acreditava que a guerra na Síria terminaria em breve e, então, eles poderiam voltar ao país. Foi apenas nos últimos anos que eles perceberam que isso não iria acontecer e que eles deveriam procurar refúgio em outro lugar. A extensão destas guerras significa a imensa e irreversível destruição de todas as formas de trabalho e, então, os refugiados, que a princípio só buscavam segurança, também são atraídos pela necessidade econômica.

Estas guerras estão sendo travadas no Afeganistão, no Iraque, na Síria, no sudeste da Turquia, no Iêmen, na Líbia, na Somália, no Sudão e no nordeste da Nigéria. Algumas delas começaram há muito tempo, como é o caso da Somália, onde o Estado entrou em colapso em 1991 e nunca foi completamente reconstruído. Chefes militares, jihadistas extremistas, partidos rivais e soldados estrangeiros controlam diferentes partes do país.

Mas a maioria destas guerras começou depois de 2001 e muitas só depois de 2011. A guerra civil no Iêmen só ganhou forma no último ano, enquanto a guerra civil entre turcos e curdos, que matou 40 mil pessoas desde 1984, foi retomada com ataques aéreos e de guerrilha. E está crescendo rapidamente: um caminhão de soldados turcos foi explodido no fim de semana por guerrilheiros do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK).

Quando a Somália desmoronou, processo que uma intervenção militar dos EUA não conseguiu reverter entre 1992 e 1994, este parecia um evento marginal, insignificante para o resto do mundo. O país se tornou um "estado falido", frase usada em termos compassivos ou desdenhosos enquanto a Somália se tornava um reino de piratas, seqüestradores e terroristas da al-Qaeda.

Mas o resto do mundo deveria olhar para tais estados falidos com medo e com angústia, já que são estes lugares — a exemplo do Afeganistão nos anos 1990 e do Iraque desde 2003 — que incubaram movimentos como o Talibã, a al-Qaeda e o Estado Islâmico. Todos os três combinam crenças religiosas fanáticas e competências militares. A Somália, um dia, pode ter aparentado ser um caso excepcional, mas a "somalianisação" acabou sendo o destino de uma série de países, em especial a Líbia, o Iraque e a Síria, onde até pouco tempo atrás as pessoas tinham alimentos, educação e atendimento de saúde.

Todas as guerras são perigosas e as guerras civis sempre foram notoriamente impiedosas. Os conflitos religiosos são os piores de todos. É o que está acontecendo com o Oriente Médio e o Norte da África, com o EI — e clones da al-Qaeda, como os grupos Jabhat al-Nusra e Ahrar al-Sham na Síria — matando ritualmente seus oponentes e justificando suas ações ao apontar o bombardeamento indiscriminado de áreas civis pelo governo de Assad.

O que é um pouco diferente nestas guerras é que o EI deliberadamente divulga suas atrocidades contra qualquer um a quem considere seu inimigo. Isso significa que as pessoas arrebatadas nestes conflitos, particularmente depois da declaração do EI em junho do ano passado, sofrem com uma carga adicional de medo, o que aumenta as chances de eles fugirem e não voltarem mais. A realidade é a mesma para professores da Universidade de Mosul, no Iraque, e para aldeões da Nigéria, de Camarões ou do Mali. Sem causar surpresa, os avanços do EI no Iraque produziram grandes ondas de refugiados, que sabem o que vai acontecer se eles não fugirem.

No Iraque e na Síria, estamos de volta a um período de drásticas mudanças demográficas na região, como nunca vistas desde que os palestinos foram expulsos ou forçados a fugir pelos isralenses em 1948 ou desde que os cristãos foram exterminados ou expulsos do que é hoje a Turquia moderna na década que seguiu o ano de 1914. Sociedades multi-confessionais no Iraque e na Síria estão se dilacerando com terríveis consequências. Poderes estrangeiros não sabiam ou não se importavam com quais demônios sectários eles estavam colocando à solta nestes países com a quebra do antigo status quo.

O ex-conselheiro de segurança do governo iraquiano, Mowaffaq al-Rubaie, costumava dizer aos líderes políticos americanos, que não hesitavam em sugerir que os problemas comunitários do Iraque poderiam ser resolvidos com a divisão do país, que era necessário entender o quão sangrento este processo seria. Inevitavelmente, haveria massacres e fugas em massa "semelhantes à partilha da Índia em 1947".

Por que tantos destes Estados estão desmoronando agora e criando grandes fluxos de refugiados? Quais falhas internas ou pressões externas insustentáveis eles têm em comum? A maioria deles alcançou a auto-determinação quando as potências imperiais se retiraram depois da Segunda Guerra Mundial. Até o final dos anos 1960 e o início dos anos 1970, eles eram governados por líderes militares que dirigiam estados totalitários. Seus monopólios de poder e riqueza eram justificados pela suposta necessidade de estabelecer a ordem pública, modernizar seus países, ganhar controle dos recursos naturais e resistir às pressões étnicas e sectárias que cresciam a cada nova fissura.

Estes eram geralmente regimes socialistas e nacionalistas de perspectivas seculares. Como as justificativas para o autoritarismo eram normalmente hipócritas, cheias de interesses e mascaravam a corrupção generalizada pela elite dominante, frequentemente era esquecido que países como Iraque, Síria e Líbia tinham governos centrais poderosos por um motivo — e poderiam se desintegrar sem estes regimes.

Estes regimes foram se enfraquecendo e entrando em colapso ao longo do Oriente Médio e do Norte da África. O nacionalismo e o socialismo não oferecem mais a coesão ideológica para manter estados seculares unidos ou para motivar pessoas a lutar por eles até a última bala, como fazem os fiéis pela imagem fanática e violenta do Islã sunita defendida pelo EI, pelo Jabhat al-Nusra e pelo Ahrar al-Sham. Autoridades iraquianas admitem que uma das razões para que o exército iraquiano tenha se desintegrado em 2014 e nunca tenha se reconstituído por completo é que "pouquíssimos iraquianos estão preparados para morrer pelo Iraque."

Grupos sectários como o EI deliberadamente cometem atrocidades contra xiitas e outros na certeza de que isso vai provocar retaliações contra os sunitas, que vão ficar sem alternativa além de olhar para o EI como seu defensor. O incentivo ao ódio comum é um trabalho a favor do EI e infecta países como o Iêmen, onde antes existia pouca consciência da divisão sectária, apesar de um terço da população de 25 milhões pertencer aos xiitas da vertente zaydi.

A probabilidade de uma fuga em massa aumenta ainda mais. No início deste ano, quando corriam rumores de que um ataque do Exército Iraquiano e da milícia xiita tinha o objetivo de recapturar a cidade sunita de Mosul, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Alto Comissariado da ONU para Refugiados (ACNUR) começaram a reunir alimentos para mais um milhão de pessoas que poderiam vir a deixar suas casas.

Os europeus ficaram abalados com as imagens do pequeno Alyan Kurdi afogado em uma praia da Turquia e dos famintos sírios que abarrotavam trens húngaros. Mas, no Oriente Médio, a nova diáspora miserável dos impotentes e despropriados esteve evidente nos últimos três ou quatro anos. Em maio, eu estava prestes a atravessar o Rio Tigre entre a Síria e o Iraque em um barco com uma mulher curda e sua família, quando eles foram obrigadas a descer porque uma letra do seu nome estava errada na sua licença.

— Mas eu estou esperando há três dias com a minha família na margem do rio! — ela gritou em desespero. Eu estava a caminho de Erbil, a capital do Curdistão, que até um ano atrás aspirava ser "a nova Dubai" mas, agora, está repleta de refugiados amontoados em hotéis, shoppings e bairros de luxo nunca inteiramente construídos.

O que pode ser feito para interromper estes horrores? Talvez a primeira questão seja como nós podemos prevenir que eles fiquem piores, mantendo em mente que cinco destas nove guerras começaram em 2011. Existe um risco de que, ao atribuir fugas em massa a muitas causas diversas, como as mudanças climáticas, os líderes políticos responsáveis por estes desastres fiquem livres da pressão pública para agir de forma eficaz e pôr um fim aos mesmos.

A atual crise de refugiados na Europa é, em grande parte, o primeiro real impacto da guerra civil da Síria no continente. É verdade que a ausência de segurança na Líbia levou o país a ser hoje o caminho para os países partidos e empobrecidos pela guerra nas proximidades do Saara. Foi pela costa de 1770 quilômetros da Líbia que 114 mil refugiados percorreram seu caminho até a Itália neste ano, sem contar as milhares de pessoas que se afogaram no percurso. E, por pior que seja, a situação não é tão diferente do ano passado, quando 112 mil pessoas usaram esta rota até a Itália.

Muito diferente é a guerra na Síria e no Iraque, que elevou o número de pessoas tentando chegar à Grécia pelo mar de 45 mil a 239 mil no mesmo período. Por três décadas, o Afeganistão produziu grande número de refugiados, de acordo com o ACNUR; mas, no último ano, a Síria tomou seu lugar. Hoje, um novo refugiado a cada quatro no mundo é sírio. Uma sociedade inteira foi destruída e o resto do mundo fez muito pouco para impedir que isso acontecesse. Apesar da recente enxurrada de atividades diplomáticas, nenhum dos atores da crise da Síria mostra urgência para tentar terminá-la.

A Síria e o Iraque estão no coração da atual crise de refugiados de outra forma, já que é lá que o EI e grupos semelhantes à al-Qaeda controlam territórios significativos e são capazes de espalhar o veneno sectorial para o resto do mundo islâmico. Eles estimulam gangues de assassinos que operam, em grande parte, da mesma forma, quer estejam na Nigéria, no Paquistão, no Iêmen ou na Síria.

As fugas em massa vão acontecer enquanto a guerra na Síria e no Iraque continuar.

* do Independent

oglobo.globo.com | 14-09-2015

LONDRES - O hábito de tirar cochilos após o almoço está associado a uma redução na pressão arterial e na prescrição de medicamentos anti-hipertensivos, de acordo com uma pesquisa apresentada no sábado no Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia pelo doutor Manolis Kallistratos, cardiologista do Hospital Geral Asklepieion Voula, em Atenas, na Grécia. Links sono

— Embora William Blake afirme que é melhor pensar de manhã, agir ao meio-dia, comer no fim do dia e dormir à noite, um chocilo ao meio-dia parece ter efeitos benéficos — disse o doutor Kallistratos.

— Dois primeiros-ministros britânicos influentes eram adeptos da sesta do meio-dia. Winston Churchill dizia que devemos dormir em algum momento entre o almoço e o jantar. Já Margaret Thatcher não queria ser incomodada por volta das 15h. De acordo com o nosso estudo, eles estavam certos. Sonecas no meio do dia parecem diminuir os níveis de pressão arterial e, provavelmente, também pode diminuir a necessidade de medicamentos anti-hipertensivos.

A finalidade do estudo foi avaliar o efeito do cochilo da tarde na pressão arterial em pessoas hipertensas. O estudo analisou 386 pacientes (200 homens e 186 mulheres) com hipertensão e idade média de 61,4. Os seguintes testes foram realizados em todos os pacientes: o tempo da sesta (em minutos); a pressão arterial dos pacientes durante o expediente; a pressão arterial em um dia normal, medida durante 24 horas; a velocidade da onda de pulso arterial; estilo de vida; índice de massa corporal (IMC); e uma avaliação completa ecocardiográfica, incluindo o tamanho do átrio esquerdo.

— O cochilo de meio-dia é um privilégio hoje em dia, devido a uma cultura de trabalho das 9h às 17h e a uma rotina intensa. No entanto, a verdadeira questão em relação a este hábito é: ele é apenas um costume ou é também benéfico? — questionou Kallistratos.

Após ajustarem os dados levando em consideração fatores que poderiam influenciar a pressão arterial — como idade, sexo, IMC, tabagismo, sal, álcool, exercícios e café —, os pesquisadores descobriram que os pacientes que fazem sesta têm, em média, uma pressão arterial sistólica 5% mais baixa, em comparação com pacientes que não dormem de tarde. A pressão sistólica média apresentada por esses pacientes foi 4% menor quando eles estavam acordados e 6% menor enquanto dormiam à noite.

— Embora a diminuição média da pressão pareça pequena, vale mencionar que reduções muito menores na pressão arterial sistólica já podem reduzir o risco de problemas cardiovasculares em até 10% — comentou Kallistratos.

Os pesquisadores também descobriram que, em quem dorme durante a tarde, a velocidade da onda de pulso arterial é 11% mais baixa, e o diâmetro do átrio esquerdo é 5% menor.

— Estes resultados sugerem que quem faz a sesta apresenta menos danos causados pela pressão arterial elevada em suas artérias e coração — afirmou Kallistratos.

A duração do cochilo também está associada com o ônus da hipertensão arterial.

— O estudo mostrou que não só é a sesta que está associada com uma pressão arterial mais baixa. Tirar cochilos mais longos é ainda mais benéfico. Quem dorme de tarde tem uma maior queda na pressão arterial durante o sono à noite, o que está associado a melhores resultados de saúde. Nós também descobrimos que os pacientes hipertensos que dormem de tarde tomam menos medicamentos anti-hipertensivos, em comparação com aqueles que não dormem — apontou o médico. — Descobrimos que a sesta está associada com menor pressão durante o dia, menor pressão de noite e menos danos às artérias e ao coração. Quanto mais tempo dura o repouso, mais baixos são os níveis de pressão arterial sistólica e, provavelmente, menos medicamentos são necessários para reduzir a pressão arterial.

oglobo.globo.com | 31-08-2015

CAMPOS DO JORDÃO (SP) — O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, acredita que foram fatores não econômicos estão prejudicando a retomada da atividade econômica, uma vez que aumentam o nível de incerteza. Para ele, não foi o ajuste fiscal que contribuiu para a queda de 1,9% do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre do ano.

— Nos próximos meses, alguns setores já devem estar ma

is fortes. Se não tivesse fatores não econômicos, provavelmente a gente já estaria vendo essa retomada, depois de seis oito meses das primeiras medidas que tomamos. (...) O PIB caiu pelo ajuste fiscal? Não. Caiu por outras razões, pela incerteza — disse ele, durante o 7º Congresso Internacional dos Mercados Financeiros e de Capitais, acrescentando que não acredita que o Brasil irá enfrentar dois anos seguidos de recessão.

LevyPelo contrário, ele afirmou que parte das medidas do ajuste da economia já estão surtindo efeito, como a melhora nas contas externas, e que isso irá se intensificar nos próximos meses. O ministro acredita que isso ficará claro quando as empresas começarem a recompor os estoques, o que pode levar a uma substituição de bens importados, agora mais caros por causa do dólar, por opções nacionais.

Em relação ao curto prazo, ele defendeu que o equilíbrio fiscal é um desafio e que tem que ser feito. Também criticou as “apostas” relação a quando o Brasil irá perder o grau de investimento.

— Tem gente que fica fica olhando a cartelinha para apostar quando vai perder o grau de investimento. O que e isso? Está falando do Brasil, do nosso país. A gente sabe das consequências de vir a perder esse grau de investimentos. Vão se consequências duras para toda a população, mas tem quem fique aí fazendo bingozinho. Essa não pode ser a nossa cabeça. A gente sabe o que tem que fazer (para evitar isso) — afirmou.

O ministro não descarta a necessidade e elevação de impostos para que se chegue a esse equilíbrio fiscal. Como exemplo, citou o caso da Grécia, que por muito tempo resistiu a fazer isso, mas que teve que ceder e adotar um pacote não só de austeridade, mas também de elevação dos tributos. Também acredita que setores que possuem elevados gastos, como o da saúde, precisam passar por um processo de melhor eficiência.

— A CPMF se pudesse ser uma fonte estável para a saúde por alguns anos pode ser bom — disse.

O ministro defende ainda que a reforma do PIS/Cofins seja já aprovada em 2015, para que as empresas já tenham um cenário tributário mais simplificado em 2016, o que contribuiria também para a retomada da economia.

*A repórter viajou a convite da BM&FBovespa

oglobo.globo.com | 29-08-2015

BRASÍLIA - Em meio a uma profunda crise de popularidade e o risco de ver o Brasil perder o grau de investimento, a presidente Dilma Rousseff não poderia estar mais contente com a visita da chanceler federal alemã, Angela Merkel. A presença de Merkel é considerada pelo governo como mais do que um gesto de confiança na política e na economia brasileira. A avaliação é que a vinda da chanceler, acompanhada de mais da metade de seu gabinete, é sinal de prestígio.

— A chanceler Angela Merkel dedicará dois dias em uma visita apenas ao Brasil, sem outros países sul-americanos como destinos, e em meio a uma rebelião do seu partido no Parlamento alemão, por causa do pacote de ajuda à Grécia. Isso é mais do que prestígio — comentou uma fonte ligada à Presidência da República.

Na manhã desta quinta-feira, Dilma e Merkel lançam um mecanismo de consulta de alto nível, usado pela Alemanha com alguns países: França, Espanha, Itália, Polônia, Holanda, Estados Unidos, China, Israel, Índia e — até antes das sanções aplicadas a Moscou, devido à questão da Ucrânia — Rússia. As reuniões bilaterais passarão a ocorrer a cada dois anos.

A expectativa é que Merkel em Brasília signifique mais investimentos no Programa de Infraestrutura em Logística (PIL), traga mais cooperação na produção de energia de fontes renováveis e ainda ajude a dar um empurrão na demorada negociação entre Mercosul e União Europeia para a criação de uma zona de livre comércio entre os dois blocos. Para a área diplomática do governo brasileiro, os negociadores europeus estão mais preocupados em fechar a negociação de um tratado semelhante com os EUA.

Além de um jantar de trabalho no Palácio do Alvorada, na noite desta quarta-feira, Merkel e Dilma vão se reunir hoje no Palácio do Planalto, a partir das 10h, já com cerca de 15 atos assinados em reuniões simultâneas, logo cedo, entre ministros alemães e brasileiros. Entre os documentos a serem firmados, estão declarações conjuntas sobre aquecimento global, energia, educação, ciência e tecnologia, defesa e saúde.

PARCEIRO COMERCIAL NA EUROPA

A Alemanha é o principal parceiro comercial do Brasil na Europa e o quarto no mundo, com fluxo em torno de US$ 20 bilhões por ano. Há cerca de 1.600 empresas alemãs no território brasileiro — o maior parque industrial fora daquele país — entre elas, BMW, Mercedes-Benz e Volkswagen.

Roberto Abdenur, ex-embaixador do Brasil na Alemanha, acredita que, além de temas econômicos, Merkel debaterá com Dilma sobre temas globais, como mudança climática e adoção de energias limpas, especialmente eólica e solar; e sobre a reforma do Conselho de Segurança da ONU. Brasil e Alemanha são candidatos a vagas permanentes no organismo.

oglobo.globo.com | 20-08-2015
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